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<publisher-name><![CDATA[Centro em Rede de Investigação em Antropologia - CRIA]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A arte urbana entre ambientes: &#8220;dobras&#8221; entre a cidade &#8220;material&#8221; e o ciberespaço]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[The urban art between environments: &#8220;folds&#8221; between the &#8220;material&#8221; town and cyberspace]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade Federal do Ceará Programa de Pós-Graduação em Sociologia ]]></institution>
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<country>Brasil</country>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This text aims to share an ethnographic experience in the field of street art developed in Lisbon. In a previous investigation I had observed that cyberspace can provide visibility and non-ephemerality to urban inscriptions considered illegal. Cyberspace, as one of the interlocutors of the research alluded, many times makes eternal what the city erases. I decided to implement an itinerary marked by the interventions of urban artists who move between an area of Lisbon and digital social network environments. Upon observing the work of artist Dalaiama Street Art, I experience the processes of unfolding of material and digital instances. And I end by pointing out that the ubiquitous nature of the various spheres of the Internet end up producing sagacity, inversions and the mutual recognition between the actors who are part of narratives, involving those who research and those who are researched.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[antropologia urbana]]></kwd>
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<kwd lng="en"><![CDATA[fold]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ 
    <p align="right"><font size="2" face="Verdana"><b>ARTIGOS</b></font></p>


    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="4" face="Verdana">A arte urbana entre ambientes: &ldquo;dobras&rdquo; entre a cidade &ldquo;material&rdquo; e
  o ciberespa&ccedil;o</font></b></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">The urban art
  between environments: &ldquo;folds&rdquo; between the &ldquo;material&rdquo; town and cyberspace</font></b></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font size="2" face="Verdana"><b>Gl&oacute;ria Di&oacute;genes<sup>I</sup></b></font></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p><sup>I</sup>Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em
Sociologia, Universidade Federal do Cear&aacute; (UFC), Brasil. <i>E-mail</i>: 
<a
href="mailto:gloriadiogenes@gmail.com">gloriadiogenes@gmail.com</a></p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <p>&nbsp;</p>
<hr noshade size="1">
    <p><b>RESUMO</b></p>
    <p>Este texto tem como objetivo a partilha de uma experi&ecirc;ncia
etnogr&aacute;fica no campo da <i>street art </i>desenvolvida em Lisboa. Em uma
investiga&ccedil;&atilde;o realizada anteriormente, observei que o ciberespa&ccedil;o pode
proporcionar &agrave;s inscri&ccedil;&otilde;es urbanas consideradas ilegais um lugar de
visibilidade e de n&atilde;o efemeridade. O ciberespa&ccedil;o, como aludiu um dos
interlocutores de pesquisa, muitas vezes eterniza o que a cidade apaga. Decidi
implementar um itiner&aacute;rio marcado por interven&ccedil;&otilde;es de artistas urbanos que se
moviam entre uma zona de Lisboa e ambi&ecirc;ncias das redes sociais digitais. Por
meio do trabalho de observa&ccedil;&atilde;o realizado com o artista denominado Dalaiama
Street Art, efetuo os processos de desdobramento entre as inst&acirc;ncias material e
digital. Finalizo o texto apontando que a natureza ub&iacute;qua das esferas que
perpassam a Internet acaba por produzir arg&uacute;cias, invers&otilde;es e o m&uacute;tuo
reconhecimento entre atores que povoam narrativas, envolvendo quem pesquisa e
quem &eacute; pesquisado.</p>

    <p><b>Palavras-chave</b>: antropologia urbana, etnografia, arte
urbana, ciberespa&ccedil;o, dobra</p>


<hr noshade size="1">
    <p><b>ABSTRACT</b></p>
    <p>This text
aims to share an ethnographic experience in the field of street art developed
in Lisbon. In a previous investigation I had observed that cyberspace can provide
visibility and non-ephemerality to urban inscriptions considered illegal.
Cyberspace, as one of the interlocutors of the research alluded, many times
makes eternal what the city erases. I decided to implement an itinerary marked
by the interventions of urban artists who move between an area of Lisbon and
digital social network environments. Upon observing the work of artist Dalaiama Street Art, I experience the processes of
unfolding of material and digital instances. And I end by pointing out that the
ubiquitous nature of the various spheres of the Internet end up producing
sagacity, inversions and the mutual recognition between the actors who are part
of narratives, involving those who research and those who are researched.</p>

    <p><b>Keywords: </b>Urban
Anthropology, Ethnography, urban art, cyberspace, fold</p></font>
<hr noshade size="1">
    <p>&nbsp;</p>
    <p>&nbsp;</p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b><font size="3" face="Verdana">O dentro e o fora da el&aacute;stica arte
das ruas: trancelins do terreno<a style='mso-footnote-id:ftn1'
href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><sup>[1]</sup></a><sup></sup></font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>Durante quase todo o ano de 2013, lancei-me na empreitada de efetuar um
trajeto etnogr&aacute;fico em meio &agrave;s interven&ccedil;&otilde;es de artistas urbanos e <i>graffiters</i>
entre espa&ccedil;os da cidade e &agrave; ambi&ecirc;ncia das redes sociais digitais.<a
style='mso-footnote-id:ftn2' href="#_ftn2" name="_ftnref2" title=""><sup>[2]</sup></a> Ao inv&eacute;s de encetar o
caminho mediado por um mapa pr&eacute;vio no que tange &agrave; percep&ccedil;&atilde;o da totalidade da
paisagem, experimentei viandar, observar e, nessa desloca&ccedil;&atilde;o, engatar
aproxima&ccedil;&otilde;es, encontros, conex&otilde;es e familiaridades.<a style='mso-footnote-id:
ftn3' href="#_ftn3" name="_ftnref3" title=""><sup>[3]</sup></a><sup></sup></p>

    <p>Defini uma zona de itiner&acirc;ncia em Lisboa
relativa a uma &aacute;rea espec&iacute;fica de seu per&iacute;metro hist&oacute;rico,<a style='mso-footnote-id:
ftn4' href="#_ftn4" name="_ftnref4" title=""><sup>[4]</sup></a>
a qual &eacute; marcada por frequentes &shy;produ&ccedil;&atilde;o de <i>graffiti</i><i><sup>&nbsp;</sup></i><a
style='mso-footnote-id:ftn5' href="#_ftn5" name="_ftnref5" title=""><sup>[5]</sup></a> e inscri&ccedil;&atilde;o de <i>tags.</i><a style='mso-footnote-id:ftn6'
href="#_ftn6" name="_ftnref6" title=""><sup>[6]</sup></a><i>
</i>Em 2008, ap&oacute;s uma vasta campanha empreendida para a &ldquo;reabilita&ccedil;&atilde;o do Bairro
Alto&rdquo;, foi criada, atrav&eacute;s da C&acirc;mara Municipal, a Galeria de Arte Urbana (GAU), cuja inaugura&ccedil;&atilde;o foi
marcada pela instala&ccedil;&atilde;o de uma s&eacute;rie de pain&eacute;is na Cal&ccedil;ada da Gl&oacute;ria (C&acirc;mara
2014). A referida zona passa a ser alvo, mais especificamente a partir de 2009,
de m&uacute;ltiplas interven&ccedil;&otilde;es na esfera da <i>street art.</i> Recentemente, Lisboa
foi apontada como sendo a sexta cidade do mundo para se apreciar a arte urbana,<a
style='mso-footnote-id:ftn7' href="#_ftn7" name="_ftnref7" title=""><sup>[7]</sup></a> e isso salta aos olhos dos
que circulam por suas ruas, particularmente no que diz respeito &agrave; vis&atilde;o
indicial&nbsp;<a
style='mso-footnote-id:ftn8' href="#_ftn8" name="_ftnref8" title=""><sup>[8]</sup></a></sup> de
antrop&oacute;logos urbanos. Seguia movida pela ideia de que, mesmo cruzando terrenos
descont&iacute;nuos (f&iacute;sico e digital) que ultrapassavam fronteiras por meio da
desloca&ccedil;&atilde;o incessante dos artistas nos espa&ccedil;os da cidade e da <i>web</i>, essa
&ldquo;rede ampla continua a ser local em todos os pontos&rdquo; (Latour 1994: 114). O que
figura nas p&aacute;ginas de jornais, revistas e nos espa&ccedil;os <i>online</i> s&atilde;o imagens
que localizam a arte disseminada na paisagem lisboeta.</p>

