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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Entre o idealizado e o exequível: memórias da primeira mulher antropóloga portuguesa: Entrevista com Maria Beatriz Rocha-Trindade]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana"><b><font size="2">ENTREVISTA</font></b></font></p>   <font face="Verdana">       <p align="right">&nbsp;</p>   </font>     <p><font size="4" face="Verdana"><b>Entre o idealizado e   o exequível: memórias da primeira mulher antropóloga portuguesa</b></font></p>   <font face="Verdana">       <p>&nbsp;</p>   </font>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Entrevista com Maria Beatriz Rocha-Trindade</b></font></p>        <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Marina Pignatelli</b></font><font face="Verdana"><b><font size="2"><sup>I</sup></font></b><font size="2"></font></font></p>     <p><font face="Verdana"><b><font size="2"><sup>I</sup></font></b><font size="2"></font></font><font size="2" face="Verdana">Centro em Rede de Investigação em Antropologia; Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, Universidade de Lisboa, Portugal. e-mail: <a href="mailto:mpignatelli@iscsp.ulisboa.pt">mpignatelli@iscsp.ulisboa.pt</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana"><img src="/img/revistas/etn/v18n2/18n2a16f1.jpg" width="580" height="583"></font></p>     
<p align="center">&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">Maria Beatriz Rocha-Trindade, nascida em Faro, socióloga, é   doutorada pela Universidade de Paris&nbsp;V (Sorbonne) e agregada pela     Universidade Nova de Lisboa (FCSH). É professora catedrática na Universidade Aberta, onde fundou (em 1994) o Centro de Estudos das Migrações e das Relações     Interculturais/CEMRI, Unidade de I&amp;D da     Fundação para a Ciência e a Tecnologia, do Ministério da Educação e Ciência. É   consultora científica do Museu da Emigração e das Comunidades de Fafe.     Introduziu em Portugal o ensino da sociologia das migrações (na Universidade     Católica, no curso de Teologia, em 1994; a partir de 1996, na Universidade     Aberta, a nível de licenciatura e de mestrado). É autora de uma vasta     bibliografia sobre matérias relacionadas com as migrações e é colaboradora     habitual e <i>referee</i> de revistas     científicas internacionais neste domínio. É membro de diversas organizações     científicas portuguesas e estrangeiras, designadamente da Comissão Científica     da Cátedra UNESCO sobre Migrações, da Universidade de Santiago de Compostela,     na Galiza. Recebeu a Medalha de Mérito do Município de Fafe e foi distinguida     pelo Comité National Français en Hommage à Aristides de Sousa Mendes (Hendaye,     2012), pelo seu pioneirismo na investigação da emigração, e também pela Obra     Católica Portuguesa das Migrações (OCPM, Lisboa, 2012) pela vida de trabalho     académico sobre migrações, pelo empenho na causa dos migrantes e pela     colaboração voluntária e generosa com a OCPM. É titular da Ordre National du     Mérite, de França, com o grau de Chevalier, e da Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública, de Portugal.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">MARINA PIGNATELLI Como aconteceu a escolha do curso de antropologia?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">MARIA BEATRIZ ROCHA-TRINDADE A frequência do curso de Ciências Antropológicas e Etnológicas,     então ministrado pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Política     Ultramarina (ISCSPU), mais do que uma escolha, decorre da imposição que me foi     feita pelo próprio instituto ao estabelecer o convite para nele lecionar como   assistente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Tinha regressado de França, onde me tinha sido     proporcionado realizar um estágio de alguns meses no Centre d’Etudes     Sociologiques e, por proposta do seu diretor, professor Jean Stoetzel, foi-me     sugerido submeter a candidatura ao doutoramento em Sociologia.<a style='mso-footnote-id:ftn1' href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><sup><sup>[1]</sup></sup></a> Depois     da aprovação num exigente exame que avaliou, por um lado, o nível científico     dos meus conhecimentos na área, por outro, o domínio escrito e falado da língua     francesa, fui autorizada a inscrever-me     e a frequentar os seminários de investigação     conducentes à obtenção desse grau académico. A tese, orientada pelo professor     Alain Girard, foi apresentada à Universidade René Descartes (Paris V – Sorbonne) e nela defendida em provas públicas no ano de 1970.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ao ser abordada nesse mesmo ano pelo ISCSPU,     abria-se-me a porta dourada do instituto que tinha frequentado como aluna (já   com família constituída) e os ensinamentos então colhidos no curso de     Administração Ultramarina (no qual tive um lugar pioneiro por ter sido, em     1962, a primeira mulher nele inscrita) possibilitaram que a visão alargada     sobre o grande espaço transcontinental que constituía o país de então fosse     muito atrativa e me abrisse novas perspetivas. Por ser muito diversificado e     muito interessante todo o acervo de conhecimentos que conseguira reunir, creio     ter sido ele o verdadeiro responsável por ter querido aprender mais sobre tudo   o que sendo “nosso” se situava fora do espaço continental português.