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</front><body><![CDATA[ <P><b>Frederico Delgado Rosa</b> (FCSH-UNL)</P>     <P>&nbsp;</P>     <P>Obra recenseada: Filipe Verde, <b>O Homem Livre: Mito, Moral e Carácter Numa    Sociedade Ameríndia</b>, Coimbra, Angelus Novus, 2008, 224 páginas.</P>     <P>&nbsp;</P>     <P>É  preciso audácia para dizer algo de novo, no século XXI, sobre a sociedade e a cosmologia tradicionais dos Bororo, um dos povos mais revisitados de sempre, tanto  etnográfica como teoricamente. Filipe Verde vai mais longe, pois que se propõe  através deles “aprender coisas significativas sobre nós” (p.&nbsp;12), num implícito manifesto de devolução à  antropologia da sua ambição de ser ciência <I>do Homem</I>. Numa linguagem  desprovida de jargões, estamos perante um livro que põe em diálogo mundivisões distantes e que abala, com erudição rara,  alicerces antigos da perceção que o Ocidente tem de si  próprio e do “outro”. Conhecedor exaustivo da literatura sobre os Bororo, o autor foi ao encontro dos mesmos em 1998, numa  viagem com o seu quê de pungente, abreviada pelo vislumbre de que chegara “tarde  demais” (p.&nbsp;93). Decididamente, não era o estado  dos índios no mundo de hoje que lhe interessava, mas a sua singularidade de  outrora. O regresso ao arquivo etnográfico, na posição assumida de repensar as  observações feitas por outros, não deixou contudo de o pôr em contacto com  certos agentes de desintegração do universo tradicional Bororo, responsáveis em simultâneo por uma das mais  colossais empresas de etnografia de salvação em contexto amazónico: os  missionários salesianos. O proselitismo etnocêntrico destas figuras não as  impediu de conhecer em profundidade os índios Bororo,  ou não fosse a duração desse convívio, iniciado em 1895, incomparavelmente  superior à de qualquer antropólogo. O autor reconhece que o seu próprio  conhecimento é indissociável do legado desses homens, mas não se limita a  render-lhes homenagem. Faz-lhes também uma crítica – que se encontra no âmago  mesmo da obra. Os missionários foram os primeiros a negar sabedoria moral aos  Bororo, uma sabedoria que até hoje não lhes tinha sido  devolvida. Trata-se, convenhamos, de uma proeza antropológica, em diálogo com a  filosofia e a história.</P>     <P>O  índio, escreveu em 1919 o salesiano Antonio Colbacchini, <I>primus  inter pares</I> dos missionários-etnógrafos,“é a imagem perfeita do  homem inteiramente livre”. Esta frase inspiradora do título do livro de Filipe  Verde trazia associado, na origem, um juízo de valor sobre a ausência de coações  morais e do benéfico sentimento de culpa que os convertidos ao cristianismo  deveriam passar a experimentar no seu foro mais íntimo. Foi também Colbacchini, numa segunda monografia, o primeiro a divulgar  um mito Bororo que se tornaria por sua vez um mito da  antropologia: justamente o que Lévi-Strauss veio a  utilizar em abertura das <I>Mythologiques</I>.  Recorde-se rapidamente que conta a história de um rapaz que viola a mãe e é  descoberto pelo pai, acabando por os matar aos dois. Recorde-se também que o  mito de referência de Lévi-Strauss tem sido retomado  como tal por outros antropólogos, enquanto <I>puzzle</I> hermenêutico da  sociedade Bororo tradicional. E a verdade é que tem  perdurado a ideia da ambiguidade moral dessa história que, contra as expetativas de reforço da conduta em sociedade,  inopinadamente deixa impune o incestuoso assassino. Os esforços de  articulação entre a narrativa mitológica e a convivência humana têm justamente  pecado, argumenta Filipe Verde, pelo recurso às noções de culpa, punição,  responsabilidade e compensação, que radicam de modo inelutável na velha  genealogia moral do Ocidente. O autor fala-nos então de um desencontro de já  longa duração entre <I>nós</I> e os Bororo e luta por  um ponto de vista que inverta a questão. Em sintonia, neste aspeto, com certas transformações epistemológicas da  antropologia contemporânea, trata-se também de ultrapassar a tendência ou  tentação de explicar o social pelo social, ou o cultural pelo cultural. Em vez  de olhar nessa direção em busca de normas morais, não  será tempo de explorar o potencial ético dos impulsos da bestialidade humana?  Eis o que, segundo Filipe Verde, os Bororo fizeram à  sua maneira, para desconcerto e incompreensão dos observadores  ocidentais.</P>     <P>Seres  peludos, negros e quentes, de olhos vermelhos e pés bifurcados, os  espíritos <I>bope</I> eram a personificação  hiperbólica de todos os apetites da vida orgânica, do alimentar ao sexual, nas  suas sucessivas e violentas transformações. Ao mundo dos <I>bope</I> opunha-se, cosmologicamente falando, o dos <I>aroe</I>, espécies animais idealizadas numa dimensão  imutável e transcendente, cristalizadora do património de nomes, adereços e  cantos dos grupos Bororo. À primeira vista, a não  anarquia da vida em sociedade pouco ou nada deveria aos <I>bope</I> – cujo exemplo totalmente predatório não era  seguido pelos humanos – e muito ou tudo deveria aos <I>aroe</I>. Mas por que razão, então, o conhecimento  relativo a estes últimos era esotérico, influenciando somente a esfera ritual,  enquanto a obsessiva interferência dos primeiros nos assuntos humanos era  matéria corrente de conversa? A assimetria entre a conduta desregrada dos  <I>bope</I> e a conduta regrada dos homens não basta,  diz o autor, para camuflar a estreita relação entre uma e outra. Há algo de  <I>bope</I> em cada homem. Com uma diferença, porém,  significativa: enquanto esses espíritos tinham uma quantidade ilimitada de  <I>raka</I>, de<I> </I>sangue, de <I>élan</I> vital que lhes permitia saciar os instintos em  permanência e sem consequências, os humanos desgastavam-se até à morte na  consumação dos desejos. Nasciam no mundo dos <I>aroe </I>e a ele voltavam, mas a duração e a  qualidade da sua passagem pela terra eram determinadas pela gestão que cada qual  fazia dos seus pontos em comum com os <I>bope</I>, o  mesmo é dizer, dos seus impulsos.