    <p>O ato de percorrer quase que cotidianamente as
ruas possibilitou-me ir identificando uma curiosa tela pict&oacute;rica em suas
reiteradas muta&ccedil;&otilde;es. Os desenhos e letras que pareciam anunciar-se eram
sucessivamente ilustrados e apagados das paredes. O intento de situar,
por meio da assinatura de seus autores, obras e inser&ccedil;&otilde;es no ciberespa&ccedil;o, em
alguns momentos parecia me colocar diante de uma cilada. O que via em um dia j&aacute;
no outro &ldquo;sumia&rdquo; dos suportes materiais da cidade e, por vezes, permanecia com
cores n&iacute;tidas nas p&aacute;ginas e <i>sites</i> de imagens organizados e divulgados
por seus autores.<a style='mso-footnote-id:ftn9' href="#_ftn9" name="_ftnref9"
title=""><sup>[9]</sup></a> Percebi que havia, entre as
&ldquo;cenas virtuais&rdquo;&nbsp;<a
style='mso-footnote-id:ftn10' href="#_ftn10" name="_ftnref10" title=""><sup>[10]</sup></a> e as
cenas urbanas da <i>street art</i>, singulares planos intermitentes.</p>

    <p>Segui, ent&atilde;o, o ritmo de uma esp&eacute;cie de
ziguezague etnogr&aacute;fico, como se o campo incidisse entre saltos e plat&ocirc;s.<a
style='mso-footnote-id:ftn11' href="#_ftn11" name="_ftnref11" title=""><sup>[11]</sup></a> Tra&ccedil;ava aproxima&ccedil;&otilde;es,
identificando &ldquo;perfis&rdquo;, partilhas, pontos de cruzamento de interesses e a&ccedil;&otilde;es
de artistas; montava, a partir da&iacute;, um mapa <i>sui generis </i>que unificava
eixos dos dom&iacute;nios <i>online </i>e <i>off-line. </i>Esse batismo entre campos<i><sup>&nbsp;</sup></i><a
style='mso-footnote-id:ftn12' href="#_ftn12" name="_ftnref12" title=""><sup>[12]</sup></a><i> </i>me revelou o indispens&aacute;vel esfor&ccedil;o
de inserir-me em uma paisagem que tamb&eacute;m estava em constante deslocamento. Isso
porque, ap&oacute;s quase dois meses de observa&ccedil;&atilde;o, registros e percep&ccedil;&atilde;o de conex&otilde;es entre colagens,
pinturas, <i>graffiti</i> e est&ecirc;ncis<i><sup>&nbsp;</sup></i><a
style='mso-footnote-id:ftn13' href="#_ftn13" name="_ftnref13" title=""><sup>[13]</sup></a> na esfera da cidade e no ambiente das redes sociais digitais,<a
style='mso-footnote-id:ftn14' href="#_ftn14" name="_ftnref14" title=""><sup>[14]</sup></a> pude perceber uma expans&atilde;o
do &ldquo;terreno&rdquo; e a dificuldade que teria em realizar uma pesquisa com a extens&atilde;o
desejada nos nove meses que me restavam em Lisboa.</p>

    <p>At&eacute; ent&atilde;o, era desconhecida entre os <i>writers</i>&nbsp;<a style='mso-footnote-id:
ftn15' href="#_ftn15" name="_ftnref15" title=""><sup>[15]</sup></a> e praticamente n&atilde;o contava com o apoio de mediadores locais.<a
style='mso-footnote-id:ftn16' href="#_ftn16" name="_ftnref16" title=""><sup>[16]</sup></a> Percebi assim a necessidade
de suscitar novas estrat&eacute;gias, tanto para dar visibilidade ao trabalho de campo
e acelerar o seu ritmo como para catalisar a participa&ccedil;&atilde;o e a conflu&ecirc;ncia de outros
potenciais narradores ainda distantes do escopo de investiga&ccedil;&atilde;o. Decidi,
portanto, mesmo sem nenhuma habilidade de criar ferramentas digitais, ensaiar a
concep&ccedil;&atilde;o de uma esp&eacute;cie de <i>blog </i>que funcionaria como di&aacute;rio de
campo. Imaginei que, em se tratando de uma pesquisa <i>in between</i>, o
<i>blog</i> tanto propiciaria a partilha c&eacute;lere de anota&ccedil;&otilde;es quanto poderia
atuar, tamb&eacute;m, como &ldquo;dobra&rdquo; etnogr&aacute;fica, anexando planos distintos e
comumente fragmentados&nbsp;<a style='mso-footnote-id:ftn17' href="#_ftn17" name="_ftnref17"
title=""><sup>[17]</sup></a> de
observa&ccedil;&atilde;o.<a style='mso-footnote-id:ftn18' href="#_ftn18" name="_ftnref18"
title=""><sup>[18]</sup></a> &Eacute; assim que, em 27 de
fevereiro de 2013, efetuo uma primeira publica&ccedil;&atilde;o no AntropologiZZZando:&nbsp;<a style='mso-footnote-id:
ftn19' href="#_ftn19" name="_ftnref19" title=""><sup>[19]</sup></a></p>

    <blockquote>&ldquo;Estarei divulgando aqui, di&aacute;rios e imagens de uma pesquisa antropol&oacute;gica. Durante
todo o ano de 2013, realizarei uma etnografia sobre o <i>graffiti</i> legal e
ilegal em Lisboa. Interessa-me identificar o impacto da arte e dos escritos
urbanos no ciberespa&ccedil;o. Criei esse blog para compartilhar &lsquo;achados&rsquo; de pesquisa
e conectar-me com todos os interessados em discutir a tem&aacute;tica&rdquo;.</blockquote>

    <p>Durante quase nove meses, pelo menos uma vez por semana fazia apontamentos no
AntropologiZZZando. Ao contr&aacute;rio do que mencionou James Clifford&nbsp;<a style='mso-footnote-id:
ftn20' href="#_ftn20" name="_ftnref20" title=""><sup>[20]</sup></a> (2011: 38), realizei a menor dist&acirc;ncia poss&iacute;vel entre os encontros
efetuados em campo e a constru&ccedil;&atilde;o dos textos etnogr&aacute;ficos. Era como se as cenas
e conversas travadas naqueles territ&oacute;rios permanecessem flutuando no registro
das narrativas. Dilui-se o intervalo entre o campo e o texto etnogr&aacute;fico, sendo
ele mesmo um rascunho em constante constru&ccedil;&atilde;o. Em muitas ocasi&otilde;es, logo ap&oacute;s
ter efetuado a publica&ccedil;&atilde;o e j&aacute; tendo enviado o <i>link </i>para o ator central
de observa&ccedil;&atilde;o, recebia alguma mensagem dele, fosse acrescentando, fosse
corrigindo ou solicitando que se refizesse determinada parte da sua fala ou de
legendas das fotos. Alguns estudos antropol&oacute;gicos na <i>web </i>apontam nuances
que v&ecirc;m ampliar os contornos das pr&aacute;ticas etnogr&aacute;ficas. Pereira (2012: 21)
realizou uma pesquisa sobre a presen&ccedil;a nativa de ind&iacute;genas no ciberespa&ccedil;o, por
meio de narrativas anunciadas por eles mesmos, o que a autora denomina de
autoetnografias. Elas mobilizam, em tempo real, conex&otilde;es do trabalho
realizado pelo pesquisador com autodescri&ccedil;&otilde;es de si ensejadas pelos narradores
da pesquisa. De forma similar, o <i>blog</i> potencializou uma esp&eacute;cie de
etnografia-em-ato, tal qual relato registrado no di&aacute;rio e publicado no dia 27
de setembro, j&aacute; evidenciando o esbo&ccedil;o de um certo &ldquo;balan&ccedil;o&rdquo; dessa experi&ecirc;ncia:<i><sup>&nbsp;</sup></i><a
style='mso-footnote-id:ftn21' href="#_ftn21" name="_ftnref21" title=""><sup>[21]</sup></a><sup></sup></p>

