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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Camponeses, Cultura e Revolução: Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do M.&#8197;F. &#8197;A. (1974-1975)]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p>S&#243;nia Vespeira de Almeida,<strong>Camponeses, Cultura e Revolu&#231;&#227;o: Campanhas de Dinamiza&#231;&#227;o Cultural e Ac&#231;&#227;o C&#237;vica do M.&#8197;F.        &#8197;A. (1974-1975)</strong>, Lisboa, Edi&#231;&#245;es Colibri e IELT &#8211; Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, 2009, 418 p&#225;ginas, ISBN: 978-972-772-882-4. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Sofia Sampaio</b></p>     <p>   Centro em Rede de Investiga&#231;&#227;o em Antropologia, ISCTE &#8211; Instituto Universit&#225;rio de Lisboa, Portugal,      <a href="mailto:psrss@iscte.pt">psrss@iscte.pt</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Quando, na noite de 24 para 25 de abril de 1974, um grupo de capit&#227;es das For&#231;as Armadas deu in&#237;cio ao golpe que levaria ao derrube de um     dos mais longos regimes autorit&#225;rios da Europa, dificilmente poderia antever a profus&#227;o de movimentos e contramovimentos pol&#237;ticos e     culturais que se lhe seguiriam. Os dois anos seguintes ficariam conhecidos por intensas mobiliza&#231;&#245;es &#8211; foram os anos da     &#8220;na&#231;&#227;o em movimento&#8221; (a express&#227;o &#233; de Jos&#233; Cardoso Pires, cit. p. 60), do Portugal em &#8220;tr&#226;nsito&#8221;     (para a democracia, na altura um termo &#8220;flutuante&#8221;, com um conte&#250;do sem&#226;ntico fortemente disputado) ou mesmo &#8220;em transe&#8221;     (cf. Jos&#233; Medeiros Ferreira, <i>Hist&#243;ria de Portugal: Portugal em Transe</i>, 1993). Este &#250;ltimo termo n&#227;o deixa de evocar um certo     sentido de irrealidade, ou suspens&#227;o da normalidade, sobretudo quando experienciado a um n&#237;vel mais subjetivo. Mas o que &#233; realmente     enfatizado em todas estas express&#245;es &#233; a s&#250;bita mobiliza&#231;&#227;o da sociedade portuguesa, em flagrante contraste com os anos de     imobilismo e &#8220;paradismo&#8221; associados ao regime de Salazar. Entre as v&#225;rias &#8220;movimenta&#231;&#245;es&#8221;, tiveram um lugar de     destaque as Campanhas de Dinamiza&#231;&#227;o Cultural e A&#231;&#227;o C&#237;vica levadas a cabo pelo Movimento das For&#231;as Armadas (MFA), que     constituem o tema deste livro, resultado de uma tese de doutoramento em antropologia apresentada, em 2008, ao Instituto Superior de Ci&#234;ncias do Trabalho e da Empresa (ISCTE). </p>     <p>     N&#227;o &#233; tarefa nada f&#225;cil falar destas campanhas, que continuam envoltas no ru&#237;do das opini&#245;es ideologicamente marcadas, oscilando     entre o ceticismo, ou at&#233; a desvaloriza&#231;&#227;o sum&#225;ria, e uma celebra&#231;&#227;o quase mistificadora. O que a autora nos prop&#245;e,     pelo contr&#225;rio &#8211; e com algum sucesso &#8211; &#233; uma &#8220;descida&#8221; ao terreno, a fim de reconstituir tanto quanto poss&#237;vel o     tecido social variado e conflituoso que deu forma a estas a&#231;&#245;es, que se repartiram entre v&#225;rias regi&#245;es do Continente, Ilhas e alguns     territ&#243;rios de emigra&#231;&#227;o (em especial em Fran&#231;a &#8211; p. 219). Dotando-se de m&#233;todos de pesquisa mistos &#8211; entrevistas     profundas, trabalho de arquivo (em