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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Linhas de redefinição de um objeto: entre transformações no terreno e transformações na antropologia]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[The redefinition of an object: from changes in the field to changes in anthropology]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade do Minho Centro em Rede de Investigação em Antropologia ]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[An ethnographic revisit, the comparison between two ethnographic inquiries conducted in different decades in a same prison institution, as well as between the discrepant, yet altogether consistent, results of those inquiries, provide an occasion to reflect on the limits and possibilities of ethnography for capturing historical processes. Is a systematic description of change possible in the light of the situated nature of ethnographic research and, more specifically, of its own historicity? This historicity will be reflexively considered at three levels: (i) in relation to the realities being ethnographed, (ii) in relation to the ethnographer and to the intersubjective encounter with his/her interlocutors, (iii) in relation to anthropological theory, researchers’ intellectual trajectories and changing theoretical Zeitgeist.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana"><b><font size="2">MEM&Oacute;RIA</font></b></font></p>   <font face="Verdana">       <p align="right">&nbsp;</p>   </font>     <p><font size="4" face="Verdana"><b>Linhas de redefinição de um objeto: entre   transformações no terreno e transformações na antropologia</b></font></p>   <font face="Verdana">       <p>&nbsp;</p>   </font>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>The redefinition of an object: from changes in the field to changes in anthropology</b></font></p>        <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Manuela Ivone Cunha</b></font><font face="Verdana"><b><font size="2"><sup>I</sup></font></b><font size="2"></font></font></p>     <p><font face="Verdana"><font size="2"><sup>I</sup></font></font><font size="2" face="Verdana">Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA), Universidade do Minho, Portugal. e-mail: <a href="mailto:micunha@ics.uminho.pt">micunha@ics.uminho.pt</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <hr noshade size="1">     <p><font size="2" face="Verdana"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O regresso a um terreno, a comparação entre duas etnografias     realizadas em décadas distintas numa instituição prisional e os respetivos     resultados, discrepantes mas consistentes entre si, são uma ocasião para pensar     a possibilidade de uma descrição sistemática das mudanças no tempo à luz do     caráter situado e da tripla historicidade da investigação etnográfica: (i)     historicidade relativa ao terreno etnografado, (ii) historicidade relativa a /à   etnógrafo/a e ao encontro     intersubjetivo com os seus interlocutores, (iii) historicidade relativa à teoria antropológica e ao <i>Zeitgeist</i> teórico incorporado nos percursos intelectuais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Palavras-chave:</b> revisitas etnográficas, regresso ao terreno, historicidade, etnografia prisional, reflexividade</font></p> <hr noshade size="1">     <p><font size="2" face="Verdana"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">An ethnographic revisit, the comparison between two ethnographic inquiries     conducted in different decades in a same prison institution, as well as between     the discrepant, yet altogether consistent, results of those inquiries, provide     an occasion to reflect on the limits and possibilities of ethnography for     capturing historical processes. Is a systematic description of change possible     in the light of the situated nature of ethnographic research and, more     specifically, of its own historicity? This historicity will be reflexively     considered at three levels: (i) in relation to the     realities being ethnographed, (ii) in relation to the     ethnographer and to the intersubjective encounter     with his/her interlocutors, (iii) in relation to anthropological theory, researchers’ intellectual trajectories and changing theoretical <i>Zeitgeist</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Keywords:</b> ethnographic revisits, ethnographic re-study, historicity, prison ethnography, reflexivity</font></p> <hr noshade size="1">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>   <font face="Verdana"><b><font size="3">Introdução: revisitações de um terreno e historicidade da etnografia</font></b>  </font>     <p><font size="2" face="Verdana">O convite que me foi     feito para participar neste dossiê refere-se à investigação de terreno que     levei a cabo nos anos 1990.<a style='mso-footnote-id:ftn1' href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><sup><sup>[1]</sup></sup></a> É   portanto em torno dela que focarei alguns pontos a propósito dos quais pode ser     evocada a relação com o contexto de pesquisa e de teorização dessa época –   relação essa que também fui convidada a estabelecer. A investigação a que me     refiro, na verdade, revisitava um terreno, uma prisão de mulheres onde tinha   feito um primeiro trabalho de campo dez anos antes (Cunha 1994, 2002).