    <blockquote>&ldquo;A iniciativa de comunicar alguns dos achados de campo, leituras e reflex&otilde;es
por meio de um blog me possibilitou aproxima&ccedil;&otilde;es com potenciais atores do
campo, estreitou la&ccedil;os com pesquisadores, intensificou convites para palestras,
publica&ccedil;&otilde;es e promoveu trocas prof&iacute;cuas na &aacute;rea de estudo. Se por um lado o
blog atuou como paisagem potencializadora do tempo, abrandou dist&acirc;ncias,
multiplicou encontros e trocas, por outro diminuiu o intervalo que se estabelece
entre pesquisar, ler, escrever, redigir e publicar. Experimentei mover-me em um
campo simult&acirc;neo, como se ele condensasse, na mesma paisagem temporal, etapas
usualmente sucessivas de uma experi&ecirc;ncia etnogr&aacute;fica: momento de familiariza&ccedil;&atilde;o
com e incurs&otilde;es explorat&oacute;rias, inser&ccedil;&atilde;o no campo, anota&ccedil;&otilde;es, reda&ccedil;&atilde;o de textos,
publica&ccedil;&atilde;o, compartilhamentos; tudo acoplado a leituras e reflex&otilde;es.
Pesquisava, escrevia, lia e, na mesma sincronia, estabelecia debates e di&aacute;logos
presenciais e por meio da internet acerca dos percursos da pesquisa. O blog
criou uma esp&eacute;cie de vizinhan&ccedil;a etnogr&aacute;fica, produziu concomit&acirc;ncias entre
lugar, tempo e sujeitos. Precisei desenvolver uma certa ast&uacute;cia de me mover
entre limites, de transitar na paisagem material&nbsp;da cidade de Lisboa e
cruzar fluxos, num tempo cont&iacute;guo, das extens&otilde;es dessa cidade no ambiente
digital. &Eacute; quase &oacute;bvio, assim, que o blog esteja envolto num di&aacute;logo de risco,
tal qual o trecho de um dos di&aacute;rios publicados no dia 11 de abril:</blockquote>

    <blockquote>Nesse meio tempo, li um instigante artigo de
Appadurai denominado &lsquo;Di&aacute;logo, risco e convivialidade&rsquo;. Logo no in&iacute;cio
do texto, o autor fala o que naquele momento pareceu fazer um grande sentido na
esfera de experi&ecirc;ncia mobilizada pelo AntropologiZZZando: &lsquo;Ningu&eacute;m pode envolver-se
num di&aacute;logo sem correr s&eacute;rios riscos. Ele &eacute; sempre uma transa&ccedil;&atilde;o
arriscada&rsquo;&nbsp;(2009: 23).&nbsp;Compreendi que um blog-di&aacute;rio-de-campo, ao
contr&aacute;rio do tempo que um antrop&oacute;logo precisa para burilar, interpretar,
repensar, estilizar sua narrativa, flui como um discurso em ato. O pesquisador
se coloca n&atilde;o apenas diante do seu narrador, como coparticipante oculto do
texto, podendo, nessa feita, logo depois dos seus escritos, ter que
readequ&aacute;-lo, corrigi-lo, ampli&aacute;-lo e at&eacute; mesmo refaz&ecirc;-lo. E n&atilde;o apenas. Tanto
os narradores como os intercessores que o visitam, pesquisadores sobre a
tem&aacute;tica, atores da cena <i>street art</i>, ou apenas aqueles que comentam e
povoam o blog, passam a tomar parte ativa do ato da escrita. No inquietante
texto de Appadurai, ele ressalta que o primeiro risco (do di&aacute;logo) &eacute; o do
mal-entendido, inerente a toda comunica&ccedil;&atilde;o humana (2009: 23). Creio que
um blog dessa natureza, tendo em vista o car&aacute;ter quase sincr&ocirc;nico desse feitio
de comunica&ccedil;&atilde;o, ameniza o acenado primeiro risco. S&atilde;o essas algumas das
incita&ccedil;&otilde;es que d&atilde;o vigor a uma experi&ecirc;ncia etnogr&aacute;fica entre paisagens, entre
sujeitos, entre signos de um esfor&ccedil;o da tradu&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m da riqueza do percurso
etnogr&aacute;fico, que se torna para o antrop&oacute;logo um acontecimento, uma viv&ecirc;ncia,
tamb&eacute;m pessoal, o blog me propiciou outras experimenta&ccedil;&otilde;es&rdquo;.</blockquote>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Curiosamente, as estat&iacute;sticas das
publica&ccedil;&otilde;es sinalizadas por meio de uma ferramenta do Blogspot&nbsp;<a style='mso-footnote-id:
ftn22' href="#_ftn22" name="_ftnref22" title=""><sup>[22]</sup></a> foram confirmando a amplia&ccedil;&atilde;o do n&uacute;mero de visitantes de tal modo que,
muitas vezes, ao se realizar uma pesquisa no &shy;Google&nbsp;<a style='mso-footnote-id:
ftn23' href="#_ftn23" name="_ftnref23" title=""><sup>[23]</sup></a> sobre alguns dos <i>street artists </i>atores centrais do <i>blog</i>,
costuma surgir, em &shy;primeiro plano, a indica&ccedil;&atilde;o do relato de campo
compartilhado no <i>site</i>. Isso se deve ao fato de eles estabelecerem
refer&ecirc;ncias ao AntropologiZZZando em suas p&aacute;ginas no Facebook. Por meio dessa difus&atilde;o, passei a ser
estimulada a participar de exposi&ccedil;&otilde;es, mostras de arte e, por vezes, recebi
mensagens diretas de alguns <i>writers </i>expressando a vontade de inser&ccedil;&atilde;o de
sua trajet&oacute;ria art&iacute;stica nas p&aacute;ginas do <i>blog</i>.</p>

    <p>De modo geral, como balan&ccedil;o dessa experi&ecirc;ncia,
posso dizer que a cria&ccedil;&atilde;o do di&aacute;rio de campo virtual ocasionou um redesenho do
campo nos seguintes aspectos:</p>

    <p>&ndash; A amplia&ccedil;&atilde;o e o desdobramento da paisagem
etnogr&aacute;fica.</p>

    <p>&ndash; A publica&ccedil;&atilde;o &ldquo;em
tempo real&rdquo; do processo de investiga&ccedil;&atilde;o, da express&atilde;o das artes e narrativas
dos atores para al&eacute;m do per&iacute;metro delimitado de observa&ccedil;&atilde;o.</p>

    <p>&ndash; A legitima&ccedil;&atilde;o e constru&ccedil;&atilde;o de pactos de
confian&ccedil;a entre o pesquisador, os sujeitos que pontuaram a cena etnogr&aacute;fica e
outros potenciais narradores.</p>

    <p>&ndash; A transpar&ecirc;ncia dos processos de pesquisa de
campo (o que um pesquisador faz com os &ldquo;dados&rdquo; de pesquisa) para al&eacute;m dos
livros e revistas cient&iacute;ficas, o que permitiu, entre os narradores, o
desempenho de um papel ativo na constru&ccedil;&atilde;o da experi&ecirc;ncia etnogr&aacute;fica.</p>

    <p>&ndash; O destaque da atua&ccedil;&atilde;o
dos atores urbanos no <i>blog </i>promoveu um inusitado olhar dos pr&oacute;prios
artistas em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; sua obra. Ap&oacute;s a publica&ccedil;&atilde;o, muitos deles me enviavam
mensagens expressando o contentamento em &ldquo;ler&rdquo; sobre imagens e desenhos tantas
vezes imersos e mudos nas amplificadas caixas sonoras urbanas. Alguns textos
ali presentes, como no caso de Tamara Alves,<a style='mso-footnote-id:ftn24'
href="#_ftn24" name="_ftnref24" title=""><sup>[24]</sup></a> foram utilizados como
apresenta&ccedil;&atilde;o de exposi&ccedil;&otilde;es e trechos de refer&ecirc;ncia &agrave;s obras.</p>

