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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Vidas experimentais: humanos e roedores no laboratório]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Experimental lives: humans and rodents in the lab]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Anthropology&#8217;s renewed interest in the study of human-animal relations leads to considerations regarding the ways in which the life and death of various living organisms are connected to human worlds. This implies a definition of the common world as a wider field of relations, inhabited by a myriad of beings with which humans are enmeshed. Closely in tune with the questions raised by the anthropological literature on human-animal relations, the question that guides the following discussion is how to think, on the basis of this approach, relations between researchers and mice in the laboratory, when we know that these relations are characterized in a very assertive and outright manner as merely instrumental. Based on fieldwork carried out in the laboratory of a Brazilian public institution for scientific research, the article explores the practical meaning of instrumentality in this context (the formal procedures for dealing with animals, the production of an animal model of disease, the instrumental apparatus in which the rodents are inserted). It also addresses the animals&#8217; modes of answering to the experimental context and points to the existence of relations between researchers and rodents that are irreducible to objectification.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p>     <b>Vidas experimentais: humanos e roedores no laborat&#243;rio</b> </p>     <p>     <b>Experimental lives: humans and rodents in the lab</b> </p>     <p>     <b>Iara Maria de Almeida Souza</b>     * </p>     <p> *Programa de P&#243;s-Gradua&#231;&#227;o em Ci&#234;ncias Sociais, Universidade Federal da Bahia, Brasil. <i>E-mail:</i>    <a href="mailto:imas@ufba.br">imas@ufba.br</a> </p>     <p>     &#160; </p>     <p>     <b>RESUMO</b> </p>     <p>     O renovado interesse despertado pelo estudo das rela&#231;&#245;es entre humanos e animais na antropologia envolve uma considera&#231;&#227;o sobre os     modos como a vida e a morte de v&#225;rios organismos vivos est&#227;o ligadas aos mundos sociais humanos, ou seja, o mundo comum &#233; visto como um     campo de rela&#231;&#245;es mais amplo, povoado por uma mir&#237;ade de seres com os quais os humanos se enredam. Em sintonia com as quest&#245;es trazidas     por esta literatura, a interroga&#231;&#227;o que conduz a discuss&#227;o a seguir &#233;: como pensar, a partir desta abordagem, as rela&#231;&#245;es     entre os pesquisadores e os &#173;roedores no laborat&#243;rio, quando sabemos que estas s&#227;o caracterizadas, de modo assertivo e direto, como     meramente instrumentais? Neste artigo exploramos, a partir de investiga&#231;&#227;o realizada em um laborat&#243;rio e biot&#233;rio pertencentes a uma     institui&#231;&#227;o p&#250;blica brasileira, qual o sentido pr&#225;tico da instrumentalidade neste contexto (os procedimentos formalizados para lidar     com os animais, a produ&#231;&#227;o de um modelo animal de doen&#231;a, o aparato instrumental no qual os roedores est&#227;o inseridos), os modos de     resposta dos animais e a exist&#234;ncia de rela&#231;&#245;es irredut&#237;veis &#224; objetifica&#231;&#227;o entre os pesquisadores e os roedores. </p>     <p>     <b>Palavras-chave: </b>     modelo animal, etnografia multiesp&#233;cie, biotecnologia, biot&#233;rio, dispositivo experimental, roedores </p>     <p>     &#160; </p>     <p>     <b>ABSTRACT</b> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     Anthropology&#8217;s renewed interest in the study of human-animal relations leads to considerations regarding the ways in which the life and death of     various living organisms are connected to human worlds. This implies a definition of the common world as a wider field of relations, inhabited by a myriad     of beings with which humans are enmeshed. Closely in tune with the questions raised by the anthropological literature on human-animal relations, the     question that guides the following discussion is how to think, on the basis of this approach, relations between researchers and mice in the laboratory,     when we know that these relations are characterized in a very assertive and outright manner as merely instrumental. Based on fieldwork carried out in the     laboratory of a Brazilian public institution for scientific research, the article explores the practical meaning of instrumentality in this context (the     formal procedures for dealing with animals, the production of an animal model of disease, the instrumental apparatus in which the rodents are inserted). It     also addresses the animals&#8217; modes of answering to the experimental context and points to the existence of relations between researchers and rodents     that are irreducible to objectification. </p>     <p>     <b>Keywords:</b>     animal model, multispecies ethnography, biotechnology, experimental systems, bioterium, rodents </p>     <p>     &#160; </p>     <p> As rela&#231;&#245;es entre humanos e animais se converteram nos &#250;ltimos anos em um t&#243;pico de crescente interesse na antropologia.    <a name="_ftnref1"></a><a href="#_ftn1" title="">[1]</a> Tal tem&#225;tica n&#227;o &#233; propriamente uma descoberta recente na disciplina. De     in&#237;cio &#8211; quando boa parte da pesquisa antropol&#243;gica era conduzida entre povos que viviam da ca&#231;a ou pastoreio &#8211; os animais     j&#225; se faziam notar. A aten&#231;&#227;o concedida a eles, entretanto, se limitava fundamentalmente aos aspectos instrumentais das rela&#231;&#245;es     que entretinham com os humanos. Ou seja, os animais interessavam apenas na medida em que eram caracterizados como &#8220;bons para comer&#8221;.     Posteriormente, a cr&#237;tica ao reducionismo utilitarista retirou-os da dura pris&#227;o da materialidade e os conduziu ao terreno do simb&#243;lico;     eles se tornaram ent&#227;o &#8220;bons para pensar&#8221; (Mullin 1999). Embora divergentes, em nenhuma das abordagens se demonstrava qualquer interesse     pelos animais propriamente ditos; estes eram vistos como objetos passivos frente &#224;s a&#231;&#245;es e inten&#231;&#245;es humanas (Knight 2005).     &#201; justamente este ponto que a literatura atual pretende subverter, ao mostrar os animais como entidades ativas e participantes de pleno direito nas     sociedades humanas. Os modos como a vida e a morte de v&#225;rios organismos vivos est&#227;o ligadas aos mundos sociais humanos constituem o cerne das     etnografias multiesp&#233;cies (Kirksey e Helmreich 2010). Um projeto bastante pr&#243;ximo ao que Eduardo Kohn (2007) chama de antropologia da vida:     &#8220;uma antropologia que n&#227;o &#233; confinada apenas ao humano, mas que se interessa pelos efeitos de nosso entrela&#231;amento com outros tipos de     seres vivos&#8221; (Kohn 2007: 3). Quer seja na observa&#231;&#227;o de pr&#225;ticas de ca&#231;a, de pastoreio ou dos v&#237;nculos estabelecidos com     animais de estima&#231;&#227;o, estudos mostram que a exist&#234;ncia de rela&#231;&#245;es com animais envolve bem mais do que representa&#231;&#245;es     sociais ou a exist&#234;ncia de la&#231;os puramente instrumentais (&#173;Knight 2005; Holmberg 2011; Despret 2008). </p>     <p>     Ao rejeitar simultaneamente a concep&#231;&#227;o intelectualista &#8211; em que o animal &#233; interpretado como s&#237;mbolo ou representa&#231;&#227;o     &#8211; e a utilitarista &#8211; que privilegia a instrumentalidade &#8211;, este novo modo de abordar as rela&#231;&#245;es entre humanos e animais recusa     tamb&#233;m o antropocentrismo inerente &#224;s duas concep&#231;&#245;es e pretende fazer jus ao fato de que vivemos em um mundo comum, mais amplo,     povoado por uma mir&#237;ade de seres com os quais os humanos se enredam. Uma das implica&#231;&#245;es disso &#233; que a pr&#243;pria defini&#231;&#227;o     de humano n&#227;o pode mais ser pensada em termos de uma ess&#234;ncia atemporal, constitu&#237;da pr&#233;via e independentemente das conex&#245;es     estabelecidas com outros seres vivos ou esp&#233;cies companheiras, para usar o termo de Haraway (2011). </p>     <p>     Em sintonia com as quest&#245;es trazidas por esta literatura, a interroga&#231;&#227;o que conduz a discuss&#227;o a seguir &#233;: como pensar, a partir     desta abordagem, as rela&#231;&#245;es entre os pesquisadores e os seus animais de laborat&#243;rio, quando sabemos que estas s&#227;o caracterizadas, de     modo assertivo e direto, como meramente instrumentais? Ora, rejeitar a concep&#231;&#227;o utilitarista como ponto de partida n&#227;o implica em abandonar     o interesse por todo e qualquer contexto de pr&#225;tica em que pare&#231;am predominar as rela&#231;&#245;es instrumentais com animais; ao inv&#233;s     disso, a observa&#231;&#227;o deste tipo de ambiente incita (ou ao menos deveria incitar) a curiosidade por explorar, em outra chave, o sentido     pr&#225;tico do instrumental e a exist&#234;ncia de diferentes v&#237;nculos entre humanos e animais irredut&#237;veis &#224; mera instrumentalidade. </p>     <p>     Para introduzir as quest&#245;es a serem discutidas adiante neste texto, apresento uma breve conversa, sobre o tema das rela&#231;&#245;es entre     pesquisadores e animais, que tive com cientistas &#8211; dr.&#170; D&#233;bora, dr.&#170; Sara e dr.&#170; Beatriz &#8211; que trabalham em uma grande     institui&#231;&#227;o de pesquisa: </p>     <p>     &#8220;Eu:&#8194;Estou pensando em fazer uma pesquisa sobre a rela&#231;&#227;o entre pesquisadores e animais aqui no biot&#233;rio, o que voc&#234;s     acham? </p>     <p>     Dr.&#170; D&#233;bora:&#8194;Essa pesquisa n&#227;o vai levar a nada, n&#227;o h&#225; o que dizer sobre isso, os animais s&#227;o como coisas, s&#227;o     apenas instrumentos de pesquisa como outros. </p>     <p>     Eu:&#8194;Mas h&#225; estudos sobre a rela&#231;&#227;o entre humanos e animais mostrando que, al&#233;m das rela&#231;&#245;es instrumentais, h&#225;     possibilidades de forma&#231;&#227;o de outros tipos de v&#237;nculos com os animais e eu quero saber se isso acontece na pr&#225;tica, no biot&#233;rio. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     Dr.&#170; D&#233;bora:&#8194;Os animais s&#227;o g&#234;meos id&#234;nticos, n&#227;o se pode distinguir um do outro, como pode haver v&#237;nculo? </p>     <p>     Dr.&#170; Sara:&#8194;Eu discordo de D&#233;bora, posso dar o meu exemplo. Em meu mestrado e no doutorado, usei muitos animais na pesquisa sem qualquer     problema, mas depois que passei a criar uma gata em casa, comecei a olhar de outro modo os camundongos e a reconhecer os sentimentos deles. Por isso, nunca     mais tive coragem de sacrificar animais. </p>     <p>     Dr.&#170; Beatriz:&#8194;Desde a faculdade nunca suportei sacrificar animal, por isso logo cedo escolhi n&#227;o fazer pesquisas em que eu precisasse usar     animais. </p>     <p>     Dr.&#170; D&#233;bora:&#8194;&#201;, talvez voc&#234; [se dirigindo a mim] possa encontrar alguma coisa. Eu vejo que as estudantes da &#225;rea de     veterin&#225;ria sempre olham para o animal e dizem, &#8220;hoje ele est&#225; com uma carinha boa&#8221; ou &#8220;ele est&#225; um pouco     tristinho&#8221;. [&#8230;] Atualmente eu n&#227;o vou mais ao biot&#233;rio e n&#227;o manuseio animais, meus estudantes cuidam desse trabalho. Mas lembro     que quando minha filha nasceu, eu trabalhava em uma pesquisa em que era necess&#225;rio sacrificar muitos animais. &#192; noite quando voltava para casa e     via minha filhinha dormindo, parecia que eu estava vendo um camundongo, eu tentava afastar essa vis&#227;o, mas a imagem do camundongo sempre     voltava.&#8221; </p>     <p>     Iniciei a apresenta&#231;&#227;o do meu campo de interesse mais espec&#237;fico com esta breve conversa&#231;&#227;o porque nela j&#225; se insinuam os     temas a serem explorados: o animal como &#8220;coisa&#8221;, a sua homogeneidade gen&#233;tica, o sacrif&#237;cio, sua face, a proximidade e a     dist&#226;ncia com rela&#231;&#227;o a outros animais e aos humanos. A conversa tamb&#233;m indica que a atribui&#231;&#227;o do r&#243;tulo de     instrumental a toda e qualquer rela&#231;&#227;o entre humanos e roedores na pesquisa n&#227;o esgota tudo o que h&#225; a dizer sobre o tema. Al&#233;m     disso, a quest&#227;o n&#227;o se resume a reconhecer a exist&#234;ncia de outro tipo de v&#237;nculo entre pessoas e animais no ambiente do     &#173;biot&#233;rio. &#201; preciso tamb&#233;m qualificar melhor o que &#233; a instrumentalidade. Quais s&#227;o os procedimentos formalizados para lidar     com os animais? Como converter um animal em um modelo de doen&#231;a? Como os animais respondem? S&#227;o algumas dessas quest&#245;es que pretendo     explorar brevemente neste artigo, que, mais do que fornecer uma resposta definitiva sobre o tema, pretende abrir a imagina&#231;&#227;o a uma s&#233;rie de     novas perguntas poss&#237;veis sobre os entrela&#231;amentos das vidas de humanos e animais na ci&#234;ncia. </p>     <p>     O material emp&#237;rico apresentado aqui foi obtido em pesquisa realizada (entre 2008 e 2009) em uma grande institui&#231;&#227;o p&#250;blica brasileira,     voltada para a pesquisa biom&#233;dica, com atua&#231;&#227;o principalmente no estudo de doen&#231;as infecciosas e parasit&#225;rias. O instituto conta     com dez laborat&#243;rios e um biot&#233;rio e abriga dois cursos de p&#243;s-gradua&#231;&#227;o conveniados a uma universidade tamb&#233;m p&#250;blica.     