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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article describes the transformations in Portuguese anthropology during the 1990s, both as experienced by the author in connections to North American and Brazilian anthropology and as experienced by the community of Portuguese social scientists, which hosted in 1990 two international conferences that were key to the dynamics of internationalization in that decade: the first EASA meeting and the first Luso-Afro-Brazilian Social Sciences Conference.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana"><b><font size="2">MEM&Oacute;RIA</font></b></font></p>   <font face="Verdana">       <p align="right">&nbsp;</p>   </font>     <p><font size="4" face="Verdana"><b>A década de 1990: os   anos da internacionalização</b></font></p>   <font face="Verdana">       <p>&nbsp;</p>   </font>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>The nineties, or, the   years of internationalization</b></font></p>        <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Cristiana Bastos</b></font><font face="Verdana"><b><font size="2"><sup>I</sup></font></b><font size="2"></font></font></p>     <p><font face="Verdana"><font size="2"><sup>I</sup></font></font><font size="2" face="Verdana">Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa, Portugal. e-mail: <a href="mailto:c.bastos@ics.ul.pt">c.bastos@ics.ul.pt</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <hr noshade size="1">     <p><font size="2" face="Verdana"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Este artigo responde à solicitação de descrever, a partir da     experiência pessoal, as transformações na antropologia portuguesa nos anos     1990, também chamados “os anos da internacionalização”. Combinando a análise     das dinâmicas de internacionalização que transformaram para sempre a     antropologia portuguesa e a narrativa na primeira pessoa de uma experiência de internacionalização     que passou pelos Estados Unidos e pelo Brasil, exploro algumas tendências,     protagonistas, factos e pequenas histórias que marcaram essa década e influenciaram as que se seguiram.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Palavras-chave:</b> EASA, Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais, antropologia americana, antropologia brasileira, globalização, antropologia médica</font></p> <hr noshade size="1">     <p><font size="2" face="Verdana"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">This article describes the transformations in Portuguese anthropology during the 1990s, both as     experienced by the author in connections to North American and Brazilian     anthropology and as experienced by the community of Portuguese social     scientists, which hosted in 1990 two international conferences that were key to     the dynamics of internationalization in that decade: the first EASA meeting and     the first Luso-Afro-Brazilian Social Sciences Conference.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Keywords:</b> EASA, Luso-Afro-Brazilian Social Sciences     Conference, American anthropology, Brazilian anthropology, globalization, medical anthropology</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">[Nota] Por opção da autora, o artigo é publicado usando a ortografia anterior à estabelecida pelo Acordo Ortográfico de 1990.</font></p> <hr noshade size="1">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>   <font face="Verdana"><b><font size="3">O ano de 1990: dois congressos internacionais em Portugal</font></b>  </font>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Em 1990 ocorreram duas reuniões científicas que vieram a influenciar irreversivelmente os caminhos da     antropologia no nosso país. Eram encontros exploratórios, primeiras edições,     tentativas de criar algo novo que poderia ter ficado por ali; mas foram o     começo de um período de mudança na circulação, interlocuções e modos de     praticar a antropologia em Portugal – o que depois chamámos   internacionalização.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Os dois congressos assinalavam duas linhas que     até hoje se mantêm em coexistência pacífica, com algumas zonas de sobreposição,     porém áreas de influência distintas: por um lado, o eixo lusófono,     transcontinental, que reconfigura criticamente e em lógica pós-colonial os     nexos forjados no império, propondo o uso da língua portuguesa como instrumento     de trabalho científico; por outro, o eixo europeu, de línguas, tradições e     nacionalidades múltiplas, tolerante para com as variedades regionais da     antropologia e do pensamento, sem deixar de cultivar a hegemonia anglófona que   hoje se generalizou para quase todos os campos científicos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Examinemos de perto as dinâmicas que levaram a     cada um desses encontros científicos. No eixo dito lusófono, eram mínimos os     contactos entre as várias comunidades académicas de língua portuguesa e     generalizado o desconhecimento mútuo. Os poucos portugueses que frequentavam     universidades internacionais geralmente iam para o centro e norte da Europa ou,     em menor quantidade, para os Estados Unidos. Raros eram os que tinham     conhecimento directo dos ambientes universitários brasileiros, e o conhecimento     das universidades africanas resumia-se largamente aos contactos estabelecidos em     situações de cooperação e assistência internacional ou, para os mais antigos,     no próprio regime colonial. Com vista a criar pontes entre os grupos separados     pelo espaço e instituições, o Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade     de Coimbra promoveu o primeiro Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências     Sociais. Teve como principal impulsionador Boaventura de Sousa Santos,     sociólogo de trajecto original que incluía os Estados Unidos (Yale, e mais   tarde Madison-Wisconsin) e o Brasil (Rio de Janeiro).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Foi apenas o início de uma convergência     necessária e muito saudada, gerando-se uma dinâmica que não mais parou,     entusiasmando universidades, pesquisadores, estudantes e patrocínios. A     comunidade foi crescendo e intensificando os laços em encontros que ocorreram a     cada dois anos, sucessivamente em São Paulo (1992), Lisboa (1994), Rio de     Janeiro (1996), Maputo (1998), Porto (2000), novamente Rio (2002), novamente     Coimbra (2004), Luanda (2006), Braga (2008), Baía (2011), prevendo-se o     seguinte para Cabo Verde.<a style='mso-footnote-id:ftn1' href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><sup><sup>[1]</sup></sup></a> Criou-se uma revista, uma associação, acções conjuntas, pesquisas articuladas,     mas sobretudo desenvolveu-se uma plataforma de onde partiram muitas outras, em     continuidade ou em contraste, que teceram as malhas de uma comunidade     transnacional em que o português é usado como língua de trabalho e os     estudantes e pesquisadores circulam entre países e instituições, ampliando os   seus universos de pesquisa, conceptualização e interlocução.