    <p>O <i>blog</i> acabou
atuando como o usual mediador local das investiga&ccedil;&otilde;es
de campo, qual seja, a inst&acirc;ncia que &ldquo;costura&rdquo; encontros, antecipa uma certa
&ldquo;ficha t&eacute;cnica&rdquo; dos eixos da observa&ccedil;&atilde;o, assim como de algum modo abona a &eacute;tica
e a idoneidade do pesquisador. Por meio do AntropologiZZZando, segui, como analogia, um
jogo de trancelim&nbsp;<a
style='mso-footnote-id:ftn25' href="#_ftn25" name="_ftnref25" title=""><sup>[25]</sup></a> &ndash; ora
interligando fios el&aacute;sticos, ora prendendo-os, ora soltando linhas de conex&otilde;es
entre ambientes <i>online </i>e <i>off-line. </i>Creio que os la&ccedil;os de
confian&ccedil;a, a empatia, a percep&ccedil;&atilde;o da natureza da pesquisa que realizava em
Lisboa ocorreram de forma mais veloz e com evid&ecirc;ncias mais n&iacute;tidas por meio do
acesso dos artistas ao <i>blog </i>e &agrave; minha p&aacute;gina do Facebook. Seguramente eu
tamb&eacute;m era pesquisada enquanto pesquisava.</p>

    <p>Vale ressaltar que, embora tenha executado, ao
longo de um ano de bolsa de p&oacute;s-doutorado, uma s&eacute;rie de encontros, acompanhados
de di&aacute;rios de campo, realiza&ccedil;&atilde;o de entrevistas (Tamara Alves, Pant&ocirc;nio, Tinta
Crua, Fidel &Eacute;vora, Hazul Luzah do Porto, N&oacute;men, Slap, MaisMenos), participa&ccedil;&atilde;o
em pinturas de muro, exposi&ccedil;&otilde;es de <i>writers </i>de Lisboa, preferi, para fins
deste artigo, destacar apenas o encontro com Dalaiama Street Art. Isso porque,
no &acirc;mbito destes escritos, trago duas experi&ecirc;ncias que considero exemplares do
ponto de vista metodol&oacute;gico: a cria&ccedil;&atilde;o do <i>blog</i> di&aacute;rio de campo e a
comunica&ccedil;&atilde;o encetada, de forma mais sistem&aacute;tica e frequente, com o destacado
artista por meio de uma ferramenta do Facebook: as mensagens diretas por <i>inbox</i>.<a
style='mso-footnote-id:ftn26' href="#_ftn26" name="_ftnref26" title=""><sup>[26]</sup></a> Pode ser esse um curioso
contributo para pesquisas efetuadas no ciberespa&ccedil;o: a realiza&ccedil;&atilde;o de uma
etnografia entre ambi&ecirc;ncias materiais e digitais, tomando elementos visuais de
produ&ccedil;&atilde;o das artes de rua e discursos efetuados pelo artista Dalaiama acessados
diretamente nos percursos urbanos e por meio de mensagens diretas na<i>
inbox</i>.</p>

    <p>Vale ressaltar que o recurso cont&iacute;nuo a
conversas e trocas efetuadas por meio do Facebook permitiu-me, quase
concomitantemente, compartilhar o conjunto de anota&ccedil;&otilde;es no AntropologiZZZando, o di&aacute;rio de campo
digital mencionado. Certamente, esse lugar antropol&oacute;gico, a <i>inbox</i>, de
natureza eminentemente intersubjetiva, deixa emergir na cena de pesquisa o
fator reflexividade. Assim como Machado Pais (2007: 42), creio que &ldquo;dois
espelhos, ao refletirem-se um no outro, acabam por se refletir cada um em si
mesmo. Por esta raz&atilde;o n&atilde;o penso que a individualiza&ccedil;&atilde;o apague os reflexos da
socializa&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Esse di&aacute;logo de &ldquo;individualidades&rdquo; efetuado por <i>inbox</i>
traduz um dos mais significativos <i>locus </i>de socializa&ccedil;&atilde;o da
contemporaneidade. Sarah Pink (2006: 35)&nbsp;<a style='mso-footnote-id:ftn27'
href="#_ftn27" name="_ftnref27" title=""><sup>[27]</sup></a> tamb&eacute;m destaca a reflexividade como sendo um dos indicativos centrais
nas pesquisas que atuam tendo como referente a produ&ccedil;&atilde;o de imagens. Assim como
ventila a autora, tomo a posi&ccedil;&atilde;o assumida por parte dos etn&oacute;grafos que atuam no
campo de uma antropologia visual, no que concerne a argumentar ser a
reflexividade integrada e parte efetiva dos processos de pesquisa.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os di&aacute;logos executados por meio de uma
ferramenta digital, no artif&iacute;cio sucessivo de troca de impress&otilde;es sobre
imagens, seja do autor-artista em relevo, seja de Lisboa como um todo, produziu
uma esp&eacute;cie de &ldquo;antropologia compartilhada&rdquo; (Lessa 2014), tendo como terreno<i>
</i>o ciberespa&ccedil;o. Muito embora n&atilde;o esteja este artigo voltado para o universo
das pr&aacute;ticas juvenis, destaco tamb&eacute;m a significativa pesquisa efetuada por Jos&eacute;
Alberto Sim&otilde;es, <i>Entre a Rua e a Internet</i>, em que o autor afirma um dos
paradoxos desencadeados pela utiliza&ccedil;&atilde;o da tecnologia: &ldquo;por um lado, as redes
digitais tornam poss&iacute;vel a desterritorializa&ccedil;&atilde;o dos processos e das rela&ccedil;&otilde;es
sociais, por outro lado, estas n&atilde;o podem ser separadas dos contextos sociais que
as enformam, como, na grande maioria dos casos, t&ecirc;m por refer&ecirc;ncia
acontecimentos, assuntos e interesses &lsquo;reais&rsquo;&rdquo; (Sim&otilde;es 2010: 354). Foi nessa
&ldquo;dobra&rdquo; entre o lugar desterritorializado da <i>inbox </i>do Facebook e os
encontros e identifica&ccedil;&atilde;o das produ&ccedil;&otilde;es concretas de Dalaiama
pontilhadas em v&aacute;rias partes de Lisboa que se constru&iacute;ram as vias e relatos
dessa experi&ecirc;ncia etnogr&aacute;fica.</p>
    <p>&nbsp;</p>
</font>

    <p><b><font size="3" face="Verdana">O <i>face to face</i>: liga&ccedil;&otilde;es presenciais e digitais com Dalaiama Street Art</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>Mesmo antes de aportar em Lisboa em 2013, em
visitas anteriores j&aacute; havia atinado para a impertin&ecirc;ncia&nbsp;<a style='mso-footnote-id:
ftn28' href="#_ftn28" name="_ftnref28" title=""><sup>[28]</sup></a> e a const&acirc;ncia das interven&ccedil;&otilde;es de
Dalaiama Street Art em s&iacute;tios hist&oacute;ricos da cidade. Desde as primeiras
publica&ccedil;&otilde;es do <i>blog</i>, n&atilde;o apenas passei a seguir a p&aacute;gina do artista no
Facebook e a visitar seu <i>blog</i>, como tamb&eacute;m a compartilhar com ele as
publica&ccedil;&otilde;es semanais do &shy;AntropologiZZZando.<a style='mso-footnote-id:ftn29' href="#_ftn29" name="_ftnref29"
title=""><sup>[29]</sup></a> No dia 3 de maio de 2013,
envio ao artista o primeiro convite para um contato direto, em <i>inbox,</i>
por meio do Facebook:</p>

    <blockquote>&ldquo;Ol&aacute;, sou uma antrop&oacute;loga brasileira e
estou fazendo uma pesquisa aqui por um ano sobre Arte Urbana. Tenho conversado
com alguns artistas de Lisboa. Al&eacute;m de ver teu trabalho nas ruas, Eduardo, o
Tinta Crua, me falou que seria imprescind&iacute;vel contatar voc&ecirc;. Criei um blog para
registro dessa experi&ecirc;ncia. Gostaria muito de poder conversar. Obviamente,
respeitarei o sigilo sobre tua identifica&ccedil;&atilde;o. O endere&ccedil;o do blog &eacute; <a href="http://antropologizzzando.blogspot.pt/" target="_blank">http://antropologizzzando.blogspot.pt/</a>&rdquo;.</blockquote>

    <p>Em seguida, no dia 7 de maio, recebo de
Dalaiama uma resposta animadora &ndash; a sinaliza&ccedil;&atilde;o do encontro que veio a
concretizar-se de forma presencial apenas em meados de outubro de 2013, ap&oacute;s um
manancial de outras mensagens e conversas. O di&aacute;rio de campo relativo a essa
primeira abordagem expressa o grau de aproxima&ccedil;&atilde;o que foi sendo efetuado ao
longo do referido per&iacute;odo, por meio de mensagens diretas (<i>inbox</i>)
no Facebook:</p>

