<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0873-6561</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Etnográfica]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Etnográfica]]></abbrev-journal-title>
<issn>0873-6561</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Centro em Rede de Investigação em Antropologia - CRIA]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0873-65612009000200012</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Da arte popular às culturas populares híbridas]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Leal]]></surname>
<given-names><![CDATA[João]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,UNL - Universidade Nova de Lisboa FCSH - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas CRIA - Centro em Rede de Investigação em Antropologia]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>11</month>
<year>2009</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>11</month>
<year>2009</year>
</pub-date>
<volume>13</volume>
<numero>2</numero>
<fpage>472</fpage>
<lpage>476</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0873-65612009000200012&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0873-65612009000200012&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0873-65612009000200012&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p><b>Da arte popular às culturas populares híbridas</b> <sup>[<a href="#1">1</a>]<a name="top1"></a></sup></p>     <p>João Leal</p>     <p>FCSH-UNL, CRIA</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Gostaria e apresentar dois argumentos principais em defesa do Museu de Arte    Popular (MAP), que o presente governo, mal-avisado, decidiu encerrar. O primeiro    diz que, num quadro – como o que caracteriza a contemporaneidade – em que tudo    se tornou susceptível de patrimonialização, faz todo o sentido encarar o MAP    como um património que deve ser defendido ou, para ser mais específico, como    um museu que deve ser musealizado. O segundo argumento diz que, num quadro –    como o que caracteriza a contemporaneidade – em que as culturas populares têm    vindo a ser reformatadas a partir de ideias como a hibridez e a criatividade,    faz todo o sentido dinamizar o MAP, fazendo dele uma plataforma de diálogo com    essas novas formas da cultura popular. O primeiro argumento extrapola para o    caso do MAP ideias sobre o património defendidas por historiadores como Pierre    Nora (1984) e David Lowenthal (1998). O segundo tira consequências de debates    sobre as culturas populares pós-modernas, protagonizados por antropólogos como    Nestor García Canclini (1998) ou David Guss (2000).</p>     <p>De acordo com o primeiro argumento, tudo hoje é património. A prova de que    é assim é dada justamente pela ideia em nome da qual se quer destruir o MAP:    a constituição de um Museu da Língua (e do Mar…). A ideia, como se sabe, não    é original. É importada do Brasil e faz parte das guerras culturais em curso    acerca da propriedade da língua portuguesa. Mas não é esse o ponto que eu queria    sublinhar. A simples ideia da criação de um Museu da Língua seria impensável    há duas décadas. E se hoje é aceite com naturalidade, é porque aquilo que contemporaneamente    se entende por património ganhou uma amplitude e um eclectismo que possibilitam    que tudo – ou quase tudo – seja visto como património, ou para citar Pierre    Nora (1984), que tudo – ou quase tudo – seja visto como um lugar de memória.    Segundo Marc Augé (2006), o mundo pós-moderno e globalizado em que vivemos é    um mundo assente na multiplicação de não-lugares. Exactamente por isso – em    reacção a isso –, é também um mundo assente na multiplicação de lugares de memória,    de património, de <i>kastom</i> (como se diz no <i>pidgin English</i> da Melanésia),    de <i>heritage</i> (como se diz em inglês), de tradições (inventadas ou não).</p>     <p>O MAP é, no caso português, um desses lugares de memória. Ele é, antes do mais,    o lugar de cristalização de uma tradi-ção de estudos, de coleccionismo e de    intervenção sobre a arte popular que nasce no final do século XIX com Joaquim    de -Vasconcelos, que se prolonga na I República com Vergílio -Correia, Luís    Chaves ou Leite de -Vasconcelos, e que culmina – mas não termina – no Estado    Novo com a actividade de António Ferro no SPN/SNI. Crítica, a    esquerda posicionou-se também nesta área, propondo – por exemplo com Ernesto    de Sousa – uma arte popular alternativa, apoiada na chamada <i>outsider art</i>.    Esta importância -atribuída à arte popular não é especificamente portuguesa    e nada tem de provinciano: em toda a Europa, no mesmo período, era esse o espírito    do tempo; à direita e à esquerda. As artes populares eram vistas – a par de    elementos mais prosai-cos como a bandeira e o hino ou de elementos mais sofisticados    como mitos de origem ou ideias de um passado comum – como um dos aspectos fundamentais    do <i>kit</i> “faça você mesmo” que, segundo Orvar Löfgren (1989), é requerido    pelas identidades nacionais modernas. Ter uma arte popular – mesmo que tivesse    de ser inventada – era fundamental para que um país fosse admitido no concerto    das nações, como de resto mostram as Exposições Universais e o relevo nelas    concedido à arte popular. O MAP é um produto idiossincrático desse estado de    espírito, onde ser-se tradicional era uma pré-condição para se ser moderno,    como mostrou a pesquisa de Vera Alves (2007) sobre o SPN/SNI.