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Aceitar a proposta que me fora dirigida criou em     mim grandes expectativas, por julgar ser possível vir a encontrar, no percurso     que assim se me abria, todas as possibilidades de realização face ao plano     anteriormente traçado para a minha própria vida profissional. Poderia dessa     forma reencontrar a instituição universitária de que guardava e continuo a     guardar a melhor recordação e nela vir a aceder ao estatuto de docente, o que   largamente iria compensar todos os esforços até aí despendidos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Devo abrir um parêntesis para reconhecer que um     certo idealismo se aliava a uma total inexperiência, o que, de certo modo,     explica todo o entusiasmo sentido… Fiquei, no entanto, um pouco chocada com o     caminho que o Instituto me impunha sem alternativa, por me colocar numa posição     delicada, ao mesmo tempo incómoda e difícil, ao exigir um esforço suplementar     que obrigaria a acumular duas funções dentro da mesma instituição: a de aluna e   a de assistente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Realizar a preparação das aulas num primeiro ano     de docência constituiu uma tarefa de grande exigência e a lecionação da     disciplina de Metodologia de Investigação em Ciências Sociais, que me veio a     ser conferida, obrigava a um intenso trabalho, do qual ressalto o estudo de uma     vasta bibliografia. O curso que frequentei em paralelo obrigava também a     conhecer matérias de outra natureza, que exigiam disponibilidade e muitas horas     de estudo diárias para poder consultar tudo o que deveria ser lido. Neste   âmbito, a influência dos autores americanos sempre prevaleceu na orientação     prestada e a excelência dos seus trabalhos foi também sempre apresentada em     claro detrimento da produção científica francesa, o que, devo dizer, me causava   um certo choque.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ser ao mesmo tempo docente e discente sob a     cúpula da mesma instituição universitária, no exercício de funções     diferenciadas e com estatuto diferente, não foi uma tarefa fácil, pois cada um     dos lados em que nos encontramos projeta a nossa imagem sobre o outro. Havia     que saber mantê-la em simultâneo. Alegro-me por tal ter acontecido. Terminei a     licenciatura com média de 17,4 e continuo a manter uma relação cordial e amiga     com alguns dos meus antigos estudantes. Sem ser possível enumerar o nome de     todos eles, cito, meramente a título de exemplo, alguns dos que mais se     destacaram: o embaixador Seixas da Costa, Maria do Rosário Carneiro, que tem     desenvolvido funções na carreira política e universitária, António Sousa Lara,     também ex-deputado e igualmente com funções universitárias, tal como Hermano   Carmo e Fausto Amaro (três professores catedráticos do ISCSP).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">MP Era a única mulher a frequentá-lo? Outras não havia ou     desistiram? Como era o “espírito da época” sobre o curso e sobre mulheres a   frequentá-lo?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">MBR-T      O curso de     Ciências Antropológicas e Etnológicas tinha uma frequência mista mas muito     restrita em número, e ao longo dos dois anos de lecionação/aprendizagem,     que no início do primeiro integravam o quadro teórico que o sustentava, foram     progressivamente desistindo alguns dos estudantes inscritos. Lembro com     saudades professores e alunos de um grupo que incluía um conjunto muito diversificado     de pessoas. Entre eles, três psiquiatras, ­Margarida Cordeiro, Nuno Afonso     Ribeiro e mulher; Olímpio Nunes, professor na Casa Pia, que veio a publicar uma     das primeiras obras escritas sobre os ciganos portugueses (<i>O Povo Cigano</i>, 1981); Diogo Moreira, então funcionário da Lever     que, posteriormente como professor catedrático e investigador no ISCSP, veio a     realizar uma brilhante carreira universitária; ainda o Cardoso, cabo-verdiano     de origem, muito mais jovem, que veio a ocupar um importante lugar no governo do     seu país, entre alguns outros que guardo na memória, mas cujos nomes se me   varreram.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Para a grande maioria dos que o frequentavam     constituía motivação primeira poder seguir o ensino formal de matérias que     entendiam servir de incondicional apoio para o exercício da profissão que     desempenhavam. No entanto, realizar “trabalho de campo” fora da sua área de     inserção – que poderia constituir uma das mais interessantes facetas de     aplicação dos ensinamentos colhidos&nbsp;–, por não se encaixar nas perspetivas     de curto prazo, as responsabilidades já assumidas não o permitiam. Razões de     natureza pessoal provocaram, certamente, o abandono por alguns deles que a vida     profissional dispersou e nem sequer vieram a completar o curso. Com o correr do     tempo, “obrigações e devoções” fizeram diluir o relacionamento existente entre     todos os que o completaram e a relação tão próxima que existia desfez-se por     completo. O primeiro abandono deve-se a Margarida Cordeiro – fê-lo por querer   colaborar com o seu marido, cineasta António Reis, com quem realizou o filme <i>Trás-os-Montes</i> (1976).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Os alunos que o frequentaram fizeram-no em pé de     igualdade e, da mesma forma, foram sempre tratados sem qualquer atitude   discriminatória.