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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Mediações do cuidado no âmbito do Programa Saúde da Família em Itaparica, Brasil]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade Federal da Bahia Departamento de Antropologia ObservaBaía]]></institution>
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<institution><![CDATA[,Universidade Federal da Bahia Pós-Graduação em Antropologia ]]></institution>
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<volume>19</volume>
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<fpage>489</fpage>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Based on the ethnography of daily life of health professionals who work in the “Family Health Program” (public system of basic health care) in the city of Itaparica, this article addresses therapeutic approaches to diversity departing from dualistic assumptions as traditional/modern or official/alternative. In this attempt, some of the daily dilemmas in the practice of health professionals are examined, taking into account the therapeutic diversity that they have to deal with. It is suggested that the conflicts that mediate the asymmetry in the coexistence of different therapeutic practices in this system are indicative of broader disagreements, which may be identified on the “civilizing” intentions of transformation of the lifeways of the populations assisted by public health care programs.]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Estratégia Saúde da Família]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[antropologia da saúde]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[diversidade terapêutica]]></kwd>
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<kwd lng="en"><![CDATA[Brazil]]></kwd>
</kwd-group>
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</front><body><![CDATA[ 


    <p align="right"><font size="2" face="Verdana"><b>ARTIGOS</b></font></p>

    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="4" face="Verdana">Mediações do cuidado no âmbito do Programa
  Saúde da Família em Itaparica, Brasil</font></b></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">Mediated care in a public program for family
  health in Itaparica, Brazil</font></b></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font size="2" face="Verdana"><b>Fátima Tavares<sup>I</sup>; Carlos Caroso<sup>II</sup>; Carolina Santana<sup>III</sup></b></font></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p><sup>I</sup>Departamento
de Antropologia, UFBA, ObservaBaía,
Brasil. <i>E-mail</i>: 
<a href="mailto:fattavares@ufba.br">fattavares@ufba.br    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>
</a><sup>II</sup>Departamento
de Antropologia, UFBA, ObservaBaía,
Brasil. <i>E-mail</i>: 
<a href="mailto:caroso@ufba.br">caroso@ufba.br    <br>
</a><sup>III</sup>Pós-Graduação
em Antropologia, UFBA, ObservaBaía,
Brasil. <i>E-mail</i>: 
<a href="mailto:carolinasantana_1@hotmail.com">carolinasantana_1@hotmail.com</a></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>&nbsp;</p>
<hr noshade size="1">
    <p><b>RESUMO</b></p>
    <p>A partir da etnografia sobre o cotidiano dos profissionais de
  saúde que atuam no âmbito do Programa ou Estratégia Saúde da Família (sistema
  público de atenção básica à saúde) no município de Itaparica, busca-se
  problematizar as abordagens sobre a diversidade terapêutica que partem de
  premissas dualísticas como tradicional e moderno ou oficial e alternativo<i>.</i> Nesse intento, são apresentados alguns
  dilemas da prática cotidiana dos profissionais de saúde, considerando a
  diversidade terapêutica com a qual aqueles se confrontam em seu cotidiano. Na
  conclusão, sugere-se que os conflitos que intermediam a assimetria na
  convivência entre diferentes práticas terapêuticas no âmbito desse sistema são
  indicativos de desacordos mais amplos, que podem ser identificados nas
  intenções “civilizatórias” de transformação dos modos de vida das populações
  atendidas por programas públicos de assistência à saúde.</p>
    <p><b>Palavras-chave</b>: Estratégia Saúde da Família, antropologia
da saúde, diversidade terapêutica, terapêuticas comunitárias, religiões, Brasil</p>


<hr noshade size="1">
    <p><b>ABSTRACT</b></p>
    <p>Based on the ethnography of daily life of
health professionals who work in the “Family Health Program” (public system of
basic health care) in the city of Itaparica, this article addresses therapeutic
approaches to diversity departing from dualistic assumptions as traditional/modern or official/alternative. In this attempt, some
of the daily dilemmas in the practice of health professionals are examined,
taking into account the therapeutic diversity that they have to deal with. It
is suggested that the conflicts that mediate the asymmetry in the coexistence
of different therapeutic practices in this system are indicative of broader
disagreements, which may be identified on the “civilizing” intentions of
transformation of the lifeways of the populations assisted by public health
care programs.</p>

    <p><b>Keywords</b>: Family Health Program, anthropology of health,
therapeutic diversity, community therapies, religions, Brazil</p>
<hr noshade size="1">
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p>Neste artigo são problematizadas premissas
dualísticas como tradicional e moderno ou oficial e alternativo enquanto
referentes terapêuticos excludentes.<a style='mso-footnote-id:ftn1'
href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><sup>[1]</sup></a>
Ao invés de premissas, a ideia é focar em processos, não seguindo
apressadamente pelos atalhos convidativos de conceitos que pretensamente
“desvendam” forças ou tendências e que se tornam capazes de explicar tudo, mas
seguir de perto a vivacidade característica das situações de pesquisa.</p>

    <p>A realização de um estudo etnográfico sobre o
Programa Saúde da Família (ou Estratégia Saúde da Família, doravante denominada
ESF) no município de Itaparica resultou nos dados que são analisados neste
artigo, e particularmente nos permite buscar estabelecer um diálogo com a
proposta de Latour (2006) de investigar as mediações que refazem constantemente
os contornos do “social”.<a style='mso-footnote-id:ftn2' href="#_ftn2"
name="_ftnref2" title=""><sup>[2]</sup></a> A aproximação daquela
proposta permite compreender como a ESF é atravessada por uma heterogeneidade
de práticas de cuidado, conformando um espaço de multiplicidades em que o
“antigo” e o “novo” convivem e se influenciam mutuamente. Esse dinamismo
promove uma nova configuração do espaço público de mediações terapêuticas que
desafiam os dispositivos de hierarquização e controle envolvidos nos processos
de territorialização desse sistema de saúde.</p>

    <p>Ao longo da discussão apresentamos alguns
dilemas da prática cotidiana dos profissionais de saúde da ESF e da diversidade
terapêutica com que eles têm que lidar.<a style='mso-footnote-id:ftn3'
href="#_ftn3" name="_ftnref3" title=""><sup>[3]</sup></a>
Argumentamos que, embora essa diversidade não configure um sistema estruturado,
alternativo ou concorrente ao oficial, ainda assim, as formas de convivência
constituem importantes desafios para o sucesso das políticas públicas de saúde.
Finalizamos sugerindo que os conflitos que intermedeiam a assimetria na
convivência entre diferentes práticas terapêuticas no âmbito da ESF nos parecem
indicativos de desacordos mais amplos das intenções “civilizatórias” de
transformação dos “modos de vida” das populações atendidas.</p>
    <p>&nbsp;</p>
</font>

    <p><b><font size="3" face="Verdana">Dilemas do cuidado na ESF</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>Nas pesquisas em antropologia da saúde,<a
style='mso-footnote-id:ftn4' href="#_ftn4" name="_ftnref4" title=""><sup>[4]</sup></a> um falso dilema reside na
abordagem da heterogeneidade terapêutica como um enfrentamento entre mundos
estanques e irreconciliáveis: o setor comunitário em saúde (saberes
terapêuticos tradicionais, populares, religiosos) e o setor profissional em
saúde (biomedicina, terapias alternativas, complementares, paralelas).
Diferenças existem entre saberes tradicionais e modernos e podem ser
verificadas não apenas nos seus resultados, mas também nos “modos de fazer”.
Mas nada mais impróprio do que tratá-las nos termos dicotômicos da imaginação
ocidental, onde o tradicional traduz-se na substantividade de algo imemorial,
estático e a ser entesourado por avalistas do “autêntico”, por oposição ao
moderno, sempre aberto à reflexividade e mudança (Cunha 2009).</p>

    <p>Alternativas a essa dicotomia podem ser
encontradas numa abordagem etnográfica focalizada nos processos que envolvem
profissionais da cura em suas práticas de saúde. Essa orientação possibilita a
investigação dos conceitos de saúde e doença não como representações, mas
enquanto agenciamentos, tal como proposto por Mol (2003). Recusando a diferença
entre <i>disease</i> e <i>illness</i>, a autora propõe explorar o corpo múltiplo e suas <i>diseases</i>. O problema do relativismo ou
das diferentes perspectivas de abordagem da doença ou do corpo é justamente o
fato de que eles continuam lá, intocados, a despeito das significações (de
médicos, ou pacientes, etc.) sobre eles. O passo sugerido por Mol é colocar em
primeiro plano as “[…] praticalidades, materialidades, eventos. Se nós dermos
esse passo, ‘disease’ se torna parte do que é feito na prática”
(2003:&nbsp;13).</p>

