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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Entre a agroecologia e a fumicultura: uma etnografia sobre trabalho na terra, cosmologias e pertencimentos entre camponeses pomeranos]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Between agroecology and tobacco production: an ethnography of the work on land, cosmologies and belonging among Pomeranians peasants]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade Federal de Pelotas Programa de Pós-Graduação em Antropologia ]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In the contemporary world, &#8220;ecological&#8221; food has been increasingly discussed. Several studies emphasize technical and economic aspects and consider agroecological production as opposed to conventional agriculture, which makes intensive use of agrochemicals. This paper presents the trajectory of a family of ecological farmers - peasants of Pomeranian origin - belonging to a community where the majority of farmers works with the production of tobacco in a rural locality in the town of São Lourenço do Sul, Rio Grande do Sul state, Brazil. Data collection took place through ethnography, performed along the year of 2012. From the attention to the differences, specificities and peculiarities of the family which constituted the main interlocutor of the research, elements of a common cultural substrate that connects family and community are identified. Thereby, the analysis shows that tradition, religion, cosmologies and meanings of work on land, more than creating divides between two production models, support the links between those who practice them.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b><font size="2" face="Verdana">PR&Eacute;MIO L&Eacute;VI-STRAUSS (ABA)</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4"><b><font face="Verdana">Entre a agroecologia   e a fumicultura: uma etnografia sobre trabalho na terra, cosmologias e   pertencimentos entre camponeses pomeranos</font></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="3" face="Verdana">Between agroecology and tobacco   production: an ethnography of the work on land, cosmologies and belonging among   Pomeranians peasants</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="2" face="Verdana">Maur&#237;cio Schneider<sup>1</sup></font></b></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><sup>1</sup>Programa de P&#243;s-Gradua&#231;&#227;o em   Antropologia, Universidade Federal de Pelotas (PPGAnt &#8211; UFPel), Brasil. E-mail:    <a href="mailto:mauriciodschneider@gmail.com">mauriciodschneider@gmail.com</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <hr noshade size="1">     <p><font size="2" face="Verdana"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">No mundo contempor&#226;neo, o tema da alimenta&#231;&#227;o &#8220;ecol&#243;gica&#8221; tem   sido cada vez mais discutido. Muitos estudos enfatizam aspectos t&#233;cnicos e   econ&#244;micos e colocam a produ&#231;&#227;o agroecol&#243;gica como oposta &#224;quela convencional,   que faz uso intensivo de agroqu&#237;micos. Este trabalho apresenta a trajet&#243;ria de   uma fam&#237;lia de agricultores ecol&#243;gicos &#8211; camponeses de origem pomerana &#8211;   inseridos em uma comunidade em que a maior parte dos agricultores trabalha com   a produ&#231;&#227;o de fumo, em uma localidade rural do munic&#237;pio de S&#227;o Louren&#231;o do   Sul, no estado do Rio Grande do Sul, Brasil. A coleta de dados deu-se atrav&#233;s   de etnografia realizada ao longo do ano de 2012. A partir da aten&#231;&#227;o &#224;s   diferen&#231;as, especificidades e peculiaridades   da fam&#237;lia que se constituiu em principal interlocutora da pesquisa, s&#227;o   identificados elementos de um substrato cultural comum, que conecta fam&#237;lia e   comunidade. A an&#225;lise mostra, assim, que tradi&#231;&#227;o, religiosidade, cosmologias e   significados do trabalho na terra d&#227;o base, mais que a   rupturas entre dois modelos de produ&#231;&#227;o, a elos de liga&#231;&#227;o entre aqueles   que os praticam. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Palavras-chave:</b> campesinato, comunidade rural, sociabilidade, alimenta&#231;&#227;o, tecnologia, fam&#237;lia</font></p> <hr noshade size="1">     <p><font size="2" face="Verdana"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">In the contemporary   world, &#8220;ecological&#8221; food has been increasingly discussed. Several studies   emphasize technical and economic aspects and consider agroecological   production as opposed to conventional agriculture, which makes intensive use of   agrochemicals. This paper presents the trajectory of a family of ecological   farmers &#8211; peasants of Pomeranian origin &#8211; belonging to a community where the   majority of farmers works with the production of tobacco in a rural locality in   the town of S&#227;o Louren&#231;o do Sul, Rio Grande do Sul state, Brazil. Data   collection took place through ethnography, performed along the year of 2012.   From the attention to the differences, specificities and peculiarities of the   family which constituted the main interlocutor of the research, elements of a   common cultural substrate that connects family and community are identified.   Thereby, the analysis shows that tradition, religion, cosmologies and meanings   of work on land, more than creating divides between two production models, support the links between those who practice them. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Keywords: </b>peasantry, rural community, sociability,   feed, technology, family</font></p> <hr noshade size="1">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">A Associa&#231;&#227;o Brasileira de Antropologia (ABA), atrav&#233;s da sua Comiss&#227;o de Educa&#231;&#227;o, Ci&#234;ncia e Tecnologia, atribui,   por ocasi&#227;o das Reuni&#245;es Brasileiras de Antropologia, o Pr&#233;mio L&#233;vi-Strauss,   visando dar visibilidade e est&#237;mulo &#224; produ&#231;&#227;o cient&#237;fica de jovens   licenciandos/as brasileiros/as. Mais uma vez, a <i >Etnogr&#225;fica</i> colabora com a ABA   oferecendo, como parte do Pr&#233;mio, a publica&#231;&#227;o do trabalho premiado na   modalidade B (artigo) em 2014.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">&#8220;Aos olhos dos conterr&#226;neos Menocchio   era um homem, ao menos em parte, diferente dos outros. Mas essa singularidade   tinha limites bem precisos: da cultura do pr&#243;prio tempo e da pr&#243;pria classe n&#227;o   se sai a n&#227;o ser para entrar no del&#237;rio e na aus&#234;ncia de comunica&#231;&#227;o. Assim   como a l&#237;ngua, a cultura oferece ao indiv&#237;duo um horizonte de possibilidades   latentes &#8211; uma jaula flex&#237;vel e invis&#237;vel dentro da qual se exercita a   liberdade condicionada de cada um&#8221; (Ginzburg 2006: 20). </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Introdu&#231;&#227;o</b></font></p>     <p><font size="3" face="Verdana"></font><font size="2" face="Verdana">O presente trabalho busca refletir sobre a rela&#231;&#227;o entre vis&#245;es de mundo e o trabalho na terra de   camponeses pomeranos, bem como sobre os limites individuais e coletivos das   vis&#245;es de mundo e dos pertencimentos comunit&#225;rios.<a href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><sup><sup>[1]</sup></sup></a> A partir da observa&#231;&#227;o da trajet&#243;ria de uma fam&#237;lia de camponeses de origem   pomerana na regi&#227;o da Serra dos Tapes, no estado do Rio Grande do Sul, &#173;Brasil,   procura-se discutir as raz&#245;es que levaram esta fam&#237;lia a adotar a produ&#231;&#227;o   agr&#237;cola de base ecol&#243;gica, diferenciando-se da comunidade da qual faz parte.   De igual modo, procura-se evidenciar as redes de rela&#231;&#245;es dessa fam&#237;lia nos   &#226;mbitos de parentesco, vizinhan&#231;a e religi&#227;o e os elementos que conformam seu   pertencimento &#224; comunidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Esta pesquisa est&#225; inserida em uma agenda mais   ampla, levada a cabo pelo Grupo de Estudos e Pesquisas em Alimenta&#231;&#227;o e Cultura   (GEPAC), vinculado ao Laborat&#243;rio de Estudos Agr&#225;rios e Ambientais, da   Universidade Federal de Pelotas (LEAA/UFPel). No que se refere &#224;   articula&#231;&#227;o com este estudo, s&#227;o dois os projetos de pesquisa relacionados:   &#8220;Cultura, patrim&#244;nio e seguran&#231;a alimentar entre fam&#237;lias rurais: etnografias   de casos significativos&#8221; (CNPq 559565/2010-0) e &#8220;Saberes e   sabores da col&#244;nia: modos de vida e patrim&#244;nio alimentar entre pomeranos no   Brasil meridional&#8221; (FAPERGS 1018354/2010-6), ambos coordenados   pela Prof.&#170; Dr.&#170; Renata Menasche.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O estudo aqui apresentado tamb&#233;m foi realizado   em articula&#231;&#227;o com o projeto de extens&#227;o &#8220;Constru&#231;&#227;o participativa de sistemas agroflorestais sucessionais no territ&#243;rio Sul,   RS (Encosta da Serra do Sudeste)&#8221;, coordenado pelo Dr. Joel Cardoso,   pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu&#225;ria). Esse   &#250;ltimo projeto teve por principal objetivo a implanta&#231;&#227;o de SAF (Sistemas   Agroflorestais) em propriedades de agricultores   ecol&#243;gicos. Entre as quest&#245;es presentes no projeto, as din&#226;micas sociais e   processos &#173;culturais das fam&#237;lias envolvidas conformaram a parte que coube &#224;   equipe do GEPAC desenvolver.