<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0873-6561</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Etnográfica]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Etnográfica]]></abbrev-journal-title>
<issn>0873-6561</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Centro em Rede de Investigação em Antropologia - CRIA]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0873-65612009000200017</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="fr"><![CDATA[Le goût des autres: de l’exposition coloniale aux arts premiers]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Durand]]></surname>
<given-names><![CDATA[Jean-Yves]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,UM - Universidade do Minho CRIA - Centro em Rede de Investigação em Antropologia ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>11</month>
<year>2009</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>11</month>
<year>2009</year>
</pub-date>
<volume>13</volume>
<numero>2</numero>
<fpage>491</fpage>
<lpage>493</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0873-65612009000200017&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0873-65612009000200017&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0873-65612009000200017&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p>Benoît de l’Estoile</p>     <p><b>Le goût des autres: </b><b>de l’exposition coloniale </b><b>aux arts premiers</b></p>     <p>Paris, Flammarion, 2007, 454 páginas.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Nos últimos vinte anos, a situação dos grandes museus etnográficos franceses    alimentou acesos debates. O livro de Benoît de l’Estoile foi publicado um ano    após a inauguração, em Junho de 2006, do Musée du Quai Branly, constituído a    partir das colecções etnográficas exóticas do Musée de l’Homme. Numa língua    sempre clara, integrando referências bibliográficas cosmopolitas, estas 454    páginas notavelmente documentadas incluem úteis índices de pessoas, de temas,    de museus e exposições – uma prática que ainda não é geral na edição francesa    de ciências sociais deplora-se, em contrapartida, a ausência de uma bibliografia    recapitulativa. A partir das questões suscitadas pela elaboração do Musée du    Quay Branly (nome ocultando a polémica designação inicial de Musée des Arts    Premiers), aborda-se problemas mais amplos: o sentido dos “museus dos Outros”    no mundo pós-colonial o museu enquanto catalisador de uma antropologia do “goût    des Autres” (alusão a um filme de Agnès Jaoui centrado nas difíceis relações,    no quotidiano, entre adeptos de gostos estéticos diferentes), das “<i>nossas</i>    concepções da alteridade e das suas transformações” (p.20). É de notar que,    como o autor aliás admite, a dicotomia museu dos Outros/museu de Nós é demasiado    esquemática, como se vê com o Museu Nacional de Etnologia de Lisboa.</p>     <p>Procurando um distanciamento, a análise procede por historicização e com-paração.    A primeira parte mostra como, entre as duas guerras mundiais, três tipos de    discursos (evolucionista, diferencialista, primitivista) se entrelaçam, -nomeadamente    na Exposition Coloniale de 1931, resultando num universalismo plural consagrado    em 1937 pela inauguração do Musée de l’Homme e o “triunfo da -etnologia” enquanto    detentora da autoridade científica sobre os objectos dos Outros. O projecto    colonialista combina-se com um reconhecimento da diversidade cultural. E este    tem por corolário a valorização estética da “arte negra”. Esta forma do gosto    dos Outros e a etnografia participam de um regime diferencialista de representação    da alteridade, no qual se enraiza o Musée du Quai Branly, em continuidade com    o contexto que informou a criação do Musée de l’Homme. Mas Benoît de l’Estoile    mostra como este não soube evoluir: diluição da articulação entre antropologia    física e etnografia imobilismo resultando em óbvias divergências entre as exposições    e as -realidades que supostamente representariam e sobre as quais o público<b>    </b>se tornava cada vez mais informado. O regresso a uma estratégia de reconstituição    “realista” (que tinha sido inicialmente rejeitada) e a uma ilusão de “viagem”    indica a incapacidade de transmitir um discurso antropológico. Chega-se a um    “contra-senso anacrónico” (p.204) usado como argumento pelos promotores de uma    museografia estética.