    <p>Outra linha importante de investigação é a que
aborda os dilemas que atravessam os programas de saúde pública, especialmente a
questão do “sofrimento social” que aparece como o “preço a pagar” no
enfrentamento das frustrações e como poder de justificação, nos moldes de uma
“teodiceia secular” (Das 1997). Nesse contexto, deve-se destacar as
contribuições de Fassin (1998) na &shy;investigação dos modos de controle e
cuidado na saúde pública para populações vulneráveis e a questão dos
sentimentos morais como forma de legitimação das políticas públicas (Fassin 2010).
Temos, assim, políticas de saúde em resposta ao sofrimento social que se
constituem de “modos morais de intervenção” para a manutenção de exclusões
sociais.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Como observam Pussetti e Brazzabeni (2011), o
conceito de sofrimento social tem propiciado uma articulação profícua nas
investigações sobre as experiências do mal-estar e processos sociais mais
abrangentes. A potencialidade desse conceito se realiza na interface de
diferentes abordagens (gênero, migração, exclusão social, juventude, etc.),
dentre elas as das questões de saúde pública. Como apontam os vários autores no
dossiê a que Pussetti e Brazzabeni fazem referência, essas interfaces
possibilitam a investigação das dimensões sociais e políticas do mal-estar, a
relação entre as experiências dos sujeitos e as agendas institucionais e o
posicionamento ético dos antropólogos. Assim, na medida em que o conceito de
sofrimento social evidencia tensões entre sujeito e ordem social, possibilita a
exploração das ambiguidades geradas no processo de implementação de políticas
sociais para a sua minimização.<a style='mso-footnote-id:ftn5' href="#_ftn5"
name="_ftnref5" title=""><sup>[5]</sup></a> Como sugerem as autoras, se
trata de fazer,</p>

    <blockquote>“[…] por um lado, a análise das intervenções
sociais para aliviar o sofrimento dos sujeitos definidos como ‘vulneráveis’ e
que frequentemente resultam na sua intensificação; por outro, a problematização
das mesmas intervenções, que classificam os sujeitos em categorias rígidas,
através de mecanismos complexos de patologização, criminalização e exclusão
social” (Pussetti e Brazzabeni 2011:&nbsp;468).</blockquote>

    <p>O estudo do sofrimento social, com sua ênfase
nas dimensões morais, aparece, então, como uma <i>démarche </i>produtiva ao problematizar questões como pobreza e
exclusão social, que intervêm como condições de vulnerabilidades (incluindo-se
aí as “patologias”), possibilitando articular experiências locais e processos
sociais mais amplos.<a style='mso-footnote-id:ftn6' href="#_ftn6"
name="_ftnref6" title=""><sup>[6]</sup></a> Embora em nosso trabalho não
estejamos &shy;tratando de populações de risco no sentido mais estrito do termo
(populações de rua ou usuários de drogas, por exemplo), a pertinência dessas
reflexões evidencia-se nos dilemas morais que envolvem as tensões em torno do
que propõem os programas de saúde (como é o caso da ESF) e as expectativas da
população:</p>

    <blockquote>“A retórica da ‘qualidade de vida’ que informa
estes programas, entendida em termos morais, além de materiais, representa a
instigação contemporânea de uma intervenção destinada a uma maior inserção e
realização pessoal (<i>empowerment</i>) das faixas vulneráveis da população. A
população ‘em risco’ é também uma população ‘de risco’, que ameaça, que
contagia […]” (Pussetti e Brazzabeni 2011:&nbsp;473).</blockquote>

    <p>No âmbito da ESF, um conjunto de princípios
que envolve a “integralidade em saúde” coloca como um dos muitos desafios o de
mobilizar o que chamamos aqui de “concepção ampliada do cuidado”, que não é
compreendido apenas como execução de procedimentos. Reformula-se o contexto
onde são estabelecidas as relações entre os agentes de saúde e os usuários,
procurando superar a percepção “tradicional” da prática médica que intervém
sobre o indivíduo não situado (Fontes 2004).</p>

    <p>Perseguir os processos possibilita-nos, assim,
prestar mais atenção à dinâmica das práticas de cuidado que atravessam o espaço
heterogêneo dos serviços de saúde na ESF. Por serem práticas que levam em
consideração as redes locais em que o indivíduo está situado, estas precipitam
&#8211; no sentido de Wagner (1975), como consequências não intencionais
&#8211; a intensificação dos dilemas da convivência cotidiana na ESF. Os
dilemas podem, inclusive, se estender para além das noções usuais do cuidado
terapêutico (tecnologias de intervenção sobre os corpos), mobilizando
desacordos em torno dos agenciamentos mais amplos do cuidado.</p>

    <p>Pesquisas anteriores sobre a heterogeneidade
terapêutica na ESF (Bonet e Tavares 2006, 2007, 2008; Tavares e Bonet 2008;
Bonet <i>et al</i>. 2009) apontam muitos desafios
tanto no processo de implantação como na prática cotidiana do sistema. Um
problema central é o não reconhecimento da coexistência de redes de cuidado em
saúde que atravessam a territorialização oficial promovida pela ESF (Deleuze e
Guattari 1997). Uma primeira rede adscreve a comunidade por meio do cadastro da
população residente no âmbito de atuação de uma equipe de saúde. A segunda
situa cada unidade domiciliar como unidade de cadastro. Sobre essas duas redes
é que se realizam as intervenções de cuidado terapêutico, embora, na prática,
as equipes tenham de conviver com outras mediações que não apenas a rede
comunitária mais ampla e a rede das relações familiares.<a style='mso-footnote-id:
ftn7' href="#_ftn7" name="_ftnref7" title=""><sup>[7]</sup></a>
Por outro lado, além de tensões, na área de abrangência dos &shy;módulos do
sistema territorializado da ESF, também se observam formas de articulação e
“convivência” de orientações e práticas em rede (Bonet e Tavares 2006).<a
style='mso-footnote-id:ftn8' href="#_ftn8" name="_ftnref8" title=""><sup>[8]</sup></a><sup></sup></p>

    <p>É assim que, na diversidade terapêutica da
ESF, a legitimidade social das redes de cuidado é dinâmica e assimétrica, podendo
as mediações envolver processos de disseminação, ressignificação, assimilação e
“contágio” de práticas (terapêuticas, mas não apenas) “alternativas ao
sistema”. Muitas dessas mediações, em sua dinâmica rizomática, deixam rastros
que podem produzir muitas pequenas subversões no modelo arbóreo de estruturação
das terapêuticas oficiais no âmbito dos sistemas de saúde (Deleuze e Guattari
1995).</p>

    <p>O redirecionamento promovido pela ESF vem
contribuindo significativamente para a formulação de políticas públicas e de
intervenção mais eficazes para os segmentos mais carentes da população
brasileira. Esse modelo trouxe modificações consideráveis para o Sistema Único
de Saúde do Brasil. A partir da implantação do PACS (Programa de Agentes
Comunitários de Saúde) e das propostas de humanização do sistema de saúde,
implementadas na década de 1990, desenvolveram-se novas tecnologias de cuidado,
como o “acolhimento” e a “visita domiciliar”, e retomou-se a ideia do médico de
família, visando um olhar mais amplo acerca do cuidado com o paciente (Cordeiro
1996).</p>

    <p>Esse também é o caso de Itaparica, cujos
dramas sociais da população são atravessados pelo processo de urbanização
(especialmente direcionado para atender às demandas de veranistas e turistas)
em contextos ditos “tradicionais” (em que se constata forte presença das
religiões afro-brasileiras e evangélicas), processo este também visível em
outras áreas do entorno da Baía de Todos os Santos. Este argumento é
fortalecido quando enfocamos &#8211; em perspectiva histórica &#8211; questões
que concernem ao uso dos serviços de saúde por essas populações desde a
implantação do Sistema Único de Saúde (SUS). A expansão da oferta de atenção
formal em saúde por parte do Estado, inicialmente por meio do PACS, passando
pelo PSF e atualmente a ESF, não resultou necessariamente na redução do papel e
importância dos saberes e práticas comunitárias em saúde, ao contrário, essas
se expandem, transformam-se, contagiam-se entre si, assumindo novas formas face
à crescente demanda por direitos em todos os setores da sociedade.</p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
</font>

    <p><b><font size="3" face="Verdana">Religião e diversidade terapêutica</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>Itaparica é um balneário de águas calmas e
mornas que ocupa a porção norte na ilha do mesmo nome, que é a maior das 56
ilhas da Baía de Todos os Santos. Sua condição de estância hidromineral <a style='mso-footnote-id:ftn9' href="#_ftn9" name="_ftnref9"
title=""><sup>[9]</sup></a> foi reconhecida
em 1937, transformando-se em município independente em 1960, vindo
posteriormente perder cerca de 75% de seu território para formar o novo
município de Vera Cruz, em 1962. No centro de município e nas diversas
localidades vivem pouco mais de 20.000 pessoas (20.725, segundo o Censo 2010),
mas a população pode ser multiplicada no período de férias escolares e feriados
prolongados. Dados do Censo 2010 indicam que a população residente é
predominantemente mestiça, com 22,08% de declarantes pretos e 67,70% de pardos.</p>

    <p>A diversidade terapêutica na ilha de Itaparica
tem raízes em sua história social. Nas primeiras décadas do século passado aí
eram encontrados terapeutas populares com fama para além dos limites da região
e que foram objeto de trabalhos antropológicos como o de Carlo Castaldi (1955),
realizado entre 1953 e 1954, que trata das atividades de três terapeutas
religiosos que atuavam na ilha. Um dos terapeutas era um homem autodenominado
São &shy;Venceslau, que realizava curas com uso da água de uma nascente
conhecida como Poço da Sereia. Seus feitos atraíam devotos, peregrinos e
pessoas em aflição de várias partes da ilha, do interior do estado e de outras
partes do país. A partir da etnografia de Castaldi e cotejando com os relatos
recentes de moradores da ilha, Caroso e Martins (2006, ver também Martins e
Caroso 2008) revisitaram a trajetória de João Caipó, o segundo terapeuta
pesquisado por Castaldi, pai de santo do candomblé que atuou na ilha entre os
anos 40 e início dos anos 80 do século passado. O terceiro terapeuta citado por
Castaldi é uma mãe de santo de um, à época, modesto candomblé em São João, uma
pequena localidade entre Porto do Santo e Manguinhos (Caroso e Castaldi 2004,
2013; Caroso 2007, 2008). As relações que D.&nbsp;Lilita e sua
família mantinham com o candomblé de egun da ilha podem ser identificadas em
vários momentos do relato de Castaldi como, por exemplo, por ocasião de sua
iniciação, que foi conduzida por Olegário, irmão de Eduardo Daniel de Paula,
fundador do terreiro “matriz” desse culto, o Omo Ilê Aboulá.</p>