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Uma das fam&#237;lias inseridas no projeto da   Embrapa &#233; a fam&#237;lia M&#252;hlemberg. Foi assim que cheguei at&#233; sua propriedade, no   Buti&#225;. Essa fam&#237;lia e o entorno em que se insere representaram o foco principal   desta pesquisa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">As iniciativas de pesquisa acima mencionadas   t&#234;m sido desenvolvidas na regi&#227;o colonial do munic&#237;pio de Pelotas e munic&#237;pios   vizinhos, delimitada pela Serra dos Tapes. Tais estudos situam-se na   conflu&#234;ncia entre as quest&#245;es referentes &#224; alimenta&#231;&#227;o, consumo e campesinato,   a partir de uma abordagem antropol&#243;gica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A regi&#227;o da Serra dos Tapes situa-se no sul do   estado do Rio Grande do Sul, abrangendo, dentre outros, partes dos munic&#237;pios   de Cangu&#231;u, S&#227;o &#173;Louren&#231;o do Sul e Pelotas. Conforme apontam Salamoni e   Waskievicz (2013), seguindo-se &#224; presen&#231;a ind&#237;gena, a Serra dos Tapes foi   ocupada primeiramente por escravos fugidos ou libertos das charqueadas e   posteriormente por imigrantes europeus n&#227;o ib&#233;ricos, sobretudo alem&#227;es,   pomeranos, italianos e franceses.<a href="#_ftn2" name="_ftnref2" title=""><sup><sup>[2]</sup></sup></a> O   processo de coloniza&#231;&#227;o teve in&#237;cio em 1848, incentivado pelo governo imperial   e executado por iniciativas deste, do governo provincial e particulares. Assim,   ao longo de toda a regi&#227;o da Serra dos Tapes, fam&#237;lias de imigrantes de   diferentes origens foram assentadas em pequenas propriedades policultoras, que,   juntamente com os afrodescendentes, conformam hoje um mosaico &#233;tnico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Hoje em dia, na paisagem da Serra dos Tapes &#233;   grande a presen&#231;a de planta&#231;&#245;es de fumo. Muitas   fam&#237;lias de colonos aderiram &#224; fumicultura, parte delas continuando a produzir   alimentos, em boa medida praticando a chamada agricultura &#8220;convencional&#8221; &#8211;   caracterizada pela utiliza&#231;&#227;o de insumos qu&#237;micos e aus&#234;ncia de restri&#231;&#245;es &#224;s   sementes transg&#234;nicas. Mas outra parcela optou pela agricultura de base ecol&#243;gica.   Como bem identificou Patr&#237;cia Pinheiro (2010), para muitos pesquisadores e   t&#233;cnicos agr&#237;colas, os dois tipos de pr&#225;ticas &#8211; agricultura ecol&#243;gica e   fumicultura &#8211; s&#227;o colocados em polos opostos, um deles primando pela sa&#250;de de   produtores e consumidores, pelo respeito &#224; terra e &#224; natureza; o outro visando   apenas o lucro, sem preocupar-se com valores de sustentabilidade.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Contudo, as duas formas de trabalhar a terra   podem n&#227;o estar t&#227;o dissociadas como sup&#245;em &#8211; ou talvez desejem &#8211; alguns. No   cotidiano dessas fam&#237;lias, ao contr&#225;rio, pode-se perceber que essas duas   maneiras do fazer agr&#237;cola coexistem, muitas vezes em uma mesma propriedade.   Para ilustrar essa coexist&#234;ncia, basta observar que, em uma rede de vizinhan&#231;a   e parentesco, fumicultores compram alimentos de produtores ecol&#243;gicos e esses,   por vezes, os auxiliam no trabalho com fumo &#8211; situa&#231;&#227;o particularmente comum em   contextos de adversidades clim&#225;ticas, que demandam a&#231;&#227;o r&#225;pida e trabalho   intenso. Ocorre, ainda, que em uma mesma propriedade conjuguem-se produ&#231;&#227;o   ecol&#243;gica de alimentos e produ&#231;&#227;o de &#8220;fumo org&#226;nico&#8221;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Nesse quadro, o presente estudo vem apresentar   e discutir os resultados de pesquisa etnogr&#225;fica realizada em duas localidades   rurais inseridas na regi&#227;o da Serra dos Tapes, munic&#237;pio de S&#227;o Louren&#231;o do   Sul: Buti&#225; e Coxilha Negra. Trata-se de um contexto em que uma &#250;nica fam&#237;lia de   agricultores ecol&#243;gicos convive com uma vizinhan&#231;a que &#233;, em sua quase   totalidade, produtora de fumo. As rela&#231;&#245;es com as redes de parentesco e de   vizinhan&#231;a, a participa&#231;&#227;o na congrega&#231;&#227;o religiosa &#8211; Igreja Luterana &#8211; e o   pertencimento &#233;tnico a que se vinculam &#8211; &#8220;colonos pomeranos&#8221; &#8211; orientam muitas   de suas pr&#225;ticas, valores e vis&#245;es de mundo e os aproximam, mais do que   afastam, dos produtores que seguem outros modelos de trabalho na terra.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Entende-se a fam&#237;lia M&#252;hlemberg n&#227;o como   &#8220;representativa&#8221; dos agricultores de sua localidade, ainda que sua trajet&#243;ria   possa auxiliar a entender quest&#245;es que perpassam contextos mais amplos. Tal   qual a trajet&#243;ria de Menocchio, personagem de Carlo Ginzburg (2006), tentou-se   pensar a trajet&#243;ria da fam&#237;lia M&#252;hlemberg em rela&#231;&#227;o ao seu entorno. Pode-se   dizer que tanto a trajet&#243;ria de Menocchio quanto a dos M&#252;hlemberg, mesmo com   suas idiossincrasias em rela&#231;&#227;o a seus conterr&#226;neos e contempor&#226;neos, tornam-se   reveladoras do contexto de uma regi&#227;o e de uma &#233;poca.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em <i >O   Queijo e os Vermes</i>, Ginzburg (2006) reconstr&#243;i a hist&#243;ria de Domenico   Scandella, o Menocchio, um moleiro que viveu na regi&#227;o do Friuli, It&#225;lia, no   s&#233;culo XVI, &#224; &#233;poca da Inquisi&#231;&#227;o. Menocchio tinha pensamentos muito   particulares acerca da religi&#227;o e dos dogmas da Igreja. Suas ideias   desagradaram ao Santo Of&#237;cio, que o prendeu e o sentenciou &#224; morte. Conforme   observa Ginzburg, as ideias de Menocchio tinham origem em parte nos livros a   que teve acesso, mas em parte ao pr&#243;prio contexto cultural em que estava   inserido. Segundo ele, mesmo um caso limite, como o de Menocchio, pode se   revelar representativo de um contexto, seja negativamente, porque precisa os   padr&#245;es estatisticamente mais frequentes, seja positivamente, porque permite   evidenciar como a cultura popular age diferentemente sobre os indiv&#237;duos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A inser&#231;&#227;o em campo realizou-se, sobretudo,   junto &#224; fam&#237;lia M&#252;hlemberg, acompanhando sua rotina no trabalho e na vida na   propriedade. Tamb&#233;m visitei e entrevistei outras fam&#237;lias das localidades de   Buti&#225; e Coxilha Negra, a maior parte delas dedicada &#224; produ&#231;&#227;o de fumo, e   participei de festas da Comunidade Luterana Menino Jesus de Buti&#225;. Com o   objetivo de abordar mais adequadamente a trajet&#243;ria da fam&#237;lia, al&#233;m da   etnografia, o trabalho de campo esteve baseado em parte na metodologia da   hist&#243;ria oral. Segundo Meihy e Holanda, a hist&#243;ria oral &#8220;recorre &#224; mem&#243;ria como   fonte principal que a subsidia e alimenta as narrativas&#8221;; &#233; o &#8220;passado   espelhado no presente [que] reproduz, atrav&#233;s de narrativas, a din&#226;mica da vida   pessoal em conex&#227;o com procedimentos coletivos&#8221; (2007: 16).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ainda, &#233; preciso notar que neste estudo se fez   uma op&#231;&#227;o por manter os nomes pr&#243;prios dos interlocutores. Como demonstrado por   Claudia Fonseca (2008), a quest&#227;o do uso ou n&#227;o do anonimato no texto   etnogr&#225;fico suscita in&#250;meras controv&#233;rsias entre os pesquisadores, estando   relacionada com dilemas de car&#225;ter &#233;tico e pol&#237;tico. Entendeu-se que colocar os   interlocutores no anonimato n&#227;o faria diferen&#231;a em suas vidas, em parte porque   j&#225; participaram de in&#250;meras outras pesquisas e em parte porque, por suas   particularidades, tornam-se facilmente identific&#225;veis. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>A fam&#237;lia e suas vis&#245;es de mundo</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Seu Roni e Dona L&#250;cia M&#252;hlemberg s&#227;o casados h&#225;   quase 40 anos e h&#225; 35 moram nesta propriedade, no Buti&#225;. S&#227;o pais de Luciano e   Moacir, este &#250;ltimo casado com Lucimara. A propriedade em que vivem, a maior   parte Seu Roni recebeu em heran&#231;a de seu pai. Quando faleceu, o pai de Seu Roni   deixou duas por&#231;&#245;es de terra para os filhos. A propriedade em que a fam&#237;lia   vivia, de 38 hectares (em uma localidade pr&#243;xima ao Buti&#225;), ficou para o filho   mais velho &#8211; o qual tamb&#233;m se tornou respons&#225;vel por cuidar os pais quando   chegaram &#224; velhice. A outra por&#231;&#227;o de terra (que originalmente pertencia &#224;   fam&#237;lia da m&#227;e de Seu Roni), de 50 hectares, foi dividida entre Seu Roni e sua   irm&#227;. Mais tarde, Seu Roni comprou outros 10 hectares, totalizando os 35   hectares que conformam a propriedade em que hoje trabalha com a fam&#237;lia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Luciano, o filho o mais velho do casal, tem 35   anos e &#233; solteiro. &#201; apelidado pelos familiares de &#8220;inventor&#8221; ou &#8220;cientista&#8221;.   