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">As revisitações de um terreno começam por     levantar a questão da dupla historicidade da etnografia: historicidade relativa     ao contexto etnografado, historicidade relativa ao etnógrafo. Tanto etnógrafo/a     como etnografados/as estão situados no tempo, mudam à medida que     este progride. Por isso, cada investigação etnográfica é inevitavelmente     contingente não só a um conjunto de circunstâncias e a um momento histórico     particular, mas também a um encontro intersubjetivo irrepetível (Kenna 1992;     Okely 1992). Os regressos ao terreno permitem justamente situar de forma mais     nítida as etnografias precedentes nas etapas de evolução de um contexto. A esta     dupla historicidade acrescentarei adiante um terceiro elemento: o contexto teórico em que ambos ocorrem ou se desenrolam.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Se esta natureza situada da etnografia convida     a pensar a cada passo as condições do rigor etnográfico, ela não torna à   partida fútil a tentativa para captar a mudança na longa duração da realidade     estudada, através de uma sucessão de visitas ao terreno. Contingência e     intersubjetividade, para mencionar as duas dimensões que eventualmente suscitam     mais reservas em relação a uma ambição deste tipo, também não são forçosamente     obstáculo a uma comparação etnográfica controlada entre o passado e o presente.     A modalidade de conjugação do passado e do presente é que dificilmente pode     assumir a forma de um estudo “longitudinal” clássico, à maneira dos que se     realizam noutras ciências sociais através da replicação de um inquérito ao     longo do tempo (<i>e.g.</i> Bahr,     Caplow e Chadwick 1983; Phelps, Furstenberg e Colby 2002). Nem todo o     acompanhamento diacrónico de um terreno é disciplinável de acordo com este   modelo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Antes de avançar neste ponto, convém precisar,     primeiro, a que tipo de revisitação me refiro aqui. A questão da historicidade     da pesquisa etnográfica não se coloca, de facto, da mesma maneira consoante uma     investigação num dado terreno seja conduzida em diferentes momentos pelo mesmo     investigador ou por etnógrafos diferentes (ver também, a este propósito,     Burawoy 2003). Um etnógrafo não travará consigo próprio uma polémica como     aquela que Derek Freeman (1983) travou com Margaret Mead (1943 [1928]) a     propósito de Samoa, ou como a que opôs Oscar Lewis (1963 [1951]) a Robert     Redfield (1930) a propósito de Tepotzlán. É certo que as revisitações de um     terreno por um outro investigador não se saldam sempre por controvérsias vivas,     refutações ou impugnações, como o mostrou por exemplo o regresso de Sharon E. Hutchinson (1996) aos Nuer “de” Evans-Pritchard (1969 [1940]), ou     o de Annette Weiner (1976) aos Trobriandeses “de” Malinowski (1961 [1922]).     Estas duas últimas foram não tanto reanálises caracterizadas por uma     divergência fundamental em relação aos respetivos predecessores, mas     revisitações marcadas pela complementaridade dos aspetos examinados por uns e     outros. Ainda assim, mesmo neste caso, a questão da temporalidade de uma     etnografia tão-pouco é dissociável da questão das condições de reinterpretação     da investigação por outros investigadores que se sucedem no mesmo terreno – a   qual não pretendo focar aqui.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">No caso do etnógrafo que regressa ao seu     próprio contexto de estudo, quer seja através de um acompanhamento regular e     contínuo que vai atualizando pontualmente uma dada investigação, ou de um     regresso mais espaçado no tempo inaugurando uma diferente estadia de terreno (<i>e.g.</i> Colson 1989; Firth 1936,     1959), a revisitação permite não só aprofundar a produção de dados, mas     sobretudo seguir continuidades e mudanças, captar processos. Tal regresso     corresponderia portanto, como se pode ser levado a supor, a uma espécie de     versão qualitativa da investigação diacrónica levada a cabo sob a forma de     estudos longitudinais. É esta figura de <i>re-study</i>,     assim como os limites da analogia com estes estudos, que me proponho focar aqui     a propósito do meu regresso em 1997 ao Estabelecimento Prisional de Tires para     mais um ano de trabalho de terreno, a suceder a uma estadia de dois anos na   mesma instituição na década de 1980.