</p>     <p>O olhar alarga-se na segunda parte além do caso francês, para melhor salientar    a sua especificidade. Uma história dos museus dos Outros e uma perspectiva comparativa    mostram até que ponto a actual requalificação dos museus dos Outros em museus    das artes dos Outros ou “das culturas do mundo”, reforçada pela crise pós-colonial    da representação etnográfica, assenta naquilo a que o autor chama “mitos contemporâneos”:    as “artes primeiras” e os “povos primeiros”. Promovida por coleccionadores,    a primeira noção é uma reformulação do primitivismo. Dá a ilusão de uma ruptura    com o evolucionismo e permite conciliar uma atitude de reconhecimento dos Outros    com o prazer do amador de arte, a ética com o mercado. Supondo a existência    de uma estética universal e mesmo a-histórica, a noção permite uma abordagem    descontextualizada dos objectos, transformados em “obras”, tomados unicamente    como vectores de deleite estético. A antropologia perde o seu monopólio interpretativo    e passa a ter no museu um papel marginal, incapaz de vulgarizar a desconstrução    do essencialismo primitivista, da ideia de “povos primeiros” que teriam ficado    “autênticos”. Benoît de l’Estoile mostra como o programa arquitectónico do Musée    do Quai Branly, da autoria de Jean Nouvel, é a materialização de um “mito” hoje    muito divulgado nos discursos que aliam de maneira confusa preocupações ecológicas,    busca de uma sabedoria tradicional, defesa da diversidade cultural. O novo museu    confronta-se com o risco de ser visto como a evocação nostálgica de mundos perdidos.</p>     <p>De todas as maneiras, não pode evitar os paradoxos e as contradições hoje inerentes    a qualquer projecto etnomuseológico. A questão dos direitos de propriedade (e    de discurso) sobre os objectos e os saberes dos Outros e as suas articulações    com as implicações éticas e políticas do essencialismo estratégico já são muito    debatidas em antropologia. A partir de uma eficaz síntese do assunto (capítulo    ix), Benoît de l’Estoile prossegue com uma reflexão acerca da possível evolução    dos museus dos Outros e dos museus identitários para museus centrados nas relações    entre Nós e os Outros, recusando “a percepção em termos arqueológicos de sociedades    vivas” (p.383), feitas de processos. Especulativos, apresentando experimentações    museológicas recentes, enriquecidos por uma experiência pessoal de elaboração    de uma exposição, os últimos dois capítulos são estimulantes.</p>     <p>Como sempre sucede com uma obra inspiradora, são as suas qualidades que -salientam    os seus limites. As questões levantadas são tantas e as suas implicações tão    complexas que, apesar das advertências do autor, ciente da impossibilidade de    esgotar o assunto, o leitor só pode desejar mais. O recurso pertinente a um    caderno de imagens que sintetizam o argumento e ilustram a evolução da <i>“mise    en forme”</i> museológica implementada nos museus dos Outros faz sentir, por    exemplo, o potencial de uma análise visual do manancial iconográfico que não    foi possível reproduzir. Entre os documentos apresentados, um cartaz inspirado    numa capa de Tintim: como admite o autor, um museu é, obviamente, também sustentado    por “representações colectivas” (p.20). Como vimos, o considerável sucesso público    do Musée du Quai Branly vai muito além do “efeito arquitecto” que dá visibilidade    internacional a museus recentes (como o Guggenheim de Bilbao): a força das representações    primitivistas e essencialistas no gosto dos Outros hoje vigente tem um papel    indubitável no regresso dos parisienses ao museu etnográfico. Desde logo, será    que o eventual interesse de um largo público por uma museologia que foca os    processos e a interlocução é mais do que <i>wishful</i><i> thinking</i>? A convocação    final da fraca metáfora da tradução cultural, chavão já algo gasto, não ajuda    a ficar convencido do contrário.</p>     <p>Será preciso, também, mais etnografia para o saber. As relevantes vinhetas    que relançam constantemente a análise levam a desejar uma continuação da observação:    concluído quando o Musée do Quai Branly ainda era só uma casca vazia, o livro    não examina o seu público, nem as suas exposições temporárias. Os defensores    do novo museu insistem na necessidade de o considerar como um todo que integra    exposições permanentes e temporárias, conferências, mediateca, concertos, etc.:    um verdadeiro projecto cultural. Ao fim de alguns anos, será que a interlocução,    o diálogo intercultural, acontece? Qual é o papel do museu na mercadorização    da cultura, incluindo no mercado das artes exóticas? O que significa o facto    de ser escolhido para a organização de numerosos “eventos” de prestígio? De    um ponto de vista mais geral, onde (se é que algures) colocar agora o limite    entre museologia, intervenção cultural e espectáculo?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Pela sua riqueza informativa, a sistematização dos problemas que levanta, o    rigor do seu raciocínio, as suas propostas sugestivas, <i>Le</i> <i>Goût</i><i>    des Autres</i> constitui uma leitura indispensável para quem se vê envolvido    numa situação de patrimonialização ou se pergunta o que fazer com os museus    etnográficos, de todos os tamanhos e todos os feitios. Em Portugal também, tentativas    de resposta são urgentes.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><b>Jean-Yves Durand</b></p>     <p align="right">CRIA-UM</p>      ]]></body>
</article>
