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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Solidariedade e conflito nos processos de interação cotidiana sob intensa pessoalidade]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade Federal da Paraíba Departamento de Ciências Sociais Programa de Pós-Graduação em Antropologia]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The main objective of this article is to understand the social relations in the daily routine of a neighborhood intensely person-bounded and considered one of the ten most violent neighborhoods in the city of João Pessoa, Paraíba, Brazil. Having local residents as main interpreters, it aims to discuss the process of sociability in the neighborhood and the processes of justification that support new forms of solidarity and conflict. The understanding of the elements of person-boundedness in the neighborhood is deepened by taking the ordinary fears as organizers of the researcher&#8217;s gaze. The analytical focus is the micro-sociology of emotions that are present and signified by residents in the process of constructing the neighborhood and in the investments of gratitude and trust shown in the configuration of everyday social relations.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana"><b>Solidariedade e conflito nos processos de intera&#231;&#227;o   cotidiana sob intensa pessoalidade </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b><font face="Verdana">Solidarity   and conflict in intensely personalized processes of daily interaction </font></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="2" face="Verdana">Mauro Guilherme Pinheiro   Koury<sup>1</sup></font></b></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><sup>1</sup>Grupo de Pesquisa em Antropologia   e Sociologia das Emo&#231;&#245;es, Programa de P&#243;s-Gradua&#231;&#227;o em   Antropologia, Departamento de Ci&#234;ncias Sociais, Universidade Federal da Para&#237;ba (UFPB), Brasil. <i>E-mail:</i>  <a href="mailto:maurokoury@gmail.com">maurokoury@gmail.com</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <hr noshade size="1">     <p><font size="2" face="Verdana"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O objetivo principal deste artigo &#233; compreender as rela&#231;&#245;es   sociais no cotidiano de um bairro de intensa pessoalidade e considerado um dos   dez bairros mais violentos da cidade de Jo&#227;o Pessoa, Para&#237;ba, Brasil. Tendo   como principais int&#233;rpretes os moradores locais, nele se busca discutir o   processo de sociabilidade no bairro e os processos de justifica&#231;&#227;o que d&#227;o   suporte a novas formas de solidariedade e conflito. O artigo pretende   aprofundar a compreens&#227;o dos elementos de pessoalidade no bairro, tendo os   medos corriqueiros, isto &#233;, dissensos e rupturas, como organizadores do olhar   do pesquisador. O enfoque anal&#237;tico se encontra na dimens&#227;o microssociol&#243;gica das emo&#231;&#245;es presentes   e significadas pelos moradores no processo de constru&#231;&#227;o do bairro e nos   investimentos de gratid&#227;o e confian&#231;a presentes na configura&#231;&#227;o das rela&#231;&#245;es   sociais do cotidiano. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Palavras-chave:</b> sociabilidade, pessoalidade, fronteiras simb&#243;licas, medos corriqueiros,   processos de justifica&#231;&#227;o</font></p> <hr noshade size="1">     <p><font size="2" face="Verdana"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">The main   objective of this article is to understand the social relations in the daily   routine of a neighborhood intensely person-bounded and considered one of the   ten most violent neighborhoods in the city of Jo&#227;o   Pessoa, Para&#237;ba, Brazil. Having local residents as   main interpreters, it aims to discuss the process of sociability in the   neighborhood and the processes of justification that support new forms of   solidarity and conflict. The understanding of the elements of person-boundedness in the neighborhood is deepened by taking the   ordinary fears as organizers of the researcher&#8217;s gaze. The analytical focus is   the micro-sociology of emotions that are present and signified by residents in   the process of constructing the neighborhood and in the investments of   gratitude and trust shown in the configuration of everyday social relations. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Keywords:</b> sociability,   person-boundedness, symbolic boundaries, ordinary fears,   processes of justification</font></p> <hr noshade size="1">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">&#8220;O cotidiano se   inventa com mil maneiras.&#8221;    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Certeau (1994: 38)</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Desenvolvo um projeto de   pesquisa sobre medos e sociabilidade na cidade de Jo&#227;o Pessoa, capital do   estado da Para&#237;ba, no Brasil, desde os anos de 2000, e uma das conclus&#245;es a que   chegou o projeto, em suas diversas entradas na cidade, &#233; a de que existem   v&#225;rias vis&#245;es sobre a cidade e a viol&#234;ncia dentro dela, definidas a partir do   lugar de fala dos sujeitos que se dignaram a narrar suas experi&#234;ncias.<a href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><sup><sup>[1]</sup></sup></a> De   acordo com o bairro onde moram, relatam uma experi&#234;ncia de medos e receios,   seja como v&#237;timas potenciais de uma viol&#234;ncia que identificam como de   crescimento &#237;mpar nas duas &#250;ltimas d&#233;cadas, apontando o crescimento desordenado   e o aumento consider&#225;vel de aglomerados subnormais e a quebra da tranquilidade   em uma cidade at&#233; ent&#227;o pessoalizada; seja, ainda, como v&#237;timas diretas do   imagin&#225;rio sobre a viol&#234;ncia local, que aponta alguns bairros como mais ou   menos violentos. Neste segundo caso, h&#225;, com frequ&#234;ncia, uma tentativa de   salvar a face do bairro e de seus moradores (Goffman 1967), negando a imputa&#231;&#227;o   de bairro violento e, ao mesmo tempo, uma busca de indicar &#8220;elementos de fora   do bairro&#8221; como os verdadeiros &#8220;arruaceiros&#8221; e sujeitos da viol&#234;ncia que   desonra os moradores locais &#8211; &#8220;trabalhadores honestos&#8221;, &#8220;pessoas de f&#233;&#8221; e   &#8220;retid&#227;o de car&#225;ter&#8221;, apesar de pobres.<a href="#_ftn2" name="_ftnref2" title=""><sup><sup>[2]</sup></sup></a> &#201; esse segundo caso que este artigo pretende   aprofundar. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Aproximando o objeto</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Jo&#227;o Pessoa &#233; uma   cidade que se expandiu nas &#250;ltimas quatro d&#233;cadas. Essa expans&#227;o trouxe   consequ&#234;ncias v&#225;rias para o seu cotidiano de sociabilidade, principalmente   quanto aos medos que envolvem as rela&#231;&#245;es entre os habitantes de bairros   considerados mais nobres e o imenso n&#250;mero de moradores mais recentes, seja de   classe m&#233;dia, vindos com o desenvolvimento da universidade federal local, como   docentes, t&#233;cnicos ou estudantes, de todo o Brasil e exterior; seja de estratos   sociais mais pobres, oriundos do interior do estado e dos estados vizinhos,   como Pernambuco e Rio Grande do Norte, pela diminui&#231;&#227;o dos empregos em seus   munic&#237;pios de origem; ou, ainda, pelo deslocamento progressivo para as capitais   e grandes cidades brasileiras de popula&#231;&#245;es que ainda sobreviviam do trabalho   rural, no caso espec&#237;fico para Jo&#227;o Pessoa, em busca de sobreviv&#234;ncia. A   popula&#231;&#227;o mais pobre ocupou, desordenadamente, zonas mais perif&#233;ricas da cidade   e zonas consideradas de prote&#231;&#227;o ambiental, e tamb&#233;m zonas degradadas do centro   hist&#243;rico, formando bols&#245;es ou conglomerados subnormais, no jarg&#227;o dos t&#233;cnicos   em planejamento urbano, na cidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O pr&#243;prio desenvolvimento de Jo&#227;o Pessoa, de   outro lado, desalojava moradores instalados em locais destinados a projetos e   investimentos econ&#244;micos e de moradia, sobretudo com a sua expans&#227;o para a   praia, nos anos de 1970 (Koury 2008), principalmente col&#244;nias antigas de   pescadores, que se viram sem outra possibilidade sen&#227;o migrarem para outros   pontos, mais pr&#243;ximos ou n&#227;o dos seus antigos locais de moradia e trabalho. Os   bairros populares, desta forma, foram surgindo n&#227;o apenas na periferia, mas no   interior mesmo dos n&#250;cleos urbanos e econ&#244;micos mais visados pelo capital   econ&#244;mico e de distin&#231;&#227;o cultural, como diria uma an&#225;lise bourdieusiana da   cidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Essa popula&#231;&#227;o pobre, assim, de um lado, serviu   e serve como um mercado informal &#8211; composto, principalmente, de mulheres &#8211; para   o emprego dom&#233;stico para as classes m&#233;dias e m&#233;dias-altas, embora, com a   verticaliza&#231;&#227;o da cidade, tamb&#233;m a partir do final dos anos de 1970, muitos   desses empregos dom&#233;sticos tenham sido assumidos por homens, como faxineiros,   porteiros e prestadores de outros servi&#231;os locais. A expans&#227;o da cidade tamb&#233;m   trouxe uma m&#227;o de obra potencial para cobrir um mercado de constru&#231;&#227;o civil,   nas formas de pedreiros, ajudantes de pedreiro, pintores, encanadores e outros   mais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">De outro lado, por&#233;m, a presen&#231;a constante de   uma popula&#231;&#227;o crescente pelas ruas da cidade criou um clima de tens&#227;o entre os   moradores mais antigos, em rela&#231;&#227;o aos demais moradores recentes, incluindo a&#237;   os de classe m&#233;dia, sobretudo universit&#225;rios, inclusive com movimenta&#231;&#245;es   xen&#243;fobas contra a modifica&#231;&#227;o dos costumes e c&#243;digos de conduta locais, que   pareciam amea&#231;ar a paz e o bom comportamento dos filhos da cidade, mas tamb&#233;m,   e principalmente, os mais pobres, vindos em levas constantes e n&#227;o absorvidos   no todo pelos servi&#231;os informais e o mercado formal local. Essas tens&#245;es iam   al&#233;m da mudan&#231;a de c&#243;digos de conduta trazida pelos migrantes de classe m&#233;dia   que assumiram postos universit&#225;rios, particularmente na universidade federal   local, e se colocavam, mais intensamente, em termos de seguran&#231;a contra uma   poss&#237;vel viol&#234;ncia oriunda de pessoas &#8220;que n&#227;o tinham nada a perder&#8221;, no   discurso de um informante morador tradicional de um dos bairros com maior poder   econ&#244;mico, ou seja, oriunda dos migrantes pobres.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A partir dos anos de 1990 e mais   acentuadamente nos &#250;ltimos 13 anos, essa viol&#234;ncia torna-se t&#244;nica de v&#225;rios   discursos na e sobre a cidade: da m&#237;dia, que explora a rela&#231;&#227;o entre pobre e   viol&#234;ncia urbana de uma forma intensa; da pol&#237;cia, que inicia uma s&#233;rie de   estat&#237;sticas sobre o crime e a viol&#234;ncia urbana local e cria mapas indicativos   dos locais onde essa viol&#234;ncia ocorre de forma mais evidente e das marcas que   deixa na cidade, como um todo (indicando os bairros mais pobres como o centro   nervoso da viol&#234;ncia da e na cidade); do estado e da prefeitura local sobre a   quest&#227;o da seguran&#231;a, quando tentam dar uma resposta aos cidad&#227;os sobre o   &#8220;combate &#224; viol&#234;ncia&#8221;, entre outros. Esses elementos, em seu conjunto, geram disposi&#231;&#245;es   no sentido de um disciplinamento da cidade, como tamb&#233;m de um imagin&#225;rio urbano   de medos, que invade n&#227;o apenas os moradores mais bem situados na   estratifica&#231;&#227;o cidad&#227;, mas tamb&#233;m aqueles chegados mais recentemente,   principalmente os mais pobres, que lutam por se afirmarem e serem inclu&#237;dos na   cidade e se sentem marginalizados pelos discursos da seguran&#231;a e da viol&#234;ncia   que os atingem por serem moradores de bairros considerados perigosos e de   etiquetas diferentes das da cidade em seu todo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">As reflex&#245;es aqui contidas fazem parte de uma   pesquisa maior que tenta ver as diversas configura&#231;&#245;es tensas que organizam os   moradores de Jo&#227;o Pessoa nesses &#250;ltimos 40 anos, e como s&#227;o vivenciadas na vida   pr&#225;tica e no imagin&#225;rio dos habitantes a partir dos seus locais de fala. Este   artigo, por&#233;m, tem o seu lugar de reflex&#227;o num subprojeto dessa pesquisa, agora   em desenvolvimento, que tenta discutir as rela&#231;&#245;es cotidianas no bairro do Varj&#227;o/Rangel. Nele se tem interesse em conhecer localmente, no   bairro, como os moradores organizam suas diversas rela&#231;&#245;es cotidianas com os   outros moradores locais, e como as redes por eles formadas em suas rela&#231;&#245;es se   ajudam entre si a significar suas trajet&#243;rias de vida at&#233; a cidade e dentro   dela, no bairro onde moram; e, por outro lado, como s&#227;o afetados pela l&#243;gica   estigmatizadora da cidade, tanto em rela&#231;&#227;o a ressentimentos, quanto &#224;   justifica&#231;&#227;o e acusa&#231;&#227;o perante o estigma presente na rela&#231;&#227;o do eu (o pr&#243;prio   morador) com o outro (os demais moradores do bairro).