As entrevistas e observa&#231;&#245;es apresentadas foram coletadas, em sua maior parte, no &#226;mbito de um &#250;nico laborat&#243;rio, para uma     investiga&#231;&#227;o que visava acompanhar o desenvolvimento de terapias com c&#233;lulas-tronco (ou c&#233;lulas estaminais). Foi durante o     desenvolvimento desta pesquisa que os camundongos &#8211; os animais mais utilizados nas pesquisas que acompanhei &#8211; come&#231;aram a se mostrar mais     complexos e recalcitrantes do que eu seria capaz de conceber e, por fim, em um novo projeto de investiga&#231;&#227;o, vieram a se tornar o centro das     aten&#231;&#245;es. </p>     <p>     <b>Animais e antropologia </b> </p>     <p>     N&#227;o &#233; poss&#237;vel dizer que autores cl&#225;ssicos da antropologia tenham deixado de reconhecer a presen&#231;a de animais ao estudarem     diferentes povos que, em grande parte, viviam de ca&#231;a e pastoreio. Evans-Pritchard n&#227;o faz men&#231;&#227;o ao gado (2007) e a galinhas (1978)? E     os galos n&#227;o s&#227;o comentados por Geertz (1978)? L&#233;vi-Strauss, por sua vez, n&#227;o cita v&#225;rias esp&#233;cies ao falar dos animais que     simbolizam cl&#227;s, como o pato, a &#225;guia, o grou, a lontra, o castor, etc. (1975)? &#201; desnecess&#225;rio prosseguir arrolando os animais que     aparecem em uma vasta s&#233;rie de trabalhos antropol&#243;gicos; tamb&#233;m n&#227;o cabe tentar condensar em poucas linhas as varia&#231;&#245;es nos     modos de retrat&#225;-los. O ponto mais importante do argumento &#233;: quando os animais aparecem em cena nestes estudos, usualmente, desempenham o papel     de meros intermedi&#225;rios na an&#225;lise dos t&#243;picos considerados realmente relevantes para a antropologia, a saber, o estudo de     forma&#231;&#245;es sociais espec&#237;ficas e das rela&#231;&#245;es dos humanos com outros humanos. De acordo com Mullin (1999), as diferentes     interpreta&#231;&#245;es das rela&#231;&#245;es entre humanos e animais n&#227;o humanos tendiam a oscilar entre dois polos, ou tomavam a forma de     explica&#231;&#227;o utilitarista e econ&#244;mica, como a an&#225;lise feita por Harris (1974, <i>apud</i> Mullin 1999) acerca da sacralidade do gado na     &#205;ndia, ou, inversamente, se adotava uma perspectiva estruturalista/simb&#243;lica, segundo a qual seria um equ&#237;voco explicar o uso     de animais tot&#234;micos por seu valor econ&#244;mico. Para L&#233;vi-Strauss, por exemplo, a elei&#231;&#227;o de determinados animais como totens     n&#227;o se dava porque eram &#8220;bons para comer&#8221;, mas, ao contr&#225;rio, porque eram &#8220;bons para pensar&#8221;, pois as     distin&#231;&#245;es observ&#225;veis entre as esp&#233;cies ofereciam um recurso conceitual para a diferencia&#231;&#227;o social (1975: 94). Ainda     segundo Mullin (1999), n&#227;o foram raras as tentativas de mesclar as dimens&#245;es materiais e simb&#243;licas para pensar a presen&#231;a dos animais     nas sociedades humanas. Em qualquer caso, os animais s&#227;o retratados como seres destitu&#237;dos de interesse, pois n&#227;o possuem capacidade de     a&#231;&#227;o e resposta; eles entram na vida social apenas para serem submetidos &#224;s necessidades materiais ou simb&#243;licas dos humanos (Mullin     1999). </p>     <p>     Este modo de pensar n&#227;o revela apenas o antropocentrismo, ou seja, uma concep&#231;&#227;o do &#8220;excepcionalismo da esp&#233;cie&#8221; (Haraway     2011) na qual se fundamenta, mas deixa entrever tamb&#233;m o pressuposto &#8211; nem sempre explicitado &#8211; de que a realidade &#233; constitu&#237;da     por dois dom&#237;nios ontologicamente distintos: a natureza e a cultura. A excepcionalidade do humano residiria justamente em sua capacidade de     transcender o dom&#237;nio da natureza e construir cultura(s). Desta esfera, os animais s&#243; podem participar como recurso material ou     simb&#243;&#173;lico. </p>     <p>     N&#227;o s&#227;o poucos os autores a apontar para as dificuldades inerentes a esta dicotomia. N&#227;o &#233; o caso aqui de retomarmos todos os     argumentos apresentados. Tendo em conta os prop&#243;sitos deste artigo, vou evocar apenas uma vertente importante da cr&#237;tica &#224;     oposi&#231;&#227;o entre natureza e cultura trazida por antrop&#243;logos que estudam povos ca&#231;adores e coletores, em especial Ingold (2000). Ao     contrastar as formas distintas de os humanos se relacionarem com os animais nos regimes de ca&#231;a e de pastoreio, Ingold conta uma hist&#243;ria     alternativa &#224; narrativa usual &#8211; que avalia como uma evolu&#231;&#227;o cultural a transi&#231;&#227;o da atividade de ca&#231;a para a de     domestica&#231;&#227;o de animais &#8211; ao mesmo tempo em que p&#245;e em quest&#227;o a pr&#243;pria divis&#227;o entre natureza e cultura. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     Segundo Ingold (2000), para ca&#231;adores-coletores o ambiente &#233; vivo, saturado de poderes pessoais. Os ca&#231;adores s&#243; podem sobreviver se     mantiverem rela&#231;&#245;es de reciprocidade com esses poderes, similares &#224;quelas que estabelecem com outras pessoas. Em seu mundo os animais     s&#227;o seres responsivos e, por conseguinte, devem ser tratados com respeito e considera&#231;&#227;o. N&#227;o h&#225;, neste caso, uma     separa&#231;&#227;o entre natureza e cultura, mas se vive em um mundo comum habitado por diferentes entidades dotadas de poderes pessoais. Com a     domestica&#231;&#227;o, os animais perdem justamente a capacidade de responder e agir de modo rec&#237;proco. &#201; o pastor quem decide sobre sua vida,     sua morte e prov&#234; as condi&#231;&#245;es de seu bem-estar. Al&#233;m disso, eles s&#227;o convertidos em propriedade, coisas que podem ser     possu&#237;das, herdadas, comercializadas. Diferente do regime de ca&#231;a, em que a rela&#231;&#227;o entre humanos e animais se caracteriza pela     confian&#231;a, o regime de pastoreio se funda em uma rela&#231;&#227;o de domina&#231;&#227;o, levada ao extremo na forma de cria&#231;&#227;o industrial     de animais (Ingold 2000). Sem d&#250;vida, a cria&#231;&#227;o de animais em biot&#233;rios e sua utiliza&#231;&#227;o em pesquisas cient&#237;ficas se     enquadrariam &#224; perfei&#231;&#227;o na descri&#231;&#227;o de Ingold do regime de domestica&#231;&#227;o/domina&#231;&#227;o mais     radical. O nascimento, vida e morte destes animais &#233;, ao menos assim se pretende, completamente controlado. O que pode haver no biot&#233;rio,     al&#233;m de domina&#231;&#227;o? Poderiam os animais responder neste contexto? Se nos fiarmos apenas em Ingold, me parece que a resposta a ambas as     perguntas seria negativa. </p>     <p>     Knight (2005), contudo, sugere que sejamos mais prudentes ao negar a exist&#234;ncia de rela&#231;&#245;es responsivas em contextos de     domestica&#231;&#227;o. Al&#233;m disso, ele p&#245;e em d&#250;vida a concep&#231;&#227;o de Ingold de que na ca&#231;a, tal qual praticada por povos     ca&#231;adores e coletores, o ca&#231;ador efetivamente mant&#233;m com os animais rela&#231;&#245;es semelhantes &#224;quelas que ele estabelece com     pessoas. Segundo Knight, o ca&#231;ador jamais pode conviver com o animal com o mesmo grau de familiaridade que &#233; poss&#237;vel alcan&#231;ar em um     contexto de domestica&#231;&#227;o. Essa conviv&#234;ncia mais constante e dur&#225;vel n&#227;o poderia favorecer ou levar ao surgimento de     rela&#231;&#245;es de intimidade e ao reconhecimento de alguma responsividade da parte do animal? Knight argumenta que sim, mas, para que possamos     reconhecer os tra&#231;os de pessoalidade em rela&#231;&#245;es de subordina&#231;&#227;o, &#233; necess&#225;rio n&#227;o confundir o resultado (animais     instrumentalizados, explorados como fonte de alimento e trabalho) com o processo. A preocupa&#231;&#227;o com os resultados talvez esconda uma     rela&#231;&#227;o de cuidado na qual o animal n&#227;o pode ser reduzido a objeto. </p>     <p>     A aten&#231;&#227;o ao processo &#8211; pensado em termos de uma narrativa etnogr&#225;fica &#8211; &#233; justamente aquilo que falta, em grande medida,     &#224; discuss&#227;o sobre a presen&#231;a de animais na ci&#234;ncia. &#192; exce&#231;&#227;o dos estudos sobre primatologia, a antropologia da     ci&#234;ncia pouco tem se ocupado daquilo que &#233; pr&#243;prio &#224; intera&#231;&#227;o entre os pesquisadores e os animais que s&#227;o objeto de sua     aten&#231;&#227;o. E a men&#231;&#227;o &#224; primatologia n&#227;o &#233; casual, pois esta disciplina desafia v&#225;rios dos pressupostos objetivistas     acerca de como as intera&#231;&#245;es em campo devem ser conduzidas (Rees 2007; S&#225; 2010). </p>     <p>     N&#227;o &#233; que os antrop&#243;logos da ci&#234;ncia tenham ignorado o uso do modelo animal em pesquisa ou negligenciado o fato, apontado por Landecker     (2007), de que o uso de material biol&#243;gico humano constitui apenas uma fra&#231;&#227;o m&#237;nima em um vasto conjunto que engloba materiais de     diferentes esp&#233;cies. Contudo, no caso espec&#237;fico, eles se mostram mais atentos &#224;s consequ&#234;ncias do que aos processos, ou seja, eles se     interessam mais pelo tipo de conhecimento que se obt&#233;m com o uso de animais do que propriamente pelos animais e suas rela&#231;&#245;es com os humanos     (Davies 2010; Fujimura 1996; Logan 2001; Birke 2003). Identificamos tal atitude mesmo no artigo seminal de cunho etnogr&#225;fico, escrito por Lynch     (1988), cujo interesse principal &#233; mostrar como o animal vivo, &#8220;natural&#8221;, &#233; ritualmente transformado em animal     &#8220;anal&#237;tico&#8221;. </p>     <p>     De fato, dever&#237;amos esperar precisamente o oposto dos estudos de ci&#234;ncia, em especial as etnografias de laborat&#243;rio; afinal, tais estudos     foram respons&#225;veis em grande medida pela renova&#231;&#227;o da discuss&#227;o acerca de ag&#234;ncia, ao incluir no rol de atores relevantes para as     pr&#225;ticas sociais (quaisquer que sejam, n&#227;o apenas as cient&#237;ficas) atores n&#227;o humanos. A despeito da exist&#234;ncia de     discord&#226;ncias te&#243;ricas, tais estudos convergiam, ao mostrar que a ci&#234;ncia n&#227;o &#233; feita apenas de padr&#245;es de carreira e     reconhecimento, <i>habitus</i>, lutas pelo poder e acordos entre cientistas, mas que sua pr&#225;tica envolve a associa&#231;&#227;o de entidades     heterog&#234;neas, humanas e n&#227;o humanas, compreendendo subst&#226;ncias, equipamentos, animais, coisas que s&#227;o convocadas a participar da     ci&#234;ncia, s&#227;o submetidas a provas e podem falhar, atuar de modo diverso do esperado, bem como sugerir e abrir novas quest&#245;es de     investiga&#231;&#227;o (Stengers 2002; Knorr-Cetina 1983, 1999; Latour 1999; Pickering 1995). Esta abordagem afirma a exist&#234;ncia de coisas que     s&#227;o simultaneamente materiais e significativas; possuem plasticidade, mas tamb&#233;m constrangem e limitam as pr&#225;ticas; t&#234;m for&#231;as,     trajet&#243;rias, tend&#234;ncias, propens&#245;es, recalcitr&#226;ncia, e trazem uma margem de indetermina&#231;&#227;o que n&#227;o nos permite fixar de     antem&#227;o tudo que podemos esperar delas. </p>     <p>     Sendo assim, como compreender por que os animais, que possuem for&#231;a, trajet&#243;ria, recalcitr&#226;ncia, demoram a receber aten&#231;&#227;o nos     estudos de ci&#234;ncia? Talvez o fato de que, no presente, o uso do modelo animal em ci&#234;ncias biom&#233;dicas seja algo bastante estabilizado e     n&#227;o controverso (principalmente ao interior do laborat&#243;rio, pois a controv&#233;rsia &#233;tica e a disputa acerca de legisla&#231;&#227;o que     regulamente o uso de animais em pesquisa n&#227;o parece dar sinais de estabiliza&#231;&#227;o) explique a relativamente escassa aten&#231;&#227;o que     estas criaturas receberam nas etnografias de laborat&#243;rio, usualmente mais centradas em seguir as trajet&#243;rias de coisas controversas, em torno das     quais a caixa preta ainda n&#227;o se fechou, ou seja, &#8220;coisas epist&#234;micas&#8221;, entidades situadas no cerne do processo de pesquisa e a meio     caminho de sua defini&#231;&#227;o material, ao inv&#233;s de atentar para os &#8220;objetos tecnol&#243;gicos&#8221;, aqueles j&#225; fixados, n&#227;o     problem&#225;ticos, transformados em recurso sempre &#224; m&#227;o do pesquisador (Rheinberger 1997). </p>     <p>     O interesse mais espec&#237;fico pelos componentes vivos do laborat&#243;rio ganhou mais import&#226;ncia em estudos de hist&#243;ria da ci&#234;ncia. Na     hist&#243;ria das ci&#234;ncias, entidades vivas, como moscas, v&#237;rus, vermes ou camundongos, despontaram como objeto de interesse em estudos que     recuperam os caminhos sempre contingentes atrav&#233;s dos quais estas entidades foram erigidas como organismos preferenciais em determinadas &#225;reas de     pesquisa (Creager 2002; Logan 2001; Rader 2004; Kohler 1994). A despeito da visibilidade alcan&#231;ada pelos organismos vivos em tais narrativas, talvez     por conta de dificuldades inerentes &#224;s suas fontes hist&#243;ricas, s&#227;o parcos os relatos sobre como se d&#225; a intera&#231;&#227;o entre os     humanos e outras esp&#233;cies, sobre as pr&#225;ticas de cuidado e ordenamento dos animais e sobre como eles respondem &#224; situa&#231;&#227;o.     