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Foi minha convicção que a imagem da     investigadora Margot Dias (mulher e membro da equipa liderada por Jorge Dias)     diluía qualquer preconceito, se para tal tivesse havido lugar, em relação à   restrição que eventualmente poderia ter sido levantada em relação às mulheres     antropólogas. Para além disso, o renome alcançado por Ruth Benedict (1887-1948)     e Margaret Mead (1901-1978), académicas de valor incontroverso que fizeram a     sua formação e ensinaram na Universidade de Columbia, em Nova Iorque,   contrariava por completo qualquer hipótese de discriminação.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">MP O que recorda do curso? Que     efeitos teve essa formação e experiência, durante o curso e depois, tornando-se   a primeira graduada em antropologia do país?</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">MBR-T      Não é de mais     repetir quanto gostei de ter frequentado este curso e, entre a diversidade de     competências que possuíam e também as diferentes qualidades pedagógicas que     caracterizavam os seus docentes, recordo grandes professores que nele se     distinguiram. Consideraria incorreto citar os seus nomes, tal como emitir     publicamente juízos de valor a seu respeito. Em espaço de aula que, pela     participação ativa do reduzido número de estudantes, se transformava em     seminário de investigação, constituíram-se unidades letivas em que o confronto     de ideias se fazia de forma aberta, servindo de estímulo ao aprofundamento das     temáticas inscritas em cada uma delas. Uma competição saudável instalava-se     entre colegas que aproveitavam todas as oportunidades que surgiam para ler     novos autores e adquirir novas obras que nem sequer tinham sido indicadas pelos   próprios professores.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A leitura dos muitos livros que constituíam a     bibliografia de referência, cuja consulta era obrigatória, bem como os     ensinamentos transmitidos provocaram em todos nós um crescente entusiasmo que     ainda recordo. Um mundo novo ia-se abrindo e fazia também construir novos projetos.     O mercado livreiro de então, nada tendo a ver com o de hoje, levava a que a     aquisição de publicações só pudesse, em muitos casos, ser resolvida pela saída     de alguém do país. Era uma forma de resolver a situação que se colocava, pois     tornava-se impossível concretizá-la por intermédio de livrarias, revelando-se   quase sempre um processo muito moroso.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">No âmbito do ISCSPU, a figura do professor     doutor Jorge Dias foi sempre apresentada com o respeito e a admiração que lhe     eram devidos e quase que uma devoção pairava em torno dele. Muitos dos seus     ensinamentos, transmitidos por grande número de professores que frequentemente     faziam referência a esta personalidade, lembravam o papel que desempenhou na     instituição da disciplina em Portugal, o papel que ocupava no quadro     universitário nacional e internacional e, de forma mais incisiva, no Instituto     Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina. Destaco a seriedade com     que produziu a pesquisa que realizou, cujos resultados constituíam uma     referência permanente tanto na perspetiva teórica como na aplicada e foram em     grande parte publicados pela própria Junta de Investigações do Ultramar (criada   em 1963), da qual também era investigador.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Como assistente do ISCSPU e também na qualidade     de estudante do curso de Ciências Antropológicas e Etnológicas, não só   mantivera um permanente contacto com o professor Jorge Dias e com todos os   investigadores que com ele trabalhavam, como segui eu própria o curso de     Iniciação à Museologia, lecionado no espaço do Museu de Etnologia pelo Dr.   Ernesto Veiga de Oliveira.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Tratou-se de uma influência que marcou toda a     minha vida profissional. Devo-lhe o ter prosseguido uma formação nessa mesma área, à   qual ainda hoje me mantenho ligada. Dela decorrem os artigos que escrevi<a style='mso-footnote-id:ftn2' href="#_ftn2" name="_ftnref2" title=""><sup><sup>[2]</sup></sup></a> e os     laços que mais tarde vim a estabelecer com o Museu da Emigração e das     Comunidades de Fafe, a que me encontro ligada desde a sua criação (2001).     Congratulo-me pela distinção que me foi publicamente atribuída em 2008 pela     presidência do município, a Medalha de Mérito Concelhio, em razão de toda a   colaboração prestada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O que na realidade me apraz citar foi a     iniciativa que tomei ao propor ao Conselho Científico da Universidade Aberta a     criação da disciplina que veio a ser designada Iniciação à Museologia. A     organização da mesma foi de imediato confiada ao Dr. Ernesto Veiga de Oliveira,     que deu a todos o gosto de aceitar tal tarefa. A sua organização contaria com a     colaboração de Benjamim Pereira e de um conjunto de nomes prestigiados na área.     Tal não veio, lamentavelmente a ter lugar. A inesperada partida do Dr. Ernesto     (1990) deixou a todos uma grande tristeza e o curso, que com entusiasmo iria     organizar, ficou sem efeito. A imediata hipótese que surgiu para assegurar a     sua continuidade foi confiar a organização a Benjamim. Por este não ter sido     capaz de superar a perda sofrida e ter recusado assumir quer a responsabilidade     quer a participação ativa na sua coordenação, depois de muita insistência e de     uma longa espera para obter resposta, fui obrigada eu própria a aceitar essa “missão”.