</p>     <p>É desta articulação contraditória entre tradição, nacionalidade e modernidade    que nasce o MAP. Nele, o moderno e o tradicional misturam-se. O desenho do edifício    e os murais das diferentes salas são estilizações modernistas de elementos populares.    E, se os objectos que povoam as diferentes salas são tradicionais – embora não    forçosamente autênticos –, o contexto em que eles são reapresentados é moderno.    Quanto ao objectivo último do todo que era o MAP – a nacionalização do gosto    das classes médias –, não podia ser mais moderno, com também mostrou a pesquisa    de Vera Alves (2007).</p>     <p>Em condições normais, o MAP – tal como existia antes de ser encerrado – não    teria chegado até nós como chegou. Mas, por uma mistura ironicamente feliz de    incúria e de inércia, sobreviveu ao seu tempo e é hoje um testemunho – raro    na Europa – de um estado de espírito que, quer se goste quer não, participou    da formatação do gosto moderno pelo popular.</p>     <p>Nesse sentido – regressando ao meu primeiro argumento –, o MAP é um lugar de    memória. Num tempo em que tudo é património, o MAP é património e deve ser preservado.    O que estou a sugerir é que o MAP deve continuar, mas como uma espécie de metamuseu,    ou, se se quiser, como um museu de si próprio. Isso exigiria escolhas estratégicas    ao nível museográfico. Talvez nem todas as salas sejam para conservar, dada    até a sua desigual valia: a sala do Minho é única no seu valor decorativo e    documental; já as salas sobre o Sul são menos conseguidas. Sobre o que lá está    teria de ser construído um percurso expositivo que propusesse um olhar crítico    sobre o museu, que o mostrasse como o resultado cenográfico de um determinado    olhar sobre as culturas populares. Mas, independentemente dessas escolhas museográficas,    o MAP deve continuar.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ele é de resto uma peça essencial ao equilíbrio cénico desse outro lugar de    memória que é a Praça do Império, um lugar único em Portugal pela sua capacidade    para, num mesmo espaço, juntar tantas camadas contraditórias da história e da    cultura portuguesa: guerreiros lusitanos e um planetário; o estilo manuelino    e os Távoras; um jardim tropical e um museu de marinha; sonhos desfeitos de    grandeza imperial e paradas da Guarda Nacional Republicana; turistas, famílias    com crianças, arrumadores de carros e pescadores de domingo; a adesão à União    Europeia e a arte moderna; pastéis de nata e McDonald’s. E o Tejo. Sobretudo    o Tejo.</p>     <p>Os modernos – entre os quais os modernos do MAP – concebiam os seus projectos    de emblematização das culturas populares a partir da categoria da autenticidade:    o povo era aquilo, aquilo era autêntico. Claro que o povo não era necessariamente    aquilo e claro que aquilo não era necessariamente autêntico. Nesse sentido,    o MAP é um híbrido: um lugar onde se misturavam diversos tempos – o tempo supostamente    imóvel dos camponeses e o tempo moderno da construção autoritária das nações    –, diversos objectos – objectos populares “genuínos”, objectos populares encomendados,    miniaturas, ampliações, murais de artistas modernistas –, diversos grupos sociais    – o povo, etnógrafos estetas, as classes médias.</p>     <p>Esta hibridez constitutiva do MAP funcionou durante muito tempo como um -<i>handicap</i>    para o museu, acusado de privilegiar a cenografia em detrimento da exactidão    etnográfica. Não deixa de ser verdade. Mas hoje sabemos que a hibridez é a característica    fundadora de qualquer discurso sobre o popular. O popular é – literalmente –    o produto do encontro de duas culturas: a cultura que lá estava e que não sabia    que era popular e a cultura de quem chega lá e a nomeia como popular. No preciso    momento em que qualquer objecto é -discursado como popular – no preciso momento    em que alguém diz dele “isto é popular” –, esse objecto viu serem somados novos    significados aos seus significados originais, tornou-se um objecto literalmente    híbrido ao qual foi acres-centada, para citar Barbara Kirshenblatt--Gimblett    (1998), uma “segunda vida”, uma nova carreira, novos públicos, novas funções,    novas potencialidades.</p>     <p>Durante muito tempo essa capacidade de criar – sem saber – objectos híbridos    a partir das culturas populares foi um privilégio das elites letradas. Eram    elas que decidiam que objectos de arte popular – um galo de Barcelos ou uma    escultura do Franklin – mereciam figurar como objectos de colecção ou, pelo    contrário, como bibelôs de gosto duvidoso. Elas é que decidiam se a dança X    era verdadeiro folclore ou se pelo contrário a dança Y era “um falso”.</p>     <p>Mas a história da parte final do século XX é também a história da democratização    do popular. Essa história foi contada para a América Latina por autores como    García Canclini (1998) ou David Guss (2000). E é inseparável da assunção – pelos    criadores populares – da hibridez constitutiva do popular nos termos em que    García Canclini fala dela. Um popular vivido não já como “complacência melancólica    para com as tradições”, mas como um projecto criativo em que os recursos tradicionais    se misturam deliberadamente com novos formatos; um popular em que a experimentação    e a procura de novas soluções se tornou a norma; um popular onde as velhas distinções    entre tradicional e moderno, popular e erudito ou arte e artesanato são postas    de parte. Redefinidas desta forma, as culturas populares passaram a integrar    tanto projectos de experimentação artística individual como propostas alternativas    articuladas por activistas comunitários que – quando correm bem (e nem sempre    correm bem…) – operam como fonte de orgulho identitário e de prosperidade material    para as comunidades.