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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Uma heurística do filme etnográfico: em torno de imagem, rememoração e presença]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article seeks to deepen the theoretical debate about the relationship between image and memory, from a consideration of some research experiences mediated by the production of ethnographic films. I reflect about film as a privileged means to conduct ethnographies of duration, resuming the debate on ways of conceiving the relationship between anthropology and history.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana"><b>Uma heur&#237;stica do filme etnogr&#225;fico: em torno de   imagem, rememora&#231;&#227;o e presen&#231;a</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>A heuristic of ethnographic film: about image, remembrance and presence </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Ana L&#250;cia Marques   Camargo Ferraz<sup>1</sup> </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><sup>1</sup>Universidade   Federal Fluminense (UFF), Brasil. <i>E-mail: </i><a href="mailto:analu01@uol.com.br">analu01@uol.com.br</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <hr noshade size="1">     <p><font size="2" face="Verdana"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Este artigo visa aprofundar o debate te&#243;rico acerca das   rela&#231;&#245;es entre imagem e mem&#243;ria, a partir de uma reflex&#227;o sobre algumas   experi&#234;ncias de pesquisa mediada pela produ&#231;&#227;o de filmes etnogr&#225;ficos. Reflito   em torno do filme como meio privilegiado para realiza&#231;&#227;o de etnografias da   dura&#231;&#227;o, retomando o debate sobre as formas de conceber a rela&#231;&#227;o entre   antropologia e hist&#243;ria. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Palavras-chave: </b>antropologia visual, dura&#231;&#227;o, filme etnogr&#225;fico, mem&#243;ria, presente etnogr&#225;fico</font></p> <hr noshade size="1">     <p><font size="2" face="Verdana"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">This article seeks to   deepen the theoretical debate about the relationship between image and memory,   from a consideration of some research experiences mediated by the production of   ethnographic films. I reflect about film as a privileged means to conduct   ethnographies of duration, resuming the debate on ways of conceiving the relationship between anthropology and history.</font></p>     <p><b><font size="2" face="Verdana">Keywords:</font></b><font size="2" face="Verdana"> visual anthropology, <i >dur&#233;e</i>, ethnographic film, memory, ethnographic present</font></p> <hr noshade size="1">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">Gostaria aqui de propor uma   s&#237;ntese articulando as no&#231;&#245;es de imagem, presen&#231;a e dura&#231;&#227;o, analisando   processos de rememora&#231;&#227;o, a partir de uma reflex&#227;o sobre as pr&#225;ticas com o   filme etnogr&#225;fico na intera&#231;&#227;o com os grupos sociais que estudei (Ferraz 2009,   2010). Refiro-me &#224; imagem viva, posta em circula&#231;&#227;o na pesquisa etnogr&#225;fica,   estabelecendo rela&#231;&#245;es entre diferentes contextos, e provocando a emerg&#234;ncia de   mem&#243;rias entre meus interlocutores, trabalhadores, mulheres, produtores de narrativas sobre suas experi&#234;ncias vivas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">O trabalho com as imagens na pr&#225;tica da   pesquisa etnogr&#225;fica d&#225; a ver as rela&#231;&#245;es entre imagem e tempo, revelando o   fen&#244;meno da cristaliza&#231;&#227;o de experi&#234;ncias e a possibilidade de sua atualiza&#231;&#227;o.   Realizando v&#237;deos etnogr&#225;ficos entre grupos populares urbanos no Brasil,   acompanhei suas din&#226;micas atrav&#233;s de pesquisas de longa dura&#231;&#227;o. Nesses   estudos, atuei na produ&#231;&#227;o de narrativas mobilizando diversos expedientes: a   grava&#231;&#227;o de relatos de hist&#243;rias de vida ou de trajet&#243;rias profissionais, a   visualiza&#231;&#227;o de registros em v&#237;deo produzidos pelos pr&#243;prios sujeitos   estudados, a visualiza&#231;&#227;o de outros filmes com o fim de abrir di&#225;logos, e o   retorno de edi&#231;&#245;es em v&#237;deo de materiais gravados com o grupo, tempos antes.   Pela rememora&#231;&#227;o, na utiliza&#231;&#227;o de imagens em movimento, como meio que aciona   uma rela&#231;&#227;o com outros tempos, atuamos na atualiza&#231;&#227;o de experi&#234;ncias passadas.   O fen&#244;meno da rememora&#231;&#227;o de experi&#234;ncias confere o sentido a   partir do qual se retoma a experi&#234;ncia vivida e a emerg&#234;ncia de afetos e aprendizagem.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Essas reflex&#245;es apresentam uma contribui&#231;&#227;o   aos debates sobre as rela&#231;&#245;es entre imagem e mem&#243;ria, tanto quanto visam   aprofundar a reflex&#227;o metodol&#243;gica sobre o trabalho com o filme etnogr&#225;fico na   antropologia, os recursos de que nos valemos na pesquisa ao entrarmos em   contato com imagens de outros tempos, produzidas pelo pesquisador   e/ou pelo pr&#243;prio grupo. Procedo ent&#227;o a uma discuss&#227;o te&#243;rica,   retomando o debate em torno de uma &#8220;epistemologia da imagem&#8221; (Samain 2007) de   que carecemos para dar sequ&#234;ncia te&#243;rica a um ac&#250;mulo etnogr&#225;fico amadurecido em processos de pesquisa mediados pela produ&#231;&#227;o de v&#237;deo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Mais que integrar as tr&#234;s dimens&#245;es da   produ&#231;&#227;o de imagem na pesquisa em antropologia visual &#8211; &#8220;o documento visual   como registro produzido pelo observador; o documento visual como registro ou   parte do observ&#225;vel, na sociedade observada; e, finalmente, a intera&#231;&#227;o entre   observador e observado&#8221; (Menezes 2003) &#8211;, investigo aqui o trabalho do tempo   sobre a produ&#231;&#227;o de si em processos de produ&#231;&#227;o de filmes etnogr&#225;ficos.   Trabalho h&#225; duas d&#233;cadas na realiza&#231;&#227;o de etnografias mediadas pelo v&#237;deo entre   grupos populares urbanos, acompanhando suas din&#226;micas. Por meio da pesquisa de   longa dura&#231;&#227;o observo o fen&#244;meno da rememora&#231;&#227;o de instantes, visando produzir   avalia&#231;&#245;es capazes de explicar a situa&#231;&#227;o presente ou justificar disposi&#231;&#245;es   atuais; a experi&#234;ncia vivida &#233; formadora de valores e pr&#225;ticas. Desenvolvo aqui   reflex&#245;es a partir de tr&#234;s diferentes experi&#234;ncias de pesquisa &#8211; o di&#225;logo com   grupos de trabalhadores que vivem processos de desindustrializa&#231;&#227;o mantido   entre 1995 e 2005, a experi&#234;ncia de constru&#231;&#227;o de biografias em v&#237;deo,   desenvolvida com Miriam Moreira Leite, e a pesquisa etnogr&#225;fica desenvolvida   entre artistas circenses &#8211; como casos em que o trabalho com o filme etnogr&#225;fico assume caminhos particulares nas articula&#231;&#245;es entre imagem, mem&#243;ria e presen&#231;a.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Essas observa&#231;&#245;es visam apresentar uma   contribui&#231;&#227;o aos debates sobre o v&#237;deo etnogr&#225;fico como modo de produzir   conhecimento nas ci&#234;ncias humanas. Aponto, desde j&#225;, as rela&#231;&#245;es entre imagem e   mem&#243;ria como ponto fundamental no debate sobre essa forma de abordar o mundo.   Trata-se de refletir acerca da mobiliza&#231;&#227;o de imagens no agora da experi&#234;ncia   vivida em campo e acerca de sua potencialidade de presentifica&#231;&#227;o na refer&#234;ncia   a outros tempos, que desencadeia processos de rememora&#231;&#227;o, e na abertura de   espa&#231;os em que visualizamos uma no&#231;&#227;o de projeto. Uma antropologia que lida com   as pot&#234;ncias da no&#231;&#227;o de &#8220;dura&#231;&#227;o&#8221;, que implica uma concep&#231;&#227;o do tempo como   aberto, encontra n&#227;o apenas as formas sociais estruturadas, mas tamb&#233;m,   proje&#231;&#245;es, desejos, possibilidades vislumbradas em instantes reflexivos,   momentos de narrar o vivido inaugurados pela pesquisa. Os te&#243;ricos que   discutiram a no&#231;&#227;o de dura&#231;&#227;o (Bergson 1990 [1896], Bachelard 1994 [1950],   Deleuze 1999 [1966]) propuseram, de modos particulares, todos eles, a aten&#231;&#227;o &#224; dimens&#227;o da atualiza&#231;&#227;o operada pela imagem.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A mem&#243;ria atualiza imagens, formas que se   fixam em instantes do tempo. A cristaliza&#231;&#227;o da materialidade do mundo   possibilitada pelos meios dados de produ&#231;&#227;o de imagem abre uma passagem entre   tempos e nos coloca quest&#245;es que gostaria de aprofundar. Para al&#233;m do simples   registro ou das virtudes descritivas dos meios audiovisuais, refiro-me &#224;s   imagens postas em movimento no di&#225;logo etnogr&#225;fico, que s&#227;o constantemente   produzidas, postas em circula&#231;&#227;o, recebidas. Discuto aqui o trabalho   etnogr&#225;fico de estabelecer rela&#231;&#245;es que o v&#237;deo etnogr&#225;fico potencializa na   a&#231;&#227;o do antrop&#243;logo ao produzir conhecimento, quando abre, em campo, a reflex&#227;o   sobre as formas sociais e sobre sua metamorfose, o que se percebe no estudo da vida que dura e se transforma no tempo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O filme etnogr&#225;fico torna poss&#237;vel a   materializa&#231;&#227;o da presen&#231;a do outro e de minha rela&#231;&#227;o com ele, no instante em   que &#233; exibido. Quando isso opera, o passado que &#233; presente e est&#225; vivo estabelece   rela&#231;&#245;es com o atual. Como afirma Walter Benjamin (1994 [1940]: 224), &#8220;o   passado s&#243; se deixa fixar, como imagem que relampeja irreversivelmente, no   momento em que &#233; reconhecido&#8221;; passado que &#233; presente porque n&#227;o resolvido,   aberto. Tais situa&#231;&#245;es de lembrar s&#227;o seguidas de um distanciamento produzido   na percep&#231;&#227;o sobre o que j&#225; deixou de ser. Em tais situa&#231;&#245;es, o tempo opera um   choque. Viso aqui, a partir de experi&#234;ncias concretas de pesquisa, esbo&#231;ar uma   antropologia visual que lida com as narrativas do outro e com o <i >pathos</i> que emerge quando se vivem   &#173;situa&#231;&#245;es que p&#245;em em cheque a ordem estruturada. Narrando tais experi&#234;ncias   os sujeitos atualizam e reelaboram o vivido na configura&#231;&#227;o de uma hist&#243;ria.   Seria ent&#227;o necess&#225;rio aprofundarmos o debate acerca do que se vive e do que se   narra, pensando o trabalho etnogr&#225;fico de produ&#231;&#227;o de narrativas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Dramaturgias   da autonomia entre grupos de trabalhadores (S&#227;o   Paulo, Brasil)</b></font></p>      <p><font size="2" face="Verdana">Fazendo operar a mem&#243;ria,   atualizo, para fins de an&#225;lise, alguns instantes da pesquisa por mim realizada   entre grupos de trabalhadores da ind&#250;stria, na regi&#227;o metropolitana de S&#227;o   Paulo, Brasil, durante a d&#233;cada de 90. O material etnogr&#225;fico produto dessa   investiga&#231;&#227;o foi publicado no livro <i >Dramaturgias     da Autonomia: Pesquisa Etnogr&#225;fica entre Grupos de Trabalhadores</i> (Ferraz   2009). Neste tempo, a crise do emprego e um processo de desindustrializa&#231;&#227;o se   abatem sobre os grupos de trabalhadores que produzem relatos de suas   experi&#234;ncias vividas no trabalho, num momento em que as condi&#231;&#245;es de   continuidade de sua posi&#231;&#227;o n&#227;o eram seguras. Nesse contexto, o sentido do   trabalho na forma&#231;&#227;o do homem aparece ao lado de narrativas sobre o processo de   intensifica&#231;&#227;o do ritmo de trabalho e do controle, sob formas individuais   crescentes de responsabiliza&#231;&#227;o e cobran&#231;a por produtividade. Frente &#224;s   demiss&#245;es massivas na ind&#250;stria, num momento de perigo, os relatos produzidos   destacam as rela&#231;&#245;es no interior do grupo &#8211; os aprendizados comuns dos   trabalhadores do ABC paulista &#8211;, retomam lembran&#231;as dos momentos fundantes de   seu pertencimento a um coletivo, a classe trabalhadora brasileira.