Exce&#231;&#227;o s&#227;o os estudos conduzidos por Holmberg (2011) &#8211; sobre aprendizado de cuidados e manejo de animais de pesquisa &#8211; e por     S&#225;, Medeiros e Schirmann (2011) &#8211; sobre pr&#225;ticas relativas ao uso de modelos animais em um laborat&#243;rio de neurotoxicidade e     psicofarmacologia. Adiante voltaremos a esta literatura, em um di&#225;logo mais direto com os achados emp&#237;ricos que apresentaremos a seguir. </p>     <p>     <b>&#8220;Camundongos s&#227;o como subst&#226;ncias qu&#237;micas&#8221; </b> </p>     <p>     Embora os camundongos, bem como os humanos que interagem com eles no laborat&#243;rio ou biot&#233;rio, sejam o foco deste artigo, inicio esta     sec&#231;&#227;o apresentando alguns fragmentos de uma entrevista realizada em outro lugar que n&#227;o o biot&#233;rio, uma sala de um hospital de     veterin&#225;ria. A&#237; trabalha uma pesquisadora, a dr.&#170; Tereza, respons&#225;vel pela condu&#231;&#227;o de um ensaio cl&#237;nico com     c&#233;lulas-tronco, cujo efeito foi a recupera&#231;&#227;o dos movimentos de um gato com les&#227;o da coluna vertebral. O resultado obtido com o     experimento foi noticiado com destaque no telejornal local. Na mat&#233;ria veiculada na televis&#227;o foram exibidas imagens de um gato apresentando uma     marcha dif&#237;cil, quase rastejante, mas ainda assim o resultado foi um feito extraordin&#225;rio, se considerarmos que antes do tratamento o animal     estava completamente paralisado. Logo ap&#243;s a exibi&#231;&#227;o da not&#237;cia na TV, os respons&#225;veis pelo ensaio cl&#237;nico foram     surpreendidos por uma profus&#227;o de telefonemas e <i>e-mails</i>. Entre aqueles que os procuravam havia quem desejasse oferecer seu animal de     estima&#231;&#227;o &#8211; padecendo de alguma doen&#231;a &#8211; para os experimentos com c&#233;lulas-tronco, mas havia tamb&#233;m um n&#250;mero     consider&#225;vel de humanos aspirando para si o papel de &#8220;cobaia&#8221; nos experimentos. Seu argumento era que os m&#233;dicos recusavam-se a     utilizar em humanos os tratamentos que estavam sendo testados em animais e assim retiravam deles a chance de gozar dos mesmos benef&#237;cios obtidos por     estes &#250;ltimos. Tal revindica&#231;&#227;o se fazia cega &#224; principal justificativa &#233;tica para a utiliza&#231;&#227;o de animais em pesquisa:     cabe a eles o &#244;nus do risco no desenvolvimento de t&#233;cnicas e produtos que servir&#227;o, se este for o caso, posteriormente aos humanos. Com     efeito, a exig&#234;ncia de testar primeiro em animais (tamb&#233;m <i>in vitro</i> ou em outros modelos de simula&#231;&#227;o) os novos tratamentos ou     drogas, ao inv&#233;s de experiment&#225;-los diretamente em humanos, resultou de um processo pol&#237;tico em que se buscava defender os sujeitos de     pesquisa &#8211; &#233; assim que s&#227;o chamadas as pessoas que participam de ensaios cl&#237;nicos &#8211; dos riscos trazidos por     interven&#231;&#245;es que podem resultar simplesmente ineficazes, mas boa parte das vezes, mesmo quando produzem efeitos positivos, causam tamb&#233;m     danos, alguns dos quais severos e irrevers&#237;veis (Pignarre 2004). As pessoas que revindicavam o lugar de cobaia, atra&#237;das pela promessa laica de     salva&#231;&#227;o nesta vida fortemente associada a terapias com c&#233;lulas-tronco (Souza 2011), n&#227;o divisavam o pesado &#244;nus suportado pelos     animais no desenvolvimento de um novo tratamento e almejavam o privil&#233;gio de serem os primeiros a se beneficiar com os resultados dos testes     cl&#237;nicos. </p>     <p>     O ensaio cl&#237;nico mencionado acima foi fruto da parceria entre um laborat&#243;rio que desenvolve pesquisas com c&#233;lulas-tronco e uma equipe do     hospital universit&#225;rio de medicina veterin&#225;ria, da qual fazia parte a dr.&#170; Tereza. Seu interesse de pesquisa n&#227;o era originalmente as     c&#233;lulas-tronco, mas a &#173;leishmaniose, uma enfermidade da qual padecem tanto humanos quanto animais. O desenvolvimento da investiga&#231;&#227;o     sobre essa doen&#231;a demandou a realiza&#231;&#227;o de um extenso trabalho de campo, com visitas a comunidades com altos &#237;ndices de     preval&#234;ncia de leishmaniose na busca por c&#227;es infectados. Em sua tese, a dr.&#170; Tereza defendia a hip&#243;tese de que a pol&#237;tica de     recolhimento e sacrif&#237;cio de c&#227;es contaminados n&#227;o era a melhor solu&#231;&#227;o para conter a infec&#231;&#227;o. Segundo ela, assim que     um c&#227;o de estima&#231;&#227;o era retirado de uma casa, o dono do animal recolhido logo trazia outro para ocupar o lugar do antigo. Usualmente, este     novo c&#227;o era um filhote cujo sistema imunol&#243;gico possu&#237;a menos defesas e tendia, por isso, a se contaminar e desenvolver a doen&#231;a de     modo mais r&#225;pido e severo. Sendo assim, argumenta ela, seria mais adequado manter um c&#227;o adulto com n&#237;veis baixos de infec&#231;&#227;o     &#8211; que contamina menos &#8211; do que promover uma situa&#231;&#227;o em que o animal &#233; substitu&#237;do por outro com menos defesas     imunol&#243;gicas. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     A procura dos animais tornou sua pesquisa mais &#225;rdua e lenta. Colegas aconselharam-na a abreviar o esfor&#231;o, infectando c&#227;es para obter     rapidamente a quantidade necess&#225;ria de animais doentes. Embora a dr.&#170; Tereza &#8211; cr&#237;tica da pol&#237;tica de sacrificar c&#227;es     contaminados indiscriminadamente &#8211; soubesse que tal estrat&#233;gia &#233; utilizada com frequ&#234;ncia para reduzir custos e a dura&#231;&#227;o da     pesquisa, se recusou a faz&#234;-lo porque, em sua concep&#231;&#227;o, c&#227;es s&#227;o animais sens&#237;veis e inteligentes, por isso n&#227;o podem     ser tratados como animais de laborat&#243;rio. </p>     <p>     Mas o que &#233; ent&#227;o um animal de laborat&#243;rio? Vejamos o que ela diz: </p>     <p>     &#8220;Tereza:&#8194;Surgiu a ideia de fazer o mesmo [transplante de c&#233;lulas-tronco] em animais de estima&#231;&#227;o, que &#233; completamente     diferente de animal experimental, n&#233;? O rato, o camundongo, eles fazem l&#225; o experimento, o animal &#233; usado como se fosse um material     qualquer, n&#233;? &#201; descartado, morre. O animal de companhia, n&#227;o, &#233; como se fosse um ser humano, sem as restri&#231;&#245;es legais que     existem atualmente p&#8217;ra pesquisa com seres humanos.&#8221; </p>     <p>     Apesar de dizer, em um tom que soou como uma censura, que os animais de laborat&#243;rio s&#227;o tratados como coisas e descartados, ela n&#227;o &#233;     contra o uso de roedores em laborat&#243;rio: </p>     <p>     &#8220;Tereza:&#8194;A depender da pesquisa, o camundongo &#233; necess&#225;rio&#8230; Por exemplo, voc&#234; quer avaliar um aspecto da resposta     imunol&#243;gica, tem que avaliar s&#243; aquela c&#233;lula, aquela mol&#233;cula, ent&#227;o &#233; claro que se houver camundongos de diferentes     linhagens, complica. Ou tem coisas que requerem uma igualdade gen&#233;tica, ou seja, se fazendo o cruzamento de irm&#227;o com irm&#227;o, com irm&#227;o,     at&#233; que todos fiquem geneticamente id&#234;nticos, n&#233;? [&#8230;] Tem que ter igualdade gen&#233;tica para que na hora em que voc&#234; interferir     p&#8217;ra modificar aquela mol&#233;cula, p&#8217;ra ver o que acontece, todos t&#234;m que responder igual e tem que ter um n&#250;mero estatisticamente     significativo [&#8230;], mas n&#227;o se pode extrapolar isso p&#8217;ra o estudo cl&#237;nico, o estudo cl&#237;nico &#233; feito numa popula&#231;&#227;o     absolutamente heterog&#234;nea. [&#8230;] Eu n&#227;o concordo muito tamb&#233;m n&#227;o [com o uso de roedores], mas ainda n&#227;o se vislumbra uma     forma que substitua cem por cento isso. Agora, o c&#227;o, &#233; claro, &#233; muito mais inteligente que o camundongo, nele &#233; mais desenvolvida a     perspic&#225;cia, a capacidade de sentir e de intera&#231;&#227;o emocional com o ser humano.&#8221; </p>     <p>     O argumento de Tereza se alinha com uma concep&#231;&#227;o bastante presente desde os prim&#243;rdios da luta em defesa do antivivisseccionismo, segundo a     qual os homens t&#234;m obriga&#231;&#245;es diferenciadas para com os c&#227;es, pois estes s&#227;o animais sens&#237;veis que vivem em cons&#243;rcio     &#237;ntimo com os humanos e, por conseguinte, devem ser tratados com afeto e altru&#237;smo (Lederer 1992). Para a dr.&#170; Tereza, al&#233;m disso,     h&#225; certas qualidades que os humanos possuem das quais os animais podem ser dotados em maior ou menor propor&#231;&#227;o: intelig&#234;ncia,     sensibilidade e capacidade de intera&#231;&#227;o emocional. Os c&#227;es est&#227;o mais pr&#243;ximos dos humanos que os camundongos e ratos, por isso     estes &#250;ltimos podem servir aos experimentos. Sua fala tamb&#233;m est&#225; em sintonia com a justificativa apresentada por v&#225;rios cientistas     para a utiliza&#231;&#227;o de modelos animais em pesquisa &#8211; eles compreendem que h&#225; um sofrimento dos animais, contudo n&#227;o divisam um modo     de substituir por completo os roedores no laborat&#243;rio. Mas n&#227;o &#233; apenas isto que os torna a ferramenta correta para o trabalho de pesquisa;     esses animais, diferentes das pessoas, dos c&#227;es, dos demais animais de estima&#231;&#227;o, n&#227;o s&#227;o diversos entre si, n&#227;o s&#227;o     heterog&#234;neos, s&#227;o geneticamente id&#234;nticos, como j&#225; havia dito a dr.&#170; D&#233;bora na conversa transcrita acima. Ora, tal fato, que     torna os roedores t&#227;o preciosos e lhes confere um grande valor instrumental, n&#227;o ocorre espontaneamente, &#233; fruto de labor feito nos     biot&#233;rios e laborat&#243;rios, de cruzar intencionalmente gera&#231;&#245;es e gera&#231;&#245;es de irm&#227;os, para a obten&#231;&#227;o de animais     homog&#234;neos geneticamente. Ou seja, os animais foram transformados no e pelo trabalho do laborat&#243;rio, antes de se tornarem o que s&#227;o hoje:     uma ferramenta &#224; disposi&#231;&#227;o de pesquisadores que precisam de um material homog&#234;neo para testar &#8220;uma enzima, uma mol&#233;cula, um     gene&#8221;, como afirmou a dr.&#170; Tereza. Se o laborat&#243;rio, como define Knorr-Cetina (1999), n&#227;o &#233; apenas o lugar em que os experimentos     ocorrem, mas um espa&#231;o em que a ordem natural &#233; reconfigurada e os processos naturais s&#227;o &#8220;trazidos para casa&#8221; a fim de serem     submetidos a condi&#231;&#245;es locais controladas, o camundongo, quando entra neste recinto, progressivamente se diferencia de seus semelhantes que vivem     nos campos, nas ruas e nas casas. Eles s&#227;o animais purificados, com linhagens bem demarcadas e homogeneidade gen&#233;tica. </p>     <p>     Os roedores descendentes de linhagens purificadas e padronizadas s&#227;o considerados virtualmente os mesmos, o que favorece a replica&#231;&#227;o dos     experimentos e permite aos pesquisadores estudar a a&#231;&#227;o de qu&#237;micos, radia&#231;&#227;o, v&#237;rus ou qualquer outro tipo de fator sobre os     animais. Segundo Fujimura (1996), as linhagens de camundongos intercruzados materializaram os conceitos de heran&#231;a e invariabilidade gen&#233;tica     para cientistas, ou, &#8220;em outras palavras, as ideias de invariabilidade, homogeneidade e padroniza&#231;&#227;o se tornaram (arte)fatos reais de     laborat&#243;rio atrav&#233;s do desenvolvimento de animais intercruzados&#8221; (Fujimura 1996: 30). </p>     <p>     Por encarnarem materialmente a homogeneidade e a invariabilidade, os roedores s&#227;o os animais experimentais mais utilizados nas pesquisas em     ci&#234;ncias da vida (Smith, Birke e Sadler<i> </i>1997; Higashijima, Takahashi e Kato 2009). Os camundongos s&#227;o considerados o &#8220;padr&#227;o     ouro&#8221; em termos de modelos animais na &#225;rea biom&#233;dica e seu uso n&#227;o requer justificativas ou explica&#231;&#245;es; ao inv&#233;s     disso, estes animais s&#227;o um recurso usado em laborat&#243;rios para garantir a comparabilidade com experimentos (j&#225; realizados ou potencialmente     realiz&#225;veis) levados a cabo em outros locais de pesquisa. Se hoje parece ser &#173;imperativo, para n&#227;o