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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[&#8220;Era um hino de fábrica apitando&#8221;: a memória do trabalho negro na cidade de Novo Hamburgo (RS), Brasil]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[&#8220;It was a hymn of factory horns whistling&#8221;: black work memory in the city of Novo Hamburgo (RS), Brazil]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The present article presents an analysis of aspects such as city, memory, work, and ethno-racial relations, including elements of an ethnographic research developed in the city of Novo Hamburgo. This study involved mainly black workers who have worked at the factories of Vale do Rio dos Sinos since 1960. The paper is based on the study of foundational images of the city and region and on the study of ethnobiographical narratives from the black workers in order to understand how their trajectories and urban itineraries relate to the work value and to the representations and images of industrialization of the city and region.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p>     <b>&#8220;Era um hino de f&#225;brica apitando&#8221;: a mem&#243;ria do trabalho negro na cidade de Novo Hamburgo (RS), Brasil</b> </p>     <p>     <b>&#8220;It was a hymn of factory horns whistling&#8221;: black work memory in the city of Novo Hamburgo (RS), Brazil</b> </p>     <p>     <b>Margarete Fagundes Nunes*, Ana Luiza Carvalho da Rocha**, Magna Lima Magalh&#227;es***, Norberto Kuhn Junior****</b> </p>     <p> *Universidade Feevale, Brasil. <i>E-mail:</i> <a href="mailto:marga.nunes@feevale.br">marga.nunes@feevale.br</a></p>     <p> **Universidade Feevale, Brasil. <i>E-mail: </i><a href="mailto:analuiza2@feevale.br">analuiza2@feevale.br</a></p>     <p> ***Universidade Feevale, Brasil. <i>E-mail:</i> <a href="mailto:magna@feevale.br">magna@feevale.br</a></p>     <p> ****Universidade Feevale, Brasil. <i>E-mail:</i> <a href="mailto:nkjunior@feevale.br">nkjunior@feevale.br</a></p>     <p>     &#160; </p>     <p>     <b>RESUMO</b> </p>     <p>     O artigo prop&#245;e uma reflex&#227;o sobre cidade, mem&#243;ria, trabalho e rela&#231;&#245;es etnicorraciais, reunindo elementos de pesquisa     etnogr&#225;fica desenvolvida na cidade de Novo Hamburgo, especialmente com trabalhadores negros que estiveram ligados &#224;s ind&#250;strias do Vale do     Rio dos Sinos a partir de 1960. O artigo apoia-se no estudo das imagens fundacionais da cidade e da regi&#227;o e no estudo de narrativas     etnobiogr&#225;ficas de trabalhadores negros, a fim de compreender como as trajet&#243;rias e itiner&#225;rios urbanos desses sujeitos relacionam-se com o     valor trabalho e com as representa&#231;&#245;es e imagens da industrializa&#231;&#227;o da cidade e da regi&#227;o. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     <b>Palavras-chave:</b>     cidade, mem&#243;ria, trajet&#243;ria, trabalho, negros, rela&#231;&#245;es etnicorraciais </p>     <p>     &#160; </p>     <p>     <b>ABSTRACT</b> </p>     <p>     The present article presents an analysis of aspects such as city, memory, work, and ethno-racial relations, including elements of an ethnographic research     developed in the city of Novo Hamburgo. This study involved mainly black workers who have worked at the factories of Vale do Rio dos Sinos since 1960. The     paper is based on the study of foundational images of the city and region and on the study of ethnobiographical narratives from the black workers in order     to understand how their trajectories and urban itineraries relate to the work value and to the representations and images of industrialization of the city     and region. </p>     <p>     <b>Keywords:</b>     city, memory, trajectory, work, blacks, ethnic-racial relations </p>     <p>     &#160; </p>     <p>     Para a discuss&#227;o deste artigo, apresentamos parte dos registros textuais de narrativas etnobiogr&#225;ficas e dos registros visuais de acervos documentais da pesquisa realizada com trabalhadores negros na cidade de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul. <a name="_ftnref1"></a>    <a href="#_ftn1" title="">[1]</a> As falas dos interlocutores da pesquisa, os &#8220;narradores do trabalho&#8221;, d&#227;o visibilidade &#224;s suas     experi&#234;ncias urbanas marcadas por diferen&#231;as etnicorraciais,<a name="_ftnref2"></a><a href="#_ftn2" title="">[2]</a> ao mesmo tempo em que revelam as desigualdades sociais e raciais presentes na edifica&#231;&#227;o do trabalho no Vale do Rio dos Sinos. <a name="_ftnref3"></a>    <a href="#_ftn3" title="">[3]</a> A pesquisa teve in&#237;cio no ano de 2010, com prazo de execu&#231;&#227;o at&#233; 2012. Neste per&#237;odo, foram     registradas cerca de 20 narrativas biogr&#225;ficas, nas suas formas textuais, visuais e sonoras, com trabalhadores, homens e mulheres, habitantes de Novo     Hamburgo e regi&#227;o. A escolha dos &#8220;narradores do trabalho&#8221; deu-se a partir de uma rede de contatos estabelecida junto &#224;s comunidades     negras e entidades representativas do movimento negro em Novo Hamburgo.<a name="_ftnref4"></a><a href="#_ftn4" title="">[4]</a> </p>     <p>     No plano da mem&#243;ria social do Vale do Rio dos Sinos, partimos do reconhecimento de que o valor trabalho &#233; marca identit&#225;ria da regi&#227;o     e, portanto, for&#231;a aglutinadora da mem&#243;ria coletiva das comunidades urbanas locais (Nunes 2009). Em um primeiro momento, apontamos dados da     hist&#243;ria social de Novo Hamburgo e do processo de coloniza&#231;&#227;o alem&#227; na conforma&#231;&#227;o da cultura urbana da regi&#227;o,     valorizando a discuss&#227;o acerca das imagens e representa&#231;&#245;es do &#8220;mundo dos brancos&#8221; (Fernandes 2007) sob as quais se     alicer&#231;a a mem&#243;ria social do mundo do trabalho. Num segundo momento, enfocamos as transforma&#231;&#245;es do mundo do trabalho fabril e     industrial no Vale do Rio dos Sinos e a quebra do imagin&#225;rio urbano da coloniza&#231;&#227;o alem&#227; em Novo Hamburgo, desencadeadas por um     processo de desindustrializa&#231;&#227;o da regi&#227;o, de deslocamento do capital local e da m&#227;o de obra para outras regi&#245;es do pa&#237;s e     mesmo para o estrangeiro, em particular para o Nordeste do Brasil e para a China (Pereira 2002). </p>     <p>     Finalmente, abordamos a invisibilidade da presen&#231;a de popula&#231;&#245;es de afrodescendentes no interior das imagens fundacionais de Novo Hamburgo, sua presen&#231;a em alguns dos bairros prolet&#225;rios, assim como as suas formas de inser&#231;&#227;o na paisagem citadina local.    <a name="_ftnref5"></a><a href="#_ftn5" title="">[5]</a> Operamos com o conceito de invisibilidade a partir de Oliven (1996), que, ao analisar a     constru&#231;&#227;o da identidade regional ga&#250;cha, chama a aten&#231;&#227;o para a invisibilidade social e simb&#243;lica do negro no Rio Grande do     Sul (RS), sobretudo, assinalando tanto a exclus&#227;o quanto a valora&#231;&#227;o negativa da imagem do negro nas narrativas liter&#225;rias,     sociol&#243;gicas, historiogr&#225;ficas e folcl&#243;ricas. Diferentemente de outras regi&#245;es brasileiras, onde a figura do negro foi real&#231;ada     positivamente &#8211; por exemplo, na regi&#227;o Nordeste &#8211; o autor enfatiza que no Rio Grande do Sul ocorreu um movimento inverso. A leitura acerca     da invisibilidade social e simb&#243;lica do negro no RS proposta por Oliven (1996) &#233; &#250;til, neste artigo, para a compreens&#227;o dos mecanismos     de esquecimento e lembran&#231;a presentes nos jogos da mem&#243;ria, especialmente no que se refere &#224; mem&#243;ria do trabalho em Novo Hamburgo e     regi&#227;o. No entanto, ressaltamos que o processo de exclus&#227;o e invisibilidade das popula&#231;&#245;es negras tem sido historicamente confrontado e     colocado em xeque, seja pelo modo de vida dessas popula&#231;&#245;es, atrav&#233;s de suas associa&#231;&#245;es e manifesta&#231;&#245;es culturais, de     suas formas de sociabilidade e de afirma&#231;&#227;o &#233;tnica, seja pela luta pol&#237;tica protagonizada pelo movimento negro, ou, ainda, pela disputa     que ocorre no plano das ideias e dos conceitos, presente no espa&#231;o acad&#234;mico e nos movimentos sociais. </p>     <p>     Em cada um dos momentos apresentados, procuramos enfocar as transforma&#231;&#245;es dos ritmos do mundo do trabalho fabril e industrial (da     abund&#226;ncia &#224; crise), em Novo Hamburgo, como rupturas e descontinuidades espa&#231;otemporais da vida urbana local, nos moldes dos estudos de uma     &#8220;etnografia da dura&#231;&#227;o&#8221; (Eckert e Rocha 2005). Para tal perspectiva, a dos estudos do imagin&#225;rio (Durand 2002), os     fen&#244;menos da mem&#243;ria revelam a presen&#231;a de uma &#8220;m&#233;trica singular&#8221; produzida pela intelig&#234;ncia humana e capaz de fazer     operar uma seria&#231;&#227;o para os acontecimentos vividos, segundo uma ordem de sucess&#227;o de intervalos de espa&#231;o-tempo. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     Nestes termos, a etnografia da dura&#231;&#227;o do mundo do trabalho, em ades&#227;o aos estudos bachelardianos da &#8220;dial&#233;tica da     dura&#231;&#227;o&#8221; (Eckert e Rocha 2009: 106-107), distancia-se dos estudos bergsonianos da mem&#243;ria, ao preocupar-se com as formas como os     narradores e contadores de hist&#243;rias, imersos no plano da imagina&#231;&#227;o criadora, constroem e reconstroem inteligentemente a mat&#233;ria de     suas vidas vividas na esfera da produ&#231;&#227;o. Estas narrativas se desdobram de forma ininterrupta e n&#227;o linear, por equilibra&#231;&#245;es     sucessivas e revers&#237;veis dos intervalos e dos instantes vividos; s&#227;o relatos de tempos vividos, contendo descontinuidades e rupturas, nos quais     ora preponderam os instantes do tempo da abund&#226;ncia, ora o tempo da crise e do fechamento das f&#225;bricas. Na busca de cad&#234;ncia para os     instantes vividos, nascem temporalidades narradas e performatizadas atrav&#233;s de reestrutura&#231;&#245;es de opera&#231;&#245;es de pensamento e     constru&#231;&#245;es sucessivas, em n&#237;veis diferentes de aproxima&#231;&#227;o com o conte&#250;do das experi&#234;ncias na cidade de Novo Hamburgo. </p>     <p>     Interessa-nos compreender, portanto, nas falas de trabalhadores afrodescendentes, a dimens&#227;o temporal de suas experi&#234;ncias do trabalho fabril e     industrial na cidade, onde os jogos da mem&#243;ria de nossos interlocutores n&#227;o os reduzem ao papel de &#8220;contadores de hist&#243;rias&#8221; do     passado da paisagem urbana local. Ao contr&#225;rio, em ades&#227;o &#224; etnografia da dura&#231;&#227;o, os relatos de nossos parceiros de pesquisa     revelam que suas mem&#243;rias do mundo do trabalho n&#227;o s&#227;o indiferentes aos processos de suas vidas vividas no interior das f&#225;bricas e     ind&#250;strias locais, tampouco aos mecanismos de esquecimento e lembran&#231;a acionados para a constru&#231;&#227;o do per&#237;odo de abund&#226;ncia e     riqueza da regi&#227;o do Vale do Rio dos Sinos. O ato de lembrar o cotidiano oper&#225;rio entre nossos interlocutores manifesta claramente     opera&#231;&#245;es de pensamento complexas, autorreguladoras e autocorretivas dos processos de transforma&#231;&#227;o aos quais a mat&#233;ria do vivido     acha-se submetida, conduzida reflexivamente e sujeita ao devir dos seus pensamentos. Assim, as classifica&#231;&#245;es de ra&#231;a/etnia     revelam-se interessantes para se compreender os la&#231;os que unem as mem&#243;rias do trabalho da imigra&#231;&#227;o alem&#227; &#224;quelas da m&#227;o     de obra de popula&#231;&#245;es negras em Novo Hamburgo. </p>     <p>     No sentido de captar a dimens&#227;o do arranjo espa&#231;otemporal que acompanha os relatos de nossos parceiros de pesquisa sobre o mundo do trabalho em     Novo Hamburgo &#233; que nos filiamos aos estudos de etnobiografias (Preloran 1987), de trajet&#243;rias sociais<i> </i>(Velho 1999)<i> </i>e de     itiner&#225;rios urbanos (Eckert e Rocha 2005), buscando compreender como se apresentam as varia&#231;&#245;es dos jogos da mem&#243;ria na esfera da     produ&#231;&#227;o fabril e industrial da regi&#227;o, sem perder de vista as diferencia&#231;&#245;es de classe, ra&#231;a e etnia. Trata-se de olhar de     forma mais atenta para o arranjo est&#233;tico das lembran&#231;as de nossos narradores urbanos sobre o mundo do trabalho como forma de interpretar o lugar     que, no instante presente, esses ocupam na paisagem urbana de Novo Hamburgo. </p>     <p>     Tempo passado e tempo presente n&#227;o se op&#245;em, ao contr&#225;rio, ambos &#173;aparecem superpostos, revelando uma tens&#227;o entre rupturas e     continuidades. Parodiando as palavras das autoras em que este artigo se apoia (Eckert e Rocha 2005: 153), as mem&#243;rias do trabalho na regi&#227;o     gravitam entre o desejo de reconhecimento do valor da m&#227;o de obra das popula&#231;&#245;es negras no interior da paisagem urbana, cada vez mais     amea&#231;ada pela situa&#231;&#227;o de desindustrializa&#231;&#227;o, e o culto &#224; imigra&#231;&#227;o alem&#227; como respons&#225;vel pelos tempos     de abund&#226;ncia e de progresso em Novo Hamburgo. </p>     <p>     Em especial, explorar a cidade de Novo Hamburgo a partir dos jogos da mem&#243;ria de seus habitantes significa explorar a diversidade temporal do     conhecimento humano adaptado &#224; vida, cada qual seguindo um ritmo apropriado, de acordo com um ponto de vista particular, o dos nossos encontros como     etn&#243;grafos com nossos parceiros de pesquisa. Assim, &#224; medida que esses sujeitos narram suas experi&#234;ncias urbanas com o mundo da     produ&#231;&#227;o fabril e industrial do Vale do Rio dos Sinos, os espa&#231;os de sociabilidade, as brincadeiras de inf&#226;ncia pelas ruas da cidade,     os conflitos etnicorraciais, a vida em fam&#237;lia, as festas, as dificuldades de promo&#231;&#227;o no trabalho, as possibilidades de ascens&#227;o     social, misturam a sua trajet&#243;ria e biografia etnicorracial ao territ&#243;rio da cidade. </p>     <p>     Sob este &#226;ngulo, os relatos obtidos sobre o mundo do trabalho na regi&#227;o do Vale do Rio dos Sinos n&#227;o se diferenciam daqueles presentes nos     estudos sobre a esfera do trabalho em outras cidades brasileiras. Nas hist&#243;rias narradas reverberam muitos acontecimentos de discrimina&#231;&#227;o e     exclus&#227;o social, os quais tamb&#233;m est&#227;o presentes em outras pesquisas que abordam os saberes e fazeres dos grupos etnicorraciais formadores     da sociedade brasileira, em especial das popula&#231;&#245;es negras no contexto dos grandes centros urbano-industriais do pa&#237;s (Andrews 1998;     Fernandes 2007, 2008). </p>     <p>     <b>Do mito hist&#243;rico ao mito do progresso</b> </p>     <p>     A cidade de Novo Hamburgo localiza-se no estado do Rio Grande do Sul, encontra-se a cerca de 40 quil&#244;metros de sua capital, Porto Alegre, e nasce     &#224;s margens da rodovia BR 116, a principal rodovia do Brasil totalmente pavimentada, que atravessa longitudinalmente o pa&#237;s, tendo seu in&#237;cio     na cidade de Fortaleza, no estado do Cear&#225;, e o seu t&#233;rmino na cidade de Jaguar&#227;o, no Rio Grande do Sul, na fronteira com o Uruguai. </p>     <p>     Novo Hamburgo nasceu dentro de uma faixa de terra que, at&#233; o ano de 1927, pertencia &#224; cidade de S&#227;o Leopoldo &#8211; considerada     cidade-m&#227;e dos imigrantes alem&#227;es no Brasil, e origin&#225;ria no tempo m&#237;tico da chegada das primeiras fam&#237;lias alem&#227;s no Vale do     Rio dos Sinos, no in&#237;cio do s&#233;culo XIX. No corpo da narrativa do mito hist&#243;rico considera-se, assim, o ano de 1824 o marco     &#173;simb&#243;lico da chegada das primeiras fam&#237;lias alem&#227;s na regi&#227;o para a edifica&#231;&#227;o de uma mem&#243;ria oficial das origens     do trabalho fabril e, logo ap&#243;s, industrial. No mito de funda&#231;&#227;o de S&#227;o Leopoldo, consta que o presidente da prov&#237;ncia, Jos&#233;     Feliciano Fernandes Pinheiro,<a name="_ftnref6"></a><a href="#_ftn6" title="">[6]</a> teria pedido autoriza&#231;&#227;o para a troca do antigo nome     Feitoria do Linho C&#226;nhamo para S&#227;o Leopoldo, em homenagem &#224; Dona Leopoldina, esposa de D. Pedro I. Na &#233;poca, a regi&#227;o onde hoje se situa Novo Hamburgo abrigava um vilarejo e era denominada Nossa Senhora da Piedade ou Hamburger Berg<i>.</i> <a name="_ftnref7"></a>    <a href="#_ftn7" title="">[7]</a> </p>     <p>     At&#233; o per&#237;odo da coloniza&#231;&#227;o alem&#227;, a regi&#227;o do Vale do Rio dos Sinos, situada no nordeste do Rio Grande do Sul, era ocupada     por portugueses, a&#231;orianos e seus descendentes, africanos e descendentes de africanos, num conv&#237;vio dif&#237;cil com as popula&#231;&#245;es     ind&#237;genas locais, predominantemente com os kaingangs, que eram chamados de &#8220;coroados&#8221; ou &#8220;bugres&#8221;<i>.</i> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     Ao longo do per&#237;odo colonial, a regi&#227;o abrigava &#8220;moradores de terras devolutas que ali tinham suas lavouras&#8221; e &#8220;n&#227;o     exihibiam os seus t&#237;tulos&#8221; (Porto 1934: 18) e &#8220;sesmeiros&#8221; &#8211; portadores do t&#237;tulo de sesmaria &#8211;, alguns vindos de     Laguna e S&#227;o Paulo, outros que teriam migrado da Col&#244;nia de Sacramento em virtude dos intermitentes conflitos com os castelhanos (Moraes 1994).     Este foi descrito como um lugar &#8220;que parecia fadado a um grande n&#250;cleo agr&#237;cola, e onde, mais tarde, se inicia o trabalho livre, do     bra&#231;o alem&#227;o que engrandeceu o Rio Grande do Sul&#8230;&#8221; (Porto 1934: 18). </p>     <p>     A Real Feitoria do Linho C&#226;nhamo, que depois de 1822 passou a se chamar Imperial Feitoria do Linho C&#226;nhamo, instalou-se na regi&#227;o somente em     1788, na localidade ent&#227;o designada Faxinal do Courita,<a name="_ftnref8"></a><a href="#_ftn8" title="">[8]</a> vindo transferida da regi&#227;o de     Cangu&#231;u.<a name="_ftnref9"></a><a href="#_ftn9" title="">[9]</a> As terras do Faxinal, ao sul do Rio dos Sinos, n&#227;o eram suficientes para abrigar     as necessidades da feitoria, o que obrigou ao uso das terras ao norte do Rio dos Sinos, j&#225; ocupadas por v&#225;rias fam&#237;lias (Moraes 1980). A     feitoria foi criada com o prop&#243;sito de produzir o linho e transform&#225;-lo para a fabrica&#231;&#227;o de cordas para as embarca&#231;&#245;es. A     m&#227;o de obra era constitu&#237;da por negros e ind&#237;genas. Segundo o relato de alguns historiadores, a tentativa foi fracassada tanto em Cangu&#231;u quanto no Faxinal. Em ambas as feitorias, a presen&#231;a da m&#227;o de obra escrava<a name="_ftnref10"></a>    <a href="#_ftn10" title="">[10]</a> na produ&#231;&#227;o do c&#226;nhamo aludia aos maus-tratos infligidos a esta popula&#231;&#227;o pelos     administradores locais e &#224;s p&#233;ssimas condi&#231;&#245;es de vida dos negros na regi&#227;o: vivendo em &#8220;senzalas cobertas de capim&#8221;,     submetidos a &#8220;castigos corporais inauditos&#8221; na forma de &#8220;a&#231;oites que lanhavam a carne&#8221;, presos que estavam a um &#8220;tronco     infam&#237;ssimo&#8221; (Porto 1934: 25-27). </p>     <p>     O fracasso da produ&#231;&#227;o de linho vem associado n&#227;o s&#243; &#224; m&#227;o de obra escrava, mas &#224; imagem da terra est&#233;ril para a     regi&#227;o dos &#8220;campos de S&#227;o Leopoldo&#8221; &#8211; &#8220;terreno impr&#243;prio e inc&#244;modo para esta indispens&#225;vel     cultura&#8221;, &#8220;formado de lombas, altas e secas, composto de uma argila vermelha e est&#233;ril, como bem d&#225; a conhecer a sua nudez&#8221;,     nas palavras do padre Ant&#244;nio Gon&#231;alves da Cruz, capel&#227;o da feitoria (Cruz <i>apud</i> Porto 1934: 24). Esta imagem forte de uma terra     impr&#243;pria, de &#8220;terra caluniada&#8221;, entretanto, vai contrastar com a imagem da abund&#226;ncia quando submetida &#224; presen&#231;a do     bra&#231;o do colono alem&#227;o, que inaugura o trabalho livre, &#8220;tornando-a o grande celeiro da produ&#231;&#227;o agr&#237;cola da     Prov&#237;ncia&#8221; (Porto 1934: 25). O abandono da planta&#231;&#227;o de c&#226;nhamo d&#225; origem aos benef&#237;cios de uma grande fazenda de     cria&#231;&#227;o de gados para a explora&#231;&#227;o principalmente do couro que, mais tarde, &#8220;at&#233; os dias de hoje, a ind&#250;stria     alem&#227; transformaria na maior fonte de riqueza particular e p&#250;blica, que opulenta a regi&#227;o colonial do Estado&#8221; (Porto 1934: 27). </p>     <p>     Alguns autores, ao ressaltarem o fracasso da feitoria, tendo em vista a &#173;inadapta&#231;&#227;o da terra ao cultivo do c&#226;nhamo e a fal&#234;ncia     do processo de produ&#231;&#227;o do linho a partir do trabalho escravo, justificam a destina&#231;&#227;o das terras para o prop&#243;sito da     imigra&#231;&#227;o alem&#227; (Moraes 1994; Cesar 1970). Por outro lado, as terras entregues aos colonos rec&#233;m-chegados &#224; Prov&#237;ncia eram     &#8220;&#173;terras n&#227;o aproveit&#225;veis para a pecu&#225;ria&#8221; &#8211; marca da identidade da sociedade ga&#250;cha. Os imigrantes, assim,     eram alocados em &#8220;regi&#245;es florestais onde tiveram de se confrontar com os p&#225;rias da sociedade, j&#225; estabelecidos e longamente     mesti&#231;ados com os &#237;ndios, e com os pr&#243;prios ind&#237;genas&#8221; (Porto 1934: 310).