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Jos&#233; Carlos, jovem trabalhador que trabalha na   Ford, montadora de autom&#243;veis em S&#227;o Bernardo do Campo, regi&#227;o industrial de   S&#227;o Paulo, narra, em 1997, suas reminisc&#234;ncias: &#8220;Em 1986 perdi quase todos os   companheiros de se&#231;&#227;o. Desde que entrei, em 84, n&#227;o tinha me deparado com isso.   Em 86, virou o maior chicote l&#225; dentro. Me deparei tamb&#233;m com o fechamento da   f&#225;brica de motores&#8230; O que coloco foi tudo o que eu aprendi com os companheiros   de se&#231;&#227;o&#8221;. Em 1997, o jovem trabalhador lembra do outro tempo em que viveu   experi&#234;ncia semelhante. Com a sa&#237;da da Comiss&#227;o de F&#225;brica cresce o &#8220;chicote&#8221;,   categoria que retoma uma refer&#234;ncia ao trabalho escravo, apontando a intensa   acelera&#231;&#227;o do ritmo em que trabalha o corpo do trabalhador. Ser parte de um   coletivo, membro do grupo, foi o predominante nas falas produzidas naquele   contexto em que a Ford demitira 2800 trabalhadores (ver v&#237;deo, &#173;Ferraz 1999).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Optei neste momento por editar um v&#237;deo a   partir do material gravado durante os primeiros meses de mobiliza&#231;&#227;o contra as   2800 demiss&#245;es na Ford. A edi&#231;&#227;o acompanha o cotidiano do movimento,   reconstruindo o evento e seu ritmo. O v&#237;deo <i >Feliz     Ano Novo, V&#233;io</i>! (Ferraz 1999), que registra as &#173;mobiliza&#231;&#245;es   e as narrativas de experi&#234;ncias produzidas naquele instante, foi apropriado e   reproduzido pelos trabalhadores e circulava entre eles, refor&#231;ando a   mobiliza&#231;&#227;o. Em suas assembleias ou nas reuni&#245;es que fizeram nos bairros, pelo   tempo longo em que conseguiram resistir &#224; demiss&#227;o, a visualiza&#231;&#227;o do v&#237;deo   recuperava a pot&#234;ncia do encontro coletivo, o sentido do fazer parte, de uma   socialidade que funda um modo de ser, uma &#233;tica formada a partir da experi&#234;ncia   da migra&#231;&#227;o e da integra&#231;&#227;o na vida da metr&#243;pole pelo trabalho.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ouvi tamb&#233;m cineastas que acompanharam o   primeiro momento de tomada do Sindicato dos Metal&#250;rgicos de S&#227;o Bernardo do   Campo, no ABC paulista, pelos movimentos grevistas no final da ditadura   militar. Renato Tapaj&#243;s afirma que essa apropria&#231;&#227;o dos filmes produzidos sobre   os movimentos de trabalhadores tamb&#233;m se deu no final da d&#233;cada de 70, em que   os trabalhadores exibiam nas igrejas os filmes produzidos. Fruto da experi&#234;ncia   com a pot&#234;ncia de atualiza&#231;&#227;o do cinema, experimentada nesse momento,   constituiu-se a TVT, que atua junto ao Sindicato dos Metal&#250;rgicos do ABC,   registrando eventos, a serem rememorados em momentos decisivos da disputa   sindical.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Adrian Cooper, que fez a fotografia do filme <i >ABC da Greve</i>, dirigido por Leon Hirszman   (1990 [1979]), comenta o trabalho do <i >cameraman</i> na produ&#231;&#227;o de imagens acompanhando os movimentos grevistas que marcam a virada   dos anos 80 e p&#245;em em cheque a ditadura militar no Brasil.</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">&#8220;Eu lembro da volta     do Sindicato que me toca muito pelo orgulho das pessoas, o prazer que eles     tinham. Era uma vit&#243;ria, dentro de uma derrota fant&#225;stica, era uma vit&#243;ria     muito pequena, aparentemente, dentro de uma derrota muito grande, os oper&#225;rios     voltaram a trabalhar de cabe&#231;a baixa, perderam tudo. Agora ganharam uma coisa     que nunca o governo e os empres&#225;rios perceberam o quanto era importante aquela     decis&#227;o do Lula de retomar o Sindicato. [&#8230;] Eu n&#227;o sei se hoje as pessoas     teriam a mesma rela&#231;&#227;o com o seu sindicato, era uma coisa que vai al&#233;m da greve     em si, era uma coisa que tem muito a ver com o prazer de sua identidade&#8221;     [Adrian Cooper, em entrevista por mim realizada em 1999].</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">O cineasta segue, referindo-se ao seu   trabalho de acompanhar tais eventos:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">&#8220;A maneira de voc&#234; seguir a a&#231;&#227;o e, ao mesmo momento, refletir sobre ela     enquanto voc&#234; a est&#225; seguindo deve ser a sensa&#231;&#227;o de um bom surfista, pegar uma     onda e de repente dominar aquela onda. Ao mesmo tempo a onda est&#225; te levando,     mas voc&#234; est&#225; dominando ela, exatamente esta sensa&#231;&#227;o de segurar a onda e vai     onde ela vai e fazer o que voc&#234; quer fazer enquanto ela est&#225; te levando.     Maravilhosa sensa&#231;&#227;o&#8221; [Adrian Cooper, em entrevista por mim     realizada em 1999].</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Bachelard recomenda   que estudemos &#8220;os fen&#244;menos temporais cada qual   segundo um ritmo apropriado, um ponto de vista particular&#8221; (1994 [1950]: 7).   Pois bem, em 1998, na rela&#231;&#227;o com os trabalhadores das montadoras de   autom&#243;veis, apreendi o instante de transi&#231;&#227;o entre dois tempos, uma virada. O   v&#237;deo <i >Feliz Ano Novo, V&#233;io</i>! (Ferraz   1999) reconstr&#243;i um instante, um intervalo entre duas dura&#231;&#245;es. O momento em   que a dire&#231;&#227;o sindical consolidada desde o final da d&#233;cada de 70 abre m&#227;o dos   interesses dos trabalhadores em fun&#231;&#227;o dos rearranjos empresariais por   acr&#233;scimo de produtividade com redu&#231;&#227;o de trabalho, chantageada pela press&#227;o da   desindustrializa&#231;&#227;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A mem&#243;ria da organiza&#231;&#227;o dos trabalhadores nos   locais de trabalho, de seus direitos adquiridos com a mobiliza&#231;&#227;o coletiva &#233;   fortemente acionada neste instante em que a continuidade do grupo est&#225; em   quest&#227;o, mas a compreens&#227;o de um processo de institucionaliza&#231;&#227;o das   organiza&#231;&#245;es de trabalhadores vai configurar uma nova dura&#231;&#227;o, um novo   instante, distinto do anterior. Temos assim, no conceito de dura&#231;&#227;o, uma   categoria que nos possibilita simultaneamente compreender os processos que s&#227;o   subjetivamente vividos e narrados, e objetivamente constitu&#237;dos, impondo-se   para todo o grupo, caracterizando um novo instante no tempo, com qualidades   distintas do momento anterior.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">&#201; neste momento que os interlocutores da pesquisa narram suas experi&#234;ncias:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">&#8220;Em 1986, a gente     tinha nova elei&#231;&#227;o da Comiss&#227;o de F&#225;brica. A f&#225;brica chamou para hora extra e     n&#243;s fomos fazer piquete. A f&#225;brica demitiu um companheiro que tinha trinta dias     de mandato. Parou! Mas, dentro da Comiss&#227;o teve diverg&#234;ncias. Ach&#225;vamos que n&#227;o     devia parar a f&#225;brica, a gente sabia que a pe&#227;ozada n&#227;o queria parar. Parou.     N&#227;o estava legal, o pe&#227;o sentiu que o movimento n&#227;o era dele, era mais da     dire&#231;&#227;o. A comiss&#227;o aumentou de 14 para 26. E a gente parou a f&#225;brica e ficou     parado. Greve, greve!    <br>     O Jair (Meneguelli) me     chamou aqui no Sindicato: &#8216;Bet&#227;o d&#225; para voc&#234; vir aqui para o sindicato&#63;&#8217; O     pessoal achou que n&#227;o deveria vir, mas viemos, eu e mais seis ou sete da     Comiss&#227;o. Jair (Meneguelli): &#8216;O Tuma ligou dizendo que vai ter problema na     Ford. Tem que produzir.&#8217; Chegou na f&#225;brica, n&#227;o entramos mais, estava cheio de     pol&#237;cia cercando a f&#225;brica. A&#237; os companheiros questionaram: &#8216;Porque sa&#237;ram da     f&#225;brica&#63; N&#227;o era para ter sa&#237;do.&#8217; Sa&#237;mos, n&#227;o entramos mais. A gente ficou de     fora. Os companheiros questionaram&#8230; A f&#225;brica fez triagem. A&#237;, a f&#225;brica foi     esvaziando o movimento. Achamos que devia terminar o movimento. Vinte e seis     companheiros da Comiss&#227;o de F&#225;brica demitidos! Entrou todo mundo chorando para     trabalhar. Todo mundo chorando. Chegamos aqui no Sindicato, fomos para uma sala     l&#225; em cima, choramos, choramos&#8230; Mas choramos, menina! Choramos     todo mundo!    <br>     Naquela &#233;poca j&#225; tinha briga na Comiss&#227;o por     poder. Tinha muita gente boa e tinha diverg&#234;ncia. Desde 82, s&#243; conquista, a&#237;,     chegou 86, demitiu e n&#227;o tinha mais jeito. A&#237; a f&#225;brica come&#231;ou a adotar uma     nova pol&#237;tica, uma pol&#237;tica diferente. N&#243;s fomos processados, sete para a     pol&#237;cia federal. O processo terminou agora em 94, em 95 arquivaram o processo.     Mas a greve deu muito o que falar. Fizemos greves muito diferentes: o pessoal     fazia desenho, muito bonito, cada um queria fazer um desenho diferente&#8230; Teve um     momento em que a Ford tirou toda a ger&#234;ncia da &#225;rea. A&#237; n&#243;s fomos para as     &#225;reas, ligamos as m&#225;quinas&#8230; Esses movimentos v&#227;o politizando demais o pessoal     [&#8230;]&#8221; [Bet&#227;o, membro da Comiss&#227;o de F&#225;brica, em entrevista     por mim realizada].</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Na narrativa de nosso personagem o tempo se imobiliza. Ele segue   cronol&#243;gico: de 80 a 86 e retorna para o seu in&#237;cio. &#201; no momento em que se   fala de &#8220;transi&#231;&#227;o democr&#225;tica&#8221;, em 1986, que Bet&#227;o vive a experi&#234;ncia do   ex&#237;lio. O trabalhador teve o seu direito ao trabalho de organiza&#231;&#227;o dos   trabalhadores ca&#231;ado. Em sua narrativa, h&#225; uma elipse entre 86 e 94, o tempo   vivido fora da f&#225;brica. O primeiro momento a que se refere o trabalhador &#233;   aquele em que, no Sindicato, h&#225; espa&#231;o para as diverg&#234;ncias. Quando se funda um   partido, o foco da atua&#231;&#227;o deixa a disputa sobre o ritmo em que trabalha o   corpo. Nessa concep&#231;&#227;o, o Estado, destitu&#237;do de conte&#250;do, &#233; um lugar a se   ocupar. Abrindo &#8220;len&#231;&#243;is de passado&#8221;, Bet&#227;o rememora instantes delicados na   institucionaliza&#231;&#227;o da representa&#231;&#227;o dos trabalhadores. Ao elogiar o espa&#231;o da   diverg&#234;ncia, tece uma cr&#237;tica velada &#224;s formas da pol&#237;tica sindical atual, que   cria organiza&#231;&#245;es com o fim do controle sobre os trabalhadores.   