dizer &#243;bvio, o uso dos roedores em     pesquisas sobre mol&#233;culas, enzimas ou genes no laborat&#243;rio, em seu in&#237;cio nada havia de inequ&#237;voco. A cria&#231;&#227;o do     &#8220;padr&#227;o ouro&#8221; foi um acontecimento na ci&#234;ncia. Para Asdal (2008), se f&#244;ssemos compor a &#8220;grande narrativa&#8221;     descrevendo a transforma&#231;&#227;o da biomedicina em uma ci&#234;ncia fortemente experimental apoiada no uso de modelos animais &#8211; a ser comparada     &#224; grande narrativa feita por Foucault para o que se passou na medicina na primeira metade do s&#233;culo XIX &#8211;, esta seria escrita do seguinte     modo: &#8220;enquanto no in&#237;cio do s&#233;culo XIX se dependia fundamentalmente do <i>post mortem</i> para a obten&#231;&#227;o de conhecimento sobre     a vida, no final do s&#233;culo XIX o <i>post mortem</i> foi (parcialmente) deslocado pelo exame do corpo vivo do animal&#8221; (Asdal 2008: 901-902). Mas,     como a pr&#243;pria autora admite, a hist&#243;ria n&#227;o foi linear; com efeito, o uso intensivo do modelo animal em experimentos seguiu uma     trajet&#243;ria bem mais heterog&#234;nea do que a busca da &#8220;grande narrativa&#8221; pode nos levar a acreditar. </p>     <p>     Quando come&#231;ou a haver um uso mais intenso de animais em experimentos nas ci&#234;ncias biom&#233;dicas e biol&#243;gicas, um n&#250;mero muito     variado de esp&#233;cies era empregado no trabalho cient&#237;fico: c&#227;es, r&#227;s, cavalos, vacas, pombos, borboletas, tartarugas, vermes, entre     outros (Asdal 2008). O camundongo ainda n&#227;o havia se instalado plenamente no lugar que veio depois a ocupar, o de animal de laborat&#243;rio     preferencial. O deslocamento operado da diversidade em dire&#231;&#227;o &#224; unidade revela uma mudan&#231;a na pr&#243;pria biologia, que passa a se     orientar para uma concep&#231;&#227;o gen&#233;tica e molecular (Logan 2001). </p>     <p>     O per&#237;odo entre 1900 e 1955 foi crucial no processo de convers&#227;o do camundongo em organismo padronizado para a pesquisa biom&#233;dica. Um dos     locais fundamentais para compreendermos a hist&#243;ria do seu desenvolvimento e &#8220;aperfei&#231;oamento&#8221; foi o Laborat&#243;rio Jackson, situado     em Bel Harbor, nos Estados Unidos. Esta institui&#231;&#227;o foi respons&#225;vel por estabilizar linhagens gen&#233;ticas purificadas e por produzir     animais em larga escala, primeiro para uso local, depois para distribui&#231;&#227;o a outras institui&#231;&#245;es e, por fim, para     comercializa&#231;&#227;o. As linhagens come&#231;aram a ser purificadas como descrito pela dr.&#170; Tereza em sua fala, atrav&#233;s de cruzamentos     seguidos entre irm&#227;os, por muitas e muitas gera&#231;&#245;es, at&#233; que os camundongos se transformassem, de acordo com C.&#8197;C. Little,     fundador da institui&#231;&#227;o, em &#8220;reagentes biol&#243;gicos puros ao servi&#231;o de in&#250;meras linhas de pesquisa&#8221; (Rader 2004: 25).     Esta concep&#231;&#227;o parece ser corrente no presente. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     A padroniza&#231;&#227;o certamente conta como uma das principais qualidades dos camundongos para justificar a prefer&#234;ncia formada em torno deles, mas     h&#225; outras caracter&#237;sticas que os tornam aptos a ocupar a posi&#231;&#227;o de &#8220;padr&#227;o ouro&#8221; entre os modelos animais: s&#227;o     pequenos, relativamente domesticados, f&#225;ceis de manusear, n&#227;o h&#225; muita dificuldade em manter suas condi&#231;&#245;es de habita&#231;&#227;o     e alimenta&#231;&#227;o, sua reprodu&#231;&#227;o &#233; c&#233;lere, eles podem padecer de v&#225;rias doen&#231;as que acometem os humanos (c&#226;ncer,     doen&#231;a card&#237;aca, diabetes, etc.). </p>     <p>     Contudo, muitas destas qualidades s&#243; foram reconhecidas depois que os camundongos j&#225; estavam em uso. Portanto, n&#227;o podemos atribuir a clara     prefer&#234;ncia por esse animal apenas a suas caracter&#237;sticas intr&#237;nsecas &#8211; o que poderia conduzir &#224; equivocada ideia de que eles     s&#227;o animais de algum modo predestinados ou vocacionados &#224; fun&#231;&#227;o de cobaias. Nem mesmo &#233; poss&#237;vel dizer que eles se tornaram     o modelo animal padr&#227;o gra&#231;as exclusivamente &#224; reengenharia posta em curso pelos pesquisadores do laborat&#243;rio para transform&#225;-los     na ferramenta correta para o trabalho do qual s&#227;o encarregados. Acontecimentos externos ao l&#243;cus de realiza&#231;&#227;o de pesquisa tamb&#233;m     est&#227;o implicados na hist&#243;ria da ascens&#227;o dos camundongos ao posto de &#8220;padr&#227;o ouro&#8221;. Para Rader (2004) foi crucial para a     ampla difus&#227;o do uso de camundongos na ci&#234;ncia a pouca aten&#231;&#227;o concedida aos roedores por ativistas em prol dos direitos dos animais.     Quando se inicia a luta contra o vivisseccionismo, a preocupa&#231;&#227;o maior era com a defesa dos c&#227;es e outros animais com os quais os humanos     conviviam com alguma simpatia e intimidade; as demais esp&#233;cies, como ratos e camundongos, n&#227;o eram priorit&#225;rias para o movimento ao menos     at&#233; a d&#233;cada de 50 do s&#233;culo passado (Rader 2004; Lederer 1992). Al&#233;m disso, no caso espec&#237;fico analisado por Rader, a     decis&#227;o tomada por Little de converter o laborat&#243;rio em uma unidade de produ&#231;&#227;o de animais para comercializa&#231;&#227;o &#8211; o que     facilitou a sua ado&#231;&#227;o em muitos outros locais de pesquisa &#8211; foi tomada no per&#237;odo da &#8220;grande depress&#227;o&#8221; nos Estados     Unidos, quando a sobreviv&#234;ncia material do laborat&#243;rio estava amea&#231;ada devido &#224; insolv&#234;ncia de seus patrocinadores. Antes da crise     econ&#244;mica, o laborat&#243;rio era fundamentalmente uma institui&#231;&#227;o de pesquisa que distribu&#237;a animais em pequena escala para outros     laborat&#243;rios com os quais estava associado, mas depois se torna efetivamente uma unidade fabril para a produ&#231;&#227;o de animais para pesquisa     (Rader 2004). </p>     <p>     Uma vez que foram estabelecidas as primeiras linhagens padronizadas de camundongos, rapidamente foram encontrados usos alternativos para elas em contextos     os mais diversos, a ponto de se converterem, como argumenta &#173;Shostak (2007), em objeto liminar que permite a troca e o di&#225;logo entre disciplinas     e inst&#226;ncias diversas, como institui&#231;&#245;es de regula&#231;&#227;o de pesquisa em sa&#250;de, laborat&#243;rios, ag&#234;ncias de     avalia&#231;&#227;o de riscos ambientais, etc. </p>     <p>     Como podemos entender essa concord&#226;ncia sobre o valor dos camundongos? Segundo Rader (2004), o amplo consenso que se formou em torno desse organismo     se deve &#224; capacidade mostrada por ele para mediar tens&#245;es, de um lado, entre sistemas naturais e tecnol&#243;gicos, posto que ele &#233;     simultaneamente um organismo &#8220;natural&#8221; e um &#8220;instrumento padronizado&#8221; de pesquisa. Por isso, em sua fala a dr.&#170; Tereza     reconhece que s&#227;o organismos vivos dotados de sensibilidade e intelig&#234;ncia (em menor grau que os c&#227;es), ao mesmo tempo em que afirma que     s&#227;o como coisas, s&#227;o homog&#234;neos, s&#227;o descart&#225;veis e, tragicamente, sempre morrem ao final do experimento. De outro lado, o     consenso tamb&#233;m parece ser uma resposta &#224;s tens&#245;es envolvidas no experimento com sujeitos, pois o camundongo na pesquisa &#233; posto no     lugar do humano por sua semelhan&#231;a gen&#233;tica com este, e ao mesmo tempo pode ser submetido a tratamentos e riscos que n&#227;o seriam     admiss&#237;veis para os humanos, por isso, diz Little, &#8220;os c&#227;es podem ser nossos melhores amigos, mas os camundongos s&#227;o nossos melhores     aliados na luta contra doen&#231;as&#8221; (citado em Rader 2004: 21-22). Se a ci&#234;ncia &#233; feita de tradu&#231;&#245;es e substitui&#231;&#245;es,     o animal &#233; aquele que ocupa o lugar an&#225;logo ao do humano, sem as limita&#231;&#245;es &#233;ticas impostos para a pesquisa com pessoas, como nos     disse a dr.&#170; Tereza em trecho citado &#173;anteriormente. </p>     <p>     H&#225;, &#233; claro, as restri&#231;&#245;es &#233;ticas relativas ao uso de animais em pesquisa. No Brasil, vigora desde 2011 uma legisla&#231;&#227;o     que determina a cria&#231;&#227;o de uma CEUA &#8211; Comiss&#227;o de &#201;tica no Uso de Animais &#8211; em qualquer institui&#231;&#227;o que crie ou     utilize animais em investiga&#231;&#245;es cient&#237;ficas. A tramita&#231;&#227;o da lei que regula o uso de animais em pesquisa foi lenta &#8211;     demoraram 13 anos at&#233; que a lei ganhasse a sua forma final e fosse aprovada pelo poder legislativo &#8211; por conta das dif&#237;ceis     negocia&#231;&#245;es entre cientistas e ativistas dos direitos animais. O papel ativo desempenhado nessa inst&#226;ncia pela milit&#226;ncia em favor dos     animais n&#227;o se fez acompanhar, no Brasil, de outras estrat&#233;gias como a de agress&#227;o e amea&#231;a a cientistas e institui&#231;&#245;es,     exceto em algumas poucas ocasi&#245;es (Machado e Filipecki 2011). A lei procura estabelecer novos padr&#245;es de manejo e uso, mas n&#227;o desestabiliza     a produ&#231;&#227;o e utiliza&#231;&#227;o de animais em pesquisa. </p>     <p>     Que os animais estejam bem estabilizados, padronizados como linhagens e tenham se tornado o &#8220;padr&#227;o ouro&#8221; em estudos biom&#233;dicos reduz     a &#173;dificuldade no momento da escolha do modelo animal, mas n&#227;o reduz a complexidade das pr&#225;ticas para seu ordenamento e manuseio. O     biot&#233;rio &#233; uma unidade de produ&#231;&#227;o de animais e materiais biol&#243;gicos e &#233; com frequ&#234;ncia um ponto de passagem no     in&#237;cio de uma trajet&#243;ria como pesquisador em biomedicina. Alguns preferem se esquivar dele e procuram outros caminhos de inser&#231;&#227;o na     carreira, como a dr.&#170; Beatriz, interlocutora na conversa apresentada acima, mas boa parte dos que est&#227;o na institui&#231;&#227;o em que esta     pesquisa foi feita, ao menos durante a inicia&#231;&#227;o cient&#237;fica, mestrado e doutorado, acumula horas de trabalho com animais no biot&#233;rio.     Apenas quando o pesquisador adquire alguma senioridade e passa a ter seus pr&#243;prios orientandos ele pode se dedicar a outras tarefas e deixar o trato     com os animais para os iniciantes, como disse a dr.&#170; D&#233;bora. Vamos ent&#227;o conhecer brevemente como se organiza o biot&#233;rio. </p>     <p>     <b>O biot&#233;rio </b> </p>     <p>     A porta de entrada do pr&#233;dio onde funciona o biot&#233;rio d&#225; para um amplo galp&#227;o, em cujo centro est&#225; uma grande m&#225;quina. Saem     dela largos tubos que se dirigem ao teto, semelhantes a chamin&#233;s. &#192; primeira vista, o lugar lembra uma unidade fabril. Entretanto, aquele     equipamento nada produz, &#233; uma m&#225;quina na qual s&#227;o higienizadas as caixas em que vivem os animais &#8211; ratos, hamsters e camundongos. </p>     <p>     Na parede do lado esquerdo da entrada se v&#234; um painel contendo tabelas, quadros de informa&#231;&#245;es, escalas de hor&#225;rio de trabalho, de     lavagem de uniformes, n&#250;mero de animais solicitados pelos diferentes laborat&#243;rios, etc. Sua moldura &#233; formada por fotos ternas e graciosas     de filhotes de camundongos com olhos fechados, dormindo uns sobre os outros. Ao ver as fotos, me ocorreu tamb&#233;m que, neste recinto, talvez os animais     n&#227;o sejam apenas &#8220;coisas&#8221; ou &#8220;material descart&#225;vel&#8221;. </p>     <p>     Os animais residem em duas alas separadas, uma &#224; direita e a outra &#224; esquerda do galp&#227;o central. Nos recintos onde camundongos, ratos e     hamsters vivem a temperatura &#233; mantida continuamente a 21 graus, a preferida pelos moradores, e a umidade do ar tamb&#233;m &#233; controlada por um     sistema computadorizado. A ala da direita &#233; local de reprodu&#231;&#227;o dos animais e sua moradia at&#233; que chegue o momento em que come&#231;am     a participar nas pesquisas. Eles nascem a&#237;, onde s&#227;o cuidados por t&#233;cnicos e permanecem usualmente at&#233; a idade de tr&#234;s meses. As     habita&#231;&#245;es dos animais ficam em salas com portas que possuem janelas de vidro, para que eles sejam vistos sem que haja necessidade de contatarem     diretamente com pessoas. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     Em cada c&#244;modo h&#225; muitas gaiolas empilhadas umas sobre as outras, similares a pr&#233;dios altos. Cada caixa transparente, forrada com cama de     serragem, contendo dois a cinco animais, se acopla a uma estrutura met&#225;lica. Esta arma&#231;&#227;o &#233; parte do sistema de ventila&#231;&#227;o     que troca o ar das gaiolas a cada minuto; assim, embora as caixas normalmente sejam substitu&#237;das semanalmente, os animais jamais sentem cheiros de     excrementos. Na parte superior de cada uma das unidades s&#227;o colocadas &#225;gua e comida, e esta deve ter a textura apropriada para provocar algum     grau de desgaste nas presas dos roedores e n&#227;o deix&#225;-las crescer excessivamente. Em algumas das caixas s&#227;o postos brinquedos, pequenas bolas     de papel. De acordo com as normas do local, o bom cuidado n&#227;o se limita a oferecer comida, bebida e habita&#231;&#227;o apropriadas, inclui     tamb&#233;m uma preocupa&#231;&#227;o com o bem-estar psicol&#243;gico dos animais, por isso foram introduzidos elementos l&#250;dicos: as bolinhas de     papel. Segundo o respons&#225;vel pelo biot&#233;rio, t&#233;dio e ansiedade s&#227;o afec&#231;&#245;es das quais os animais n&#227;o s&#227;o poupados.     T&#233;cnicos e cuidadores do biot&#233;rio identificam facilmente seus sinais ao observarem falhas na pelagem do rosto, resultado de uma     repeti&#231;&#227;o excessiva do gesto comum de co&#231;ar a face. Esta observa&#231;&#227;o sobre as afli&#231;&#245;es dos animais n&#227;o &#233; apenas     um modo local de interpretar determinados comportamentos estereotipados dos animais; considera&#231;&#245;es sobre disposi&#231;&#245;es afetivas e sobre     os modos de lidar com elas s&#227;o encontradas na literatura sobre a boa pr&#225;tica de cuidados com os animais experimentais (Davies 2010). </p>     <p>     Se no biot&#233;rio h&#225; uma luta para evitar o &#8220;t&#233;dio&#8221; e a &#8220;ansiedade&#8221;, a batalha travada para impedir a entrada de     agentes patol&#243;gicos, contamina&#231;&#245;es e o aparecimento de doen&#231;as envolve muito mais esfor&#231;o e dilig&#234;ncia. Os humanos que entram     no recinto precisam usar gorro, capa, m&#225;scara, cobertura para os sapatos e luvas descart&#225;veis para impedir que elementos perigosos &#224;     sa&#250;de dos animais sejam trazidos ao interior do biot&#233;rio. Por isso tamb&#233;m a &#234;nfase na transpar&#234;ncia das gaiolas e janelas de     vidro, pois &#233; importante saber o que acontece nas caixas e ao mesmo tempo minimizar o contato com os humanos. Estes s&#227;o uma amea&#231;a     potencial, pois atuam como vetores de contamina&#231;&#227;o para os roedores. </p>     <p>     Os animais saem desta primeira ala quando s&#227;o requisitados para algum experimento. Na parte em que permanecem os animais &#8220;em uso&#8221;     encontramos a mesma temperatura e umidade do ar; tamb&#233;m h&#225; salas com in&#250;meras gaiolas, al&#233;m de espa&#231;os destinados &#224;     manipula&#231;&#227;o de animais. A&#237;, as caixas recebem etiquetas que identificam o laborat&#243;rio, a pesquisa, indicam datas e algumas     caracter&#237;sticas dos animais. A quase totalidade dos camundongos &#233; da ra&#231;a balbi &#8211; s&#227;o pequenos, brancos, com olhos vermelhos e     vivos. Em uma das salas para experimentos h&#225; uma esteira, semelhante &#224;s usadas em academias de gin&#225;stica, mas de menor comprimento. Adiante     falaremos dela. H&#225;, em outra sala, um equipamento onde s&#227;o feitas outras interven&#231;&#245;es nos animais, como as cirurgias e     disseca&#231;&#245;es. </p>     <p>     Os animais usualmente chegam saud&#225;veis na ala de experimenta&#231;&#227;o (exceto os diab&#233;ticos selecionados geneticamente) e s&#243; a&#237;     eles s&#227;o levados a adquirir alguma enfermidade espec&#237;fica (asma, doen&#231;a de Chagas, enfisema pulmonar, etc.). As pesquisas usualmente visam     caracterizar as consequ&#234;ncias de uma determinada condi&#231;&#227;o sobre &#243;rg&#227;os vitais &#8211; por exemplo, quais s&#227;o os efeitos da     obesidade no tecido hep&#225;tico ou na estrutura &#243;ssea &#8211; ou testar algum tratamento, medicamento ou interven&#231;&#227;o em animais adoecidos.     Por fim, o destino final: o sacrif&#237;cio. O desfecho de um experimento sempre envolve a morte do animal. Na maior parte das vezes isso acontece porque,     para a conclus&#227;o do trabalho de pesquisa, n&#227;o basta a descri&#231;&#227;o de resultados cl&#237;nicos positivos obtidos pelo pesquisador. &#201;     preciso acrescentar outras provas para sustentar a conclus&#227;o de uma investiga&#231;&#227;o. Via de regra, s&#227;o usadas como evid&#234;ncias     amostras de tecidos retiradas do corpo do animal, fragmentos que ser&#227;o depois preparados, corados, fotografados, congelados e constar&#227;o dos     relat&#243;rios e artigos escritos pelos pesquisadores. Isso exige que o animal, mesmo recuperado de uma doen&#231;a grave, pere&#231;a. Ainda quando isto     n&#227;o &#233; requerido, me disse Tiago, o respons&#225;vel pelo biot&#233;rio, o que fazer com o animal ao final da pesquisa? Neste biot&#233;rio, os     roedores n&#227;o s&#227;o reutilizados, assim s&#243; lhes resta como destino o sacrif&#237;cio. O pr&#243;prio Tiago admite que, embora esta seja uma     tarefa corriqueira, nunca &#233; feita por ele sem pesar. </p>     <p>     <b>Sacrif&#237;cio e manuseio de animais </b> </p>     <p>     Para alguns dos respons&#225;veis por experimentos, a realiza&#231;&#227;o de procedimentos que ferem, causam doen&#231;a e dor parece n&#227;o ser     t&#227;o problem&#225;tica quanto o sacrif&#237;cio. H&#225; ind&#237;cios deste fato na conversa com as pesquisadoras que relatei anteriormente; por     exemplo, a dr.&#170; Beatriz nunca suportou a ideia de matar os animais &#8211; ela n&#227;o mencionou os v&#225;rios sofrimentos envolvidos nos     experimentos &#8211; e tamb&#233;m a dr.&#170; D&#233;bora falou em sacrificar os animais. Ur&#226;nia, mestranda que faz pesquisa na &#225;rea de dor, nos      diz: </p>     <p>     &#8220;Ur&#226;nia:&#8194;[&#8230;] eu acho que eu venho desmistificando um pouco isso [o uso de camundongos], principalmente trabalhando com dor, n&#233;?     [&#8230;] procuro ver o que ele [o camundongo] &#8217;t&#225; sentindo, at&#233; onde o que ele sente &#233; reflexo e o que realmente &#233; dor, mas uma     coisa assim que ainda &#233; p&#8217;ra mim dif&#237;cil, assim, de aceitar completamente &#233; a ideia de sacrificar os animais, n&#233;? Voc&#234; faz o     experimento com 20 animais &#8211; usei, n&#227;o vou usar mais para nada, a&#237; sacrifico. Faz o deslocamento cervical, ent&#227;o, voc&#234; segura o     rabinho, puxa a cabe&#231;a, a&#237; interrompe a liga&#231;&#227;o com o bulbo, que &#233; onde fica o centro da respira&#231;&#227;o, a&#237; ele morre     rapidinho. [&#8230;] A gente estuda a dor, ent&#227;o a gente provoca a dor no animal p&#8217;ra estudar, n&#233;, ent&#227;o injeta &#225;cido     ac&#233;tico na &#173;cavidade abdominal e ele vai demonstrar um comportamento de dor [&#8230;] Eu tenho assim simpatia pelo vegetarianismo, n&#227;o matar     animais p&#8217;ra comer [&#8230;], ent&#227;o, sabe, eu ainda n&#227;o digeri por completo esse fato de ter que sacrificar animais, n&#233;, s&#227;o 20,     30, 15 ratos, camundongos, e a&#237; o que eu penso, e me d&#225; uma certa for&#231;a, &#233; pensar que tem um objetivo maior, que vai salvar algumas     vidas ou ajudar, n&#233;, no conforto de algumas pessoas no futuro, mas &#233; uma coisa que me incomoda.&#8221; </p>     <p>     Faz parte da pesquisa de Ur&#226;nia produzir dor. Em seu aprendizado ela desenvolveu a sensibilidade e a habilidade para discernir, a partir das     rea&#231;&#245;es dos animais, aqueles comportamentos que expressam dor e n&#227;o mero reflexo. Sua maior dificuldade permanece, entretanto, a     realiza&#231;&#227;o do sacrif&#237;cio. S&#225;, Medeiros e Schirmann (2011) tamb&#233;m encontraram, em seu estudo sobre rela&#231;&#245;es de humanos     com cobaias em um laborat&#243;rio, o mesmo sentimento de pesar vinculado mais &#224; realiza&#231;&#227;o do sacrif&#237;cio do que ao ato de infligir um     sofrimento ao animal, quando tal ato &#233; uma exig&#234;ncia do protocolo experimental. Para eles o <i>blues </i>relacionado &#224; morte do animal     &#233; amenizado quando h&#225; resultados e uma produ&#231;&#227;o que legitima aquele sofrimento como algo v&#225;lido. </p>     <p>     O sacrif&#237;cio &#233;, para Lynch (1988), um dos aspectos centrais no trabalho com animais em laborat&#243;rio. De acordo com ele, h&#225; um conjunto     de pr&#225;ticas que realizam a passagem do &#8220;animal natural&#237;stico&#8221;, um organismo vivo e completo, para o &#8220;animal     anal&#237;tico&#8221;, cujas partes do corpo s&#227;o transformadas em artefatos de laborat&#243;rio, como l&#226;minas contendo material biol&#243;gico,     e, portanto, convertidas em dados. Este processo &#233; descrito por ele como a realiza&#231;&#227;o de rituais de purifica&#231;&#227;o. Al&#233;m disso,     a recorr&#234;ncia do termo sacrif&#237;cio nas falas de pesquisadores aponta, segundo Lynch, para a exist&#234;ncia de um discurso sacralizador, em um     duplo sentido. O primeiro e mais &#243;bvio &#233; que o animal &#233; imolado em nome de interesses mais elevados, a cura de doen&#231;as ou o avan&#231;o     da ci&#234;ncia, como vimos no fragmento da entrevista com Ur&#226;nia. O segundo sentido envolve a convers&#227;o do animal em objeto sagrado de     investiga&#231;&#227;o t&#233;cnica na cosmologia cient&#237;fica. Mas, ao examinar essa quest&#227;o, Lynch estava pouco interessado nos animais e nas     suas rela&#231;&#245;es com os humanos, sua preocupa&#231;&#227;o era com o processo de produ&#231;&#227;o de conhecimento e o lugar central que o     sacrif&#237;cio representa nesta constru&#231;&#227;o. </p>     <p>     Sendo, ao contr&#225;rio, esta a preocupa&#231;&#227;o aqui, retomo o in&#237;cio da fala de Ur&#226;nia: &#8220;venho desmistificando&#8230;&#8221; O que     ela pode querer dizer com isso? Outros relatos podem nos fazer supor que ela est&#225; se tornando habituada aos animais, assim como estes tamb&#233;m     devem se habituar aos humanos no laborat&#243;rio. Ela est&#225; sendo transformada pela experi&#234;ncia de lidar com camundongos e ratos, algo que neste     contexto faz parte do que &#233; &#8220;tornar-se cientista&#8221;. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     A pr&#243;pria Ur&#226;nia conta como foi o seu come&#231;o: </p>     <p>     &#8220;Ur&#226;nia:&#8194;Eu fiz um curso aqui de manipula&#231;&#227;o de animais, foi a&#237; que eu tive o primeiro contato, mas foi curtinho, n&#233;?     A&#237; a minha orientadora pediu os animais para a gente fazer o experimento e eu fui manipular com ela, ent&#227;o ela pegava, botava a m&#227;o na     caixa, pegava o animal e eu ficava, n&#233;, com medo de ele me morder, com receio, eu tava com mais medo do animal do que ele de mim, n&#233;, e a&#237;     fui manipulando, fui pegando o jeito assim com um, dois dias eu pegava j&#225; [&#8230;], a&#237; tinha que segurar ele pela patinha, aplicar a     inje&#231;&#227;o, ent&#227;o no come&#231;o eu segurava os animais morrendo de medo, depois eu peguei o jeito.&#8221; </p>     <p>     Pode parecer bastante &#243;bvio, mas tocar um camundongo, executar uma s&#233;rie de procedimentos com eles, como ensinar a correr em uma esteira     ergom&#233;trica, dar inje&#231;&#227;o, fazer uma cirurgia, n&#227;o fazem parte do repert&#243;rio de gestos que usualmente dirigimos a animais. Para ser     um bom pesquisador/experimentador, ao menos em seu est&#225;gio inicial, n&#227;o basta a habilidade para lidar com o &#8220;animal     anal&#237;tico&#8221;, &#233; preciso disposi&#231;&#227;o e aprendizado para lidar com o &#8220;animal natural&#8221;, cuja mordida tememos, e saber fazer     coisas com ele. </p>     <p>     &#8220;Danilo:&#8194;A primeira vez que eu fui injetar um camundongo, eu matei ele na minha m&#227;o de tanto nervosismo, eu peguei o camundongo, fui     injetar no perit&#244;nio com a t&#233;cnica do meu lado me ensinando na primeira vez. [&#8230;] Foi uma tremedeira t&#227;o grande que eu injetei a agulha     tremendo e ele morreu em minha m&#227;o, eu acho que dilacerei todos os &#243;rg&#227;os dele ali. A&#237; eu disse para t&#233;cnica, voc&#234; j&#225; me     ensinou, agora me arruma a&#237; uns camundongos e me deixa quietinho treinando, a&#237; eu fiquei quietinho, s&#243; eu e os camundongos&#8230; [&#8230;]     A&#237; eu fiquei tentando pegar ele firme e injetar, a&#237; eu chegava com a agulha e dizia para mim: oh, tem que parar com o nervosismo. Acabei sozinho     aprendendo, eu nunca mais errei, foi s&#243; a primeira vez que me traumatizou tanto&#8230;&#8221; </p>     <p>     Quando Gabriela, que tinha forma&#231;&#227;o em bot&#226;nica, teve a sua primeira conversa com a coordenadora do laborat&#243;rio, esta perguntou a ela:     &#8220;Voc&#234; n&#227;o tem medo de rato, n&#227;o &#233;?&#8221; Ela respondeu que n&#227;o. Ela me diz, depois de narrar o di&#225;logo com a     coordenadora: </p>     <p>     &#8220;Gabriela:&#8194;Hoje eu trato com camundongo como uma coisa, que &#233; algo que nunca imaginei que fosse fazer, n&#233;? Eu fa&#231;o     sacrif&#237;cios, eu n&#227;o imaginei que ia fazer isso sem dar muita import&#226;ncia, tudo bem que antes eu matava a plantinha, mas ela n&#227;o tinha     nenhum movimento, n&#233;?