</font></p>     <p>&nbsp;</p>   <font face="Verdana"><b><font size="3">Um regresso à prisão</font></b>  </font>     <p><font size="2" face="Verdana">Para me limitar às razões de ordem científica – que quase nunca são as únicas –, a intenção inicial desta revisitação era de facto prolongar a investigação     anterior, tendo em conta mudanças organizacionais, legislativas e na demografia     e perfil sociopenal da população reclusa, população essa que não só tinha     quadruplicado como se tinha entretanto tornado mais uniforme. Estas     transformações, a par de outras na envolvente nacional e internacional, eram     suficientemente importantes para justificar só por si a comparação e o     prolongamento do ­trabalho anterior. Este deveria também dar conta, de resto,     dos efeitos de uma inflexão da instituição, no sentido de uma burocratização e     complexificação (Barak-Glanz 1981) mais orientadas por uma razão ­gestionária     do que “­ortopédica”, quer dizer, mais preocupada em gerir de maneira eficiente     e ordeira o dia a dia do que em “reabilitar” reclusos (ver, a este propósito,   Cunha 2014 [no prelo]).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Mas, paralelamente a estas mudanças que     motivaram o meu regresso ao terreno, à chegada identificaria uma outra mutação,     cuja natureza subvertia o pano de fundo de continuidade necessário para     articular o passado e o presente numa lógica longitudinal, assente numa     comparação ponto a ponto entre o passado e o presente. Foi por isso preciso     renunciar a essa lógica. A segunda investigação não retomava senão alguns temas     da primeira, abandonando outros que já não eram cruciais para a leitura desse   universo, nem traziam nada à compreensão da sua transformação.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Neste sentido, tratava-se agora de um outro     estudo, não de um reestudo. Passível de evocar um enfoque longitudinal linear     ou de pautar qualquer acompanhamento de um terreno por este único formato, a     etiqueta de reestudo pode ser de facto enganadora e inadequada para     caracterizar este tipo de investigação. Não era possível simplesmente manter as     questões que me tinham guiado antes e limitar-me a desenvolvê-las e     aprofundá-las. Era preciso reconstruí-las ou mesmo recolocá-las. Por     conseguinte, se o meu regresso ao terreno permitiu por si mesmo identificar, e     tornar mais percetível, a natureza de uma mutação de fundo, foi no entanto     necessário renunciar a prolongar a investigação anterior segundo um modelo   longitudinal de <i>re-study</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Essa mutação de fundo decorria da presença     generalizada na prisão de redes de interconhecimento prévio ao encarceramento,     sobretudo de parentes e vizinhos, e vinha convidar a uma revisão de modelos     analíticos habituais nos estudos prisionais, bem como da premissa fundamental     que orientava a abordagem deste tipo de instituições: a saber, a de que a     prisão representaria um corte biográfico e social, uma interrupção, uma     realidade entre parêntesis (Goffman 1968 [1961]) – uma heterotopia (Foucault     1984, 2009). São modelos que partem do princípio de que a prisão é um hiato     social, um mundo “cortado de relações exteriores”, o que neste caso significa   “cortado de relações anteriores”. É este pressuposto que tem governado o olhar     sobre as instituições carcerais, a ponto de não ser excessivo falar a este     propósito de um regime de representação da prisão. É aliás possível que este     regime de representação tenha criado uma espécie de ângulo “morto” que impediu     a identificação de redes de interconhecimento semelhantes noutros contextos     prisionais, noutros países, e tenha tornado invisíveis fenómenos cuja     existência é possível atestar através de numerosos indícios na literatura   relevante (ver Cunha 2002, 2008).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Se falo de uma mutação de fundo, foi porque     ela não só veio transformar a natureza da socialidade prisional – com     implicações depois nos âmbitos vários da experiência do espaço-tempo carceral     por parte das reclusas e no modo como ela é mediada pelo corpo e os sentidos –,     como tornou essa socialidade translocal, diluindo a fronteira entre o interior     e o exterior. A prisão e o pequeno número de bairros onde passou a     constituir-se o grosso das fileiras de detidos passaram a estar permanentemente     entrelaçados nesta trama, e era nesta zona desta conjugação que a minha     investigação teria de situar-se agora. Isso implicou redefinir de alto a baixo   as minhas linhas de investigação.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Mais do que isso, fez com que este já não     fosse propriamente um “estudo prisional”, ou que o fosse apenas em parte. Era     necessário descentrar-me da prisão como instituição, em parte porque o seu     perímetro espacial já não configurava como antes a vida prisional. A prisão     permanecia a unidade de observação, mas deixara de ser a unidade privilegiada     de análise. No passado (<i>i.e.</i> nos anos 1980) uma tal abordagem era     relativamente adequada ao universo que estudava e a minha primeira investigação     podia ser facilmente arrumada no domínio dos estudos prisionais, não só pela     sua problemática, mas sobretudo porque era aí que se situavam o <i>corpus</i> bibliográfico e os quadros   comparativos mais pertinentes para compreender a realidade que então estudava.