Posicionando-se, afasta-se do presente que j&#225; &#233; passado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">As formas institucionais que se fixam   abandonam o movimento, e a disputa se torna encena&#231;&#227;o. Na compreens&#227;o do   pol&#237;tico como algo externo ao cotidiano da produ&#231;&#227;o, a representa&#231;&#227;o sindical &#233;   mais aus&#234;ncia que presen&#231;a. Frente ao desemprego exercendo seus efeitos dentro   e fora dos locais de &#173;trabalho, cresce a heterogeneidade de classe. A partir   dessa etnografia, e retomando o contato com os indiv&#237;duos que viveram a   experi&#234;ncia do <i >lay-off</i>, reencontro   pessoas em diversas situa&#231;&#245;es. A gera&#231;&#227;o de Bet&#227;o j&#225; n&#227;o est&#225; mais na f&#225;brica e   os mais jovens n&#227;o compartilham a experi&#234;ncia de forma&#231;&#227;o dos mais velhos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Os trabalhadores que foram dispensados depois   do <i >lay-off</i> esperavam ser   reincorporados &#224; f&#225;brica. Jos&#233; Carlos dedica-se a estudar novas possibilidades   de atua&#231;&#227;o, estuda fotografia e faz teatro. A avalia&#231;&#227;o que ele faz da   experi&#234;ncia &#233; dura, sente-se tra&#237;do pelos antigos companheiros de trabalho que   se institucionalizaram como representantes. De sua casa v&#234; os muros da f&#225;brica,   sente-se injusti&#231;ado. Sidnei Puca, outro trabalhador altamente qualificado, foi   reincorporado &#224; f&#225;brica e quando retorna passa a trabalhar como seguran&#231;a   patrimonial, a despeito de toda a sua forma&#231;&#227;o como t&#233;cnico em mecatr&#244;nica.   Guitarrinha segue desempregado. Fora da f&#225;brica passa a beber e termina seu   casamento. Sem trabalho, desestrutura-se pessoalmente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O momento de rever o v&#237;deo para esses   trabalhadores foi produtor de uma cr&#237;tica perplexa, em que a materialidade da   vida se apresenta frente &#224; imagem do passado que ainda nem &#233; t&#227;o distante. O   tempo, assim como as institui&#231;&#245;es, parece ignorar as biografias. Os processos   sociais de intensifica&#231;&#227;o da heterogeneidade da classe trabalhadora tomados na   longa dura&#231;&#227;o e a partir da dialogia proporcionam encontros entre passado e   presente, na produ&#231;&#227;o de reflex&#245;es (ver v&#237;deo, Ferraz 2005).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Apesar da sua tend&#234;ncia a imitar a percep&#231;&#227;o   se realizando, nota Bergson, nossa lembran&#231;a &#8220;permanece ligada ao passado por   suas ra&#237;zes profundas, e se, uma vez realizada, ela n&#227;o se ressente de sua   virtualidade original, se ela n&#227;o fosse, ao mesmo tempo, um estado presente,   algo que se corta sobre o presente, n&#243;s n&#227;o a reconhecer&#237;amos jamais como uma   lembran&#231;a&#8221; (2006: 68). &#201; a partir de um presente que j&#225; &#233; passado que   falam os trabalhadores. Mas o passado coexiste latente. O que n&#243;s tenhamos uma   vez visto, entendido, provado, aprendido, n&#227;o &#233; definitivamente perdido, mas   sobrevive, j&#225; que podemos relembrar e reconhecer.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Por outro lado, notamos nas possibilidades   desenhadas pelos grupos a presen&#231;a da percep&#231;&#227;o marcada pela experi&#234;ncia   passada. Ao discutir as no&#231;&#245;es de protens&#227;o e reten&#231;&#227;o, Schutz discute a   persist&#234;ncia das formas sociais no fen&#244;meno da mem&#243;ria:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">&#8220;a lembran&#231;a de uma experi&#234;ncia do mundo exterior &#233; relativamente n&#237;tida,     uma sequ&#234;ncia de acontecimentos externos, um movimento talvez, pode ser     lembrado numa reprodu&#231;&#227;o, isto &#233;, escolhendo-se arbitrariamente determinados          pontos da dura&#231;&#227;o. [&#8230;] &#201; no interior do tempo, ou na <i>dur&#233;e</i>, que nossas     experi&#234;ncias atuais s&#227;o ligadas ao passado, por meio de lembran&#231;as e reten&#231;&#245;es,     e ao futuro, por meio de protens&#245;es e antecipa&#231;&#245;es. [&#8230;] &#201; o conhecimento &#224; m&#227;o     que serve de c&#243;digo de interpreta&#231;&#227;o da experi&#234;ncia atual em curso. Essa     refer&#234;ncia a atos j&#225; vivenciados pressup&#245;e mem&#243;ria, e todas as suas fun&#231;&#245;es,     tais como lembran&#231;a, reten&#231;&#227;o, reconhecimento&#8221;     (Schutz 1971: 64).</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Mas, na pesquisa etnogr&#225;fica de longa dura&#231;&#227;o entre grupos de trabalhadores,   quando mobilizamos imagens de outros tempos, propondo momentos de lembrar, no   di&#225;logo com os sujeitos que acompanhamos, inseridos em processos sociais e   ciosos de suas experi&#234;ncias vividas, encontramos outros aspectos da mem&#243;ria.   Quando colocamos imagens em circula&#231;&#227;o, atualizando outros tempos, os   coment&#225;rios de nossos interlocutores revisam o instante passado, avaliam; no   entanto as observa&#231;&#245;es feitas tamb&#233;m se referem a imagens de porvir, desejos,   uma no&#231;&#227;o de projeto se delineia, dando a ver o modo como o tempo atua tamb&#233;m   na sua dimens&#227;o de aberto e indeterminado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Exemplifico, narrando a experi&#234;ncia de   acompanhar um grupo de trabalhadores em uma ind&#250;stria metal&#250;rgica em estado   falimentar; no momento em que esses trabalhadores constroem o projeto de seguir   produzindo sob &#173;autogest&#227;o, revemos imagens produzidas em outra &#233;poca da   hist&#243;ria do grupo (Ferraz 2009: 165). Nessa experi&#234;ncia, realizada no in&#237;cio   dos anos 2000, acompanho processos em que grupos de trabalhadores pleiteiam o   direito de seguirem trabalhando mesmo depois de as empresas empregadoras   abrirem fal&#234;ncia. Dissociando as no&#231;&#245;es de trabalho e emprego, os trabalhadores   reafirmam a import&#226;ncia do coletivo com o qual eles se veem como produtores.   Visualizar outros tempos se configura como momento cat&#225;rtico de rememora&#231;&#227;o em   que se redefine uma perspectiva de continuidade comum e justificada,   fortalecida pelos sentidos atualizados da experi&#234;ncia coletiva.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em campo, compartilhando a produ&#231;&#227;o de alguma   compreens&#227;o, num instante de absoluta transfigura&#231;&#227;o das formas sociais que nos   faz experimentar a abertura do tempo e uma no&#231;&#227;o de devir, revemos imagens   reunidas pelo grupo, atualizando os instantes em que, com a aus&#234;ncia do patr&#227;o,   o grupo de trabalhadores se mant&#233;m como coletivo, reorganizando novas   atividades produtivas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A conex&#227;o entre instantes diferentes do tempo,   no contato com materiais produzidos dez anos antes, quando as pessoas se reveem   transformadas e notam a perman&#234;ncia do grupo, &#233; importante na elabora&#231;&#227;o de um   projeto comum. A mem&#243;ria como atualiza&#231;&#227;o de tempo, como presentifica&#231;&#227;o, tem   virtudes cat&#225;rticas, ext&#225;ticas, diria Eisenstein (2002), transformativas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Um debate acerca do &#8220;presente etnogr&#225;fico&#8221;   como modo de narrar predominante nas monografias etnogr&#225;ficas aparece na   disciplina; por meio dessa forma articulamos narrativas de um coletivo &#8211; a explica&#231;&#227;o   de a&#231;&#245;es presentes, a narrativa do que se coloca como tradi&#231;&#227;o/passado   institucionalizado nas formas sociais cristalizadas. Clifford (2008: 29)   destaca o modo como a etnografia cl&#225;ssica caracteriza-se por ser sincr&#244;nica,   &#8220;produto de uma atividade de curta dura&#231;&#227;o&#8221;. Narramos as situa&#231;&#245;es da pesquisa   etnogr&#225;fica e as vozes de nossos interlocutores no presente, mas este instante   &#233; recortado, tecido pela presen&#231;a de outras dura&#231;&#245;es. Trabalhar com o filme   etnogr&#225;fico, na pesquisa de longa dura&#231;&#227;o, nos coloca frente &#224; dimens&#227;o da   mem&#243;ria, da presen&#231;a concreta da experi&#234;ncia vivida. Dessa forma, o presente   etnogr&#225;fico aparece em sua densidade de composto de <i >N</i> dimens&#245;es do tempo, passado-presente e devir, em sua dimens&#227;o de   indeterminado, denso, aberto.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Desmontar a oposi&#231;&#227;o entre mem&#243;ria e presen&#231;a   &#233; poss&#237;vel nessa chave de leitura, j&#225; que na pr&#225;tica das filmagens fixamos   instantes e as narrativas sobre eles, cristalizamos tempo, estabelecendo   pontes. As experi&#234;ncias realizadas com o v&#237;deo permitem afirmar a contra&#231;&#227;o do   real operada na mem&#243;ria, no modo como se selecionam, se recuperam elementos.   Com o v&#237;deo etnogr&#225;fico, produzimos etnografias da dura&#231;&#227;o, do tempo   qualitativamente vivido, percebido, concebido.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Afirmado como o fundador do campo do cinema   documental, Flaherty, por exemplo, em <i >O     Homem de Aran </i>(1934), fez encenar os costumes e pr&#225;ticas narrados por seus   interlocutores, dados presentes na mem&#243;ria dos habitantes de Aran. Inventando   um homem t&#237;pico, encenado pelos habitantes, a partir de relatos colhidos, das   hist&#243;rias ouvidas, da observa&#231;&#227;o da vida local e do estabelecimento de   parcerias com sujeitos concretos que atuam para a sua c&#226;mera, produziu filmes   que influenciaram o campo do filme etnogr&#225;fico, marcando as abordagens que v&#227;o   se desenvolver mais tarde (Heider 1995). Mais que isso, interessa aqui   transcender as possibilidades representativas do meio f&#237;lmico e mobilizar as   virtudes evocativas de modo de opera&#231;&#227;o do filme etnogr&#225;fico (Crawford e Turton   1992: 78; MacDougall 1994: 267). Dar a ver os trabalhos do tempo no modo como o   filme produz performances e no modo como, na esfera da circula&#231;&#227;o das imagens,   atualizamos tempo. &#8220;Here film could be said to leave representation behind and   to confront the viewer once again with the primary stimuli of physical   experience&#8221; (MacDougall 1994: 267). A materialidade do mundo, a presen&#231;a dos   corpos, a vibra&#231;&#227;o dos gestos, o ritmo do mundo e das rela&#231;&#245;es, cristalizados   na pel&#237;cula, nos devolvem a experi&#234;ncia. No filme e na experi&#234;ncia de sua   recep&#231;&#227;o o contato etnogr&#225;fico circula socialmente.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">&#8220;Memories cannot simply be &#8216;inscribed&#8217; by   language or images; they are &#8216;inhabited&#8217; by our bodies in space and time&#8221;   (Grossman 2010a). O filme de Grossman <i >In     the Light of Memory</i> (2010b) convida o espectador a habitar, mais que   meramente assistir, &#224;s mem&#243;rias na tela. Como a autora   diz:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">&#8220;It aims to evoke the viewer&#8217;s &#8216;sensual imagination&#8217; (Healy 2003: 223),     to awaken emotions and perceptions akin to the very processes of remembering.     Approaching the subject in such a way resonates with a Bergsonian     interpretation of memory not as physically lodged in matter, but as constant     yet discontinuous movement, woven into bodily sensation and experiences of the     duration of time&#8221; (Grossman 2010a: 170).