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em paralelo, também em 1990 e também na cidade     de Coimbra, onde nascia um novo e dinâmico departamento de antropologia, deu-se     a primeira reunião da European Association of Social Anthropologists (EASA)<i>. </i>O seu principal dinamizador foi João     de Pina-Cabral, antropólogo de carreira internacional formado na Witwatersrand     (África do Sul) e em Oxford (UK) e radicado em Portugal, quadro do Instituto de     Ciências Sociais da Universidade de ­Lisboa; foi coadjuvado por José António     Fernandes Dias, antropólogo da Escola de Belas-Artes de Lisboa, e pelos demais     colegas de Coimbra que, em conjunto, criaram condições de excelência para uma   reunião que definitivamente pôs Portugal no mapa da antropologia europeia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O I Encontro da EASA foi um sucesso, e     produziu novas edições a cada dois anos; circulou pelos espaços europeus –   Praga (1992), Oslo (1994), Barcelona (1996), Frankfurt (1998), Cracóvia (2000),     Copenhaga (2002), Viena (2004), Bristol (2006), Liubliana (2008), Maynooth     (2010), Paris (2012) – atravessando línguas, criando redes e comunidades em     torno de interesses comuns, urgências sociais e outras emergências na     interpretação e análise. Portugal e os antropólogos portugueses passaram a     integrar em pleno este universo. A situação periférica que marcara o passado     dava agora lugar a uma paridade que, nesses prósperos anos 90, se celebrava com     quase eufórico entusiasmo: os portugueses deixavam de “ir à Europa” e passavam     a “estar na Europa”, a pensar-se e praticar-se europeus. Note-se que     a década de 90 intensificou a circulação para quase todos, pondo fim às     barreiras que dividiam e separavam mundos paralelos, aos muros – como o de     Berlim, que existia em toda a materialidade – e outros impedimentos à troca de     ideias e ao pensamento crítico sobre o qual assentam as ciências sociais e a     antropologia. Havia também muros menos visíveis, intangíveis, separando e     dividindo por língua, por tradição académica, por local, por diferenças de     riqueza e <i>status</i>, por diferenças de   cidadania no acesso ao conhecimento. Assim era antes de 1990.<a style='mso-footnote-id:ftn2' href="#_ftn2" name="_ftnref2" title=""><sup><sup>[2]</sup></sup></a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Antes de 90 em Portugal</b> </font></p>        <p><font size="2" face="Verdana">Durante o regime político que se manteve em Portugal até 1974 o lugar da     antropologia era limitado. Havia um nicho de produção etnográfica que dava     apoio à administração colonial, preparando os quadros no conhecimento de     sociedades africanas e asiáticas, promovendo ou musealizando costumes locais, desenvolvendo     missões às colónias para recolhas etnológicas e antropométricas, ou relatórios     secretos para o governo em que se avaliava o estado de pacificação ou rebelião     dos povos; havia também o vasto trabalho de levantamento etnográfico, recolha e     sistematização empreendido pelo Centro de Estudos de Etnologia Peninsular     (CEEP), que passara por entre as malhas da vigilância política. Abundantes as     narrativas etnográficas e escassos os desenvolvimentos teóricos e a análise     crítica, ausentes as condições de liberdade ou de estruturas materiais que     poderiam permiti-lo, era como se a antropologia estivesse incompleta.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana">Entretanto, fora do país, em trajectórias     internacionais singulares feitas de iniciativa própria, por vezes em rotas de     exílio para ambientes livres, alguns portugueses formaram-se em antropologia;     alguns regressaram depois de 1974. E chegaram também alguns mais, exilados de     outras ditaduras noutros lugares, ou em rota de investigação com terreno em     Portugal. Deste modo, já nos anos 80 havia entre nós um largo número de     antropólogos que tinham passado por universidades francesas, inglesas, alemãs,     belgas (­Joaquim Pais de Brito, Robert Rowland, João de Pina-Cabral, José   Carlos Gomes da Silva, Raúl Iturra, Pedro Prista, Jorge Freitas Branco, Brian O’Neill).     Dos outros, muitos se tinham já formado nos eixos do Instituto Superior de     Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) pós-1974 (João Leal, Rosa Maria Perez) ou     recebido formações múltiplas (José Gabriel Pereira Bastos), até que surgiu uma     licenciatura específica na FCSH-UNL que formou uma geração de novos     antropólogos nacionais (Manuela ­Palmeirim e Rui Pereira na primeira edição,     depois o ano que frequentei, com Maria ­Cardeira da Silva, Graça Cordeiro, Ana     Isabel Afonso, entre outros, e logo a seguir Miguel Vale de Almeida, Clara     Saraiva, Clara ­Carvalho, Francisco Vaz da Silva e muitos mais); e preparava-se     uma outra geração no ainda mais recente departamento de antropologia no     Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE, de onde saíram     António Medeiros, Paulo Raposo, Filipe Reis, Nuno Porto, Antónia Pedroso de     Lima, Susana Viegas, Francisco Oneto Nunes e muitos outros). A antropologia     vibrava. Mas vibrava sobretudo dentro de portas; circulava-se pouco no     exterior, não havia capacidade de intervir em debates internacionais. No     interior do país sim, circulava-se, havia que reduzir o défice de conhecimento     instalado, produzir etnografias que substituíssem as mitografias do regime     anterior. Um livro simboliza esse movimento melhor que qualquer outro: <i>Lugares de Aqui: Actas do Seminário Terrenos       Portugueses</i>,<i> ­</i>editado por Joaquim     Pais de Brito e Brian O’Neill na Dom Quixote em 1991, com capítulos de João     Leal (Açores), Jorge Freitas Branco (Madeira), João de Pina-Cabral (Minho),     Pedro Prista (barrocal algarvio), Cristiana Bastos (serra algarvia), Joaquim     Pais de Brito (Trás-os-Montes), Brian O’Neill (Trás-os-Montes), Raúl Iturra     (Beira Alta), Graça Cordeiro (Lisboa) e Miguel Vale de Almeida (a ideologia nos     livros de instrução primária pré-1974).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Nota pessoal, pré-1990</b> </font></p>        <p><font size="2" face="Verdana">Fiz-me antropóloga nesse contexto. Formei-me na Faculdade de Ciências Sociais     e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL), onde ainda ouvi e li muita     antropologia estrutural, bilinas de ossetas que nunca viria a conhecer, ciclos     de mitos amazónicos que viria apenas a tangenciar, etnografias longínquas e tão     exóticas quanto eram, por vezes, de outras eras de pensamento; onde fiz     amizades que perduraram; onde a escassez de livros era tal que para lermos     tínhamos de atravessar a cidade de autocarro até ao Restelo, para ter acesso     aos livros e revistas de antropologia da sempre acolhedora biblioteca do Museu     de Etnologia.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana">Para completar a licenciatura fazíamos um     minitrabalho de campo, lançados ao mundo real sem bóias nem protectores, quase     sem ideia de como se fazia pesquisa, com pouco instrumental teórico, mas     capazes de percorrer um exercício de iniciação que continha a equação de base     do terreno, isto é, saber entrar, permanecer, sair. Fazíamo-lo planeando,     escolhendo, partindo, entrando, interagindo, comunicando, depois interpretando,     escrevendo, fechando a análise numa peça apresentável – tudo num tempo     concentrado, quase instantâneo, uma amostra do que viria a ser depois uma tese     verdadeira, um vislumbre do que viria a ser a experiência de terreno e     respectiva escrita.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana">Acerca das vantagens e desvantagens deste tipo     de iniciação ao terreno dividiam-se os colegas da FCSH, que frequentei, e os do     recém-criado departamento de antropologia do ISCTE, cujo quadro integraria pouco     tempo depois (mas não o sabia ainda). Fiz o prematuro “terreno” com estadias     intermitentes na fronteira do Alentejo, em Barrancos, escrevi a monografia     pedida, que nunca mais li nem publiquei, a não ser, quase vinte anos mais     tarde, em artigo numa revista americana de estudos portugueses (Bastos 1998a).