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Neste artigo, desta maneira, se busca analisar   essas configura&#231;&#245;es de justificativa e acusa&#231;&#245;es no bairro atrav&#233;s de um   esquema peculiar, descoberto pelo autor no cotidiano do trabalho de campo,   quanto ao uso de uma dupla nomenclatura para o bairro: o Varj&#227;o e o Rangel, nomes   oficial e oficioso, s&#227;o acionados quando o local de moradia &#233; afirmado como um   bairro violento (Varj&#227;o) ou como um bairro bom de morar e calmo (Rangel). O   Varj&#227;o &#233; sempre localizado um pouco mais adiante ou ao lado do lugar onde o   informante reside no bairro. &#201; assim poss&#237;vel que uma &#225;rea acusada de viol&#234;ncia   seja indicada como Varj&#227;o, e que um outro informante, morador dessa &#225;rea, a   indique como Rangel.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Nesse jogo se situa o presente artigo, e os   entrevistados s&#227;o homens e mulheres comuns, relacionais, solid&#225;rios uns com os   outros, mas que se colocam uns contra os outros na defesa de salvar a pr&#243;pria   face, como diria Goffman (1967), perante a acusa&#231;&#227;o, de certo modo absorvida   pelos pr&#243;prios moradores, de que moram em um bairro violento e que produz o medo   na cidade de Jo&#227;o Pessoa como um todo. Assim, os informantes, neste artigo, n&#227;o   foram segmentados em l&#243;gicas de poder associadas a rela&#231;&#245;es geracionais (jovens   e velhos), ou de g&#234;nero. Em certos momentos se alega uma poss&#237;vel segmenta&#231;&#227;o   por tempo de moradia no bairro, mas apenas para se referir que essa l&#243;gica   segmentar tamb&#233;m &#233; quebrada pelos pr&#243;prios informantes, quando, em meio a ruas   mais ou menos organizadas, becos com v&#225;rios quartos de aluguel s&#227;o gerados como   forma de abrigar parentes e amigos rec&#233;m-chegados do interior e de aumentar a   renda dos moradores que os constroem.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Neste artigo procura-se, desse modo, verificar   uma atribui&#231;&#227;o conceitual &#234;mica colocada em a&#231;&#227;o pelos moradores para se   salvaguardarem de acusa&#231;&#245;es de que vivem em um bairro considerado perigoso e   violento, atrav&#233;s dos nomes pelos quais o bairro &#233; conhecido. Um segundo   interesse reside em verificar as significa&#231;&#245;es de pertencimento presente,   sempre na ambiguidade e ambival&#234;ncia de uma rela&#231;&#227;o de amor e &#243;dio com o local,   e com as acusa&#231;&#245;es assumidas e rejeitadas de morar em um espa&#231;o considerado   marginal e formador de marginais pela cidade de Jo&#227;o Pessoa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Assim, o artigo tem como refer&#234;ncia e   interesse etnogr&#225;fico o bairro do Rangel, que nasceu Varj&#227;o e teve a sua   ocupa&#231;&#227;o de forma progressiva a partir dos anos 80 do s&#233;culo passado, embora   haja registros de moradores a partir da d&#233;cada de 1930. Varj&#227;o/Rangel &#233; um bairro   popular da zona oeste da cidade de Jo&#227;o Pessoa, pr&#243;ximo ao centro velho da   capital e com fronteiras a outros bairros populares tamb&#233;m considerados   violentos nas estat&#237;sticas policiais e no imagin&#225;rio da cidade, com not&#237;cias   recorrentes na m&#237;dia sobre pris&#245;es, mortes e assaltos no bairro e fora dele por   seus moradores.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Como a maior parte dos bairros populares da   capital, o bairro de Varj&#227;o/Rangel foi ocupado por levas frequentes de antigos moradores de cidades   interioranas que vieram para a capital em busca de emprego e de uma melhor   condi&#231;&#227;o de vida para si e suas fam&#237;lias. Essa migra&#231;&#227;o se deu (e ainda ocorre)   em rede (Truzzi 2008): um parente, amigo, vizinho, conhecido da cidade de   origem entrava em contato com outro j&#225; morador de Jo&#227;o Pessoa e, atrav&#233;s dele,   vinha para a capital e se instalava na casa desses j&#225; moradores e, logo ap&#243;s,   em um &#8220;puxado&#8221; que constru&#237;a no terreno do morador ou pr&#243;ximo a ele, que tamb&#233;m   servia como um elemento que ajudava esses novos moradores a se inserirem na   economia informal (ou, em poucos casos, na economia formal) da cidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O bairro do Varj&#227;o/Rangel, como os demais bairros populares   da cidade, cresceu assim em um processo cont&#237;nuo de ocupa&#231;&#245;es realizadas   atrav&#233;s de redes de parentesco ou de vizinhan&#231;a e amizade, que se aprofundavam   no novo local atrav&#233;s de la&#231;os de gratid&#227;o dos novos habitantes pela   solidariedade dos j&#225; moradores. Esse processo refundava la&#231;os rompidos   anteriormente, na vinda desses primeiros moradores, ou criava la&#231;os novos, pelo   recebimento de novos sujeitos n&#227;o t&#227;o pr&#243;ximos, mas indicados por parentes e   amigos que haviam ficado nos munic&#237;pios de origem.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A pessoalidade nas rela&#231;&#245;es dos moradores do   bairro, deste modo, &#233; intensa, seja no &#226;mbito do parentesco, seja no &#226;mbito da amizade, ambos reorganizados na cidade atrav&#233;s do v&#237;nculo de gratid&#227;o e compartilhamento. A   confian&#231;a e a confiabilidade s&#227;o, assim, elementos importantes na an&#225;lise.   Muitos grupos de folguedos e artes populares, por exemplo, desfeitos na vinda   de alguns dos seus membros para a capital, foram posteriormente refeitos com a   vinda de outros e acrescidos com novos elementos recrutados no bairro, e seus   folguedos foram enriquecidos com as experi&#234;ncias adquiridas na viv&#234;ncia na   capital. N&#227;o quer dizer que n&#227;o haja dissens&#245;es, tens&#245;es, conflitos e rupturas   nessa pessoalidade.<a href="#_ftn3" name="_ftnref3" title=""><sup><sup>[3]</sup></sup></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Este artigo, portanto, pretende aprofundar a   compreens&#227;o desses elementos de pessoalidade, tendo os medos corriqueiros, isto   &#233;, dissensos e rupturas como organizadores do olhar do pesquisador. As diversas   entradas nos bairros da cidade de Jo&#227;o Pessoa, pelo pesquisador e por v&#225;rios   estudantes, em cada etapa da pesquisa, tinham por interesse compreender os   medos corriqueiros, entendidos n&#227;o apenas como os grandes medos de uma   sociedade que vive a cultura do medo, mas como pequenos enfrentamentos do   cotidiano entre moradores, entre moradores e outros bairros fronteiri&#231;os, e   entre moradores e a cidade de Jo&#227;o Pessoa, e inversamente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A entrada no bairro do Varj&#227;o se deu, em   primeira inst&#226;ncia, movida pela enorme repercuss&#227;o na cidade e na m&#237;dia   nacional de uma chacina, conhecida como &#8220;Chacina do Rangel&#8221; e acontecida no ano   de 2009 (Koury, Zamboni e Brito 2013), e pela busca de compreens&#227;o das ranhuras   dos c&#243;digos de solidariedade, confian&#231;a e lealdade que regiam os envolvidos,   chacinadores e chacinados, at&#233; o momento da trag&#233;dia. L&#225; chegando, o   pesquisador deparou com um bairro chocado, assustado e agressivo na defesa de   si mesmo, acusando como insanidade a demoniza&#231;&#227;o do caso que redundou na   chacina e que manchou ainda mais o bairro com o estigma de violento,   desordeiro, sem padr&#245;es morais e com c&#243;digos de conduta desviantes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Esses novos elementos me tocaram de modo   efetivo e passei a olhar e visitar o bairro com uma frequ&#234;ncia cada vez maior.   Esse aumento na frequ&#234;ncia das visitas buscava, deste modo, entender a   indigna&#231;&#227;o moral e o fechamento do bairro para conversas sobre a chacina, suas motiva&#231;&#245;es   &#8211; entender as raz&#245;es de uma defesa t&#227;o grande de que n&#227;o eram assim os seus   c&#243;digos de conduta e que aquilo tinha manchado ainda mais o bairro e aumentado   o seu estigma perante a cidade, ao ponto de muitos afirmarem que n&#227;o sa&#237;am &#8220;&#8230;   daqui porque n&#227;o tenho outro recurso, mas, por onde eu vou, digo que moro no   Rangel e sou olhado com uma apreens&#227;o maior, como se fosse eu que tivesse feito   aquilo [a chacina]&#8221;.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Em 2012, enfim, da pesquisa maior sobre medos   e sociabilidade na cidade de Jo&#227;o Pessoa se desenvolveu um subprojeto tendo o   Varj&#227;o, nome oficial do bairro, como universo, e a sociabilidade interna e o   estigma como elementos que norteariam a busca de compreens&#227;o de como se viam os   informantes como moradores do bairro, como viam o outro morador, como viam o   pr&#243;prio bairro, em rela&#231;&#227;o aos seus moradores e ao estigma da viol&#234;ncia pela   cidade, suas bases de solidariedade e os medos corriqueiros, os medos em geral   que percorriam seus sentidos de pertencimento e disputa por reconhecimento nas   diversas inst&#226;ncias do &#8220;outro&#8221;: vizinhos, fam&#237;lia, espa&#231;os de trabalho, os   demais bairros e a cidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Apesar de o subprojeto n&#227;o explicitar a   vergonha local pela chacina, foi ela que motivou a uma aproxima&#231;&#227;o ao bairro   para entendimento de sua hist&#243;ria atrav&#233;s das narrativas dos seus moradores,   dos lugares de fala de cada um deles. Lugares de fala, &#233; bom frisar, aqui menos   ligados &#224; geografia do bairro e ao lugar da morada, ou, tampouco, &#224; segmenta&#231;&#227;o   poss&#237;vel entre pessoas melhor ou pior situadas economicamente no bairro, ou   ainda a recortes de g&#234;nero ou idade, ou religi&#227;o e outros fatores, mas,   principalmente, &#224;s fronteiras simb&#243;licas que faziam os informantes situar-se   frente aos demais moradores e frente a eles mesmos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Isso porque notei frequentemente, nas minhas   visitas informais ao bairro, que os moradores pareciam conhecer uns aos outros   intensamente; todos, tamb&#233;m, perpassavam as informa&#231;&#245;es de serem &#8220;pessoas de   bem&#8221;, de serem &#8220;trabalhadores&#8221;, de apenas cuidarem de suas pr&#243;prias vidas, de   n&#227;o gostarem de &#8220;fofocas&#8221;. Mas, ao mesmo tempo, al&#233;m da fronteira pessoal do   informante, o bairro ou as quadras vizinhas da sua moradia ou do local onde   tinha um pequeno neg&#243;cio eram significados como antros de fofoca,   de vadios/as, de gatunos,   de drogados, de arruaceiros que &#8220;estragam a imagem do bairro na cidade&#8221;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Quando da minha entrada sistem&#225;tica no bairro,   j&#225; com o subprojeto em execu&#231;&#227;o, comecei a notar o uso dos dois nomes do   bairro, Varj&#227;o e Rangel, como elementos de acusa&#231;&#227;o ou justifica&#231;&#227;o para narrar   o pr&#243;prio bairro e os enfrentamentos cotidianos com os estigmas que o marcam,   bem como o seu contr&#225;rio, o bom viver no bairro. Esse artigo &#233;, assim, uma   tentativa de discutir categorias &#234;micas de entendimento, expressas no uso dos   dois nomes, Varj&#227;o e Rangel, como estrat&#233;gia narrativa de justificativa e   acusa&#231;&#245;es dos moradores do bairro sobre o pr&#243;prio bairro e suas rela&#231;&#245;es de   amor e &#243;dio com ele, no interior de um processo de trabalho de campo que situa   o autor no interior de uma &#8220;objetifica&#231;&#227;o participante&#8221;, como lhe chama   Bourdieu (2003).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Esta objetifica&#231;&#227;o participante n&#227;o tem a   finalidade de explorar &#8220;a &#8216;experi&#234;ncia vivida&#8217; do sujeito de conhecimento, mas   sim as condi&#231;&#245;es sociais de possibilidade &#8211; e, dessa forma, os efeitos e   limites &#8211; dessa experi&#234;ncia e, mais precisamente, do pr&#243;prio ato de   objetiva&#231;&#227;o. Visa (enfim) objetivar a rela&#231;&#227;o subjetiva com o pr&#243;prio objeto   (como) uma das condi&#231;&#245;es da objetividade&#8230;&#8221; (Bourdieu 2003: 282).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O enfoque anal&#237;tico deste artigo se encontra   na dimens&#227;o microssociol&#243;gica das emo&#231;&#245;es (Scheff 1990; Scheff e Retzinger   1991) presentes e significadas pelos moradores no processo de constru&#231;&#227;o do   bairro e nos investimentos de gratid&#227;o e confian&#231;a presentes na configura&#231;&#227;o   das rela&#231;&#245;es sociais do cotidiano (Goffman 1973). A gratid&#227;o e a confian&#231;a,   deste modo, t&#234;m servido como par&#226;metros norteadores do olhar do pesquisador,   seguindo de perto as an&#225;lises simmelianas sobre o assunto (Simmel 1964, 1983,   1990, 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2010), para acompanhar o processo de   equil&#237;brio das rela&#231;&#245;es sociais presentes no cotidiano do bairro   do Varj&#227;o/Rangel, sua pessoalidade, e, a partir da&#237;, identificar as ranhuras, os   pontos de tens&#227;o e desordem no interior dessas mesmas rela&#231;&#245;es.