</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Conhecemos a partir dos sentidos, das experi&#234;ncias sens&#237;veis que nos marcam. Por   esta raz&#227;o, a c&#226;mera &#233; ferramenta de pesquisa por excel&#234;ncia, mais que simples   modo de registro pr&#233;vio &#224; teoriza&#231;&#227;o. E a mem&#243;ria &#233; um fen&#244;meno intang&#237;vel,   mobiliza espa&#231;os evocativos de sentimento. Imagem e mem&#243;ria compartilham uma   mesma dial&#233;tica entre presen&#231;a e aus&#234;ncia, recuperando, a partir do vis&#237;vel, o   invis&#237;vel do mundo do afeto. Porque &#8220;o olho n&#227;o &#233; somente o &#243;rg&#227;o que v&#234;, mas   &#233;, tamb&#233;m, o que chora&#8221; (Das 2012: 354). Um <i >corporeal     turn</i> na antropologia &#233; afirmado por MacDougall (2005) quando discute seus   &#8220;new principles of visual anthropology&#8221;, ressaltando os aspectos perform&#225;ticos   mobilizados pelos sujeitos em campo, apontando as &#225;reas da antropologia e da   experi&#234;ncia social com as quais o filme tem afinidade: &#8220;o topogr&#225;fico, o   temporal, o corporal, o pessoal&#8221; (MacDougall 2005: 271).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O tempo n&#227;o &#233; mais pensado de modo abstrato,   ele est&#225; vinculado a uma reflex&#227;o sobre a mat&#233;ria (Bachelard 1994 [1950]), o   tempo &#233; concreto. &#173;Retomar as teses de Bergson coloca-nos em contato com os   temas do afeto e da experi&#234;ncia. Contempor&#226;neo e colega de Durkheim, na &#201;cole   Normale Sup&#233;rieure, Bergson disputa e polemiza com os chamados neokantianos.   Trata-se de uma paisagem intelectual que vive uma mudan&#231;a &#8220;das certezas do   mecanismo &#224; ansiedade da indetermina&#231;&#227;o&#8221; (Guerlac 2006: 17), ou, como afirma   &#173;Bachelard, temos aqui uma ruptura epistemol&#243;gica. Bergson oferece-nos uma nova   maneira de pensar. &#8220;Perceber consiste em condensar per&#237;odos enormes de uma   exist&#234;ncia infinitamente dilu&#237;da em alguns momentos mais diferenciados de uma   vida mais intensa, e em resumir assim uma hist&#243;ria muito longa. Perceber   significa imobilizar&#8221;, dir&#225; Bergson (2006: 88).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em Durkheim, as representa&#231;&#245;es sociais s&#227;o   empiricamente definidas. O tempo &#233; social, ele n&#227;o &#233; uma categoria <i >a priori</i>, anterior &#224; experi&#234;ncia. Desde   a funda&#231;&#227;o das ci&#234;ncias sociais temos o tempo como elemento experimentado,   percebido, concebido de modo particular. Partindo da oposi&#231;&#227;o indiv&#237;duo/sociedade,   Durkheim reafirma sua teoria das representa&#231;&#245;es coletivas, a partir do   argumento da efervesc&#234;ncia coletiva em <i >As     Formas Elementares da Vida Religiosa</i>, que tem um papel relativizador: o   tempo &#233; socialmente definido, o ideal social constitui &#8220;o real&#8221; (Pinheiro Filho   1996: 78). O argumento de Bergson &#233; outro. Ao apreender rela&#231;&#245;es subjetivas com   o tempo, nos aproxima da compreens&#227;o do modo como ele &#233; percebido. Conceber   intervalos, cortes, dura&#231;&#245;es, dotadas de qualidades particulares nos coloca numa   abordagem em que n&#227;o cabe opor sincronia a diacronia. Assim, podemos aprofundar   compreens&#245;es, esculpir a experi&#234;ncia. No estudo das rela&#231;&#245;es entre mat&#233;ria e   mem&#243;ria, notamos presen&#231;as mais que representa&#231;&#245;es. Mas, no campo dos debates   sobre a no&#231;&#227;o de dura&#231;&#227;o, parece haver diferentes interpreta&#231;&#245;es da obra de   Bergson. Uma delas sublinha o elemento da &#8220;continuidade&#8221;, na afirma&#231;&#227;o de um   tempo que, embora recortado por dura&#231;&#245;es distintas, se mant&#233;m enquanto fluxo. A   tese da continuidade foi discutida e criticada por Bachelard (1994 [1950]),   para quem o tempo vibra diferentemente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Bachelard defende que a dura&#231;&#227;o &#233; feita de   ritmos, de &#8220;sistemas de instantes&#8221;. O autor visa diferenciar-se de Bergson   sublinhando o car&#225;ter fragment&#225;rio, interrompido, desordenado do tempo. &#8220;Do   bergsonismo aceitamos quase tudo, exceto a continuidade&#8221;, diz Bachelard (1994   [1950]: 16.) A dura&#231;&#227;o, ou melhor, a continuidade do tempo deve ser constru&#237;da   pelo discurso, a objetiva&#231;&#227;o da experi&#234;ncia &#233; uma elabora&#231;&#227;o que se tece a   partir de descontinuidades. Deleuze sublinha outros aspectos da obra de   Bergson, destaca a no&#231;&#227;o de dura&#231;&#227;o como tempo recortado, que se diferencia   qualitativamente, quando atualizado. Porque a mem&#243;ria opera como lembran&#231;a   referida a um passado, mas tamb&#233;m como contra&#231;&#227;o dirigida a um futuro (Deleuze   1999 [1966]: 45). O passado j&#225; n&#227;o &#233; mais, mas ele age. A &#8220;lembran&#231;a pura&#8221; &#233;   virtual, contida no tempo, mas o passado &#233; contempor&#226;neo do presente que ele   foi. Passado e presente designam dois elementos que coexistem como imagem.   &#8220;Bergson falava da imagem como um termo mediador &#8216;que &#233; quase mat&#233;ria, &#224; medida   que se deixa ver, e quase esp&#237;rito &#224; medida que n&#227;o se deixa mais tocar&#8217;&#8221;, vai   dizer Maresca (1996).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Gostaria de teorizar o trabalho antropol&#243;gico   com o filme etnogr&#225;fico, a partir dessas reflex&#245;es. As experi&#234;ncias que tenho   desenvolvido com o filme encontram na defini&#231;&#227;o do conceito de dura&#231;&#227;o uma   categoria importante. Mas nesse debate parece haver distintas interpreta&#231;&#245;es da   obra de Bergson. Grossman (2010a), a partir da pr&#225;tica de realiza&#231;&#227;o de filmes   etnogr&#225;ficos, destaca o lugar da lembran&#231;a que opera no registro do   descont&#237;nuo, atualizando sensa&#231;&#245;es incorporadas, sem se opor a Bergson. A   dura&#231;&#227;o narrada pelos sujeitos com os quais interagimos em campo &#233; o material,   o caminho para a compreens&#227;o da experi&#234;ncia da pesquisa mediada pelo filme   etnogr&#225;fico. &#201; por entender como fundamental esse trabalho do filme etnogr&#225;fico   na cristaliza&#231;&#227;o de experi&#234;ncias e narrativas da dura&#231;&#227;o que me aproximo da   concep&#231;&#227;o de Eckert e Rocha (2010), que afirmam realizar &#8220;etnografias da   dura&#231;&#227;o&#8221;. Fazer pesquisa etnogr&#225;fica com a media&#231;&#227;o da imagem possibilita-nos   construir novas abordagens sobre a vida social, acompanhar os processos vividos   pelos sujeitos que estudamos, narrados em sua dimens&#227;o vibrat&#243;ria, dar a ver   concep&#231;&#245;es e pr&#225;ticas, estabelecer rela&#231;&#245;es, atualizar gestos, express&#245;es,   pot&#234;ncias.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Gostaria de citar o exemplo de um outro filme   etnogr&#225;fico, realizado por Jos&#233; Sergio Leite Lopes, Rosilene Alvim e Celso   Brand&#227;o (2010). Em <i >Tecido Mem&#243;ria </i>entramos   em contato com relatos de hist&#243;rias vividas, lembran&#231;as recuperadas de outros   tempos, quando a f&#225;brica de Paulista funcionava, com a vila oper&#225;ria e a   presen&#231;a do coronel. Os homens e mulheres que falam no filme recordam-se de um   modo de produ&#231;&#227;o discutido por Jos&#233; Sergio Leite Lopes em <i >A Tecelagem dos Conflitos de Classe na Cidade das Chamin&#233;s</i> (1988)<i >.</i> O filme retoma a rela&#231;&#227;o com antigos   interlocutores da pesquisa etnogr&#225;fica desenvolvida nos anos 80. Como narra o autor:</font></p>     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">&#8220;Ao retornarmos ao campo perto de     trinta anos depois de nossa primeira ida, a situa&#231;&#227;o encontrada era a     finaliza&#231;&#227;o de um processo anunciado, comum a outras f&#225;bricas constitu&#237;das no     in&#237;cio do s&#233;culo XX no Brasil, processo este dominado pelo decl&#237;nio. [&#8230;] &#201;     neste contexto que aparecem fortes demandas pela recupera&#231;&#227;o e a sistematiza&#231;&#227;o     da mem&#243;ria social da cidade por parte de agentes significativos do espa&#231;o p&#250;blico local&#8221; (2011: 597).</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">O filme <i >Tecido Mem&#243;ria</i> registra assim,</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">&#8220;&#8230; atrav&#233;s de outra     linguagem, esse novo per&#237;odo de campo ap&#243;s o intervalo de trinta anos, atrav&#233;s     dos instrumentos da antropologia visual que nossas (e nossos) colegas     especialistas desta &#225;rea vinham aperfei&#231;oando. A etnografia de longa dura&#231;&#227;o     pode agora conter um documento constru&#237;do com a participa&#231;&#227;o expl&#237;cita dos     pesquisados &#8211; editados e mostrados publicamente em carne, osso e palavra; um     documento a ser apropriado de forma mais favor&#225;vel pelo pr&#243;prio grupo retratado     e seus descendentes&#8221; (Lopes 2011: 600).</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Jos&#233; Sergio Leite   Lopes destaca a pot&#234;ncia do v&#237;deo que traz a presen&#231;a dos sujeitos com quem   interagimos em campo tanto quanto as possibilidades da circula&#231;&#227;o e apropria&#231;&#227;o   da imagem pelos pr&#243;prios sujeitos sociais que vivem os processos que estudamos.   Retomando uma hist&#243;ria quase esquecida, encontramos nostalgia, mas quando o   autor sublinha a capacidade de atualizar outras dura&#231;&#245;es, o filme age no   presente. No trabalho de Leite Lopes, a biografia encontra a hist&#243;ria social,   quando o indiv&#237;duo n&#227;o &#233; somente um, mas membro do grupo. Encontramos, no agora   da realiza&#231;&#227;o do filme etnogr&#225;fico, tempos de lembrar, lugares de rememorar   tempos outros: o baile, a festa, a fazenda. Mas, mem&#243;ria &#233; trabalho sobre o   tempo e no tempo. &#8220;Rela&#231;&#227;o com o ausente e com o poss&#237;vel, momento de   exterioriza&#231;&#227;o e de interioriza&#231;&#227;o, o trabalho &#233; nega&#231;&#227;o do imediato, media&#231;&#227;o   criadora&#8221; (Chau&#237; 1987: XXI). O trabalho de Leite   Lopes nos auxilia a pensar o modo como a etnografia das dura&#231;&#245;es atualiza   outros tempos, acionando a dimens&#227;o de projeto. Voltando &#224; discuss&#227;o proposta   por Bachelard (1994 [1950]), ao se atualizar o passado, mobilizamos uma   dimens&#227;o afetiva que &#233; presente. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Mem&#243;ria e biografias de mulheres: o subjetivo-objetivo </b></font></p>      <p><font size="2" face="Verdana">Em minha trajet&#243;ria nesse debate, o di&#225;logo com Miriam Lifchitz Moreira Leite   foi fundamental. Com ela, reconstru&#237; em v&#237;deo a biografia de Maria Lacerda de   Moura. &#8220;A documenta&#231;&#227;o pessoal e os depoimentos, ao descreverem e interpretarem   condi&#231;&#245;es sociais, ultrapassam o n&#237;vel da generaliza&#231;&#227;o e prop&#245;em quest&#245;es   novas e caminhos em outros n&#237;veis&#8221;, como propunha Moreira Leite   (1984: XVIII). Na reconstru&#231;&#227;o que fizemos para o filme <i >Maria Lacerda de Moura: Trajet&#243;ria de Uma     Rebelde</i> (Ferraz e Leite 2002), tecemos uma narrativa, a partir de   documenta&#231;&#227;o pessoal, livros publicados, fotografias e correspond&#234;ncia,   percebendo dura&#231;&#245;es diferentes, estruturando momentos distintos, numa l&#243;gica   transformativa que apresenta novas qualidades &#224;s experi&#234;ncias vividas por nossa   personagem. Na reconstru&#231;&#227;o da trajet&#243;ria da mulher &#173;anarquista, pacifista e   feminista que vivera no in&#237;cio do s&#233;culo XX, temos quatro temporalidades que   estruturam uma compreens&#227;o de sua biografia.