</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana">E logo a seguir, numa atitude que a vida     confirma ser um padrão pessoal, mudei imediata e radicalmente de tema; dois     dias depois de “defender a tese” (de licenciatura) estava a caminho da serra     algarvia oriental para prospecção de um novo campo. Tinha entretanto conhecido     a equipa do Campo Arqueológico de Mértola e do seu dinamizador Cláudio Torres,     detentor de um pensamento original, instigador de gerações inteiras e de todo     um modo de pensar as questões do Mediterrâneo e as continuidades materiais,     culturais, sociais nos seus espaços. Fizemos logo em Dezembro de 1982 uma     pequena ­expedição na qual iam também a Clara Saraiva, que procurava um terreno     para a sua monografia de licenciatura, e o Luís Pavão, a fotografar um mundo em     vias de transformação radical; nos anos seguintes faríamos juntos um     levantamento etnográfico e museológico inspirado pelos trabalhos do CEEP.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana">Ali regressei ao longo da década de 80 e ali     encontrei não apenas uma comunidade que me acolheu para o convencional trabalho     de campo, mas também um conjunto notável de róis de confessados, que eram o     documento mais desejado no âmbito da antropologia histórica, que ganhava     expressão em Portugal e como era praticada por antropólogos que entretanto fui     conhecendo fora da FCSH – Brian O’Neill, Robert Rowland, alguns outros que     frequentavam o núcleo de demografia histórica da Gulbenkian que então     funcionava em Oeiras. Trabalhar cruzando o presente e o passado, dando     espessura temporal ao conhecimento etnográfico colhido ao vivo, permitiu-me     propor uma interpretação alternativa ao fatalismo de abandono endossado e     repetido à exaustão pelas agências de desenvolvimento e organismos estatais que     geriam ou falavam pelo nordeste algarvio; em vez de declínio contínuo de uma     idade do ouro para o presente, prevendo a sua substituição por florestas (de     eucaliptos, como se via por todo o país, para proveito rápido?), detectei     ciclos migratórios de longo prazo. Para essa análise tive o apoio de um outro     grande mestre, o historiador Vitorino Magalhães Godinho; e tive também a     companhia dos então meus colegas do ISCTE (onde entretanto tinha ingressado     como docente), Jorge Freitas Branco e Pedro Prista, na equipa do Raúl Iturra;     na fase final contei ainda com os comentários do João de Pina-Cabral,     entretanto regressado de um período longo em Inglaterra – e manteríamos a     interlocução por muito mais tempo, tendo eu mesma ingressado no ICS uns anos     depois. Sobre o assunto fiz a tese de mestrado, que gerou o livro <i>Os Montes do Nordeste Algarvio </i>e vários     artigos (Bastos 1985, 1988, 1991a, 1991b, 1993, 1996a, 1997a).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Internacionalização pessoal I: New York, NY</b> </font></p>        <p><font size="2" face="Verdana">Repetindo uma tendência já enunciada, no dia imediatamente a seguir a entregar a     tese de mestrado parti para os Estados Unidos. Pensava então que nos Estados     Unidos, liberta da difícil escolha entre a etnologia francesa que ainda     influenciara a minha formação e a antropologia social britânica que traziam os     colegas anglófonos, ia poder explorar enfim à vontade a riqueza desse mundo que     tinha começado a analisar na serra algarvia, contando ao mesmo tempo com a     possibilidade de ter boa supervisão teórica e acesso a bibliotecas, livros,     revistas. Em Portugal, com sorte, tínhamos fotocópias tiradas de livros     emprestados pelos professores; nos Estados Unidos tínhamos os livros, em várias     edições… e os seus autores, em directo, nas aulas, nos seminários, nas     recepções, nos gabinetes. Era todo um outro universo de possibilidades, de     promessa de condições para estudar mais e melhor e para trabalhar, além de mais     e melhor, em liberdade.<a style='mso-footnote-id:ftn3' href="#_ftn3" name="_ftnref3" title=""><sup><sup>[3]</sup></sup></a></font></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Pouco depois de chegar aos Estados Unidos     percebi que tudo ia ser diferente do que tinha planeado. Esperava-se que     começasse um tema novo, e assim aproveitei para explorar um interesse de longa     data, no qual tocara superficialmente e sem supervisão: a antropologia médica     ou da saúde. Inscrevi-me em todas as cadeiras de antropologia médica e afins     que encontrei, tanto na City University of New York (CUNY) como na New School     for Social Research; fiz os cursos de Shirley Lindenbaum, Leith Mullings, Ida     Susser, David Rosner, e muitos mais; li e explorei em diversas direcções, até   que, fazendo curta uma história longa, me dediquei àquilo que era o grande tema     de Nova Iorque, a epidemia de sida.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana">Nos seminários de antropologia médica os     trabalhos sobre sida eram maioritários; estávamos nos finais dos anos 80, e     Nova Iorque era ao mesmo tempo um lugar de holocausto e de uma incomparável     criatividade, de iniciativas políticas, trabalhos comunitários, intervenções     artísticas, investigação clínica, de laboratório e de estudos sociais. A     antropologia em Nova Iorque é conhecida por estudar temas contemporâneos e     relevantes, e este era um deles. E eu, que vinha de uma antropologia ainda     balbuciante, onde era exibido o pudor de tratar temas de impacto imediato, com     medo de se confundir a disciplina com a acção e serviço social, onde se repetia     o mantra do distanciamento entre as ciências sociais e os problemas sociais,     entrava agora numa antropologia que dispensava esse distanciamento e, pelo     contrário, advogava a pesquisa nos problemas da realidade imediata, deles     fazendo a carne e o sangue da teoria. Estudava-se os sem-abrigo que enchiam as     ruas de Nova Iorque na sequência do desmantelamento de programas sociais pela     administração Reagan; o desmatamento na Amazónia; a proletarização de     camponeses nos Andes e em África; a violência doméstica; a máfia; as     sexualidades não hegemónicas; as identidades em mutação; cognições e práticas     em saúde, doença, aflição, mas também a política global, o sistema-mundo, as     redes transnacionais, o capitalismo, a moda, a vida social das coisas, além dos     cânones da disciplina, a sua história, os estudos de área. Se estudar a     epidemia de sida na perspectiva da antropologia era então impensável em     Portugal, era absolutamente natural fazê-lo a partir de Nova Iorque. Menos     convencional era, mesmo aí e então, a perspectiva que utilizei – o ângulo da     produção do conhecimento científico.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana">Estávamos muito antes da popularização dos     estudos de laboratório, das teorias de actor-rede, da consagração de Latour e     Callon na antropologia. Embora houvesse um consenso sobre a natureza social e     cultural do conhecimento, embora houvesse etnociências e antropologia     cognitiva, pouco se tinha feito na antropologia de finais dos anos 80 no que     tocava ao exame directo da ciência produzida nos laboratórios enquanto fenómeno     social. Mas, lá está, nessa maravilhosa biblioteca e nesse tempo em que as     podíamos explorar à vontade, dei com um <i>review       article</i> que me transformou para sempre: chamava-se “Opening Pandora’s box”   e, a propósito do livro do mesmo nome de Nigel Gilbert e Michael Mulkay (1984),     revia os argumentos de Latour e Woolgar, Karin Knorr-Cetina, Michael Mulkay, Nigel     Gilbert, Harry Collins, e outros tantos ilustres desconhecidos para a maioria     dos departamentos de antropologia. A partir daí entrei no mundo nascente dos   “STS” (para Science and Technology Studies, ou Estudos de Ciência e Tecnologia)     que hoje têm espaço próprio na American Anthropological Association (AAA); essa     passagem descrevi-a num capítulo de um livro sobre os Estudos Sociais da     Ciência em Portugal (Bastos 2008a).