&#8221; </p>     <p>     Um dos sentidos de tratar o animal como &#8220;coisa&#8221; parece ser sacrific&#225;-lo sem pesar, ganhar indiferen&#231;a com rela&#231;&#227;o ao fato     de que ele &#233; sens&#237;vel e movente. Estar acostumado ao animal significa ser capaz de manuse&#225;-lo com destreza e de p&#244;r fim &#224; sua vida     ao final do experimento. Mas estar familiarizado com eles, saber as manobras necess&#225;rias ao seu manejo n&#227;o garante que a conviv&#234;ncia     ser&#225; sempre pac&#237;fica e que os animais atuar&#227;o do modo como se espera. </p>     <p>     &#8220;Diana:&#8194;Porque a pesquisa &#233; uma coisa muito ingrata, um dia d&#225; tudo certo, no outro dia voc&#234; faz o trabalho e d&#225; tudo     errado [&#8230;] Sabe o que &#233; voc&#234; fazer o experimento nas mesmas condi&#231;&#245;es que voc&#234; fez na semana anterior e n&#227;o funcionar     nada? Mas s&#227;o v&#225;rios fatores que influenciam, por exemplo, o animal, se &#8217;tava estressado, se mudaram a ra&#231;&#227;o do animal, pode ser     que esse experimento d&#234; um resultado diferente [&#8230;].&#8221; </p>     <p>     &#8220;Paulo:&#8194;A nossa pesquisa &#233; pesquisa de aplica&#231;&#227;o, &#233; pr&#225;tica, ent&#227;o &#224;s vezes acontece da infec&#231;&#227;o     n&#227;o &#8217;tar no dia correto, ou a gente esperava que o parasita estivesse num est&#225;gio avan&#231;ado no animal, mas n&#227;o avan&#231;ou. Mas a     gente vai contornando, n&#233;.&#8221; </p>     <p>     Os animais n&#227;o apenas se estressam com altera&#231;&#245;es em seu meio, ou, como mencionado antes, se entediam com a falta de est&#237;mulos, advinda     da vida de rotinas quase inalter&#225;veis, ou, ainda, resistem mais &#224; infec&#231;&#227;o do que era esperado; h&#225; outros acontecimentos     inesperados, nem todos eles com consequ&#234;ncias negativas: </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     &#8220;Aconteceu um epis&#243;dio l&#225; no laborat&#243;rio muito interessante. Ent&#227;o eles [pesquisadores] estudavam uma determinada prote&#237;na     na linhagem de camundongo balbi. S&#243; que faltou o balbi e eles queriam fazer o experimento de todo jeito. [&#8230;] A&#237; um aluno chegou p&#8217;ra     o orientador e disse: s&#243; tem asnel. A&#237; ele disse: traz esse asnel mesmo. Ent&#227;o eles pegaram esse asnel e imunizaram. [&#8230;] Com balbi     estava dando algum resultado, eles conseguiam cinquenta por cento de sobreviv&#234;ncia. [&#8230;]. Eles pegaram esse asnel e fizeram a mesma coisa,     a&#237; teve uma sobreviv&#234;ncia de 70 a 80 por cento&#8221; [fragmento de entrevista citado em Almeida (2009: 77)]. </p>     <p>     Os animais podem surpreender e responder de modo diverso ao que &#233; feito com eles quando entram em algum protocolo de pesquisa em que s&#227;o medidos,     pesados, treinados, adoecidos, tratados, manuseados de diferentes formas. Um dos tipos de manipula&#231;&#227;o de animais mais comum no laborat&#243;rio     &#233; a realiza&#231;&#227;o de cirurgias com os camundongos para a extra&#231;&#227;o de &#243;rg&#227;os e tecidos a serem depois transformados em     l&#226;minas, para esquadrinhamento no microsc&#243;pio, produ&#231;&#227;o de imagens, etc. H&#225; todo um conjunto de materiais requeridos para isso.     Sandro, doutorando do laborat&#243;rio, descreve esse tipo de procedimento: </p>     <p>     &#8220;Sandro:&#8194;Se eu vou fazer uma cirurgia num animal, bom, fecho os olhos e digo: vou precisar anestesiar o animal, ent&#227;o eu preciso do     anest&#233;sico tal, ent&#227;o eu vou pegando e colocando junto de mim, vou precisar de seringa e agulha para injetar, vou abrir o animal, tesoura tal,     pin&#231;a tal, vou precisar coletar sangue, ent&#227;o vou pegar uma pipeta, vou pegar uma pera, vou colocando tudo ali ordenadamente no ponto onde vou     trabalhar, n&#227;o &#8217;tou nem com o animal ali na mesa ainda, mas fa&#231;o todo o procedimento, vou suturar, vou precisar de fio de sutura, vou tirar     &#243;rg&#227;o, vou precisar fixar, ent&#227;o vou ter que ter fixador, formol, vou pegar isso, vou congelar, vou botar isso em gelo&#8230;&#8221; </p>     <p>     Este exemplo n&#227;o mostra apenas um dos procedimentos comuns no biot&#233;rio, indica tamb&#233;m que o animal &#233; um componente de um dispositivo     experimental bem mais complexo. H&#225; as cirurgias feitas nos animais &#8211; e todas as ferramentas necess&#225;rias. Estas poderiam ser destinadas, por     exemplo, a injetar c&#233;lulas-tronco via a art&#233;ria caudal do animal, a fim de avaliar seus efeitos, algum tempo depois, sobre o cora&#231;&#227;o     chag&#225;sico. Para comprovar os efeitos do experimento, ser&#225; preciso nova interven&#231;&#227;o. Neste caso, al&#233;m dos materiais usuais nas     cirurgias, s&#227;o requeridos fixadores, l&#226;minas, corantes, que se conectam ao sofisticado microsc&#243;pio e a uma m&#225;quina fotogr&#225;fica     ultrapotente que registrar&#225; as imagens dos tecidos card&#237;acos. Al&#233;m disso, o material biol&#243;gico ser&#225; congelado e mantido etiquetado     e identificado em um <i>freezer</i> e poder&#225; ser revisto em qualquer momento. As interven&#231;&#245;es ser&#227;o realizadas em um equipamento que     impede a troca de ar entre o espa&#231;o de manuseio do animal e o exterior, e este aparelho soma-se a outros procedimentos protocolados para minimizar ou     impedir contamina&#231;&#245;es no meio e no material coletado. </p>     <p>     As entidades experimentais no laborat&#243;rio s&#227;o submetidas a um sistema experimental envolvendo um arranjo de coisas, procedimentos, habilidades     que no laborat&#243;rio tem como objetivo responder &#224;s perguntas feitas pelo experimentador, que, por sua vez, devem se converter em enunciados     aceitos por outros (Rheinberger 1997). Justamente o que singulariza a ci&#234;ncia em rela&#231;&#227;o a outras pr&#225;ticas que envolvem a     produ&#231;&#227;o de assertivas e persuas&#227;o &#233; que suas estrat&#233;gias de convencimento dependem, em larga medida, da materializa&#231;&#227;o     das provas, da realiza&#231;&#227;o de procedimentos, da fabrica&#231;&#227;o de inscri&#231;&#245;es que visam garantir a realidade dos resultados obtidos     experimentalmente. O experimento confere ao experimentador o direito de falar em nome das coisas, ele &#233; sua fonte de autoridade (Stengers 2002). </p>     <p>     Assim, quanto mais elementos o cientista agrega ao seu dispositivo experimental &#8211; algo que pode diferenciar um laborat&#243;rio de outro e mostrar a     superioridade das provas obtidas a&#237; &#8211;, mais chances ele ter&#225; de fazer valer seus enunciados. Diana, bolsista de p&#243;s-doutorado, por     exemplo, conseguiu responder &#224; quest&#227;o posta em seu trabalho de doutorado gra&#231;as a um componente diferencial do laborat&#243;rio: o     camundongo fluorescente. </p>     <p>     &#8220;Diana:&#8194;Utilizei os camundongos que tem aqui, transg&#234;nicos da prote&#237;na GSP, que a gente n&#227;o tinha em S&#227;o Paulo, ent&#227;o     consegui responder algumas perguntas que n&#227;o tinha como responder no outro laborat&#243;rio. [&#8230;] Todas as c&#233;lulas desse camundongo s&#227;o     fluorescentes verdes. Ent&#227;o a gente pegou algumas c&#233;lulas do sistema imune dele. Depois a gente pegou um animal que n&#227;o &#233; verde,     irradiou o animal e matou todas as c&#233;lulas do sistema imune dele. A&#237; injetamos as c&#233;lulas do sistema imune do animalzinho verde, ent&#227;o     todas essas c&#233;lulas do sistema imune desse animal, que era selvagem, agora s&#227;o verdes. [&#8230;] Com microscopia de fluoresc&#234;ncia (o sistema     de microscopia de fluoresc&#234;ncia daqui &#233; fant&#225;stico, acho que n&#227;o tem outro t&#227;o bom no Brasil), a gente podia acompanhar essas     c&#233;lulas no animal, ent&#227;o a gente injetava o tumor e via que essas c&#233;lulas verdes iam atr&#225;s do tumor e depois com o tratamento da enzima     a gente aumentava o n&#250;mero de c&#233;lulas verdes que iam atr&#225;s do tumor. A gente achava que a inibi&#231;&#227;o do crescimento do tumor estava     correlacionada, n&#233;, com a enzima que estimularia o sistema imune p&#8217;ra combater o tumor. Isso eu n&#227;o podia fazer l&#225; [em S&#227;o Paulo]     porque n&#227;o tinha esses camundongos.&#8221; </p>     <p>     Os camundongos fluorescentes, associados aos camundongos &#8220;selvagens&#8221; (n&#227;o verdes), ao equipamento de irradia&#231;&#227;o, ao     microsc&#243;pio de fluoresc&#234;ncia e a outros componentes do dispositivo laboratorial permitiram a Diana propor quest&#245;es para as quais as     respostas n&#227;o poderiam ser encontradas no laborat&#243;rio ao qual ela estava antes filiada. Particularmente os animais transg&#234;nicos e a     aparelhagem de microscopia conferiram ao laborat&#243;rio um car&#225;ter distintivo, uma vez que l&#225; se podem obter provas diferenciadas, capazes de     sustentar um enunciado acerca das propriedades imunomoduladoras e antitumorais de uma subst&#226;ncia. </p>     <p>     Recentemente foi incorporado ao aparato instrumental um novo equipamento, um aparelho para a realiza&#231;&#227;o de ecocardiogramas em camundongos. Este     equipamento tamb&#233;m confere uma posi&#231;&#227;o de vantagem ao laborat&#243;rio. Qual o &#8220;diferencial&#8221; obtido com a aquisi&#231;&#227;o     deste equipamento? Nina, pesquisadora que opera o aparelho, nos explica o ganho obtido com ele. Anteriormente, ela trabalhava com terapia gen&#233;tica     para cardiopatia, usando o rato como modelo experimental. Ela acompanhava o que acontecia com o cora&#231;&#227;o de seus animais usando equipamento para     ecocardiogramas feito para humanos. O cora&#231;&#227;o do camundongo, entretanto, &#233; menor e mais r&#225;pido que o do rato, o que impede a sua     visualiza&#231;&#227;o com um aparelho convencional; assim, a verifica&#231;&#227;o e o acompanhamento dos resultados do tratamento com     c&#233;lulas-tronco, at&#233; ent&#227;o, implicava na necessidade da realiza&#231;&#227;o de transplantes em um n&#250;mero maior de animais, muito     pr&#243;ximos geneticamente, cada um dos quais era sacrificado ap&#243;s determinado intervalo de tempo, para que fosse estabelecida uma s&#233;rie     temporal de avalia&#231;&#245;es. Mas o uso do equipamento apropriado, que &#8220;tem uma pot&#234;ncia muito maior, permite que a gente tenha imagens     assim como se fosse um cora&#231;&#227;o de humano&#8230;&#8221;, como disse Nina. Continua ela: </p>     <p>     &#8220;Nina:&#8194;Ent&#227;o o equipamento &#233; novo, [&#8230;] e eles querem ver como est&#225; o cora&#231;&#227;ozinho desses camundongos&#8230; A     gente anestesia e faz o exame por fora, n&#233;, que a pesquisa experimental &#233; muito invasiva; para ver, o jeito &#233; matar o bichinho, abrir e     olhar o cora&#231;&#227;o&#8230; Com esse equipamento voc&#234; pode fazer isso sem abrir o animal, que se mant&#233;m vivo, e voc&#234; vai acompanhando     ele ao longo do tempo como se fosse um ser humano mesmo&#8230; [&#8230;] &#201; um trabalho novo, n&#233;? Ningu&#233;m tinha feito isso, esse equipamento     &#233; &#250;nico em toda Am&#233;rica Latina. [&#8230;] Esse aqui &#233; s&#243; para camundongos e ratos, nem &#233; p&#8217;ra humanos. A diferen&#231;a     &#233; a seguinte: o nosso cora&#231;&#227;o bate em m&#233;dia 70 batimentos por minuto, o ratinho em torno de 250 por minuto, o camundongo 650 por     minuto, ent&#227;o a velocidade &#233; imensa, num pedacinho assim do tamanho da minha pontinha de dedo, ent&#227;o &#233; muito pequeno&#8230; Precisa ter     um equipamento que consiga ver toda a parte interna desse cora&#231;&#227;o pequeno que &#8217;t&#225; batendo 600 vezes por minuto, ent&#227;o esse     equipamento &#233; muito bom&#8230;&#8221; </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     Com esse novo equipamento &#233; poss&#237;vel obter provas, que n&#227;o seriam alcan&#231;&#225;veis de outro modo, devido &#224;s especificidades do     cora&#231;&#227;o do camundongo, seu ritmo e tamanho. Mas justamente por se ajustar ao que &#233; pr&#243;prio ao animal &#233; que, como diz Nina, &#233;     poss&#237;vel ver o seu cora&#231;&#227;o e acompanhar os desdobramentos do tratamento como se faz com humanos, sem que a s&#233;rie temporal das imagens     dependa do sacrif&#237;cio de uma s&#233;rie de animais &#8220;id&#234;nticos&#8221;. A considera&#231;&#227;o da diferen&#231;a do corpo do camundongo,     tornada poss&#237;vel pelo aparelho, permite que ele seja visto como se fosse humano. </p>     <p>     Como vimos, os camundongos no laborat&#243;rio s&#227;o animais altamente selecionados, especificados em suas linhagens e variedades; os modelos animais     com doen&#231;as importantes para os humanos s&#227;o resultado de custosos esfor&#231;os para sua produ&#231;&#227;o. Eles s&#227;o recursos bastante     valiosos para o laborat&#243;rio, por isso, na maior parte das vezes, os experimentos s&#227;o realizados inicialmente <i>in vitro</i> e apenas quando os     primeiros resultados autorizam &#233; que se inicia a fase