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O objetivo principal deste artigo &#233;   compreender as rela&#231;&#245;es sociais no cotidiano de um bairro (Mayol 2005) que &#233;   considerado um dos dez bairros mais violentos da cidade de Jo&#227;o Pessoa,   Para&#237;ba, Brasil, tendo como principais int&#233;rpretes os moradores locais. Nele se   busca discutir o processo de sociabilidade no bairro e os regimes de   justifica&#231;&#227;o que d&#227;o suporte a novas formas de solidariedade e conflito. Por   regimes de justifica&#231;&#227;o se entende aqui processos de acusa&#231;&#227;o e defesa advindos   dos atritos e tens&#245;es entre os pr&#243;prios moradores, a partir de discuss&#245;es   triviais no bairro, em processos de intera&#231;&#227;o social baseada em larga medida   numa profunda pessoalidade, atrav&#233;s dos la&#231;os de confian&#231;a e gratid&#227;o oriundos   de uma rede social baseada na solidariedade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">&#201; um projeto inserido na &#225;rea de antropologia   e sociologia das emo&#231;&#245;es e da moralidade, e pretende contribuir para a   discuss&#227;o sobre o alcance da categoria emo&#231;&#245;es para a an&#225;lise realizada pelas   ci&#234;ncias sociais. A principal meta a ser alcan&#231;ada &#233; a de compreender como e   quais emo&#231;&#245;es s&#227;o organizadas socialmente no processo de composi&#231;&#227;o do   cotidiano dos moradores do bairro &#8211; seja atrav&#233;s das rela&#231;&#245;es mantidas com os   seus pares diretos (os demais moradores do bairro), seja com os seus pares   indiretos (as falas e vis&#245;es da cidade de Jo&#227;o Pessoa sobre o bairro em que   habitam), e como isso reflete no processo de autoestima e na intera&#231;&#227;o social   dos moradores entre si, e dos moradores com o restante da cidade. Uma segunda   meta &#233; a de perceber os processos de conforma&#231;&#227;o dos medos corriqueiros, as   formas de proximidade e evita&#231;&#227;o assumidas pelos moradores do bairro e   direcionadas aos outros relacionais, e as formas internas de controle social e   resolu&#231;&#245;es de conflito, em uma organiza&#231;&#227;o social comunit&#225;ria intensamente   pessoalizada. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>A geografia urbana   do bairro</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">O Bairro Varj&#227;o/Rangel (<a href="#f1">figura 1</a>) se situa   na zona leste da capital do estado da Para&#237;ba, Jo&#227;o Pessoa. Forma um pequeno   tri&#226;ngulo, incrustado entre a reserva florestal da Mata do Buraquinho e o rio   Jaguaribe, e entre os bairros de &#173;Jaguaribe e Cruz das Armas ao norte, o Bairro   de Cristo Redentor a leste, e ao sul o bairro de &#193;gua Fria.</font></p>     <p><a name="f1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/etn/v18n3/18n3a04f1.jpg" width="579" height="438"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">Os seus limites geogr&#225;ficos s&#227;o a Mata do   Buraquinho, com a rua S&#227;o Geraldo, que percorre toda a Mata do Buraquinho, e   onde se situa a popula&#231;&#227;o mais carente do bairro, ao leste; o rio Jaguaribe, ao   norte, delimitando as fronteiras entre o Varj&#227;o/Rangel e os bairros de Jaguaribe e Cruz das Armas; a oeste e ao sul,   faz fronteira com o bairro de Cristo Redentor, tendo in&#237;cio no &#250;ltimo trecho da   rua Josery Serrano Assis, ao sul do bairro do Varj&#227;o/Rangel, que liga as ruas S&#227;o Geraldo, a oeste, e Leonel Pinto de Abreu, a leste; e &#193;gua Fria.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A regi&#227;o que corresponde aos atuais bairros do Varj&#227;o/Rangel, Cristo Redentor e &#193;gua Fria, at&#233;   o final da d&#233;cada de 1970, era conhecida pelo nome de   Varj&#227;o, a grande v&#225;rzea do   rio Jaguaribe. Nesse per&#237;odo, a &#225;rea oeste e mais ao sul foi ocupada por um   grande loteamento e nele foi criado um grande conjunto habitacional privado,   destinado &#224; classe m&#233;dia, principalmente professores e funcion&#225;rios da   Universidade Federal da Para&#237;ba (UFPB) e funcion&#225;rios graduados do estado e do munic&#237;pio de Jo&#227;o Pessoa.   Essa nova ocupa&#231;&#227;o originou os bairros chamados Cristo Redentor e &#193;gua Fria   (este &#250;ltimo percorre toda a extens&#227;o sul da Mata do Buraquinho, fazendo   fronteira com Cristo Redentor e a BR 230, indo at&#233; pr&#243;ximo da UFPB). Esses dois novos bairros &#173;ocuparam a maior parte do antigo Varj&#227;o,   formando o cone principal que delimita o atual Bairro do Varj&#227;o/Rangel.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O bairro do Varj&#227;o/Rangel, hoje, vive um processo de mudan&#231;a   de nome. Oficialmente, no interior da lei municipal que delimita as fronteiras   e nomeia os bairros da capital (Lei n.&#186; 1574, de 04/09/1998, da C&#226;mara Municipal de Jo&#227;o Pessoa), o bairro se chama Varj&#227;o.   Por&#233;m, no imagin&#225;rio da popula&#231;&#227;o local e da cidade (tanto na m&#237;dia, quanto nas   linhas de &#244;nibus e em alguns mapas atuais n&#227;o oficiais), o bairro ganha o nome de   Rangel. Essa pol&#234;mica entre dois nomes do bairro ainda est&#225; sendo investigada,   mas parece ser origin&#225;ria de quest&#245;es relacionadas a um sentimento de   estigmatiza&#231;&#227;o referente ao nome Varj&#227;o: nome relacionado a um local   considerado pelos moradores da cidade como violento e dos mais carentes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O nome Rangel e a luta pela denomina&#231;&#227;o do   bairro com este nome aparecem pela primeira vez nos finais da d&#233;cada de 1970, a   partir do processo de divis&#227;o da &#225;rea do Varj&#227;o nos dois novos bairros   referidos, Cristo Redentor e &#193;gua Fria, oriundos de um investimento   habitacional do poder p&#250;blico e privado para a expans&#227;o e o ordenamento da   cidade. Ao oeste e ao sul do bairro surgem dois grandes conjuntos habitacionais   direcionados para a classe m&#233;dia, ligados &#224; universidade e aos quadros t&#233;cnicos   do segundo e terceiro escal&#227;o do estado e do munic&#237;pio. A entrada de segmentos   das classes m&#233;dias n&#227;o apenas ocasiona a divis&#227;o mencionada, mas organiza toda   a &#225;rea da v&#225;rzea do Rio Jaguaribe em bairros que buscam uma n&#227;o identidade como   Varj&#227;o, que nos c&#243;digos da cidade se tinha como &#225;rea perigosa e de risco.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Esses c&#243;digos discriminadores da cidade s&#227;o   transpostos para os dois bairros que l&#225; se instalam, na busca de   desidentifica&#231;&#227;o; para tal, se organiza toda uma procura de caminhos que levem   a um apartamento dos estigmas que rondam os moradores do Varj&#227;o. De um lado, os   moradores do Cristo Redentor procuram as inst&#226;ncias da prefeitura e da pol&#237;cia   para um disciplinamento do bairro vizinho, tanto quanto a infraestrutura,   quanto a padr&#245;es de seguran&#231;a e, digamos, eliasianamente, civilidade. De outro   lado, investem em conversa&#231;&#245;es com os moradores do Varj&#227;o na fronteira com o   Cristo Redentor, e com associa&#231;&#245;es de moradores locais, para juntos buscarem   uma solu&#231;&#227;o para a discrimina&#231;&#227;o do Varj&#227;o, para a s&#237;ndrome de um bairro com   comportamentos desviantes e de intensa viol&#234;ncia. N&#227;o foram ouvidos pelas   inst&#226;ncias do estado e da prefeitura locais, a n&#227;o ser no agenciamento de   pequenos servi&#231;os infraestruturais nas fronteiras dos bairros, mas as   conversa&#231;&#245;es com moradores terminaram com a elabora&#231;&#227;o de estrat&#233;gias para a   desvincula&#231;&#227;o do bairro relativamente ao nome Varj&#227;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Em pesquisas, professores da universidade que   moravam no Cristo Redentor descobriram que um desembargador paraibano era oriundo   do Varj&#227;o, de uma fam&#237;lia de moradores locais de nome Rangel. Essa descoberta   deu origem a um aprofundamento das conversas com os moradores do Varj&#227;o   fronteiri&#231;o ao Cristo Redentor e com associa&#231;&#245;es de moradores, no sentido de   investirem na luta pela mudan&#231;a do nome do bairro. Primeiro, porque associaria   o bairro a um morador local que ascendeu a um cargo importante e significativo   na cidade, no estado e no pa&#237;s, desfazendo o bairro, em seu conjunto, como um   bairro de evita&#231;&#227;o e fazendo a cidade olhar para ele com olhos diferenciados,   como um bairro que tamb&#233;m contribuiu para a nobreza e padr&#227;o moral da cidade.   Segundo, para os pr&#243;prios moradores do Varj&#227;o, a luta e a conquista de um nome   &#8220;digno&#8221; para o bairro contribuiria, tamb&#233;m, para olharem para si mesmos como   moradores de um local com exemplos significativos dos c&#243;digos de conduta   citadinos e da moral de ascens&#227;o social, diminuindo, assim, o sentimento de   estigmatiza&#231;&#227;o interiorizado pelos habitantes e jovens moradores.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Nesse sentido, a busca de inclus&#227;o social dos   moradores foi realizada no medo de contamina&#231;&#227;o dos habitantes dos novos   bairros, principalmente os do Cristo Redentor, que venderam a ideia da mudan&#231;a   do nome Varj&#227;o para &#173;Rangel como uma forma de se livrar da pecha de desviantes,   desordeiros e perigosos. Foi pelo medo de contamina&#231;&#227;o, isto &#233;, pela inten&#231;&#227;o   de se desvencilharem do estigma do Varj&#227;o, que os moradores do Cristo Redentor,   estigmatizando o Varj&#227;o, procuraram instituir uma possibilidade imagin&#225;ria de   reorganiza&#231;&#227;o do bairro com outro nome, Rangel.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O nome Rangel foi acolhido por moradores,   pelas empresas de transportes urbanos, pela m&#237;dia, mas o bairro continuou sendo   Varj&#227;o, da&#237; a duplicidade: o nome oficial e o nome perseguido como fundamento   de uma nova forma do olhar do outro para si, e do olhar de si para si mesmo.   Essa duplicidade de nome ainda hoje &#233; vivida com intensa diferencia&#231;&#227;o interna   &#8211; na rejei&#231;&#227;o do nome Varj&#227;o, pelo estigma interno e externo como bairro   violento, e na luta pelo nome Rangel, que caiu nas gra&#231;as locais como um bairro   &#8220;bom de se morar&#8221; &#8211; e tamb&#233;m na cidade, que toma hoje o Rangel como o nome do   bairro real, mas, como real, voltou sobre ele os estigmas, tamb&#233;m. O Rangel   continuou a ser visto como um bairro violento, tenso e perigoso.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O fato ofende os moradores, que viram a sua   luta n&#227;o redundar em uma afirma&#231;&#227;o de pertencimento e inclus&#227;o na cidade, e   viram os bairros que os colocaram nessa luta de mudan&#231;a de nome aprofundar,   eles mesmos, a estigmatiza&#231;&#227;o e a acusa&#231;&#227;o permanente   do Varj&#227;o/Rangel como um bairro   de desordeiros e que mancha os moradores dos bairros fronteiri&#231;os, o Cristo   Redentor e o &#193;gua Fria, o que ampliou ainda mais as marcas internas do estigma   nos moradores do Varj&#227;o/Rangel e, principalmente, daqueles que moram nas fronteiras com os outros dois   bairros.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Do lado do Varj&#227;o/Rangel, as ruas fronteiri&#231;as se fazem confundir com os bairros de Cristo   Redentor ou &#193;gua Fria; da parte desses &#250;ltimos, por&#233;m, as ruas fronteiri&#231;as s&#227;o   sempre marcadas com uma intensa demonstra&#231;&#227;o de que n&#227;o   pertencem ao Varj&#227;o/Rangel. Isso complexifica   o conjunto de afirma&#231;&#245;es e nega&#231;&#245;es sobre o que &#233; o bairro e o que &#233; morar no Varj&#227;o/Rangel. Os dois nomes s&#227;o afirmados como uma desculpa, como   uma defesa ou como uma acusa&#231;&#227;o, sempre como uma forma de livrar a face dos   estigmas e condutas ditas pela cidade, pelos bairros vizinhos e pelos pr&#243;prios   moradores. E exprimem mesmo um ressentimento pelo n&#227;o reconhecimento do Rangel   como nome que &#8220;limparia&#8221; o bairro, e contra os moradores dos bairros ao lado,   que &#8220;venderam&#8221; uma ideia, mas, ao mesmo tempo, aprofundaram o perfil   estigmatizante do bairro ao o rejeitarem e o acusarem como fonte de cont&#225;gio e   como motivo de envergonhamento para os seus moradores.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Nesse artigo, refiro-me apenas &#224;s disputas   internas entre os moradores do Varj&#227;o/Rangel. As tens&#245;es entre bairros fronteiri&#231;os e em rela&#231;&#227;o   &#224; cidade s&#243; aparecer&#227;o quando necess&#225;rias para entendimento do jogo de   justifica&#231;&#245;es, acusa&#231;&#245;es e desculpas dos moradores locais em seus relatos. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>O bairro do Varj&#227;o/Rangel</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A &#225;rea do Varj&#227;o, historicamente, come&#231;a a ter o seu processo de   ocupa&#231;&#227;o a partir dos anos de 1930, com migrantes que vieram do interior do   estado da Para&#237;ba em busca de emprego e melhores condi&#231;&#245;es de vida na capital   do estado. A ocupa&#231;&#227;o foi desordenada e crescente, feita, principalmente,   atrav&#233;s de uma rede social homof&#237;lica (Marques e Bichir 2011), onde se   expressam semelhan&#231;as baseadas nas vincula&#231;&#245;es org&#226;nicas entre parentesco e   amizade, em que parentes e amigos se baseiam para a vinda e estabelecimento na   capital.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">&#201; um bairro, ainda hoje, de la&#231;os muito   estreitos e de intensa pessoalidade. Como em quase todos os bairros   perif&#233;ricos, as pessoas encontram-se sentadas nas cal&#231;adas, conversando entre   si, ou vendo o tempo passar, crian&#231;as brincam nas ruas e jovens fazem pequenos   grupos de conversas, casais namoram, e acontece muita atividade recreativa e   cultural, como &#8220;peladas&#8221;, jovens andando de <i>skate</i>, adultos jogando   partidas de domin&#243;, rodas de capoeira, grupos tocando tambores em ritmos de   maracatus, etc.