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><img src="/img/revistas/etn/v17n2/17n2a03f1.jpg" width="373" height="322"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p><img src="/img/revistas/etn/v17n2/17n2a03f2.jpg" width="196" height="412"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>     A oposi&#231;&#227;o entre trabalho escravo e trabalho livre alimenta a mem&#243;ria da imigra&#231;&#227;o alem&#227; associada n&#227;o apenas ao mito     hist&#243;rico, mas &#224; sua reelabora&#231;&#227;o nos moldes do mito do progresso (Durand 2002), em refer&#234;ncia aos gestos tradicionais de     apropria&#231;&#227;o da terra no Rio Grande do Sul &#8211; a pecu&#225;ria e a agricultura extensiva &#8211; realizados por outros grupos etnicorraciais,     que despontam como agentes de experi&#234;ncias fracassadas na regi&#227;o. <a name="_ftnref11"></a><a href="#_ftn11" title="">[11]</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> A presen&#231;a dos colonos alem&#227;es no Vale do Rio dos Sinos n&#227;o significou a retirada imediata da antiga popula&#231;&#227;o de suas terras.    <a name="_ftnref12"></a><a href="#_ftn12" title="">[12]</a> Houve dificuldade na implanta&#231;&#227;o das col&#244;nias, tanto pela rea&#231;&#227;o     ind&#237;gena quanto pela reclama&#231;&#227;o dos &#8220;sesmeiros&#8221; &#8211; especialmente aqueles que n&#227;o cumpriam com os preceitos da carta de     concess&#227;o que os obrigava a demarcar e cultivar suas terras sob o risco de estas serem desapropriadas. </p>     <p>     Nas narrativas dos cronistas e viajantes europeus que visitaram a regi&#227;o, s&#227;o in&#250;meras as vers&#245;es encontradas sobre o processo de     instala&#231;&#227;o de uma civiliza&#231;&#227;o urbana no Vale do Rio dos Sinos, e elas tecem os v&#237;nculos entre o mito do progresso e suas imagens     correlatas, da abund&#226;ncia e da riqueza, a partir da chegada dos colonos no Rio Grande do Sul, um acontecimento que integra o mito hist&#243;rico da     emigra&#231;&#227;o de cinco milh&#245;es de alem&#227;es, das mais diversas regi&#245;es, para o Novo Mundo, no s&#233;culo XIX. &#201;, portanto,     frequente a refer&#234;ncia &#224; saga do recrutamento dos imigrantes na Europa, &#224;s condi&#231;&#245;es dif&#237;ceis da viagem para o Novo Mundo e,     posteriormente, ao abandono pelo governo da prov&#237;ncia que, no Brasil, teria entregado os colonos &#224; sua pr&#243;pria sorte, onde &#8220;muitos     malogravam encobrir sua nudez, e cujas atitudes traziam o cunho da rudeza e da bestialidade animais&#8221; (Edmund Teodoro Boesch <i>apud</i> Porto 1934:     44). </p>     <p>     Ainda que submetidas aos par&#226;metros b&#225;sicos para a ocupa&#231;&#227;o do solo impostos pelo governo provincial, as terras destinadas aos colonos     foram alvo de intensas disputas territoriais (Weimer 1987), tendo os alem&#227;es que compartilhar, por exemplo, o territ&#243;rio com os negros e conviver     com a presen&#231;a da m&#227;o de obra escrava na regi&#227;o. </p>     <p>     Algumas obras liter&#225;rias fazem men&#231;&#227;o ao abandono do colono, que fica &#8220;&#224; merc&#234; da sorte nas florestas in&#243;spitas povoadas de ind&#237;genas&#8221; e se submete ao conv&#237;vio for&#231;ado com as popula&#231;&#245;es escravas. &#201; o caso de    <i>A Ferro e Fogo I &#8211; Tempo de Solid&#227;o,</i> de Josu&#233; Guimar&#227;es (1996: 13), que apresenta o casal Daniel Abrah&#227;o Schneider e     Catarina Schneider, protagonistas da obra, vivendo na regi&#227;o da feitoria: &#8220;&#8230; a Feitoria era pocilga para negro, e at&#233; ent&#227;o     s&#243; negro vivera ali, muito justo, o que n&#227;o tinha explica&#231;&#227;o era ele, um Schneider, mais a mulher e o filho, confinados naquele     est&#225;bulo, bem que mereciam um destino melhor&#8221;. </p>     <p>     Nos primeiros anos, os relat&#243;rios de inspetoria descrevem os colonos alem&#227;es, esta &#8220;gente infeliz&#8221;, como &#8220;cheia de     mis&#233;ria&#8221;, vivendo os primeiros tempos sem os subs&#237;dios prometidos pelo governo imperial, sofrendo em condi&#231;&#245;es &#8220;dignas de     comisera&#231;&#227;o&#8221;. Entretanto, na vibra&#231;&#227;o do tempo de mais de um s&#233;culo, redescobrimos os colonos alem&#227;es do Vale do Rio     dos Sinos reverenciados em in&#250;meros escritos &#8211; sejam esses liter&#225;rios, jornal&#237;sticos, hist&#243;ricos ou sociol&#243;gicos &#8211;     como um povo &#8220;digno de louvor&#8221;, numa clara associa&#231;&#227;o entre a etnicidade alem&#227; e o mito do progresso para a regi&#227;o do Vale     do Rio dos Sinos, em prol da &#8220;boa ordem, do sossego e da tranquilidade&#8221; (Porto 1934: 114). </p>     <p>     &#201; importante destacar a preocupa&#231;&#227;o dos poderes p&#250;blicos, em meados do s&#233;culo XIX, com a entrada de escravos nas col&#244;nias,     criando-se para isto leis especiais para a regi&#227;o do Vale do Rio dos Sinos, o que indica a pr&#225;tica usual de m&#227;o de obra escrava nos     trabalhos que se realizavam nas col&#244;nias existentes (Porto 1934). </p>     <p>     Na linha de estudos acerca da presen&#231;a da m&#227;o de obra escrava na configura&#231;&#227;o da civiliza&#231;&#227;o urbana e industrial no Vale do     Rio dos Sinos, destacamos o trabalho de Alves (2005), o qual informa que, entre os anos de 1850 e 1870, a edifica&#231;&#227;o das cidades na regi&#227;o     contou com a for&#231;a do trabalho escravo. Os rastros da presen&#231;a negra na edifica&#231;&#227;o da civiliza&#231;&#227;o urbana em Novo Hamburgo e a     reverbera&#231;&#227;o de suas imagens ser&#227;o retomados posteriormente na fala de alguns dos nossos parceiros de pesquisa, no momento em que narram as     suas experi&#234;ncias familiares no mercado de trabalho da cidade. </p>     <p>     Opondo-se &#224; imagem da &#8220;desorganiza&#231;&#227;o administrativa da prov&#237;ncia&#8221; e perseverando a imagem da etnia alem&#227; como aquela     que foi capaz de transformar a paisagem do Vale do Rio dos Sinos, antes uma &#8220;senzala de escravos&#8221;, numa &#8220;col&#244;nia de livres&#8221;,     consolida-se, assim, para Novo Hamburgo, em particular, a vis&#227;o da &#8220;Manchester brasileira&#8221;<i>. </i>A partir de sua autonomia     pol&#237;tica, em 1927, Novo Hamburgo se afirma gradativamente como polo industrial e urbano na regi&#227;o, territ&#243;rio de opul&#234;ncia e     abund&#226;ncia, onde os apitos das f&#225;bricas soavam como um hino. Esta imagem forte faz com que a cidade seja reconhecida, ainda hoje, em meio a um     violento processo de desindustrializa&#231;&#227;o, como a capital brasileira do cal&#231;ado, cuja produ&#231;&#227;o at&#233; meados do s&#233;culo XX     abastecia o mercado interno brasileiro, um panorama que se amplifica quando, na d&#233;cada de 1970, volta-se ao mercado internacional, ocupando nele um     papel expressivo at&#233; a virada do s&#233;culo. </p>     <p>     Novo Hamburgo, como express&#227;o do esfor&#231;o fecundo do alem&#227;o na constru&#231;&#227;o da grandeza econ&#244;mica do Rio Grande do Sul, fez do     mundo do trabalho livre, em sua fei&#231;&#227;o industrial e comercial, s&#237;mbolos representativos de um tipo &#233;tnico singular no interior da gente     rio-grandense. A figura do alem&#227;o, portanto do trabalho livre, e do seu amor pelo Rio Grande e pelo Brasil serviu como alicerce &#224;s     representa&#231;&#245;es simb&#243;licas de Novo Hamburgo como uma cidade ordeira, trabalhadora, que acorda cedo e que se dedica intensamente &#224;     &#233;tica do trabalho. </p>     <p>     Ao longo deste per&#237;odo em que vigoraram as imagens da abund&#226;ncia e da riqueza, deve-se mencionar o fato de que a cidade de Novo Hamburgo     despertou o interesse de trabalhadores de outros munic&#237;pios, que migraram para a cidade com o objetivo de trabalhar nas f&#225;bricas de cal&#231;ados     e de componentes para cal&#231;ados e nos curtumes. Assim, a &#8220;Manchester brasileira&#8221; revivia outra imagem, mais arcaica, associada ao     nascimento da civiliza&#231;&#227;o sob os tr&#243;picos: era nominada de &#8220;Eldorado ga&#250;cho&#8221;, em alus&#227;o &#224;s oportunidades de     trabalho e de emprego e aos sonhos de uma vida melhor. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     Entretanto, nos anos 90 do s&#233;culo XX, a regi&#227;o do Vale do Rio dos Sinos passou a experimentar um movimento de refluxo migrat&#243;rio, decorrente     da crise da produ&#231;&#227;o coureiro-cal&#231;adista que, em d&#233;cadas anteriores, havia sido o principal foco de atra&#231;&#227;o de     popula&#231;&#245;es vindas especialmente da regi&#227;o Noroeste do estado do Rio Grande do Sul (Nunes 2009). Houve deslocamentos de algumas empresas para     outras regi&#245;es do pa&#237;s, especialmente para os estados do &#173;Nordeste, atra&#237;das pelo lucro advindo de incentivos fiscais e da     redu&#231;&#227;o de custos de m&#227;o de obra (Pereira 2002). Esse movimento atingiu tamb&#233;m as f&#225;bricas de componentes para cal&#231;ados, toda     uma cadeia produtiva que se desmontou ou se deslocou por causa da baixa produ&#231;&#227;o de cal&#231;ados, seguindo a r&#237;tmica de um processo global     de desterritorializa&#231;&#227;o e desenraizamento da for&#231;a de trabalho. Pelos mesmos motivos, alguns empres&#225;rios locais foram atra&#237;dos     pelo mercado chin&#234;s para atuar no plano de uma economia globalizada. Nos anos de 2000, deu-se in&#237;cio a um fluxo de emigra&#231;&#227;o para a     China, especialmente de trabalhadores especializados em t&#233;cnicas de produ&#231;&#227;o e comercializa&#231;&#227;o de cal&#231;ados e componentes para     cal&#231;ados (Kuhn J&#250;nior e Nunes 2012). </p>     <p>     &#201;, assim, diante deste quadro situado &#8211; de crise do mundo do trabalho e do mito do progresso instaurado pela imigra&#231;&#227;o alem&#227; em     Novo Hamburgo &#8211; que iniciamos a pesquisa com os herdeiros urbanos dos antigos trabalhadores negros na regi&#227;o do Vale do Rio dos Sinos, numa     escuta atenta das formas de acomoda&#231;&#227;o deste processo vivido de desindustrializa&#231;&#227;o da &#8220;Manchester brasileira&#8221;, t&#227;o em     voga no s&#233;culo XX, e da eros&#227;o da figura heroica do colono alem&#227;o e da &#233;tica do trabalho livre do s&#233;culo XIX, que se colocava em     confronto direto com a &#8220;ideologia do estamento pecuarista que dominava o poder provincial&#8221; (Weimer 1987: 104). </p>     <p>     <b>O negro e as experi&#234;ncias do trabalho livre: as desigualdades etnicorraciais no tempo das f&#225;bricas</b> </p>     <p>     Apesar de se constatar certa escassez de pesquisas e registros oficiais sobre a m&#227;o de obra negra nos prim&#243;rdios da industrializa&#231;&#227;o do     cal&#231;ado no Vale do Rio dos Sinos, fragmentos das narrativas biogr&#225;ficas de nossos interlocutores de pesquisa informam a rela&#231;&#227;o direta     entre o trabalho com o couro e a ocupa&#231;&#227;o ancestral dos negros em territ&#243;rios nos quais hoje existem in&#250;meras cidades da regi&#227;o. </p>     <p>     Em refer&#234;ncia &#224; pr&#243;pria mem&#243;ria do mundo do trabalho para a forma&#231;&#227;o da sociedade rio-grandense, n&#227;o se pode esquecer     que a ind&#250;stria do charque (carne seca) no Rio Grande do Sul, iniciada no final do s&#233;culo XVIII, tinha como sustent&#225;culo a m&#227;o de obra     escrava (Cardoso 1977). Por decorr&#234;ncia, todas as atividades que envolviam a lida com o animal, desde o pastoreio, o abatimento, a salga da carne, bem     como o aproveitamento do couro para a fabrica&#231;&#227;o de utens&#237;lios, objetos v&#225;rios, artigos de vestu&#225;rio e cal&#231;ado dependiam da     m&#227;o de obra escrava. </p>     <p>     O fato de os negros serem detentores do conhecimento de t&#233;cnicas de trabalho com o couro apresenta-se como uma possibilidade de explica&#231;&#227;o     para a recorr&#234;ncia, nas narrativas biogr&#225;ficas, da vincula&#231;&#227;o entre o curtimento do couro e a m&#227;o de obra negra nos curtumes do     Vale do Rio dos Sinos, com grande concentra&#231;&#227;o, especialmente na primeira metade do s&#233;culo XX. Essa possibilidade de deslocamento de     m&#227;o de obra escrava e, logo ap&#243;s, na condi&#231;&#227;o de trabalhadores livres afirma-se como relevante para os estudos da etnografia das     mem&#243;rias coletivas das popula&#231;&#245;es negras no Vale do Rio dos Sinos. </p>     <p>     Magalh&#227;es (2010), ao trabalhar o associativismo negro em Novo Hamburgo, lan&#231;a m&#227;o das certid&#245;es de nascimento como fonte     hist&#243;rica, priorizando os anos de 1920 a 1958, e identifica o curtimento do couro como a principal atividade de ocupa&#231;&#227;o dos pais das     crian&#231;as negras nascidas na cidade &#8211; apontada em 122 registros de nascimento, dentre os 268 documentos analisados. Seu Valdir, 87 anos, homem     negro, oper&#225;rio e interlocutor da autora, enfatiza em sua fala que &#8220;noventa por cento dos que trabalhavam nos curtumes eram negros&#8221;,     tratando-se de pessoas que &#8220;n&#227;o tinham para aonde ir&#8221;. <a name="_ftnref13"></a><a href="#_ftn13" title="">[13]</a> </p>     <p>     A itiner&#226;ncia da m&#227;o de obra de ex-escravos apontada por este anci&#227;o nos provoca a pensar acerca das escassas oportunidades de trabalho para     os negros no Rio Grande do Sul e sua busca de oportunidades no Vale do Rio dos Sinos. Assim, pode-se imaginar que os curtumes, respons&#225;veis pelo mau     cheiro que se espalhava por muitas &#225;reas de Novo Hamburgo, contavam especialmente com os trabalhadores negros para as atividades de processamento do     couro. Muitos desses trabalhadores eram procedentes do munic&#237;pio de Pelotas, que no s&#233;culo XIX abrigou grande parte das charqueadas do Rio Grande     do Sul. </p>     <p>     A experi&#234;ncia dos negros passou, portanto, num primeiro momento, por uma presen&#231;a forte nos curtumes da regi&#227;o dos Sinos e uma presen&#231;a     t&#237;mida nas f&#225;bricas de cal&#231;ado. Enquanto as portas das f&#225;bricas de cal&#231;ado estreitavam-se para o trabalhador negro, as portas dos     curtumes abriam-se como possibilidade de emprego e sustenta&#231;&#227;o financeira a esse mesmo trabalhador.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><img src="/img/revistas/etn/v17n2/17n2a03f3.jpg" width="564" height="446"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>     Neste sentido, estabelecia-se no cotidiano da &#8220;Manschester brasileira&#8221; uma desigualdade material e simb&#243;lica entre os trabalhadores da     ind&#250;stria coureiro-cal&#231;adista de origem alem&#227; e os de origem africana (ex-escravos), que se caracterizava pela distin&#231;&#227;o social e moral do &#8220;n&#243;s&#8221; (os teuto-brasileiros) em rela&#231;&#227;o aos<i> </i>&#8220;outros&#8221; (os negros). </p>     <p>     Na obra <i>Trabalho, Poder e Sujei&#231;&#227;o</i>, Tittoni (2007) mostra o quanto algumas ocupa&#231;&#245;es e saberes pr&#225;ticos, cujos detentores     eram as popula&#231;&#245;es de negros, ex-escravos, foram desvalorizados ao longo da hist&#243;ria do mundo do trabalho no Brasil. Conforme pondera a     autora, a heran&#231;a de um passado escravocrata atuando no processo de propaga&#231;&#227;o das teorias raciais na forma&#231;&#227;o do Estado nacional     brasileiro, em sua fase republicana, no final do s&#233;culo XIX, fez com que o pa&#237;s optasse pelos trabalhadores imigrantes no in&#237;cio da     industriali&#173;za&#231;&#227;o, integrando tardiamente os trabalhadores &#8220;nacionais&#8221; ao processo produtivo. </p>     <p>     Esse fen&#244;meno se torna evidente no caso dos registros oficiais das mem&#243;rias do mundo do trabalho alem&#227;o no Vale do Rio dos Sinos e &#233;     retomado nas narrativas etnobiogr&#225;ficas de um de nossos &#8220;narradores do trabalho&#8221;<i> </i>em Novo Hamburgo, aqui apelidado de Valmor, 61     anos, membro<i> </i>da Sociedade Cruzeiro do Sul,<i> </i>da qual foi diretor de Carnaval por muitos anos<i>, </i>e que, na ocasi&#227;o da pesquisa,     ocupava o cargo de presidente da Associa&#231;&#227;o Brasileira de Estilistas de Cal&#231;ados e Afins: </p>     <p>     &#8220;&#201;&#8230; Eu, na realidade, sou nativo de Novo Hamburgo, eu sou daqui da terra mesmo, nasci aqui, meus pais s&#227;o&#8230; Minha m&#227;e, de     Lomba Grande, meu pai, de Morro dos Bois [zonas rurais de Novo Hamburgo], da col&#244;nia l&#225; do Morro dos Bois, se criou na col&#244;nia, trabalhou     plantando aipim at&#233; que numa determinada &#233;poca ele veio para Lomba Grande, e l&#225; ele encontrou minha m&#227;e, eles casaram, tiveram o     primeiro filho em Lomba Grande. Depois de Lomba Grande veio buscar trabalho em Novo Hamburgo. Ela veio buscar trabalho de empregada dom&#233;stica e ele     conseguiu trabalho&#8230; J&#225; com filho, n&#233;! E ele conseguiu trabalho numa envernizaria de couro. Acho que foi ali que eu comecei a sentir a     influ&#234;ncia do couro, j&#225; antes mesmo de ter nascido.&#8221; </p>     <p>     Segundo nosso interlocutor de pesquisa, o dom&#237;nio das t&#233;cnicas de lida com o couro foi transmitido pelo pai, oriundo da col&#244;nia de Morro dos     Bois, o que o faz &#8220;sentir a influ&#234;ncia do couro j&#225; antes de ter nascido&#8221;, significando, portanto, uma experi&#234;ncia     transgeracional: </p>     <p>     &#8220;E o falecido papai, ele trabalhou numa envernizaria de couro onde naquela &#233;poca o couro era, era envernizado manual&#8230; Era um l&#237;quido,     uma pasta tipo um piche, tipo esse&#8230; Essa massa asf&#225;ltica. E aquilo era passado com uma esp&#225;tula em cima de um couro, n&#233;! Com uma     lixa&#8230; Anteriormente ele era lixado, bem liso, n&#233;!, para depois eles aplicarem aquilo com uma massa quente, com uma esp&#225;tula. Era um     trabalho sofrido. Eu lembro que o papai suava muito uma &#233;poca, porque era quente aquela massa, e ele, ali, trabalhava. At&#233; que em uma determinada     &#233;poca ele se adoentou, n&#227;o p&#244;de mais trabalhar, se aposentou e&#8230; Mas eu acho que ali come&#231;ou meu gosto pelo couro, n&#233;!,     j&#225; antes mesmo de eu ter nascido.&#8221; </p>     <p>     A miserabilidade dos trabalhadores das ind&#250;strias e especialmente dos curtumes, bem como as dificuldades enfrentadas em um cotidiano de exclus&#227;o,     empurravam esses sujeitos para a &#225;rea perif&#233;rica, onde se encontrava um n&#250;mero significativo de curtidores e sapateiros que engrossavam as     filas dos trabalhadores das ind&#250;strias. </p>     <p>     Colocados &#224; margem da cidade pr&#243;spera e ordeira, eram exclu&#237;dos n&#227;o s&#243; da vida cotidiana da cidade, mas tamb&#233;m das     representa&#231;&#245;es e imagens de trabalhadores respons&#225;veis pelo avan&#231;o da cidade. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     Em trabalho anterior de uma das autoras deste artigo (Nunes 2009) foi mostrada a especificidade das rela&#231;&#245;es raciais no Vale do Rio dos Sinos. Ao     estabelecermos um di&#225;logo estreito com a obra de Florestan Fernandes (2007) <i>O Negro no Mundo dos Brancos</i>,<i> </i>afirm&#225;mos que nesta     regi&#227;o a ideologia do branqueamento recebeu novos ingredientes, pois, ali, o negro n&#227;o estava t&#227;o-somente diante da divis&#227;o entre o     &#8220;mundo dos brancos&#8221;<i> </i>e o &#8220;mundo dos negros&#8221;,<i> </i>mas confrontava-se com a instaura&#231;&#227;o de um &#8220;mundo     alem&#227;o&#8221;, que operava no plano do simb&#243;lico<i>. </i>Esta dimens&#227;o &#233; relevante nas mem&#243;rias do tempo vivido nos curtumes,     reverbera no tempo pensado, nas lembran&#231;as de inf&#226;ncia de Seu Valmor sobre o seu pai: </p>     <p>     &#8220;Ent&#227;o, essa hist&#243;ria do papai me lembra muito, que ele brigava muito com o patr&#227;o, ele achava que o patr&#227;o era muito injusto com     ele, e o patr&#227;o era daqueles Reichert de origem alem&#227;, n&#233;! Uma pessoa muito dura, muito seca. E ele chegava em casa triste com o patr&#227;o     e brigava com o patr&#227;o, mas n&#227;o brigava l&#225; com o patr&#227;o, brigava em casa, n&#233;! Xingava o patr&#227;o em casa. Mas ele&#8230; Uma     pessoa muito respons&#225;vel, muito honesta, muito direita, apesar de ter uma situa&#231;&#227;o de vida bastante&#8230; &#201;&#8230; &#201;&#8230;     Pobre, ele tinha que trabalhar muito, minha m&#227;e trabalhava de sol a sol como empregada dom&#233;stica, e ela era muito requisitada porque ela foi     criada em Lomba Grande em casa de alem&#227;es, ent&#227;o ela tinha o capricho, era muito caprichosa. Ent&#227;o os dois se tornaram um casal de     trabalhadores para sustentar os filhos, que a&#237; veio&#8230; Come&#231;aram a vir mais filhos, n&#243;s somos seis irm&#227;os. E ele naquela     envernizaria brigando com o patr&#227;o e minha m&#227;e fazendo faxina p&#8217;ra buscar o sustento para a fam&#237;lia.&#8221; </p>     <p>     Neste caso, faz-se necess&#225;rio compreender as representa&#231;&#245;es acerca deste &#8220;mundo alem&#227;o&#8221; n&#227;o apenas na     rela&#231;&#227;o com os negros, mas no contexto da sociedade rio-grandense como um todo, isto &#233;, no plano da reconstru&#231;&#227;o das imagens da     campanha e da figura do ga&#250;cho e dos seus gestos de ocupa&#231;&#227;o territorial e de forma&#231;&#227;o das cidades ao longo dos tempos. </p>     <p>     <b>As imagens pol&#234;micas dos negros no mundo alem&#227;o do Vale do Rio dos Sinos</b> </p>     <p>     A forma sociol&#243;gica do &#8220;estrangeiro&#8221;<i> </i>em Simmel (1983)<i> </i>&#233;, neste ponto, relevante de ser retomada para interpretar a     complexidade das rela&#231;&#245;es espaciais que reuniam alem&#227;es (o trabalho livre de origem europeia) e negros (o trabalho livre de ex-escravos) em seu territ&#243;rio de destino &#8211; a regi&#227;o do Vale do Rio dos Sinos, ao longo do s&#233;culo XX. Para o autor, a figura do<i> </i>estrangeiro    n&#227;o &#233; s&#243; a daquele que vem de fora, mas a daquele que torna n&#237;tida a diferen&#231;a.</p>     <p>     Quando Simmel (1983) analisa o fen&#244;meno do estrangeiro, discorre sobre as formas de intera&#231;&#245;es sociais orientadas por uma tens&#227;o     particular entre a proximidade e a dist&#226;ncia. Aplicando-se a met&#225;fora do estrangeiro &#8211; a pessoa que chega hoje e amanh&#227; fica &#8211;     para a interpreta&#231;&#227;o do mundo do trabalho no Vale do Rio dos Sinos, podemos entender, por um lado, os la&#231;os simb&#243;licos que unem a     figura do imigrante alem&#227;o e da regi&#227;o do Vale do Rio dos Sinos &#224; figura do ga&#250;cho e da paisagem da campanha como parte do mito de     funda&#231;&#227;o da sociedade rio-grandense. Por outro lado, podemos compreender os la&#231;os simb&#243;licos que re&#250;nem a figura do negro e do     trabalho escravo &#224; figura do colono alem&#227;o e do trabalho livre como parte do mito de funda&#231;&#227;o da civiliza&#231;&#227;o urbana e     industrial no Vale do Rio dos Sinos. As figuras do negro e do imigrante alem&#227;o de diferentes formas, contrapostas &#224; figura lend&#225;ria do     ga&#250;cho em rela&#231;&#227;o &#224; regi&#227;o do pampa no Rio Grande do Sul, apontam para esta condi&#231;&#227;o de estrangeiro, uma vez que esses     n&#227;o s&#227;o propriet&#225;rios de terra &#8211; &#8220;n&#227;o apenas no sentido f&#237;sico de terra, mas tamb&#233;m no sentido figurado de uma     subst&#226;ncia vital que &#233; fixa&#8221; (Simmel 1983: 187). </p>     <p>     Assim, em ades&#227;o ao formismo simmeliano,<a name="_ftnref14"></a><a href="#_ftn14" title="">[14]</a> consideramos que, embora existam algumas marcas     simb&#243;licas que aproximem negros e alem&#227;es &#224; figura do ga&#250;cho em termos de heroicidade no mundo do trabalho, nem um nem outro     representam as origens da sociedade rio-grandense, uma vez que, atuando na condi&#231;&#227;o de &#8220;estrangeiros&#8221;, s&#227;o situados de forma     distanciada a ela, no plano do imagin&#225;rio. </p>     <p>     Na interpreta&#231;&#227;o do colono como representando &#8220;o estrangeiro&#8221; no Rio Grande do Sul, acrescentamos que, neste caso, a figura do     alem&#227;o sintetizou o ideal do europeu branco, prot&#243;tipo da cultura anglo-sax&#244;nica e de sua &#233;tica do trabalho em pleno ber&#231;o da     civiliza&#231;&#227;o cat&#243;lica nos tr&#243;picos. <a name="_ftnref15"></a><a href="#_ftn15" title="">[15]</a> Ao contr&#225;rio do portugu&#234;s e do     espanhol, cujas imagens de europeus foram denegadas em virtude da miscigena&#231;&#227;o com negros e &#237;ndios, o alem&#227;o representou a     preserva&#231;&#227;o da &#8220;branquidade&#8221;<i>.</i> </p>     <p>     Novamente, nas palavras de um de nossos interlocutores, o Sr. Alcides, com 74 anos na ocasi&#227;o da pesquisa, aparece a &#234;nfase de que &#8220;os     negros s&#243; trabalhavam no curtume, s&#243; curtimento, n&#227;o trabalhavam em f&#225;brica de cal&#231;ado&#8221;: </p>     <p>     &#8220;E, naquela &#233;poca, eu n&#227;o tenho certeza, mas meu pai contava que negro n&#227;o trabalhava em cal&#231;ado, s&#243; em curtume,     s&#243; curtimento, porque tinha muitos curtumes, aqui, em Novo Hamburgo. [&#8230;] Eu n&#227;o senti isso, mas o meu pai contava que os negros s&#243;     trabalhavam no curtume, s&#243; curtimento, n&#227;o trabalhavam em f&#225;brica de cal&#231;ado. O meu pai sempre trabalhou em curtume, se aposentou pelo     curtume.&#8221;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     O tema das rela&#231;&#245;es inter-raciais plurais aparece repetidas vezes mesclado a essa experi&#234;ncia urbana conflitiva em refer&#234;ncia ao lugar     que os negros ocupavam no mundo do trabalho da &#8220;Manchester brasileira&#8221;, conforme aparece na fala do Sr. Lair, outro de nossos interlocutores de     pesquisa, quando relata sua experi&#234;ncia geracional na vida urbana de Novo Hamburgo: </p>     <p>     &#8220;A ra&#231;a negra na d&#233;cada de 70, em Novo Hamburgo, p&#8217;ra conseguir um emprego, ou era como servente de pedreiro, ou era num curtume. Nas     f&#225;bricas de cal&#231;ado tinha aquela dificuldade para a pessoa se empregar. Eles olhavam&#8230; &#192;s vezes estavam com cem vagas ali, olhavam     p&#8217;ra tua cara e diziam: n&#227;o tem vaga. O preconceito era grande. [&#8230;] Os negros trabalhavam mais em curtume ou eram servente[s] de pedreiro.     Parte era por conhecimento profissional e era [a]o que eles mais se adaptavam. A ra&#231;a negra se adaptava mais nesse tipo de setor. Portanto, era muito     reduzido na f&#225;brica de cal&#231;ado.&#8221; </p>     <p>     As marcas do valor trabalho e de sua &#233;tica amplamente relacionada ao mundo do trabalho livre e associadas &#224; imagem, na regi&#227;o, dos     imigrantes alem&#227;es reverberam na voz dos nossos narradores negros como um elemento balizador das suas trajet&#243;rias sociais e das de seus     descendentes, em Novo Hamburgo. O fen&#244;meno pode ser observado nos jogos da mem&#243;ria do Sr. &#173;Fladimir, 70 anos, outro de nossos parceiros de     pesquisa: </p>     <p>     &#8220;As empresas eram&#8230; P&#8217;ra quem gostava de trabalhar, era bom, n&#233;? [risos] Eles davam muitos empregos assim, mas se vacilasse,     sa&#237;a&#8230; O mercado era muito grande de servi&#231;o. A&#237; logo pegavam a gente. Podia mudar [de emprego], mas n&#227;o conv&#233;m, a pessoa     n&#227;o deve trocar muito de servi&#231;o. Porque &#233; carteira assinada e isso a&#237; na carteira vale muita coisa, a pessoa pular de firma em     firma&#8230; Eles v&#227;o pegar a pessoa, j&#225; a primeira coisa que eles falam: &#8216;P&#244;, mas aqui trabalhou um m&#234;s nessa firma, por     qu&#234;?&#8217; [&#8230;] Nunca gostei de faltar servi&#231;o. Eu sempre fui daquele pensamento: se vou sempre ter que levantar [&#224;s] cinco horas para     ir trabalhar, vou p&#8217;ra dentro da firma p&#8217;ra esculhambar? P&#8217;ra qu&#234;? Ent&#227;o eu sempre&#8230; Eu ficava at&#233; anos em firma. Ah,     eu gostava, eu gostava do servi&#231;o.&#8221; </p>     <p>     Entretanto, &#233; importante registrar que a &#233;tica do trabalho tal qual apresentada por Sr. Fladimir, e agenciada por gera&#231;&#245;es de     descendentes dos ex-escravos, em suas intera&#231;&#245;es cotidianas no mundo da produ&#231;&#227;o industrial coureiro-cal&#231;adista com os     descendentes dos primeiros colonos alem&#227;es do Vale do Rio dos Sinos, trava, no tempo presente, um di&#225;logo silencioso com a &#233;tica da     malandragem e a figura do malandro que ainda perdura, nos dias de hoje, no imagin&#225;rio da sociedade brasileira. Esta &#233;tica funda uma     est&#233;tica, fruto das teorias raciais da forma&#231;&#227;o do car&#225;ter dos &#8220;brasileiros&#8221;, que buscavam explicar o fracasso da     &#8220;civiliza&#231;&#227;o&#8221; no Brasil em raz&#227;o da miscigena&#231;&#227;o dos portugueses conquistadores com &#237;ndios e negros sob os     tr&#243;picos. Acordar cedo, gostar de trabalhar, n&#227;o &#8220;esculhambar&#8221; s&#227;o valores que se sintonizam com as imagens arcaicas de Novo Hamburgo como cidade ordeira, laboriosa, projetada para o &#8220;progresso&#8221; e o &#8220;desenvolvimento&#8221;.<a name="_ftnref16"></a>    <a href="#_ftn16" title="">[16]</a> </p>     <p>     &#201; interessante assinalar que a pesquisa &#224; qual nos referimos transcorreu precisamente num per&#237;odo em que o Vale do Rio dos Sinos encontra-se     submerso na crise dos valores propagados pelo mito do progresso na regi&#227;o de Novo &#173;Hamburgo. Neste momento singular, a ind&#250;stria     coureiro-cal&#231;adista colapsa com o deslocamento de algumas empresas para outras regi&#245;es do pa&#237;s e, logo ap&#243;s, para o exterior, assim     como o fechamento de outras tantas ind&#250;strias, deixando apenas as lembran&#231;as da antiga agita&#231;&#227;o e vibra&#231;&#227;o do mundo do     trabalho para seus herdeiros urbanos. Contrapostas aos espa&#231;os vazios das antigas ruas e pavilh&#245;es da vida industrial em Novo Hamburgo, nas     sociabilidades dos mais antigos em clubes e associa&#231;&#245;es despontam as lembran&#231;as vividas no interior das f&#225;bricas, dos objetos de     trabalho, dos espa&#231;os partilhados com outros oper&#225;rios negros, das ruas abarrotadas de homens e mulheres deslocando-se em dire&#231;&#227;o aos     locais de trabalho, de um tempo partilhado socialmente, os quais oferecem a sensa&#231;&#227;o de perman&#234;ncia e estabilidade &#224;s coisas desse     mundo. </p>     <p>     Ao narrar sobre a experi&#234;ncia dos mineiros de carv&#227;o da cidade de La Grand-Combe, no Sudeste da Fran&#231;a, Eckert (1993) assinala que o tempo     presente enunciado por eles, o do fechamento das minas, guarda uma liga&#231;&#227;o intr&#237;nseca com o passado, pois as evoca&#231;&#245;es do vivido     engendram uma continuidade, um devir nas sociabilidades das feiras e das festas coletivas em torno das quais se re&#250;nem os seus herdeiros urbanos.     