arquivos p&#250;blicos e particulares), trabalho de campo (com desloca&#231;&#227;o a alguns dos locais     intervencionados) &#8211; o que nos &#233; apresentado &#233; uma esp&#233;cie de etnografia da mem&#243;ria dessas campanhas (a autora chama-lhe     &#8220;etnografia retrospetiva&#8221; ou &#8220;por recuo&#8221; &#8211; p. 46), que cruza, com not&#225;vel agilidade, as v&#225;rias mem&#243;rias     individuais e o processo de forma&#231;&#227;o, inst&#225;vel e em permanente conflito, de uma mem&#243;ria coletiva. Para al&#233;m do amplo recurso a     arquivos (equiparados a um &#8220;terreno antropol&#243;gico&#8221; &#8211; p. 48) e a fontes bibliogr&#225;ficas que lhe permitem elaborar um quadro     contextual bastante claro e preciso, a autora serve-se profusamente das entrevistas realizadas a algumas dezenas de participantes nessas campanhas &#8211;     membros das For&#231;as Armadas, de v&#225;rias patentes e fun&#231;&#245;es, artistas e civis de diversas &#225;reas profissionais. A estas s&#227;o     adicionados testemunhos locais &#8211; maioritariamente (por raz&#245;es que a autora justifica &#8211; pp. 31-32, 54) do concelho de Castro Daire. </p>     <p>     O livro divide-se em quatro partes: (1) &#8220;Camponeses, antropologia e revolu&#231;&#227;o&#8221; (pp. 27-55), que insere o presente estudo no quadro     geral da antropologia portuguesa e internacional, centrando-se sobre o nexo &#8220;povo-ruralidade&#8221; e &#8220;povo-revolu&#231;&#227;o&#8221; e     procurando responder ao relativo desinteresse da antropologia (ao contr&#225;rio de outras &#225;reas, como a hist&#243;ria, a sociologia e a ci&#234;ncia     pol&#237;tica) por este per&#237;odo; (2) &#8220;A constru&#231;&#227;o do Portugal revolucion&#225;rio e a integra&#231;&#227;o do povo na sociedade     portuguesa&#8221; (pp. 59-241), a parte central da obra, que faz uma an&#225;lise bastante completa das campanhas do MFA &#8211; desde as suas origens     imediatas, que entroncam em iniciativas (civis e militares) j&#225; existentes, &#224; sua organiza&#231;&#227;o formal, reestrutura&#231;&#227;o e     implementa&#231;&#227;o no terreno, incluindo a descri&#231;&#227;o de algumas das principais &#8220;opera&#231;&#245;es&#8221;, suas trajet&#243;rias e     formas de atua&#231;&#227;o; (3) &#8220;Imagens do povo na revolu&#231;&#227;o&#8221; (pp. 245-342), que retoma um t&#243;pico privilegiado da antropologia     portuguesa (o povo e a cultura popular) para discutir as representa&#231;&#245;es p&#243;s-revolucion&#225;rias desta categoria que, para al&#233;m de se     oporem &#224; &#8220;imagem coreografada da na&#231;&#227;o&#8221; (p. 249) forjada pelo Estado Novo, passam a ser &#8220;reinventadas&#8221; &#224; luz de     uma &#8220;pastoral&#8221; e de uma &#8220;contrapastoral&#8221; revolucion&#225;rias; (4) &#8220;Discurso local sobre as Campanhas de     Dinamiza&#231;&#227;o Cultural e A&#231;&#227;o C&#237;vica do MFA&#8221; (pp. 345-381), que procura destrin&#231;ar, como o t&#237;tulo indica, as     perspetivas locais, a partir das povoa&#231;&#245;es que a autora visitou e estudou mais aprofundadamente. </p>     <p>     N&#227;o h&#225; d&#250;vida de que o enfoque deste estudo s&#227;o os discursos &#8211; as &#8220;leituras que sobre Portugal foram feitas e que     legitimaram uma a&#231;&#227;o espec&#237;fica&#8221; (p. 47); as v&#225;rias &#8220;constru&#231;&#245;es discursivas&#8221; da &#233;poca que alimentaram     a(s) mem&#243;ria(s) (p. 