    <p>Ao discorrer sobre o candomblé na ilha de
Itaparica a partir de etnografia realizada em 1975, Mendonça (1982) também
aponta a falta de estudos sobre o tema, com exceção dos candomblés de egun. Sua
pesquisa destaca três tradições de maior prestígio na ilha: a tradição do
candomblé de egun, a herança do candomblé de Fulô, em Mar Grande, e o terreiro
de João Caipó, “tido como grande curador, que além dos fundamentos religiosos
possui conhecimentos médicos que alia aos primeiros em sua atividade de pai de
santo” (Mendonça 1982:&nbsp;92).</p>

    <p>De fato, na tradição do candomblé, em
Itaparica destacam-se até os dias atuais os candomblés de egun na região de
Ponta de Areia e arredores. Os agentes de saúde e enfermeiros da ESF referem-se
constantemente ao prestígio de mães e pais de santo junto à população, bem como
à atuação daqueles nos cuidados em saúde, particularmente com referência à
prescrição de chás, ervas para banho e outros procedimentos resolutivos, assim
como encaminhamento de sua clientela aos serviços do setor profissional em
saúde, quando seus pacientes apresentam manifestações físicas de doenças que
julgam estar fora de sua competência terapêutica. Essa diversidade terapêutica
é apontada por diversos agentes de saúde, como evidencia o relato abaixo, de
Eric: <a style='mso-footnote-id:ftn10'
href="#_ftn10" name="_ftnref10" title=""><sup>[10]</sup></a></p>

    <blockquote>“Então as pessoas com medo da morte, elas fazem
de tudo e dentre os diversos tratamentos eles procuram as benzedeiras, que é
muito comum, os pais de santo, as igrejas evangélicas que menciona muito o
efeito da cura, os hospitais, postos de saúde, chás e enfim, todos esses pontos
mencionados encontra-se nessa comunidade” [ACS, 48 anos, testemunha de Jeová,
UBS da pista].</blockquote>

    <p>São evidentes as disputas entre as variantes
do candomblé, especialmente no que se refere ao trabalho realizado pelos
candomblés de egun. Uma conhecida mãe de santo, recentemente falecida, afirma
que os trabalhos realizados no candomblé de egun são muito dispendiosos. Embora
diga que suas relações com os terreiros de egun são boas, a contraposição entre
o seu terreiro, que diz realizar trabalhos sem preocupação com os custos, e os
de egun, foi claramente delimitada: “Ali não faz caridade não, em Babá não
existe caridade”.<a style='mso-footnote-id:ftn11' href="#_ftn11"
name="_ftnref11" title=""><sup>[11]</sup></a> Além da tradição do
candomblé, os raizeiros, erveiros e &shy;rezadores/
/rezadeiras (de tradição católica, candomblé ou “autônomos”)
também são muito citados pelos profissionais de saúde como referências
importantes para a realização de um trabalho “complementar” aos tratamentos
indicados nas unidades de saúde.</p>

    <p>Contudo, é importante destacar que a religiosidade
afro-brasileira e suas variações do sincretismo afro-católico que marcam a
religiosidade do município, crescentemente divide sua influência com os
evangélicos pentecostais. Ao longo da última década esses segmentos têm
conquistado espaços importantes no campo das práticas terapêuticas locais,
especialmente em decorrência de suas características proselitistas na
arregimentação de novos adeptos e consequente expansão de sua base de
seguidores.</p>

    <p>Ao compararmos os números dos censos de 2000 e
2010, fica evidente o incremento da diversidade religiosa no município, em
especial o crescimento numérico das religiões evangélicas e dos “sem religião”,
que são tendências observadas em todo o país.<a style='mso-footnote-id:ftn12'
href="#_ftn12" name="_ftnref12" title=""><sup>[12]</sup></a>
Mas no caso de Itaparica vale destacar o crescimento dos evangélicos
(especialmente as pequenas igrejas ou denominações pentecostais locais), dos
espíritas e candomblecistas. No <a href="#q1">quadro&nbsp;1</a>, são apresentadas as religiões
que apresentam maiores percentuais de declarações.</p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
    <p><a name="q1"></a></p>
    <p align="center"><img src="/img/revistas/etn/v19n3/19n3a04q1.jpg" width="523" height="305"></p>
    
<p align="center">&nbsp;</p>
    <p>Em consonância com um movimento que se
verifica no país, no município de Itaparica pode-se observar a diminuição do
número de católicos e, por outro lado, o surgimento de outras denominações
religiosas. No âmbito dos evangélicos foram registradas no Censo 2010
denominações que não haviam sido detectadas pelo censo anterior: Presbiteriana,
Batista e Adventista (evangélicas de missão); Assembleia de Deus, Evangelho
Quadrangular, Universal do Reino de Deus e Deus é Amor (evangélicas pentecostais).</p>

    <p>Entretanto, deve ser lembrado que as
transformações religiosas são mais antigas do que o movimento captado nos dois
últimos censos. Estas datam da década de 1970 e vêm alterando o cenário
religioso tradicional, em que também se observa o crescimento das novas
religiosidades, como a Eubiose, que tem um de seus três templos no Brasil
estabelecido na cidade de Mar Grande, no município de Vera Cruz, situado na
mesma ilha, que se estabeleceu no local em decorrência do significado
encontrado na presença passada do Irmão Venceslau, embora este já tivesse
morrido à época de sua implantação. O local de culto em que ele outrora
residiu, tendo aí realizado conhecidas atividades religiosas e terapêuticas,
tornou-se terra pública e área de proteção ambiental. O memorial ali existente
constitui um espaço sagrado para o qual convergem praticantes de vários credos
para realizar suas cerimônias e rituais variados (grupos esotéricos, membros da
Eubiose, católicos, espíritas, umbandistas, candomblecistas e adeptos do xamanismo
urbano), sendo o irmão Venceslau cultuado por vários desses e as águas da fonte
usadas em rituais de iniciação religiosa por suas atribuídas qualidades
milagrosas (Tavares, Pereira e Caroso 2011). A unidade de saúde de Porto dos
Santos, em decorrência de consulta aos moradores locais feita pela
administração do município, homenageia o taumaturgo que deu fama ao local até
sua morte no início da década de 1960.</p>

    <p>As transformações recentes também impactam a
grande “família” do candomblé de egun, que atualmente ganha visibilidade
através do ciclo de festas de Iemanjá que ocorrem no verão. Como registra Braga
(1995), Ponta de Areia, que tradicionalmente foi uma comunidade de pescadores,
vem experimentando marcadas transformações desde o início dos anos 70, alterando
o cotidiano de sua população. Os projetos voltados para a promoção do turismo,
que se intensificaram em toda a ilha nessa época, fizeram com que as populações
semi-isoladas viessem a se relacionar mais assiduamente com pessoas de várias
partes do país e estrangeiros que são atraídos à ilha de Itaparica.</p>
    <p>&nbsp;</p>
</font>

    <p><b><font size="3" face="Verdana">O trabalho junto às equipes de saúde</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>Do total de 18 estabelecimentos de saúde em
Itaparica, 12 são da administração pública direta (Ministério da Saúde,
Secretaria Estadual de Saúde, Secretaria Municipal de Saúde) e os restantes são
unidades sob administração de empresas privadas. À época da pesquisa, em 2012,
os estabelecimentos públicos de saúde compreendiam: posto de saúde (1); centro
de saúde / unidade básica de saúde (8); hospital geral (1); clínica
/ centro de especialidade (1); centro de atenção psicossocial&nbsp;(1).<a style='mso-footnote-id:ftn13'
href="#_ftn13" name="_ftnref13" title=""><sup>[13]</sup></a><sup></sup></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na extensa orla de Itaparica, a população
residente convive com veranistas de camadas sociais diferenciadas e turistas
nacionais e estrangeiros, principalmente nos distritos localizados na
contracosta, banhada pelas águas do Canal do Funil, que separa a ilha da costa
continental e completa o contorno sul da Baía de Todos os Santos, em sua
entrada pela Ponta dos Garcez. Contrastando com a paisagem à beira-mar, o
acesso à região central ou “miolo” do município é feito pela BA-001, que
atravessa toda a ilha, constituindo a principal “entrada” ao município.
Distribuídas nessas paisagens encontram-se as nove unidades básicas de saúde
estudadas, que podem ser agrupadas em dois conjuntos: unidades da “beira-mar” e
unidades da “pista”.<a style='mso-footnote-id:ftn14' href="#_ftn14"
name="_ftnref14" title=""><sup>[14]</sup></a><sup></sup></p>