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Dez anos depois (<i>i.e.</i> a     investigação que conduzi no final dos anos 1990), salvo algumas exceções e     abordagens sobretudo de tipo macroestrutural (<i>e.g.</i> Austin e     Irwin 1993; Jacobs 1977; Wacquant 1999), não encontrava neste campo de estudos     praticamente auxílio algum para perceber as transformações com que me deparava.     No passado as fronteiras materiais da prisão, às quais correspondiam também     fortes fronteiras simbólicas, delimitavam um quadro de vida específico, dotado     de uma relativa autonomia, e um quadro de relações sociais próprio, mesmo se os     elementos para a sua leitura não estavam inteiramente contidos intramuros. Ter     em conta a especificidade e relativa autonomia deste quadro de vida não     implicava considerá-lo um <i>isolato</i>,     apesar da sua óbvia delimitação no espaço físico, nem uma unidade social ou o     lugar de uma cultura, cujo conteúdo restaria ao antropólogo formular – como     sucedia com algumas abordagens funcionalistas em que terreno e objeto quase se     confundiam. Mas as implicações destas fronteiras na definição desse universo     eram de facto profundas nos anos 1980, como em qualquer quadro prisional   clássico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Estas implicações não seriam as mesmas uma     década depois. Era preciso abrir a análise ao exterior, uma vez que os bairros     de onde provinham as reclusas passaram a ser constitutivos da vida prisional.     Mais do que um mero elemento de contextualização, o mundo exterior deveria ser     colocado em continuidade analítica com o mundo intramuros. Em vez de um estudo     prisional, tratava-se agora de um <i>tricot</i> a duas agulhas: o bairro e a prisão. E se a análise dos bairros se tinha     tornado indispensável para compreender a prisão, a prisão permitia, por sua     vez, entrever certas propriedades comuns a estes bairros, e que seria difícil     identificar a partir de um outro ponto de observação. Sendo assim, a prisão   permitia também identificar a natureza de alguns processos em ação no exterior.</font></p>     <p>&nbsp;</p>   <font face="Verdana"><b><font size="3">Interrogar uma mudança</font></b>  </font>     <p><font size="2" face="Verdana">Esta transformação no terreno parecia ela própria ressoar com algumas transformações na antropologia,     nomeadamente a passagem de um enfoque em sistemas para um enfoque em processos     e na ação<i>,</i> condizente com a ideia de     que o <i>locus</i> e a lógica da cultura não     estão dados de antemão nem de uma vez por todas, tecendo-se em vez disso na     prática e nos contextos de interação – sem ignorar, ao mesmo tempo, as     estruturas de poder mais vastas em que estão imersos. Esta deslocação de ênfase     acompanhou-se também de conceitos com potencialidades metodológicas mais     adaptadas a este enfoque teórico, como o conceito de rede social (Barnes 1990; Boissevain 1974), que     assenta justamente em indivíduos e interações. São o âmbito, as características     e os fins destas interações que definem os limites mais ou menos amplos dos     sistemas sociais, limites esses que não são portanto absolutos, mas relativos a     uma cena social ou a um conjunto de atividades. Além de permitir dar conta das     práticas e da textura da socialidade de grupos e unidades sociais que não são     permanentes nem dados à partida, a noção de rede é também um utensílio     descritivo apropriado para a investigação, tanto em cenas sociais de pequena     como de larga escala; tanto de fluxos transnacionais (Hannerz 1997) como de     comunidades a-locais ou sem centro de gravidade, como é o caso das comunidades     virtuais na Internet (Miller e Slater 2001). E, vendo-o <i>a posteriori</i> no caso em análise, permitia não só um movimento     através de diferentes escalas, como quebrar a ilusória barreira analítica   traçada pelos muros físicos de uma instituição prisional.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Poder-se-ia então ter dado o caso de esta     minha mudança de enfoque (da prisão para a interface prisão-bairro) refletir     estas mudanças de ênfase na teoria antropológica? A ser assim, levanta-se a     questão de as tendências e os elementos centrais que passei a discernir se     encontrarem eventualmente já presentes aquando da investigação anterior, mas     sem que eu me tivesse apercebido deles. Por outras palavras, poderiam bem     ter-me escapado em razão de escolhas teóricas e metodológicas que, ao orientar     o olhar numa direção, também podem afastá-lo de outra. Neste sentido, a     historicidade da etnografia é já não dupla, mas tripla: quer dizer, é relativa     ao contexto etnografado, ao/à etnógrafo/a e suas     relações intersubjetivas no terreno, e, por fim, ao contexto da teoria, ao <i>Zeitgeist</i> teórico incorporado num   percurso intelectual.