83); em suma, o modo como estes &#8220;discursos&#8221; participaram no mapeamento e remapeamento ideol&#243;gico (o termo &#233;     meu, n&#227;o da autora) de temas-chave, como ruralidade, povo, na&#231;&#227;o, ou mesmo revolu&#231;&#227;o. Procurando descrever a &#8220;paisagem     discursiva sobre Portugal&#8221; (p. 251) que caracterizou estes anos, a autora centra-se na an&#225;lise de processos eminentemente discursivos, como a     &#8220;ret&#243;rica da visibilidade&#8221; (pp. 29, 268) &#8211; sublinhando a inten&#231;&#227;o das campanhas de &#8220;desvelarem&#8221; o pa&#237;s     (um verbo recorrente) &#8211;, as &#8220;lutas de classifica&#231;&#227;o&#8221; (segundo a terminologia de Bourdieu, p. 31), a     &#8220;ressemantiza&#231;&#227;o&#8221; do conceito de povo (p. 252). Este interesse pelo discurso n&#227;o surpreende, dada a centralidade das fontes     textuais, orais e escritas, formais e informais (incluindo o boato e o rumor &#8211; p. 212), na investiga&#231;&#227;o, bem como a conce&#231;&#227;o     construtivista, n&#227;o substancialista, da realidade, que a autora adota (p. 30) e que o objeto de estudo amplamente justifica. </p>     <p>     No entanto, um enfoque exclusivo nos discursos e nas representa&#231;&#245;es corre o risco de sucumbir a uma vis&#227;o idealista da hist&#243;ria (um     risco que a autora, de resto, n&#227;o deixa de mencionar &#8211; nota 1, p. 250). De facto, n&#227;o s&#227;o apenas os discursos que atribuem     significados &#224;s pr&#225;ticas (segundo a formula&#231;&#227;o de Verdery, cit. p. 31), mas tamb&#233;m as pr&#225;ticas que atribuem significados aos     discursos. A no&#231;&#227;o de que os discursos n&#227;o existem apenas no plano das ideias, mas em articula&#231;&#227;o constante com pr&#225;ticas, num     processo de m&#250;tua constru&#231;&#227;o e legitima&#231;&#227;o, n&#227;o &#233; suficientemente vocalizada, apesar de ser uma das conclus&#245;es mais     eloquentes do presente estudo. A pr&#243;pria transforma&#231;&#227;o destas campanhas ao longo da sua breve exist&#234;ncia (o programa &#233; anunciado a     25 de outubro de 1974 e interrompido no seguimento do 25 de Novembro de 1975, havendo casos em que se manteve no terreno depois disso) refor&#231;a esta     conclus&#227;o. Inicialmente concebidas para &#8220;conquistar as For&#231;as Armadas para o movimento&#8221; (p. 87), tendo como alvo os pr&#243;prios     militares (pelo menos segundo alguns dos seus protagonistas), as campanhas do MFA rapidamente passaram a centrar-se nas popula&#231;&#245;es mais afastadas     da capital, cujo conhecimento dos factos seria escasso, inexistente ou deturpado. O objetivo de prestar esclarecimento sobre o 25 de Abril (a     a&#231;&#227;o pela &#8220;palavra&#8221;) depressa d&#225; lugar ao levantamento e &#224; resolu&#231;&#227;o de problemas imediatos &#8211; desencadeando     a constru&#231;&#227;o de estradas, pontes e arruamentos, ou outras obras, como a eletrifica&#231;&#227;o, o abastecimento de &#225;gua, o saneamento     b&#225;sico, etc. (a a&#231;&#227;o pelos &#8220;atos&#8221;) &#8211; uma mudan&#231;a de &#234;nfase que se traduziu na reinven&#231;&#227;o da     dinamiza&#231;&#227;o cultural em &#8220;a&#231;&#227;o c&#237;vica&#8221; (p. 256). Nas palavras de um dos principais intervenientes,     &#8220;encomendava-se ao MFA como a um santo patrono&#8221; (cit. p. 189), tornando-se a capacidade de resposta do MFA crucial na luta contra os discursos     da &#8220;rea&#231;&#227;o&#8221;. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     Por outro lado, a componente cultural &#8211; alfabetiza&#231;&#227;o e dinamiza&#231;&#227;o cultural e art&#237;stica a n&#237;vel local &#8211; foi     ganhando espa&#231;o, primeiro como forma estrat&#233;gica de facilitar o contacto com as popula&#231;&#245;es, depois como um projeto mais aut&#243;nomo     da responsabilidade de artistas e intelectuais, configurando o que, para muitos, era tamb&#233;m uma &#8220;revolu&#231;&#227;o cultural&#8221; (pp. 103,     277, 313-314). A &#8220;cultura&#8221; tornou-se, com efeito, e como este estudo demonstra, um conceito recorrente, contestado, &#8220;apropriado&#8221;     (p. 275) e &#8220;manipulado&#8221; (p. 276) no quadro destas campanhas, n&#227;o sem alguma ambiguidade: sob o signo da &#8220;descentraliza&#231;&#227;o     cultural&#8221;, tanto se fala da necessidade de &#8220;preencher o v&#225;cuo cultural&#8221;, sobretudo de certas zonas (p. 100), como da vontade de     criar la&#231;os com as associa&#231;&#245;es culturais existentes (p. 101), ou mesmo de preservar (ou &#8220;revitalizar&#8221; &#8211; p. 315) uma     cultura local/popular &#8220;aut&#234;ntica&#8221; (p. 311). E, apesar do desejo manifesto de evitar &#8220;praticar colonialismo     cultural&#8221; (p. 173), o MFA enfrenta cr&#237;ticas, por um lado, de imprepara&#231;&#227;o, oriundas do Minist&#233;rio de Educa&#231;&#227;o e Cultura     (p. 92) e, por outro, de &#8220;dirigismo&#8221;, oriundas de alguns dos agentes culturais tamb&#233;m no terreno. N&#227;o sendo de subestimar (nem de     sobrestimar) a participa&#231;&#227;o dos intelectuais (um grupo, como nota a autora, heterog&#233;neo &#8211; p. 105), a esfera de a&#231;&#227;o do MFA     estendeu-se por diversos setores da sociedade, convergindo com outros movimentos (muitos de iniciativa estatal) que o antecederam ou lhe sucederam, tais     como: as campanhas de alfabetiza&#231;&#227;o e educa&#231;&#227;o sanit&#225;ria da Pr&#243;-UNEP; as campanhas do SAAL; o Servi&#231;o C&#237;vico     Estudantil, no qual se inseria o Plano de Trabalho e Cultura de Michel Giacometti; o Servi&#231;o M&#233;dico &#224; Periferia (de junho de 1975), entre     outros. </p>     <p>     A terceira parte deste estudo &#8211; uma das mais fortes e estimulantes em termos te&#243;ricos &#8211; trata da quest&#227;o do povo e da cultura     popular. A autora esmi&#250;&#231;a os diversos usos a que o conceito de &#8220;povo&#8221; foi sujeito, inserindo-os ora numa &#8220;contrapastoral     revolucion&#225;ria&#8221; &#8211; que o concebe como &#8220;adormecido&#8221;, &#8220;inculto&#8221;, &#8220;assustado&#8221;, conformado&#8221;,     &#8220;atrasado&#8221; e &#8220;dependente&#8221; &#8211; ora numa &#8220;pastoral revolucion&#225;ria&#8221;, que faz o &#8220;elogio da ruralidade&#8221;     (p. 302) a fim de convocar o campon&#234;s como &#8220;coagente&#8221; da revolu&#231;&#227;o (p. 327, 339). A ambiguidade inscrita no conceito de     &#8220;povo&#8221; &#233; eficazmente descrita e teorizada: &#8220;povo&#8221; denota, por um lado, uma totalidade que se quer neutra (a na&#231;&#227;o)     e, por outro, as classes desfavorecidas, que s&#227;o tamb&#233;m as classes trabalhadoras, &#8220;exploradas&#8221; e em franca oposi&#231;&#227;o &#224;     classe dos &#8220;exploradores&#8221; (p. 253). Como a autora reconhece, n&#227;o se trata de uma particularidade do