<a href="#_ftn4" name="_ftnref4" title=""><sup><sup>[4]</sup></sup></a> Nos   dias de missa e cultos nas diversas igrejas espalhadas pelo bairro, v&#234;-se uma   grande frequ&#234;ncia de moradores, e toda uma gama de atividades fora da igreja,   sobretudo dos jovens que l&#225; acorrem para encontros diversos, tendo as par&#243;quias   como ponto de encontro.<a href="#_ftn5" name="_ftnref5" title=""><sup><sup>[5]</sup></sup></a></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">A ocupa&#231;&#227;o dessa grande v&#225;rzea foi sendo feita   aos poucos, atrav&#233;s da invas&#227;o da Mata do Buraquinho e de aterros pr&#243;ximos &#224;s   margens da nascente do rio Jaguaribe. Nos anos de 1970, teve importante papel   no desenvolvimento das Comunidades Eclesiais de Base e no movimento das   Associa&#231;&#245;es de Moradores do munic&#237;pio de Jo&#227;o Pessoa e em todo o estado,   atrav&#233;s do Conselho de &#173;Moradores do Varj&#227;o.<a href="#_ftn6" name="_ftnref6" title=""><sup><sup>[6]</sup></sup></a> Entre outras lutas, participou do movimento contra a carestia, do movimento   pela melhoria de vida e trabalho local e municipal; e, de cunho mais local, da   cria&#231;&#227;o de uma associa&#231;&#227;o funer&#225;ria e de um cemit&#233;rio mais pr&#243;ximo e mais   barato para enterrar os seus mortos, muito dos quais assassinados em brigas de   rua e entre vizinhos ou pela pol&#237;cia, em confrontos armados.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O bairro do Varj&#227;o/Rangel, hoje, segundo dados   do Censo Demogr&#225;fico de 2010, realizado pelo IBGE, possui 4701 domic&#237;lios e   abriga uma popula&#231;&#227;o de 16.959 habitantes, com mais de 80% dela vivendo com uma   renda de at&#233; um sal&#225;rio m&#237;nimo.<a href="#_ftn7" name="_ftnref7" title=""><sup><sup>[7]</sup></sup></a> Nos   indicadores de viol&#234;ncia consultados, o bairro sempre aparece na lista dos dez   mais violentos da capital, sendo extremamente vigiado pela pol&#237;cia, que sempre   mant&#233;m &#224; noite alguns carros com policiais fortemente armados nas entradas para   o bairro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ponto de drogas, o bairro abriga traficantes e   gangues organizadas e serve como ponte para a distribui&#231;&#227;o de drogas entre os   bairros de Cruz das Armas e outros lim&#237;trofes, como os da Ilha do Bispo, Alto   do Mateus e Varadouro, tamb&#233;m bairros populares da cidade e considerados   violentos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O bairro onde se passam as observa&#231;&#245;es   contidas neste trabalho, como j&#225; notado acima, tem a dupla denomina&#231;&#227;o de   Varj&#227;o, nome oficial conforme a lei municipal, e de Rangel, nome que ganha   internamente e no cotidiano da cidade: as linhas de &#244;nibus indicam Rangel para   as frotas que por l&#225; passam, os an&#250;ncios de empresas ou servi&#231;os que l&#225; se   situam tamb&#233;m assumem esse nome em suas propagandas, a imprensa, por fim,   tamb&#233;m chama Rangel ao bairro problema, de muita viol&#234;ncia, de pontos de   drogas, como costuma abordar rotineiramente em suas not&#237;cias.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Mas o que importa, aqui, &#233; como o pr&#243;prio   bairro se autointitula: Rangel. Ou melhor, &#233; Rangel, mas tamb&#233;m &#233; Varj&#227;o,   depende do lugar onde se fala e a que se refere. Por exemplo, sempre se mora no   Rangel e o Varj&#227;o &#233; um pouco mais acima, ou um pouco mais abaixo, ou um pouco   mais ao lado do ponto em que se reside.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O Rangel &#233; um bairro calmo, apraz&#237;vel, bom de   morar. N&#227;o h&#225; viol&#234;ncia no Rangel. J&#225; no Varj&#227;o, &#233; tudo ao contr&#225;rio: &#233; lugar   de viol&#234;ncia, de desassossego, de gente mal-educada, de drogas, de gente n&#227;o   temente a Deus, enfim. E o Varj&#227;o/Rangel   s&#227;o dois bairros em um,   como uma moeda de duas faces: um lado equilibrado, o outro n&#227;o, sempre   dependendo do lugar da informa&#231;&#227;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O Rangel muda de lugar a toda hora, assim como   o Varj&#227;o. Um &#233; o ant&#244;nimo do outro: nunca se mora no Varj&#227;o sempre no Rangel. O   Varj&#227;o muda, assim, conforme um habitante queira mostrar o apraz&#237;vel lugar onde   mora.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A viol&#234;ncia, o barulho, a m&#225; educa&#231;&#227;o s&#227;o   sempre provenientes do l&#225;, mais acima, mais abaixo, um pouco mais ao lado e   al&#233;m do ponto do qual se fala. Por isso, os dois nomes s&#227;o utilizados como uma   forma de demonstra&#231;&#227;o da faceta interna de dois universos que convivem   pr&#243;ximos, &#237;ntimos, de forma direta e intensa, mas em que &#233; poss&#237;vel separar,   pela nomenclatura, o lado mais temido pela cidade &#8211; e que causa mais temores   aos moradores do bairro, quaisquer que sejam eles, de discrimina&#231;&#227;o e viol&#234;ncia   &#8211; do seu lado positivo, isto &#233;, de bairro apraz&#237;vel e bom de morar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Este trabalho versa sobre esse bairro de dois   nomes, usados como forma de prote&#231;&#227;o ou acusa&#231;&#227;o, nas conversas mantidas com os   seus moradores nos &#250;ltimos meses. Uso aqui a no&#231;&#227;o de acusa&#231;&#227;o no sentido de um   conceito que, de um lado, age como uma forma de preserva&#231;&#227;o do pr&#243;prio morador,   em sua narra&#231;&#227;o, face a um estigma ou a um problema espec&#237;fico (no caso, a   viol&#234;ncia, as drogas, a desonestidade, o mau car&#225;ter de outros moradores), mas,   de outro lado, evoca um pedido de desculpa (Werneck 2012) por morar em um   bairro segregado (Koury 2011), compartilhando o estigma que a cidade, a m&#237;dia e   os relat&#243;rios policiais emitem sobre ele, e narra esse bairro problema como   outro bairro, o Varj&#227;o (sempre acima, abaixo, ao lado), que a cidade e a m&#237;dia   confundem com o Rangel, onde moram os homens e mulheres honestos e de bem.<a href="#_ftn8" name="_ftnref8" title=""><sup><sup>[8]</sup></sup></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Esta pesquisa est&#225; ainda em seu come&#231;o, e como   tal, &#233; cheia de surpresas e achados que com o tempo poder&#227;o melhor ser   acomodados em um pensamento reflexivo mais complexo e completo. Por enquanto,   por&#233;m, me detenho mais em uma descri&#231;&#227;o densa, ou a mais densa poss&#237;vel, tendo   como recorte o cotidiano de um bairro popular da cidade de Jo&#227;o Pessoa, em seus   elementos internos e externos de autoidentifica&#231;&#227;o como pessoas e como   indiv&#237;duos nos quadros tra&#231;ados pela pessoalidade do bairro e pelas inst&#226;ncias   da cidade que lidam anonimamente com eles como violentos, despertando o temor   da popula&#231;&#227;o da capital. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>O que significa morar   no Varj&#227;o/Rangel&#63;</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Esta pergunta foi feita   exaustivamente em v&#225;rias conversas informais aproximativas de nossa entrada no   bairro, bem como durante as idas e vindas e alguns dias e noites passados de   forma intensiva nele. As respostas s&#227;o afirmativas em dois sentidos: de um   lado, &#233; bom morar no bairro, se conhece todo mundo, o clima &#233; bom, &#233; perto do   centro da cidade de Jo&#227;o Pessoa, &#233; poss&#237;vel ir a p&#233;, tem um bom transporte   urbano, tem uma boa feira e mercados; ao mesmo tempo, as mesmas pessoas que   notaram o lado apraz&#237;vel de se morar no bairro afirmam, tamb&#233;m, que s&#243; moram l&#225;   porque n&#227;o t&#234;m condi&#231;&#245;es de residir em outro lugar, que &#233; um ambiente de   fofoqueiros e de quem n&#227;o tem nada o que fazer, que &#233; um local perigoso, de   muitos tiros, de muita inseguran&#231;a: &#8220;j&#225; fui assaltada tr&#234;s vezes no caminho at&#233;   o posto de sa&#250;de&#8221;. Essa dualidade se expressa de acordo com a informa&#231;&#227;o   ulterior solicitada ao informante. Quando se est&#225; conversando sobre o que &#233; que   o bairro tem de melhor a oferecer, e, deste modo, como &#233; viver no bairro, no   geral, as respostas quase sempre afirmam que &#8220;&#233; bom&#8221;, &#8220;&#233; um lugar apraz&#237;vel&#8221;,   &#8220;&#233; perto de tudo&#8221;, &#8220;vou e volto do trabalho a p&#233;&#8221;, &#8220;lugar de amigos&#8221;, &#8220;meus   parentes moram perto&#8221;, &#8220;tem muitas escolas para os filhos e netos&#8221;, entre   outras tantas considera&#231;&#245;es. Quando, por&#233;m, se pergunta como &#233; viver no bairro,   ao se falar sobre os problemas nele existentes, os sentidos mudam: &#233; um bairro   de muita fofoca, de muita maledic&#234;ncia, de muita intriga, de muita bandidagem,   &#8220;sou homem que sai de manh&#227; para o trabalho e volta &#224; noite, e n&#227;o tenho tempo   de ficar por a&#237; bebendo e fofocando&#8221;, ou &#8220;sou mulher de dentro de casa, n&#227;o   ou&#231;o e n&#227;o vejo nada do que se passa l&#225; fora&#8221;; ou &#8220;tenho medo dos meus meninos   por a&#237;, sujeitos a drogas e a tudo o que n&#227;o presta&#8221;, ou ainda &#8220;aqui nada   presta, s&#243; tem gente fofoqueira e que gosta de intriga: conhe&#231;o todo mundo, mas   s&#243; de bom dia, boa tarde&#8221;. &#201; um bairro tamb&#233;m de problemas na infraestrutura:   coleta de lixo que se realiza de quando em vez, &#8220;gente mal-educada que joga   lixo pelos becos&#8221;, &#8220;quando chove tudo fica alagado&#8221;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A dualidade apontada nas respostas sobre como   &#233; viver no bairro, mais uma vez, ganha outras conota&#231;&#245;es quando o elemento   motivador se concentra nas reflex&#245;es a respeito de sua rua. No geral, as   pessoas gostam da rua onde moram, usam express&#245;es como &#8220;sempre vivi aqui&#8221;, ou   &#8220;estou aqui desde que me entendo de gente, conhe&#231;o a todos, moro numa parte da   rua tranquila, sem viol&#234;ncia e diferente de logo ali em baixo, onde s&#243; d&#225;   piniqueira, bandidagem e gente mal-educada&#8221;, ou &#8220;moro num lado tranquilo da   minha rua, mas acol&#225; s&#243; tem perigo; mas eles me respeitam, eu n&#227;o me meto com   eles e eles n&#227;o se atrevem a mexer comigo e com os meus, cada um na sua&#8221;. E   gostam dos vizinhos: &#8220;s&#227;o pessoas &#243;timas, &#224;s vezes fofoqueiras e intrometidas,   mas a gente perdoa, pois s&#227;o eles que est&#227;o junto da gente quando a gente   precisa&#8221;, ou &#8220;conhe&#231;o muitas meninas de minha idade; algumas j&#225; s&#227;o m&#227;es como   eu; mas tudo s&#227;o amizades b&#225;sicas, n&#227;o tem tempo de se ver, mas s&#227;o boas   colegas para as festas&#8221;, &#8220;meus vizinhos s&#227;o a minha madrinha, meu tio e a   mulher do meu tio: tudo gente da hora&#8221;; &#8220;s&#227;o comunicativos, gostam de   conversar, todos aposentados como eu, ficamos horas jogando conversa fora&#8221;; ou,   ainda, &#8220;um dos vizinhos trabalha comigo, no geral eles s&#227;o companheiros, gente   boa, com car&#225;ter, pais de fam&#237;lia; sou amigo de todos, n&#227;o mexo em p&#233; de   guerra&#8221;. A maior parte, contudo, informa de uma rela&#231;&#227;o mais distanciada,   apesar da proximidade quase gritante entre as moradias, e a entrada e sa&#237;da   constante de pessoas nas casas umas das outras. Recebemos respostas como:   &#8220;Todos bons, mas n&#227;o me meto com nenhum&#8221;, ou &#8220;aqui s&#243; tem fuxico; mas eu n&#227;o   tenho tempo nem vivo nas portas; melhor ficar sozinha&#8221;, ou ainda &#8220;s&#227;o todos   pessoas boas, n&#227;o tenho o que falar, mas vivo na minha&#8221;, &#8220;gosto de todos, mas &#233;   tudo amizade oi-oi, vivo do trabalho para casa, n&#227;o gosto de me misturar&#8221;.   Existe assim uma express&#227;o de distanciamento, indicativa de uma diferencia&#231;&#227;o   entre quem narra (o informante) e os vizinhos a quem se refere.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A diferen&#231;a entre o informante e os outros   moradores &#233; o elemento moral que circunda as falas (Koury 2010). Como   procurando salvaguardar a si pr&#243;prio, o informante v&#234; os outros como potenciais   amea&#231;as, que ligam o bairro ao imagin&#225;rio da cidade que o v&#234; como violento e   marginal. Ou, como disse Goffman, &#8220;quando o indiv&#237;duo se apresenta diante dos   outros, seu desempenho tender&#225; a incorporar e exemplificar os valores   oficialmente reconhecidos pela sociedade e at&#233; realmente mais do que o   comportamento do indiv&#237;duo como um todo&#8221; (1988: 41). E, assim, de forma   concomitante, se refere aos outros como poss&#237;veis desconhecidos, que residem em   partes menos nobres do bairro, no Varj&#227;o, e que provocam inquieta&#231;&#245;es e   inseguran&#231;as aos pr&#243;prios moradores, ao mesmo tempo em que procura se esconder   no ato acusat&#243;rio de que haver&#225; poss&#237;veis retornos do estigma para si pr&#243;prio.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Isto pode ser sentido na narrativa de um   informante, aqui chamado de Ant&#244;nio. Ele alegou, falando das experi&#234;ncias   negativas de morar no bairro, ter tido sua moto roubada recentemente e apontou   os moradores da parte central da rua S&#227;o Geraldo e adjac&#234;ncias como poss&#237;veis   autores do furto:<a href="#_ftn9" name="_ftnref9" title=""><sup><sup>[9]</sup></sup></a></font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">&#8220;Gente conhecida n&#227;o foi, moro nessa rua desde que nasci e todo mundo aqui     no Rangel me conhece, isso foi a galera a&#237; do meio, um morador do Varj&#227;o, como     &#233; conhecida essa parte do bairro, que &#233; chegada a umas levas de bagulho, e n&#227;o     respeita ningu&#233;m: hoje em dia, por aqui, &#233; na base do vacilou, perdeu. Tamb&#233;m a     moto &#8217;tava a&#237; no meio da rua e eu namorando, e de madrugada, tu sabe, n&#227;o &#233;,     nada e ningu&#233;m s&#227;o de ningu&#233;m.