    <p>As unidades de saúde da “beira-mar”
compreendem as regiões ou “distritos” <a
style='mso-footnote-id:ftn15' href="#_ftn15" name="_ftnref15" title=""><sup>[15]</sup></a>
banhados pelas águas da Baía de Todos os Santos e seu prolongamento no Canal do
Funil e a região central do município (Centro, Ponta de Areia,<a
style='mso-footnote-id:ftn16' href="#_ftn16" name="_ftnref16" title=""><sup>[16]</sup></a> Amoreiras, Manguinhos e
Porto dos Santos). Já as unidades da pista dispõem-se às margens da rodovia
BA-001 (Alto das Pombas, Misericórdia, Marcelino e Mucambo).<a
style='mso-footnote-id:ftn17' href="#_ftn17" name="_ftnref17" title=""><sup>[17]</sup></a> Nesses bairros próximos à
pista, considerados periféricos e empobrecidos, as UBS apresentam um “clima
mais tenso”, decorrente da maior demanda de atendimento e instalações mais
precárias, do que as UBS situadas na “beira-mar”.</p>

    <p>Em consonância com as orientações do governo
federal, as equipes de saúde do município são multiprofissionais. Contudo,
desde o início do trabalho de campo procurámos priorizar a relação com
enfermeiros e agentes de saúde, tanto pelo contato mais frequente e intenso que
eles têm com a população, quanto pela dificuldade encontrada, na maioria dos
casos, para se conversar com os médicos. Pelos relatos e situações observadas,
os médicos estão vinculados ao espaço “dentro” das unidades, fazem visitas
regulares aos postos de saúde (uma, duas ou três vezes na semana) e sabem pouco
sobre as condições externas dos pacientes. As consultas são muito concorridas,
sendo, portanto, muito difícil ter alguma “brecha” no atendimento para se
conversar com eles.<a style='mso-footnote-id:ftn18' href="#_ftn18"
name="_ftnref18" title=""><sup>[18]</sup></a><sup></sup></p>

    <p>Merece ainda destaque a diversidade religiosa
encontrada entre enfermeiros e agentes de saúde, fato que se encontra em conformidade
com as principais tendências anteriormente apontadas (católicos e evangélicos
pentecostais são os grupos numericamente mais expressivos em Itaparica, mas
também se destacam as testemunhas de Jeová, candomblecistas e umbandistas).</p>
    <p>&nbsp;</p>
</font>

    <p><b><font size="3" face="Verdana">Prevenção, domesticação da demanda e circulação dos problemas</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>O trabalho da Estratégia Saúde da Família é
marcado pela distinção valorativa em relação ao atendimento hospitalar, que
pode ser caracterizada pelo fragmento de discurso de uma enfermeira transcrito
abaixo:</p>

    <blockquote>“Então não tem como parar [de cuidar do
paciente] porque PSF é isso, a gente se preocupa com o amanhã do paciente,
totalmente diferente do hospital, que a gente dá alta e esquece daquele
paciente, a gente não se apega ao paciente e aqui não” [Suzana, enfermeira, 31
anos, evangélica, UBS da beira-mar].</blockquote>

    <p>De fato, como explicita a mesma enfermeira, os
cuidados em saúde que passam distantes do hospital e do atendimento emergencial
são pontos fortes do modelo de intervenção característico da ESF, que busca
superar a noção tradicional de cuidado fragmentado, assentado na divisão
técnica do trabalho em saúde. As orientações desse novo modelo propõem um novo
paradigma em saúde ancorado na qualidade de vida, onde o indivíduo encontra-se
situado na relação entre família e comunidade, de cobertura universal, com o
compromisso de assumir o desafio do princípio da equidade. Sua estratégia prevê
um contato maior dos profissionais de saúde com as famílias, com vistas à
humanização do atendimento, propondo a criação de uma relação de confiança
entre a equipe de saúde e a população atendida (Almeida <i>et al</i>. 1999; Almeida 2001; Favoreto 2002; Senna 2002).</p>

    <p>No contexto da unidade básica de saúde que
disponibiliza atendimentos pela ESF, o equilíbrio cotidiano entre o controle da
demanda e a imprevisibilidade da emergência constitui um dilema central para
todos os membros da equipe, embora seja vivenciado de forma diferente pelos
profissionais de “&shy;dentro” da unidade e os agentes de saúde. A organização
do trabalho depende da boa &shy;administração desse dilema. Embora todos
afirmem que o trabalho da ESF é de prevenção, em contraposição ao atendimento
emergencial, característico da situação hospitalar, essas fronteiras nem sempre
são claras. Um primeiro &shy;problema refere-se às ambiguidades que envolvem,
ao mesmo tempo, a &shy;prevenção da demanda e a produção da demanda, como se
encontra bem caracterizado abaixo.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>“A Estratégia de Saúde da Família trabalha na
prevenção, então nós atendemos mulheres em idade fértil fazendo planejamento
familiar e aí tem uso de contraceptivo, certo? Ou distribuindo preservativo.
Então nós já aqui temos a consulta, nós instruímos a pessoa, fazemos toda uma
educação em saúde. […] Até porque o planejamento familiar é uma demanda alta
[…] e tá no caso orientando justamente essas questões de que tem uma demanda
maior pra que as pessoas evitem, entendeu?” [Everaldo, enfermeiro, 24 anos,
evangélico, UBS da pista]</blockquote>

    <p>Uma forma bastante disseminada de domesticação
da demanda é a organização da mesma por meio de planejamento em dias escalonados
para cada doença. O “atendimento” não envolve exclusivamente os pacientes, já
que o trabalho é de prevenção, mas também compreende os potenciais pacientes do
chamado “grupo de risco”, como explicita o mesmo enfermeiro: “[A] Unidade de
saúde da família é uma demanda organizada de atendimento”.</p>

    <p>Além da prevenção, também no tratamento das
doenças, a estratégia é a do “convencimento”, realizada pelo ACS no contexto da
visita domiciliar ou em outras situações cotidianas, em que o profissional
insiste na importância do tratamento preventivo (consultas e exames periódicos)
dos grupos de risco, prioridades absolutas do trabalho cotidiano dos ACS, que
costuma ser traduzido por “conscientização” ou “sensibilização”, como se
encontra posto no fragmento de narrativa abaixo do enfermeiro Everaldo:</p>

    <blockquote>“[…] eu não digo conscientizar, porque as
pessoas por si mesmo elas se conscientizam, eu digo sensibilizar, sensibilizar
aquela pessoa da importância do tratamento, entendeu? […] Então o que eu acho
principal da equipe é sensibilizar o paciente da importância daquele tratamento
pra que ele mesmo… ele é a chave principal pra isso, né? Ele precisa querer
fazer o tratamento, ele precisa querer ser saudável, ficar saudável novamente”.</blockquote>

    <p>Para além da proposta da ESF, como os diferentes
profissionais das equipes realizam seu trabalho cotidiano? Observa-se desafios
diferentes conforme as atribuições profissionais. Quando questionados sobre
suas atividades, os agentes de saúde costumam ter dificuldades em caracterizar
o que fazem do ponto de vista biomédico, sendo muito generalistas quando
descrevem a rotina da prevenção, orientação e encaminhamento. A mediação para a
resolução entre os profissionais costuma provocar desafios diferentes sobre
como se resolvem os problemas e o que é possível resolver. Os agentes de saúde
realizam o trabalho de mediação entre a casa e a rua:</p>

    <blockquote>“Muitas vezes o agente de saúde não trabalha só
no dia a dia na prevenção. Porque muitas vezes o agente de saúde serve como
ouvidor, conselho que a pessoa possa dar. Então a gente não trabalha… a gente
tá no meio da família para várias coisas. Tem pessoas que vê o [ACS] como se
fosse resolver a situação deles para tudo. Então não é só a visita do dia a
dia, uma prevenção não. Tem uma amizade, até muitas vezes para resolver o
problema, propor um conselho que a gente possa dar” [Joceny, ACS, 43 anos,
católica, UBS da pista].</blockquote>

    <p>Já quando se trata do trabalho dos
profissionais de “dentro” das UBS, observa-se uma significativa especialização
das atribuições nos contornos da intervenção biomédica, tal como se encontra
nesta descrição de rotinas:</p>

    <blockquote>“A parte de laboratório que a gente tem aqui,
um centro especializado que a gente encaminha. Passa por mim pra gente
encaminhar para fazer exame de laboratório, pacientes diabéticos, hipertensos,
eles vêm para a gente fazer essas consultas com eles, essa parte de enfermagem,
crianças, idosos e planejamento familiar, a gente trabalha também com essa
parte de prevenção com as adolescentes na fase adulta também e pré-natal”
[Cândida, enfermeira, 29 anos, evangélica, UBS da beira-mar].</blockquote>

    <p>Embora o trabalho dos profissionais de
“dentro” da UBS possa assemelhar-se mais ao atendimento “convencional”, com
rotinas de consultas e realização programada de exames, a prática cotidiana é
atravessada por situações de emergência, pois muitas vezes o paciente vai à
unidade “porque é mais próximo de casa, porque não tem dinheiro para ir a uma
emergência ou às vezes foi em uma emergência, mas só que lá não resolveram o
problema delas” [Lívia, enfermeira, 23 anos, católica, UBS da beira-mar].</p>