<a href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><sup><sup>[1]</sup></sup></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Aprendi no debate intelectual com Miriam   Lifchitz Moreira Leite que a biografia pode dar a ver movimentos, rela&#231;&#245;es   entre o sujeito que age e seu contexto, valores. O <i >ethos</i> presente em uma &#233;poca n&#227;o &#233; absoluto, h&#225; posi&#231;&#245;es marginais,   liminares; nesse caso, compartilhamos a reconstru&#231;&#227;o da trajet&#243;ria de uma   rebelde. Com a pesquisadora compreendi que a mem&#243;ria opera com os sentidos, ela   aprendeu com as leituras de Proust. Retomamos experi&#234;ncias pelo tecido enervado   de nosso corpo. Foi com a condu&#231;&#227;o dela que me iniciei nas leituras acerca das   rela&#231;&#245;es entre imagem e mem&#243;ria. Em di&#225;logos e li&#231;&#245;es sobre produ&#231;&#227;o   intelectual, nos quais ler, relembrar, lan&#231;ar olhares sobre a vida cotidiana,   escrever e construir projetos eram atividades indissoci&#225;veis.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Nesse processo, retomamos os contos escritos   por Miriam L. Moreira Leite d&#233;cadas antes, durante os anos que se dedicara &#224;   vida de esposa e m&#227;e de dois filhos, e h&#225; muito guardados, e os preparamos para   a publica&#231;&#227;o no livro <i >Roteiros     Inconscientes</i> (Leite 2010). Nele, mem&#243;ria e imagina&#231;&#227;o n&#227;o mais se op&#245;em,   ao contr&#225;rio, quando se narra a experi&#234;ncia vivida, feminina, por meio da   linguagem do conto, retomamos a mesma virtude mnem&#244;nica, imagens mobilizadas   com palavras. O recurso expressivo, l&#250;dico, que nos aproxima da cria&#231;&#227;o   ficcional ajuda a compor as cenas, a reconstruir as paisagens afetivas da   experi&#234;ncia vivida. A &#8220;refigura&#231;&#227;o&#8221; da imagem atualizada pela mem&#243;ria opera na   constru&#231;&#227;o narrativa (Ricoeur 1984).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Assim tamb&#233;m nasceu o v&#237;deo <i >Caminhos da Mem&#243;ria</i> (Ferraz, Barbosa e   &#173;Ferreira 2007), uma biografia de Miriam Moreira Leite. A partir das sess&#245;es de   leituras dos contos com a autora e as colegas Andrea Barbosa e &#173;Francirosy   Ferreira, fomos estruturando um percurso narrativo. A experimenta&#231;&#227;o do recurso   &#224; mem&#243;ria p&#244;de ser vivida no retorno aos locais da inf&#226;ncia, no trabalho com   fotografias e &#225;lbuns que retomavam momentos espec&#237;ficos da trajet&#243;ria de   Miriam; experimentando sabores retom&#225;vamos a <i >madeleine</i> de Proust. &#201; o corpo que se lembra. Nesse aprendizado, vi   operar tamb&#233;m o elogio do instante, na percep&#231;&#227;o da presen&#231;a e da amn&#233;sia. A   atividade viva retoma a atividade mnem&#244;nica: ver o outro, abra&#231;&#225;-lo, ouvir as   ondula&#231;&#245;es de sua voz, afetar-se, no debate intelectual que n&#227;o dissocia vida e   teoria. A mem&#243;ria se atualiza na rela&#231;&#227;o, na intera&#231;&#227;o, no di&#225;logo entre tempos   e com o outro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Tra&#231;ando, como nossas personagens, hist&#243;rias   de mulheres, reencontramos a densidade da reflex&#227;o que reconstr&#243;i o tempo ao   redor dos acontecimentos. Escolhemos dramatizar situa&#231;&#245;es que evocam o trabalho   da mulher, sublinhando a parte da hist&#243;ria de vida que n&#227;o aparece em suas   pr&#243;prias fotografias de fam&#237;lia. O que a sociedade decide n&#227;o representar ainda   vibra na mem&#243;ria de quem vive a hist&#243;ria. Restrita &#224; vida dom&#233;stica, no   contexto do casamento e da maternidade, Miriam Moreira Leite escrevia contos   retratando a vida cotidiana.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Nessa trajet&#243;ria, refletindo sobre a mem&#243;ria   no trabalho com o filme etnogr&#225;fico, afirmo que a imagem atualiza imagens das   dimens&#245;es materiais da vida. Mais que isso, as impress&#245;es subjetivamente   vividas s&#227;o concretas no corpo, causam sensa&#231;&#245;es que permanecem na mem&#243;ria e   que podem ser &#173;atualizadas pela experi&#234;ncia de lembrar. No di&#225;logo com Miriam   Lifchitz Moreira Leite reconstru&#237;mos biografias, a de Maria Lacerda de Moura e   a dela pr&#243;pria. Mas este recurso deve ser melhor compreendido. Na sua oposi&#231;&#227;o,   as abordagens subjetivantes ou objetivantes da vida social perdem a percep&#231;&#227;o   da objetividade das experi&#234;ncias subjetivamente vividas. O sujeito que vive a   hist&#243;ria lembra da experi&#234;ncia vivida produzindo est&#243;ria. Aqui, a oposi&#231;&#227;o   entre o indiv&#237;duo e o coletivo n&#227;o faz sentido. Relatos pessoais descrevem e   interpretam experi&#234;ncias coletivas e condi&#231;&#245;es de vida objetivamente dadas.   Estes relatos n&#227;o s&#227;o generaliza&#231;&#245;es, mas prop&#245;em pontos de vista particulares,   perspectivas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A partir desses caminhos, podemos interromper   o percurso para sistematizar algumas aprendizagens, sublinhar alguns aspectos,   a partir da pr&#225;tica de produ&#231;&#227;o de filmes etnogr&#225;ficos e do contato com os   debates presentes nesse campo. No estudo de situa&#231;&#245;es de transi&#231;&#227;o, conflito,   transforma&#231;&#227;o, metamorfose, como foi o caso nas etnografias dos grupos de trabalhadores   que acompanhei, imagens do passado dirigem-se ao presente projetando futuros   poss&#237;veis. Na obra<i > Passagens</i>, Benjamin chega a citar Bergson: &#8220;Ao final de <i >Mati&#232;re</i> <i >et</i>   <i >M&#233;moire</i>, Bergson desenvolve a   ideia de que a percep&#231;&#227;o &#233; uma fun&#231;&#227;o do tempo. Poder-se-ia dizer que, se   viv&#234;ssemos segundo um outro ritmo &#8211; mais serenos diante de certas coisas, mais   r&#225;pidos diante de outras &#8211;, n&#227;o existiria para n&#243;s nada &#8216;duradouro&#8217;, mas tudo   se desenrolaria diante de nossos olhos, tudo viria de encontro a n&#243;s&#8221; (Benjamin   2007: 239). Nesse sonho de calmaria que n&#227;o vivemos, a mem&#243;ria relampeja em   momentos de perigo, diria Benjamin, em suas teses &#8220;Sobre o conceito de Hist&#243;ria&#8221; (1994 [1940])<i >.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A mem&#243;ria do passado &#233; referida ao presente, &#233;   relativa &#224; situa&#231;&#227;o contempor&#226;nea. Ou, com Bergson:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">&#8220;De modo geral, de     direito, o passado s&#243; retorna &#224; consci&#234;ncia na medida em que possa ajudar a     compreender o presente e a prever o porvir: &#233; um batedor da a&#231;&#227;o. Tomamos o     caminho errado quando estudamos as fun&#231;&#245;es de representa&#231;&#227;o em estado isolado,     como se elas fossem em si mesmas seu pr&#243;prio fim, como se f&#244;ssemos puros     esp&#237;ritos, ocupados em ver passar imagens e ideias&#8221; (Bergson 2006: 62).</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">&#201; preciso apontar a rela&#231;&#227;o entre &#8220;o memorizado e seu lugar de   emerg&#234;ncia&#8221; (Didi-Huberman 1998: 176), compreendendo a rela&#231;&#227;o entre a   lembran&#231;a e o instante em que ela emerge. Nessa modalidade de pesquisa   antropol&#243;gica, procuramos compreender o que &#233; o agora em que a mem&#243;ria atualiza   outras dura&#231;&#245;es. E a pr&#225;tica do trabalho com o filme etnogr&#225;fico entre outros   grupos revela novos elementos para a reflex&#227;o. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Distanciar-se   do que foi vivido: a constru&#231;&#227;o do duplo na etnofic&#231;&#227;o   com o circo-teatro</b></font> </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">A terceira e &#250;ltima experi&#234;ncia que eu gostaria de evocar aqui foi a que   pude realizar acompanhando por mais de cinco anos o trabalho de uma companhia   da tradi&#231;&#227;o popular do circo-teatro (Ferraz 2010). Nesse caso, para dar conta   da produ&#231;&#227;o de imagens referidas a experi&#234;ncias vividas, tive que elaborar um   novo caminho, um m&#233;todo para o di&#225;logo. Depois de realizar dois v&#237;deos em uma   abordagem documental, sendo conduzida pelo grupo, encontro no modo como os   indiv&#237;duos narram suas biografias o tema das com&#233;dias encenadas no circo: o   casamento e suas zonas de tens&#227;o. Na narrativa biogr&#225;fica, o tema aparece sob a   forma afetiva do amor. Passo ent&#227;o a coletar hist&#243;rias de amor vividas por   artistas circenses. Retornando a campo, proponho ao grupo o jogo de pap&#233;is e a   constru&#231;&#227;o de personagens como duplos que permitiriam a emerg&#234;ncia de imagens   concebidas com o recurso ao l&#250;dico (ver o v&#237;deo <i >O Palha&#231;o o Que &#201;</i>, Ferraz 2007).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Na produ&#231;&#227;o do filme etnoficcional <i >Amores de Circo</i> (Ferraz 2009a), fiz a   proposi&#231;&#227;o da encena&#231;&#227;o de pap&#233;is para a c&#226;mera para os atores da tradi&#231;&#227;o do   circo-teatro. A no&#231;&#227;o de &#8220;etnofic&#231;&#227;o&#8221; parte aqui da refer&#234;ncia &#224; pr&#225;tica de   produ&#231;&#227;o de f&#225;bulas em campo, numa produ&#231;&#227;o compartilhada de saberes com o   grupo estudado, como realizou Jean Rouch em seu cinema antropol&#243;gico. Em   resposta ao convite &#224; elabora&#231;&#227;o da m&#225;scara, diversas foram as respostas   individuais. Luciane Ros&#227; &#233; a atriz que se disp&#245;e a espelhar-se mais   diretamente em seus personagens e a esbo&#231;ar novas compreens&#245;es a partir desse   jogo (ver Ferraz 2009b).