&#8221;</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">A afirma&#231;&#227;o de Ant&#244;nio destaca a grave fratura social presente   no Varj&#227;o/Rangel, seja em rela&#231;&#227;o   &#224; pr&#243;pria nomenclatura do bairro, seja para com os moradores que nele habitam e   que s&#227;o considerados melhores ou piores do que aqueles que os acusam.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Para Geertz (1978: 143-144) a cultura &#233;   composta pelo <i>ethos</i>, enquanto tom que reflete a pr&#243;pria experi&#234;ncia das   pessoas e do seu mundo, e pela vis&#227;o de mundo, vista como a elabora&#231;&#227;o de um   quadro geral onde a experi&#234;ncia pessoal e do mundo singular onde se vive se   compara &#224;s expectativas da sociedade mais geral, e por onde se reelaboram os   conte&#250;dos das viv&#234;ncias singulares e cotidianas em rela&#231;&#227;o aos valores, aos   sentidos, &#224;s constru&#231;&#245;es e pr&#225;ticas que se sobrep&#245;em sucessivamente na   organiza&#231;&#227;o da vida social.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Assim, amea&#231;a e medo, inseguran&#231;a e perigo   aparecem constantemente nas narrativas e conversas informais com os moradores   do bairro. Falas com conte&#250;do, como indicou L&#250;cio Kowarick (2002: 24), &#8220;no   mais das vezes acusativo&#8221;, mas que tamb&#233;m servem como elemento que protege   aquele que fala da sua poss&#237;vel inclus&#227;o entre os que provocam medos, receios e   inseguran&#231;a.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">No geral, por&#233;m, expressam pr&#225;ticas ou   discursos sociais de car&#225;ter defensivo, repulsivo e repressivo que parecem   constituir &#8220;um elemento estruturador, ao mesmo tempo banal e assustador, do   cotidiano do brasileiro&#8221; (Kowarick 2002: 24), e que se entranha bairro   adentro como um ingrediente moralizador das rela&#231;&#245;es dos homens comuns e de sua   tentativa de separa&#231;&#227;o interna entre os &#8220;bons&#8221; e os &#8220;maus&#8221; em um bairro visto   como gerador de inseguran&#231;a, em sua totalidade, pela cidade.<a href="#_ftn10" name="_ftnref10" title=""><sup><sup>[10]</sup></sup></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">&#201; nesse jogo que os sentimentos de perten&#231;a   s&#227;o elaborados, tanto quanto os sentimentos de constrangimento e embara&#231;o por   se ser morador de um bairro estigmatizado. No bairro   do Varj&#227;o/Rangel, a trajet&#243;ria dos moradores &#233; marcada pelo pertencimento ao   lugar onde moram e compartilham o cotidiano. Nesse sentido, o bairro &#233; visto   como o meu lugar, o lugar onde nasci e onde conhe&#231;o a todos e todos me conhecem   e respeitam. Mas, tamb&#233;m, &#233; o lugar onde as faces da exclus&#227;o s&#227;o bastante   evidenciadas, o que faz os moradores usarem-se uns aos outros como escudos   protetores de sua posi&#231;&#227;o social como homens ou mulheres honestos,   trabalhadores, tementes a Deus e aos homens. Os outros, os de l&#225;, os de l&#225; para   cima, s&#227;o os malfeitores, os violentos, os sem educa&#231;&#227;o, &#8220;diferentes de n&#243;s que   moramos aqui&#8221;.</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">&#8220;Os maus elementos est&#227;o em toda parte,     mas aqui parecem atingir a todos n&#243;s, pessoas honestas e tranquilas. A gente     mesmo se sente inseguro no dia a dia, por isso digo que falo com todos, mas tamb&#233;m     evito todos: s&#243; uns dois ou tr&#234;s, tomo uma cerveja vez ou outra na porta de     casa, sem contar com os parentes que moram aqui de todo e sempre. Mas, se passa     um pol&#237;cia, me bota na parede e pede meus documentos. Tenho que dizer a todo o     momento que moro no bairro porque n&#227;o tenho dinheiro para morar no outro, mas     sou trabalhador e honesto&#8221; [Jamerson, 35 anos, vendedor].</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Para Pierre Mayol (2005: 39), um bairro   pode ser definido &#8220;como o lugar onde se manifesta um <i>engajamento social</i>,   ou noutros termos: uma arte de conviver com parceiros (vizinhos, comerciantes)   que est&#227;o ligados a voc&#234; pelo fato concreto, mas essencial, da proximidade e   repeti&#231;&#227;o&#8221;. A proximidade e a repeti&#231;&#227;o se configuram, portanto, nos afazeres e   nas a&#231;&#245;es sociais do cotidiano. Apontam regularidades de comportamentos e   l&#243;gicas simb&#243;licas pr&#243;prias ao contexto do bairro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A no&#231;&#227;o do bairro como um espa&#231;o de   conviv&#234;ncia cotidiano, parece conter, por&#233;m, um forte poder afetivo, de amor e   &#243;dio, &#233; bom frisar, para os moradores. O bairro &#233; visto como um lugar onde as   pessoas se ligam umas &#224;s outras, fazendo parte dele. &#201; a base territorial onde   se compartilham experi&#234;ncias e sentimentos de divis&#227;o de um destino comum e de   &#8220;conte&#250;do do qual se nutrem os membros de um grupo social nas suas vidas di&#225;rias&#8221;   (Costa 1994: 41), mas, tamb&#233;m, um local de estranhamento e evita&#231;&#227;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Atrav&#233;s desse estranhamento do outro e da   estigmatiza&#231;&#227;o que a cidade imputa ao bairro, os moradores estabelecem   fronteiras simb&#243;licas internas, e o bairro que &#233; um s&#243; vira dois, e esses dois   se convertem em v&#225;rios outros poss&#237;veis, dependendo das formas de evita&#231;&#227;o, em   que narradores podem ser considerados tamb&#233;m objetos de exclus&#227;o e estigma.   Reproduzindo o estigma do perigo e da evita&#231;&#227;o entre si, se diferenciam e   buscam, ao mesmo tempo, uma a&#231;&#227;o positiva para suas identidades no jogo   relacional.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">&#201; um lugar onde se exercitam os referenciais   simb&#243;licos compartilhados nas situa&#231;&#245;es de vida cotidiana. &#201; o espa&#231;o, por fim,   onde acontece o conv&#237;vio entre vizinhos, amigos e parentes, seja em processos   de solidariedade e de ajuda coletiva face a imprevistos econ&#244;micos, de sa&#250;de,   de emprego; seja nos ambientes de lazer e louva&#231;&#227;o, como nos bares, nas   cal&#231;adas, nas esquinas, nos terrenos baldios que servem de campos de futebol,   nos clubes e associa&#231;&#245;es, nas igrejas, nas festas, nas pra&#231;as e outros; seja   ainda como espa&#231;o onde acontecem conflitos por quest&#245;es pequenas e grandes,   como brigas entre crian&#231;as que assumem a forma de brigas e mortes entre os   pais, ou desaven&#231;as e separa&#231;&#245;es cotidianas de amantes; ou no qual existem   preocupa&#231;&#245;es de resguardar os filhos das drogas e de outras formas il&#237;citas a   que eles est&#227;o expostos; at&#233; mesmo o lugar de uma resist&#234;ncia cotidiana em   forma de press&#245;es p&#250;blicas e organiza&#231;&#227;o de moradores, de onde foi conseguida   boa parte do que diz respeito &#224; infraestrutura.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">As representa&#231;&#245;es coletivas se manifestam nos   atos corriqueiros e reproduzem uma ordem cultural que se regula cada vez mais   no medo e no estranhamento do outro (Eckert 2002; Giacomazzi 1997), e conduz a   um mundo de rela&#231;&#245;es fragmentadas, mas que n&#227;o perde sua capacidade de   integra&#231;&#227;o (Ledrut 1971). Na viv&#234;ncia cotidiana e diuturna de um bairro, as   condi&#231;&#245;es para o favorecimento do exerc&#237;cio de integra&#231;&#227;o se acham agrupadas e   reunidas. O conhecimento dos lugares, as rela&#231;&#245;es de vizinhan&#231;a e com os   negociantes ou com aqueles que trafegam pelo local, as trajet&#243;rias cotidianas,   as emo&#231;&#245;es difusas de estar em um territ&#243;rio conhecido agem como organizadores   de um &#8220;dispositivo social e cultural, segundo o qual o espa&#231;o urbano se torna   n&#227;o somente o objeto de um conhecimento, mas o lugar de um reconhecimento&#8221;   (Mayol 2005: 45).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Como indiquei em outro artigo (Koury 2003), o   local tem um valor basilar no processo de constitui&#231;&#227;o das identidades   individuais e coletivas, como um elemento intr&#237;nseco de pertencimento e de   afirma&#231;&#227;o de v&#237;nculos que, de uma parte, podem levar &#224; semelhan&#231;a com os outros   indiv&#237;duos e grupos, mas induzem tamb&#233;m &#224; dessemelhan&#231;a para os que s&#227;o   exclu&#237;dos e vistos como usurpadores e desvirtuadores do lugar de pertencimento   e do seu espa&#231;o. O local de perten&#231;a, assim, do mesmo modo que &#233; conhecido,   tamb&#233;m &#233; apropriado como elemento distintivo do indiv&#237;duo comum, que se   configura como singular no ambiente urbano em que vive e, ao mesmo tempo, como   semelhante e dessemelhante dos demais que com ele compartilham o lugar em que   mora. Cria, assim, um lugar do &#8220;n&#243;s&#8221; meadiano, coletivo, e ao mesmo tempo   singular, que ama e despreza, que investe e retira, que aspira e ignora. Ou,   como afirmei no artigo citado,</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">&#8220;O lugar do <i>n&#243;s</i>, assim, &#233; o caldo comum dos diversos mapas     estabelecidos pelos sujeitos na sua permanente configura&#231;&#227;o, enquanto pessoa     social, como <i>mim</i>. Ao lan&#231;ar um mapa sobre um universo simb&#243;lico     espec&#237;fico que forma um mundo comum, cada indiv&#237;duo, socialmente, se reconhece     e reconhece o outro real e simb&#243;lico, que dele e por ele emergem, enquanto     semelhan&#231;a, ou enquanto diferen&#231;a, ou enquanto ambos&#8221; (Koury 2003: 79).</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Um sentimento   ambivalente de perten&#231;a ao bairro, e aos lugares dentro deste, parece assim   prevalecer. Os moradores parecem amb&#237;guos, j&#225; que amam o local que lhes d&#225;   exist&#234;ncia e que, simultaneamente, o veem se deteriorando pelas diversas   express&#245;es de viol&#234;ncia de que o bairro &#233; capaz, ou do que s&#227;o capazes de dizer   sobre ele, tendendo a ser um elemento de negatividade perante a cidade como um   todo e para moradores de outros bairros. Esta ambiguidade se faz presente no   relato do Senhor Fabr&#237;cio, que possui a pequena barraca de verduras, plantadas   por ele junto &#224;s margens do rio Jaguaribe, na rua Osvaldo Lemos:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">&#8220;O bairro &#233; um local muito legal, da paz, moro aqui h&#225; mais de     cinquenta anos, e n&#227;o quero sair, mas aqui tem de tudo, e isso dificulta a vida     e me faz &#224;s vezes querer sair daqui. Isso &#233; por causa de que agora, logo ali     pra baixo, tem muito maconheiro que ficam fumando o tempo todo. E &#233; eu deixar     de olhar e eles chegam perto da minha casa e eles j&#225; roubaram minhas plantas e     as coisas da minha barraca. De noite, quebram as luzes dos postes pra ficar     mais escuro e ningu&#233;m mais v&#234;-los. Roubam tudo o que veem, e &#233; tudo pra comprar     maconha. Essa semana mesmo roubaram as roupas e as panelas da minha vizinha, e     as patas que estavam chocando de Dona Euzina.&#8221;</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Assim, atrav&#233;s do amor e   do desamor, se sentem pertencentes ao coletivo Varj&#227;o/Rangel e, respectivamente, tamb&#233;m n&#227;o pertencentes a determinados locais desse mesmo   coletivo, os quais apontam como fora dos limites simb&#243;licos que imputam a   qualidade de morar ali e de existir enquanto membro do bairro. O Rangel expulsa   o Varj&#227;o de si, ao mesmo tempo em que n&#227;o pode se considerar sem ele; daqui   resulta que o Varj&#227;o &#233; sempre um pouco adiante ou ao lado, mas &#233; uma parte de   um &#8220;mim mesmo&#8221; que se renega mas que n&#227;o pode ser amputada, sob pena de se   fenecer junto.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">N&#227;o obstante a presen&#231;a de moradores que   habitam a &#225;rea de reserva florestal, conhecida como Mata do Buraquinho, o bairro do Rangel/Varj&#227;o apresenta condi&#231;&#245;es urban&#237;sticas   aceit&#225;veis, tanto no que se refere a equipamentos urbanos &#8211; como cal&#231;amento de   ruas, &#225;gua encanada e luz el&#233;trica &#8211; quanto em rela&#231;&#227;o ao material usado na   constru&#231;&#227;o das casas &#8211; a maioria em alvenaria. Atualmente o bairro est&#225; virando   um canteiro de obras, com muitos pr&#233;dios de dois ou tr&#234;s andares e os chamados   residenciais, com um ou dois quartos no m&#225;ximo, atraindo uma parcela de novos   moradores vindos de bairros mais distantes, como o Geisel, Jos&#233; Am&#233;rico e Jo&#227;o   Paulo II,   quer devido &#224; proximidade do centro da cidade e pela economia que isso provoca   no deslocamento familiar para o trabalho, escola e lazer, quer pelo aumento do   aluguel nas outras partes da cidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A maior parte dos moradores habita o bairro h&#225;   mais de dez anos. Grande parte deles &#233; proveniente do interior do estado da   Para&#237;ba e chegou diretamente ao bairro atrav&#233;s de redes migrat&#243;rias   egocentradas ou homof&#237;licas, seja para estudar na casa de um parente ou   conseguir um emprego na cidade, ou indiretamente, depois de passar alguns meses   em algum outro bairro. Muitos come&#231;aram por ficar numa casinha na rua da Mata   (como &#233; chamada a rua S&#227;o Geraldo pelos que nela habitam) e de l&#225; nunca mais   sa&#237;ram, ou se mudaram para outras ruas melhores do bairro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Dona Clotilde chegou ainda pequena ao bairro,   com a fam&#237;lia, e morou por muitos anos em uma invas&#227;o &#224; reserva florestal do   Buraquinho. No seu relato ela conta que:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">&#8220;Antes de morar aqui no Rangel eu morei no interior, em Alagoa Grande.     