de teste <i>in vivo</i>. O animal &#233; um recurso a ser usado com parcim&#244;nia. Sua     obten&#231;&#227;o envolve a obedi&#234;ncia a uma sequ&#234;ncia de a&#231;&#245;es. Antes de seu in&#237;cio, &#233; necess&#225;rio que o projeto seja     examinado pelo CEUA, que avalia se os procedimentos propostos s&#227;o apropriados. Esta aprecia&#231;&#227;o consiste em um julgamento acerca da     quantidade de animais que se pretende utilizar &#8211; a demanda &#233; excessiva ou adequada? Ali&#225;s, o respons&#225;vel pelo biot&#233;rio me     informou, com satisfa&#231;&#227;o, que, nos &#250;ltimos anos, o rigor na avalia&#231;&#227;o do n&#250;mero de animais necess&#225;rios &#224; pesquisa     conduziu a um decr&#233;scimo significativo na produ&#231;&#227;o de camundongos e ratos naquela institui&#231;&#227;o. Al&#233;m disso, a qualidade     cient&#237;fica da investiga&#231;&#227;o tamb&#233;m &#233; levada em conta &#8211; o protocolo &#233; claro e bem formulado? Ele permite responder     &#224;s perguntas colocadas pela pesquisa? Caso as respostas a estas quest&#245;es sejam negativas, a autoriza&#231;&#227;o para a realiza&#231;&#227;o da     investiga&#231;&#227;o n&#227;o &#233; concedida &#8211; ao menos temporariamente, at&#233; que eventuais pend&#234;ncias sejam resolvidas &#8211;, pois     n&#227;o se pode conceder licen&#231;a para usar e sacrificar animais se a pesquisa n&#227;o &#233; bem avaliada do ponto de vista t&#233;cnico e     cient&#237;fico. </p>     <p>     Quando o projeto &#233; aprovado pela CEUA, uma solicita&#231;&#227;o &#233; feita ao biot&#233;rio para que providencie a entrega do lote de animais     requisitado. S&#243; ent&#227;o come&#231;a uma quest&#227;o pr&#225;tica fundamental: como obter os animais doentes e como lidar com eles? </p>     <p>     <b>Lidando com os modelos de doen&#231;a </b> </p>     <p>     Usualmente o animal aparece como &#8220;modelo&#8221; para a compreens&#227;o de processos biol&#243;gicos ou para a antecipa&#231;&#227;o das     consequ&#234;ncias de determinados procedimentos (administra&#231;&#227;o de drogas, realiza&#231;&#227;o de tratamentos, etc.) em humanos. Mas falar de     modelos em ci&#234;ncia n&#227;o significa apenas dizer que estes s&#227;o representa&#231;&#245;es cognitivas, eles s&#227;o tamb&#233;m     encarna&#231;&#245;es de a&#231;&#245;es e pr&#225;ticas que constituem tipos de quest&#245;es cient&#237;ficas e indicam que perguntas podem ser     respondidas (Friese 2009). Segundo Birke (2003), o modelo animal &#233; &#173;desnaturalizado e abstrato, pois &#233; um &#8220;organismo artificial&#8221;     e um instrumento destinado a fazer a &#8220;natureza&#8221; falar. Mas como essa entidade abstrata e desnaturalizada &#233; manejada na pr&#225;tica pelas     m&#227;os de humanos &#8211; pesquisadores e t&#233;cnicos &#8211; aos quais eles podem morder, dos quais eles podem querer fugir? E como o animal abstrato     emerge do animal vivo, reativo e em movimento no laborat&#243;rio? </p>     <p>     No laborat&#243;rio, a maioria das pesquisas est&#225; voltada para a produ&#231;&#227;o de conhecimento que em &#250;ltima inst&#226;ncia beneficiar&#225;     humanos. Se os camundongos s&#227;o os substitutos destes na experimenta&#231;&#227;o de tratamentos com c&#233;lulas-tronco ou outros medicamentos, &#233;     imprescind&#237;vel que os animais sofram das mesmas doen&#231;as das quais os humanos padecem. Mas, se os animais chegam aos experimentos sem qualquer     enfermidade, a produ&#231;&#227;o de modelos com doen&#231;as espec&#237;ficas &#233; uma das primeiras tarefas a serem executadas nas     investiga&#231;&#245;es que envolvem o uso de animais. Como isso &#233; feito? </p>     <p>     Vejamos como se produz hipertrofia card&#237;aca: </p>     <p>     &#8220;Nina:&#8194;Eu trabalhei com hipertrofia do cora&#231;&#227;o, ent&#227;o eu [a] induzia no ratinho, colocava um anelzinho na sa&#237;da da aorta     quando o ratinho era bebezinho, o anel ficava folgado, na medida em que o animal ia crescendo o anel come&#231;ava a apertar a art&#233;ria e o     cora&#231;&#227;o, p&#8217;ra jogar o sangue fora tinha que fazer muito mais for&#231;a porque o sangue tinha de passar por um lugarzinho estreito e isso     acaba aumentando o cora&#231;&#227;o de tamanho. &#201; parecido com as doen&#231;as que tem em humanos, ent&#227;o a gente imitava no rato a mesma coisa     que acontece no humano.&#8221; </p>     <p>     Em outro caso, Eduardo, bolsista de inicia&#231;&#227;o, ao apresentar seu trabalho na sess&#227;o cient&#237;fica do laborat&#243;rio, conta a labuta para     a produ&#231;&#227;o do seu modelo animal de DPOC, doen&#231;a pulmonar obstrutiva cr&#244;nica. Depois de estabelecer a relev&#226;ncia da doen&#231;a em     humanos, ele abordou seu problema pr&#225;tico inicial: como produzir camundongos com DPOC? Como provar e exibir a sua realiza&#231;&#227;o? Isto se     mostrou uma tarefa realmente complicada. </p>     <p>     Primeiro foi preciso ensinar os camundongos a usarem a esteira ergom&#233;trica. Passado o per&#237;odo de aprendizado, o desempenho dos animais foi     testado e mediu-se o tempo que levavam para atingir a exaust&#227;o. A medida &#233; feita da seguinte forma: o camundongo &#233; posto para andar em uma     esteira com inclina&#231;&#227;o de 10 graus, cuja velocidade &#233; aumentada em intervalos regulares de tempo, e o animal mostra que est&#225; exausto     quando cai para tr&#225;s da esteira; em seguida, est&#237;mulos &#8211; pequenos choques el&#233;tricos &#8211; s&#227;o administrados ao camundongo, que,     se ainda tiver alguma for&#231;a, tornar&#225; a correr, mas, caso contr&#225;rio, permanecer&#225; deitado, mesmo recebendo os est&#237;mulos dolorosos. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     Tendo registrado o desempenho dos animais, Eduardo administrou-lhes uma subst&#226;ncia, esperou 21 dias e testou mais uma vez o desempenho deles. Desta     feita, seu desempenho foi bem inferior ao que fora alcan&#231;ado antes. Assim, estava provado clinicamente que os animais apresentavam sinais de     doen&#231;a pulmonar. </p>     <p>     Mas isso n&#227;o bastava, era necess&#225;rio multiplicar as provas de que os animais sofriam realmente de DPOC. Para isso era preciso produzir amostras     do tecido pulmonar, coloc&#225;-las em l&#226;minas, colori-las e fotograf&#225;-las, para finalmente ter a prova definitiva. Isso n&#227;o se mostrou nada     f&#225;cil. Ele adotou o seguinte procedimento: prendeu algumas seringas &#224; parede, verticalmente, e acoplou a sua ponta uma fina mangueira, que foi     introduzida na traqueia dos animais, dos quais ele havia descartado a cabe&#231;a. Atrav&#233;s das mangueiras gotejava um l&#237;quido que preenchia     lentamente os pulm&#245;es dos camundongos (se o gotejamento fosse muito r&#225;pido, o tecido do pulm&#227;o poderia ser rompido). Depois de duas horas     ele retirou tecido pulmonar, montou as l&#226;minas, fotografou-as, mostrando o novo tamanho dos alv&#233;olos (pois o que caracteriza a doen&#231;a &#233;     o aumento dos alv&#233;olos pulmonares). Para ele, o que exigiu mais delicadeza e precis&#227;o foi fazer a incis&#227;o para introduzir a mangueira sem     dilacerar a sua pequena e fr&#225;gil traqueia. </p>     <p>     Durante a apresenta&#231;&#227;o, ao descrever esses procedimentos, ele mostrou a foto das seringas em cuja parte inferior estavam acopladas as mangueiras.     Ele disse que sob as colunas estavam camundongos pendentes, mas em seguida se corrigiu: &#8220;quer dizer, n&#227;o todo o camundongo, uma parte deles     j&#225; foi descartada&#8221;. A parte descartada dos camundongos era obviamente a cabe&#231;a, e ele os retirou da imagem porque tal vis&#227;o poderia     melindrar as pessoas. Uma pesquisadora que estava na audi&#234;ncia observa que viu os &#8220;bichinhos&#8221; sem cabe&#231;a, ela n&#227;o se chocou e     complementa: &#8220;essa &#233; nossa vida, n&#243;s estamos acostumados com isso&#8221;. </p>     <p>     Esse exemplo nos mostra como a no&#231;&#227;o de modelo que por vezes aparece na literatura com um sentido abstrato, ou como uma realiza&#231;&#227;o     pouco problem&#225;tica, quando revelada nos seus detalhes pr&#225;ticos se mostra mais complexa. Construir o modelo requer habilidades de quem manuseia o     animal, por exemplo, delicadeza ao fazer incis&#245;es para n&#227;o destruir algo que j&#225; foi custoso produzir &#8211; como camundongos com DPOC     comprovada em testes cl&#237;nicos. Tamb&#233;m &#233; preciso familiaridade com o contexto de pr&#225;tica para n&#227;o se abalar com os procedimentos     aos quais &#233; preciso submet&#234;-los, como disse essa pessoa da audi&#234;ncia: ver animais sem cabe&#231;a n&#227;o nos choca, pois essa &#233; nossa     vida, quer dizer, vida de cientistas. </p>     <p>     <b>Conclus&#227;o </b> </p>     <p>     A antropologia da vida se interessa pelos efeitos de nosso entrela&#231;amento com outros tipos de seres vivos, pelo que se produz nessa     interse&#231;&#227;o entre os viventes. No contexto de pr&#225;tica observado, podemos dizer que, do mesmo modo que o animal de laborat&#243;rio &#233;     feito no biot&#233;rio pelos humanos &#8211; ele &#233; concebido, homogeneizado geneticamente, protegido de enfermidades, afetado por doen&#231;as espec&#237;ficas sobre as quais se deseja conhecer algum aspecto, tecidos de seu corpo s&#227;o retirados, coloridos, fotografados, guardados no    <i>freezer</i>, etc. &#8211;, o pesquisador tamb&#233;m &#233; feito parcialmente pelos animais. Se tornar um cientista neste contexto &#233;, em grande     medida, aprender a tratar os camundongos como coisas, ser indiferente &#224; vis&#227;o de mutilados, trat&#225;-los como objeto de curiosidade e como     recurso dispon&#237;vel, mas tamb&#233;m estabelecer com ele alguma forma de comunica&#231;&#227;o, de tal modo que seja poss&#237;vel reconhecer quando     seu comportamento &#233; um mero reflexo ou quando expressa dor, identificar em que situa&#231;&#245;es a ansiedade dos animais confunde o resultado de um     experimento, ensinar camundongos a usar a esteira ergom&#233;trica, etc. Ou seja, na situa&#231;&#227;o experimental envolvendo humanos e camundongos     &#8211; ou outros esp&#233;cimes &#8211; n&#227;o se deve proceder como um &#8220;autista cosmol&#243;gico&#8221; (Kohn 2007), se se deseja sucesso nos     afazeres empreendidos em comum, ainda que em situa&#231;&#227;o de assimetria. </p>     <p>     Engajamento e distanciamento s&#227;o dois momentos heterog&#234;neos, que se alternam na mesma rela&#231;&#227;o e, neste caso, um necessita do outro para     que a pesquisa chegue a um bom termo. Segundo Holmberg (2011), o aprendizado do manuseio de roedores n&#227;o corresponde a um processo em que h&#225;     primeiro uma familiariza&#231;&#227;o com os animais e os iniciantes se habituam a toc&#225;-los, n&#227;o tem&#234;-los, para em seguida aprenderem a     reduzi-los a meros objetos atrav&#233;s de procedimentos t&#233;cnicos. Mesmo no contexto do laborat&#243;rio, os pesquisadores s&#227;o incitados a     desenvolver um sentimento pelos animais, e isto n&#227;o se deve a qualquer discurso superficial sobre o bem-estar do animal, sendo antes um requerimento     para a boa pr&#225;tica de pesquisa, pois, no cuidado com o animal, todos os aspectos e vari&#225;veis do experimento devem ser levados em     considera&#231;&#227;o. &#201; importante observar que o cuidado com os animais envolve uma considera&#231;&#227;o daquilo que lhes &#233; pr&#243;prio, de     suas especificidades, afec&#231;&#245;es e a&#231;&#245;es. </p>     <p>     Com efeito, n&#227;o h&#225; passividade de lado algum. O camundongo, embora possa ser tratado como uma qualquer ferramenta, &#233; uma ferramenta singular     de v&#225;rios modos. Ele aprende a fazer coisas pouco usuais se os comparamos a seus semelhantes habitantes do mundo exterior ao biot&#233;rio. Aprendem a     correr em esteiras ergom&#233;tricas, se estressam com mudan&#231;as em sua alimenta&#231;&#227;o, se entediam ou sofrem crises de ansiedade, seus corpos     resistem mais do que o esperado a infec&#231;&#245;es. Seu tamanho e a delicadeza de sua traqueia demandam um manuseio cuidadoso, o cora&#231;&#227;o     pequeno e c&#233;lere exige um aparelho especial. &#192;s vezes, &#233; justamente por se considerar sua especificidade &#8211; caso do aparelho de     ecocardiograma &#8211; que se consegue fazer com eles algo similar ao que &#233; feito com os humanos; neste caso, recusa-se o procedimento mais invasivo     que envolve o sacrif&#237;cio de uma s&#233;rie de animais para investigar como seu cora&#231;&#227;o responde para acompanh&#225;-lo ao longo de um     per&#237;odo de tempo mais longo, como se faz com os humanos que se tornam sujeitos de pesquisa. Pesquisadores e animais de pesquisa se fazem     conjuntamente. Se &#233; assim, n&#227;o &#233; mesmo poss&#237;vel estabelecer claramente os limites do humano e, consequentemente, tampouco &#233;     poss&#237;vel manter intacta a divis&#227;o entre natureza e cultura, pertencendo o animal inteiramente &#224; primeira esfera, enquanto apenas o homem     estaria situado no dom&#237;nio do cultural. </p>     <p>     &#160; </p>     <p>     <b>BIBLIOGRAFIA</b> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>     ALMEIDA, Beth&#226;nia Ara&#250;jo, 2009, <i>De Jaleco Branco: A Pr&#225;tica Cient&#237;fica de P&#243;s-Graduandos em Um Instituto de Pesquisas</i>.     