Adora ci&#234;ncia e tecnologia, como sempre faz quest&#227;o de dizer. &#201; formado como   t&#233;cnico em agroecologia e j&#225; trabalhou em algumas cooperativas da regi&#227;o.   Atualmente, Luciano est&#225; terminando a gradua&#231;&#227;o em Automa&#231;&#227;o Industrial.   Luciano revela o desejo de permanecer vivendo no interior. Pretende utilizar o   conhecimento que tem adquirido para ajudar sua fam&#237;lia a aumentar a renda que   obt&#233;m da agricultura, contribuindo para viabilizar que se mantenham na   agroecologia, bem como para incentivar que outros colonos adotem esse sistema   de produ&#231;&#227;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Moacir, o filho mais novo, &#233; bastante   diferente de Luciano. Tem 27 anos e &#233; casado. Moacir &#233; apelidado de &#8220;capit&#227;o&#8221;,   uma refer&#234;ncia a seu &#237;mpeto no trabalho na terra. Ele nunca gostou de estudar e   logo que p&#244;de saiu da escola. O que realmente lhe traz satisfa&#231;&#227;o &#233; o trabalho   na propriedade e o pensamento que, a partir dele, poder&#225; um dia prosperar   financeiramente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Moacir e Lucimara moram na casa de Seu Roni.   Explicam que isso &#233; muito comum na regi&#227;o, j&#225; que os casais novos, em geral,   n&#227;o t&#234;m dinheiro para comprar outra propriedade. Eles, no entanto, est&#227;o   inscritos no programa &#8220;Minha casa, minha vida&#8221;.<a href="#_ftn3" name="_ftnref3" title=""><sup><sup>[3]</sup></sup></a> T&#234;m por objetivo construir outra casa para eles na propriedade da fam&#237;lia, que,   ap&#243;s a morte do pai, provavelmente ser&#225; dividida entre os dois irm&#227;os.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Os M&#252;hlemberg s&#227;o produtores agroecol&#243;gicos,   os &#250;nicos da localidade onde moram. Faz mais de 18 anos que eles adotaram esse   tipo de produ&#231;&#227;o, ap&#243;s Seu Roni ter tido problemas de sa&#250;de em decorr&#234;ncia do   uso de agrot&#243;xicos. Nos 35 hectares de sua propriedade, eles cultivam uma   produ&#231;&#227;o bastante variada. Entre os produtos est&#227;o milho, feij&#227;o, soja, batata,   batata-doce, mandioca, cenoura, beterraba, amendoim, al&#233;m de frutas e   hortali&#231;as.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A maior parte desses produtos &#233; vendida na   &#8220;feira do produtor&#8221;, que ocorre semanalmente, aos s&#225;bados, na cidade de S&#227;o   Louren&#231;o do Sul. Deve-se acrescentar que, na feira, os M&#252;hlemberg s&#227;o tamb&#233;m os   &#250;nicos a vender produtos agroecol&#243;gicos, enquanto todos os outros agricultores   comercializam produtos convencionais. Parte da produ&#231;&#227;o tamb&#233;m serve ao   autoconsumo da fam&#237;lia e outra parte &#233; destinada &#224; alimenta&#231;&#227;o dos animais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A fam&#237;lia &#233; aqui entendida tamb&#233;m como unidade   de produ&#231;&#227;o agr&#237;cola. Como aponta Klaas Woortmann (1990), &#8220;nas culturas   camponesas, n&#227;o se pensa a terra sem pensar a fam&#237;lia e o trabalho, assim como   n&#227;o se pensa o trabalho sem pensar a terra e a fam&#237;lia&#8221;. E &#233; o patriarca, ou   &#8220;pai-patr&#227;o&#8221; (para os sitiantes de Sergipe estudados por Woortmann e Woortmann   1997), aquele que governa o trabalho da fam&#237;lia. &#8220;O pai de fam&#237;lia &#233; como o   &#8216;dono&#8217; do saber, componente da hierarquia familiar&#8221; (Woortmann e Woortmann 1997: 38-39).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Desde que se casou e come&#231;ou a trabalhar por   conta pr&#243;pria na agricultura, Seu Roni utilizara agrot&#243;xicos. Chegou mesmo a   empregar muito &#8220;veneno&#8221;, como conta. No entanto, com o tempo, foi adquirindo   feridas na pele (principalmente p&#233;s e pernas), que n&#227;o cicatrizavam, al&#233;m de   sentir mal-estar, enjoos e &#226;nsia de v&#244;mito; problemas causados, segundo   acredita, pelo uso de agrot&#243;xicos. As narrativas de intoxica&#231;&#227;o s&#227;o bastante   frequentes entre os produtores que, nesta regi&#227;o, aderiram &#224; agroecologia (Pinheiro   2010). Foi assim que Seu Roni e sua fam&#237;lia tornaram-se produtores   agroecol&#243;gicos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">No in&#237;cio, ele integrava um grupo de   produtores ecol&#243;gicos que reunia mais 11 produtores do munic&#237;pio. Com o tempo,   entretanto, foram crescendo as dificuldades em obter rendimento satisfat&#243;rio a   partir desse modelo de produ&#231;&#227;o. Foi assim que todos, &#224; exce&#231;&#227;o de Seu Roni,   abandonaram a proposta e sa&#237;ram do grupo, deixando de produzir de forma   agroecol&#243;gica, retornando &#224; agricultura dita &#8220;convencional&#8221; ou mesmo aderindo &#224;   produ&#231;&#227;o de fumo, em que &#233; particularmente intenso o uso de agroqu&#237;micos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Seu Roni lamenta, dizendo que n&#227;o est&#225; f&#225;cil   continuar na agroecologia. Parte de sua produ&#231;&#227;o, que antes era adquirida pela   Coopar (Cooperativa Mista dos Pequenos Agricultores da Regi&#227;o Sul), hoje j&#225; n&#227;o   tem escoamento. A batata, por exemplo, &#8220;j&#225; est&#225; criando brote no galp&#227;o&#8221;,   lastima ele. Segundo Costa (1984), S&#227;o Louren&#231;o do Sul j&#225; foi o principal   produtor de batatas do Brasil, chegando a exportar, na d&#233;cada de 1960, para   diversas regi&#245;es do pa&#237;s e do exterior, como Uruguai e Argentina. Entretanto,   agora a batata &#233; produzida em larga escala &#8211; e com agrot&#243;xicos &#8211;, pelos   &#8220;grandes&#8221; (produtores), no Paran&#225; e em S&#227;o Paulo, chegando aos consumidores   locais a pre&#231;o bastante inferior, al&#233;m de apresentar apar&#234;ncia mais &#8220;bonita&#8221;   que aquelas produzidas sem agrot&#243;xicos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Na feira, o que se vende ainda &#233; pouco. A   concorr&#234;ncia com os supermercados e com os demais feirantes &#233; grande. Os   supermercados compram alimentos vindos de outros lugares e produzidos em larga   escala, vendendo-os a pre&#231;os bem mais baixos que os daqueles produzidos   localmente. Ainda, para atrair fregueses, &#224;s vezes os supermercados colocam   pre&#231;os quase mais baixos do que o valor que pagaram pela mercadoria, diz Seu   Roni. Para ter alguma chance de venda, lado a lado com os outros feirantes   (produtores convencionais), ele nunca eleva seus pre&#231;os muito al&#233;m do que os   outros pedem, mesmo sabendo que, no modelo em que produz, tem muito mais   trabalho.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Atualmente, na propriedade de Seu Roni, est&#225;   sendo implementada uma &#225;rea de SAF. Cercou-se um terreno de 10 m x   10 m (para proteger dos animais) e l&#225;, com o acompanhamento da Embrapa,   foram inicialmente plantadas esp&#233;cies frut&#237;feras (laranjeira, bergamoteira),   milho e aduba&#231;&#227;o verde (mucuna, feij&#227;o mi&#250;do, entre outros). O projeto consiste   em, uma vez crescidas um pouco as frut&#237;feras e derrubada a aduba&#231;&#227;o verde,   plantar outras esp&#233;cies. Dando certo, o objetivo &#233; ter cultivados alimentos   para o autoconsumo e para a venda na feira.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">As plantas est&#227;o crescendo. Seu Roni realiza o   manejo periodicamente. Contudo, ele ainda se encontra um tanto c&#233;tico em   rela&#231;&#227;o aos resultados que este sistema poder&#225; trazer. Por enquanto, rejeita   categoricamente a op&#231;&#227;o de implement&#225;-lo no restante da propriedade e tem   certeza que seus vizinhos, que em sua maioria lidam com a produ&#231;&#227;o de fumo,   dificilmente permitir&#227;o que se implemente em suas propriedades &#225;rea semelhante.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Para Seu Roni e demais colonos da regi&#227;o, o   ideal de cultivar a terra &#233; drasticamente oposto &#224;quele proposto pelos   idealizadores dos SAF. Desde que seus primeiros antepassados estabeleceram-se   nas col&#244;nias, entenderam que para criar uma lavoura precisavam limpar todo o   terreno e plantar os cultivos em carreiras (linhas retas). O SAF, com os   cultivos concentrados em pequenos espa&#231;os, transmite a eles certa ideia de   &#8220;plantar no meio do mato&#8221;, de descuido, &#8220;relaxamento&#8221;. Mesmo para Seu Roni, que   se preocupa em realizar uma agricultura que n&#227;o agrida tanto a natureza &#8211; o que   poderia aproxim&#225;-lo da proposta do SAF &#8211;, a presen&#231;a de outras concep&#231;&#245;es acaba   por afast&#225;-lo do modelo implantado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Seu Roni, entretanto, sente-se pouco &#224; vontade   para abandonar o projeto iniciado pela Embrapa. Outros projetos da mesma   institui&#231;&#227;o tamb&#233;m s&#227;o desenvolvidos em sua propriedade, introduzindo   cultivares para experimentos e sugest&#245;es de t&#233;cnicas de manejo. A rela&#231;&#227;o com o   pesquisador da Embrapa j&#225; vem de longa data. Por meio dela, Seu Roni e Dona   L&#250;cia j&#225; puderam viajar para eventos e para conhecer propriedades de agricultores   ecol&#243;gicos de outros munic&#237;pios do estado e de outras regi&#245;es do pa&#237;s. Nesse   sentido, embora n&#227;o concordem com o projeto, a rela&#231;&#227;o de reciprocidade com o   pesquisador da Embrapa os impede de rejeit&#225;-lo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Como demonstraram Woortmann e Woortmann   (1997), o trabalho na terra envolve c&#225;lculos, com o objetivo de minimizar   riscos. &#8220;O desperd&#237;cio de trabalho, de tempo, de terra e de sementes contraria   frontalmente a &#233;tica camponesa. Poupar recursos &#233; componente central de todo o   c&#225;lculo da sua produ&#231;&#227;o&#8221; (Woortmann e Woortmann 1997: 56). Nesse sentido,   &#8220;o cultivo, visto como um c&#225;lculo, implica um conjunto de fatores. De um lado,   os macrossociol&#243;gicos, determinados pelas transforma&#231;&#245;es da estrutura agr&#225;ria   da regi&#227;o e das condi&#231;&#245;es de acesso &#224; terra [&#8230;]. Por outro lado, as condi&#231;&#245;es   de cultivo dependem ainda do ciclo de desenvolvimento do grupo dom&#233;stico&#8221;   (&#173;Woortmann e Woortmann 1997: 127-128).