</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana">Fiquei assim voluntariamente presa aos estudos     de ciência – mas também a outras coisas. Nesses três anos de cursos, tutoriais     e supervisão expus-me a abordagens e desenvolvimentos teóricos que eram     praticamente desconhecidos em Portugal. O livro <i>Writing Culture</i> já fora publicado e criticado; vi-o chegar a     Portugal anos mais tarde, e criar inquietações por vezes paralisantes entre colegas     e alunos, quando, no lugar de origem, viera e partira, deixando marcas mas não     cicatrizes. O momento pós-moderno foi efémero e em Nova Iorque sentia-se o seu     desigual impacto: nalgumas aulas o reflexivismo imperava e até capturava alguns     reféns da impossibilidade de prosseguir no real (ou seria na obsessão com a     própria voz, imagem, umbigo?); noutras fazia-se etnografia à antiga, por     desconstruir, sólida no seu positivismo e nas suas convicções sobre a     possibilidade de conhecer e medir o mundo; noutras ainda exploravam-se caminhos     novos, digerido o reflexivismo, reduzido a uma peça de autocrítica que pouco     muda no nosso desejo e esforço de interpretar a realidade social. Segui as     aulas de Vincent Crapanzano, Eric Wolf, Jane Schneider, além dos que referi na     antropologia e história da saúde; fiz <i>area       studies</i> sobre lugares que nunca visitei mas fiquei a conhecer; e segui com     devoção os cursos dos visitantes Fredrik Barth e Ulf Hannerz. Com este aderi à   proposta de “<i>global framework</i>”, à   ambição de estudar fenómenos globais, à macro-antropologia. Ainda o   “transnacionalismo” não se tinha instalado no vocabulário antropológico nem se     enquistara o hábito de creditar o “trabalho multissituado” a George Marcus.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana">Era, sem dúvida, um momento excitante para a     antropologia, não obstante pairasse no horizonte, também nos Estados Unidos,     uma certa angústia quanto à possibilidade de prosseguir carreiras académicas e     científicas; o que fora um lugar de plenitude na geração anterior era agora     visto como um lugar de escassez, e quem quisesse emprego teria de circular por     lugares remotos, pequenos <i>colleges</i> em     estados do interior, ou tarimbar em tarefas precárias e mal pagas nas cidades,     antes de arranjar uma posição mais à medida dos seus desejos e aspirações.     Estes horizontes não se me puseram, já que mantinha o compromisso de regressar     mais tarde a Portugal, fora equiparada a bolseira, escolhera usar no início o     tempo de dispensa que habitualmente era dado para a fase final de redacção da     tese.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana">Os horizontes que se me punham eram os de     rasgar ideias novas e usar os ingredientes analíticos de que agora dispunha     para tratar algo novo. Ideias não faltavam. E o modelo teórico desenhava-se na     confluência dos meus interesses, dos vários que entretanto tinham emergido: os     estudos sociais de ciência, a macro-antropologia, a epidemia de sida. A minha     tese seria a combinação dessas três vertentes e, por isso, ainda hoje é difícil     situá-la entre as subespecialidades. Até no título se instalou a transição     conceptual – se a tese propriamente dita se chamaria <i>Transnational Responses to AIDS and the Gobal Production of Science: A       Case-Study from Rio de Janeiro</i> (Bastos 1996c), o livro, publicado logo a     seguir pela Indiana University Press, seria <i>Global       Responses to AIDS: Science in Emergency</i> (Bastos 1999). Da primeira versão     para a segunda perdeu-se a habitual referência ao lugar específico ou ao grupo   étnico em que o trabalho de campo decorreu, típico da etnografia clássica e     muitas vezes associado à crença na autoridade narrativa e analítica dos     antropólogos, quando não na apropriação de um povo ou lugar em consequência do     trabalho de campo. Estávamos numa transição, no decorrer da qual alguns se     deram mesmo ao extremo de dispensar o terreno e a etnografia – que o tempo veio     a repor, mantendo o terreno a sua centralidade na disciplina, mesmo quando em     campos insólitos, ou, como vim depois a fazer, em arquivos do passado.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana">Encontrava-me nestes preparos teóricos quando     tive a sorte de receber um estímulo à investigação sob a forma de bolsa de     viagem para prospecção de terreno. Era o ano de 1989 e ainda não tinha     escolhido o lugar de terreno; pendia sobre mim o regresso a Portugal a qualquer     momento, o relógio da licença ouvia-se alto, sabia que não podia arriscar algo     que envolvesse muito tempo – por exemplo anos de aprendizagem de língua –, mas     estava aberta a muitas latitudes, desde o Mediterrâneo, que prolongava o que     tinha começado, à África, que tinha aprendido mas não conhecido. Por um     conjunto de circunstâncias fui fazer uma prolongada exploração à América do     Sul, incluindo os Andes, as terras baixas amazónicas, e o Brasil. Já há muito     que andava a ser instigada pelos meus colegas brasileiros e brasilianistas da     CUNY – Gustavo Lins Ribeiro, Lígia Simonian, Jonathan Poor, John Burdick, Robin     Sheriff, mais tarde Telma Camargo – para me juntar a eles. O Antônio Carlos     Souza Lima, do Museu Nacional, abriu-me as portas e apresentou-me a outros     colegas ainda mais próximos dos meus interesses de pesquisa; daí conheci Sérgio     Carrara, e depois Richard Parker, e fiz o meu próprio caminho entre as     universidades, as ONG e os serviços de saúde que trabalhavam sobre a sida.     Tomei contacto com um universo de pesquisa fervilhante e uma frente de actuação     face à sida, tanto no plano dos cuidados de saúde como na prevenção e nas     iniciativas sociais. Não tive mais dúvidas: ia fazer o meu trabalho de campo no     Rio. Podia ter sido em São Paulo, mas não apenas acontece que São Paulo é   diferente do padrão geral do Brasil como acontecia que eu já estava cativa do     Rio.<a style='mso-footnote-id:ftn4' href="#_ftn4" name="_ftnref4" title=""><sup><sup>[4]</sup></sup></a></font></p>       <p><font size="2" face="Verdana">Enquanto desenvolvia o projecto para     candidatura a agências financiadoras desloquei-me uma vez mais ao Rio, agora     para acertar os termos do trabalho de campo, obter autorizações, apoios,     interlocução. E foi no Rio de Janeiro, no pátio do Museu Nacional, que ouvi o     Otávio Velho falar do Congresso Luso-Afro-Brasileiro, para onde iria – ele, não eu, que achei o assunto interessante mas não a ponto de pensar que     no futuro iria envolver-me tanto que organizaria a terceira edição do     congresso, em 1994, e viria a ser editora da revista ­<i>Travessias </i>dez anos depois. Em 1990 participei, sim, do encontro da     EASA, com a emoção de assistir a algo que estava a nascer e iria certamente dar     frutos. E foi durante esse encontro, algures num terraço da Universidade de     Coimbra, que acabei por definir o que viria a ser uma trajectória internacional   – mas feita em termos muito diferentes daqueles que eram ali enunciados.     