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A experi&#234;ncia de constru&#231;&#227;o de personagens   resultou na elabora&#231;&#227;o de um m&#233;todo de trabalho que parte da elabora&#231;&#227;o do   duplo, a m&#225;scara dram&#225;tica, para fazer refletir. A reflex&#227;o sobre o teatro   aplicado &#224; pesquisa etnogr&#225;fica tem se desenvolvido recentemente no trabalho de   antrop&#243;logos que produzem filmes etnogr&#225;ficos a partir da refer&#234;ncia &#224; obra de   Rouch. Sj&#246;berg (2008) tem discutido   o recurso &#224; &#8220;improvisa&#231;&#227;o projetiva&#8221; na pesquisa antropol&#243;gica. Em seu   trabalho, prop&#245;e a possibilidade do teatro aplicado &#224; etnografia. Na atua&#231;&#227;o   improvisada recorre-se &#224; proje&#231;&#227;o de aspectos das vidas e emo&#231;&#245;es dos participantes   atrav&#233;s da fic&#231;&#227;o. Os sujeitos constroem personagens para reviverem situa&#231;&#245;es,   mem&#243;rias de abuso (Sj&#246;berg 2008). Torna-se poss&#237;vel compreender como suas   pr&#243;prias identidades se relacionam com os personagens, ver a proje&#231;&#227;o. O papel   &#233; utilizado como refer&#234;ncia e f&#243;rum de discuss&#227;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Temos aqui casos de &#8220;dividua&#231;&#227;o&#8221; em que o   sujeito que assume um &#8220;outro&#8221; experimenta rela&#231;&#245;es virtuais com novas   possibilidades de vida. Assim, pode reconhecer, desde outros pontos de vista,   suas experi&#234;ncias, seus projetos. Presentificar estas vozes, mais que   represent&#225;-las, &#233; a chave que o jogo dram&#225;tico fornece. O processo de   identifica&#231;&#227;o ator-personagem possibilita uma catarse real que se d&#225; no   intervalo criado pela fic&#231;&#227;o &#8211; fic&#231;&#227;o verdadeira que produz um conhecimento   sobre a experi&#234;ncia desde novas perspectivas. A pr&#225;tica antropol&#243;gica na   constru&#231;&#227;o desse tipo de abordagem fez sua hist&#243;ria no campo do filme   etnogr&#225;fico. Os debates acerca da cria&#231;&#227;o de <i >personas</i> na pr&#225;tica etnogr&#225;fica t&#234;m na obra de Jean Rouch um campo denso   de realiza&#231;&#245;es de tais pr&#225;ticas. O filme na pesquisa etnogr&#225;fica &#233; produto de   m&#250;ltiplas intera&#231;&#245;es, ele s&#243; se constr&#243;i na rela&#231;&#227;o. O espa&#231;o entre o <i >videomaker</i> e o personagem de si mesmo &#233;   lugar de constitui&#231;&#227;o de um novo real. &#8220;Eu quero ver &#8211; &#224;s vezes longamente &#8211; os   espa&#231;os entre o <i >filmmaker</i> e o   sujeito: de imagin&#225;rio e linguagem, de mem&#243;ria e sentimento. Estes s&#227;o espa&#231;os   carregados de ambiguidade, mas n&#227;o s&#227;o eles inclusive espa&#231;os em que a   consci&#234;ncia &#233; criada&#63;&#8221; (MacDougall 1998: 25, tradu&#231;&#227;o da autora). Esse espa&#231;o, a que se refere David   MacDougall, a partir de sua longa trajet&#243;ria na produ&#231;&#227;o de filmes   etnogr&#225;ficos, &#233; o espa&#231;o da reflex&#227;o sobre a ordem dada, do estranhamento das   estruturas estruturadas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">No trabalho de emprestar-se &#224; m&#225;scara (Ortega   y Gasset 1991), os atores e atrizes da companhia de circo estudada auxiliam-nos   a refletir sobre as dimens&#245;es da mem&#243;ria, na constru&#231;&#227;o de projetos, de futuro.   Assim, estamos nessa pesquisa no terreno de uma visualidade pat&#233;tica, que nos   d&#225; a ver a vida com seu <i >pathos, </i>a   vida como drama. No decorrer desse   processo, chegamos ao recurso do jogo de constru&#231;&#227;o de personagens para dar   conta de lidar com a esfera do realmente imaginado, do verdadeiramente   desejado, que produz puls&#245;es, emo&#231;&#245;es, motiva&#231;&#245;es concretas. &#8220;O virtual n&#227;o tem   que realizar-se, mas sim atualizar-se; as regras da atualiza&#231;&#227;o j&#225; n&#227;o s&#227;o a   semelhan&#231;a e a limita&#231;&#227;o, mas a diferen&#231;a ou a diverg&#234;ncia e a cria&#231;&#227;o&#8221;   (Deleuze 1999 [1966]: 78). O que &#233; primeiro no processo de atualiza&#231;&#227;o &#233; a   diferen&#231;a &#8211; a diferen&#231;a entre o virtual de que se parte e os atuais aos quais   se chega, e tamb&#233;m a diferen&#231;a entre as linhas complementares segundo as quais   a atualiza&#231;&#227;o se faz. Em resumo, &#233; pr&#243;prio da virtualidade existir de tal modo   que ela se atualize ao diferenciar-se e que seja for&#231;ada a atualizar-se, a   criar linhas de diferencia&#231;&#227;o para atualizar-se&#8221;, diz Deleuze (1999   [1966]: 79). Atualiza&#231;&#227;o &#233; cria&#231;&#227;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">No jogo l&#250;dico que permite ver um outro de   mim, o trauma &#233; percebido, liberado ou corrigido pelo m&#233;todo cat&#225;rtico. Mas   &#8220;temos necessidade de um m&#233;todo cat&#225;rtico mais frequente, mais flex&#237;vel, a   ritman&#225;lise&#8221;, diz Bachelard (1994 [1950]: 128). Menos moral do que   vibrat&#243;ria, a ritman&#225;lise se prop&#245;e como compreens&#227;o das presen&#231;as, de   qualidades particulares, em dura&#231;&#245;es espec&#237;ficas, recortadas para an&#225;lise   porque qualitativamente distintas. Notando o trabalho do tempo, o trabalho da   mem&#243;ria e o trabalho sobre a mem&#243;ria que o agora realiza, essa dobra, que   converge, aproxima e diferencia, recria um novo presente ao esbo&#231;ar futuro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">As an&#225;lises mais eloquentes da obra de Rouch   ressaltam o elemento da abertura para o ensaio etnogr&#225;fico, pelos homens   filmados que vivem a intera&#231;&#227;o construindo m&#225;scaras. Stoller destaca o <i >griot</i> gaul&#234;s que &#233; Rouch, criador de   f&#225;bulas compartilhadas com seus companheiros Damour&#233; Zika, Lam Ibrahim Dia,   Illo Gaoudel e Tallou Mouzourane, que contam hist&#243;rias voltadas para o agora   (Stoller 1994). Eles encenam e comp&#245;em a equipe dos filmes <i >Les ma&#238;tres fous </i>(1954), <i >Jaguar     </i>(1967)<i >, Un lion nomm&#233; l&#8217;Am&#233;ricain </i>(1968),<i > Petit &#224; petit </i>(1971)<i >, VW Voyou</i> (1973),<i > Cocorico! Monsieur Poullet </i>(1974), <i >Moi fatigu&#233; debout, moi couch&#233; </i>(1997), <i >Le r&#234;ve plus fort que la mort </i>(2002). Encontrar a fun&#231;&#227;o de   fabula&#231;&#227;o, as hist&#243;rias que aguardam para serem narradas, norteava os di&#225;logos   entre eles. Nesta experi&#234;ncia, as pot&#234;ncias do falso evidenciam que &#8220;a   personagem deixou de ser real ou fict&#237;cia, tanto quanto deixou de ser vista   objetivamente ou de ver subjetivamente: &#233; uma personagem que vence passagens e   fronteiras porque inventa enquanto personagem real, e torna-se t&#227;o mais real   quanto melhor inventou&#8221; (Deleuze 1990: 184).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O trabalho com o filme etnogr&#225;fico, por sua   capacidade de produzir &#8220;cortes m&#243;veis do tempo&#8221;, abriga esta potencialidade: a   de condensar experi&#234;ncias, atualizando-as. Pondo-as em circula&#231;&#227;o, condensamos   s&#237;nteses capazes de fazer vislumbrar protens&#245;es de futuro. Assim temos n&#227;o   somente uma antropologia das formas estruturadas, capaz de compreender os   meandros da reprodu&#231;&#227;o social, mas tamb&#233;m, e sobretudo, visualizamos a dimens&#227;o   de projeto, ensaios silenciosos dos sujeitos que acompanhamos que projetam   imagens de devir.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Discuti aqui as possibilidades do trabalho com   o filme etnogr&#225;fico, a partir do estudo do drama vivido por trabalhadores da   regi&#227;o metropolitana de S&#227;o Paulo em contexto de desindustrializa&#231;&#227;o, nos anos   90. Naquele instante, produzi v&#237;deos e os coloquei em circula&#231;&#227;o. Na pesquisa   que realizei com a tradi&#231;&#227;o popular do circo-teatro, experimentei a dimens&#227;o do   produzir-se como imagem, criar um duplo, o personagem, como forma de construir   a boa dist&#226;ncia, um espa&#231;o para poder ver-se, nomear a pr&#243;pria experi&#234;ncia,   projetar-se. Em todos os casos, h&#225; uma dial&#233;tica do tempo operada pela imagem.   Essa imagem &#233; um momento da hist&#243;ria, mas tamb&#233;m uma categoria interpretativa   da hist&#243;ria, uma perspectiva. A no&#231;&#227;o de imagem dial&#233;tica de Benjamin &#233;   mobilizada, &#8220;&#233; o tesouro do simb&#243;lico que nos olha em cada forma vis&#237;vel&#8221;   (Didi-Huberman 1998: 150). Nesse momento o passado se dialetiza na protens&#227;o de   um futuro, e dessa dial&#233;tica, justamente desse conflito, surge o presente   emergente. Esse &#8220;choque&#8221; da mem&#243;ria involunt&#225;ria que &#8220;Benjamin prop&#245;e seja   visto em geral, e em toda a extens&#227;o problem&#225;tica da palavra, segundo seu valor   de sintoma&#8221; (Didi-Huberman 1998: 151).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Estamos aqui pr&#243;ximos de uma compreens&#227;o sobre   as &#8220;formas&#8221; e a presen&#231;a, entre o que se herda e o que se atualiza. A dist&#226;ncia   como capacidade de nos atingir, do choque, de rever-se com outros olhos, de   estranhar-se. Tomamos o tempo, que &#233; fundamentalmente aberto, como imensidade   do futuro e do passado, configurando uma antropologia que parte dessa rela&#231;&#227;o   com o aberto com que temos contato quando, pr&#243;ximos da experi&#234;ncia vivida,   encontramos a hist&#243;ria tal como narrada. Ricoeur (2000), cotejando as concep&#231;&#245;es   de Bergson acerca da lembran&#231;a-imagem e as de Sartre em <i >L&#8217;imagination </i>(1936), afirma   que a lembran&#231;a opera como dado ausente, como dado presente no passado. V&#234; a   &#8220;incrusta&#231;&#227;o do passado no cora&#231;&#227;o do presente&#8221; como alucina&#231;&#227;o. Mas &#233; ent&#227;o   que podemos falar numa fun&#231;&#227;o da imagina&#231;&#227;o que consiste em colocar sob os   olhos, fun&#231;&#227;o ostensiva de uma imagina&#231;&#227;o que mostra, que d&#225; a ver, que faz ver   (Ricoeur 2000: 66). A ressurrei&#231;&#227;o do passado se veste de formas quase   alucinat&#243;rias. A escritura da hist&#243;ria compartilha das aventuras do p&#244;r em   imagem da lembran&#231;a sob a &#233;gide da fun&#231;&#227;o ostensiva da imagina&#231;&#227;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Retomando seu argumento, que visa aproximar   mem&#243;ria e hist&#243;ria, &#173;Bergson afirma que a mem&#243;ria parte do verdadeiramente   vivido, visto, apreendido. &#8220;Sentimos e sabemos ent&#227;o que algo aconteceu, que   alguma coisa teve lugar, que nos implicou como agentes, como pacientes, como   testemunhas&#8221; (2006: 33). Estamos aqui nos defrontando, no di&#225;logo com o   autor, com a tentativa de uma hermen&#234;utica do si pelo desvio necess&#225;rio dos   signos da cultura. <i >Soi-m&#234;me comme un     autre</i> (Ricoeur 1990) traz inscrito no seu t&#237;tulo &#8220;a quest&#227;o de uma inven&#231;&#227;o   da identidade atrav&#233;s das figuras da alteridade: <i >comme un autre</i>, insistindo tanto na dimens&#227;o metaf&#243;rica como tamb&#233;m   &#233;tica dessa inven&#231;&#227;o&#8221; (Gagnebin 1997: 261). Gagnebin aponta esta rela&#231;&#227;o   essencial da consci&#234;ncia com o mundo fora da consci&#234;ncia, numa &#8220;n&#227;o-soberania   do sujeito consciente e sua rela&#231;&#227;o simb&#243;lica e cultural com esse outro que lhe   escapa&#8221; (1997: 262). Segundo a autora, Ricoeur desconfia da afirma&#231;&#227;o idealista   cl&#225;ssica da soberania do sujeito, mas tamb&#233;m de seu contr&#225;rio. Ele elabora uma   concep&#231;&#227;o espec&#237;fica de hermen&#234;utica, desmistificando pretens&#245;es te&#243;ricas   totalizantes. Nota uma rela&#231;&#227;o temporal que subjaz &#224; pr&#225;tica interpretativa   (Gagnebin 1997: 264). O processo hermen&#234;utico, poder&#237;amos dizer, desapropria   duplamente o sujeito da interpreta&#231;&#227;o: obriga-o a uma ascese primeira diante da   alteridade da obra; e, num segundo momento, desaloja-o de sua identidade para   abri-lo a novas possibilidades de habitar o mundo. Em <i >Temps et</i> <i >r&#233;cit</i>, Ricoeur (1984) dar&#225; a essa   transforma&#231;&#227;o da experi&#234;ncia do int&#233;rprete o nome de refigura&#231;&#227;o. O tempo   aparece aqui como dimens&#227;o inescrut&#225;vel e essencial do agir humano. N&#227;o seria   esta a mesma quest&#227;o colocada por Didi-Huberman&#63; Esse outro que nos olha quando   o olhamos nos devolve a media&#231;&#227;o da cultura, do simb&#243;lico. O tempo e o   distanciamento que ele constr&#243;i ajudam a p&#244;r em perspectiva a experi&#234;ncia e o   processo de constitui&#231;&#227;o do simb&#243;lico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Gostaria de nomear uma reflex&#227;o sobre o   car&#225;ter narrativo da dura&#231;&#227;o e sobre a ordena&#231;&#227;o narrativa (<i >mythos</i>) dos diversos momentos da   hist&#243;ria, inaugurando uma compreens&#227;o n&#227;o apenas do sentido j&#225; dado e dos   processos de cria&#231;&#227;o de sentidos, mas dos sentidos em porvir. A configura&#231;&#227;o,   isto &#233;, as formas do enredo e a constru&#231;&#227;o das personagens, e a sua   refigura&#231;&#227;o, ou seja, a transforma&#231;&#227;o da experi&#234;ncia viva sob o efeito da   narra&#231;&#227;o, s&#227;o dois momentos a serem compreendidos, colocando a experi&#234;ncia dos   que entram em contato com a narrativa como atividade espec&#237;fica de recep&#231;&#227;o,   que &#233; tamb&#233;m reapropria&#231;&#227;o criadora.