    <p>A “prevenção”, que também compreende um
trabalho de “conscientização”, encontra-se disseminada entre os ACS e demais
membros das equipes. Realiza-se por meio de duas estratégias: a “busca ativa”
dos potenciais pacientes e a realização de palestras na própria UBS, em escolas
ou outros espaços coletivos. A busca ativa compreende a intervenção deliberada
sobre os hábitos da população que, segundo as equipes, não favorecem os
cuidados com a saúde. A não realização periódica de exames, as dificuldades em
seguir os tratamentos recomendados, os problemas com a higiene e hábitos
alimentares constituem “resistências” que comprometem o sucesso do trabalho. A
atitude de enfrentamento cotidiano dessas resistências é muito valorizada pelos
&shy;profissionais. Pode ser realizada através de conversas em qualquer
situação social em que se encontre a pessoa, transformando-a, assim, em
“paciente” potencial, ou da visita domiciliar para levar a medicação receitada,
supervisionar a execução do tratamento, etc. Já os resultados das atividades de
conscientização, como as “palestras”, embora sejam realizadas com frequência,
costumam ser questionados pelos profissionais.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No entanto, se, por um lado, os profissionais
da ESF têm de lidar com a demanda dos usuários e a “controlar”; por outro, como
contraparte da circulação dos ACS, temos o incremento dos problemas (e
consequentemente da demanda) através da sua visibilização nas redes de cuidado.
O que era restrito ao indivíduo ou ao espaço doméstico adquire existência de
diversas maneiras e passa a circular. Quem identifica os problemas? A
circulação nas localidades transforma as informações em problemas (passíveis de
intervenção). Às vezes são os vizinhos que avisam os ACS sobre algum problema;
às vezes os ACS suspeitam de algum problema e avisam a pessoa; às vezes a
pessoa fala para o ACS e os familiares não sabem do problema, como por exemplo,
nas situações de gravidez na adolescência.</p>

    <p>A forma de mediação dos ACS possibilita o
“surgimento” dos problemas na medida em que eles potencializam a circulação das
informações. Para isso, uma série de recursos comunicativos é disponibilizada,
transformando suas interações com familiares e vizinhos numa polissemia de
papéis e possibilidades em aberto: “[…] temos que passar pra ele [o paciente]
uma confiança, a gente tem que passar pra ele, e tudo que acontece na família
fica assim entre a equipe, mais ninguém, só médico, enfermeira, as colegas de
trabalho” [Neide, ACS, 38 anos, católica, UBS da beira-mar].</p>

    <p>Mas essa forma de mediação também traz
problemas ao ACS: “Porque a gente tá no dia a dia, no cotidiano dessas pessoas
e a gente acaba invadindo até a privacidade deles…” [Elisângela, ACS, 33 anos,
católica, UBS da beira-mar]. Além disso, constitui um dilema lidar ao mesmo
tempo com as informações, já que o ACS “sabe de tudo” e tem que lidar com o
controle exercido sobre ele em termos das informações.</p>

    <p>O problema da circulação de informações
constitui um desafio com o qual toda a equipe tem de lidar, ainda mais porque, no
modelo de intervenção característico da ESF, também as equipes encontram-se
implicadas na circulação. Assim, por vezes, os pacientes resistem a falar da
doença com os ACS por temerem a “divulgação” na localidade.</p>
    <p>&nbsp;</p>
</font>

    <p><b><font size="3" face="Verdana">O que são os problemas?</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>Nossos interlocutores de pesquisa partilham do
ideal da prevenção como estratégia eficaz de cuidado, principalmente
considerando-se a situação de vulnerabilidade de grande parcela da população
atendida (que compreende &shy;basicamente a população nativa de baixa renda).
Evitar o surgimento do problema ou minimizar seus efeitos configura uma
estratégia altamente valorizada pelos profissionais. No entanto, existem
diferenças entre os membros das equipes na conceituação do que sejam os
problemas. Para os agentes de saúde, a identificação dos problemas é mais
ambígua do que entre os demais profissionais, oscilando entre o reconhecimento
de sua heterogeneidade e extensão ao longo do “social” (no sentido latouriano)
e o enquadramento nas definições protocolares e passíveis de intervenção pela
ESF. Os agentes de saúde vivenciam de forma mais intensa (do que enfermeiros e
médicos) a percepção de que as atribuições do seu trabalho seguem a extensão
dos problemas. A prática cotidiana constrói diferenças importantes, como
evidenciam as posições diferenciadas que são destacadas nos fragmentos de
narrativas de duas provedoras de saúde citadas abaixo:</p>

    <blockquote>“[…] o nosso trabalho é de prevenção, de
orientação e de controle. […] tem pessoas que acham que é só relacionado à
saúde, mas não é. Logo, entra muitas coisas aqui” [Neide, ACS, 38 anos,
católica, UBS da beira-mar].</blockquote>

    <blockquote>“Problemas sociais até que a gente acaba se
envolvendo. Mas são problemas de saúde” [Eliana, enfermeira, 24 anos, católica,
UBS da pista].</blockquote>

    <p>A concepção de saúde e doença dos profissionais
enfatiza a importância dos bons hábitos de vida. Mas as ambiguidades sobre o
que sejam os problemas repercutem na forma como os profissionais, especialmente
os ACS, conceituam a saúde, doença e hábitos de vida: ora medicalizando os
conceitos; ora deslocando-os para o contexto das relações em que esses
conceitos são ressignificados. Assim, quando interpelados sobre os fatores que
causam as doenças, responderam que no seu trabalho cotidiano os cuidados com a
saúde não são vistos como separados dos demais cuidados (econômico, religioso,
psicológico).</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As ambiguidades em torno do que é o objeto de
intervenção dos profissionais convivem na prática com os esforços de
medicalização de hábitos considerados inadequados, intensificando suas
características nocivas para a saúde da população. A dinâmica da “busca ativa”
partilhada pela equipe, mas vivida intensamente pelos agentes de saúde,
viabiliza passagens eficazes entre as noções de hábitos, problemas e doenças.
Assim, na eclosão da doença, sobressaem, na heterogeneidade do cotidiano, as
fronteiras pouco nítidas entre a “objetividade” das condições físicas e a falta
de oportunidades de ascensão social &#8211; os condicionantes da saúde&nbsp;<a style='mso-footnote-id:ftn19' href="#_ftn19"
name="_ftnref19" title=""><sup>[19]</sup></a> &#8211; e a dimensão voluntária das atitudes e hábitos, que podem ser
alterados por meio do trabalho de convencimento.</p>
    <p>&nbsp;</p>
</font>

    <p><b><font size="3" face="Verdana">Lidando com os problemas: entre o encaminhamento e a
resolução</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <blockquote>“A unidade de saúde da família, como qualquer
outra unidade, é um lugar de acompanhamento das pessoas, aqui as pessoas têm
uma visão diferente do que [é] a unidade de saúde da família. Procuram a
unidade de saúde da família em caso de emergência e a gente sabe que emergência
não é na unidade de saúde da família. Então a gente tem tentado mudar a
percepção das pessoas do que é a unidade de saúde da família” [Eliana, enfermeira,
24 anos, católica, UBS da pista].</blockquote>

    <blockquote>“A gente tenta resolver o problema, porque
geralmente são pessoas assim… […] Se não tem um medicamento que é aquele de
melhor escolha, a gente escolhe uma segunda opção, uma terceira opção que tenha
no posto, que a pessoa não precise ter que desembolsar de qualquer forma um
dinheiro para comprar, porque às vezes não tem e não tem de onde tirar. Isso aí
é uma realidade” [Lívia, enfermeira, 23 anos, católica, UBS da beira-mar].</blockquote>

    <p>Os dois fragmentos de narrativa acima
reproduzidos são de enfermeiras de unidades de saúde da pista e da beira-mar.
Ambas explicitam com agudeza os dilemas envolvidos nos indicadores de resolução
da ESF. Afinal, até que ponto a proposta de base, que é a prevenção e a
política do encaminhamento, pode ser compreendida como resolução?</p>

    <p>Quando questionado sobre a “resistência” ao
tratamento na unidade, um ACS da pista aponta a resistência à “filosofia” do
encaminhamento. As pessoas mais resistentes, no sentido apontado por ele, são
aquelas menos instruídas, com “atitude primitiva” e que “não gostam de assistir
palestra”, como ele &shy;definiu.</p>

    <p>A dessintonia entre o que são os problemas e
as suas resoluções indica diferenças de expectativas entre os profissionais da
saúde e a população. Por outro lado, mesmo entre os profissionais as
ambiguidades existem: para a enfermeira do relato abaixo, as pessoas a procuram
para resolver “tudo”, mas quando questionada sobre o que se “resolve” no posto,
verifica-se o reconhecimento da diferença entre os ideais de “resolução” e de
“acompanhamento”, que caracterizam o trabalho das equipes: “Não, aqui a gente
só faz acompanhamento de pressão e diabete. Acompanha, orienta sobre
alimentação, atividade física, sobre os medicamentos, é… tem… parte da visita
domiciliar que a gente faz […]” [Sandra, enfermeira, 32 anos, católica, UBS da
beira-mar]. Mas para a enfermeira de outra unidade, o atendimento “típico” da
ESF também compreende a resolução de problemas emergenciais.</p>

    <p>Agentes comunitários, enfermeiros e médicos
concordam que a forma de resolução dos problemas é o encaminhamento. Mas
observam-se diferenças entre as formas de mediação que configuram o
“encaminhamento”. Quando perguntado sobre quais são os principais problemas do
local, o médico de uma UBS da beira-mar destaca os problemas elencados pela
ESF: doenças crônicas decorrentes de hábitos de vida inadequados. Portanto, o
principal problema é a falta de prevenção.</p>