Conversava com o colega Joaquim Pais de Brito, que me instigava a voltar a     Portugal, porque em Portugal é que era; e eu com a noção de que agora estava a     dar um passo para mais longe, que voltaria sim, mas só depois de percorrer o     caminho que estava a configurar-se mas cujos contornos, tempos, componentes, eu     não conhecia de todo. Tinha passado um tempo fora, mas enquadrada num programa     de doutoramento, o que em si só não acrescentava nada de radicalmente novo a um     padrão em que, para aprofundar conhecimentos, se sai de uma periferia onde a     ciência geralmente se consome à distância para um lugar mais central onde aquela     se pratica em directo e depois se regressa para praticar de modo diluído o que     se aprendeu no centro, com doses variáveis do impulso para comparar e talvez     lamentar a diferença de condições entre o lá e o cá. Eu achava que estava à   beira de algo diferente – talvez previsse uma mudança nessas hierarquias     internacionais, nas redes a desenvolver, no horizonte sul-sul, nos emergentes?   –, mas não sabia o que era. Só sabia onde devia estar: no Brasil.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Internacionalização pessoal II: Rio de Janeiro</b> </font></p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Estava já no Rio de Janeiro quando ouvi os fogos e     foguetes que anunciavam a entrada do ano de 1991. Não estava porém no lendário <i>r</i>é<i>veillon </i>na praia de Copacabana, saudando Yemanjá juntamente com um ou dois milhões     de pessoas vestidas de branco. Bem tinha tentado, mas em vez de Copacabana     estava na Tijuca a ver e ouvir foguetes que vinham de um morro. “Morro”,     note-se, tanto se usava para as formações geológicas que irrompem pela cidade     em ladeiras abruptas como para as favelas que nelas cresceram, nos interstícios     da urbanidade, e também da lei, e também da cidadania. Hoje, transformado o     Brasil num país emergente em que o futuro é construído todos os dias, o estigma     das favelas reconfigurou-se e as comunidades dos morros trabalham os termos da     sua cidadania; mas estávamos no início dos anos 90 e a situação era outra. O     morro era a margem do asfalto; o asfalto, para lá das ruas pavimentadas, tinha     casas numeradas, equipamentos e transportes públicos, direitos, cidadania; no     morro tudo era mais precário, dos materiais à malha da construção e aos     direitos de quem lá vivia. Do asfalto subia-se ao morro para adquirir cocaína     ou outras drogas lúdicas que nos interstícios da lei ali podiam circular, e     circulavam, em cadeias complexas que incluíam patrões, empregados, clientes e     até soldados dos exércitos do narcotráfico. Hoje, vinte anos depois, tudo isto     está documentado em filmes, livros, artigos, memórias que ajudam a decifrar as     complexas relações de poder e subjugação que governavam a vida dos morros, onde     além do narcotráfico havia vida, de onde vinha, aliás, grande parte da     população que prestava serviços no asfalto. Mas ao tempo tudo parecia mais     difuso e ao morro associava-se um <i>continuum</i> de fantasias e medos congregando o que se imaginava distintamente carioca –   música, dança, jogo ilícito, malandragem, crime e, claro, narcotráfico. Por     entre essa nebulosa irrompiam alguns sinais reconhecíveis, como o anúncio, em     foguetes com sons e ritmos codificados, da chegada deste ou daquele     carregamento de droga à disposição de quem a quisesse e pudesse comprar.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana">Nesse dia os foguetes do morro pareciam-se com     os foguetes de qualquer outro lugar do Rio àquela mesma hora: assinalavam a     entrada do novo ano. Talvez fossem mais exuberantes que aqueles que assinalavam     a chegada de produto. Não o saberia dizer. Não conhecia todos os meandros do     Rio de Janeiro e os seus códigos visuais e sonoros. Menos ainda conhecia a     Tijuca. Que fazia eu à beira dos seus morros que alegremente entravam no ano de     1991 com fogos e foguetes? Não era trabalho de campo; outros o faziam em     favelas e morros. Robin Sheriff, minha amiga e colega de doutoramento na CUNY,     morava no Morro dos Prazeres, no bairro de Santa Teresa – não muito longe da     Tijuca, mas com todo um outro estilo e cultura –, para estudar, nos termos     convencionais da observação participante, as relações raciais num Brasil que     então se apresentava como se fosse imune aos males do racismo e à própria     existência de racismo. O nosso querido colega Gilberto Velho, do Programa de     Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) do Museu Nacional, achava “um     absurdo” que uma jovem americana se expusesse voluntariamente ao que via como     os riscos da favela, que incluíam a possibilidade de ser alvejada. Era assim     que do asfalto se percebia a favela, exacerbados os efeitos das guerras do     narcotráfico e dos complexos enredos de conquistas de território e controle dos     morros.<a style='mso-footnote-id:ftn5' href="#_ftn5" name="_ftnref5" title=""><sup><sup>[5]</sup></sup></a></font></p>       <p><font size="2" face="Verdana">Tudo isto eu só vim a saber muito depois. A     minha pesquisa era noutra área e não passava necessariamente por morros e     favelas, mas antes por hospitais, ONG, laboratórios, lugares de produção e uso     do conhecimento médico e social sobre a epidemia de sida. O que me trazia às     proximidades daquele morro era absolutamente fortuito, casual, imprevisto.     Aliás, nem estava no morro, via-o e ouvia-o do asfalto, mais precisamente de um     confortável quarto de hospital onde recuperava de uma cirurgia de urgência. É   que à chegada ao Rio de Janeiro, onde iria passar um ano em trabalho de campo,     fui surpreendida por uma apendicite que não identifiquei. Bem tinha tentado chegar à cidade onde ia começar o     meu “terreno” a tempo de participar do <i>r</i>é<i>veillon</i> à beira-mar; mas logo na     viagem de avião algo começou a correr fora do previsto, parecia um efeito da     comida de bordo de uma companhia em declínio, enjoo, digestão parada por um     copo de água, ou outras coisas que me iam ocorrendo enquanto os outros     passageiros dormiam e eu, de pé, ia beberricando o <i>ginger ale</i> providenciado pela hospedeira (o único “remédio” que     davam na PanAm), em completa negação da apendicite cujos sinais se apresentavam   óbvios e acabariam, no dia em que cheguei, por me levar quase diretamente ao     hospital de onde – depois dos devidos procedimentos de anestesia, cirurgia,     excisão do apêndice, costura, recobro, etc. – assisti ao foguetório do morro da     Tijuca no dia 31 de Dezembro de 1990. <i>So       much for serendipity</i> – e a minha eterna gratidão ao bom-senso do amigo e     colega Antônio Carlos, que me resgatou da minha inconsciência e me encaminhou     para atendimento médico apropriado. Tendo os ouvidos cheios de histórias,     factuais ou imaginárias, de antropólogos e arqueólogos imolados por triviais     apendicites durante o trabalho de campo em lugares de povoamento escasso e     equipamentos cirúrgicos inexistentes, não podia deixar de me sentir muito grata     de este meu campo estar cheio de equipamentos hospitalares e cirurgiões     experientes…</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana">Escusado será dizer que não era essa a minha     ideia de observação participante nos hospitais do Rio, e tão-pouco fiz da     situação um grande momento de pesquisa. Essa seria feita em vários outros     hospitais cariocas e fluminenses ao longo dos dois anos seguintes, e em     posições diferentes, fosse de pé, sentada, curvada, acocorada ou ajoelhada –   mas não deitada numa cama de hospital. Se evoco esse momento na Tijuca é só   para contrastar o início da década, passado no Rio de Janeiro, com o fim da     mesma, que passei em Lisboa na casa onde até hoje vivo, onde me implantei firme     e a partir de onde tenho feito todo um outro ciclo de pesquisas que incluem a     própria cidade de Lisboa, uma antropologia do colonialismo que teve sede também     em Lisboa, e me dediquei a formar gerações mais jovens de antropólogos e     pesquisadores de estudos sociais da ciência. Mas isso seria na década seguinte,     a de 2000. Nos anos 90 andava ainda a deambular, e muito, por lugares mais ou     menos distantes. E comecei a década no Rio, e ali, em parte devido à falência     da PanAm e à demora em arranjar bilhete alternativo, prolonguei a minha estadia     até que me chamaram e tive de regressar a Portugal. Lembro-me que saí em     vésperas do Rio 92, levaram-me ao aeroporto do Galeão pela recém-aberta Linha   ­Vermelha, contornando os engarrafamentos da avenida Brasil; a cidade estava a     transformar-se, abriam-se as vias para receber os congressistas da nova     sustentabilidade mundial.