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Creio contudo não ter sido esse o caso, e que     a minha mudança de enfoque foi gerada principalmente por uma mudança no     terreno. As redes de interconhecimento que estiveram na sua base limitavam-se,     nos anos 1980, às reclusas que se designavam a si próprias por ciganas e apenas     emergiriam como fenómeno generalizado nos anos 1990. Ou seja, estas     transformações foram a causa, não um efeito dessa mudança de enfoque, e a     saliência da noção de rede nesta segunda investigação deveu-se menos a uma     espécie de <i>aggiornamento</i> conceptual   do que à emergência de um novo fenómeno sociológico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Resta então examinar a conjuntura intersubjetiva,     a relação entre o/a etnógrafo/a e os seus     interlocutores. Também aqui houve que perceber por que razão a minha relação     com as reclusas foi bastante diferente nos dois momentos. E também aqui me     apercebi que, se assim era, tal devia-se sobretudo ao facto de em ambos os     momentos ela própria estar incorporada nas lógicas sociais e identitárias     locais – lógicas essas, porém, bem diferentes entre si. Daí que essa relação     entre mim e as minhas interlocutoras integrasse o objeto de estudo e tivesse contribuído     para esclarecê-lo. Foi de resto neste sentido que vários etnógrafos se   “objetivaram”, utilizando a sua presença como revelador ou como método (<i>e.g.</i> Althabe 1990; Sélim 1989). Se na minha primeira estadia o que me     intrigava a princípio eram a facilidade e a rapidez com que a minha relação com     as reclusas se estabelecia – frequentemente, aliás, por iniciativa destas –, na     segunda investigação as minhas tentativas de aproximação deparavam com uma   relutância inesperada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Comecei por atribuir essa dificuldade ao     afastamento estrutural que entretanto se tinha produzido entre nós, sobretudo     por via da pauperização acentuada e da relegação abrupta da generalidade das     reclusas para a base do espaço social de classe. Mas é evidente que este     afastamento pouco poderia explicar. Em primeiro lugar, porque a distância     social e cultural entre os/as etnógrafos/as e os     seus interlocutores nunca foi em si impedimento à comunicação entre uns e     outros. Basta olhar para a história da antropologia. Em segundo lugar, porque a     distância intersubjetiva não decorre linearmente da distância estrutural. Por     exemplo, o fosso social que se cavara entre mim e as reclusas era muitas vezes     curto-circuitado a um outro nível, pela noção de que, colocada nos seus     contextos sociais de vida, eu teria podido, como elas, desembocar na prisão.     Dez anos antes, este tipo de identificação com as presas não era senão muito     pontual. Na investigação de terreno seguinte, os seus delitos pareciam-me     ligados muito mais diretamente à sua profunda marginalização, tendo-se com toda a evidência reduzido para elas o espaço onde as escolhas se jogam e decidem.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Na verdade, a rápida proximidade que as     reclusas estabeleceram comigo no meu primeiro trabalho de campo traduzia a     distância existente entre elas e inscrevia-se precisamente nessa estratégia de     distanciação. A proximidade em relação a mim permitia-lhes esconjurar a     identidade desviante de que a reclusão era signo – uma identidade que recusavam     para si mas que projetavam nas correclusas – e recuperar a pertença a uma ordem   “legítima”, em que não haviam deixado de se rever. Quer dizer que a minha   exterioridade ao universo recluso era então uma vantagem.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Dez anos depois tornava-se um obstáculo, pois     o que estava em causa era bem diferente. A profunda marginalização     anteprisional que afetava agora estas mulheres, a sua exclusão coletiva tanto     estrutural como simbólica, da qual a reclusão já não é senão um dos momentos,     tornou a prisão um palco algo irrelevante para este jogo de demarcação. O vasto     entrançado de parentes, amigos e vizinhos trouxe consigo proximidade,     intimidade, segredos. Criou, em suma, silêncio (ver Rabinow 1977 a este     propósito) e uma ordem privada que eu já não podia penetrar da mesma maneira; e     criou também, pela primeira vez, a convicção de uma “comunidade”, à qual eu     chegava agora como uma intrusa. Por isso, mais do que por razões imputáveis a     mim própria ou ao meu percurso, as minhas dificuldades pareciam decorrer em boa   parte das novas características do objeto.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em que ficamos, pois, quanto à historicidade     da etnografia, à seletividade e contingência que envolve o triângulo     etnógrafo/a-terreno-teoria? Os regressos ao terreno dão-nos os     parâmetros e as dimensões dessa contingência, sobretudo quando redundam em     conclusões opostas, como foi o caso das duas investigações que conduzi na mesma     prisão. A discrepância de conclusões atravessava vários âmbitos da vida     prisional, desde o corpo e a sensorialidade até às representações do tempo,     passando pelas sociabilidades e pelas noções que regem o quotidiano. Todos eles     apresentavam aspetos novos e contrastantes. Como encarar este contraste?     