</p>     <p>O espaço do MAP – nascido ele próprio de uma concepção <i>malgré soi</i> híbrida    da cultura popular – é também o espaço ideal para essas novas culturas populares.    Este é o meu segundo argumento: museu de si próprio, o MAP pode também tornar-se    uma plataforma contemporânea de diálogo com essas novas formas da cultura popular.    Sendo um lugar de memória, o MAP pode ser simultaneamente um lugar de futuro.    Não se trata só de musealizar parte do que lá está, trata-se de pôr fim à total    ausência de projecto que caracterizou este museu nas últimas décadas e abri-lo    aos novos discursos sobre o popular que caracterizam a contemporaneidade. Através    de exposições temporárias, da consolidação de programas de trabalho com museus    etnográficos locais e com outros activistas culturais, através do lançamento    de oficinas e iniciativas abertas à experimentação com a matéria do popular,    o MAP poderia tornar-se um lugar de convergência e confronto entre discursos    sobre e a partir das culturas populares. A sua exposição de reabertura tanto    poderia ser uma exposição de cartazes, <i>websites</i> e <i>tee-shirts</i> de    festas de padroeiro, como um <i>“best of”</i> do novo artesanato criado à sombra    dos programas do Instituto do Emprego e Formação Profissional. Poder-se-ia pensar    em montar uma exposição em torno dos <i>graffiti </i>urbanos, que juntasse artistas    portugueses e experiências internacionais. E porque não pôr lado a lado António    DaCosta – e os seus quadros sobre as Festas do Espírito Santo nos Açores – e    os vestidos exuberantes das <i>“queens”</i> dos Holy Ghost Festivals da Califórnia?    Porque não propor a artistas e a artesãos instalações a partir de tal ou tal    tema da cultura popular? Porque não pensar num “estado da <i>art brut</i>” em    Portugal e dos seus diálogos com o imaginário popular?</p>     <p>A missão deste MAP visto como lugar de futuro seria em todo o caso libertar    as novas formas da cultura popular de visões assentes no preconceito, afirmando-as    como lugares de criatividade. Há ainda em Portugal uma solenidade na abordagem    do popular que tem dificultado a inovação e a experimentação. Mas isso só torna    mais necessária esta reorientação do MAP.</p>     <p>O Ministério da Cultura está já convertido – UNESCO <i>oblige</i> – aos méritos    do património imaterial. É pena que o Ministro da Cultura tenha ainda dificuldades    em entender que o património imaterial é tão-só a nova expressão – politicamente    correcta – para designar algumas das múltiplas formas daquilo a que costumamos    chamar cultura popular. Quando o entender, voltará certamente atrás na decisão    de acabar com um museu – o MAP – que pode ser um ponto nevrálgico na articulação    das acções a desenvolver em Portugal em torno da salvaguarda e da dinamização    do património – imaterial e material – das culturas populares.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Bibliografia</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Alves, Vera, 2007, <i>“Camponeses Estetas” no Estado Novo: Arte Popular e Nação    na Política Folclorista do Secretariado de Propaganda Nacional</i>. Lisboa,    ISCTE, tese de doutoramento.</p>     <p>Augé, Marc, 2006, <i>Não-Lugares: Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade</i>.    Lisboa, Editora 90.º</p>     <p>Canclini, Nestor García, 1998, <i>Culturas Híbridas</i>. São Paulo, EDUSP.</p>     <p>Guss, David, 2000, <i>The Festive State</i>. Berkeley, University of California    Press.</p>     <p >KIRSHENBLATT-GIMBLETT, Barbara, 1998, <i>Destination Culture</i>. Berkeley,    University of California Press.</p>     <!-- ref --><p>Löfgren, Orvar, 1989, “The Nationalisation of Culture”, <i>Ethnologia Europaea</i>,    XIX: 5-24.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000028&pid=S0873-6561200900020001200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Lowenthal, David, 1998, <i>The Heritage Crusade and the Spoils of History.</i>    Cambridge,<i> -</i>Cambridge University Press.</p>     <p>Nora, Pierre (dir.), 1984, <i>Les lieux de mémoire</i>. Paris, Gallimard.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><sup><a href="#top1">1</a><a name="1"></a></sup>  Este texto foi originalmente    publicado no jornal <i>Le Monde Diplomatique – edição portuguesa</i>, II série,    n.º&nbsp;33, Julho de 2009. Agradeço à Nélia Dias, que leu uma versão prévia    do texto, os comentários e sugestões.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[ ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Löfgren]]></surname>
<given-names><![CDATA[Orvar]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[The Nationalisation of Culture]]></article-title>
<source><![CDATA[Ethnologia Europaea]]></source>
<year>1989</year>
<volume>XIX</volume>
<page-range>5-24</page-range></nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