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana">E entre esses dois dias, entre aquele em que     ouvi abrir o ano de 91 com foguetes do morro e aquele em que me despedi do Rio     (em termos: voltaria muitas vezes) em meados de 92, passou-se o meu trabalho de     campo. É difícil dar conta da intensidade deste trabalho, que era experimental,     era urbano, era global, era sobre conhecimento científico, era sobre práticas     médicas, assistência, clínica, políticas públicas, sexo, representações,     identidades, trocas internacionais, fluxos de conhecimento, recomendações,     ajuda internacional, relações entre agentes sociais, relações entre produtores     de conhecimento, governantes, activistas, intelectuais orgânicos – e tudo ia     acontecendo sob os meus olhos e sentidos, o “objecto” transformava-se enquanto     o acompanhava. Uma longa história que não consegui contar de imediato, mas     viria a contar sob a forma de tese que passaria a livro quase sem alterações     (Bastos 1999); que contei também sob a forma de alguns artigos, uns enquanto     fazia a tese (Bastos 1994a, 1994b), outros pouco depois (Bastos 1996b, 1997b,     1998b, 2003), outros muito mais tarde (Bastos 2008b, 2010a, 2010b). Como     sempre, ainda no ano em que terminei o doutoramento envolvi-me num novo     projecto. Se o rasgão cognitivo que me levou a formular a pesquisa sobre as     relações entre a medicina tropical e o poder colonial militarizado – cujo     terreno seria Goa histórica – se deu na biblioteca da     New York University, o caminho foi feito ao aprofundar a investigação sobre a     história das doenças infecciosas, e muito se deveu ao que aprendi, ainda no     Brasil, com os historiadores da medicina na Casa de Oswaldo Cruz. Aí, no     Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro     (UERJ), no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na     Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA), e em muitos outros     lugares onde aprendi, interagi, ouvi, troquei conhecimentos, se formularam     questões que se prolongariam com outro formato.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana">Depois de regressar do terreno passei anos a     processar a intensidade da experiência e as dificuldades decorrentes de ter     formulado a equação de pesquisa de modo desastradamente visionário. Tinha ideia     de que a negociação do conhecimento biomédico relevante para as doenças     infecto-contagiosas – de que a sida era o caso imediato e urgente, e que tinha     potencial para induzir uma mudança de paradigma – iria talvez passar por uma     reconfiguração das relações de poder na produção e consumo do conhecimento     científico; que o trajecto de norte para sul, ou de centros para periferias,     como então se usava dizer, iria talvez dar lugar a um modo em que os     habitualmente subalternizados, do sul, ou das periferias, teriam voz activa na     formulação do conhecimento, das agendas de pesquisa, talvez na proposta     interpretativa – tal como acontecera no campo da saúde por influência de     pressões de grupos organizados, de mulheres, de <i>gays</i>, de minorias. Era uma hipótese teórica, desenvolvida a partir     de um estudo preliminar, e, vi-o muito mais tarde, certeira: o Brasil veio     mesmo a tornar-se um agente de transformação no campo da epidemia da sida e     passou a ser citado, apontado, admirado, invejado e, quando possível, imitado     pelo mundo fora. Só que isso aconteceu muito depois de eu ter fechado o terreno     e algum tempo depois de acabada a tese. E não exactamente do modo como tinha     previsto, pela formulação de modelos interpretativos para os processos     infecciosos, mas sim num campo contíguo, o da política de distribuição de     anti-retrovirais e assistência pública. Abordei o assunto em artigos recentes     (Bastos 2008b, 2010a, 2010b). Se voltasse a fazer uma tese, seria mais modesta     no alcance. Mas naquele tempo tinha uma energia que transbordava, e a tese, o     terreno e o que fiz com ele assim o reflectiram.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana">Ao longo do período de ano e meio que durou a     minha estadia no Rio consolidei laços indeléveis com colegas da antropologia     brasileira, da saúde pública, da epidemiologia, da história da medicina e     ciências da saúde, e do próprio campo da saúde, entre activistas,     profissionais, portadores. Embora tenha iniciado entretanto todo um outro ciclo     de pesquisas, esse universo de conexões e interlocução manteve-se, expandiu-se,     amadureceu, fazendo com que a minha rota mais estimada, ou mesmo a mais     frequente, seja no eixo luso-brasileiro. Acumulo-o com o universo     norte-americano, onde cresci intelectualmente e do qual me sinto parte. E como     o tempo não dá para tudo, movimento-me com menos frequência no eixo europeu.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana">Quando regressei de tão intenso período no Rio     de Janeiro e tentei reestabelecer-me em Portugal deparei com o generalizado     desconhecimento dos meus colegas relativamente ao que se passava no Brasil,     equivalente ao que ocorria no Brasil relativamente a Portugal. Em parte, os     congressos luso-afro-brasileiros de ciências sociais ajudariam a colmatar esse     fosso, mas algo mais específico, organizado e impactante aconteceu na     antropologia: uma reunião promovida pela Associação Brasileira de Antropologia     quando era seu presidente João Pacheco de Oliveira Filho, amigo de longa data     do programa de pós-­graduação do Museu Nacional, e vice-presidente Mariza     Peirano, da Universidade de ­Brasília. A reunião teve lugar no Instituto de     Filosofia e Ciências Sociais (IFiCS) da UFRJ, em 1994, com o apoio entusiasmado     de Yvonne Maggie. Os outros colegas portugueses (Miguel Vale de Almeida, João     de Pina-Cabral, Joaquim Pais de Brito e Rosa Maria Perez) pisavam o Brasil pela     primeira vez; como eu, alguns nunca mais deixaram de fazer tudo para lá voltar,     e voltar, e voltar. Os colegas brasileiros presentes na reunião (João Pacheco,     Mariza Peirano, Yvonne Maggie, Bela Feldman-Bianco, Gilberto Velho, Otávio     Velho, Ruben Oliven, Maria Luiza Heilborn, e muitos outros) olhavam-nos com     curiosidade e abertura. Poucos tinham experiência de Portugal – talvez só mesmo     Bela Feldman-Bianco tivesse um conhecimento substantivo e baseado em pesquisa,     quer entre os portugueses da diáspora na Nova Inglaterra, quer a partir do     Centro de Estudos Sociais, em Coimbra. Mas todos estavam mais que dispostos a     ultrapassar o injustificável fosso entre um país e outro, a inexistência de     comunicação e de conhecimento mútuo. As condições eram diferentes de cada um     dos lados: o Brasil tinha uma tradição de antropologia fortemente implantada na     academia e na sociedade; tinha contado com grandes nomes internacionais nos     seus primeiros anos, incluindo Lévi-Strauss, Roger Bastide, Charles Wagley.     