Atingida pela recess&#227;o econ&#244;mica, a comunidade de trabalho de La Grand-Combe reordena seu tempo coletivo, onde aparecem como superpostos o     &#8220;tempo da mina&#8221; e o &#8220;tempo da crise&#8221;, cujos arranjos revelam o esfor&#231;o dessa comunidade para pensar um encadeamento entre o     tempo passado e o tempo presente, superando as rupturas e descontinuidades do tempo vivido (Eckert 1993). </p>     <p>     Como aponta a experi&#234;ncia dos mineiros de carv&#227;o, na Fran&#231;a, &#173;relativamente ao fim de sua vida de profiss&#227;o com o fechamento das     minas, observamos que as narrativas dos trabalhadores negros apresentam esta fei&#231;&#227;o de arranjo das estruturas espa&#231;otemporais superpostas,     do tempo da abund&#226;ncia e fartura e do tempo da crise, que marcam a r&#237;tmica do mundo dos brancos no Vale do Rio dos Sinos: </p>     <p>     &#8220;Novo Hamburgo, por exemplo, tinha ruas que voc&#234; caminhava, travessas e ruas dos dois lados, esquerda e direita, monumentais pr&#233;dios,     pavilh&#245;es, f&#225;bricas, casas velhas modificadas, remodeladas para fazer fabriqueta, todos os por&#245;es eram fabriquetas. Na hora das 7 horas,     tinha que ver o movimento da hora do pico, o meio-dia, um movimento descomunal, &#224; noite tamb&#233;m, f&#225;brica apitando, olha, era um hino de     f&#225;brica apitando. Trabalhando at&#233; 10 horas da noite, virando noite, s&#225;bado era o dia inteiro, quando n&#227;o ia trabalhar um pouco domingo,     at&#233; meio-dia, para dar conta dos pedidos que o patr&#227;o tivesse, para embarcar a produ&#231;&#227;o para Porto Alegre ou Rio Grande, tomar o rumo     para a Europa. Hoje o que estou falando n&#227;o existe mais mesmo&#8221; [Sr. Francisco]. </p>     <p>     Diferente do mundo da circula&#231;&#227;o do capital, o mundo da esfera do trabalho onde os negros se situam revela, por um lado, a marca do &#8220;tempo     das f&#225;bricas&#8221;, que &#233; o tempo do emprego abundante, da grande circula&#231;&#227;o de oper&#225;rios, dos pr&#233;dios monumentais, das     f&#225;bricas e das fabriquetas espalhadas pelas ruas e ruelas, o tempo do barulho das &#8220;f&#225;bricas apitando&#8221;,<i> </i>e revela, por outro, a     marca do &#8220;tempo da crise&#8221;, que &#233; o tempo da escassez dos postos de trabalho, do abandono dos pr&#233;dios, das ru&#237;nas, do     sil&#234;ncio, pois quase n&#227;o se ouve mais esse &#8220;hino de f&#225;bricas apitando&#8221;<i>.</i> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     Se nas narrativas etnobiogr&#225;ficas dos negros h&#225; pontos de encontro com o ethos e a vis&#227;o de mundo atribu&#237;da ao &#8220;mundo dos     brancos&#8221;, os elementos que se entrela&#231;am ocorrem em raz&#227;o dos sentimentos de um tempo partilhado socialmente em face de sua     condi&#231;&#227;o similar no mundo da produ&#231;&#227;o local. Entretanto, nos jogos da mem&#243;ria dos trabalhadores das ind&#250;strias     coureiro-cal&#231;adistas da regi&#227;o do Vale do Rio dos Sinos, muitas s&#227;o as experi&#234;ncias singulares vividas pelas popula&#231;&#245;es     negras, marcadas por formas de distin&#231;&#227;o simb&#243;lica, as quais est&#227;o associadas &#224;s diferencia&#231;&#245;es de ra&#231;a e etnia no     interior dos bairros prolet&#225;rios da cidade.<a name="_ftnref17"></a><a href="#_ftn17" title="">[17]</a> Segundo os relatos de nossos     &#173;interlocutores, nos espa&#231;os urbanos havia a divis&#227;o entre o &#8220;mundo dos negros&#8221; e o &#8220;mundo alem&#227;o&#8221; e, ainda, o     &#8220;mundo dos brasileiros&#8221; &#8211; chamados de &#8220;pelos duros&#8221; &#8211;, do qual os negros tampouco participavam. </p>     <p>     Assim, as narrativas dos trabalhadores negros trazem &#224; tona as desigualdades etnicorraciais existentes, n&#227;o apenas na edifica&#231;&#227;o das     origens do mundo do trabalho industrial, mas nas experi&#234;ncias vividas por esses trabalhadores nos espa&#231;os de sociabilidade p&#250;blica da     cidade, onde vigorava uma l&#243;gica social e racial excludente: </p>     <p>     &#8220;Quando eu era crian&#231;a, o bairro &#193;frica [hoje denominado de Guarani] era, era &#233;poca de guerra, n&#233;? Segunda Guerra Mundial.     Ent&#227;o o meu pai trabalhava, trabalhava no curtume e a minha m&#227;e era dom&#233;stica, e a gente tinha nos finais de semana uns clubes de futebol. E     isso aqui era&#8230; Essa &#225;rea aqui, o bairro era dividido. A rua Dem&#233;trio Ribeiro, isso at&#233; hoje quase &#233; assim, n&#227;o &#233;     tanto&#8230; Mas era dividido. Aquela parte de cima, quem sobe &#224; esquerda, eram s&#243; os de origem alem&#227; que moravam ali. E no lado de baixo,     da direita, ali, &#233; que moravam os brasileiros e os &#8216;pelos duros&#8217;, que a gente chama. E negro tamb&#233;m morava ali. Era dividido assim,     n&#227;o sei o porqu&#234; assim, mas os alem&#227;es moravam todos do lado de l&#225; e os negros do outro lado&#8221; [Sr. Alcides, 74 anos]. </p>     <p>     Florestan Fernandes (2007) mostra com esmero o quanto o conceito de brasilidade foi elaborado pelos intelectuais &#224; revelia das experi&#234;ncias     vividas pelas popula&#231;&#245;es negras e outras minorias &#233;tnicas ou raciais no pa&#237;s. Para construir este racioc&#237;nio, o autor tenta     demonstrar o quanto o &#8220;dilema racial brasileiro&#8221; &#233; estrutural, pois, mesmo ap&#243;s a aboli&#231;&#227;o da escravatura, no per&#237;odo     da instaura&#231;&#227;o da Rep&#250;blica, a velha ordem racial manteve-se intacta. Para o soci&#243;logo, a aboli&#231;&#227;o apenas alterou o estatuto     jur&#237;dico do negro, sem que ele pudesse, de fato e de direito, na condi&#231;&#227;o de liberto, experimentar uma situa&#231;&#227;o de classe,     raz&#227;o pela qual, para o autor, a nova ordem social que institu&#237;a o trabalho livre n&#227;o rompeu com a sociedade de castas que orientava as     rela&#231;&#245;es inter-raciais no Brasil. Assim, o &#8220;mundo tradicionalista brasileiro&#8221; sobreviveu e continuou atualizando-se por meio da     estreita rela&#231;&#227;o entre cor e posi&#231;&#227;o social. O autor afirma que o &#8220;abrasileiramento&#8221; foi um processo de branqueamento das     popula&#231;&#245;es negras, uma vez que tal processo construiu uma identidade brasileira para os ex-escravos, a partir da sua condi&#231;&#227;o de     exclus&#227;o no interior da sociedade de classes, ainda em processo de gesta&#231;&#227;o no Brasil. </p>     <p>     Uma afirma&#231;&#227;o contundente sobre as rela&#231;&#245;es entre cor e posi&#231;&#227;o social no Brasil p&#243;s-aboli&#231;&#227;o reverbera de     forma vigorosa na voz de uma das nossas narradoras, Manuela, quando nos conta sobre o mundo do trabalho que separava alem&#227;es, <i>pelos duros</i> e     negros no Vale do Rio dos Sinos: </p>     <p>     &#8220;No trabalho tinha uma senhora, l&#225;, que era meio racista, mas eu n&#227;o dava bola. Um dia a gente estava trabalhando, escovando as paredes do     corredor e ela brava, e ela n&#227;o viu eu chegando. Da&#237; ela disse: &#8216;esse servi&#231;o aqui era p&#8217;ra negro fazer, n&#227;o p&#8217;ra     gente.&#8217; A&#237; eu disse para ela: &#8216;O que tu falaste?&#8217; Ela quis disfar&#231;ar. &#8216;Mas eu ouvi o que tu falaste, tu &#233;s racista,     eu sabia.&#8217; A&#237;, nisso, a chefa chega, ela perguntou o que era. Da&#237; eu disse: &#8216;A Melita est&#225; com racismo dizendo que isso aqui     &#233; p&#8217;ra negro.&#8217; A chefa a chamou l&#225; no canto e chamou a aten&#231;&#227;o dela. Disse que n&#227;o admitia isso e disse que todos eram     iguais, que todos tinham que trabalhar unidos e que n&#227;o queria mais saber disso. A chefa era muito carrasca, mas n&#227;o era racista.&#8221; </p>     <p>     As rela&#231;&#245;es de poder unindo &#8220;negros&#8221; e &#8220;brancos&#8221;, alem&#227;es e &#8220;brasileiros&#8221; ao mundo da produ&#231;&#227;o     de Novo Hamburgo destacam-se em outras narrativas que explicitam a continuidade dos valores da &#8220;velha ordem social&#8221; escravocrata e racista no     interior do mundo do trabalho livre, como ponderava &#173;Florestan Fernandes em seus estudos. Tal perspectiva &#233; observada nas interlocu&#231;&#245;es     estabelecidas por Magalh&#227;es (2010) com descendentes de ex-escravos no Vale do Rio dos Sinos por decorr&#234;ncia da discuss&#227;o acerca da     import&#226;ncia do associativismo negro em Novo Hamburgo. A mem&#243;ria coletiva dos descendentes negros traz &#224; tona o preconceito racial e as     lembran&#231;as da demarca&#231;&#227;o de espa&#231;os de circula&#231;&#227;o do negro na cidade. </p>     <p>     Uma separa&#231;&#227;o r&#237;gida do mundo dos brancos e dos negros n&#227;o ocorria apenas &#224;s portas fechadas dos estabelecimentos e     institui&#231;&#245;es, mas se ampliava para as formas de ocupa&#231;&#227;o dos espa&#231;os p&#250;blicos de Novo Hamburgo. Dona Nair, mulher negra que     trabalhou muito tempo como empregada dom&#233;stica para uma importante fam&#237;lia de Novo Hamburgo, ao lembrar as tardes de domingo e o encontro com     amigas na pra&#231;a central da cidade, relata que ela e suas amigas &#8220;sentavam no banco da pra&#231;a [&#8230;] podia sobrar lugar [&#8230;] passava     a tarde toda [&#8230;] ningu&#233;m sentava do nosso lado&#8221;. Dorneles, trabalhador negro que nos anos 40 do s&#233;culo XX tornou-se morador de Novo     Hamburgo no intuito de ter mais oportunidades de trabalho e melhores condi&#231;&#245;es de vida, enfatiza o c&#243;digo de emo&#231;&#245;es com o qual     reagiam as popula&#231;&#245;es negras &#224;s severas restri&#231;&#245;es impostas a elas pelos &#8220;brancos&#8221; no que se referia a sua     circula&#231;&#227;o pela cidade. Por outro lado, assinala as t&#225;ticas e ast&#250;cias (De Certeau 1994) empregadas pelos negros para exercitar seu     direito &#224; cidade: &#8220;[&#8230;] n&#243;s evit&#225;vamos entrar em lugares que n&#227;o queriam a nossa presen&#231;a, se tinha uma loja que     n&#227;o queria a nossa presen&#231;a, evit&#225;vamos ir ali&#8221;. </p>     <p>     <b>Considera&#231;&#245;es finais</b> </p>     <p>     Ao longo do registro etnogr&#225;fico das mem&#243;rias dos negros no interior do mundo do trabalho de Novo Hamburgo, em especial, destaca-se o teor     &#173;discriminat&#243;rio com que os herdeiros urbanos das popula&#231;&#245;es de ex-escravos foram sendo absorvidos pelo regime de trabalho livre e seu     universo de direitos civis, com fortes fragmentos de lembran&#231;as de uma mem&#243;ria &#233;tnica injuriada pelo &#8220;mundo dos brancos&#8221;. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     As narrativas apontam, tamb&#233;m, para experi&#234;ncias urbanas marcadas por uma l&#243;gica social e racial onde os diferentes grupos &#8211;     &#8220;alem&#227;es&#8221;, &#8220;brasileiros&#8221; e &#8220;negros&#8221; &#8211; s&#227;o acomodados em espa&#231;os distintos da cidade, compondo     assim &#8220;mundos&#8221; que atualizam mecanismos tradicionais de distin&#231;&#227;o social associada &#224; cor. </p>     <p>     As p&#233;ssimas condi&#231;&#245;es de vida e de moradia e a inser&#231;&#227;o como trabalhador assalariado no lado mais sombrio da ind&#250;stria     coureiro-cal&#231;adista da regi&#227;o revelam uma popula&#231;&#227;o cujo direito &#224; cidade foi subtra&#237;do, resultando disso todo um universo de     pr&#225;ticas sociais de resist&#234;ncia cujos territ&#243;rios hoje t&#234;m uma importante carga simb&#243;lica para os movimentos sociais dos     afrodescendentes em Novo Hamburgo, como os times de futebol, as associa&#231;&#245;es carnavalescas e os clubes de negros. </p>     <p>     As popula&#231;&#245;es negras do Vale do Rio dos Sinos buscam na esfera do trabalho elementos para atribuir &#224;s suas mem&#243;rias uma dignidade e     valor no interior do mundo dos &#8220;alem&#227;es&#8221;. Atrav&#233;s do culto &#224; &#233;tica do trabalho, ainda que exercido no interior de     condi&#231;&#245;es de alta periculosidade e insalubridade, homens e mulheres negros, herdeiros urbanos dos ex-escravos da regi&#227;o, procuram dignificar     suas trajet&#243;rias sociais e situar sua participa&#231;&#227;o nos mitos de funda&#231;&#227;o da cidade de Novo Hamburgo. &#201; no mundo do trabalho     que essas popula&#231;&#245;es se ancoram para sustentar seu protagonismo na vida social e pol&#237;tica da regi&#227;o, no esfor&#231;o de tecer os fios     que as unem a uma &#8220;comunidade de trabalho&#8221; atingida pelas crises do capital num mundo globalizado. Desse modo, qualificam a sua     experi&#234;ncia coletiva como trabalhadores negros. </p>     <p>     A valora&#231;&#227;o positiva do trabalho nos curtumes e o protagonismo negro na produ&#231;&#227;o coureiro-cal&#231;adista no Vale do Rio dos Sinos     &#233; uma hist&#243;ria a ser contada por seus pr&#243;prios habitantes e trabalhadores negros, para a busca da visibilidade e do reconhecimento desse     grupo etnicorracial na edifica&#231;&#227;o do trabalho e do desenvolvimento da regi&#227;o. </p>     <p>     &#160; </p>     <p>     <b>BIBLIOGRAFIA</b> </p>     <!-- ref --><p> ALVES, Eliege Moura, 2005, &#8220;Uma presen&#231;a invis&#237;vel: escravos em terras alem&#227;s (1850-1870)&#8221;, em Margarete Fagundes Nunes (org.),    <i>Diversidade e Pol&#237;ticas Afirmativas: Di&#225;logos e Intercursos</i>. Novo Hamburgo, Feevale, 154-168.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000109&pid=S0873-6561201300020000300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     ANDREWS, George R., 1998, <i>Negros e Brancos em S&#227;o Paulo</i><b> </b><i>(1888-1988). </i>S&#227;o Paulo, Edusc.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000111&pid=S0873-6561201300020000300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>     BOURDIEU, Pierre, 1983, &#8220;Gostos de classe e estilos de vida&#8221;, em Renato Ortiz (org.), <i>Pierre Bourdieu:</i> <i>Sociologia.</i> S&#227;o     Paulo, &#193;tica, 82-121.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000113&pid=S0873-6561201300020000300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> CARDOSO, Fernando Henrique, 1977, <i>Capitalismo e Escravid&#227;o no Brasil Meridional: O Negro na Sociedade Escravocrata do Rio Grande do Sul.</i>    <b> </b>Rio de Janeiro, Paz e Terra.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000115&pid=S0873-6561201300020000300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     CESAR, Guilhermino,1970, <i>Hist&#243;ria do Rio Grande do Sul</i>: <i>Per&#237;odo Colonial</i>. Porto Alegre, Globo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000117&pid=S0873-6561201300020000300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     DE CERTEAU, Michel, 1994, <i>A Inven&#231;&#227;o do Cotidiano</i>, vol. 1. Petr&#243;polis, Vozes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000119&pid=S0873-6561201300020000300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     DURAND, Gilbert, 2002, <i>As Estruturas Antropol&#243;gicas do Imagin&#225;rio. </i>S&#227;o Paulo, Martins Fontes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000121&pid=S0873-6561201300020000300007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>     ECKERT, Cornelia, 1993, &#8220;Ritmos e resson&#226;ncias da dura&#231;&#227;o de uma comunidade de trabalho: mineiros do carv&#227;o (La Grand-Combe,     Fran&#231;a)&#8221;, <i>Cadernos de Antropologia</i>, 11: 1-84.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000123&pid=S0873-6561201300020000300008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     ECKERT, Cornelia, e Ana Luiza Carvalho da ROCHA, 2005,<i> O Tempo e a Cidade.</i> Porto &#173;Alegre, Editora da UFRGS.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000125&pid=S0873-6561201300020000300009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     ECKERT, Cornelia, e Ana Luiza Carvalho da ROCHA, 2009, &#8220;Mem&#243;ria e ritmos temporais: o pluralismo coerente da dura&#231;&#227;o no interior das     din&#226;micas da cultura urbano-contempor&#226;nea&#8221;, <i>Estudos Hist&#243;ricos</i>, 22 (43): 105-124.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000127&pid=S0873-6561201300020000300010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     FERNANDES, Florestan, 2007, <i>O Negro no Mundo dos Brancos.</i> S&#227;o Paulo, Global.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000129&pid=S0873-6561201300020000300011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     FERNANDES, Florestan, 2008, <i>A Integra&#231;&#227;o do Negro na Sociedade de Classes: No Limiar de Uma Nova Era</i>, vol. 2. S&#227;o Paulo, Globo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000131&pid=S0873-6561201300020000300012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>     GUIMAR&#195;ES, Josu&#233;, 1996, <i>A Ferro e Fogo I: Tempo de Solid&#227;o</i>. Porto Alegre, L&amp;PM.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000133&pid=S0873-6561201300020000300013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     KUHN J&#218;NIOR, Norberto; e Margarete Fagundes NUNES, 2012, &#8220;The role of the new media in the migratory experiences of Brazilian footwear industry     workers in the south of China, <i>Migraciones Internacionales</i>, 6 (4): 47-74, dispon&#237;vel em:     &lt;<a href="http://www2.colef.mx/migracionesinternacionales/revistas/MI23/02-MI23-47-74.pdf" target="_blank">http://www2.colef.mx/migracionesinternacionales/revistas/MI23/02-MI23-47-74.pdf</a>&gt;     (acesso em 30/4/2013).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000135&pid=S0873-6561201300020000300014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>     MAFFESOLI, Michel, 2009, &#8220;Vers un &#8216;formisme&#8217; sociologique&#8221;, <i>Soci&#233;t&#233;s</i>, 105: 79-90.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000137&pid=S0873-6561201300020000300015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> MAGALH&#195;ES, Magna Lima, 2010,    <i>Entre a Preteza e a Brancura Brilha o Cruzeiro do Sul: Associativismo e Identidade Negra em Uma Localidade Teuto-Brasileira</i>. S&#227;o Leopoldo,     Unisinos, Programa de P&#243;s-Gradua&#231;&#227;o em Hist&#243;ria, tese.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000139&pid=S0873-6561201300020000300016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     MORAES, Carlos de Souza, 1980, &#8220;Sesmarias: legisla&#231;&#227;o e seus reflexos na coloniza&#231;&#227;o alem&#227;&#8221;, em<b> </b>Telmo Lauro     M&#252;ller (org.), <i>Imigra&#231;&#227;o e Coloniza&#231;&#227;o Alem&#227;</i>.<b> </b>Porto Alegre, EST, 165-229.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000141&pid=S0873-6561201300020000300017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>     MORAES, Carlos de Souza, 1994, <i>Feitoria do Linho C&#226;nhamo</i>.<b> </b>Porto Alegre, Parlenda.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000143&pid=S0873-6561201300020000300018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> NUNES, Margarete Fagundes, 2009,    <i>&#8220;O Negro no Mundo Alem&#227;o&#8221;: Cidade, Mem&#243;ria e A&#231;&#245;es Afir&#173;mativas no Tempo da Globaliza&#231;&#227;o</i>.     Florian&#243;polis, Universidade Federal de Santa &#173;Catarina, Programa de P&#243;s-Gradua&#231;&#227;o em Antropologia Social, tese.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000145&pid=S0873-6561201300020000300019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> OLIVEN, Ruben George, 1996, &#8220;A invisibilidade social e simb&#243;lica do negro no Rio Grande do Sul&#8221;, em Ilka Boaventura Leite (org.),    <i>Negros no Sul do Brasil: Invisibilidade e Territorialidade</i>. Florian&#243;polis, Letras Contempor&#226;neas, 13-32.