Dever-se-ia ao facto de eu ter tido a ocasião de assistir ao fim de um ciclo e     ao início de um outro? Ou seria que – para retomar a questão que coloquei atrás   – tais aspetos se encontravam já presentes na realidade anterior, não me tendo     eu apercebido deles? É que uma investigação etnográfica é conduzida não apenas     numa conjuntura interpessoal específica e num dado panorama teórico, mas também num momento do ciclo de vida do investigador e numa etapa da sua maturação intelectual e analítica.</font></p>     <p>&nbsp;</p>   <font face="Verdana"><b><font size="3">Pode uma etnografia ser longitudinal? Do rigor e cumulatividade etnográficos</font></b>  </font>     <p><font size="2" face="Verdana">Pude porém constatar que uma franja minoritária de reclusas reeditava, nos anos 1990, as mesmas     representações, práticas e socialidade que dez anos antes eram salientes na maioria     da população prisional. Este grupo reduzido de reclusas, que entretanto     substituíra as do passado, correspondia de muito perto às descrições e análises     que eu construíra para a maioria da população reclusa naquela prisão nos anos     1980. O regresso ao terreno produziu assim de maneira imprevista um efeito de     controlo retrospetivo da primeira investigação. Mas ao mesmo tempo permitia     também aferir a fiabilidade e robustez da segunda. Pode dizer-se que produziu     uma espécie de triangulação no tempo, fazendo com que as duas etnografias, por     contrastantes que fossem, se validassem mutuamente. Isto é, afinal as lentes –   pessoais, teóricas, relacionais – que eu usara em ambas as investigações não     tinham mudado substancialmente. Só assim teria sido possível discernir, em     primeiro lugar, permanência através da mudança, num registo diacrónico     comparando dois momentos; e, em segundo lugar, semelhança na diferença, bem     como diferença na semelhança, num registo sincrónico comparando diferentes     padrões num mesmo momento. A saliência de uma e de outra tinha-se invertido de     maneira muito pronunciada, mas essa alteração foi relativamente alheia às     lentes utilizadas. Resultava sobretudo, isso sim, de transformações na     realidade observada (decorrentes de dinâmicas internas e forças externas),     transformações essas exteriores ao meu percurso pessoal, teórico e   intersubjetivo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Do que expus retiraria, pois, duas conclusões     relacionadas entre si. A primeira é que os aspetos de contingência e     intersubjetividade envolvendo etnógrafo/a e     etnografados/as – e aos quais os antropólogos deram grande     atenção nos anos mais “reflexivistas” das décadas de 1980 e 1990 – não votam     necessariamente a um esforço vão qualquer exercício de controlo dos parâmetros     de uma etnografia, nem esvaziam de antemão a tentativa de aferir a fiabilidade     dessa etnografia num registo mais “realista”. Indo mais longe, a natureza     triplamente situada da investigação etnográfica tão-pouco condena cada pesquisa     de terreno a limitar-se a pontuar momentos avulsos de um processo histórico,     nem deve coartar tentativas de maior fôlego na captação etnográfica da longa     duração. Pelo contrário, não só não obriga a renunciar a toda e qualquer     ambição cumulativa no conhecimento desse processo histórico, como as     revisitações etnográficas de um terreno podem contribuir para conjugar com mais     rigor o passado e o presente de modo a melhor captar a mudança – e a permanência.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em segundo lugar, e para que tal ocorra, é de     concluir que o modelo longitudinal clássico não é sempre a opção mais rigorosa     para dar conta etnograficamente da historicidade de um contexto. Uma     investigação realiza-se sempre numa dada conjuntura (Pina-Cabral 2000). Mudando     a conjuntura, uma nova investigação terá provavelmente de formular novas     questões, em vez de limitar-se a alimentar as mesmas questões com novos dados     ao longo do tempo. A prosseguir no rumo traçado de início, o risco é,     paradoxalmente, o de distorcer a historicidade que se procura captar     precisamente através de uma revisitação do terreno. Revisitação não equivale,     pois, a replicação. É precisamente a ausência de rigidez da abordagem     etnográfica que se pode revelar a mais adequada para captar o sentido das     transformações. Por muito que se traga uma questão prévia e teoricamente     sustentada para o terreno, a fim de não sucumbir a um empirismo ilusório, as     linhas de uma investigação etnográfica só acabam por se definir verdadeiramente   – sabemo-lo bem – não antes, mas depois da chegada ao terreno e em função     deste. Seria por isso algo contraditório com a natureza desta abordagem que     essas linhas de pesquisa adquirissem em seguida uma qualquer qualidade de     necessidade e se tornassem linhas prospetivas a impor à partida a uma     investigação que revisite esse terreno. As mudanças, tal como em geral a vida das     pessoas, não cuidam de produzir-se seguindo as linhas de pesquisa fixadas pelo/a etnógrafo/a.