Tinha uma população indígena que atraía sem parar os interesses de antropólogos     internacionais, e desenvolvera a sua própria antropologia, cujas preocupações     no âmbito nacional e local não sacrificavam o padrão de qualidade     internacional. Portugal estava muito distante dessa situação, mas vivia com     pujança o momento de crescimento que marcou os anos 90, consolidando a condição     de membro da União Europeia. Participava da EASA em pleno; lançara os congressos     luso-afro-brasileiros. Em Portugal e no Brasil falava-se a mesma língua, ou     quase. Era um absurdo não se conhecerem mutuamente.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Nota final</b> </font></p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Passados quase vinte anos chegámos a um lugar muitíssimo diferente. Circulam     pesquisadores, professores, estudantes. Existem bolsas-sanduíche, estágios,     pós-docs, sabáticas, projectos conjuntos, acordos entre departamentos,     programas partilhados, orientações coordenadas, livros a quatro mãos, a seis,     oito ou mais, circulam artigos entre as revistas, faz-se comunidade sem     dissolver especificidades; mantêm-se núcleos múltiplos, redes e canais que se     cruzam e fazem circular conhecimento, práticas e desenvolvimentos teóricos     entre vários parceiros académicos que trabalham em português – muitos dos quais     trabalham também noutras línguas, mas celebram a possibilidade de privilegiar     este veículo de expressão. Se na década de 1990 foram lançadas estas pontes, na     de 2000 consolidaram-se de tal modo que nos anos 2010 são dadas por adquiridas,     tornando-se impensável retroceder ao tempo em que cada grupo só tinha por     horizonte o seu imediato, acrescido por uma miragem dos centros ­distantes com     os quais se tinha uma relação hierarquizada. Cabe-nos agora, sob os     constrangimentos económicos e burocráticos que a década de 2010 também trouxe,     com novas relações de poder e acrescidos desafios, manter vivo o que     construímos e fazer deste cenário o lugar de criatividade e aventura cognitiva     a que sempre aspirámos.</font></p>       <p>&nbsp;</p>       <p><font size="3" face="Verdana"><b>Bibliografia</b></font></p>          <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BASTOS, Cristiana, 1985, “Bruxas e bruxos   no nordeste algarvio: algumas representações da doença e da cura”, <i>Trabalhos de Antropologia e Etnologia</i>, 25 (2-4): 285-295.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000066&pid=S0873-6561201400020001200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BASTOS, Cristiana, 1988, “The Northeastern       Algarve and the Southern Iberia family pattern”, <i>Journal of Family History</i>, 13   (1): 111-121.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000068&pid=S0873-6561201400020001200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BASTOS, Cristiana, 1991a, “Etnografia,   aldeia e montes: formas de povoamento no Nordeste algarvio”, <i>Trabalhos de Antropologia e Etnologia</i>, 31 (1-4): 41-76.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000070&pid=S0873-6561201400020001200003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BASTOS, Cristiana, 1991b, “Montes e aldeia       no Nordeste algarvio”, em Joaquim   Pais de Brito e Brian O’Neill (orgs.), <i>Lugares de Aqui: Actas do Seminário Terrenos Portugueses</i>. ­Lisboa, Publicações Dom Quixote, 103-117.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000072&pid=S0873-6561201400020001200004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BASTOS, Cristiana, 1993, <i>Os Montes do Nordeste Algarvio. </i>Lisboa,   Edições Cosmos.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000074&pid=S0873-6561201400020001200005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BASTOS, Cristiana, 1994a, “Geomorfologia       do poder na produção social da ciência: a propósito da luta global contra a       SIDA”, <i>Revista Crítica de Ciências   Sociais</i>, 41: 63-84.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000076&pid=S0873-6561201400020001200006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BASTOS, Cristiana, 1994b, “Explorações em   antropologia dos processos globais: a questão da SIDA/AIDS”, <i>Análise Social</i>, XXIX (125-126): 483-494.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000078&pid=S0873-6561201400020001200007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BASTOS, Cristiana, 1996a, “A escala da       mudança: o tempo da serra algarvia”, em Joaquim       Pais de Brito <i>et al.</i> (orgs.), <i>O Voo do   Arado</i>. Lisboa, Museu Nacional de Etnologia, 558-565.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000080&pid=S0873-6561201400020001200008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BASTOS, Cristiana, 1996b, “Cravado na       pele, o hospital: fronteiras do corpo em dias de sida”, em Miguel Vale de       Almeida (org.), <i>Corpo Presente: Treze   Reflexões Antropológicas sobre o Corpo</i>. Oeiras, Celta Editora, 184-199.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000082&pid=S0873-6561201400020001200009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BASTOS, Cristiana, 1996c, <i>Transnational Responses to AIDS and the       Global Production of Science: A Case-Study from Rio de Janeiro</i>. Ann Arbor,   MI, UMI Dissertation Services.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000084&pid=S0873-6561201400020001200010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BASTOS, Cristiana, 1997a, “Semeando entre       as pedras: história e ecologia do minifúndio no Nordeste algarvio”, <i>Trabalhos de Antropologia e Etnologia</i>,   37 (1-2): 149-163.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000086&pid=S0873-6561201400020001200011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BASTOS, Cristiana, 1997b, “A pesquisa       médica, a sida, e as clivagens da ordem mundial: uma proposta de antropologia       da ciência”, <i>Análise Social</i>, XXXII   (140): 75-111.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000088&pid=S0873-6561201400020001200012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BASTOS, Cristiana, 1998a, “(In)visible       borders: ideologies of otherness and sameness in a Portuguese political       frontier”, <i>Portuguese Literary and   Cultural Studies</i>, I (1): 19-32.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000090&pid=S0873-6561201400020001200013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BASTOS, Cristiana, 1998b, “A política de   produção de conhecimento e os movimentos de resposta à sida”, <i>Etnográfica</i>, II (1): 15-53.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000092&pid=S0873-6561201400020001200014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BASTOS, Cristiana, 1999, <i>Global Responses to AIDS: Science in   Emergency. </i>Bloomington, Indiana University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000094&pid=S0873-6561201400020001200015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BASTOS, Cristiana, 2003, “A globalização       da sida”, em <i>Actas         dos IX Cursos Internacionais de Verão de Cascais</i>,       vol. 4 –<i> Globalização, Novos Riscos e         Ciência</i>. Cascais, Câmara Municipal de Cascais, Instituto   de Cultura e Estudos Sociais, 77-90.