    <p>ACS e enfermeiros sentem mais intensamente do
que os médicos as ambiguidades implicadas no trabalho da ESF. Observa-se uma
variação na percepção do que sejam os problemas: por um lado, são muitos os
problemas com os quais o agente de saúde tem de lidar, e eles interferem nos
processos de cuidados dos pacientes; por outro lado, é preciso focar nos
problemas “típicos” da ESF (as doenças do “grupo de risco”), que demandam um
esforço cotidiano de monitoramento através de visitas domiciliares e outros
procedimentos de “busca ativa”.</p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
</font>

    <p><b><font size="3" face="Verdana">Mediações e motivações da diversidade terapêutica</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>A importância das tradições terapêutico-religiosas,
e em especial do candomblé, em Itaparica oferece um cenário com o qual as
equipes da ESF têm de lidar cotidianamente.<a style='mso-footnote-id:ftn20'
href="#_ftn20" name="_ftnref20" title=""><sup>[20]</sup></a>
A diversidade terapêutica oriunda desse contexto gera controvérsias que afetam
a administração dos tratamentos recomendados, mas eventuais discordâncias não se
transformam em desacordos sobre a legitimidade dos tratamentos biomédicos,
religiosos e/ou fitoterápicos. A diversidade de tratamentos é
reconhecida pelas equipes de saúde e claramente expressa nas narrativas
produzidas pelos entrevistados quando estimulados a falar da questão:</p>

    <blockquote>“A maioria começa a procurar lugares
espirituais, vai pra religião, aí depois da religião, parte pra a crença
popular, com esses medicamentos naturais que fala, né? Chazinho, erva, entre
outras coisas. Aí, quando não consegue, vem pra o posto” [Jussara, ACS, 25
anos, católica, UBS da pista].</blockquote>

    <blockquote>“Aqui é muito comum o uso de chá e de reza,
existe rezadeiras. Tinha uma muito popular aqui na localidade, Dona B., hoje
ela já não enxerga mais. E tem uma série de problemas de saúde também que a
impossibilitou desse serviço prestado. Mas aqui ainda conta com algumas
rezadeiras, benzedeiras, então eles procuram. Tomam chá, usam de sua sabedoria
popular e procura esse tipo de atendimento antes sim, a maioria dos casos”
[Eliana, enfermeira, 24 anos, católica, UBS da pista].</blockquote>

    <p>Embora reconhecida, a diversidade de
tratamentos nem sempre é considerada como um mediador com o qual ou contra o
qual se deve lidar. No entanto, os ACS se preocupam com as eventuais
consequências orgânicas e psicológicas que podem decorrer das “combinações” de
tratamentos.</p>

    <p>Uma ACS evangélica explicita em seu relato os
problemas que podem surgir em consequência da filiação religiosa num contexto
marcado pela forte presença do candomblé. No entanto, o problema não está
situado no conflito entre concepções de tratamento, mas em possíveis
interferências nas relações de confiança entre o agente e o paciente, quando
passam pela mediação de pessoas que detêm certo prestígio na localidade em que
o ACS também reside, como ela avalia em resposta a esta questão:</p>

    <blockquote>“Olha é bem complicado você mexer com a fé das
pessoas, principalmente quando eles… com a crença das pessoas principalmente
quando eles têm mais idade, a gente procura, assim, muito sutilmente: ‘Dona
Maria vá num médico, marque uma consulta pra senhora’. ‘É eu vou, mas eu
procurei’ (eles têm mania de chamar, principalmente as mais idosas, de mãe, de
pai), ‘minha mãe não sei quem, meu pai não sei quem’ [referindo-se às mães e
pais de santo]. Principalmente quando se trata de um agente comunitário
evangélico. […] Aí complica mais ainda porque tipo: ‘Ah, tá desfazendo da minha
religião’” [Adélia, ACS, 45 anos, evangélica, UBS da beira-mar].</blockquote>

    <p>Apesar de eventuais problemas decorrentes de
sua filiação religiosa na relação com outros tratamentos, para ela é preciso
reconhecer os limites e potencialidades de cada terapêutica, o que significa
que os dilemas configuram uma questão prática e não “ideológica”. Num mundo de
“repartição” das especialidades, a concorrência implica no reconhecimento das
habilidades de todos.</p>

    <p>Esses dilemas encontram ressonância na
filosofia da ESF, que reformula o contexto onde são estabelecidas as relações
entre os agentes de saúde e os usuários, buscando superar a percepção
“tradicional” da prática médica que intervém sobre o indivíduo abstrato,
remetendo-o à rede de sociabilidade na qual se encontra inserido. Tem-se,
assim, entre os profissionais da ESF, uma concepção de doença que não se
restringe à sua manifestação biológica, se estendendo para outros domínios da relação
entre corpo, mente e ambiente, podendo se apresentar como</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>“Uma anormalidade, uma patologia ou disfunção
orgânica ou emocional, desde quando a pessoa, ela não mais vive mais, assim, de
forma harmoniosa com seu organismo, com a sua mente ou com seu estado
emocional, ou até com sua relação interpessoal. Também isso pode ser
considerado doença. […] No nosso cotidiano nós podemos entender que o que causa
as doenças é o ‘descuidado’ com o próprio corpo ou com a mente e
principalmente, pra que leve ao ‘descuidado’, a pouca informação. A falta de
informação é algo muito…, né? É algo decisivo em relação à saúde” [Everaldo,
enfermeiro, 24 anos, evangélico, UBS da pista].</blockquote>

    <p>Esse deslocamento é especialmente vivenciado
pelos ACS em seu trabalho cotidiano, onde a extensão da doença é bem mais ampla
do que sua localização corporal, envolvendo redes de parentesco e de
vizinhança. Seu trabalho imiscui-se nas redes, redefinindo as fronteiras dos
papéis sociais, como aponta Janaína: “Então a gente se torna agente comunitário
como membro da família. Então toda questão, até mesmo pessoal, a gente acaba se
envolvendo com a família. Briga, conflito, a gente acaba participando também”
[ACS, 39 anos, cristã, UBS da beira-mar].</p>

    <p>Seu trabalho encontra-se, assim, disseminado
pelas redes intersticiais que atravessam os módulos territorializados de ação
das equipes de saúde. Essas são redes nas quais os ACS também se encontram
implicados, posto que residem nas localidades em que trabalham e costumam
participar dos processos de cuidado quando ocorrem situações de emergência fora
de seu horário de trabalho ou durante os finais de semana (Bonet e Tavares
2006).</p>
    <p>&nbsp;</p>
</font>

    <p><b><font size="3" face="Verdana">À guisa de conclusão</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>Na relação entre as circunstâncias e a
manifestação das doenças, os profissionais apontam as doenças prevalentes da
ESF como os principais problemas das localidades. No entanto, ao mesmo tempo em
que cristalizam a doença como conceito, também a qualificam como evento,
evidenciando os mediadores que intervêm no processo. Por outro lado, o evento
da doença apresenta nuances, como se pode deduzir das narrativas de enfermeiros
das UBS, que apontam as motivações pedagógicas para a transformação das
condições de saúde. Entre os fatores apontados por eles se encontram a
educação, boa alimentação e atividade física, disciplina e cuidado, hábitos de
vida e higiene, prática de exercícios físicos e alimentação apropriada,
harmonia com familiares e sociedade, todos estes fatores como podendo reduzir
os riscos e consequências das doenças.</p>

    <p>Por sua vez, para os agentes de saúde, as
mediações destacadas realçam o panorama da carência vivenciada pela população
como implicando fatores de risco, sendo espontaneamente mencionados o
desemprego, o meio social da pessoa, as condições físicas e psicológicas, a má
alimentação, conflitos em família, descaso com os cuidados da saúde.</p>

    <p>Fazendo um paralelo entre nossos achados e as
relações identificadas por Kelly (2005) entre indígenas, equipes de saúde e
médicos no alto Orinoco, constata-se que o potencial para as controvérsias não
se encontra localizado nas divergências sobre saúde e doença. As diferenças se
encontram entre as intenções (deliberadas) e o “pano de fundo” (dado) sobre as
quais estas adquirem motivação, sendo que as divergências não apenas fomentam
as disputas e incompreensões, mas também as motivações de ambas as partes.</p>

    <blockquote>“Nessas circunstâncias, a orientação normal dos
médicos em seu contato com os Yanomami concerne muito mais à produção de
convenções para assegurar um ambiente em que se possa viver e trabalhar do que
à administração de desacordos com respeito a teorias biomédicas e indígenas da
doença ou a terapias. ‘Instáveis’, ‘imprevisíveis’, ‘cada um faz como bem
entende’ são algumas das expressões empregadas para definir os Yanomami, seja
como pacientes, seja como colegas de trabalho. Diante de tal entropia, os
médicos gastam muito tempo e esforço em empreendimentos ‘coletivizantes’:
estabelecendo horários, definindo regras de trabalho com o pessoal de saúde
yanomami, fixando normas de acesso aos recursos da clínica” (Kelly 2005:&nbsp;226).</blockquote>