Minha fam&#237;lia e eu, ainda pequena, sa&#237;mos do interior porque tava muito dif&#237;cil     e tinha problemas de todo tipo. A&#237; viemos pra Jo&#227;o Pessoa, trazidos por uns     parentes que j&#225; moravam na cidade e paramos ali, no Varj&#227;o, na S&#227;o Geraldo.     Invadimos a mata, por tr&#225;s do quintal de um parente da gente e come&#231;amos a     viver. Meu pai trabalhou de tudo e foi juntando umas &#173;merrecas aqui e outras     ali, com a ajuda dos meus irm&#227;os e de minha m&#227;e que fazia faxina na casa dos     outros e, devagarzinho, aos poucos, fomos nos mudando aqui pra lugares melhores     dentro do bairro. Conseguimos sair do Varj&#227;o, e hoje moro aqui, como o senhor     t&#225; vendo, aqui, eu e minha duas filhas e tr&#234;s netos, na Mour&#227;o Rangel, numa casa     que &#233; minha, e onde pago satisfeita meu IPTU.&#8221;<a href="#_ftn11" name="_ftnref11" title=""><sup><sup>[11]</sup></sup></a></font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Outros chegaram &#224; cidade   e, posteriormente, ao bairro atrav&#233;s de redes de emprego, principalmente as   mulheres, que chegaram atrav&#233;s de ag&#234;ncias de emprego dom&#233;stico ou diretamente   pelas m&#227;os das &#8220;patroas&#8221; ou redes de conhecidos. &#201; o caso, por exemplo, de Dona   Mo&#231;inha, com 65 anos de idade, que chegou a casa dos seus patr&#245;es com 12 anos   e, depois de 30 anos servindo a fam&#237;lia, ganhou uma casa dos patr&#245;es no Rangel   e l&#225; vive desde ent&#227;o, saindo quatro vezes na semana para fazer o trabalho de   limpeza em casas de bairros nobres de Jo&#227;o Pessoa, como diarista.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Boa parte das casas foi constru&#237;da pelos   moradores a partir dos processos de invas&#245;es e ocupa&#231;&#245;es, dos limites da   reserva florestal; as ocupa&#231;&#245;es mais antigas terminaram sendo legalizadas e   hoje possuem uma infraestrutura razo&#225;vel e seus moradores orgulham-se de serem   propriet&#225;rios e pagarem o IPTU. As constru&#231;&#245;es mais recentes, hoje, como antes, ocupam pequenos   desmatamentos na reserva e v&#227;o surgindo por tr&#225;s das casas de parentes e amigos   &#224; noite, em uma expans&#227;o cont&#237;nua de bols&#245;es que comp&#245;em a rua S&#227;o Geraldo, a   de menor infraestrutura do bairro, com ruas sem cal&#231;amento, sem &#225;gua encanada,   com pontos de luz clandestinos, estreitas, em alguns locais estreitas demais   para a passagem de um carro, com muito lixo acumulado, mato, cachorros soltos,   galinhas e patos criados a ciscar por todo canto, casas de taipa, uma sobre as   outras; n&#227;o d&#227;o direito a t&#237;tulo de propriedade e, logicamente, n&#227;o implicam no   pagamento do IPTU. O &#8220;eu pago o IPTU&#8221; ou o &#8220;aqui n&#227;o chega o IPTU&#8221; s&#227;o express&#245;es constantes nas narrativas dos moradores locais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A n&#227;o exist&#234;ncia da propriedade onde &#8220;n&#227;o   chega o IPTU&#8221;   est&#225; carregada de temores de que o governo federal, &#8220;dono&#8221; da reserva florestal,   chegue a qualquer momento e os retire do seu lugar de moradia. Existe essa   consci&#234;ncia &#8211; &#8220;eu sei que estou errado&#8221; &#8211;, e a desculpa &#8211; &#8220;mas o que posso   fazer se n&#227;o tenho recursos para uma vida melhor e para uma casa melhor&#8221; &#8211;,   assim como a express&#227;o de indigna&#231;&#227;o causada por este saber-se errado revelado   a um estranho (o pesquisador) &#8211; &#8220;o senhor acha que eu moro aqui porque quero,   porque sou desordeiro, n&#227;o, n&#227;o senhor, eu moro aqui porque &#233; o jeito, se eu   pudesse seria o primeiro a sair daqui e morar num lugar de melhor luxo&#8221; &#8211;, que   revelam, e remetem, portanto, a um grau de inseguran&#231;a maior em rela&#231;&#227;o ao seu   destino no local, j&#225; que todos reconhecem ser uma &#225;rea de invas&#227;o. O medo e a   resist&#234;ncia se revelam como duas possibilidades recorrentes no sentido   cotidiano de suas exist&#234;ncias.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O bairro tamb&#233;m, principalmente a partir dos   anos de 1990, foi objeto de loteamentos populares e para a classe m&#233;dia,   expandindo a fronteira dos bairros Cristo Redentor e &#193;gua Fria em dire&#231;&#227;o &#224; &#225;rea do Varj&#227;o/Rangel, o que criou uma clivagem   no bairro, fortalecendo o preconceito local com os nomes Varj&#227;o ou mesmo   Rangel, de acordo com a proximidade das fronteiras com os dois bairros   assinalados, assim como a estrutura&#231;&#227;o de processos excludentes pela   nomenclatura: Rangel, para se referir ao local de moradia, e Varj&#227;o, para se   referir &#224;s inst&#226;ncias mais pobres do bairro e com menos infraestrutura urbana,   e geradora, em potencial, de maior viol&#234;ncia e desregramento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Por outro lado, mesmo na parte de melhor   infraestrutura do bairro &#233; comum encontrar vielas e becos &#8211; entre os terrenos   das casas destinadas anteriormente &#224;s classes m&#233;dias e populares &#8211; compostos de   v&#225;rios pequenos quartos e estreitas moradias de aluguel, umas em cima das   outras, com estreita passagem entre cada lado e onde habitam dez ou mais   fam&#237;lias. Em todo o bairro, entre muros de duas casas razoavelmente equipadas,   s&#227;o constru&#237;das essas moradias que seguem entrecortando e formando pequenas   vielas em toda a extens&#227;o e ocupando os lados do terreno, moradias cujos pontos   de luz e &#225;gua s&#227;o puxados das casas em que se situam, cobrando os propriet&#225;rios   dos quartos o consumo aos moradores, ilegalmente, como uma sobretaxa ao   aluguel. Esses locais, em termos de equipamento, contrastam com as restantes   casas das ruas que o possuem. Alguns deles s&#227;o lim&#237;trofes da rua de S&#227;o   Geraldo, mesmo n&#227;o tendo acesso direto &#224; mesma, que fica por tr&#225;s dos terrenos   de algumas casas que s&#227;o sustent&#225;culos das vielas. &#201; importante lembrar, por&#233;m,   que todas as ruas transversais em dire&#231;&#227;o &#224; reserva florestal do Buraquinho s&#227;o   compostas por casas populares, que v&#227;o piorando de condi&#231;&#227;o at&#233; o limite com a   reserva e a rua S&#227;o Geraldo. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Estigma, estranhamento, medos e   pessoalidade</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Como se acompanhou at&#233;   agora pelos relatos dos moradores, o Varj&#227;o/Rangel cria diversas possibilidades de   estranhamento em rela&#231;&#227;o aos outros moradores do bairro e nelas s&#227;o   estabelecidas diversas subdivis&#245;es (sempre m&#243;veis e &#173;difusas) elaboradas pelos   pr&#243;prios habitantes, que enxergam uns aos outros como dessemelhantes, ou   pertencentes a um outro universo, apesar de &#173;morarem pr&#243;ximos e desfrutarem as   mesmas condi&#231;&#245;es de exist&#234;ncia. Este fen&#244;meno da constru&#231;&#227;o do estigma foi   observado por Elias e Scotson (2000). Para esses autores, esse fen&#244;meno ocorre   quando tais grupos det&#234;m o poder de fazer crer, a si mesmos e aos outros, que   as estigmatiza&#231;&#245;es por eles criadas s&#227;o fatos, ou ao menos podem ser sentidos   como reais, conformando um todo, onde o que estigmatiza e o estigmatizado fazem   parte de um e mesmo processo.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Diferentemente da pesquisa de Elias e Scotson,   por&#233;m, no caso do &#173;Varj&#227;o/Rangel as formas narrativas de   estigmatiza&#231;&#227;o s&#227;o m&#243;veis e intercambi&#225;veis, dirigidas a um outro   dessemelhante, dependendo do lugar da emiss&#227;o da acusa&#231;&#227;o. Todos acusam todos   como uma forma de defesa do pr&#243;prio estigma que os une no constrangimento a uma   imagem de fora do bairro, e que &#233; reproduzida em todas as ruas e becos do   lugar. Todos se acham agredidos pela acusa&#231;&#227;o de violentos, mal-educados e   potencialmente bandidos e, assim, repartem entre si o registro acusat&#243;rio   buscando livrar-se da den&#250;ncia: n&#227;o sou eu, s&#227;o os outros, parecem dizer como   uma desculpa que os livre do estigma de morar em um bairro mal-afamado: o   Varj&#227;o, mas, tamb&#233;m, o Rangel, j&#225; que s&#227;o duas faces de um mesmo bairro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Alguns moradores chegam a criar limites   imagin&#225;rios entre Varj&#227;o e Rangel, que sempre mudam de lugar e acompanham a   defesa do narrador de si mesmo e do local onde mora, relativamente a outros   locais no bairro e seus moradores. Assim, parece que, apesar de morarem no   mesmo e &#250;nico bairro, n&#227;o se consideram como fazendo parte de um mesmo espa&#231;o   autorreferenciado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O estranhamento e o medo do outro,   desconhecido ou proveniente de determinada &#225;rea, e a busca de se livrarem do   estigma que a cidade e a m&#237;dia colocam sobre eles levam os moradores a   construir estigmas de certos locais e indiv&#237;duos dentro do bairro, que s&#227;o os   locais e pessoas que moram mais acima, ou mais abaixo, ou mais no centro, ou   mais de lado. Ou o inverso, dependendo de quem enuncia. Erving Goffman (1988),   ao reexaminar o conceito de estigma o correlacionando ao de identidade social,   deixa claro que este &#233; um conceito sempre relacionado a uma organiza&#231;&#227;o   socialmente estereotipada, podendo afetar a autoestima pessoal e grupal em uma   sociabilidade, como a do Varj&#227;o/Rangel, por exemplo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A palavra estigma aponta um atributo e   caracteriza&#231;&#227;o negativa que deprecia pessoas ou locais, ou uns e outros. No caso do bairro Varj&#227;o/Rangel, estes estigmas s&#227;o imputados pela   cidade por meio de balizas simb&#243;licas aparentes, operadas pelo imagin&#225;rio e que   expressam posturas pol&#237;ticas e ideol&#243;gicas que classificam o lugar e seus   moradores como temerosos e indesej&#225;veis. Este estigma ressignifica a si mesmo,   a cada momento, na sociabilidade do bairro, pela fragmenta&#231;&#227;o dos mapas   simb&#243;licos internos e da autoestima pessoal e coletiva dos moradores.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Os moradores do bairro   do Varj&#227;o/Rangel ocupam as ruas e as frentes de suas casas nas horas vagas,   tomando-as como local de encontro social e de estabelecimento de la&#231;os sociais.   Nos dias do final de semana, principalmente, as ruas ficam cheias de moradores,   que conversam na frente de suas casas, passeiam, namoram, se divertem, brigam   e, de quando em vez, mais exaltados, se agridem, provocando ferimentos e   mortes. A rua aparece, enfim, como um espa&#231;o p&#250;blico de lazer e de grande   sociabilidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Apesar do receio do outro, sempre invocado   como uma inst&#226;ncia diferente do &#8220;mim&#8221; meadiano, o desconhecido que pode   proporcionar viol&#234;ncia e agress&#227;o, o Varj&#227;o/Rangel preserva   la&#231;os comunit&#225;rios de   grande pessoalidade, bem como v&#237;nculos tradicionais pela manuten&#231;&#227;o de   folguedos e outras express&#245;es art&#237;sticas populares, recriadas no bairro da   capital Jo&#227;o Pessoa, depois de fragmentadas pela sa&#237;da dos indiv&#237;duos que   personificavam tipos espec&#237;ficos nos grupos art&#237;sticos do seu lugar de origem.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O ambiente social e cultural do Varj&#227;o/Rangel se revela, para al&#233;m das diverg&#234;ncias e conte&#250;dos acusat&#243;rios   e da autopreserva&#231;&#227;o face &#224;s acusa&#231;&#245;es, compondo um tipo de rela&#231;&#245;es onde o   todo comunit&#225;rio, na maioria das vezes, se sobrep&#245;e &#224;s partes individuais.   Por&#233;m, a impessoalidade e objetividade nas rela&#231;&#245;es se mostram aparentes, aqui   e ali, como advindas pelo receio da proximidade que contamina e exp&#245;e. Isso   fica expresso em muitos depoimentos que falam das rela&#231;&#245;es entre vizinhos e   demais moradores do bairro como sendo apenas cordiais, de &#8220;bom dia, boa tarde e   boa noite&#8221;. Essa cordialidade, sem grandes proximidades, se apresenta em   diversas narra&#231;&#245;es e parece indicar um distanciamento nas inter-rela&#231;&#245;es do   bairro. Mas, como Mayol (2005: 47) expressou, em um bairro de grande   pessoalidade &#233; necess&#225;rio conhecer os limites de conveni&#234;ncia, uma certa   etiqueta quanto aos modos como se deve comportar um bom vizinho: &#8220;nem longe   demais, nem o demasiadamente perto, para n&#227;o se aborrecer, e tamb&#233;m para n&#227;o   perder os benef&#237;cios que se espera obter com uma boa rela&#231;&#227;o de vizinhan&#231;a&#8221;. &#201;   o que parece dizer Dona Josefa, de 54 anos, moradora da rua S&#227;o Judas Tadeu, e   antes, &#8220;bem antes&#8221;, como costuma repetir constantemente, moradora da rua S&#227;o   Geraldo, quando informa:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">&#8220;&#8230; &#233; melhor assim, s&#243; bom dia, tarde, noite, pra n&#227;o ter confus&#227;o de     fofoca, porque aqui tem muito disso, o senhor sabe. Prefiro ficar dentro de     casa, porque pra uma dona de casa nunca falta servi&#231;o. Mas falo com todo mundo,     e todo mundo me respeita. E isso t&#225; de bom tamanho.