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000096&pid=S0873-6561201400020001200016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BASTOS, Cristiana, 2008a, “Os estudos       sociais da ciência, a antropologia e a grande fractura”, em João Arriscado Nunes e Ricardo Roque (orgs.), <i>Objectos Impuros: Os Estudos Sociais da   Ciência em Portugal.</i> Porto, Edições Afrontamento, 107-131.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000098&pid=S0873-6561201400020001200017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BASTOS, Cristiana, 2008b, “From global to       local and back to global: the articulation of politics, knowledge and       assistance in Brazilian responses to AIDS”, em Maj-Lis Follér e Håkan Thörn (orgs.), <i>The Politics of AIDS: Globalization, the         State and Civil Society.</i> Nova Iorque, Palgrave   Macmillan, 225-241.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000100&pid=S0873-6561201400020001200018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BASTOS, Cristiana, 2010a, “Tracking global       flows and still moving: the ethnography of responses to AIDS”, em Marit Melhuus,       Jon P. Mitchell e Helena Wulff (orgs.), <i>Ethnographic Practice in the Present</i>.   Oxford, Berghahn Books, 135-151.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000102&pid=S0873-6561201400020001200019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BASTOS, Cristiana, 2010b, “The social       determinants of health and the hierarchies of knowledge”, em Sanjoy Bhattacharya, Sharon Messenger e Caroline Overy (orgs.), <i>Social   Determinants of Health: Assessing Policy, Theory and Practice.</i> Deli, Orient BlackSwan, 263-271.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000104&pid=S0873-6561201400020001200020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">FREITAS, Marcus Vinicius de, 2012, <i>Contradições da Modernidade. </i>São Paulo,   Editora da Unicamp.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000106&pid=S0873-6561201400020001200021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">GILBERT, Nigel, e Michael MULKAY, 1984, <i>Opening Pandora’s Box: A Sociological       Analysis of Scientists’ Discourse</i>. Cambridge e Nova Iorque,   Cambridge University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000108&pid=S0873-6561201400020001200022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">HANCHARD, Michael, 1999, <i>Racial Politics in Contemporary Brazil</i>.   Durham, NC, Duke University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000110&pid=S0873-6561201400020001200023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">O’NEILL, Brian Juan, e Joaquim Pais de BRITO (orgs.), 1991, <i>Lugares de Aqui: Actas do Seminário Terrenos Portugueses</i>. Lisboa, Publicações Dom Quixote.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000112&pid=S0873-6561201400020001200024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SHERIFF, Robin, 2001, <i>Dreaming Equality: Color, Race, and Racism in Urban Brazil</i>. New   Brunswick, NJ, Rutgers University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000114&pid=S0873-6561201400020001200025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">TELLES, Edward, 2004, <i>Race in Another America: The Significance of Color in Brazil</i>.   Princeton, NJ, Princeton University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000116&pid=S0873-6561201400020001200026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">TWINE, Francine, 1998, <i>Racism in a Racial Democracy: The   Maintenance of White Supremacy in Brazil</i>. New Brunswick, NJ, Rutgers University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000118&pid=S0873-6561201400020001200027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>       <p>&nbsp;</p>       <p>&nbsp;</p>       <p><font size="2" face="Verdana"><a style='mso-footnote-id:ftn1' href="#_ftnref1" name="_ftn1" title="">[1]</a>       Durante a revisão final deste texto esta situação modificou-se     e o 12.º Congresso terá lugar em Lisboa, em Fevereiro de 2015.</font></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana"><a style='mso-footnote-id:ftn2' href="#_ftnref2" name="_ftn2" title="">[2]</a>       Dois outros encontros marcaram para alguns antropólogos portugueses o início da internacionalização: o Congresso de Sociologia Rural em Braga (1985), que acolheu um grande número de antropólogos que trabalhavam sobre Portugal e Espanha, nesse tempo em que dominavam os estudos de situações rurais; e o encontro de antropologia do Estado espanhol, em Alicante (IV Congresso de Antropologia de Espanha, 1987), em que estiveram presentes vários estudantes e professores portugueses que ali estabeleceram laços que duraram pelas décadas seguintes.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana"><a style='mso-footnote-id:ftn3' href="#_ftnref3" name="_ftn3" title="">[3]</a>       Nesse tempo pré-FCT não era tarefa fácil conseguir financiar um doutoramento fora do país – algo que consegui graças à combinação de diversas fontes ao longo de diferentes períodos. Aproveito o momento para exprimir a minha       gratidão: ao ISCTE, que me concedeu equiparação a bolseira, e mais tarde ao       ICS, que me permitiu continuar o doutoramento; à comissão Fulbright, que me       abriu diversas portas nos Estados Unidos e providenciou apoio, ao qual se       acrescentou uma bolsa de mérito da fundação Delta Kappa Gamma; ao Graduate       Center da City University of New York (CUNY), que me acolheu e apoiou; à   JNICT-Invotan, que me apoiou numa fase seguinte; e à Wenner-Gren Foundation for       Anthropological Research, que apoiou o trabalho de     campo.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana"><a style='mso-footnote-id:ftn4' href="#_ftnref4" name="_ftn4" title="">[4]</a>       Como aponta Marcus Vinicius de Freitas (2012: 125), São Paulo não teve uma <i>Belle Epoque</i>, teve uma <i>Guilded Age</i>, tudo ali é diferente…</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana"><a style='mso-footnote-id:ftn5' href="#_ftnref5" name="_ftn5" title="">[5]</a>       Parece que tudo isto foi há muitíssimo tempo mas foram apenas duas décadas, e o Brasil era outro país,       o Rio outra cidade, onde era comum ouvir dizer que não existia movimento negro por não existir racismo,       ou existir de um modo muito velado e brando, insuficiente para gerar consciência negra. Livros como <i>Racism         in a Racial Democracy: The Maintenaince of White Supremacy in Brazil</i>, de       Francine Twine (1998), <i>Dreaming Equality:         Color, Race, and Racism in Urban Brazil</i>, de Robin Sheriff (2001), e também <i>Racial Politics in Contemporary Brazil</i>,       de Michael Hanchard (1999), e mais tarde <i>Race         in Another America: The Significance of Color in Brazil</i>, de Edward Telles       (2004), marcam um ponto de viragem; hoje o cenário é muito diferente: movimento       negro, interesse pela história e antropologia das relações raciais,       interpretação das favelas enquanto quilombos urbanos – e a produção académica     brasileira sobre este assunto ampliou-se imensamente.</font></p>      ]]></body><back>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Bruxas e bruxos no nordeste algarvio: algumas representações da doença e da cura]]></article-title>
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<article-title xml:lang="en"><![CDATA[The Northeastern Algarve and the Southern Iberia family pattern]]></article-title>
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