Salvador da Bahia, Universidade Federal da Bahia, disserta&#231;&#227;o.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000113&pid=S0873-6561201300020000200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> ASDAL, Kristin, 2008, &#8220;Subjected to parliament: the laboratory of experimental medicine and the animal body&#8221;, <i>Social Studies of Science</i>,    38 (6): 899-917<i>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000115&pid=S0873-6561201300020000200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></i></p>     <!-- ref --><p>     BIRKE, Lynda, 2003, &#8220;Who &#8211; or what &#8211; are the rats (and mice) in the laboratory&#8221;, <i>Society and Animals</i>, 11 (3): 207-224.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000117&pid=S0873-6561201300020000200003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     CREAGER, Angela, 2002, <i>The Life of a Virus: Tobacco Mosaic Virus as an Experimental Model, 1930-1965</i>. Chicago, The University of Chicago Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000119&pid=S0873-6561201300020000200004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> DAVIES, Gail, 2010, &#8220;Captivating behaviour: mouse models, experimental genetics and reductionist returns in the neurosciences&#8221;,    <i>The Sociological Review</i>, 58 (S1): 53-72.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000121&pid=S0873-6561201300020000200005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>     DESPRET, Vinciane, 2008, &#8220;The becomings of subjectivity in animal worlds&#8221;, <i>Subjectivity</i>, 23: 123-139.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000123&pid=S0873-6561201300020000200006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     EVANS-PRITCHARD, E.&#8197;E., 1978, <i>Bruxaria, Or&#225;culos e Magia entre os Azande</i>. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000125&pid=S0873-6561201300020000200007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     EVANS-PRITCHARD, E.&#8197;E., 2007, <i>Os Nuer</i>. S&#227;o Paulo, Perspectiva.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000127&pid=S0873-6561201300020000200008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     FRIESE, Carrie, 2009, &#8220;Models of cloning, models for the zoo: rethinking the sociological significance of cloned animals, <i>BioSocieties</i>, 4:     367-390.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000129&pid=S0873-6561201300020000200009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     FUJIMURA, Joan, 1996, <i>Crafting Science: A Sociohistory of the Quest for Genetic Cancer</i>. &#173;Cambridge, MA, Harvard University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000131&pid=S0873-6561201300020000200010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p> GEERTZ, Clifford, 1978, &#8220;Um jogo absorvente: notas sobre a briga de galos em Bali&#8221;, em Clifford Geertz,    <i>A Interpreta&#231;&#227;o das Culturas.</i> Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 278-321.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000133&pid=S0873-6561201300020000200011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     HARAWAY, Donna, 2011, &#8220;A partilha do sofrimento&#8221;, <i>Horizontes Antropol&#243;gicos</i>, 35: 27-64.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000135&pid=S0873-6561201300020000200012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> HIGASHIJIMA, J., K. TAKAHASHI, e K. KATO, 2009, &#8220;Mouse model: what do Japanese life sciences researchers mean by this term?,    <i>Journal of Science Communication</i>,<i> </i>8 (1): 1-8.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000137&pid=S0873-6561201300020000200013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     HOLMBERG, Tora, 2011, &#8220;Mortal love: care practices in animal experimentation&#8221;, <i>Feminist Theory</i>, 12 (2): 147-163.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000139&pid=S0873-6561201300020000200014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> INGOLD, Tim, 2000, &#8220;From trust to domination: an alternative history of human-animal relations&#8221;, em Tim Ingold,    <i>The Perception of the Enviroment: Essays in Livelihood, Dewlling and Skill.</i> Nova Iorque, Routledge, 61-76.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000141&pid=S0873-6561201300020000200015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>     KIRKSEY, S. Eben, e Stefan HELMREICH, 2010, &#8220;The emergency of multispecies ethnography&#8221;, <i>Cultural Anthropology</i>,<i> </i>25 (4): 545-576.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000143&pid=S0873-6561201300020000200016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     KNIGHT, John, 2005, <i>Animals in Person: Cultural Perspectives on Human-Animal Intimacies</i>. Oxford, Berg.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000145&pid=S0873-6561201300020000200017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     KNORR-CETINA, Karin, 1983, &#8220;New developments in science studies: the ethnographic challenge&#8221;, <i>Canadian Journal of Sociology</i>, 8 (2):     153-177.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000147&pid=S0873-6561201300020000200018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     KNORR-CETINA, Karin, 1999, <i>Epistemic Cultures: How the Sciences Make Knowledge</i>. &#173;Cambridge, MA, Harvard University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000149&pid=S0873-6561201300020000200019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     KOHLER, R.&#8197;E, 1994, <i>Lords of the Fly: Drosophila Genetics and the Experimental Life</i>. Chicago, The University of Chicago Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000151&pid=S0873-6561201300020000200020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>     KOHN, Eduardo, 2007, &#8220;How dogs dream: Amazonian natures and the politics of trans-species engagement&#8221;, <i>American Ethnologist</i>, 34 (1):     3-24.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000153&pid=S0873-6561201300020000200021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     LANDECKER, Hannah, 2007, <i>Culturing Life: How Cells Became Technologies</i>. Cambridge, MA, Harvard University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000155&pid=S0873-6561201300020000200022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     LATOUR, Bruno. 1999. <i>Vida de Laborat&#243;rio</i>.<i> </i>Rio de Janeiro, Relume Dumar&#225;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000157&pid=S0873-6561201300020000200023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->. </p>     <!-- ref --><p>     LEDERER, Susan E, 1992, &#8220;Political animals: the shaping of biomedical research literature in twentieth-century America, <i>Isis</i>, 83: 61-79.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000159&pid=S0873-6561201300020000200024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     L&#201;VI-STRAUSS, Claude, 1975, <i>Totemismo Hoje</i>. Petr&#243;polis, Vozes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000161&pid=S0873-6561201300020000200025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>     LOGAN, Cheryl A., 2001, &#8220;[A]re Norway rats&#8230; things?&#8221;: diversity versus generality in the use of albino rats in experiments on development     and sexuality&#8217;, <i>Journal of the History of Biology</i>,<i> </i>34 (2): 287-314.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000163&pid=S0873-6561201300020000200026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     LYNCH, Michael, 1988, &#8220;Sacrifice and the transformation of the animal into a scientific object: laboratory culture and ritual practices in the     neuroscience&#8221;, <i>Social Studies of Science</i>, 18: 265-289.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000165&pid=S0873-6561201300020000200027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     MACHADO, Carlos Jos&#233; Saldanha, e Ana Tereza Pinto FILIPECKI, 2011, &#8220;S&#243;cio-antropologia de um fen&#244;meno tecno-cient&#237;fico-pol&#237;tico transnacional: o uso de animais em experimenta&#231;&#227;o cient&#237;fica e a realidade brasileira&#8221;,    <i>Revista Brasileira de Ci&#234;ncia, Tecnologia e Sociedade</i>,<i> </i>2 (2): 58-99.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000167&pid=S0873-6561201300020000200028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     MULLIN, Molly, 1999, &#8220;Mirrors and windows: sociocultural studies of human-animal relationships&#8221;, <i>Annual Review of Anthropology</i>, 28:     201-224.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000169&pid=S0873-6561201300020000200029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     PICKERING, Andrew, 1995, <i>The Mangle of Practice: Time, Agency and Science</i>. Chicago, The University of Chicago Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000171&pid=S0873-6561201300020000200030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>     PIGNARRE, Phillipe, 2004, <i>O Grande Segredo da Ind&#250;stria Farmac&#234;utica. </i>Lisboa, Campo da Comunica&#231;&#227;o.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000173&pid=S0873-6561201300020000200031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     RADER, Karen, 2004, <i>Making Mice: Standardizing Animals for American Biomedical Research, 1900-1955. </i>Princeton, Princeton University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000175&pid=S0873-6561201300020000200032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     REES, Amanda, 2007, &#8220;Reflections on the field: primatology, popular science and the politics of personhood&#8221;, <i>Social Studies of Science</i>,     37 (6): 881-907.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000177&pid=S0873-6561201300020000200033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     RHEINBERGER, Hans-Jorg, 1997, <i>Toward a History of Epistemic Things: Synthesizing Proteins in the Test Tube</i>. Stanford, Stanford University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000179&pid=S0873-6561201300020000200034&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     S&#193;, Guilherme Jos&#233; da Silva, 2010, &#8220;&#8216;Abra&#231;os de mono&#8217;: elos perdidos e encontros intersubjetivos em etnografia com     primat&#243;logos no Brasil&#8221;, <i>Mana</i>, 16 (1): 179-211.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000181&pid=S0873-6561201300020000200035&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>     S&#193;, Guilherme Jos&#233; da Silva, M&#225;rcio Felipe Salles MEDEIROS, e Jonas Silva SCHIRMANN, 2011, &#8220;Experi&#234;ncia e descarte: dores humanas     e n&#227;o humanas em um laborat&#243;rio de neurotoxidade e psicofarmacologia&#8221;, <i>Sociedade e Cultura</i>, 14 (2): 427-434.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000183&pid=S0873-6561201300020000200036&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> SHOSTAK, Sarah, 2007, &#8220;Translating at work: genetically modified mouse models and molecularization in the environmental health sciences&#8221;,    <i>Science, Technology, and Human Values</i>, 32: 315-338.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000185&pid=S0873-6561201300020000200037&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     SMITH, Jane A., Lynda BIRKE, e Dawn SADLER, 1997, &#8220;Reporting animal use in scientific papers&#8221;, <i>Laboratory Animals</i>, 31: 312-317.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000187&pid=S0873-6561201300020000200038&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     SOUZA, Iara Maria de Almeida, 2011, &#8220;C&#233;lulas-tronco: considera&#231;&#245;es sobre o regime de verdade e o regime de esperan&#231;a&#8221;, em Cristiane de Magalh&#227;es Porto, Ant&#244;nio Marcos Pereira Brotas e Simone Terezinha Bortoliero,    <i> Di&#225;logos entre Ci&#234;ncia e Divulga&#231;&#227;o Cient&#237;fica: Leituras Contempor&#226;neas</i>. Salvador, Edufba, 153-178.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000189&pid=S0873-6561201300020000200039&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     STENGERS, Isabelle, 2002, <i>A Inven&#231;&#227;o das Ci&#234;ncias Modernas.</i> Rio de Janeiro, Editora 34.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000191&pid=S0873-6561201300020000200040&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     &#160; </p>     <p>     <b>NOTAS</b> </p>     <p>     <a name="_ftn1"></a>     <a href="#_ftnref1" title="">[1]</a>     Esta pesquisa foi realizada com apoio da Fapesb (Edital PPP 2006, TO 0076/2006) e do CNPq (Edital Universal 2007, processo     472916/2007-6). </p>      ]]></body><back>
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