&#8221;</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Ou como informa o   Seu Justino, de 40 anos, morador da avenida S&#227;o &#173;Marcos, quase na altura da S&#227;o   Geraldo, quando diz:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">&#8220;&#8230; a coisa pior do mundo &#233; brigar com os vizinhos, &#233; n&#227;o viver em paz.     Da&#237;, s&#243; <i>tchau</i>, ou um como vai, e basta. Cada um vai cuidar de sua vida e     de seu ganha-p&#227;o. S&#243; n&#227;o presta, e Deus me livre e guarde, o ter de ficar um na     casa do outro direto, n&#233;&#63; Mas, afora isso, a gente se fala, conversa muito,     temos contato sempre, e quando se pode se ajuda.&#8221;</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">O mesmo aparece na fala de Dona Raissa, de 62 anos, que diz, por   sua vez, que no peda&#231;o de rua onde ela mora, na rua Bartira,</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">&#8220;&#8230; &#233; cada um na sua casa, a gente se v&#234; o tempo todo, pois um passa     na porta do outro pra sair e pra voltar, diz &#8216;at&#233;&#8217;, d&#225; um sorriso, &#224;s vezes at&#233;     conversa um pouquinho, &#224;s vezes toma um caf&#233; ou uma &#225;gua, e cada um de n&#243;s     continua na sua. Eu, seu mo&#231;o, gosto muito desse peda&#231;o de lugar, e minha casa     fica no final da rua, tem arvoredo, a feira &#233; logo ali, a igreja que eu     frequento &#233; pr&#243;xima, o ponto de &#244;nibus &#233; assim do lado de minha casa, do lado     de l&#225;, na outra rua, n&#233;, pois aqui n&#227;o passa &#244;nibus n&#227;o e at&#233; carro tem     dificuldade. Vou sempre pr&#225; igreja e vez ou outra pro centro m&#233;dico, e &#233; l&#225; que     eu converso com mais gente daqui do que aqui mesmo, ah ah!&#8221;</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Em suma, como parece afirmar Mayol (2005), &#233; preciso sair ganhando em   todos os quadros, dominando o espa&#231;o, sem perder nada, no sistema de rela&#231;&#245;es   do lugar onde se habita. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Notas finais inconclusas</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ledrut (1971: 74), buscando compreender o fen&#244;meno urbano enquanto processo de   integra&#231;&#227;o ou desagrega&#231;&#227;o, fala que a vida coletiva, em geral, &#8220;congrega os   indiv&#237;duos e suas rela&#231;&#245;es de amizade em uma unidade que possui vida pr&#243;pria&#8221;   e, no urbano, estas rela&#231;&#245;es s&#227;o mais intensas e afetam &#8220;mais profundamente a   vida dos indiv&#237;duos e de outros grupos a que, porventura, perten&#231;am&#8221;. Lembra,   ainda, que ao pensar os espa&#231;os urbanos, como de um bairro, por exemplo, n&#227;o se   pode prender aos limites geogr&#225;ficos oficiais; para compreend&#234;-los, tem que se   buscar situar o bairro no interior de suas pr&#243;prias fronteiras, tra&#231;adas e   pensadas nas inter-rela&#231;&#245;es de seus moradores entre si e com os demais bairros   em seu entorno e no interior da cidade onde se situa, como um todo. Compreender   um bairro como uma inst&#226;ncia pulsante em si, deste modo, s&#243; &#233; poss&#237;vel quando   se discute suas rela&#231;&#245;es com suas partes, que se definem como compostas por   moradias, vizinhan&#231;as e servi&#231;os, de um lado, e de outro como um espa&#231;o de   intera&#231;&#227;o com outros bairros, e com a cidade em geral.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Este artigo tentou seguir os ditames de   Ledrut, ao buscar no interior do bairro as formas de intera&#231;&#227;o entre os seus   moradores, e destes com o bairro em geral, nas suas confabula&#231;&#245;es acusat&#243;rias   do outro estigmatizado, que n&#227;o deixa de ser o pr&#243;prio narrador, tentando   esconder o constrangimento de pertencer a um local visto com maus olhos pela   cidade em que est&#225; inserido. Ao mesmo tempo, este narrador oferece ao   pesquisador nuances de um compartilhamento intenso com os demais moradores e   abre um manual de etiqueta de como se comportar perante os vizinhos e amigos no   cotidiano.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Dentro desse esp&#237;rito, viver um final de semana no Varj&#227;o/Rangel &#233; sentir o bairro inteiro em intera&#231;&#227;o intensa. No Varj&#227;o/Rangel, todos os dias da semana,   principalmente no retorno a casa depois de um dia de trabalho, e mais ainda nos   finais de semana, se veem moradores com cadeiras fora de suas casas e   conversando nas cal&#231;adas, crian&#231;as brincando pelas ruas, m&#227;es conversando entre   si, enquanto regulam as idas e vindas dos seus filhos. O bairro inteiro se   apresenta com uma intensiva movimenta&#231;&#227;o entre os vizinhos e uma extensa rede   de solidariedade e de amizade parece fluir e ultrapassar as diferen&#231;as   estipuladas nas narrativas ofertadas em conversas com o pesquisador em campo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Isto n&#227;o quer dizer, por&#233;m, que tudo ocorre   sem conflitos e que sempre as intera&#231;&#245;es sociais sejam repletas de harmonia.   Antes pelo contr&#225;rio, a l&#243;gica cultural manifesta na sociabilidade direta entre   os seus membros se baseia em uma proximidade estreita de rela&#231;&#245;es solid&#225;rias,   muitas vezes, por&#233;m, provoca problemas e desentendimentos entre colegas e   amigos, surgidos atrav&#233;s dos coment&#225;rios maldosos dirigidos por um ao outro,   provocados pelo excesso de bebidas, ou pelo excesso de fofocas (Fonseca 2000).   Muitas vezes se traduz em agress&#245;es que culminam em morte. Portanto, o contorno   cotidiano objetivado nas a&#231;&#245;es de pessoalidade, ao mesmo tempo em que se traduz   em poss&#237;veis pr&#225;ticas de solidariedade, de compadrio e de amizade, entre outras   a&#231;&#245;es positivas, causa igualmente, no interior dessa l&#243;gica de intensa   proximidade, rela&#231;&#245;es tensas e conflituais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Assim, o fen&#244;meno das pequenas brigas e   confus&#245;es entre vizinhos, por v&#225;rios motivos, &#233; visto como relativamente banal.   Do mesmo modo, se percebe uma enorme dificuldade na delimita&#231;&#227;o de uma esfera   que comporte a vida privada, devido ao intenso conhecimento de todos sobre   todos e de tudo o que se passa no bairro. Assim, todos os acontecimentos ganham   destaque, o que enfatiza exemplos de solidariedade inacredit&#225;veis, como o apoio   face a pequenas trag&#233;dias cotidianas no interior de uma fam&#237;lia (como   desemprego, doen&#231;a ou morte), mas tamb&#233;m denuncia v&#225;rios conte&#250;dos de tens&#227;o e   conflito, complexificando a rela&#231;&#227;o de pessoalidade no bairro e tornando,   constantemente, a viv&#234;ncia cotidiana num ato de amor e desamor ao bairro e aos   seus moradores, que proferem juras de viver no bairro para sempre e,   imediatamente, afirmam querer se mudar para um lugar melhor, onde possa haver   maior conforto e melhores condi&#231;&#245;es para criar os filhos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Podemos afirmar que o bairro   do Varj&#227;o/Rangel e seus habitantes constroem, a cada momento, uma nova   elabora&#231;&#227;o e autodefini&#231;&#245;es de si mesmos e dos outros no geral, norteados por   um nexo moral pautado nos conceitos de honestidade, de amizade e de compadrio   e, por outro lado, em receios, estigmas e constrangimentos, sobretudo diante da   viol&#234;ncia real ou imagin&#225;ria que se expande na cidade, e de que s&#227;o v&#237;timas,   tanto pelos preconceitos vindos de fora, da cidade, quanto pelas subdivis&#245;es   m&#243;veis armadas pelos pr&#243;prios moradores, na &#226;nsia de desculpar-se junto ao   outro e afirmar o n&#227;o pertencimento &#224;s hostes acusadas, lan&#231;ando nos moradores   de outras partes do bairro o estigma acusat&#243;rio. A dicotomia esquizofr&#234;nica do   bairro nomeado como Varj&#227;o ou Rangel &#233; usada para afastar para o lado os males   de que o bairro &#233; acusado, como a extrema viol&#234;ncia, a presen&#231;a do tr&#225;fico de   drogas e de outras pr&#225;ticas ilegais entranhadas em seu seio, enfim, a sua   defini&#231;&#227;o como bairro perigoso e que gera inseguran&#231;a &#224; cidade e seus   habitantes, bem como aos pr&#243;prios moradores locais.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>BIBLIOGRAFIA</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BOURDIEU, Pierre, 2003, &#8220;Participant objectivation&#8221;, <i>Journal of the Royal Anthropological   Institute</i>, 9 (2): 281-294.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000149&pid=S0873-6561201400030000400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">CERTEAU, Michel de, 1994, <i>A Inven&#231;&#227;o do Cotidiano &#8211; 1: Artes de Fazer</i>.   Petr&#243;polis, Vozes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000151&pid=S0873-6561201400030000400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">COSTA, S&#233;rgio, 1994, &#8220;Esfera p&#250;blica, redescoberta da sociedade civil e   movimentos sociais no Brasil: uma abordagem tentativa&#8221;, <i>Novos Estudos Cebrap</i>, 38: 38-52.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000153&pid=S0873-6561201400030000400003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">ECKERT, Cornelia, 2002, &#8220;A cultura do medo e as   tens&#245;es do viver a cidade: narrativa e trajet&#243;ria de velhos moradores de Porto   Alegre&#8221;, <i>Iluminuras</i> [online], 3 (6).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000155&pid=S0873-6561201400030000400004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">ELIAS, Norbert, e John L. SCOTSON, 2000, <i>Os Estabelecidos e os Outsiders</i>. Rio de Janeiro, Jorge   Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000157&pid=S0873-6561201400030000400005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">FONSECA, Cl&#225;udia, 2000, <i>Fam&#237;lia, Fofoca e Honra: Uma Etnografia das   Rela&#231;&#245;es de G&#234;nero e Viol&#234;ncia em Contextos Populares</i>. Porto Alegre,   Editora da UFRGS.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000159&pid=S0873-6561201400030000400006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">GEERTZ, 1978, <i>A Interpreta&#231;&#227;o das Culturas</i>. Rio de Janeiro, Jorge   Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000161&pid=S0873-6561201400030000400007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">GIACOMAZZI, Maria Cristina Gon&#231;alves, 1997, <i>O Cotidiano da Vila Jardim: Um Estudo   de Trajet&#243;rias, Narrativas Biogr&#225;ficas e Sociabilidades, sob o Prisma do Medo   na Cidade</i>. Porto Alegre, Instituto de Filosofia e Ci&#234;ncias Humanas da UFRGS, tese de doutorado.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000163&pid=S0873-6561201400030000400008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">GOFFMAN, Erving,   1967, <i>Interaction Ritual: Essays on Face-to-face Behavior</i>. Nova Iorque, Anchor Books.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000165&pid=S0873-6561201400030000400009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">GOFFMAN, Erving, 1973, <i>La mise en sc&#232;ne de la vie   quotidienne</i>. Paris, Les Editions de Minuit.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000167&pid=S0873-6561201400030000400010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">GOFFMAN, Erving, 1988, <i>Estigma:   Notas sobre a Manipula&#231;&#227;o da Identidade Deteriorada</i>. Rio de Janeiro,   Editora Guanabara.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000169&pid=S0873-6561201400030000400011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro, 2003, &#8220;O local enquanto elemento intr&#237;nseco   da perten&#231;a&#8221;, em Cl&#225;udia Leit&#227;o (org.), <i>Gest&#227;o Cultural: Significados e     Dilemas na Contemporaneidade</i>. Fortaleza, Banco do Nordeste, 75-87.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000171&pid=S0873-6561201400030000400012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro, 2007a, &#8220;A no&#231;&#227;o de medo na vis&#227;o dos   moradores da cidade de Jo&#227;o Pessoa, PB&#8221;, <i>Revista Brasileira de Sociologia da Emo&#231;&#227;o</i>, 6 (16):   58-86, dispon&#237;vel em   <<a href="http://www.cchla.ufpb.br/rbse" target="_blank">http://www.cchla.ufpb.br/rbse</a>>   (acesso   em 03/04/2013, &#250;ltima consulta em setembro de 2014).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000173&pid=S0873-6561201400030000400013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro, 2007b, &#8220;Imagin&#225;rio social e sentimentos de   medo na cidade de Jo&#227;o Pessoa, PB&#8221;, <i>Revista Brasileira de Sociologia da Emo&#231;&#227;o</i>, 6 (17):   234-275, dispon&#237;vel em   <<a href="http://www.cchla.ufpb.br/rbse" target="_blank">http://www.cchla.ufpb.br/rbse</a>>   (acesso   em 04/04/2013, &#250;ltima consulta em setembro de 2014).