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana"><b>Bibliografia</b></font></p>        <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">ALTHABE, Gérard, 1990, “Ethnologie du contemporain et enquête de terrain”, <i>Terrain</i>, 14: 126-131.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000051&pid=S0873-6561201400020001300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">AUSTIN, James, e John IRWIN, 1993, <i>It’s about Time: America’s Imprisonment   Binge</i>. Belmont, CA, Wadsworth.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000053&pid=S0873-6561201400020001300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BAHR, Howard, Theodore CAPLOW, e Bruce     CHADWICK, 1983, “Middletown III: problems of replication, longitudinal     measurement, and triangulation”,<i> Annual   Review of Sociology</i>, 9: 243-264.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000055&pid=S0873-6561201400020001300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BARAK-GLANZ, I.L., 1981, “Towards a   conceptual schema of prison management styles”, <i>The Prison Journal</i>, 61 (2): 42-60.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000057&pid=S0873-6561201400020001300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BARNES, John, 1990, <i>Models and Interpretations: Selected Essays</i>. Cambridge, Cambridge   University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000059&pid=S0873-6561201400020001300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BOISSEVAIN, Jeremy, 1974, <i>Friends of Friends: Networks, Manipulators   and Coalitions</i>. Oxford, Basil Blackwell.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000061&pid=S0873-6561201400020001300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BURAWOY, Michael, 2003, “Revisits: an   outline of a theory of reflexive ethnography”, <i>American Sociological Review</i>, 68 (5): 645-679.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000063&pid=S0873-6561201400020001300007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">COLSON, Elizabeth, 1989, “Overview”,<i> Annual Review of Anthropology</i>, 18:   1-16.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000065&pid=S0873-6561201400020001300008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">CUNHA, Manuela P. da, 1994, <i>Malhas que a Reclusão Tece: Questões de     Identidade Numa Prisão Feminina</i>. Lisboa, Cadernos do Centro de Estudos   Judiciários.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000067&pid=S0873-6561201400020001300009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">CUNHA, M.P. da, 2002, <i>Entre o Bairro e a Prisão: Tráfico e Trajectos</i>. Lisboa, Fim de Século.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000069&pid=S0873-6561201400020001300010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">CUNHA, Manuela P. da, 2008, “Closed   circuits: kinship, neighborhood and imprisonment in urban Portugal”, <i>Ethnography</i>, 9 (3): 325-350.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000071&pid=S0873-6561201400020001300011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">CUNHA, Manuela P. da,     2014 [no prelo], “The ethnography of prisons and     penal confinement”, <i>Annual Review of   Anthropology</i>, 43.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000073&pid=S0873-6561201400020001300012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">EVANS-PRITCHARD, E., 1969 [1940], <i>The Nuer: A     Description of the Modes of Livelihood and Political Institutions of a Nilotic     People</i>. Nova Iorque e Oxford, Oxford University   Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000075&pid=S0873-6561201400020001300013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">FIRTH, Raymond, 1936, <i>We, the Tikopia</i>. Londres,   George Allen and Unwin.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000077&pid=S0873-6561201400020001300014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">FIRTH, Raymond, 1959, <i>Social Change in Tikopia</i>. Londres, George Allen and Unwin.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000079&pid=S0873-6561201400020001300015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">FOUCAULT, Michel, 1984, <i>Dits et écrits</i>.   Paris, Gallimard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000081&pid=S0873-6561201400020001300016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">FOUCAULT, Michel, 2009, <i>Les hétérotopies:   Le corps utopique</i>, Paris. Editions Ligne.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000083&pid=S0873-6561201400020001300017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">FREEMAN, Derek, 1983, <i>Margaret Mead and Samoa: The Making and Unmaking of an Anthropological   Myth</i>. Cambridge, MA, Harvard University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000085&pid=S0873-6561201400020001300018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">GOFFMAN, Erving, 1968 [1961], <i>Asylums: Essays on the Social Situation of   Mental Patients and Other Inmates</i>. Harmondsworth, Penguin.