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Debates recentes na teoria antropol&#243;gica   trazem como problema a no&#231;&#227;o de &#8220;presente etnogr&#225;fico&#8221; por sua abordagem   sincr&#244;nica. Posicionando-me acerca das rela&#231;&#245;es entre antropologia e hist&#243;ria,   notamos as redes densas de m&#250;ltiplas temporalidades que cortam cada instante   vivido, narrado de distintas perspectivas. Apresentar essas redes, tecendo seus   fios, nos faz cartografar situa&#231;&#245;es experimentadas com recursos que articulam   movimentos no tempo, no exerc&#237;cio de produ&#231;&#227;o de sentido dos sujeitos com os   quais dialogamos. Talvez pud&#233;ssemos superar uma oposi&#231;&#227;o entre uma abordagem   sincr&#244;nica e outra diacr&#244;nica notando como o filme presentifica imagens de outros   tempos no agora da pesquisa etnogr&#225;fica, e como esse encontro &#233; denso e   mobiliza, choca, como espanta perceber que j&#225; n&#227;o somos, notar nosso pr&#243;prio   processo de cria&#231;&#227;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Evoco aqui uma das &#8220;Considera&#231;&#245;es   extempor&#226;neas&#8221; de Nietzsche. Como advert&#234;ncia, delimitando uma cr&#237;tica a uma   concep&#231;&#227;o espec&#237;fica de hist&#243;ria, diz ele: &#8220;Quantas diferen&#231;as &#233; preciso   negligenciar, com que viol&#234;ncia &#233; preciso meter a individualidade do passado   dentro de uma forma universal e que&#173;br&#225;-la em todos os &#226;ngulos agudos e linhas,   em benef&#237;cio da concord&#226;ncia!&#8221; (&#173;Nietzsche 1999 [1874]: 276). Num elogio   ao instante concebe uma exist&#234;ncia supra-hist&#243;rica conectada &#224; vida, critica o   objetivismo que, em nome dos fatos, constr&#243;i academicismos. Vemos tamb&#233;m em   Benjamin a cr&#237;tica a um historicismo universalizante pautado pela no&#231;&#227;o de   progresso. Em oposi&#231;&#227;o a essa concep&#231;&#227;o de hist&#243;ria, ele prop&#245;e o tempo do   &#8220;agora&#8221;, a ser retomado como m&#244;nada, tempo em que se d&#225; a rememora&#231;&#227;o, presente   repleto de futuro, carregado de passado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A pot&#234;ncia de fabula&#231;&#227;o &#8211; de imagina&#231;&#227;o do   real e constru&#231;&#227;o de si &#8211; &#233; uma cria&#231;&#227;o, uma afirma&#231;&#227;o do real como novo. O   v&#237;deo etnogr&#225;fico, como forma de conhecimento, &#233; tamb&#233;m uma forma de produ&#231;&#227;o   de performances que configuram sujeitos, a sua linguagem tem um papel ativo na   cria&#231;&#227;o e na descri&#231;&#227;o dessas rela&#231;&#245;es sociais. A pesquisa da linguagem   suficiente para nomear o mundo, para apresent&#225;-lo, j&#225; faz parte da rela&#231;&#227;o que   se estabelece com as formas de narrar o mundo criadas pelos sujeitos que   acompanhamos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Procurei esbo&#231;ar as rela&#231;&#245;es de intersec&#231;&#227;o   entre imagem, mem&#243;ria e presen&#231;a, a partir da narrativa de experi&#234;ncias vividas   de pesquisa na realiza&#231;&#227;o de filmes etnogr&#225;ficos e da revis&#227;o de uma pol&#234;mica   que estrutura um campo te&#243;rico, a partir da no&#231;&#227;o de dura&#231;&#227;o como um novo modo   de refletir sobre o tempo na antropologia. Desse modo, sa&#237;mos das oposi&#231;&#245;es   duais vigentes no campo, que separam estrutura de hist&#243;ria, e o tempo se abre a   uma concep&#231;&#227;o de conhecimento, desse que produzimos em rela&#231;&#245;es mediadas por   processos de realiza&#231;&#227;o de filmes etnogr&#225;ficos, que se desdobra em formas de   produ&#231;&#227;o de presen&#231;a capazes de criar reflex&#245;es que iluminam os universos   simb&#243;licos em rela&#231;&#227;o, que sustentam as a&#231;&#245;es, concep&#231;&#245;es e projetos daqueles   com quem estudamos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>BIBLIOGRAFIA</b></font></p>      <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BACHELARD, Gaston, 1994 [1950],<i > Esbo&#231;o de Ritman&#225;lise.</i> S&#227;o Paulo, Editora &#193;tica.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000111&pid=S0873-6561201400030000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BENJAMIN, Walter, 1994 [1940], &#8220;Sobre o   conceito de Hist&#243;ria&#8221;, em <i >Obras     Escolhidas</i>, vol. I:<i > Magia e       T&#233;cnica, Arte e Pol&#237;tica. </i>S&#227;o Paulo, Brasiliense, 222-234.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000113&pid=S0873-6561201400030000600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BENJAMIN, Walter, 2007, <i >As Passagens. </i>Belo Horizonte, Editora da   UFMG.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000115&pid=S0873-6561201400030000600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BERGSON, Henri, 1990 [1896], <i >Mat&#233;ria e Mem&#243;ria: Ensaio sobre a Rela&#231;&#227;o do   Corpo com o Esp&#237;rito.</i> S&#227;o Paulo, Martins Fontes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000117&pid=S0873-6561201400030000600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BERGSON, Henri, 2006,<i > Mem&#243;ria e Vida: Textos Escolhidos. </i>S&#227;o Paulo, Martins Fontes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000119&pid=S0873-6561201400030000600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">CHAU&#205;, Marilena de Souza, 1987, &#8220;Pref&#225;cio:   os trabalhos da mem&#243;ria&#8221;, em E. Bosi, <i >Mem&#243;ria     e Sociedade: Mem&#243;rias de Velhos. </i>S&#227;o Paulo, TA Queiroz/Edusp,   XVII-XXXVI.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000121&pid=S0873-6561201400030000600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">CLIFFORD, James, 2008, <i >A Experi&#234;ncia Etnogr&#225;fica: Antropologia e   Literatura no s&#233;culo XX</i>. Rio de Janeiro, Editora UFRJ.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000123&pid=S0873-6561201400030000600007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">CRAWFORD, Peter I., e David TURTON (orgs.), 1992, <i >Film as Ethnography</i>.   Manchester, University of Manchester Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000125&pid=S0873-6561201400030000600008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">DAS, Veena, 2012, &#8220;Entre palavras   e vidas: um pensamento de encontro com margens, viol&#234;ncias e sofrimentos&#8221;,   entrevista por M. Misse <i >et al</i>., <i >Dilemas</i>, 5 (2): 335-356.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000127&pid=S0873-6561201400030000600009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">DELEUZE, Gilles, 1990, <i >Cinema II: A Imagem-Tempo</i>. S&#227;o Paulo,   Brasiliense.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000129&pid=S0873-6561201400030000600010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">DELEUZE, Gilles, 1999 [1966], <i >Bergsonismo. </i>S&#227;o Paulo, Editora 34.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000131&pid=S0873-6561201400030000600011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">DIDI-HUBERMAN, Georges, 1998, <i >O Que Vemos, o Que Nos Olha</i>. S&#227;o Paulo,   Editora 34.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000133&pid=S0873-6561201400030000600012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">ECKERT, Cornelia, e Ana Luiza Carvalho da ROCHA, 2010, &#8220;Cidade narrada, tempo   vivido: estudos de etnografias da dura&#231;&#227;o&#8221;, <i >Rua     </i>[online], 16 (1), dispon&#237;vel   em   <<a href="http://www.labeurb.unicamp.br/rua/pages/home/capaArtigo.rua?id=87" target="_blank">http://www.labeurb.unicamp.br/rua/pages/home/capaArtigo.rua?id=87</a>>   (&#250;ltima consulta em setembro de 2014).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000135&pid=S0873-6561201400030000600013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">EISENSTEIN, Sergei, 2002, <i >A Forma do Filme. </i>Rio de Janeiro, Jorge   Zahar Editor.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000137&pid=S0873-6561201400030000600014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">FERRAZ, Ana L&#250;cia Marques Camargo, 2009a, <i >Dramaturgias da Autonomia: Pesquisa   Etnogr&#225;fica entre Grupos de Trabalhadores. </i>S&#227;o Paulo, Perspectiva.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000139&pid=S0873-6561201400030000600015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">FERRAZ, Ana L&#250;cia Marques Camargo, 2010,   &#8220;O drama de circo e o circo-teatro hoje: uma experi&#234;ncia de representa&#231;&#227;o de   pap&#233;is com artistas circenses&#8221;, <i >Repert&#243;rio</i>,   15: 83-91, dispon&#237;vel em   <<a href="http://www.portalseer.ufba.br/index.php/revteatro/article/view-File/5215/3765" target="_blank">http://www.portalseer.ufba.br/index.php/revteatro/article/view-File/5215/3765</a>>   (&#250;ltima consulta em setembro de 2014).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000141&pid=S0873-6561201400030000600016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">GAGNEBIN, Jeanne Marie, 1997, &#8220;Uma filosofia do c&#243;gito ferido: Paul Ricoeur&#8221;, <i >Estudos   Avan&#231;ados</i>, 11 (30): 261-272, dispon&#237;vel em   <<a href="http://www.scielo.br/pdf/ea/v11n30/v11n30a16.pdf" target="_blank">http://www.scielo.br/pdf/ea/v11n30/v11n30a16.pdf</a></font><font size="2" face="Verdana">>   (&#250;ltima consulta em setembro de 2014).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000143&pid=S0873-6561201400030000600017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font> </p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">GROSSMAN, Alyssa, 2010a, Choreographies of Memory: Everyday Sites and Practices of Remembrance    Work in Post-Socialist, EU Accession-Era Bucharest. Manchester, University of    Manchester,    tese de doutorado.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000145&pid=S0873-6561201400030000600018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">GUERLAC, Suzanne, 2006, Thinking in Time: An Introduction to Henri Bergson. Ithaca, NY,    Cornell University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000147&pid=S0873-6561201400030000600019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">HEIDER, Karl G., 1995, &ldquo;Uma hist&oacute;ria do filme etnogr&aacute;fico&rdquo;, Cadernos de Antropologia e    Imagem, 1: 31-54.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">LEITE, Miriam Lifchitz Moreira, 1984, A Outra Face do Feminismo: Maria Lacerda de Moura.    S&atilde;o Paulo, &Aacute;tica.