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Na lida cotidiana na propriedade, o trio Seu   Roni, Moacir e Lucimara quase sempre trabalha junto. Luciano, como j&#225; dito, estuda   e trabalha fora de casa. Quando ele est&#225; na propriedade, entretanto, tamb&#233;m   ajuda na lavoura ou em outras tarefas. Dona L&#250;cia &#233; respons&#225;vel pela casa e   pela comida, no que tamb&#233;m &#233; ajudada por Lucimara, que volta da ro&#231;a antes do   hor&#225;rio das refei&#231;&#245;es. Dona L&#250;cia tamb&#233;m trabalha na lavoura, em tarefas que   necessitem da ajuda de mais uma pessoa, como na capina dos &#8220;in&#231;os&#8221;, na colheita   de alguns produtos e no cuidado da horta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Woortmann e Woortmann (1997: 135)   comentam como, no mundo campon&#234;s, o trabalho constr&#243;i tamb&#233;m as rela&#231;&#245;es entre   homens e mulheres. Assim que &#8220;o processo de trabalho, visto como processo   ritual, constr&#243;i o g&#234;nero&#8221;. Entre os sitiantes sergipanos por eles estudados,   enquanto &#224; mulher cabe voltar-se para dentro &#8211; a casa &#8211;, ao homem &#233; reservado o   mundo l&#225; fora, desde a lavoura, externa &#224; casa, passando pela feira, at&#233; o   pr&#243;prio mundo, de forma geral.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Na propriedade, quase tudo que &#233; consumido na   alimenta&#231;&#227;o &#233; produzido pela fam&#237;lia. Al&#233;m das frutas, vegetais, hortali&#231;as e   temperos (bem como alguns ch&#225;s, que tamb&#233;m s&#227;o cultivados na horta), a fam&#237;lia   tem uma pequena cria&#231;&#227;o de animais para &#8220;o gasto&#8221;. Criam galinhas, porcos e   vacas &#8211; na realidade, uma vaca (da qual tiram o leite que consomem), uma   terneira e tr&#234;s bois. A vaca e a terneira foram presentes dos pais de Lucimara,   por ocasi&#227;o do casamento dela com Moacir. O esterco do gado tamb&#233;m &#233;   aproveitado como aduba&#231;&#227;o, depois de servir de alimento para as minhocas.   Parece que a fam&#237;lia busca seguir o que Woortmann e Woortmann (1997) denominaram   de &#8220;princ&#237;pio de internaliza&#231;&#227;o dos recursos da propriedade&#8221;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A pr&#225;tica da fam&#237;lia na agroecologia, segundo   justifica Seu Roni, ocorre por v&#225;rios motivos, entre eles o cuidado com a   sa&#250;de, como j&#225; foi dito. Percebe-se, al&#233;m disso, que outros fatores tamb&#233;m   orientam essa escolha. &#201; o caso do que diz respeito a vis&#245;es de mundo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Assim como os sitiantes sergipanos observados   pelos Woortmann, Seu Roni   acredita que a terra &#233; dada por Deus para os homens trabalharem. A rela&#231;&#227;o com   a terra envolve, assim, respeito e reciprocidade, n&#227;o uma atitude de explora&#231;&#227;o   m&#225;xima. Com isso, torna-se moralmente errado &#8220;envenen&#225;-la&#8221; com o uso de   agrot&#243;xicos. Em seu modo de ver, o uso de agrot&#243;xicos &#8211; assim como tamb&#233;m os   transg&#234;nicos &#8211; causa preju&#237;zos &#224; terra, al&#233;m de danos &#224; sa&#250;de daqueles que   utilizam o &#8220;veneno&#8221; e dos que consomem os alimentos. Ele diz que modificar a   natureza desse modo, pela m&#227;o do homem, n&#227;o pode ser da vontade de Deus.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Seu Roni busca na B&#237;blia a fonte de muitas de   suas convic&#231;&#245;es. Para ele, a mudan&#231;a de tempos, anunciada no livro sagrado, j&#225;   est&#225; a se observar. As mortes em massa e as trag&#233;dias que diariamente est&#227;o   presentes nas not&#237;cias seriam provas do desrespeito &#224; natureza &#8211; &#8220;natureza de   Deus&#8221;. Ele relembra uma passagem b&#237;blica, segundo ele, que diz que &#8220;no dia em   que o homem come&#231;ar a roubar &#224; terra, o mundo se transformar&#225; para pior&#8221;. Para   Seu Roni esse tempo j&#225; come&#231;ou.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Conforme aponta Carlos Rodrigues Brand&#227;o   (1986), h&#225; entre os grupos camponeses, independentemente da religi&#227;o oficial a   que se filiem, um padr&#227;o de religiosidade popular mais voltado para a vida   cotidiana, o trabalho na terra e com fronteiras pouco precisas entre magia e   religi&#227;o propriamente dita. Joana Bahia (2011), a partir de estudo na regi&#227;o   serrana do Esp&#237;rito Santo no final da d&#233;cada de 1990, observa que os camponeses   pomeranos costumam ter uma vis&#227;o particular da religi&#227;o luterana, que n&#227;o   necessariamente &#233; id&#234;ntica &#224;quela oficial, pregada pelo pastor, mas sim mais   associada com a vida cotidiana, no campo. Costumam crer e executar diversas   pr&#225;ticas de car&#225;ter m&#225;gico-religioso, que muitas vezes entram em conflito com a   autoridade religiosa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Segundo Woortmann e Woortmann   (1997: 132), &#8220;o pr&#225;tico e o simb&#243;lico se fundem no processo de trabalho&#8221;.</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">&#8220;O saber m&#225;gico e as cren&#231;as religiosas, para os trobriandeses,     tanto quanto para os sitiantes (benzer o pasto e o gado ou recorrer aos santos,     por exemplo), s&#227;o t&#227;o necess&#225;rios quanto o saber &#8216;t&#233;cnico&#8217;, e conhec&#234;-los &#233;     fundamental para que o antrop&#243;logo possa dar sentido ao esfor&#231;o produtivo&#8221;     (Woortmann e Woortmann 1997: 15).<a href="#_ftn4" name="_ftnref4" title=""><sup><sup>[4]</sup></sup></a></font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Woortmann e Woortmann ainda   complementam: muito al&#233;m da t&#233;cnica, &#8220;o processo de preparo da terra, como um   todo, tamb&#233;m envolve uma dimens&#227;o m&#225;gico-religiosa: <i >frills</i>, como diria Leach&#8221; (1965 <i >apud</i> Woortmann e &#173;Woortmann 1997: 60). Para Leach, &#8220;o processo de trabalho,   al&#233;m de suas dimens&#245;es t&#233;cnicas, possui tamb&#233;m seus <i >frills</i> e <i >decorations</i>. S&#227;o   eles que fazem do trabalho Kachin um trabalho Kachin, e o mesmo pode ser dito   com rela&#231;&#227;o aos sitiantes que estudamos&#8221; (Woortmann e Woortmann   1997: 134).<a href="#_ftn5" name="_ftnref5" title=""><sup><sup>[5]</sup></sup></a> Desse   modo, &#8220;a pr&#225;tica da lavoura &#233; informada por um modelo cosmol&#243;gico&#8221; (&#173;Woortmann   e Woortmann 1997: 166).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Para Seu Roni, os agricultores que n&#227;o se   preocupam com isso &#8220;n&#227;o t&#234;m f&#233;&#8221;. &#8220;N&#227;o se importam se aquele alimento que eles   v&#227;o vender far&#225; mal para as pessoas da cidade, at&#233; mesmo para as criancinhas;   dizem que se os consumidores da cidade tamb&#233;m n&#227;o se preocupam deve ser porque   &#233; isso mesmo que eles querem&#8221;. Em outra ocasi&#227;o, em conversa com Patr&#237;cia   Pinheiro (2010: 144), Seu Roni comentou:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">&#8220;Tu pode ver, muito colono planta batata-inglesa, mas ele n&#227;o come. Mas     ent&#227;o ele sabe que faz mal [aplicar agroqu&#237;micos]. Ent&#227;o &#233; confian&#231;a. Mas     aquelas pessoas que moram na cidade [que consomem], tamb&#233;m s&#227;o humanas. Se n&#243;s     [agricultores] n&#227;o temos coragem de comer aquilo ali, imagina [os outros]. Todo     colono que planta batata-inglesa, ele sempre plantava uma lavourinha separada     para ele comer. Ent&#227;o por que ele faz isso&#63; Ent&#227;o ele sabe t&#227;o bem quanto n&#243;s     que isso faz mal.