    <p>O autor também destaca os equívocos e
“desacordos homônimos” (Castro 2002) de ambas as partes em torno dos projetos
para “virar civilizado”:</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>“Eles [médicos e outros] também estão
interessados em algum tipo de processo de ‘virar brancos’. E, no entanto, ao
passo que os Yanomami tomam a ‘civilização’ como uma forma de diferenciação
deliberada (a produção de pessoas duais branco-indígenas, contra o pano de
fundo de uma sociedade dada), missionários e médicos tomam-na como uma
coletivização deliberada de um substrato entrópico: os brancos não reconhecem a
existência de uma sociedade entre os índios e veem-se assim compelidos a fazer
a convenção e a sociedade” (Kelly 2005: 226-227).</blockquote>

    <p>No caso das equipes de saúde de nossa
pesquisa, talvez possamos retratar um pano de fundo de “menos” sociedade,
tomando-se como medida de referência a sociedade moderna, instruída e
esclarecida, apontando para uma orientação coletivizante “reformadora” dos
equívocos inerentes às crenças populares e hábitos não adequados.<a
style='mso-footnote-id:ftn21' href="#_ftn21" name="_ftnref21" title=""><sup>[21]</sup></a> Essa “falta” de sociedade é
compreendida pelas equipes de saúde (e isso inclui também os ACS, a despeito de
seu frequente comportamento ambíguo) como a “causa” da falta de saúde
(precariedade das condições econômicas, psicológicas, emocionais e religiosas)
e, ao mesmo tempo, das dificuldades para a reversão desse quadro (já que falta
educação para o remodelamento dos hábitos de vida). Essa “falta” de sociedade
também pode apontar, como sugere Agier (2008), para diferentes modalidades de
“pessoas” entre as populações vulneráveis, como as que não se encontram em
condição de alcançar certos direitos.</p>

    <p>Nas explicações das equipes de saúde para as
dificuldades desse empreendimento civilizatório evidenciam-se ambiguidades e
descompassos sobre o que as localidades “necessitam” e o que “desejam”.
Reconhecem, por um lado a necessidade de se melhorar as condições de vida para
o incremento dos indicadores de saúde, mas ao mesmo tempo as equipes enfatizam
que as mudanças de atitude é que viabilizam a aquisição da saúde; levam
“informação” às comunidades (por meio de ações educativas), mas avaliam
negativamente essa estratégia, admitindo a falta de interesse da população que
“resiste” a esse tipo de abordagem. Assim, embora as causas das doenças sejam
variáveis (fatores genéticos e outros), a responsabilidade pela doença
“pertence” ao paciente como “propriedade ativa”, de mentes, corpos e ação
(Strathern 2006:&nbsp;210).</p>

    <p>A ambiguidade implicada nesse projeto
coletivizante pode ser traduzida na homologia já destacada por Strathern:</p>

    <blockquote>“A pessoa ocidental, socializada e internamente
controlada, precisa emergir como um microcosmo do processo de domesticação
através do qual os recursos naturais se tornam disponíveis para um uso
cultural. Consequentemente, a pessoa é um homólogo da sociedade pensada como um
conjunto de regras e convenções” (Strathern 2006:&nbsp;209).</blockquote>

    <p>São dilemas que atravessam a categoria
“prevenção”, que tanto significa a intervenção na vida da população &#8211; o
que implica na percepção de pessoas destituídas de “sociedade” &#8211;, como a intervenção
da população em seus corpos e
mundos.</p></font>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">Bibliografia</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <!-- ref --><p>AGIER, Michel, 2008, <i>Gérer les indésirables: des camps de réfugiés au gouvernement
humanitaire</i>. Paris, Flammarion.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=188525&pid=S0873-6561201500030000400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>ALMEIDA, C., 2001, “Reforma del Estado y
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Sanitária Brasileira: Em Busca da Eqüidade</i>, Research in Public Health
Technical Papers, 17. Washington, DC, OPAS.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=188529&pid=S0873-6561201500030000400003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>BONET, Octavio, e Fátima Regina Gomes
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    <!-- ref --><p>BONET, Octavio, e Fátima Regina Gomes TAVARES,
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    ]]></body>
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    <!-- ref --><p>BRAGA, Julio, 1995, <i>Ancestralidade Afro-Brasileira: O Culto de Babá Egum</i>. Salvador,
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    <!-- ref --><p>BRIGGS, Charles L., 2003, “Why
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    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>CAROSO, Carlos, 2008, “Presença do
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    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>CASTRO, Eduardo Viveiros de, 2002, “O
nativo relativo”, <i>Mana</i>, 8&nbsp;(1):
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    <!-- ref --><p>CHALLINOR, Elizabeth Pilar, 2011,
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(última consulta em setembro de 2015).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=188559&pid=S0873-6561201500030000400018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>CORDEIRO, H., 1996, “O PSF como estratégia
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    <!-- ref --><p>DELEUZE, Gilles, e Félix GUATTARI, 1997,
“1440: O liso e o estriado”, em Gilles Deleuze e Félix Guattari, <i>Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia</i>,
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    <!-- ref --><p>FASSIN, Didier, 1998, <i>Les figures urbaines de la santé publique: enquête sur des expériences
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    <!-- ref --><p>FASSIN, Didier, 2010, <i>La raison humanitaire: une historie morale du temps présent</i>. Paris,
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    <!-- ref --><p>FAVORETO, Cesar Augusto Orazem, 2002, <i>Programa de Saúde da Família no Brasil: Do
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<body><![CDATA[<!-- ref --><p>FONTES, Breno, 2004, “Sobre a trajetória
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    <!-- ref --><p>JANES, Craig R., e Kitty K. CORBETT, 2009,
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    <!-- ref --><p>KELLY, José Antônio, 2005, “Notas para uma
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19&nbsp;(4): 1019-1029.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=188583&pid=S0873-6561201500030000400030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>LATOUR, Bruno, 2006, <i>Changer de société: Refaire de la sociologie</i>. Paris: Editions La
Découverte.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=188585&pid=S0873-6561201500030000400031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>LI, Tania Murray, 2007, <i>The Will to Improve: Governmentality,
Development and the Practice of Politics</i>. Durham, NC, Duke University
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    <!-- ref --><p>MARTINS, Rafael L., e Carlos CAROSO, 2008,
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dissertação de mestrado em Antropologia Social.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=188591&pid=S0873-6561201500030000400034&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MOL, Annemarie, 2003, <i>The Body Multiple: Ontology in Medical Practice</i>. Durham, NC, Duke
University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=188593&pid=S0873-6561201500030000400035&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

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(última consulta em setembro de 2015).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=188595&pid=S0873-6561201500030000400036&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>SENNA, Mônica de Castro Maia, 2002,
“Eqüidade e políticas de saúde: algumas reflexões sobre o programa Saúde da
Família”, <i>Cadernos de Saúde Pública</i>,
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    <!-- ref --><p>SERRA, Ordep, et al. (orgs.), 2002, <i>O Mundo das Folhas</i>. Feira de Santana e
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    <!-- ref --><p>STRATHERN, Marilyn, 2006, <i>O Gênero da Dádiva</i>. Campinas,
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    <!-- ref --><p>TAVARES, Fátima, Cláudio PEREIRA, e Carlos
CAROSO, 2011, “Diversidade, visibilidade e dimensão pública da vida religiosa
na Baía de Todos os Santos”, em Carlos Caroso, Fátima Tavares e Cláudio Pereira
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Federal da Bahia (Edufba), 479-528.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=188603&pid=S0873-6561201500030000400040&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>TAVARES, Fátima, e Octávio BONET, 2008,
“Itinerário terapêutico e práticas avaliativas: algumas considerações”, em
Roseni Pinheiro, A. Silva Júnior e R. Mattos (orgs.), <i>Atenção Básica e Integralidade: Contribuições para Estudos de Práticas
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&#8211; Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), 189-196.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=188605&pid=S0873-6561201500030000400041&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>WAGNER, Roy, 1975, <i>The Invention of Culture</i>. Chicago e Londres, The University of
Chicago Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=188607&pid=S0873-6561201500030000400042&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p></font>