    <blockquote>&ldquo;Com o passar do
tempo, mesmo ainda sem o encontro frente a frente, trocamos in&uacute;meras e extensas
mensagens diretas. Em muitas delas permutamos escritos acerca da arte urbana,
do contexto da crise pol&iacute;tico-econ&ocirc;mica em Lisboa e sobre viv&ecirc;ncias dos
encontros e desencontros que a vida leva-e-traz. Durante um dilatado espa&ccedil;o de
tempo, comunicamo-nos enquanto Dalaiama e Gl&oacute;ria. At&eacute; que aproximadamente seis
meses depois, ele decide professar seu nome pr&oacute;prio. Ap&oacute;s tomar conhecimento de
quem seria Dalaiama, durante dois meses, a comunica&ccedil;&atilde;o, ent&atilde;o entre &lsquo;nomes&rsquo;,
suscitou maior proximidade nas mensagens diretas efetuadas no Facebook&rdquo; [di&aacute;rio
de campo, novembro de 2013].</blockquote>

    <p>&nbsp;</p>
    <p align="center"><img src="/img/revistas/etn/v19n3/19n3a06f1.jpg" width="394" height="404"></p>
    
<p>&nbsp;</p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Esse relato ratifica as considera&ccedil;&otilde;es que tenho delineado acerca dos
liames entre recintos de sociabilidades presenciais e n&atilde;o presenciais. Por
vezes, essa experi&ecirc;ncia de pesquisa, que combina aproxima&ccedil;&otilde;es de natureza
f&iacute;sica &agrave;s da paisagem do ciberespa&ccedil;o, me fez arrazoar acerca do leque de
significa&ccedil;&otilde;es daquilo que n&oacute;s antrop&oacute;logos cognominamos de &ldquo;encontro face a
face&rdquo;. Nas viv&ecirc;ncias com Dalaiama, presumo que as mensagens diretas no Facebook
(e que, por uma dimens&atilde;o &eacute;tica, ser&atilde;o aqui publicadas apenas parcialmente) se
reverteram num engate de confian&ccedil;a e proximidade t&atilde;o vivaz quanto aquele
efetuado nas imedia&ccedil;&otilde;es do Rato,<a style='mso-footnote-id:ftn30' href="#_ftn30"
name="_ftnref30" title=""><sup>[30]</sup></a> j&aacute; bem depois da primeira
abordagem <i>online</i>, na noite do dia 14 de outubro de 2013.</p>

    <p>Penso que um antrop&oacute;logo &ndash; e isso n&atilde;o faz
parte e, possivelmente, quase nunca ir&aacute; incluir-se nos relatos etnogr&aacute;ficos &ndash; &eacute;
levado n&atilde;o apenas a apreender t&eacute;cnicas de abordagem, mas tamb&eacute;m a estar
receptivo aos afetos que passam a emergir nos recintos que povoam o edif&iacute;cio
sempre aberto da pesquisa. Essa circunst&acirc;ncia me evoca uma pertinente discuss&atilde;o
de Gilberto Velho acerca do texto de DaMatta (1978) sobre &ldquo;O of&iacute;cio do
etn&oacute;logo, ou como ter &lsquo;Anthropological Blues&rsquo;&rdquo;, indagando o que realmente
representa a propalada dist&acirc;ncia entre o &ldquo;familiar&rdquo; e o &ldquo;ex&oacute;tico&rdquo;.</p>

    <p>Advertia Gilberto Velho (1987) que as
longitudes do campo de pesquisa n&atilde;o seguem crit&eacute;rios geogr&aacute;ficos nem sociais, e
enfatizava que nesses processos &eacute; vital para o pesquisador estabelecer elos e
artimanhas de comunica&ccedil;&atilde;o. Encontrava-me no gume de dois desafios de natureza
sutil: (a)&nbsp;compreender como emana a comunica&ccedil;&atilde;o entre dom&iacute;nios da cidade e
o &acirc;mbito do ciberespa&ccedil;o e (b)&nbsp;identificar quais idea&ccedil;&otilde;es fomentariam essa
esfera singular de estrat&eacute;gia comunicativa. As trocas com Dalaiama,
estabelecidas por quase seis meses, de forma indireta, por meio de mensagens no
Facebook, foram instaurando p&oacute;rticos de confian&ccedil;a, recintos &ldquo;sem paredes&rdquo; que
revestem a intimidade entre &ldquo;desconhecidos&rdquo;.<a style='mso-footnote-id:ftn31'
href="#_ftn31" name="_ftnref31" title=""><sup>[31]</sup></a><sup></sup></p>

    <p>Em 25 de setembro de 2013, antes do nosso
primeiro encontro presencial, percorri todos os rastros poss&iacute;veis da obra de
Dalaiama no extensivo espa&ccedil;o da Internet. Escrevi um texto pr&eacute;vio no <i>blog</i>,
o qual enviei ao artista no mesmo dia da postagem, com o seguinte t&iacute;tulo: &ldquo;O
que pensam as artes de Dalaiama Street Art no ciberespa&ccedil;o, ou o que eu penso do
que elas pensam?&rdquo; Considerava que me arriscava nessa empreitada. E se as linhas
escritas a um tipo de dist&acirc;ncia t&atilde;o pr&oacute;xima refletissem, na leitura do artista,
um vis&iacute;vel desconhecimento meu de si e de sua obra? Fiquei a visitar
ininterruptamente minha caixa de mensagens diretas do Facebook. E eis que no
mesmo dia tenho o retorno das linhas enviadas ao artista.</p>

    <blockquote>&ldquo;Minha querida Amiga! Fiquei comovido Gl&oacute;ria, mesmo muito! Nem sei
bem como expressar. Para compreenderes, acho que, neste momento, tu precisavas
de ser eu&hellip;    <br>
A primeira coisa que me ocorreu &eacute; que aquilo que tu escreveste estava t&atilde;o bem
estruturado, t&atilde;o bem coordenado entre o c&eacute;rebro, o cora&ccedil;&atilde;o e os dedos do
teclado, que o texto alcan&ccedil;ou uma eleva&ccedil;&atilde;o que eu n&atilde;o
merecia.    <br>
Tu podias ter escrito ali
observa&ccedil;&otilde;es negativas, desnudando pontos fracos do trabalho. Tamb&eacute;m poderia
esperar cr&iacute;ticas. Por exemplo, h&aacute; v&aacute;rias paredes que eu devia ter pintado
diferente. Outras, &eacute; verdade, ficaram bonitinhas, consegui um resultado pr&oacute;ximo
do desejado. Mas h&aacute; sempre tantos imponder&aacute;veis, n&atilde;o &eacute; Gl&oacute;ria? Nas tintas como
na vida, &agrave;s vezes achamos que controlamos tudo e isso at&eacute; nos pode dar uma
sensa&ccedil;&atilde;o de conforto, mas depois somos confrontados com percep&ccedil;&otilde;es, sensa&ccedil;&otilde;es e
compreens&otilde;es novas&hellip; Na vida, como na <i>street art</i>: uma parede mais alta do
que parecera, uma superf&iacute;cie mais lisa do que pens&aacute;ramos, uma lata mais vazia,
com uma tinta mais clara do que estar&iacute;amos &agrave; espera. E em meio a tantas
surpresas, tudo est&aacute; bem, tudo segue o seu curso normal, &eacute; a vida em estado
l&iacute;quido, fluindo, derretendo, escorrendo. Sabes Gl&oacute;ria, &agrave;s vezes eu saio pra
pintar com um n&uacute;mero limitado de cores de prop&oacute;sito. Tinha vontade de levar
mais, mas n&atilde;o levo. A inten&ccedil;&atilde;o &eacute;, precisamente, aceitar as condi&ccedil;&otilde;es do acaso.
Muitas vezes nem escolho com grande crit&eacute;rio, quero descobrir uma parede
inventada, com um desafio que acontece naquele momento exato, vendo-me
conduzido pelo rio da exist&ecirc;ncia. Queria um determinado azul, que pena se n&atilde;o
h&aacute;, n&atilde;o faz mal, o que h&aacute; tamb&eacute;m &eacute; bonito, tudo tem magia. Mas nisso, Gl&oacute;ria,
nessa confian&ccedil;a no inesperado do instante presente, em que tanto me lan&ccedil;o,
nisso h&aacute; incertezas projetuais, improvisa&ccedil;&otilde;es que bem podem desviar o rumo da
qualidade. Da&iacute; eu ter mesmo a ideia de que h&aacute; imperfei&ccedil;&otilde;es nos trabalhos do
Dalaiama. Irias, ou ir&aacute;s ainda, eventualmente falar nelas. Depois o
interessante nisto tudo &eacute; que cada um tem o seu &shy;pr&oacute;prio e &uacute;nico olhar, a sua
irrepet&iacute;vel no&ccedil;&atilde;o do que &eacute; bom, bonito, acertado&hellip; Ningu&eacute;m pode substituir
ningu&eacute;m, no ju&iacute;zo que se possa fazer das coisas do mundo, nem da qualidade
est&eacute;tica (ou da falta dela) dessas mesmas coisas&rdquo;.<a style='mso-footnote-id:
ftn32' href="#_ftn32" name="_ftnref32" title=""><sup>[32]</sup></a><sup></sup></p></blockquote>