&#8221;</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">O respeito &#224; natureza, para Seu Roni, vai al&#233;m da lavoura. Na   propriedade, tenta sempre manter uma ou mais &#225;reas de mato, enquanto os outros   colonos, como ele diz, j&#225; derrubaram tudo. Seu Roni conta que alguns vizinhos   at&#233; j&#225; se ofereceram para comprar a madeira que resultaria da derrubada de suas   &#225;reas de mato. Mas ele sempre se recusa a fazer isso. Ele entende que n&#227;o pode   s&#243; tirar da terra, &#8220;tem que manter um pouco de mato para ela n&#227;o enfraquecer   demais&#8221;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Por fim, &#233; preciso dizer que, al&#233;m das   concep&#231;&#245;es de fundo religioso, compartilhadas em maior ou menor grau com os   demais membros da comunidade religiosa, outras correntes de pensamento tamb&#233;m   orientam o caminho da fam&#237;lia pela agroecologia. &#201; o caso de ansiedades   presentes no mundo contempor&#226;neo, como as quest&#245;es de cunho ambiental, mudan&#231;as   clim&#225;ticas, aquecimento global, sempre citadas nas conversas com eles. Pode-se   sugerir, nesse sentido, que os diferentes elementos presentes na vis&#227;o de mundo   da fam&#237;lia t&#234;m origem nas diferentes redes de rela&#231;&#245;es a que ela encontra-se   filiada, como procura-se mostrar mais &#224; frente. Na terminologia de Bruno Latour   (1994), se trataria, por um lado, de &#8220;redes longas&#8221;, com atores de diferentes   contextos ligados ao movimento agroecol&#243;gico e, por outro, de &#8220;redes curtas&#8221;,   como as de parentesco, vizinhan&#231;a e religi&#227;o. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Entre o individual e o coletivo: rupturas e continuidades</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Nas localidades de Buti&#225;   e Coxilha Negra h&#225; grande presen&#231;a de fam&#237;lias de origem alem&#227; e pomerana e de   fam&#237;lias afrodescendentes. Em menor propor&#231;&#227;o, h&#225; tamb&#233;m algumas fam&#237;lias de   &#8220;brasileiros&#8221; (designa&#231;&#227;o para os colonos que n&#227;o descendem de origem &#233;tnica   europeia). A maioria dos pomeranos pertence &#224; religi&#227;o luterana, j&#225; os   afrodescendentes e brasileiros s&#227;o cat&#243;licos. Nas festas, os membros de ambas   as comunidades se misturam: cat&#243;licos participam de festas luteranas e   luteranos das festas cat&#243;licas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Segundo relatam, as pomeranas, com certa   frequ&#234;ncia, se casam com brasileiros, mas os homens pomeranos s&#227;o   desaconselhados a se casar com mulheres brasileiras. Uma vez que &#233; a mulher, na   cultura pomerana, a respons&#225;vel pela manuten&#231;&#227;o das tradi&#231;&#245;es, se ela integra o   casal est&#225; assegurada a continuidade, ao contr&#225;rio do que ocorre quando a   mulher &#233; de outra origem &#233;tnica. N&#227;o se fala de casos de casamento entre   afrodescendentes e pomeranos. Os afrodescendentes s&#227;o, em geral, mais   empobrecidos que os demais. Alguns trabalham com sua pr&#243;pria planta&#231;&#227;o de fumo,   outros trabalham como diaristas para os colonos. Os pomeranos dizem que,   &#8220;apesar de a maioria ser gente muito boa, n&#227;o gostam muito de trabalhar e por   isso n&#227;o prosperam&#8221;. Parece haver a&#237;, claramente, duas concep&#231;&#245;es de trabalho   muito distintas. A dos colonos pomeranos, atrelada a toda uma &#233;tica da igreja   luterana, de &#8220;trabalhar de sol a sol&#8221;, e outra dos afrodescendentes, carregada,   possivelmente, desde os tempos da escravid&#227;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Hoje em dia, a grande maioria dos produtores   tem como principal atividade econ&#244;mica o cultivo de fumo. Quase todos explicam   sua entrada e perman&#234;ncia na fumicultura pela impossibilidade de praticar outra   atividade. A fam&#237;lia Oswald, por exemplo, produzia leite, enquanto que os Bork   vendiam alimentos para o &#8220;caminh&#227;o&#8221;, que recolhia a produ&#231;&#227;o para vender na   cidade. Contudo, com o tempo, a renda que obtinham nessas atividades deixou de   suprir suas necessidades.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Para o autoconsumo, algumas dessas fam&#237;lias   criam gado de leite, animais para carne (porcos, galinhas, reses) e plantam,   principalmente, milho e feij&#227;o, al&#233;m de cultivarem hortas. Alguns n&#227;o empregam   qualquer tipo de agrot&#243;xico nesses cultivos, mas a maior parte desses   camponeses os utiliza. Entretanto, muitos precisam comprar os alimentos que n&#227;o   produzem. A maioria opta por comprar nos armaz&#233;ns na col&#244;nia ou vai ao mercado,   na cidade. Alguns vizinhos compravam alimentos de Seu Roni (diziam que a produ&#231;&#227;o   ecol&#243;gica era mais saud&#225;vel), principalmente batatas, mas pararam de faz&#234;-lo,   em raz&#227;o de os pre&#231;os no mercado estarem mais baixos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Os M&#252;hlemberg parecem ser vistos pela   comunidade com certa ambiguidade. Se, por um lado, essas fam&#237;lias, mesmo trabalhando   com a produ&#231;&#227;o de fumo, avaliam em seus discursos que a produ&#231;&#227;o ecol&#243;gica &#233;   mais saud&#225;vel para as pessoas e melhor para a terra; por outro, olham com certa   desconfian&#231;a para o trabalho da fam&#237;lia M&#252;hlemberg. Seu Roni conta que em   muitos momentos j&#225; foi chamado de louco e que seu trabalho foi posto em d&#250;vida   in&#250;meras vezes: &#8220;Diziam que isto n&#227;o daria certo, que era loucura&#8221;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Al&#233;m da conviv&#234;ncia na rede de vizinhan&#231;a com   produtores de fumo &#8211; que fazem parte da mesma comunidade religiosa que a   fam&#237;lia M&#252;hlemberg &#8211;, a fumicultura tamb&#233;m est&#225; presente no interior de sua   rede de parentesco. Alguns membros da fam&#237;lia extensa, como o irm&#227;o de Dona   L&#250;cia, s&#227;o produtores de fumo. No &#250;ltimo inverno, ap&#243;s uma forte chuva de   granizo, o irm&#227;o de Dona L&#250;cia, cunhado de Seu Roni, perdeu quase toda a   planta&#231;&#227;o. Seu Roni e os dois filhos abandonaram um dia de trabalho em sua   propriedade para ajudar, junto com outros parentes, o cunhado a recolher o que   sobrara.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">&#201; preciso notar ainda que, n&#227;o obstante as   concep&#231;&#245;es bem formadas e as eventuais cr&#237;ticas aos demais agricultores, ditos   convencionais, Seu Roni n&#227;o considera que todos devam adotar o modo de produ&#231;&#227;o   agroecol&#243;gico &#8211; fato que, &#224; primeira vista, parece um tanto curioso. Ele   entende que n&#227;o h&#225; espa&#231;o para todos nesse modelo. A feira n&#227;o comportaria mais   produtores vendendo alimentos e n&#227;o haveria, a seu ver, outro meio de absorver   essa produ&#231;&#227;o. Embora algumas vezes critique, em outros momentos ele reconhece   que mesmo aqueles que trabalham com o fumo atualmente n&#227;o teriam outra op&#231;&#227;o.   Preocupa-se, inclusive, com as legisla&#231;&#245;es que visam extinguir essa atividade   at&#233; 2020.<a href="#_ftn6" name="_ftnref6" title=""><sup><sup>[6]</sup></sup></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Anteriormente, Patr&#237;cia Pinheiro havia   apontado rela&#231;&#227;o, nesta regi&#227;o, entre a produ&#231;&#227;o de base ecol&#243;gica e a de fumo:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">&#8220;Outro exemplo de complexidade da     agricultura de base ecol&#243;gica est&#225; em sua rela&#231;&#227;o com o cultivo de tabaco.     Convivendo com certa proximidade, por estar relacionado diretamente com a     agricultura familiar, esse cultivo est&#225; presente em muitas propriedades que     tamb&#233;m mant&#234;m cultivos de base ecol&#243;gica&#8221; (2010: 168).</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Ainda como observado   pela autora, embora agroecologia e produ&#231;&#227;o de fumo sejam comumente   identificadas como pertencentes a polos opostos, para a maior parte dos   agricultores essas pr&#225;ticas n&#227;o s&#227;o percebidas como t&#227;o &#173;distantes, sendo   inclusive encontr&#225;veis em uma mesma propriedade: &#8220;A agricultura de base   ecol&#243;gica &#233; constantemente situada como contraponto ao fumo &#8211; s&#227;o produ&#231;&#245;es   consideradas pelos mediadores como conflitantes &#8211;, por&#233;m nas propriedades da   rede a presen&#231;a de um n&#227;o necessariamente exclui o outro&#8221; (Pinheiro   2010: 147).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Se, por uma perspectiva t&#233;cnica e econ&#244;mica,   as produ&#231;&#245;es de fumo e agroecol&#243;gica se situam bem distanciadas, de outra   perspectiva, pensando as rela&#231;&#245;es de vizinhan&#231;a e de parentesco, elas n&#227;o est&#227;o   t&#227;o distantes assim. Valores associados &#224; ecologia e &#224; sustentabilidade s&#227;o,   dessa forma, conjugados pela fam&#237;lia juntamente com outros valores, oriundos   das rela&#231;&#245;es comunit&#225;rias, da rede de vizinhan&#231;a e parentesco.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Se o trabalho na terra a partir da agroecologia   diferencia a fam&#237;lia &#173;M&#252;hlemberg da maior parte dos membros da comunidade &#8211; o   que pode, de algum modo, afast&#225;-los da vizinhan&#231;a &#8211;, as festas podem ser   percebidas como ocasi&#245;es de reencontro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A festa &#233; tomada aqui como l&#243;cus privilegiado   de observa&#231;&#227;o das rela&#231;&#245;es sociais, uma vez que &#233; entendida como &#8220;express&#227;o dos   valores da sociedade&#8221;, tal como proposto por Menasche e Wedig (s.d., no   prelo). Refletindo sobre as rela&#231;&#245;es entre campo e cidade, essas autoras   resgatam o cl&#225;ssico estudo de Bourdieu (2006), que analisa o baile campon&#234;s na   regi&#227;o francesa do B&#233;arn dos anos 1960, para pensar sobre as festas por elas   observadas entre colonos alem&#227;es na regi&#227;o ga&#250;cha do Vale do Taquari.