    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">NOTAS</font></b></p>


<font size="2" face="Verdana">
    <p><a style='mso-footnote-id:ftn1' href="#_ftnref1"
name="_ftn1" title=""><sup>[1]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Uma versão inicial
deste artigo foi apresentada no XXXV Convegno Internazionale di Americanistica.
A versão atual é ampliada, além de apresentar algumas alterações decorrentes
das sugestões dos pareceristas.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn2' href="#_ftnref2"
name="_ftn2" title=""><sup>[2]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A ESF foi anteriormente
designada Programa Saúde da Família (PSF), nome pelo qual ainda hoje é amplamente
conhecida. A ESF organiza o sistema público de atenção básica à saúde
atualmente disseminado pelo país; os recursos financeiros são dotados pelo
governo federal e a gestão é de competência dos municípios. Organiza-se na
forma de equipes de saúde, que são responsáveis por territórios delimitados no
âmbito dos limites municipais.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn3' href="#_ftnref3"
name="_ftn3" title=""><sup>[3]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A pesquisa priorizou as
entrevistas com os agentes comunitários de saúde (ACS) e, em menor escala, com
enfermeiros. Quanto aos médicos, apenas um foi entrevistado. Esse desenho decorre
das dificuldades, entre enfermeiros e médicos, de se conseguir algum espaço nas
agendas para a realização de entrevistas. Já com os ACS é sempre possível
realizar conversas e entrevistas acompanhando seu trabalho nas visitas
domiciliares ou em horários alternativos à noite e nos finais de semana. Essa
“restrição” na coleta de dados junto aos profissionais da saúde certamente
produz algumas perspectivas de abordagens dos dilemas do trabalho cotidiano que
transcendem o espaço físico das unidades básicas de saúde (UBS) e que nos
interessa desenvolver aqui.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn4' href="#_ftnref4"
name="_ftn4" title=""><sup>[4]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Não é intenção, neste
trabalho, apresentar uma discussão pormenorizada relacionando a prática
cotidiana da ESF às discussões sobre políticas públicas. Como essa tarefa
extrapola os limites deste texto, faremos apenas algumas considerações. As
contribuições da antropologia para a saúde podem ser pensadas a partir do
trabalho de Langdon (2014), onde a autora apresenta dois eixos de análise
dessas relações. O primeiro eixo, da saúde como experiência sociocultural,
ancora-se em teorias norte-americanas e francesas que dialogam com a produção
brasileira. O segundo eixo compreende um diálogo entre saúde e política e tem
como referência a produção antropológica latino-americana. Nesse eixo são
enfatizadas as abordagens interdisciplinares na compreensão dos processos de
saúde e doença, problematizando a universalidade da perspectiva biomédica e
chamando a atenção para os agenciamentos mobilizados por indivíduos e grupos.
Podemos localizar nosso trabalho nesse conjunto de preocupações do segundo eixo
apontadas pela autora, especialmente no que se refere às relações entre
biomedicina e práticas de saúde locais implementadas por programas
governamentais. Para uma análise dos principais desafios decorrentes das transformações
recentes da antropologia médica e sua contribuição para o desenvolvimento de
políticas públicas de saúde, ver Campbell (2010). A respeito da contribuição da
antropologia para as abordagens sobre “saúde global”, ver Janes e Corbett
(2009).</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn5' href="#_ftnref5"
name="_ftn5" title=""><sup>[5]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Participando do mesmo
dossiê, que reúne trabalhos sobre o sofrimento social, vale destacar a
abordagem de Challinor (2011) sobre o “sofrimento vulgar” em microcosmos
sociais, tomando duas situações etnográficas em que se verifica a redução do eu
a uma filiação social específica. São casos de sofrimento cotidiano,
invisibilizados por rotinas de opressão, fazendo com que certas categorizações
sociais sejam ativadas, como, por exemplo, as identidades étnicas. Esses
sofrimentos contínuos produzem muitas pequenas fissuras nas relações sociais,
possibilitando a sua compreensão para além da dimensão da pobreza material.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn6' href="#_ftnref6"
name="_ftn6" title=""><sup>[6]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sobre essas
articulações vale destacar o trabalho de Li (2007) a respeito das políticas de
desenvolvimento. Nele a autora se detém nas formas através das quais atores e
instituições intervêm nas práticas políticas, chamando a atenção para novas
modalidades de poder.</p>





    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a style='mso-footnote-id:ftn7' href="#_ftnref7"
name="_ftn7" title=""><sup>[7]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Bonet e Tavares (2006)
já evidenciaram a importância das relações de vizinhança, familiares e
religiosas como redes intersticiais de cuidado.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn8' href="#_ftnref8"
name="_ftn8" title=""><sup>[8]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A produção
bibliográfica sobre a ESF no Brasil é extensa. Em linhas gerais, pode-se
sugerir que essa produção mapeia questões, dificuldades, desafios e estratégias
de pesquisadores comprometidos em maior ou menor grau com a proposta mais ampla
desse sistema. A partir da identificação de mais de 130 trabalhos nas bases de
dados <i>Scielo</i> e <i>Lilacs</i>, entre os anos de 1995 e 2008, foi possível enquadrá-los em
três perspectivas de pesquisa: (a)&nbsp;problematizadora;
(b)&nbsp;avaliativa/propositiva; e (c)&nbsp;resultados. A
primeira perspectiva, que compreende poucos trabalhos, toma o contexto da ESF
como objeto de reflexão a ser problematizado. A segunda engloba trabalhos
comprometidos mais explicitamente com a melhoria da ESF em suas diversas
dimensões e que podem envolver tanto mediadores humanos (médicos, enfermeiros,
ACS, outros profissionais, gestores, equipes em geral, família, comunidades
etc.) como não humanos (tecnologias materiais e instrumentais, modelos de
operacionalização e gestão). Na última categoria, resultados, encontram-se
trabalhos que buscam apresentar avaliações a partir da implementação, do
impacto e da qualidade dos serviços oferecidos pela ESF (especialmente
avaliações da satisfação dos usuários e consequências da implantação da ESF). O
horizonte dessa produção, explicitamente situada no modelo da ESF,
distancia-se, assim, dos objetivos do nosso trabalho, que busca explicitar
perspectivas que geram tensionamentos nas premissas desse modelo de atenção à
saúde.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn9' href="#_ftnref9"
name="_ftn9" title=""><sup>[9]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A água mineral jorra da
Fonte da Bica, construída em 1942, que tem sua nascente no Morro de Santo
Antônio. O proselitismo sobre a qualidade da água e seus benefícios à saúde fez
com que um historiador local (Ubaldo Osório) viesse a grafar sobre a fonte o
lema: “Êta água fina, faz velha virar menina”.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn10' href="#_ftnref10"
name="_ftn10" title=""><sup>[10]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Exceto pelos nomes dos
praticantes em saúde já referidos em outros trabalhos antropológicos, os nomes
dos interlocutores na pesquisa de campo são fictícios.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn11' href="#_ftnref11"
name="_ftn11" title=""><sup>[11]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; As críticas ao candomblé
também são destacadas por uma terapeuta que “recebe” o espírito de um médico e
realiza consultas em sua residência em Itaparica, que afirma: “Se eu quisesse
ganhar dinheiro, eu tava no candomblé e sou procurada por isso aqui, porque
aqui ninguém mais acredita no pessoal de candomblé daqui, então o pessoal vem
atrás de mim”.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn12' href="#_ftnref12"
name="_ftn12" title=""><sup>[12]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ver o dossiê publicado em
2013 sobre “Censo 2010, laicidade e religiosidades populares” na revista <i>Debates do NER</i>, 24 (2), disponível em <a
href="http://seer.ufrgs.br/index.php/debatesdoner/issue/view/2239/showToc" target="_blank">http://seer.ufrgs.br/index.php/debatesdoner/issue/view/2239/showToc</a>
(última consulta em setembro de 2015).</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn13' href="#_ftnref13"
name="_ftn13" title=""><sup>[13]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dados dos CNESNet, de 2012,
disponíveis em <a href="http://cnes.datasus.gov.br/Mod_Ind_Unidade.asp" target="_blank">http://cnes.datasus.gov.br/Mod_Ind_Unidade.asp</a>
(acesso em 22 de dezembro de 2012, última consulta em setembro de 2015). Esses
dados foram confirmados pelo trabalho de campo, com especial destaque para a
clínica / centro de especialidade recém-inaugurada à época do
estudo. Esta foi considerada como uma conquista muito importante para a
melhoria da atenção à saúde no município.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn14' href="#_ftnref14"
name="_ftn14" title=""><sup>[14]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; A “pista” é como os moradores
locais se referem à rodovia pavimentada que corta transversalmente toda a ilha.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn15' href="#_ftnref15"
name="_ftn15" title=""><sup>[15]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Embora na divisão territorial
do município não existam distritos nem localidades rurais.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn16' href="#_ftnref16"
name="_ftn16" title=""><sup>[16]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; A unidade de Ponta de Areia
ainda não opera como unidade da Saúde da Família, mas, segundo informou um
profissional, em breve será convertida neste formato. Atualmente ela funciona
como uma “unidade satélite”, espécie de extensão da UBS de Amoreiras, tanto que
o mesmo médico e enfermeira atendem nas duas localidades.</p>





    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a style='mso-footnote-id:ftn17' href="#_ftnref17"
name="_ftn17" title=""><sup>[17]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; A unidade de Mucambo também
não faz parte da Estratégia Saúde da Família. Na época da pesquisa era
considerada um “posto satélite” vinculado à unidade de Misericórdia, que seria
convertida em ESF.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn18' href="#_ftnref18"
name="_ftn18" title=""><sup>[18]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dentre os profissionais
entrevistados tivemos uma proporção equitativa de ACS e enfermeiros,
destacando-se a participação das mulheres nas equipes de saúde.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn19' href="#_ftnref19"
name="_ftn19" title=""><sup>[19]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para uma abordagem crítica do
conceito de “condicionantes sociais”, ver Bonet e Tavares (2008).</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn20' href="#_ftnref20"
name="_ftn20" title=""><sup>[20]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; No candomblé também se
observa o reconhecimento da eficácia terapêutica no processo de cura. Mas a
terapêutica das folhas é mais ampla do que a terapêutica farmacológica
biomédica. Doenças e infortúnios são passíveis de tratamento ou, como salienta
Serra, manifestações de “um desconforto que as folhas permitem remover” (Serra <i>et al</i>. 2002:&nbsp;107). Isso não
significa dizer que a eficácia das “folhas” se localiza no contexto ritual:
nesse caso é a noção de terapêutica que é redefinida, produzindo
especificidades nas relações entre eficácia terapêutica e ritual.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn21' href="#_ftnref21"
name="_ftn21" title=""><sup>[21]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como destaca Briggs (2003), a
referência da cultura como um sistema de crenças fixas orienta as intervenções
no âmbito dos programas de educação em saúde, que acabam compreendendo as
diferenças como obstáculos à modificação de comportamentos.</p></font>





     ]]></body><back>
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