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Superada a incerteza de o conseguir realizar,     meti mãos à obra após ter conseguido juntar a maior parte dos colaboradores, já   selecionados por Veiga de Oliveira: Fernando Bragança Gil, António Nabais, Cruz     de Carvalho, Sommer Ribeiro, Elias Casanovas, Luís Raposo, Galopim de Carvalho,     Baptista Pereira e Paulo Oliveira Ramos. Integravam esta unidade letiva um     manual com 275 páginas, um conjunto de 12 vídeos e um <i>Caderno de Apoio</i>, da autoria de Isabel Moreira. A sua lecionação     teve início em 1993. Ao conjunto multimédia dedicado “A Ernesto Veiga de     Oliveira, 1910-1990” (vd. p. 5 do manual) foi atribuído publicamente, em 1996,     pela Associação Portuguesa de Organizações Museológicas (APOM), na Figueira da     Foz, o seu prémio anual. Ao recebê-lo, evoquei com emoção e lágrimas o tão   querido e saudoso Ernesto.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A minha vida profissional fez-se ao longo de um     percurso em que obtive ensinamentos diversificados, dentro e fora do país. Pode     dizer-se que o curso, em si próprio, não teve uma ligação visível com as     funções que vim a desempenhar. Constituiu certamente uma formação não     negligenciável, podendo dizer-se ter sido mais um contributo que se juntou ao     acervo de conhecimentos já adquiridos e me deu competências que abriram caminho às atividades que se seguiram.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">MP A fundação do CEAC celebrou-se após 50 anos. A partir da sua experiência, poderá dizer-me     como estava organizado, como para ele entrou e que tarefas lhe foram   atribuídas?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">MBR-T      Depois de ter regressado a Portugal     mantive um permanente contacto com o Centro de Estudos de Antropologia     Cultural, que então se situava num dos andares do Palácio Vale Flor, na Rua     Jau, n.º 54 (Alto de Santo Amaro, em Lisboa), onde se encontra instalado desde     1992 o Hotel Pestana Palace. Situado numa zona residencial da cidade de Lisboa,     o edifício e os jardins que o envolvem, construídos nos finais do século XIX,     estão classificados como monumento nacional. O seu acesso tinha de ser feito     por um grandioso portão de ferro negro, que se mantinha sempre fechado e só era     aberto por um porteiro, homem muito alto e encorpado, fardado de um verde     intenso que contrastava com o galão dourado no boné e nos chumaços. O     cumprimento que sempre me dirigia fazia-me estremecer pela formalidade que     assumia a frase: “Bom dia a V. Ex.ª, Senhora Doutora”. Por ser uma atenção que     considerava excessiva e desadequada à minha idade e à posição que então     ocupava, levei expressamente alguns amigos até ao palácio, de forma a poderem   presenciar a admiração que o ritual me causava.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">O estado do edifício, agora restaurado,     inspirava nessa altura sérios cuidados e não era muito segura a instalação dos     que dentro dele trabalhavam. Vem a este propósito a recordação de toda uma   tarde passada no seu elevador, que deixara de funcionar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A atração que sempre me tinha produzido a equipa     e todo o trabalho por ela desenvolvido e publicado levaram-me a decidir passar     a integrá-la, por isso tendo deixado as funções desempenhadas durante três anos   no ISCSPU.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O trabalho que nele viria a desenvolver seria     compensado por uma pequena ajuda monetária (4000 escudos mensais, equivalentes     a cerca de 20 euros – os tempos eram outros!), sem qualquer garantia ou     benefício – uma retribuição semelhante à de um subsídio de investigação ou de   uma bolsa de estudo sem nenhuma outra regalia suplementar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Para ter deixado um lugar que desempenhava por     contrato e onde auferia cerca de 12.000 escudos (aproximadamente 60 euros),     pois à lecionação juntava a regência das disciplinas pelas quais passara a ser     responsável, era necessário estar certa de que mudar valeria a pena, tendo em     conta todo o prazer intelectual de pertencer ao que então entendia ser uma das   melhores equipas do país (para mim, sem dúvida, a melhor!).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O professor Jorge Dias deixou-nos em fevereiro     de 1973 e a minha entrada, negociada posteriormente, após proposta que o Dr.   Ernesto Veiga de Oliveira me dirigira, teve a minha aceitação imediata.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Conceptualmente, a direção do Centro iria     repartir pelos investigadores que o integravam temáticas de interesse     correspondentes a áreas geográficas onde se desejava que um trabalho de     pesquisa – análise bibliográfica e trabalho de campo – viesse a ser realizado.     