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000147&pid=S0873-6561201300020000300020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     PEREIRA, Jos&#233; Maria Dias, 2002, &#8220;Um modelo te&#243;rico para explicar a transfer&#234;ncia de capital entre regi&#245;es desigualmente     desenvolvidas aplicado ao caso da ind&#250;stria de cal&#231;ados&#8221;, <i>Ensaios FEE</i>, 23 (2): 923-948, dispon&#237;vel em     &lt;<a href="http://revistas.fee.tche.br/index.php/ensaios/article/viewArticle/2047" target="_blank">http://revistas.fee.tche.br/index.php/ensaios/article/viewArticle/2047</a>&gt;     (acesso em 30/4/2013).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000149&pid=S0873-6561201300020000300021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>     PETRY, Leopoldo, 1944, <i>O Munic&#237;pio de Novo Hamburgo</i>. Porto Alegre, Edi&#231;&#245;es A Na&#231;&#227;o.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000151&pid=S0873-6561201300020000300022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>     PORTO, Aur&#233;lio, 1934, <i>O Trabalho Alem&#227;o no Rio Grande do Sul</i>. Porto Alegre, Editora e Gr&#225;fica Terezinha.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000153&pid=S0873-6561201300020000300023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     PRELORAN, Jorge, 1987, <i>El Cine Etnobiogr&#225;fico</i>. Madrid, Busqueda de Ayllu.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000155&pid=S0873-6561201300020000300024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     SIMMEL, Georg, 1983, &#8220;O Estrangeiro&#8221;, em Evaristo Moraes Filho (org.),<b> </b><i>Georg Simmel: Sociologia</i>. S&#227;o Paulo, &#193;tica,     182-188.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000157&pid=S0873-6561201300020000300025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> TITTONI, Jaqueline, 2007,    <i>Trabalho, Poder e Sujei&#231;&#227;o: Trajet&#243;rias entre o Emprego, o Desemprego e os &#8220;Novos&#8221; Modos de Trabalhar</i>. Porto Alegre, Dom     Quixote.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000159&pid=S0873-6561201300020000300026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     VELHO, Gilberto, 1999, <i>Projeto e Metamorfose: Antropologia das Sociedades Complexas</i>. Rio de Janeiro, Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000161&pid=S0873-6561201300020000300027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>     WEBER, Max, 1996, <i>A &#201;tica Protestante e o Esp&#237;rito do Capitalismo</i>. S&#227;o Paulo, Editora Pioneira.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000163&pid=S0873-6561201300020000300028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>     WEIMER, Gunter (org.), 1987, <i>A Arquitetura no Rio Grande do Sul</i>. Porto Alegre, Mercado Aberto.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000165&pid=S0873-6561201300020000300029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p>     &#160; </p>     <p>     <b>NOTAS</b> </p>     <p>     <a name="_ftn1"></a>     <a href="#_ftnref1" title="">[1]</a>     Este artigo &#233; resultado de uma pesquisa desenvolvida na Universidade Feevale, intitulada &#8220;As comunidades negras do Vale do Rio dos Sinos e a     mem&#243;ria do trabalho&#8221;, que teve o apoio da FAPERGS &#8211; Funda&#231;&#227;o de Amparo &#224; Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul &#8211; no     ano de 2010. A pesquisa contou com o apoio do Banco de Imagens e Efeitos Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, por meio da sua     associa&#231;&#227;o ao projeto &#8220;Trabalho e cidade: antropologia da mem&#243;ria do trabalho na cidade moderno-contempor&#226;nea&#8221;, coordenado     pela doutora Cornelia Eckert. </p>     <p>     <a name="_ftn2"></a>     <a href="#_ftnref2" title="">[2]</a>     Optamos pela utiliza&#231;&#227;o dos dois conceitos de etnia e ra&#231;a considerando-se o seu imbricamento no movimento social contempor&#226;neo.     Enquanto o conceito de ra&#231;a refor&#231;a as identifica&#231;&#245;es baseadas na cor e na fenotipia, os conceitos de etnia/etnicidade     referendam as mobiliza&#231;&#245;es pol&#237;ticas centradas na ideia de uma &#8220;perten&#231;a &#233;tnica&#8221; (Nunes 2009). </p>     <p>     <a name="_ftn3"></a>     <a href="#_ftnref3" title="">[3]</a>     Novo Hamburgo, ao lado de mais treze munic&#237;pios, integra o chamado Vale do Rio dos Sinos. A popula&#231;&#227;o total do Vale &#233; de 1.298.362     habitantes; possui uma &#225;rea de 1398,5 km&#178;; densidade demogr&#225;fica de 928,4 habitantes/km&#178;; taxa de analfabetismo de 3,10%;     expectativa de vida ao nascer de 71,76 anos; coeficiente de mortalidade infantil de 10,79 por mil nascidos vivos; PIB <i>per capita</i> de BRL R$ 29.219;     exporta&#231;&#245;es totais (FOB) de USD $2.343.973.998, segundo dados apresentados no <i>website</i> da FEE,     &lt;<a href="http://www.fee.tche.br/sitefee/pt/content/resumo/pg_coredes_detalhe.php?corede=Vale+do+Rio+dos+Sinos" target="_blank">http://www.fee.tche.br/sitefee/pt/content/resumo/pg_coredes_detalhe.php?corede=Vale+do+Rio+dos+Sinos</a>&gt;     (acessado em 30/4/2013).</p>     <p>     <a name="_ftn4"></a>     <a href="#_ftnref4" title="">[4]</a>     Utilizamos a denomina&#231;&#227;o comunidades negras por essa assumir caracter&#237;stica de categoria &#234;mica, fazendo parte da linguagem habitual dos     interlocutores da pesquisa. A identidade desses interlocutores foi preservada, adotando-se nomes fict&#237;cios. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     <a name="_ftn5"></a>     <a href="#_ftnref5" title="">[5]</a>     Para a compreens&#227;o das imagens fundacionais da cidade de Novo Hamburgo, faz-se men&#231;&#227;o ao conceito de imagin&#225;rio tal qual elaborado por     Gilbert Durand, segundo o qual o imagin&#225;rio n&#227;o &#233; a mera representa&#231;&#227;o da vida social e material; a mat&#233;ria do     imagin&#225;rio pressup&#245;e uma troca, uma g&#234;nese rec&#237;proca entre as puls&#245;es subjetivas do indiv&#237;duo e as intima&#231;&#245;es     objetivas. Assim, &#8220;o imagin&#225;rio n&#227;o &#233; mais que esse trajeto no qual a representa&#231;&#227;o do objeto se deixa assimilar e modelar     pelos imperativos pulsionais do sujeito&#8221; (Durand 2002: 41). </p>     <p>     <a name="_ftn6"></a>     <a href="#_ftnref6" title="">[6]</a>     Mais tarde conhecido como Visconde de S&#227;o Leopoldo. </p>     <p>     <a name="_ftn7"></a>     <a href="#_ftnref7" title="">[7]</a>     Petry (1944) faz men&#231;&#227;o ao nome de Nossa Senhora da Piedade de Hamburger Berg. Entre as fam&#237;lias alem&#227;s era comum a     designa&#231;&#227;o Hamburger Berg. </p>     <p>     <a name="_ftn8"></a>     <a href="#_ftnref8" title="">[8]</a>     Alus&#227;o ao apelido de Ant&#244;nio Ara&#250;jo Vilela, portugu&#234;s procedente da regi&#227;o de Coura, distrito de Braga, na &#233;poca (Moraes     1994: 24). </p>     <p>     <a name="_ftn9"></a>     <a href="#_ftnref9" title="">[9]</a>     Cangu&#231;u situa-se no extremo sul, na microrregi&#227;o de Pelotas e da mesorregi&#227;o Sudeste, conforme as divis&#245;es utilizadas pela     FEE/RS &#8211; Funda&#231;&#227;o de Economia e Estat&#237;stica do Rio Grande do Sul. </p>     <p>     <a name="_ftn10"></a>     <a href="#_ftnref10" title="">[10]</a>     No decorrer do artigo, usamos a express&#227;o m&#227;o de obra escrava em refer&#234;ncia ao per&#237;odo anterior &#224; aboli&#231;&#227;o da     escravatura; a express&#227;o m&#227;o de obra negra &#233; usada para sinalizar o trabalho feito pelos negros ap&#243;s essa aboli&#231;&#227;o, j&#225;     no contexto do trabalho livre. </p>     <p>     <a name="_ftn11"></a>     <a href="#_ftnref11" title="">[11]</a>     Segundo Durand (2002), o mito do progresso conforma uma modalidade simb&#243;lica do tempo distinta daquela que o mito hist&#243;rico instaura,     traduzindo-se pelo aperfei&#231;oamento deste &#250;ltimo. </p>     <p>     <a name="_ftn12"></a>     <a href="#_ftnref12" title="">[12]</a>     Para as dificuldades de implanta&#231;&#227;o das col&#244;nias na extinta Feitoria do Linho C&#226;nhamo, ver Moraes (1980, 1994). </p>     <p>     <a name="_ftn13"></a>     <a href="#_ftnref13" title="">[13]</a>     Seu Valdir foi trabalhador nas ind&#250;strias da regi&#227;o. Membro da Sociedade Cruzeiro do Sul &#8211; um dos mais tradicionais clubes de negros da     regi&#227;o, fundado em 1922 &#8211; foi diretor de futebol, diretor de Carnaval e tr&#234;s vezes presidente dessa mesma sociedade. </p>     <p>     <a name="_ftn14"></a>     <a href="#_ftnref14" title="">[14]</a>     A express&#227;o &#8220;formismo&#8221; &#233; aqui empregada no sentido utilizado por M. Maffesoli (2009), quando o autor postula a pertin&#234;ncia do     paradigma est&#233;tico para a compreens&#227;o da singularidade da produ&#231;&#227;o intelectual de Georg Simmel, um pensamento que se prop&#245;e     refletir sobre a vida social aderindo ao vitalismo de suas formas. O autor se op&#245;e, assim, ao postulado positivista que insiste em enfocar a obra de     G. Simmel a partir de um enfoque &#8220;formalista&#8221;, numa vis&#227;o tecno-utilitarista do conhecimento. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     <a name="_ftn15"></a>     <a href="#_ftnref15" title="">[15]</a> O uso da express&#227;o &#8220;&#233;tica do trabalho&#8221; tem refer&#234;ncia na obra cl&#225;ssica de Max Weber (1996),    <i>A &#201;tica Protestante e o Esp&#237;rito do Capitalismo</i>. </p>     <p>     <a name="_ftn16"></a>     <a href="#_ftnref16" title="">[16]</a>     Estas imagens e representa&#231;&#245;es eram muito presentes na m&#237;dia impressa, especialmente no <i>Jornal NH</i>, em meados da d&#233;cada de 1970,     per&#237;odo em que a industrializa&#231;&#227;o avan&#231;ou a passos largos devido &#224; exporta&#231;&#227;o (Nunes 2009). </p>     <p>     <a name="_ftn17"></a>     <a href="#_ftnref17" title="">[17]</a>     Segundo Bourdieu (1983), existem diferen&#231;as objetivas entre os sujeitos e os grupos devido &#224; posi&#231;&#227;o ocupada na estrutura social, e     essas diferen&#231;as transmutam-se em &#8220;distin&#231;&#245;es simb&#243;licas&#8221;, definindo gostos, prefer&#234;ncias e estilos de vida. Ao     utilizarmos o conceito neste trabalho enfatizamos as dimens&#245;es simb&#243;licas das quais se revestem as diferen&#231;as etnicorraciais. </p>      ]]></body><back>
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