É neste ponto que o autor identifica no  pensamento tradicional dos Bororo uma sabedoria moral  que não passava pela punição social dos comportamentos excessivos – o que gerou  a miragem missionária de que o índio era inteiramente livre –, mas sim por uma  regulação individual dos instintos sexuais, alimentares e agonísticos. A  haver punição, ela estava contida nos próprios atos de  cada um. Em suma, não era a sociedade que normalizava os homens, mas sim os  homens que, por contenção voluntária, normalizavam a sociedade, numa combinação  feliz entre liberdade e ordem.</P>     <P>Segundo  os critérios clássicos, não se trataria de uma ética, mas o livro defende  justamente que se trata de uma filosofia moral em moldes radicalmente diferentes  dos ocidentais, porquanto assentes numa escorreita aceitação das profundezas  sombrias da natureza humana. Houve, é claro, no Ocidente, quem as aceitasse  também, com grande destaque para Freud na obra em apreço. Os Bororo poderiam quase dialogar com ele, só que nem ele pôde  fazer mais do que evidenciar a repressão das pulsões  humanas pela moral culpabilizadora em que assentava a  sua civilização – melhor dizendo, em que assentava <I>a</I> civilização, segundo  o mito totémico que o próprio criou em 1913. E quando ouviu falar em certas  regiões felizes da terra onde não havia coerção, Freud dificilmente pôde  acreditar, conforme o atesta a citação de abertura do livro. Tudo somado, a  sabedoria dos índios não tinha paralelo no universo dos seus observadores. E  assim, para exprimir essa categoria nova, que se acrescenta ao próprio  pensamento antropológico, Filipe Verde criou a fórmula “naturalismo ético”: “Ao  naturalismo junta-se o ‘ético’, na medida em que para os Bororo o conhecimento das leis da natureza, do determinismo  que faz com que cada ato de realização do prazer seja compreendido como um passo  em direção à morte, é o quadro por referência ao qual  é compreendida, se não a necessidade, pelo menos o caráter conveniente da aceitação e autoimposição de uma limitação da busca de satisfação dos  impulsos da natureza – pelo qual se restringe o prazer em função de uma vontade  de viver” (p.&nbsp;205).</P>     <P>Esta  leitura, no mínimo surpreendente, não fica fechada no contexto ameríndio e  contribui para uma reapreciação da história e da própria existência humana. A  encerrar o livro, dando mostras de um gabarito humanístico pouco frequente, o  autor traz para o debate antropológico a reflexão crítica dos helenistas da  atualidade sobre a moral grega – em particular Bernard  Williams – que vêm rejeitando a tese segundo a qual a noção de pessoa foi um  produto idiossincrásico do Ocidente, na transição platónica e cristã da  cultura da vergonha para a cultura da culpa. Defende-se hoje que o julgamento de  si próprio existia na Grécia homérica independentemente da reprovação coletiva; não por imperativo categórico, mas por gestão da  felicidade do sujeito. Tal como na Amazónia, tratava-se de uma sabedoria  moral sem culpa e, ao mesmo tempo, de uma sabedoria individual. A menoridade  ética que durante muito tempo foi atribuída aos Gregos arcaicos é no fundo  equiparável à menoridade ética que os missionários – e os próprios antropólogos,  enquanto herdeiros inconfessados da civilização da culpa –  atribuíram aos Bororo. O que os índios nos ensinam,  diz Filipe Verde, é “algo de semelhante ao que, mais uma vez, os gregos nos  mostraram mas nós não fomos tantas vezes historicamente capazes de assimilar”  (p.&nbsp;207): que o <I>homem livre</I> não é o homem  sem moral, mas aquele cuja moral não é uma coisa em si  mesma.</P>     <P>Dizer algo de novo sobre os Bororo do passado é, <I>ipso facto</I>, reivindicar    para a antropologia uma lógica de não rotura com o seu objeto clássico. E quando    o resultado é incontornável, como sucede com a obra de Filipe Verde, a comunidade    antropológica é levada a refletir sobre a coabitação saudável (e pacífica) de    sensibilidades dominantes e de sensibilidades marginais. No prefácio do seu    livro, e procurando chegar a um público leigo mais vasto, o autor afirma que    o mesmo “não tem por leitores ideais antropólogos” e que “procura falar o mínimo    indispensável sobre Antropologia” (p.&nbsp;12). Cabe-nos, entretanto, acolher    com entusiasmo este precioso texto no seio da nossa disciplina, como um dos    mais relevantes da produção antropológica portuguesa contemporânea.</P>     ]]></body>
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