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A fam&#237;lia M&#252;hlemberg, bem como as de muitos de   seus vizinhos, &#233; associada &#224; comunidade luterana Menino Jesus de Buti&#225;. Tal   como &#233; costume em outras comunidades luteranas da regi&#227;o, uma vez por ano &#8211; em   setembro &#8211; &#233; organizada uma festa em que s&#227;o recebidos visitantes vindos de   outras localidades, assim como da cidade. Existe uma esp&#233;cie de circuito de   festas. A cada domingo acontece uma festa em alguma comunidade do munic&#237;pio ou   de munic&#237;pios vizinhos. Na ocasi&#227;o, as demais comunidades dirigem-se ao local   para prestigiar a iniciativa. A fam&#237;lia M&#252;hlemberg, junto com outros membros de   sua comunidade, participa de festas em quase todos os fins de semana.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">No Buti&#225;, a festa tem in&#237;cio com o culto na   igreja, seguido de almo&#231;o &#8211; <i >buffet</i> com churrasco, saladas, p&#227;es, cucas &#8211; e, &#224; tarde, baile com banda &#8220;estilo   alem&#227;o&#8221; (para os mais velhos). Durante a tarde tamb&#233;m ocorrem sorteios de rifas   e jogos, na parte externa do sal&#227;o. &#192; noite, os jovens confraternizam em outro   baile, esse com m&#250;sica de discoteca.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A festa da comunidade Menino Jesus tem por   tradi&#231;&#227;o servir, dentre outros pratos, uma sopa de galinha e um caldo preparado   com carne, feij&#227;o e temperos (como eles explicam, uma esp&#233;cie de mocot&#243; sem   mondongo), batizado de &#8220;caldo pomerano&#8221;. Tamb&#233;m nos casamentos de membros da   comunidade, realizados no mesmo sal&#227;o, caldo e sopa n&#227;o podem faltar. Na   realidade, mocot&#243; e sopa de galinha s&#227;o pratos recorrentes em outras   localidades da regi&#227;o, nas festas de comunidades em que existe forte presen&#231;a   de camponeses de origem pomerana.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Caldo e sopa s&#227;o produtos e produtores de   divis&#245;es de g&#234;nero. Enquanto o primeiro &#233; preparado pelos homens, o segundo   fica a cargo das mulheres. Geralmente &#233; um casal bem considerado pela   comunidade que fica respons&#225;vel por essa fun&#231;&#227;o, no que &#233; auxiliado por outros   homens e mulheres mais novos. No Buti&#225;, nos casamentos e festas comunit&#225;rias,   j&#225; h&#225; bastante tempo o preparo desses pratos fica a cargo de Seu Roni e de Dona   L&#250;cia.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Marcel Mauss (2003) observa que as trocas   est&#227;o na base das alian&#231;as que constituem a sociedade. Essas trocas podem ser   de bens materiais ou imateriais (servi&#231;os, rituais, hospitalidade, etc.) e s&#227;o   de outra natureza que a estritamente utilit&#225;ria &#8211; a troca justifica-se por si   mesma e pela alian&#231;a que gera, n&#227;o pela coisa trocada, que representa mais o   meio pelo qual a rela&#231;&#227;o &#233; estabelecida. A troca pressup&#245;e, ainda, as   obriga&#231;&#245;es de &#8220;dar, receber e retribuir&#8221;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">&#201; atrav&#233;s da feitura do caldo e da sopa que   Seu Roni e Dona L&#250;cia estabelecem uma reciprocidade com o coletivo. Quando s&#227;o   convidados para um casamento, &#233; esse o presente que se espera deem aos noivos.   Nas festas da comunidade, tal qual seus pares, doam seu trabalho, al&#233;m de   aportarem a maior parte dos ingredientes a serem usados na prepara&#231;&#227;o dos   pratos sob sua responsabilidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Essa reciprocidade assume por vezes o sentido   mesmo de obriga&#231;&#227;o. Seu Roni confidencia que, j&#225; aos 63 anos, gostaria de parar   de preparar o caldo, mas ainda n&#227;o encontrou algu&#233;m que pudesse substitu&#237;-lo.   Nenhum de seus ajudantes nem de seus filhos se coloca dispon&#237;vel para assumir a   obriga&#231;&#227;o de seguir o preparo do caldo em seu lugar. Eles parecem conhecer bem   as consequ&#234;ncias de assumir essa responsabilidade e, por isso mesmo, declinam a   indica&#231;&#227;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Assim, se as particularidades da fam&#237;lia s&#227;o   importantes para entender muito de seu comportamento e de suas escolhas, que   conformaram sua trajet&#243;ria de vida (sobretudo no que diz respeito ao trabalho   na agroecologia), a rela&#231;&#227;o com o coletivo (seu pertencimento &#233;tnico e   religioso, a pr&#243;pria inser&#231;&#227;o na comunidade luterana e as rela&#231;&#245;es de   vizinhan&#231;a e parentesco) tamb&#233;m se faz importante para entender como essa   fam&#237;lia &#233;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Como j&#225; visto, Ginzburg (2006) define a   trajet&#243;ria de Menocchio analisando, por um lado, suas escolhas individuais   (leituras e teorias com que simpatizava) e, por outro, o pr&#243;prio contexto   social e temporal em que estava inserido localmente (a cultura camponesa   daquela regi&#227;o e &#233;poca). Assim como Menocchio, a fam&#237;lia interlocutora desta   pesquisa apenas pode ser parcialmente definida por aquilo que representa suas   diferen&#231;as; outra parte adv&#233;m de sua inser&#231;&#227;o em uma comunidade e em uma &#233;poca   definidas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Mesmo que haja diverg&#234;ncias entre os membros   da comunidade quanto a escolhas e concep&#231;&#245;es, em suma, mesmo que essa   comunidade n&#227;o seja &#173;homog&#234;nea &#8211; como quem sabe alguns pensassem &#8211;, ainda assim   n&#227;o se pode atribuir todos os comportamentos a decis&#245;es individuais. A vida   comunit&#225;ria tem um papel importante no modo de vida da fam&#237;lia M&#252;hlemberg.   Contudo, ainda &#233; preciso tornar claro o que entendemos por comunidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Para Ant&#244;nio Candido (1987), o trabalho   compartilhado e a participa&#231;&#227;o nas festas religiosas s&#227;o os dois principais   elementos de conforma&#231;&#227;o de uma comunidade rural. Em seu estudo sobre os   bairros rurais de S&#227;o Paulo na d&#233;cada de 1950, o autor mostrou como os mutir&#245;es   de trabalho e a organiza&#231;&#227;o das festas conformavam tais comunidades. Como   descreve, para solucionar o problema da m&#227;o de obra na realiza&#231;&#227;o de   determinadas atividades agr&#237;colas que demandavam mais pessoas que aquelas   dispon&#237;veis no grupo familiar, os vizinhos organizavam-se em mutir&#245;es de trabalho.   Da mesma forma, as festas religiosas eram organizadas conjuntamente entre os   vizinhos, que revezavam-se &#224; frente da organiza&#231;&#227;o, revezando tamb&#233;m o senso de   responsabilidade entre os copart&#237;cipes. Assim, para o autor, a reciprocidade   gerada a partir dos mutir&#245;es e das festas constitu&#237;a-se como elemento de   aproxima&#231;&#227;o da vizinhan&#231;a e conformava a comunidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">John Comerford define comunidade rural como:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">&#8220;[&#8230;] um grupo concreto delimitado em     termos territoriais (a popula&#231;&#227;o de uma localidade, distrito, munic&#237;pio) e em     termos de sua atividade (pessoas que se ocupam de atividades &#8220;rurais&#8221;, ligadas     &#224; agricultura e &#224; pecu&#225;ria), mas, ao mesmo tempo, a express&#227;o sugere que esse     grupo se organiza a partir de rela&#231;&#245;es de proximidade e solidariedade, em que     sobressaem a import&#226;ncia do parentesco, vizinhan&#231;a, coopera&#231;&#227;o no trabalho,     coparticipa&#231;&#227;o nas atividades l&#250;dico-religiosas, apontando para valores de     harmonia e consenso&#8221; (2005: 112).</font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Comerford alerta para a impossibilidade de pensar uma comunidade enquanto unidade   homog&#234;nea e aponta as dimens&#245;es conflitivas da vida comunit&#225;ria. Segundo o   autor: &#8220;v&#225;rios estudos feitos em comunidades rurais mostram que a solidariedade   e a igualdade que caracterizam tais comunidades s&#227;o indissoci&#225;veis de uma   dimens&#227;o conflitiva, como dois lados de uma mesma moeda&#8221; (Comerford   2005: 117). O autor destaca, ainda, a no&#231;&#227;o de comunidade moral,   introduzida pelo antrop&#243;logo ingl&#234;s Frederick George &#173;Bailey, que enfatiza a   depend&#234;ncia do julgamento rec&#237;proco em termos de dados valores morais, com base   em determinados c&#243;digos comunicativos e meios de circula&#231;&#227;o de informa&#231;&#245;es e   julgamentos morais (como a fofoca). Para Bailey, o conflito seria constitutivo   das rela&#231;&#245;es comunit&#225;rias.