A mim foi-me atribuída a responsabilidade pela “América”, mas nunca cheguei a     trabalhar sobre ela. Isto revela um certo desfasamento entre o idealizado e o   exequível…</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">No entanto, a complementaridade de tarefas que     se interligavam no âmbito dos dois centros de investigação e do museu     conduziram à atribuição de uma linha de pesquisa sobre o pastoreio, tema     considerado um espaço em aberto nos estudos até então desenvolvidos. Ao     prossegui-la realizei trabalho de campo no Algarve (Serra de Monchique e Serra     de Loulé) e na Beira (Serra de Montemuro e Serra da Estrela). No interior do     país, no distrito de Viseu, segui mesmo a transumância dos rebanhos desde     Cavernães, passando por Mões, até chegar à vila de Castro Daire, onde uma das     pernoitas se realizava. Ainda guardo na memória a visualização da chegada dos     rebanhos e dos pastores; imagens que pelo deslumbre causado ficaram gravadas     para sempre. Ligam-se entre si e traduzem muitos trechos do percurso: o     caminhar por longos e difíceis trilhos, a ordenha e o cavar de covas onde era     armazenado o leite que alimentava os cães, a sofreguidão com que era bebido, a     figura dos pastores e os utensílios por eles transportados, que os acompanhavam     ao longo de toda a vida nómada. A organização da viagem transumante tem por     base um trabalho coletivo e exige uma complexa organização logística – a     preparação deste surreal desfile e a encenação do teatro de operações nos     espaços que mediavam a caminhada mereciam ser apresentados numa grande   exposição que nunca veio a acontecer.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A par desta linha, mantinha-se a investigação na   área das migrações. Queiriga, situada no concelho de Vila Nova de Paiva (Viseu),     que descobrira em França onde estava implantado o equivalente a metade da     comunidade antes nela residente, constituía um permanente interesse e a essa     aldeia me desloquei frequentemente. O trabalho de campo que desenvolvi, com     estadia de alguns meses na região, permitiu recolher dados sobre os dois temas   em simultâneo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ficar alojada nessa aldeia e ter transporte     próprio – um clássico “carocha” que me levou por serras e vales nas “Terras do     Demo” – facilitou muito as minhas deambulações e estadia no terreno. O espaço     geográfico que constituía a sede da minha residência facilitava a deslocação     local. Pude assim aceder a lugares distantes onde o interesse me fazia chegar –   lembro Albergaria das Cabras e Vilharigues – e centrar-me também no espaço     urbano de Viseu, que possibilitou realizar pesquisa de arquivo na Casa Amarela     e no Governo Civil, dando também oportunidade para “observar” celebrações     tradicionais. De entre elas recordo o justificado êxtase perante as   “Cavalhadas”, desfile originário de ­Vildemoinhos, que desde o século XVII     percorre anualmente as ruas da cidade no dia de São João. Ficaram as   recordações e as imagens então colhidas foram guardadas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A projeção e reconhecimento que distinguiram     Jorge Dias de muitos outros professores do próprio Instituto conferiam-lhe um     estatuto próprio. Soube criar uma equipa que integrava a sua própria mulher     (Margot Dias) e um conjunto de colaboradores amigos: Ernesto Veiga de Oliveira,     Benjamim Pereira e Fernando Galhano, que com ele vieram do Norte do país; António     Carreira e Rogado Quintino, que para além da experiência profissional de     terreno obtida no Ultramar (Guiné-Bissau e Cabo Verde) como administradores de   posto, possuíam uma formação académica que os distinguira.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Todos eles faziam parte de uma estratégia     fundamental para a qualidade que se refletiu em toda a produção científica que     emanou dos centros que vieram a integrar. Os companheiros que ao longo da vida     o acompanharam nunca traíram o seu pensamento nem a sua pessoa. Formavam uma     equipa que, pela complementaridade da formação distinta de cada um deles, fez     confluir as competências diversificadas que possuíam. Com um mesmo propósito,     deram recorte e visibilidade à equipa do Centro de Estudos de Antropologia     Cultural, a que se veio juntar, em data posterior, o já existente Centro de     Estudos de Etnologia (CEE, que sucedeu ao Centro de Estudos de Etnologia     Peninsular, fundado em 1947) e o Museu de Etnologia, que veio a ser criado mais     tarde (1965). Não fazem parte desta informação todas as transformações que     qualquer deles sofreu no título que os designava, fruto de alterações na   conceção da disciplina e do itinerário que o país percorreu.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Mas a certeza de que a equipa sabia muito bem o     que queria e por que sempre lutou (embora de forma diplomática e por via de     algum isolamento, muitas vezes posto em causa) permitiu sobrepor a sua justa     convicção, continuadamente demonstrada ao querer desenvolver de forma muito     séria um trabalho científico. Conseguiram, dessa forma, ultrapassar todos os     percalços que sempre ocorrem nos relacionamentos em espaço académico, dando   lugar a que a sua recordação tenha conseguido manter-se viva até hoje.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O edifício onde o Museu de Etnologia atualmente     se encontra, inaugurado em 1976, permitiu dar expressão ao programa definido     por Jorge Dias e equipa. Uma das vertentes do trabalho deste grupo foi o     recurso à imagem em todo o tipo de suporte (fotografia, filme e vídeo), atitude     pioneira que levou à constituição de um fundo documental da maior importância   para o conhecimento do país.