    <p>At&eacute; que ponto o deambular da observa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o segue vias da m&uacute;tua
contamina&ccedil;&atilde;o de olhares, do contato interligado de percep&ccedil;&otilde;es est&eacute;ticas, de
rearranjos em m&atilde;o dupla das artes de fazer e pensar? Na introdu&ccedil;&atilde;o do livro <i>Etnografia
de Rua</i>, Rocha e Eckert (2013: 15) ressaltam que &ldquo;uma etnografia percorre o
sens&iacute;vel, se perguntando sobre os gostos, as paix&otilde;es, os dramas que impregnam a
vida nas ruas e configuram a cidade [&hellip;]&rdquo;. Eu tateava uma cidade para al&eacute;m dos
suportes-paredes, de suas argamassas materiais. Conduzia-me por meio dos
engates subjetivos que iam se formando na conflu&ecirc;ncia entre meu olhar e o dos
narradores de pesquisa.<a style='mso-footnote-id:ftn33' href="#_ftn33"
name="_ftnref33" title=""><sup>[33]</sup></a> Com o <i>blog</i>, movimentando-me
entre fios e balizas, assim como Dalaiama, eu tamb&eacute;m pretendia &ldquo;descobrir uma
parede inventada, com um desafio que acontece naquele momento exato, vendo-me
conduzido pelo rio da exist&ecirc;ncia&rdquo;. O campo autoriza n&atilde;o apenas o encontro com
narradores, o registro de imagens, oralidades, gestualidades: ele conduz o
antrop&oacute;logo a compor, igualmente, originais percep&ccedil;&otilde;es de si, admitindo, assim,
tamb&eacute;m avistar &ldquo;paredes inventadas&rdquo;<i>. </i>O risco acompanha essas trilhas em
ziguezague. Provavelmente por ter estampado no AntropologiZZZando uma foto de Tinta Crua, um
dos artistas narradores da pesquisa, quase perdi a possibilidade do encontro
com&nbsp;Dalaiama, tal qual ele me noticiou no nosso primeiro contato
presencial:</p>

    <blockquote>&ldquo;L&aacute; no Facebook, notei que estavas
presente. Mas fiquei sempre com uma ideia positiva e &eacute; engra&ccedil;ado que&hellip; h&aacute; muita
gente que tem curiosidade, por raz&otilde;es diferentes, por coisas diferentes, as
pessoas t&ecirc;m alguns contatos que a gente sente logo que n&atilde;o vale a pena, que n&atilde;o
h&aacute; sintonia, as pessoas n&atilde;o v&atilde;o falar a mesma l&iacute;ngua, est&aacute; a me entender?&hellip; Mas
esse neg&oacute;cio, eu ainda lembro que li a tua comunica&ccedil;&atilde;o, estava no Brasil at&eacute;,
eu lembro disso e tive a ideia que, uma coisa que me, sinceramente sei que me,
fez o caranguejo ir um bocadinho ir para dentro da casca foi quando eu vi,
quando tu falou do Tinta Crua, do Eduardo, uma fotografia dele, meu Deus, eu
fiquei super assustado com isso assim&rdquo;.</blockquote>

    <p>Quase o &ldquo;caranguejo volta &agrave; casca&rdquo; e a &ldquo;amizade&rdquo;
ensejada, passo a passo, correu o risco de prosseguir apenas atrav&eacute;s de contato
direto no Facebook, sem que o artista se colocasse diante de mim, olho a olho.
Na noite de 14 de outubro de 2013, encontrei Dalaiama pela primeira vez. Ap&oacute;s
um di&aacute;logo sem hora para acabar e um tempo de anota&ccedil;&otilde;es e grava&ccedil;&otilde;es, chego em
casa &aacute;vida para deixar no <i>blog</i> algo que pudesse traduzir uma
interlocu&ccedil;&atilde;o vasta, rica em trocas e informa&ccedil;&otilde;es tanto no que tange ao contexto
de <i>street art </i>em Lisboa, &agrave; discuss&atilde;o da est&eacute;tica da arte, como a
elementos que comp&otilde;em a trajet&oacute;ria e a pr&aacute;tica art&iacute;stica de Dalaiama. Foi
sempre muito penoso para mim entender e transcrever, com fidedignidade, a fala
dos portugueses. Este foi o di&aacute;rio mais &aacute;rduo de ser traduzido em letras. A
aproxima&ccedil;&atilde;o da finaliza&ccedil;&atilde;o da estada em Lisboa e o cuidado em bem transladar o
aporte pict&oacute;rico e pol&iacute;tico da obra do artista me fez demorar mais que o
previsto na confec&ccedil;&atilde;o deste registro. No dia 7 de novembro, publico &ldquo;Face to
face: Dalaiama e eu&rdquo;. Envio o <i>link </i>para o artista no dia 7 de novembro
e, em seguida, no dia 8, recebo o t&atilde;o aguardado retorno:</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>&ldquo;Desculpa-me ser t&atilde;o tarde, j&aacute; &eacute; madrugada
alta, escrevo com bastante sono espero n&atilde;o pedalar sobre as palavras
erradas.    <br>
Essencialmente, o que te quero transmitir &eacute; o
sentimento de gratid&atilde;o e como&ccedil;&atilde;o diante dos escritos do teu blog, do modo (na
minha opini&atilde;o, correto) como absorveste os contextos da <i>street art</i> em
Portugal. E, especialmente, pelas palavras gentis dirigidas ao trabalho e &agrave;
pessoa do Dalaiama. Obrigado.    <br>
Achei particularmente engra&ccedil;ada a tua descri&ccedil;&atilde;o sobre
o modo como nos fomos aproximando (risos) Sem me dar conta, acho que foi mesmo aquilo que aconteceu.    <br>
&Eacute; verdade que sempre fui
desconfiado, quase paranoico, por causa da ilegalidade das interven&ccedil;&otilde;es do
Dalaiama. Desculpa ter sido sempre t&atilde;o amedrontado, sempre evitei entrevistas,
tamb&eacute;m receei as abordagens superficiais do tema da <i>street art</i>, os
pontos de vista gelatinosos no preconceito, seguindo a mar&eacute; da moda que
alimenta o consumismo por parte de p&uacute;blicos sedentos de novidades vazias. N&atilde;o
sou importante, por solicita&ccedil;&atilde;o &eacute; que cheguei a dar umas poucas entrevistas,
mas nunca presencialmente. Eu tive sorte em que, num belo dia, tenha-te
ocorrido este tema para a tua pesquisa.    <br>
Na minha perspectiva, &eacute;
exata a tua leitura acerca do fen&oacute;meno das interven&ccedil;&otilde;es no espa&ccedil;o p&uacute;blico portugu&ecirc;s.
Na verdade Gl&oacute;ria, n&oacute;s acabamos por ter interpreta&ccedil;&otilde;es muito aproximadas do que
acontece nas paredes destas cidades. Como eu n&atilde;o tenho a tua cultura, deves
imaginar a minha satisfa&ccedil;&atilde;o pessoal, uma certa vaidade at&eacute;, porque o que sinto
&eacute; que, estando eu imerso na cegueira inconsciente do dia a dia, afinal at&eacute;
consigo coincidir as minhas opini&otilde;es de leigo com as de uma antrop&oacute;loga de
pensamento consolidado (risos)&rdquo;.<a style='mso-footnote-id:ftn34' href="#_ftn34"
name="_ftnref34" title=""><sup>[34]</sup></a><sup></sup></blockquote>