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000087&pid=S0873-6561201400020001300019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">HANNERZ, Ulf, 1997, “Fluxos, fronteiras,   híbridos: palavras-chave da antropologia transnacional, <i>Mana</i>, 3&nbsp;(1): 7-39.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000089&pid=S0873-6561201400020001300020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">HUTCHINSON, Sharon E., 1996, <i>Nuer Dilemmas: Coping with Money, War, and the   State</i>. Berkeley, University of California Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000091&pid=S0873-6561201400020001300021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">JACOBS, James, 1977, <i>Stateville: The Penitentiary in Mass Society</i>. Chicago, The University of   Chicago Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000093&pid=S0873-6561201400020001300022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">KENNA, Margaret, 1992, “Changing places     and altered perspectives: research on a Greek island in the 1960s and in the   1980s”, em J. Okely e H.Callaway (orgs.), <i>Anthropology and Autobiography</i>. Londres, Routledge, 147-162.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000095&pid=S0873-6561201400020001300023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">LEWIS, Oscar, 1963 [1951], <i>Life in a Mexican Village: Tepotzlán Restudied</i>. Urbana, University of Illinois   Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000097&pid=S0873-6561201400020001300024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MALINOWSKI, Bronislaw,     1961 [1922], <i>Argonauts of the Western   Pacific</i>. Nova Iorque, E.P. Dutton.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000099&pid=S0873-6561201400020001300025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MEAD, Margaret, 1943 [1928], <i>Coming of Age in Samoa</i>. Nova Iorque, William Morrow.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000101&pid=S0873-6561201400020001300026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MILLER, Daniel, e Don SLATER, 2001, <i>The Internet: An Ethnographic Approach</i>.   Oxford, Berg Publishers.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000103&pid=S0873-6561201400020001300027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">OKELY, J., 1992, “Anthropology and     autobiography: participatory experience and embodied knowledge”, em J. Okely e H.     Callaway (orgs.), <i>Anthropology and       Autobiography</i>. Londres, Routledge,   1-28.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000105&pid=S0873-6561201400020001300028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">PHELPS, Erin, Frank FURSTENBERG, e Anne     COLBY (orgs.), 2002, <i>Looking at Lives:   American Longitudinal Studies of the Twentieth Century</i>. Nova Iorque, Russell Sage Foundation.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000107&pid=S0873-6561201400020001300029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">PINA-CABRAL, João de, 2000, “The     ethnographic present revisited”, <i>Social Anthropology</i>,   8 (3): 341-348.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000109&pid=S0873-6561201400020001300030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">RABINOW, Paul, 1977, <i>Reflections on Fieldwork in Morocco</i>. Berkeley e Los Angeles,   University of California Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000111&pid=S0873-6561201400020001300031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">REDFIELD, Robert, 1930, <i>Tepotzlán, a Mexican Village: A Study of Folk Life</i>.   Chicago e Londres, The University of Chicago Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000113&pid=S0873-6561201400020001300032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SÉLIM, Monique, 1989, “Distances et proximités: positions, illusions, reconstructions”, em M. Segalen (org.), <i>Anthropologie Sociale et Ethnologie de la     France</i>. Lovaina, Peeters:   83-89.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000115&pid=S0873-6561201400020001300033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">WACQUANT, Loïc, 1999, <i>Les prisons de la misère</i>. Paris, Raisons d’Agir Editions.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000117&pid=S0873-6561201400020001300034&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">WEINER, Annette B., 1976, <i>Women of Value, Men of Renown: New   Perspectives in Trobriand Exchange</i>. Austin, University of Texas Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000119&pid=S0873-6561201400020001300035&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana"><a style='mso-footnote-id:ftn1' href="#_ftnref1" name="_ftn1" title="">[1]</a>       As investigações a que se refere este texto foram financiadas, por ordem cronológica, pelo Centro de Estudos Judiciários (projeto “Do desvio à instituição total”) e     pela Wenner-Gren Foundation for Anthropological Research (Gr. 6099). Recupero aqui alguns extratos     publicados em Cunha (2002).</font></p>      ]]></body><back>
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