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O acompanhamento da recolha de artefactos, a     aprendizagem das técnicas de registo e classificação, o seu armazenamento em     depósito, a organização de exposições e dos respetivos catálogos, a definição     de critérios e de metodologias na orientação da pesquisa para a concretização     de projetos integraram uma aprendizagem que me foi útil no desempenho de     funções no quadro museológico. Relevo a exposição que organizei intitulada <i>Espaços de Festa: Permanência e Inovação</i>,   que teve em lugar em novembro de 1991, no próprio museu.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">As dificuldades existentes não conseguiam ser     ultrapassadas pelos responsáveis deste grupo de trabalho que, apesar da sua   persistência, se via muitas vezes desencorajado por lutas inglórias.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Foi curta a minha permanência no Centro de     Antropologia Cultural/Museu de Etnologia, de outubro de 1973 a     maio de 1974. A inexistência de qualquer vínculo oficial que me ligasse ao     Centro e a limitação das verbas disponíveis, que em muito dificultava a     concretização de qualquer projeto, fizeram-me, com muita pena, interromper a     minha presença num espaço ocupado por tão ilustres investigadores, com quem continuei a manter uma colaboração permanente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A equipa sénior analisou comigo, de forma séria     e muito objetiva, a proposta feita pelo professor Fraústo da Silva, então     encarregado de constituir uma equipa que desse corpo à Universidade Nova de     Lisboa, empreendimento que tinha em mãos. Equacionar as duas possibilidades que     se apresentavam – ficar ou sair – foi muito difícil e provocou-me uma angústia     que confesso sem vergonha. Pode dizer-se que a transferência para uma outra     instituição correspondeu ao desfazer-se de um sonho. E, com o otimismo que me     caracteriza, encetei em maio de 1974 um outro caminho, que então abria     horizontes atrativos e onde as ciências sociais ocupavam um lugar de destaque.   Ou não estivéssemos no período pós-revolução…</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">MP Que memória guarda da vivência de   trabalho com a equipa de Jorge Dias?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">MBR-T      Infelizmente o professor     Jorge Dias partira deixando um irreparável vazio, e era recordado por todos os     elementos da equipa quase diariamente. A sua falta, manifestada regularmente     pela evocação do seu nome, das suas ideias e da orientação que poderia ter     dado, se estivesse vivo, aos trabalhos que então decorriam, constituía uma     realidade inalterada. Nesse espaço era totalmente impossível separar o     profissional do privado – o prazer que trazia a convivência social, feita com     delicadeza e respeito recíproco, marca a qualidade do ambiente que reinava.     Relações de amizade e de parentesco articularam-se em torno de interesses     comuns, possibilitando aos investigadores que constituíam esta equipa     estabelecer a conjugação de competências que sempre confluiu para um mesmo     propósito. Foi neste ambiente de trabalho onde o relacionamento era muito   cordial que passei a integrar a equipa dos três colaboradores mais jovens.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ao iniciar funções no quadro profissional acima     descrito, fui instalada numa sala ampla virada para o jardim, que partilhei com     Margot Dias. Como mobiliário, duas secretárias colocadas em ângulo reto     apoiavam o trabalho de cada uma de nós. A sala possuía duas estantes muito     simples e um estreito divã com cobertura azul forte, que possibilitava àquela     investigadora o repouso que, por questões de saúde, obrigatoriamente deveria   cumprir em períodos alternados. Tal raramente acontecia.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">O número dos que exerciam funções de     investigação restringia-se aos nomes que passo a indicar e as salas por eles     ocupadas alojavam em regra duas pessoas: numa, estavam instalados, certamente     pela afinidade e proximidade da origem e formação, António Carreira e Rogado     Quintino; numa outra, Ernesto Veiga de Oliveira e Benjamim Pereira; em conjunto     trabalhavam Carlos Ramos de Oliveira e Carlos Laranja Medeiros;     individualmente, exercia funções a responsável pela Biblioteca e Centro de     Documentação, Helena Prista Monteiro; Ruy Cinatti (engenheiro agrónomo, com uma     formação em antropologia pela Universidade de Oxford e grande poeta) auferia de     uma posição de maior independência. Ao profissionalismo e arte do fotógrafo Carlos     Ladeira devem-se muitas das belíssimas imagens, que não só animaram a obra     escrita como as exposições da equipa. Não pode deixar de ser referido o Jaime,     cujas funções de natureza prática, sendo indispensáveis, constituíram um     contributo de grande valor. Sem o trabalho por ele desempenhado, que muito     ajudou a manutenção e o funcionamento do museu, teriam surgido sérias   dificuldades.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Subsequentemente à minha entrada, que já referi,     o viver do dia a dia proporcionou-me numa primeira estadia um ambiente muito     agradável. À excelência do quadro de trabalho em que reinava o bom entendimento     e à troca de impressões abertas possibilitada pela expressão franca dos     projetos que continuadamente surgiam, opunha-se a completa falta de condições   materiais para trabalhar e a inexistência de recursos para o fazer.