    <p>Ap&oacute;s esse encontro, veio
o temor que nutria em, de algum modo, colidir com a necessidade de sigilo que
sempre evidenciou Dalaiama em suas falas; de n&atilde;o conseguir de forma eficaz,
tendo em vista minha recente aproxima&ccedil;&atilde;o &agrave;s artes pl&aacute;sticas, concretizar um bom
trabalho de tradu&ccedil;&atilde;o.<a style='mso-footnote-id:ftn35' href="#_ftn35"
name="_ftnref35" title=""><sup>[35]</sup></a> Conforme ressaltou Dalaiama
no nosso primeiro contato,</p>

    <blockquote>&ldquo;em cada parede jazem
camadas e camadas de mem&oacute;ria, em cima do mesmo ef&ecirc;mero tem outro&nbsp;ef&ecirc;mero.
Aquela parede j&aacute; tem um mont&atilde;o de hist&oacute;ria. Pintaram por cima, pintaram de
branco, pintaram, pintaram de branco, assim. A rua, depois, a internet traz
isso. Essa parede, tamb&eacute;m tenho uma foto dessa parede, uma esp&eacute;cie de galeria
de camadas da mem&oacute;ria&rdquo;.<a style='mso-footnote-id:ftn36' href="#_ftn36"
name="_ftnref36" title=""><sup>[36]</sup></a><sup></sup></blockquote>

    <p>O of&iacute;cio de etn&oacute;grafo, tanto no fluxo das ruas como nas avenidas
digitais, &eacute; ir retocando o &ldquo;mont&atilde;o de hist&oacute;rias&rdquo; que jaz nas paredes
&ldquo;desdobradas&rdquo; de mem&oacute;ria. Compondo e recompondo a efemeridade das artes urbanas
entre espa&ccedil;os, o sujeito-ator da pesquisa acaba por se tornar, tamb&eacute;m, guardi&atilde;o
de &ldquo;galerias de camadas de mem&oacute;ria&rdquo;.</p>
    <p>&nbsp;</p>
</font>

    <p><b><font size="3" face="Verdana">De quantas &ldquo;dobras&rdquo; se constitui um
espa&ccedil;o ou como experimentar um <i>bombing</i> etnogr&aacute;fico?&nbsp;<a style='mso-footnote-id:ftn37' href="#_ftn37" name="_ftnref37"
title=""><sup>[37]</sup></sup></a></font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ap&oacute;s esse primeiro contato
direto, em decorr&ecirc;ncia da filmagem de um document&aacute;rio que realizei no final da
minha estada em Lisboa, estive ao lado de Dalaiama numa interven&ccedil;&atilde;o, durante
toda a madrugada, achegando-se ao amanhecer.<a style='mso-footnote-id:ftn38'
href="#_ftn38" name="_ftnref38" title=""><sup>[38]</sup></a><sup></sup></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p align="center"><img src="/img/revistas/etn/v19n3/19n3a06f2.jpg" width="386" height="492"></p>
    
<p>&nbsp;</p>
    <p>Obviamente, o receio em deixar pistas da
&ldquo;identidade oficial do artista, do registro sujeito em plena a&ccedil;&atilde;o&rdquo; deixou-me
ainda mais tensa. Nos dias posteriores dessa gelada madrugada de outono,
Dalaiama me escreve por mensagem direta:</p>

    <blockquote>&ldquo;A partir do momento
em que sa&iacute;mos todos juntos naquela noite de bombing memor&aacute;vel ficou impl&iacute;cito
que as imagens recolhidas seriam vossas e com elas voc&ecirc;s fariam o que
quisessem. O &uacute;nico cuidado a ter &eacute; eu n&atilde;o ser identificado, mas isso j&aacute; estava
tranquilo, &eacute; na boa, as imagens pertencem-vos e, ali&aacute;s, voc&ecirc;s at&eacute; podem
exibi-las num tom cr&iacute;tico ou de desaprova&ccedil;&atilde;o, t&ecirc;m esse direito, liberdade de
express&atilde;o &eacute; precisamente isso Queridos, Gl&oacute;ria e Davi, eu &eacute; que vos devo
agradecer, mesmo muito, porque os tempos por aqui andam doidos e no ano passado
inteiro eu s&oacute; pintei na rua, talvez, uma dezena de vezes, ou nem isso n&atilde;o
lembro bem&hellip; o que sei &eacute; que aquela sa&iacute;da foi uma for&ccedil;a grande que voc&ecirc;s me
deram, gente CINCO estrelas, pessoas muito especiais s&atilde;o voc&ecirc;s, eu estou verdadeiramente
agradecido. S&oacute; gente especial ia aceitar, assim de chofre, o impulso de sair
numa noite gelada, nem sequer sabendo exatamente onde &iacute;amos (lembram do pequeno
passeio que demos antes? LOL bem bacana!) Gl&oacute;ria querida, aquela noite colocou voc&ecirc;s no fundo do
meu cora&ccedil;&atilde;o, o gelo foi inesquec&iacute;vel, em contraste com o calor dos afetos e da
a&ccedil;&atilde;o aerosol, clandestina, desautorizada (&lsquo;we don&rsquo;t ask for the space, we take
the space&rsquo;). Obrigado meus queridos pela cumplicidade. Aquela foi a melhor
interven&ccedil;&atilde;o do Dalaiama no ano passado inteiro e uma das mais marcantes desde
sempre!&rdquo;<a style='mso-footnote-id:ftn39' href="#_ftn39" name="_ftnref39"
title=""><sup>[39]</sup></a></blockquote>

    <p>O antrop&oacute;logo, em suas anota&ccedil;&otilde;es permeadas de adrenalina, assim como o <i>bombing</i>,
segue realizando interfer&ecirc;ncias em campos potencialmente ou efetivamente
desautorizados. O lema do referido sujeito da interven&ccedil;&atilde;o urbana pode ser adaptado
para o papel de anota&ccedil;&otilde;es e de compartilhamentos dos escritos de pesquisa: &ldquo;We
don&rsquo;t ask for the space, we take the space&rdquo;. Isso abrange,
inclusive, o desafio do pesquisador de &ldquo;tomar o espa&ccedil;o&rdquo; e alcan&ccedil;ar as rotas de
transposi&ccedil;&atilde;o que os artistas efetuam da paisagem material para o ambiente
digital e vice-versa. Muitas vezes o <i>street artist</i> compartilha na sua
p&aacute;gina do Facebook um desenho, uma pintura, o esbo&ccedil;o de est&ecirc;ncil, uma colagem
ainda a ser efetuada em algum recanto da cidade.</p>


    <p>Percebe-se que, muito embora
o olhar do antrop&oacute;logo esteja ainda, de forma geral, voltado para as m&uacute;ltiplas
espacialidades urbanas, proliferam as inst&acirc;ncias de atua&ccedil;&atilde;o e socializa&ccedil;&atilde;o de
planos denominados por Appadurai (1996) de tecnopaisagens.<a style='mso-footnote-id:
ftn40' href="#_ftn40" name="_ftnref40" title=""><sup>[40]</sup></a>
Nesse sentido, Appadurai prop&otilde;e, diante dos novos processos culturais globais,
tomar a inst&acirc;ncia da imagina&ccedil;&atilde;o como pr&aacute;tica social. As tecnopaisagens
promoveriam um tipo de estar no urbano entremeado, de forma direta ou indireta,
&agrave; paisagem material, sendo os sujeitos mediados por artif&iacute;cios e pr&aacute;ticas que
agem e atuam entre &ldquo;dobras&rdquo; das geografias urbanas.<a style='mso-footnote-id:
ftn41' href="#_ftn41" name="_ftnref41" title=""><sup>[41]</sup></a>
H&aacute; quem, como no caso de Di Felice,<a style='mso-footnote-id:ftn42'
href="#_ftn42" name="_ftnref42" title=""><sup>[42]</sup></a>
propale &ldquo;o fim da experi&ecirc;ncia urbana e as formas comunicativas do habitar&rdquo; (Di
Felice 2009: 19). O antrop&oacute;logo, nesse esteio de observa&ccedil;&atilde;o, se posicionaria
diante de um &ldquo;desdobramento&rdquo; tamb&eacute;m corporal &ndash; no caso, o de combinar a&ccedil;&otilde;es
etnogr&aacute;ficas presenciais e outras em meio ao ambiente da Internet; ora ele
estaria diante de corpos org&acirc;nicos, ora perante dimens&otilde;es de exist&ecirc;ncias
p&oacute;s-org&acirc;nicas.<a style='mso-footnote-id:ftn43' href="#_ftn43" name="_ftnref43"
title=""><sup>[43]</sup></a> Desse modo, o pr&oacute;prio
antrop&oacute;logo estaria sendo arremetido para um novo regime digital da exposi&ccedil;&atilde;o
dos corpos no panorama da contemporaneidade.</p>
    <p>&nbsp;</p>
</font>