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em seu pr&#243;prio estudo, realizado na regi&#227;o da   Zona da Mata de Minas Gerais, John Comerford (2004) demonstrou como os   conflitos entre membros de uma comunidade e as narrativas desses conflitos   fazem parte da sociabilidade camponesa. Apesar do discurso de que &#8220;todo mundo   se d&#225; bem&#8221;, os conflitos fazem parte da realidade di&#225;ria; surgem a partir da   observa&#231;&#227;o do comportamento dos demais &#8211; da vigil&#226;ncia m&#250;tua &#8211; e das narrativas   textuais geradas a partir da observa&#231;&#227;o: a conversa, a cr&#237;tica, a goza&#231;&#227;o e a   fofoca. Para ele, o conflito diz respeito ao que denomina de &#8220;cosmologia   pr&#225;tica&#8221;, centrada na no&#231;&#227;o de respeito. &#8220;Briga-se por tudo o que possa ser   visto como provoca&#231;&#227;o, como desrespeito. E, diante do desrespeito, depara-se   justamente com a amea&#231;a a uma viga mestra desse universo social: o respeito&#8221;   (Comerford 2004: 3-4).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">As comunidades, assim, definem os   pertencimentos: aqueles que pertencem e os outros, que s&#227;o os de fora. Essas   comunidades, contudo, n&#227;o s&#227;o fechadas e seus membros ligam-se a outros atores,   em outras redes de rela&#231;&#245;es.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Patr&#237;cia Pinheiro (2010) mostra como   produtores, consumidores e membros de institui&#231;&#245;es vinculadas &#224; agroecologia,   mesmo distanciados fisicamente, acabam constituindo redes de rela&#231;&#245;es em torno   da agroecologia. Isso &#233; o que ocorre tamb&#233;m com a fam&#237;lia de Seu Roni que, ao   longo dos anos, estabeleceu rela&#231;&#245;es com institui&#231;&#245;es ligadas de alguma forma &#224;   agroecologia, como o CAPA (Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor) e a Embrapa,   com outros produtores agroecol&#243;gicos &#8211; muitas vezes a partir da media&#231;&#227;o dessas   institui&#231;&#245;es &#8211; e com consumidores, principalmente aqueles que, a cada semana,   v&#227;o &#224; feira, em S&#227;o Louren&#231;o do Sul.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Embora caiba reconhecer que essas redes s&#227;o   importantes no moldar as convic&#231;&#245;es e o pr&#243;prio trabalho da fam&#237;lia, n&#227;o se   pode ignorar o papel das rela&#231;&#245;es comunit&#225;rias locais &#8211; mesmo conflitivas &#8211; na   conforma&#231;&#227;o de seu modo de vida.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">No entanto, mesmo com a exist&#234;ncia desses   conflitos e diferen&#231;as em rela&#231;&#227;o &#224; vizinhan&#231;a, especialmente no que diz   respeito ao trabalho na terra (s&#227;o produtores ecol&#243;gicos em meio a   fumicultores), a fam&#237;lia n&#227;o pode ser tomada como uma ilha. Tentamos mostrar   como a vizinhan&#231;a e o parentesco, a participa&#231;&#227;o na vida religiosa e nas festas   e a pr&#243;pria identidade assumida (pomerana) fazem parte da vida dos M&#252;hlemberg   tanto quanto sua vincula&#231;&#227;o a um modelo de produ&#231;&#227;o agroecol&#243;gico e como essas   pr&#225;ticas e valores s&#227;o por vezes concorrentes, enquanto que em outras   oportunidades refor&#231;am-se mutuamente. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Considera&#231;&#245;es finais</b></font></p>     <p><font size="3" face="Verdana"></font><font size="2" face="Verdana">Ainda que, como buscamos   demonstrar neste trabalho, as pr&#225;ticas da fam&#237;lia na agroecologia sejam   principalmente orientadas por valores associados &#224; sa&#250;de, religiosidade e   cosmologias, al&#233;m de serem perme&#225;veis &#224;s rela&#231;&#245;es de parentesco e comunit&#225;rias,   a dimens&#227;o econ&#244;mica n&#227;o pode ser ignorada. Assim como se d&#225; entre as demais   fam&#237;lias rurais, tamb&#233;m o progresso financeiro est&#225; na pauta da fam&#237;lia   M&#252;hlemberg.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Seu Roni conta que j&#225; pensou em desistir   in&#250;meras vezes, mas que suas convic&#231;&#245;es o fazem permanecer na agroecologia. Ele   comenta que, ainda que n&#227;o utilize agrot&#243;xicos ou transg&#234;nicos (&#8220;cria&#231;&#245;es da   modernidade&#8221;), n&#227;o deseja trabalhar &#8220;como faziam [seus] av&#243;s&#8221;. Considera que o   desenvolvimento de tecnologias e sua utiliza&#231;&#227;o tamb&#233;m s&#227;o necess&#225;rios para a   &#173;agricultura de base ecol&#243;gica. J&#225; aposentado, almeja reduzir o ritmo de   trabalho, at&#233; que possa parar totalmente. Afinal, como tem dito, &#8220;n&#227;o durar&#225;   para sempre&#8221;.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Nesse contexto, uma quest&#227;o que se mostra cada   vez mais importante para a fam&#237;lia pensar seu futuro &#233; o tema da sucess&#227;o. O   problema da sucess&#227;o, efetivamente, est&#225; associado &#224; quest&#227;o da reprodu&#231;&#227;o   social das fam&#237;lias, colocado em todo o universo campon&#234;s.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Dos filhos de Seu Roni, Luciano, o   &#8220;cientista&#8221;, defende sempre a ideia de permanecer no campo e na agroecologia.   Ele diz que n&#227;o conseguiria acostumar-se na cidade, pois gosta mesmo do meio   rural e do contato com a natureza. Ele utiliza a ci&#234;ncia que aprendeu para   contribuir para a perman&#234;ncia da fam&#237;lia na agroecologia. Ao longo dos anos,   Luciano j&#225; pensou em algumas alternativas para complementar a renda da fam&#237;lia   e, desse modo, reduzir a press&#227;o no sentido da retomada de uma pr&#225;tica mais   convencional. Entre os experimentos, ele criou uma estufa para a produ&#231;&#227;o de   cogumelos <i >shitake</i> e uma m&#225;quina para   fabricar palitos de churrasquinho com taquara, ambas iniciativas ecol&#243;gicas. Contudo,   por diferentes motivos, nenhuma das alternativas engendradas teve &#234;xito.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Para Moacir, entretanto, casado, trabalhando   na propriedade (diferentemente de Luciano), a quest&#227;o do progresso financeiro   parece contar um pouco mais. Como sempre comenta, quer conseguir, atrav&#233;s de   seu trabalho, prosperar e adquirir bens materiais. Tamb&#233;m pensa em come&#231;ar uma   vida nova e melhor com sua esposa, com quem se casou h&#225; pouco tempo. Mais de   uma vez ele prop&#244;s ao pai sair da agroecologia e voltar para a agricultura convencional,   mas Seu Roni recusou. Recentemente, influenciado por um antigo membro do grupo   de agroecologia do qual Seu Roni fazia parte, passou a cultivar na propriedade   o &#8220;fumo org&#226;nico&#8221;. Seu Roni aceitou, por entender que o filho tem o direito de   buscar prosperar economicamente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">As aspira&#231;&#245;es de progresso a que Moacir se   refere parecem encontrar paralelo entre seus vizinhos. Por esse motivo,   inclusive, muitos aderiram &#224; fumicultura. Como tentamos demonstrar, se, por uma   perspectiva t&#233;cnica e econ&#244;mica, as produ&#231;&#245;es de fumo e agroecol&#243;gica se situam   bem distanciadas, de outra perspectiva, pensando as rela&#231;&#245;es de vizinhan&#231;a e de   parentesco, os dois modelos produtivos n&#227;o est&#227;o t&#227;o distantes assim.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Mais do que isso, entendemos que, embora as   escolhas individuais e as rela&#231;&#245;es no interior de uma rede de alimenta&#231;&#227;o   ecol&#243;gica sejam necess&#225;rias para definir o trabalho da fam&#237;lia na agroecologia,   n&#227;o podemos ignorar a import&#226;ncia da comunidade nesse processo. Pelo contr&#225;rio,   as rela&#231;&#245;es de vizinhan&#231;a e parentesco, bem como a participa&#231;&#227;o nas atividades   religiosas e nas festas, s&#227;o fundamentais para a viv&#234;ncia dessa fam&#237;lia e para   a constitui&#231;&#227;o de suas pr&#225;ticas e valores, refletindo-se inclusive em seu   trabalho na terra.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Suas vis&#245;es de mundo quanto &#224; rela&#231;&#227;o com a   natureza t&#234;m um fundo religioso, o mesmo que &#233; partilhado pela comunidade e   transmitido pela igreja, mesmo que nem todos levem a pr&#225;tica para o mesmo lado,   aderindo &#224; agroecologia, como a fam&#237;lia de Seu Roni. Mesmo que, sob v&#225;rios   aspectos, haja diverg&#234;ncias entre os membros da comunidade, ainda assim existe   um fundo comum. Se quisermos apreender o que motiva os produtores ecol&#243;gicos,   n&#227;o podemos apenas visualiz&#225;-los isoladamente, como ilhas em seus contextos, ou   em rela&#231;&#227;o apenas com outros agricultores que adotaram o mesmo sistema. Como   Menocchio, a fam&#237;lia M&#252;hlemberg pode apenas em parte ser definida por suas   especificidades, na medida em que seus valores adv&#234;m tamb&#233;m desse fundo comum   partilhado com sua comunidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A an&#225;lise da trajet&#243;ria dessa fam&#237;lia revela   essa intersec&#231;&#227;o com a comunidade, mas tamb&#233;m auxilia a perceber quest&#245;es mais   gerais a partir da observa&#231;&#227;o local. Assim, do mesmo modo que Ginzburg   (2006: 10) apontou que &#8220;uma investiga&#231;&#227;o que, no in&#237;cio, girava em torno   de um indiv&#237;duo, sobretudo de um indiv&#237;duo aparentemente fora do comum, acabou   desembocando numa hip&#243;tese geral sobre a cultura popular &#8211; e, mais   precisamente, sobre a cultura camponesa &#8211; da Europa pr&#233;-industrial [&#8230;]&#8221;, no   presente estudo pretendemos, igualmente, contar uma hist&#243;ria particular, sobre   uma fam&#237;lia particular, mas que, a todo o momento, &#233; perpassada por quest&#245;es   que tangem, al&#233;m dela pr&#243;pria e de sua comunidade, um contexto mais amplo,   referente a modos de vida de colonos da Serra dos Tapes e de um mundo campon&#234;s.