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000150&pid=S0873-6561201400030000600021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">LEITE, Miriam Lifchitz Moreira, 2010, Roteiros Imagin&aacute;rios. Florian&oacute;polis, Editora Mulheres.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000152&pid=S0873-6561201400030000600022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">LOPES, Jos&eacute; Sergio Leite, 1988, A Tecelagem dos Conflitos de Classe na Cidade das Chamin&eacute;s.    Bras&iacute;lia, Editora Universidade de Bras&iacute;lia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000154&pid=S0873-6561201400030000600023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">LOPES, Jos&eacute; Sergio Leite, 2011, &ldquo;Mem&oacute;ria e transforma&ccedil;&atilde;o social: trabalhadores de cidades    industriais&rdquo;, Mana, 17 (3): 583-606, dispon&iacute;vel em &lt;<a href="http://www.scielo.br/pdf/mana/v17n3/04.pdf" target="_blank">http://www.scielo.br/pdf/mana/v17n3/04.pdf</a>&gt; (&uacute;ltima consulta em setembro de 2014).</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana"></font><font size="2" face="Verdana">MacDOUGALL, David, 1994, &#8220;Films of memory&#8221;, em L. Taylor (org.), <i >Visualizing Theory</i>. Nova Iorque, Routledge, 260-270.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000157&pid=S0873-6561201400030000600025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MacDOUGALL, David, 1998, <i >Transcultural Cinema. </i>Princeton, NJ, Princeton University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000159&pid=S0873-6561201400030000600026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MacDOUGALL, David, 2005, <i >The Corporeal   Image: Film, Ethnography and the Senses. &#173;</i>Princeton, NJ, Princeton University   Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000161&pid=S0873-6561201400030000600027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MARESCA, Sylvain, 1996, &#8220;Apresenta&#231;&#227;o&#8221;, S&#227;o Paulo,   Universidade de S&#227;o Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ci&#234;ncias Humanas, Departamento de Antropologia, mimeo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000163&pid=S0873-6561201400030000600028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MENEZES, Ulpiano   T. Bezerra de, 2003, &#8220;Fontes visuais, cultura visual, hist&#243;ria visual: balan&#231;o   provis&#243;rio, propostas cautelares&#8221;, <i >Revista     Brasileira de Hist&#243;ria</i>, 23 (45): 11-36.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000165&pid=S0873-6561201400030000600029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">NIETZSCHE, Friedrich, 1999 [1874],   &#8220;Considera&#231;&#245;es extempor&#226;neas (1873-1874): II &#8211; Da utilidade e desvantagem da   hist&#243;ria para a vida&#8221;, em Friedrich Nietzsche, <i >Obras Incompletas</i>. S&#227;o Paulo, Nova   Cultural, org. G&#233;rard Lebrun, 273-287.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000167&pid=S0873-6561201400030000600030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">ORTEGA Y GASSET, Jos&#233;, 1991, <i >A Id&#233;ia do Teatro. </i>S&#227;o Paulo, Perspectiva.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000169&pid=S0873-6561201400030000600031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">PINHEIRO FILHO, Fernando A, 1996, <i >A Mente do Todo: O Encontro   da Sociologia Durkheimiana com a Quest&#227;o do Tempo</i>. S&#227;o   Paulo, Universidade de S&#227;o Paulo,   disserta&#231;&#227;o de mestrado em Sociologia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000171&pid=S0873-6561201400030000600032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">RICOEUR, Paul, 1984, <i >Temps et r&#233;cit. </i>Paris, Editions du Seuil.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000173&pid=S0873-6561201400030000600033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">RICOEUR, Paul, 1990, <i >Soi-m&#234;me comme un autre</i>. Paris, Editions du Seuil.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000175&pid=S0873-6561201400030000600034&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">RICOEUR, Paul, 2000, <i >La m&#233;moire, l&#8217;histoire, l&#8217;oubli.</i> Paris, Editions du Seuil.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000177&pid=S0873-6561201400030000600035&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SAMAIN, Etienne, 2007, &#8220;A matriz sensorial do pensamento humano: subs&#237;dios para <i >redesenhar </i>uma epistemologia da   comunica&#231;&#227;o&#8221;, em A. M&#233;dola, D. Araujo e F. Bruno (orgs.), <i >Imagem,     Visibilidade e Cultura Midi&#225;tica</i>. Porto Alegre, Sulina, 63-79.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000179&pid=S0873-6561201400030000600036&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SARTRE, Jean Paul, 1936, <i >L&#8217;imagination</i>. Paris, Presses   Universitaires de France.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000181&pid=S0873-6561201400030000600037&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SCHUTZ, Alfred, 1971, <i >Fenomenologia e Rela&#231;&#245;es Sociais</i>. Rio de Janeiro, Jorge Zahar   Editor.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000183&pid=S0873-6561201400030000600038&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SJ&#214;BERG, Johannes, 2008, &#8220;Ethnofiction: drama as a   creative research practice in ethnographic film&#8221;, <i >Journal of Media Practice</i>, 9 (3): 229-242.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000185&pid=S0873-6561201400030000600039&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">STOLLER, Paul, 1994, &#8220;Ethnographies as texts/ethnographers as gritos&#8221;, <i >American Ethnologist</i>, 21 (2): 353-366.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000187&pid=S0873-6561201400030000600040&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b >FILMOGRAFIA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">FERRAZ, Ana L&#250;cia, 1999, <i >Feliz Ano Novo, V&#233;io!</i> S&#227;o Paulo, Laborat&#243;rio   de Imagem e Som em Antropologia/Universidade de S&#227;o Paulo, dispon&#237;vel   em: &lt;<a href="http://vimeo.com/user7736951/felizanonovoveio" target="_blank">http://vimeo.com/user7736951/felizanonovoveio</a>&gt;  (&#250;ltima   visualiza&#231;&#227;o em setembro de   2014).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">FERRAZ, Ana L&#250;cia, 2005,<i > Dramaturgias da Autonomia</i>. S&#227;o Paulo,   Laborat&#243;rio de Imagem e Som em Antropologia/Universidade de S&#227;o   Paulo, dispon&#237;vel em: &lt;<a href="http://vimeo.com/user7736951/dramaturgiasdaautonomia" target="_blank">http://vimeo.com/user7736951/dramaturgiasdaautonomia</a>&gt;  (&#250;ltima   visualiza&#231;&#227;o em setembro de   2014).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">FERRAZ, Ana L&#250;cia, 2007,<i > O Palha&#231;o o Que &#201;&#63; </i>S&#227;o Paulo,   Laborat&#243;rio de Imagem e Som em Antropologia/Universidade de S&#227;o   Paulo, dispon&#237;vel em: &lt;<a href="http://vimeo.com/user7736951/opalhacooquee" target="_blank">http://vimeo.com/user7736951/opalhacooquee</a>&gt;  (&#250;ltima visualiza&#231;&#227;o em setembro de   2014).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">FERRAZ, Ana L&#250;cia, 2009b, <i >Amores de Circo</i>. S&#227;o Paulo, Laborat&#243;rio   de Imagem e Som em Antropologia/Universidade de S&#227;o Paulo, dispon&#237;vel em: &lt;<a href="http://vimeo.com/user7736951/amoresdecirco" target="_blank">http://vimeo.com/user7736951/amoresdecirco</a>&gt;  (&#250;ltima visualiza&#231;&#227;o em setembro de   2014).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">FERRAZ, Ana L&#250;cia, 2009c, <i >Ser Personagem, making of de Amores de Circo.   Experi&#234;ncia para a constru&#231;&#227;o de personagens com a atriz   Luciane Ros&#227;</i>, dispon&#237;vel em: &lt;<a href="http://vimeo.com/user7736951/serpersonagem" target="_blank">http://vimeo.com/user7736951/serpersonagem</a>&gt;  (&#250;ltima visualiza&#231;&#227;o em setembro   de 2014).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">FERRAZ, Ana L&#250;cia, Andr&#233;a BARBOSA, e Francirosy Campos   FERREIRA, 2007, <i >Caminhos da Mem&#243;ria:     Miriam Moreira Leite</i>. S&#227;o Paulo,   Laborat&#243;rio de Imagem e Som em Antropologia/Universidade de S&#227;o   Paulo, dispon&#237;vel em:   &lt;<a href="http://vimeo.com/user7736951/caminhosdamemoria" target="_blank">http://vimeo.com/user7736951/caminhosdamemoria</a>&gt; (&#250;ltima   visualiza&#231;&#227;o em setembro de   2014).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">FERRAZ, Ana L&#250;cia, e Miriam Moreira LEITE,   2002, <i >Maria Lacerda de Moura: Trajet&#243;ria     de Uma Rebelde</i>. S&#227;o Paulo, Laborat&#243;rio de Imagem e Som em   Antropologia/Universidade de S&#227;o Paulo, dispon&#237;vel   em: &lt;<a href="http://vimeo.com/user7736951/marialacerdademoura" target="_blank">http://vimeo.com/user7736951/marialacerdademoura</a>&gt;  (&#250;ltima   visualiza&#231;&#227;o em setembro de   2014).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">FLAHERTY, Robert, 1934, <i >O Homem de Aran</i>. Gaumont, British Picture Corporation.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">GROSSMAN, Alyssa, 2010b, <i >In the Light of Memory</i>. Manchester,   Media Center/The University of Manchester.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">HIRSZMAN, Leon, 1990 [1979], <i >ABC da   Greve</i>. S&#227;o Paulo, Cinemateca Brasileira.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">LOPES, Jos&#233; Sergio Leite, Rosilene ALVIM,   e Celso BRAND&#195;O, 2010, <i >Tecido Mem&#243;ria</i>.   Rio de Janeiro, Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de   Janeiro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">ROUCH, Jean, 1954, <i >Les ma&#238;tres fous</i>. Paris, Les Films de la Pl&#233;iade.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">ROUCH, Jean, 1967<i >, Jaguar</i>. Paris, Les Films de la P&#233;iade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">ROUCH, Jean, 1968, <i >Un lion nomm&#233;   l&#8217;Am&#233;ricain</i>. Paris, Comit&#233; du Film Ethnographique.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">ROUCH, Jean, 1971,<i > Petit &#224; petit</i>. Paris, Les Films de la Pl&#233;iade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">ROUCH, Jean, 1973, <i >VW Voyou</i>. Paris, SCOA, CFE, CNRSH.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">ROUCH, Jean, 1974,<i > Cocorico! Monsieur Poullet</i>. Paris, Comit&#233; du Film Ethnographique,   CNRS, Les Films de L&#8217;Homme.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">ROUCH, Jean, 1997, <i >Moi fatigu&#233; debout, moi couch&#233;</i>.Paris, Comit  &#233; du Film Ethnographique, CNRS, Centre Culturel Franco   Nig&#233;rien, IRSH.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">ROUCH, Jean, 2002, <i >Le r&#234;ve plus fort que la mort</i>,Amip. Paris, Comit  &#233; du Film Ethnographique, CNRS, IRD.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>NOTAS</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana"></font><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref1" name="_ftn1" title="">[1]</a>       No filme <i >Maria Lacerda de   Moura: Trajet&#243;ria de Uma Rebelde</i> (Ferraz e Leite 2002), procuramos dar a ver   as mudan&#231;as qualitativas   que se deram na vida da personagem.</font></p>      ]]></body><back>
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