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">De facto, as relações que tive com a equipa de     Jorge Dias, com cada um deles e com todo o conjunto, no âmbito de uma     continuada relação pessoal/profissional que sempre mantive ao     longo de muitos anos, proporcionaram a aquisição de valiosas competências e     inspiraram os caminhos que posteriormente vim a percorrer. Para além de tudo o     que se encontrava relacionado com o trabalho em curso e com o gizar de projetos     futuros, um sentimento recíproco de forte ligação emocional ligava os elementos     que o constituíam. As conversas estabelecidas incidiam não só sobre o que respeitava ao quotidiano, mas ultrapassavam-no largamente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Muitas refeições foram tomadas em conjunto, no     próprio espaço de trabalho; outras foram partilhadas em locais considerados   “únicos”, por só a eles poder ter acesso quem os conhecia. Lembro, por exemplo,     um pequeno café no interior do bairro de Alcântara, onde só se podia aceder por     conhecimento previamente estabelecido entre a proprietária guineense e António     Carreira. Aí nos deliciávamos em conjunto com a receita do caldo de peixe, <i>mafefede</i>, prato típico da Guiné-Bissau     feito à base de tainhas secas, com arroz, malagueta e piripíri. Um olhar     retrospetivo permite equacionar uma dúvida sobre a má qualidade do local onde     nos instalávamos e era tomada a refeição (uma sala interior, sem janela), e o     prazer que nos trazia projetá-la, o gosto do sabor exótico que recordo ainda     hoje e o delicioso convívio que se estabelecia. Um outro dos restaurantes     frequentados, quando a refeição era partilhada com algum colega externo à   instituição, merecedor de uma especial atenção, situava-se na Rua dos     Jerónimos, na lateral do Mosteiro; ainda frequentado com regularidade lembro um   outro, localizado na esquina da Rua Correia Garção com a de São Bento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">MP Qual o efeito da preparação em   antropologia na sua vida profissional?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">MBR-T      Toda a produção científica     da equipa de Jorge Dias teve uma reconhecida influência sobre a forma como     percorri toda a vida profissional. Assumo-o publicamente com honra e com     orgulho e nunca é demais referir como a qualidade que caracterizou a     investigação desenvolvida pelos elementos do grupo se repercutiu na orientação   e no tratamento dos temas que estudei.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Sendo diversificada a área de estudo que     constituiu objeto da equipa, que se deslocou por vários espaços do então     império português, sempre considerando o Homem na sua unidade e valorizando as     diferentes expressões culturais que reconhecia, foram desenvolvidos vários     projetos que podem ser considerados indicadores da riqueza da sua qualidade     editorial. Os temas ligados à cultura ocidental, nomeadamente a Portugal,     sempre constituíram para mim um grande atrativo, o mesmo não tendo acontecido   com os que se ligavam ao continente africano ou tiveram por objeto o Oriente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Iniciada pelo professor Jorge Dias a     investigação realizada no Norte de ­Portugal, em Vilarinho da Furna (1948) e,     posteriormente, em Rio de Onor (1953), duas aldeias comunitárias que abriram     portas aos “estudos de comunidade” na academia portuguesa, seguiram-se, com     desenvolvimento paralelo, os itinerários percorridos e a recolha de informação     por Veiga de Oliveira e Benjamim Pereira, que lhe deram uma continuidade notável.     Assumiram desta forma uma postura que priorizava o registo da tradição     portuguesa, muito em especial em relação à cultura material. Foram seguidores     dos que em França também tinham sido guiados pelos princípios da “<i>ethnologie d’urgence</i>”, encetada por   investigadores ligados ao Musée de l’Homme, em Paris.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ter procurado realizar trabalho de campo, estar     inserida nos espaços que constituíam objeto da informação que procurava, ter     interagido com os elementos das microssociedades a que cada um deles pertencia,     conduziu-me a tomar uma abordagem metodológica que sempre priorizou o     qualitativo. Embora os valores quantitativos tivessem apoiado as hipóteses     levantadas e confirmado as interpretações feitas, considero que uma perspetiva     socioantropológica guiou o encaminhamento de todos os meus trabalhos. A     importância da imagem, sempre por mim associada a qualquer conhecimento que     procurasse registar ou transmitir, decorre da influência sofrida através das     obras produzidas em colaboração com o Instituto do Filme Científico de     Göttingen e de toda a recolha e montagem fotográficas feitas por Benjamim     Pereira e Carlos Ladeira. Uma outra iniciativa que considero interessante, por     ter sido inovadora, foi o ensino da disciplina de Antropologia Visual, que     integrava o segundo módulo do programa do mestrado de Relações Interculturais   (1991) e que ainda hoje continua a ser lecionada pela Universidade Aberta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Às séries que produzi no âmbito do Instituto     Português de Ensino à Distância e da Universidade Aberta como material letivo     destinado aos cursos ministrados à distância (Iniciação à Museologia, 1993, e     Sociologia das Migrações, 1995) e para a televisão, que transmitiu os quatro     programas que integravam <i>O Sonho do       Emigrante</i> (1988), junta-se a série <i>Festas</i> (1984).