contexto portugu&#234;s; no entanto,     seria importante acrescentar que esta &#8220;ambiguidade&#8221; &#233; pr&#243;pria de projetos pol&#237;ticos coletivos de cariz universalizante,     articulados a partir da perspetiva, at&#233; ent&#227;o exclu&#237;da, de uma &#8220;parte sem parte&#8221;, segundo a proposta te&#243;rica de Jacques     Ranci&#232;re (<i>La me&#769;sentente</i>, 1995) e Slavoj &#381;i&#382;ek (<i>The Ticklish Subject</i>, 1999). </p>     <p>     A ser considerada, esta proposta te&#243;rica lan&#231;a d&#250;vidas sobre a asser&#231;&#227;o (central &#224; tese da autora) de que o MFA privilegiou     um entendimento do povo como rural, <i>i.&#8197;e.</i> campon&#234;s e do Norte (pp. 254-255) &#8211; uma asser&#231;&#227;o que &#233; entendida &#224;     luz de preocupa&#231;&#245;es centrais, sen&#227;o mesmo definidoras, da antropologia (como a autora refere no in&#237;cio, o espa&#231;o     perif&#233;rico/rural, afastado de casa/da cidade &#233; um dos fatores legitimadores da disciplina &#8211; p. 55), mas que     poder&#225; ofuscar outros elementos n&#227;o menos importantes. Um deles &#233; o enquadramento destas campanhas num projeto de moderniza&#231;&#227;o (um     termo ausente deste estudo), de algum modo contr&#225;rio ao projeto antropol&#243;gico (tradicionalmente de &#8220;congelamento&#8221; ou, pelo menos, de     salvamento do que est&#225; prestes a ser perdido). Se &#233; certo que as campanhas do MFA convocaram posi&#231;&#245;es muito pr&#243;ximas &#224;s da     antropologia em rela&#231;&#227;o &#224; ruralidade &#8211; manifestando alguns dos seus protagonistas &#8220;sensibilidade antropol&#243;gica&#8221; (p.     304) e uma certa &#8220;sedu&#231;&#227;o etnogr&#225;fica&#8221; (p. 319) &#8211; tamb&#233;m &#233; verdade que a &#8220;caminhada at&#233; &#224;s     aldeias&#8221; se encontrava firmemente alicer&#231;ada numa &#8220;estrat&#233;gia de desenvolvimento&#8221; mais vasta, que visava &#8220;melhorar     radicalmente as condi&#231;&#245;es de vida do interior&#8221; (cit. p. 262), conduzir a &#8220;uma maior igualdade econ&#243;mica&#8221; (cit. p. 264) e,     desse modo, resolver a &#8220;contradi&#231;&#227;o cidade-campo&#8221; (cit. p. 262). Este aspeto &#8211; que a autora n&#227;o deixa de analisar &#8211;     tornou-se mais importante com a decis&#227;o do MFA de trocar, depois do 11 de Mar&#231;o de 1975, a via &#8220;socializante&#8221; por uma via     &#8220;socialista&#8221; (cit. p. 328), e &#233; importante por permitir estabelecer os limites da &#8220;semelhan&#231;a inconfort&#225;vel com o regime     anterior&#8221; (p. 320) que a autora deteta em rela&#231;&#227;o &#224; valoriza&#231;&#227;o da cultura popular (rural) e suas tradi&#231;&#245;es. Com     efeito, subjacente &#224; &#8220;caminhada at&#233; &#224;s aldeias&#8221; estava n&#227;o s&#243; a ideia de &#8220;descentraliza&#231;&#227;o da     cultura&#8221;, assente no encontro com o &#8220;outro&#8221; e na descoberta de uma cultura &#8220;outra&#8221; mais aut&#234;ntica, mas tamb&#233;m a     ideia de &#8220;regionaliza&#231;&#227;o do desenvolvimento econ&#243;mico, social e cultural&#8221; (cit. p. 273), ou mesmo (o que torna a quest&#227;o do     desenvolvimento ainda mais controversa) de &#8220;regionaliza&#231;&#227;o dos confortos do capitalismo&#8221; (cit. p. 250). </p>     <p>     <i>Camponeses, Cultura e Revolu&#231;&#227;o</i>     &#233; uma obra de uma acutil&#226;ncia te&#243;rica e