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>BIBLIOGRAFIA</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BAHIA, Joana, 2011, <i >O Tiro da Bruxa: Identidade, Magia e Religi&#227;o na Imigra&#231;&#227;o Alem&#227;</i>.   Rio de Janeiro, Garamond.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000122&pid=S0873-6561201400030000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BOURDIEU, Pierre, 2006, &#8220;O campon&#234;s e seu   corpo&#8221;, <i >Revista de Sociologia e Pol&#237;tica</i>,   26: 83-92.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000124&pid=S0873-6561201400030000900002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BRAND&#195;O, Carlos Rodrigues, 1986, &#8220;Povo   pobre, deuses ricos&#8221;, em Carlos Rodrigues &#173;Brand&#227;o, <i >Os Deuses do Povo: Um Estudo sobre a Religi&#227;o Popular</i>. S&#227;o Paulo, Brasiliense, 120-149.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000126&pid=S0873-6561201400030000900003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">C&#194;NDIDO, Ant&#244;nio, 1987, <i >Os Parceiros do Rio Bonito: Estudo sobre o   Caipira Paulista e a Transforma&#231;&#227;o dos Seus Meios de Vida</i>. S&#227;o Paulo,   Livraria Duas Cidades.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000128&pid=S0873-6561201400030000900004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">COMERFORD, John, 2004, &#8220;Sociabilidade e narrativa em comunidades   camponesas (e algumas considera&#231;&#245;es sobre &#8216;participa&#231;&#227;o&#8217;)&#8221;, apresentado na   24.&#170; Reuni&#227;o Brasileira de Antropologia, Olinda, PE, 12 a 15 de junho.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000130&pid=S0873-6561201400030000900005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">COMERFORD, John, 2005, &#8220;Comunidade rural&#8221;,   em M&#225;rcia Motta (org.), <i >Dicion&#225;rio da     Terra</i>. Rio de Janeiro, Civiliza&#231;&#227;o Brasileira, 112-120.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000132&pid=S0873-6561201400030000900006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">COSTA, Jairo Scholl, 1984, &#8220;Origens hist&#243;ricas do munic&#237;pio de S&#227;o Louren&#231;o do Sul&#8221;, em <i >S&#227;o Louren&#231;o do Sul: Cem Anos, 1884-1984</i>.   S&#227;o Louren&#231;o do Sul, Prefeitura Municipal de S&#227;o Louren&#231;o do Sul, 39-77.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000134&pid=S0873-6561201400030000900007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">FONSECA, Claudia, 2008, &#8220;O anonimato e o   texto antropol&#243;gico: dilemas &#233;ticos e pol&#237;ticos da etnografia &#8216;em casa&#8217;&#8221;, <i >Teoria e Cultura</i>,   2 (1): 39-53.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000136&pid=S0873-6561201400030000900008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">GINZBURG, Carlo, 2006, <i >O Queijo e os Vermes: O Cotidiano   e as Id&#233;ias de um Moleiro Perseguido pela Inquisi&#231;&#227;o</i>. S&#227;o Paulo,   Companhia das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000138&pid=S0873-6561201400030000900009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">LATOUR, Bruno, 1994, <i >Jamais Fomos Modernos: Ensaio de Antropologia Sim&#233;trica</i>. Rio de   Janeiro, Editora 34.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000140&pid=S0873-6561201400030000900010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">LEACH, Edmund R., 2004 [1954], <i >Sistemas Pol&#237;ticos da Alta Birm&#226;nia: Um   Estudo da Estrutura Social Kachin</i>. S&#227;o Paulo,   Edusp.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000142&pid=S0873-6561201400030000900011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MALINOWSKI, Bronislaw, 1978 [1922], <i >Os Argonautas do Pac&#237;fico Ocidental</i>. S&#227;o   Paulo, Editora Abril.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000144&pid=S0873-6561201400030000900012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MAUSS, Marcel, 2003, <i >Ensaio sobre a D&#225;diva: Forma e Raz&#227;o da Troca nas Sociedades Arcaicas,   Sociologia e Antropologia</i>. S&#227;o Paulo, Cosac Naify.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000146&pid=S0873-6561201400030000900013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MEIHY, Jos&#233; Carlos Sebe Bom, e Fab&#237;ola   HOLANDA, 2007, <i >Hist&#243;ria Oral: Como Fazer,     como Pensar</i>. S&#227;o Paulo, Contexto.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000148&pid=S0873-6561201400030000900014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MENASCHE, Renata, e Josiane Carine WEDIG,   s.d. (no prelo), &#8220;Fiestas de familia: parentesco ampliado, ruralidad celebrada&#8221;, <i >Gazeta de Antropolog&#237;a</i>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000150&pid=S0873-6561201400030000900015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">PINHEIRO, Patr&#237;cia dos Santos, 2010, <i >Saberes, Plantas e Caldas: A Rede Sociot&#233;cnica de Produ&#231;&#227;o Agr&#237;cola de Base Ecol&#243;gica   no Sul do Rio Grande do Sul</i>. Porto Alegre, Universidade Federal do Rio   Grande do Sul, disserta&#231;&#227;o de mestrado em Desenvolvimento Rural.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000152&pid=S0873-6561201400030000900016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SALAMONI, Giancarla, e Carmen WASKIEVICZ,   2013, &#8220;Serra dos Tapes: espa&#231;o, sociedade e natureza&#8221;, <i >Tessituras</i>, 1 (1): 73-100.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000154&pid=S0873-6561201400030000900017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">WOORTMANN, Klaas, 1990, &#8220;&#8216;Com parente n&#227;o se neguceia&#8217;: o campesinato como ordem moral&#8221;, <i >Anu&#225;rio Antropol&#243;gico</i>, 87: 11-73.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000156&pid=S0873-6561201400030000900018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">WOORTMANN, Ellen, e Klaas WOORTMANN,   1997, <i >O Trabalho da Terra: A L&#243;gica e a     Simb&#243;lica da Lavoura Camponesa</i>. Bras&#237;lia, Editora Universidade de Bras&#237;lia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000158&pid=S0873-6561201400030000900019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>NOTAS</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref1" name="_ftn1" title="">[1]</a> Artigo   elaborado a partir do trabalho   de conclus&#227;o de curso apresentado ao curso de bacharelado em Antropologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) em 2013. Ganhador do V   Pr&#234;mio L&#233;vi-Strauss, concedido pela Associa&#231;&#227;o Brasileira de Antropologia (ABA)   na modalidade de artigo. Orientado pela Professora Doutora Renata Menasche   (UFPel) &#8211; a quem quero aqui registrar agradecimento mais que especial, n&#227;o   apenas por sua impec&#225;vel orienta&#231;&#227;o, mas, sobretudo, pela cumplicidade e   devo&#231;&#227;o que dedicou a este trabalho; sem isto, nada seria poss&#237;vel.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref2" name="_ftn2" title="">[2]</a> A Pomer&#226;nia   era uma regi&#227;o   da Europa, pr&#243;xima ao mar B&#225;ltico, que esteve sob o dom&#237;nio   da Pr&#250;ssia at&#233; a institui&#231;&#227;o do Imp&#233;rio Alem&#227;o, quando teve seu territ&#243;rio   dividido entre os dom&#237;nios   da Alemanha e da Pol&#244;nia.   No Brasil, al&#233;m da col&#244;nia de S&#227;o Louren&#231;o do Sul, Santa Catarina e Esp&#237;rito   Santo tamb&#233;m receberam imigrantes oriundos   da Pomer&#226;nia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref3" name="_ftn3" title="">[3]</a> Programa   criado pelo Governo Federal em 2009, durante o mandato do presidente Luiz In&#225;cio Lula da Silva, que consiste no financiamento   de habita&#231;&#245;es populares.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref4" name="_ftn4" title="">[4]</a> Malinowski descreve as pr&#225;ticas e cren&#231;as dos nativos das ilhas Trobriand   em suas etnografias pioneiras (cf. Malinowski 1978 [1922]).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref5" name="_ftn5" title="">[5]</a> Edmund Leach estudou o povo Kachin na Birm&#226;nia. Os descreve em sua principal monografia, <i >Sistemas Pol&#237;ticos da Alta Birm&#226;nia</i> (ch.   Leach 2004 [1954]).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref6" name="_ftn6" title="">[6]</a> Em   2005, o Brasil assinou a Conven&#231;&#227;o-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT), Tratado Internacional da Organiza&#231;&#227;o Mundial da Sa&#250;de que visa a redu&#231;&#227;o do tabagismo, entendido como epidemia.</font></p>      ]]></body><back>
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