<a style='mso-footnote-id:ftn3' href="#_ftn3" name="_ftnref3" title=""><sup><sup>[3]</sup></sup></a> Esta última     série foi ­subsidiada pela então Secretaria de Estado da Emigração. O registo     das celebrações religiosas e profanas em que os migrantes portugueses se     envolviam durante os meses de verão constituiu motivo suficientemente forte     para que a Secretaria de Estado tivesse concedido um subsídio em troca da sua     integração no ciclo de cinema que, por seu intermédio, era projetado no   estrangeiro.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">A atração que sempre tive pela instituição     fez-me tentar uma segunda hipótese de integrar a equipa. Mais uma vez o percurso     não foi fácil e, tendo que prestar provas num concurso para     investigador/coordenador, apresentei candidatura ao concurso que tinha sido aberto (1990).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Desta vez ficaria instalada no novo edifício,     numa lindíssima sala com vista para o Tejo. As condições de trabalho então     existentes, sempre difíceis, quase tinham desaparecido por completo. O Museu     fora separado dos centros e passava a ter uma vida própria; o equipamento fora     adstrito a cada uma das instituições com um critério de atribuição totalmente     incompreensível. Para os investigadores, nem sequer havia possibilidade de   solicitar fotocópias, ainda que sendo pagas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Nestas condições, o convite e imposição para     ocupar o lugar de diretora do Centro de Antropologia Cultural e Social     revelava-se uma situação de grande complexidade e foram em vão todos os     esforços feitos para ultrapassar as dificuldades que surgiam. José Carlos Gomes     da Silva, antropólogo ilustre, pedira a sua demissão do lugar que me era agora     oferecido. Nunca nos encontrámos neste espaço em situação de trabalho, embora     as nossas relações tivessem sido as melhores. Só depois viria a compreender a     razão que motivou a sua saída, após uma tão curta permanência na instituição   que deixava por razões evocadas na conversa que coincidiu com a minha entrada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A conjugação das três instituições acima     referidas numa mesma área de trabalho e nela estando inserida uma mesma equipa     permitiu produzir resultados que alimentavam projetos, dando corpo à articulação de esforços complementares.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O número de investigadores tinha-se     progressivamente reduzido e, depois da morte de Jorge Dias (1973), de Ernesto     Veiga de Oliveira (1990) e de ­Fernando Galhano (1995), a equipa desfez-se.   Tudo se tinha alterado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A ilusão que sustentara para a minha carreira     profissional ao longo de muitos anos caminhava, sem qualquer alternativa, para     o fim… Resta bem viva a recordação de um projeto aliciante que alimentara com   muito empenho e o desencanto de não o ter conseguido construir.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a style='mso-footnote-id:ftn1' href="#_ftnref1" name="_ftn1" title="">[1]</a>       Jean Stoezel e Alan Girard, ambos professores na Sorbonne, partilhavam a direção do Departamento de Psicologia Social no Institut National d’Etudes Démographiques (INED). No meio do século passado publicam o livro <i>Français et immigrés, </i>vol. I:<i> L’attitude française, l’adaptation des     Italiens et des Polonais</i> (Presses Universitaires de     France/Institut National d’Etudes Démographiques, 1953), seguido     de um outro que lhe dá continuidade e que tem como subtítulo <i>Nouveaux documents sur l’adaptation –     Algériens, Italiens, Polonais, le service social d’aide aux immigrants</i> (Presses Universitaires de France/Institut National d’Etudes     Démographiques, 1954). Constituem um marco no panorama da literatura científica relacionada com o fenómeno migratório e são hoje considerados uma referência.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a style='mso-footnote-id:ftn2' href="#_ftnref2" name="_ftn2" title="">[2]</a>       “Musealizar as migrações”, em <i>História</i> (2002);     “Migrations museums: permanent and temporary exhibitions”, em <i>AEMI Journal</i> (2010); e, com Miguel Monteiro: “Les musées dédiés aux  	migrations: le Musée Portugais de l’Emigration”, em <i>Museum International: Le patrimoine culturel des       migrants</i> (2007); “Emigração e retorno: imagens cruzadas num Webmuseu e o papel da tecnociência no caso de <a href="http://www.museu-emigrantes.org" target="_blank">www.museu-emigrantes.org</a>”, em <i>A Emigração Portuguesa para o Brasil</i> (org.     Fernando de Sousa e Isménia Martins, CEPESE/Edições Afrontamento,     2007); “I musei delle migrazioni in Europa: il Museu da Emigração e das Comunidades, Fafe, Portogallo”, em <i>Studi Emigrazione</i> (2007).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana"><a style='mso-footnote-id:ftn3' href="#_ftnref3" name="_ftn3" title="">[3]</a>       As imagens para a realização dos vídeos sobre festas, título que a     série assumiu, foram colhidas na Pateira de Fermentelos; em Lamego, na Festa de Nossa Senhora dos Remédios; em Fátima, em 13 de agosto; em Sul, quando da inauguração do monumento ao emigrante. Campo Maior, o     último local estudado, mereceu particular atenção pela conhecida Festa das     Flores. De ressaltar o acompanhamento no terreno feito por Benjamim Pereira e Ernesto Veiga de Oliveira.</font></p>      ]]></body>
</article>