anal&#237;tica not&#225;vel, oferecendo importantes contributos, n&#227;o s&#243; para o tema em si,     mas tamb&#233;m para as quest&#245;es te&#243;ricas que norteiam o seu estudo. Para al&#233;m das tem&#225;ticas e problem&#225;ticas j&#225; salientadas     (relevantes, sobretudo, para a antropologia e para os estudos culturais), acrescente-se o importante contributo que esta obra presta &#224;     compreens&#227;o e teoriza&#231;&#227;o das rela&#231;&#245;es entre o Estado, a chamada &#8220;sociedade civil&#8221; (incluindo os movimentos sociais) e     os partidos. A rela&#231;&#227;o com estes &#250;ltimos n&#227;o &#233; um objeto de elei&#231;&#227;o (p. 239), mas emerge em v&#225;rios pontos,     sobretudo no cap&#237;tulo 10. &#201; tamb&#233;m de salientar o dom&#237;nio da autora sobre as diversas escalas em que estas campanhas se integraram e     atrav&#233;s das quais se definiram &#8211; nacional, regional, local e internacional. A &#250;ltima est&#225; menos presente, mas entrev&#234;-se, por     exemplo, na proclama&#231;&#227;o de uma &#8220;especificidade portuguesa&#8221;, designadamente sob a forma de um &#8220;humanismo portugu&#234;s&#8221;     (p. 93). Recorrendo a um manancial de discursos &#8211; destilados de documentos program&#225;ticos, comunicados oficiais e confer&#234;ncias de imprensa,     de relat&#243;rios de a&#231;&#227;o relativos &#224;s v&#225;rias campanhas (p. 226), ou das &#8220;m&#250;ltiplas vozes&#8221; captadas a n&#237;vel     local, que abarcam a imprensa regional e os boletins paroquiais &#8211;, a autora consegue delinear um campo de posi&#231;&#245;es que s&#227;o, apesar das     v&#225;rias contradi&#231;&#245;es, intelig&#237;veis. Alguns relatos em primeira m&#227;o contrariam certas ideias feitas (p. 362), mostrando a     pertin&#234;ncia dos m&#233;todos usados. </p>     <p>     Quanto aos aspetos menos satisfat&#243;rios desta obra, salientem-se apenas dois: (1) as notas de rodap&#233;, longas e abundantes, que interrompem a     leitura com demasiada frequ&#234;ncia, e cuja informa&#231;&#227;o, pertinente na maior parte dos casos, poderia ter sido integrada no corpo do texto ou,     em casos extremos, remetida para um anexo (ex. nota 118, pp. 142-143, com os estatutos dos conselhos de aldeia, ou a cita&#231;&#227;o inclu&#237;da na     nota 122, p. 145, que ocupa a quase totalidade da p&#225;gina); (2) a fraca presen&#231;a de registos visuais &#8211; sobretudo tendo em conta o contacto     da autora com v&#225;rios acervos desta natureza, a que o texto faz alus&#227;o. </p>     <p>     De resto, este &#233; um trabalho que merece ser amplamente lido e discutido. N&#227;o cedendo a relativismos paralisantes, nem &#224; aporia da     complexidade, a autora consegue brindar-nos com um retrato cuidadoso das campanhas do MFA, revelando as suas principais tens&#245;es internas e externas,     percorridas atrav&#233;s de diferentes espa&#231;os e temporalidades, e perspetivadas por diferentes atores sociais. Tendo sido, no seu tempo, um dos     principais palcos da disputa pol&#237;tica, social e cultural, estas campanhas encontram ainda eco na cena pol&#237;tica atual, manifestando-se quer na     mem&#243;ria (no que a autora designa por &#8220;di&#225;logo entre os dois tempos&#8221; &#8211; p. 385) quer nas lutas, de     &#8220;classifica&#231;&#227;o&#8221; e outras, que continuam a ter lugar nos nossos dias. </p>        ]]></body>
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