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000175&pid=S0873-6561201400030000400014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro, 2008, <i>De que Jo&#227;o Pessoa Tem Medo: Uma   Abordagem em Antropologia das Emo&#231;&#245;es</i>. Jo&#227;o Pessoa, Editora Universit&#225;ria.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000177&pid=S0873-6561201400030000400015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">KOURY, Mauro Guilherme   Pinheiro, 2009, &#8220;O que &#233; medo&#63; Um adentrar no imagin&#225;rio dos habitantes da   cidade de Jo&#227;o Pessoa, Para&#237;ba&#8221;. <i>Psicologia & Sociedade</i>,   21 (3): 402-410.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000179&pid=S0873-6561201400030000400016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro, 2010, &#8220;Estilos de vida e individualidade&#8221;, <i>Horizontes   Antropol&#243;gicos</i>, 16 (33): 41-53.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000181&pid=S0873-6561201400030000400017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro, 2011, &#8220;Hierarquiza&#231;&#227;o e segrega&#231;&#227;o em um   bairro popular&#8221;, <i>Dilemas: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social</i>,   4 (4): 551-569.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000183&pid=S0873-6561201400030000400018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro, Marcela ZAMBONI, e Simone BRITO, 2010, &#8220;Confian&#231;a e   vergonha: uma an&#225;lise do cotidiano da moralidade&#8221;, <i>Anais da 34.&#170; Reuni&#227;o     Anual da ANPOCS</i>, ST32   Sociologia e Antropologia da Moral Caxambu, MG: 34&#170; Reuni&#227;o Anual da ANPOCS, dispon&#237;vel em   <<a href="http://portal.anpocs.org/portal/index.php?option=com_docman&task=doc_view&gid=1673&Itemid=350" target="_blank">http://portal.anpocs.org/portal/index.php&#63;option=com_docman&task=doc_view&gid=1673&Itemid=350</a>>   (acesso em 02/03/2013, &#250;ltima consulta em   setembro de 2014).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000185&pid=S0873-6561201400030000400019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro, Marcela ZAMBONI, e Simone BRITO, 2013, &#8220;Como se   articulam vergonha e quebra de confian&#231;a na justifica&#231;&#227;o da a&#231;&#227;o moral&#8221;, <i>Dilemas:     Revista de Estudos de Conflito e Controle Social</i>, 6 (2): 251-268.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000187&pid=S0873-6561201400030000400020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">KOWARICK, L&#250;cio, 2002, &#8220;Viver em risco: sobre a vulnerabilidade no Brasil urbano&#8221;, Novos Estudos Cebrap, 63: 9-30.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000189&pid=S0873-6561201400030000400021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">LEDRUT, Raymond, 1971, <i>Sociologia Urbana</i>. Rio de Janeiro, Editora   Forense.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000191&pid=S0873-6561201400030000400022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MARQUES, Eduardo, e Renata BICHIR, 2011, &#8220;Redes de apoio social no Rio de Janeiro e em S&#227;o Paulo&#8221;, <i>Novos Estudos Cebrap</i>, 90: 65-83.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000193&pid=S0873-6561201400030000400023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MAYOL, Pierre, 2005, &#8220;Morar&#8221;, em M. de Certeau, L.   Giard e P. Mayol, <i>A Inven&#231;&#227;o do Cotidiano &#8211; 2:     Morar, Cozinhar</i>. Petr&#243;polis, Vozes, 35-185, 6.&#170; edi&#231;&#227;o.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000195&pid=S0873-6561201400030000400024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MISSE, Michel, e Alexandre WERNECK (orgs.), 2012, <i>Conflitos de (Grande) Interesse</i>. Rio de Janeiro, Garamond.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000197&pid=S0873-6561201400030000400025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SCHEFF, Thomas,   1990, <i>Microsociology</i>. Chicago, The University of Chicago Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000199&pid=S0873-6561201400030000400026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SCHEFF, Thomas,   e Suzanne RETZINGER, 1991,   <i>Violence and Emotions</i>. Lexington, MA, Lexington Books.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000201&pid=S0873-6561201400030000400027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SILVA, M&#225;rio &#194;ngelo da, 1984, <i>Conselho Comunit&#225;rio: Estudo de Caso de Um   Movimento Popular na Periferia de Jo&#227;o Pessoa &#8211; PB</i>. Jo&#227;o Pessoa, UFPB, disserta&#231;&#227;o   de mestrado.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000203&pid=S0873-6561201400030000400028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SIMMEL, Georg,   1964, &#8220;The secret and the secret society&#8221;, em K. H. Wolf (org.), <i>The     Sociology of Georg Simmel</i>. Nova   Iorque, Simon & Schuster, 307-376.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000205&pid=S0873-6561201400030000400029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SIMMEL, Georg, 1983, <i>Georg Simmel: Sociologia</i>.   S&#227;o Paulo, &#193;tica, org. de Evaristo de Moraes Filho.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000207&pid=S0873-6561201400030000400030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SIMMEL, Georg, 1990, <i>Philosophie de la modernit&#233;</i>. Paris, Payot.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000209&pid=S0873-6561201400030000400031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SIMMEL, Georg, 2001, <i>Filosofia do Amor</i>. S&#227;o Paulo, Martins Fontes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000211&pid=S0873-6561201400030000400032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SIMMEL, Georg, 2002, &#8220;A carta: por uma sociologia do segredo&#8221;, <i>Revista   Brasileira de Sociologia das Emo&#231;&#245;es</i>, 1 (3): 384-387, dispon&#237;vel em   <<a href="http://www.cchla.ufpb.br/rbse" target="_blank">http://www.cchla.ufpb.br/rbse</a>>   (acesso em 10/03/2013, &#250;ltima   consulta em setembro de 2014).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000213&pid=S0873-6561201400030000400033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SIMMEL, Georg, 2003, &#8220;Fidelidade: uma tentativa de an&#225;lise s&#243;cio-psicol&#243;gica&#8221;, <i>Revista Brasileira   de Sociologia das Emo&#231;&#245;es</i>, 2 (6): 513-519, dispon&#237;vel   em   <<a href="http://www.cchla.ufpb.br/rbse" target="_blank">http://www.cchla.ufpb.br/rbse</a>>   (acesso em 10/03/2013, &#250;ltima   consulta em setembro de 2014).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000215&pid=S0873-6561201400030000400034&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SIMMEL, Georg, 2004, <i>Fidelidade e Gratid&#227;o e Outros Textos</i>. Lisboa,   Rel&#243;gio d&#8217;&#193;gua.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000217&pid=S0873-6561201400030000400035&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SIMMEL, Georg, 2005, &#8220;O estrangeiro&#8221;, <i>Revista Brasileira de Sociologia das   Emo&#231;&#245;es</i>, 4 (12): 350-357, dispon&#237;vel em   <<a href="http://www.cchla.ufpb.br/rbse" target="_blank">http://www.cchla.ufpb.br/rbse</a>>   (acesso em 10/03/2013, &#250;ltima   consulta em setembro de 2014).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000219&pid=S0873-6561201400030000400036&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SIMMEL, Georg, 2010, &#8220;Um passeio sobre a quest&#227;o da fronteira social&#8221;, <i>Revista   Brasileira de Sociologia das Emo&#231;&#245;es</i>, 9 (25): 370-379, dispon&#237;vel em   <<a href="http://www.cchla.ufpb.br/rbse" target="_blank">http://www.cchla.ufpb.br/rbse</a>>   (acesso   em 10/03/2013, &#250;ltima consulta em setembro de 2014).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000221&pid=S0873-6561201400030000400037&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">TRUZZI, O. M. S., 2008, &#8220;Redes em processos migrat&#243;rios&#8221;, <i>Tempo   Social: Revista de Sociologia da USP</i>, 20: 199-218.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000223&pid=S0873-6561201400030000400038&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">WERNECK, Alexandre, 2012, <i>A Desculpa: As Circunst&#226;ncias e a Moral das   Rela&#231;&#245;es Sociais</i>. Rio de Janeiro, Civiliza&#231;&#227;o Brasileira.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000225&pid=S0873-6561201400030000400039&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>NOTAS</b></font></p>     <p><font size="3" face="Verdana"></font><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref1" name="_ftn1" title="">[1]</a> Este trabalho   foi inicialmente apresentado   na X RAM &#8211; Reuni&#243;n de Antropolog&#237;a   del Mercosur, 2013, C&#243;rdoba, Argentina, no GT 49: Moralidades nas Cidades da Periferia/Moralidades en las Ciudades de la   Periferia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref2" name="_ftn2" title="">[2]</a> Os termos   com aspas s&#227;o de entrevistas com moradores de v&#225;rios bairros da capital da   Para&#237;ba realizadas para a pesquisa   sobre &#8220;medos e sociabilidade   na cidade de Jo&#227;o Pessoa&#8221; acima   mencionada. Mais informa&#231;&#227;o sobre essa pesquisa pode   ser encontrada em trabalhos anteriores (Koury 2007a, 2007b, 2008, 2009).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref3" name="_ftn3" title="">[3]</a> Ver, por   exemplo, Koury, Zamboni e Brito (2010, 2013), onde se analisa   um exemplo extremo das tens&#245;es   e conflitos traduzidos por essa intensa   pessoalidade, que redundou em uma chacina   de uma fam&#237;lia inteira por motivos   banais na fronteira entre   os sentimentos de gratid&#227;o   e despeito.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref4" name="_ftn4" title="">[4]</a> &#8220;Peladas&#8221;   s&#227;o partidas informais de futebol.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref5" name="_ftn5" title="">[5]</a> Nas   diversas igrejas, durante a semana, grupos de jovens se encontram para formarem bandas e ensaiarem m&#250;sicas de louva&#231;&#227;o nos mais diversos ritmos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref6" name="_ftn6" title="">[6]</a> Sobre o Conselho   de Moradores do Varj&#227;o, ver   Silva (1984).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref7" name="_ftn7" title="">[7]</a> Os dados   do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat&#237;stica) est&#227;o dispon&#237;veis em <a href="http://www.sidra.ibge.gov.br/bda" target="_blank">&lt;http://www.sidra.ibge.gov.br/bda&gt;</a> (consultado em 02/02/2013, &#250;ltima consulta em setembro de 2014).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref8" name="_ftn8" title="">[8]</a> Quando   se mora mais ao sul, nos limites com os bairros de Cristo Redentor e &#193;gua Fria, os moradores do Varj&#227;o/Rangel se autointitulam moradores de um dos outros dois bairros, com uma popula&#231;&#227;o   de classe m&#233;dia, mas com muitos   enclaves subnormais, e que, apesar   de viverem nas p&#225;ginas policiais, s&#227;o vistos como   bairros apraz&#237;veis e cuja viol&#234;ncia &#233; ditada pela proximidade com o Varj&#227;o/Rangel.   Ao se perguntar a um morador pr&#243;ximo &#224; fronteira do bairro   do Varj&#227;o/Rangel onde ele mora, sempre &#233; no bairro do   Cristo ou em &#193;gua Fria. E onde fica o in&#237;cio do bairro   do Varj&#227;o/Rangel&#63; Sempre   al&#233;m, mais pr&#243;ximo da reserva florestal, a Mata do Buraquinho, onde moram os   habitantes mais pobres do bairro. Outros dizem &#8220;logo ali, depois da feira&#8221;, o   que quer dizer quase a mesma   coisa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref9" name="_ftn9" title="">[9]</a> Ant&#244;nio   mora na parte mais ao sul da mesma rua. A rua S&#227;o   Geraldo &#233; estigmatizada em sua totalidade pelo bairro, por ser considerada a   mais pobre e onde ocorrem as cenas de maior viol&#234;ncia local. Mas, mesmo assim,   &#233; manipulada pelos pr&#243;prios moradores como contendo trechos melhores e piores,   de acordo com o lugar de quem emite a opini&#227;o, e se resolve tamb&#233;m na dicotomia   entre Varj&#227;o (o lado criticado)   e Rangel.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref10" name="_ftn10" title="">[10]</a> Ver, a esse respeito, a colet&#226;nea organizada por Misse e Werneck (2012).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref11" name="_ftn11" title="">[11]</a> IPTU   &#233; a sigla de Imposto   Patrimonial Territorial Urbano. Por ser &#225;rea de   invas&#227;o de terrenos tombados pelo patrim&#244;nio p&#250;blico federal como &#225;rea de   preserva&#231;&#227;o ambiental e como reserva da mata atl&#226;ntica original que cobria toda   a extens&#227;o brasileira em tempos idos, pagar o IPTU aqui significa ter a   propriedade do lote urbano onde est&#225; assentada a sua moradia, o que d&#225; ao   morador o direito de posse do lugar, de inclus&#227;o na l&#243;gica urbana local, bem   como de poder reivindicar melhorias para a sua rua e para os quarteir&#245;es   pr&#243;ximos e de reclamar junto aos &#243;rg&#227;os p&#250;blicos a falta de benfeitorias,   inclusive relacionadas &#224; seguran&#231;a p&#250;blica. Inversamente, n&#227;o pagar o IPTU &#233;   sin&#244;nimo de n&#227;o ter a propriedade do lote e, logicamente, de poder, a qualquer   momento, ser posto para fora do lugar habitado.</font></p>      ]]></body><back>
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