    <p><b><font size="3" face="Verdana">O &ldquo;<i>inbox</i>&rdquo; e a
rela&ccedil;&atilde;o face a face: linhas conclusivas</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O ciberespa&ccedil;o se traduz em um regime digital que, mesmo atuando de forma
peculiar nas performances corporais e nas narrativas de si, n&atilde;o se distingue de
forma absoluta, como indica Christine Hine (2010: 9), das experi&ecirc;ncias de
percep&ccedil;&atilde;o e interpreta&ccedil;&atilde;o da cultura e da pl&ecirc;iade de constru&ccedil;&otilde;es identit&aacute;rias
realizadas face a face. Provavelmente, esse desafio antropol&oacute;gico tem suscitado
reflex&otilde;es e a produ&ccedil;&atilde;o de novas estrat&eacute;gias de campo que possam transitar entre
sujeitos, espa&ccedil;os e tempos. Como bem alega Canevacci,</p>

    <blockquote>&ldquo;o etn&oacute;grafo n&atilde;o &eacute; mais s&oacute; o antrop&oacute;logo ou pesquisador de estudos
culturais, treinado segundo procedimentos estabelecidos durante a pesquisa de
campo. No sentido de que o campo se ampliou, se estendeu em uma simultaneidade
diasp&oacute;rica, digital e multividual, na qual &eacute; cada vez mais imanente &agrave;
ubiquidade material/digital&rdquo; (Canevacci
2013:&nbsp;86).</blockquote>

    <p>A condi&ccedil;&atilde;o da ubiquidade material/digital processa n&iacute;veis diferenciados
de arg&uacute;cias, invers&otilde;es e m&uacute;tuos reconhecimentos entre os atores que povoam as
narrativas das cenas etnogr&aacute;ficas.<a style='mso-footnote-id:ftn44'
href="#_ftn44" name="_ftnref44" title=""><sup>[44]</sup></a><sup>
</sup>Ao findar o processo de acompanhamento de escuta, das a&ccedil;&otilde;es de Dalaiama
Street Art, tanto em n&iacute;vel presencial como no ciberespa&ccedil;o, fui percebendo que,
no final das contas, o que traduz o campo &eacute; a intensidade dos afetos, a
supremacia das m&aacute;quinas de guerra em oposi&ccedil;&atilde;o &agrave;s m&aacute;quinas do Estado.<a
style='mso-footnote-id:ftn45' href="#_ftn45" name="_ftnref45" title=""><sup>[45]</sup></a> Recebi uma mensagem do
referido artista, j&aacute; pr&oacute;ximo &agrave; finaliza&ccedil;&atilde;o da pesquisa realizada em Lisboa,
esbo&ccedil;ada nos seguintes termos:</p>

    <blockquote>&ldquo;Sinto por ti uma estima ancestral
Gl&oacute;ria, devemos ter feito street art juntos noutra vida minha Amiga! Se calhar
pint&aacute;mos murais eg&iacute;pcios para agradar aos fara&oacute;s, ou partilh&aacute;mos tintas
renascentistas em afrescos religiosos, ou ajud&aacute;mo-nos mutuamente a transportar
pedras para construir esculturas em cultos ancestrais, ou simplesmente eu fui o
porteiro numa exposi&ccedil;&atilde;o de pinturas da tua autoria na Alemanha expressionista.
Quem sabe?&hellip;&rdquo;<i style='mso-ansi-font-style:normal'><sup>&nbsp;<a
style='mso-footnote-id:ftn46' href="#_ftn46" name="_ftnref46" title=""><sup><b
style='mso-bidi-font-weight:normal'><sup>[46]</sup></b></sup></a></sup></i></blockquote>

    <p>Os pap&eacute;is que se
permutam no vinco material/digital e nas tantas &ldquo;dobras&rdquo; de afetos que
atravessam os campos mediados pela tecnologia recolocam o of&iacute;cio do pesquisador
diante da cena primordial que descerra os pioneiros destes estudos. Diante das
tantas &ldquo;dobraduras&rdquo; aqui assinaladas, cabe bem a indaga&ccedil;&atilde;o que funda o
aspecto central destacado por Malinowski acerca das &ldquo;condi&ccedil;&otilde;es adequadas &agrave;
pesquisa etnogr&aacute;fica&rdquo;:</p>

    <blockquote>&ldquo;O que significa estar em contato? Para o etn&oacute;grafo significa que sua vida
na aldeia, no come&ccedil;o uma estranha aventura desagrad&aacute;vel, por vezes
interessant&iacute;ssima, logo assume um car&aacute;ter natural em plena harmonia com o
ambiente que o rodeia&rdquo; (Malinowski 1978:&nbsp;21).</blockquote>

</font>    <p><font size="2" face="Verdana">De todo modo, no que
tange ao ciberespa&ccedil;o e &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o de prov&aacute;veis corpos p&oacute;s-org&acirc;nicos (Sibilia
2002), o bom percurso no &acirc;mbito da investiga&ccedil;&atilde;o &eacute; aquele que provoca alguma
sensa&ccedil;&atilde;o de harmonia do pesquisador em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s paisagens em que se situa e
nas quais se movimenta. Dalaiama bem sabe que narrador e observador-narrador
ensaiam uma dupla condi&ccedil;&atilde;o: ajudamo-nos mutuamente a transportar pedras para
construir esculturas em cultos ancestrais. Arrisco dizer, sem que este texto
assuma nenhuma conota&ccedil;&atilde;o conclusiva, que as tecnopaisagens ou qualquer maneira
pela qual se denomine o intercurso material/digital entreabriram um terreno
intensivo de experimenta&ccedil;&atilde;o e de percep&ccedil;&atilde;o de originais pr&aacute;ticas de pesquisa.
Estamos diante de inusitadas aldeias e fronteiras; horizontes que recriam e
dilatam os continentes da aventura antropol&oacute;gica.</font></p>

    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">Bibliografia</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <!-- ref --><p>APPADURAI, Arjun, 1996, <i>Dimens&otilde;es</i><i>
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    <p>APPADURAI, Arjun, 2009, &ldquo;Di&aacute;logo, risco e convivialidade&rdquo;, em Arjun Appadurai <i>et
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    <p>C&Acirc;MARA, S&iacute;lvia, 2014, &ldquo;Da arte urbana como performance: entre o corpo
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    <!-- ref --><p>CAMPOS, Ricardo, 2010, <i>Porque Pintamos a Cidade?</i><b> </b>Lisboa, Fim de
S&eacute;culo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=188946&pid=S0873-6561201500030000600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <p>CAMPOS, Ricardo, 2013,
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2015).</p>

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    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>CLIFFORD, James, 2011, <i>A Experi&ecirc;ncia Etnogr&aacute;fica: Antropologia e Literatura
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    <p>DaMATTA, Roberto, 1978, &ldquo;O of&iacute;cio do etn&oacute;logo, ou como ter &lsquo;Anthropological
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    <!-- ref --><p>DELEUZE, Gilles, e F&eacute;lix GUATTARI, 1997, <i>Mil Plat&ocirc;s: Capitalismo e Esquizofrenia</i>, vol&nbsp;5. Rio de
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    <!-- ref --><p>LATOUR, Bruno, 2000, <i>Ci&ecirc;ncia em A&ccedil;&atilde;o: Como Seguir Cientistas e Engenheiros
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<body><![CDATA[<!-- ref --><p>L&Eacute;VY, Pierre, 1996, <i>O Que &Eacute; o Virtual</i>. S&atilde;o Paulo, Editora&nbsp;34.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=188971&pid=S0873-6561201500030000600020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

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<body><![CDATA[<!-- ref --><p>PINK, Sarah,
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    <!-- ref --><p>ROCHA, Ana Luiza da, e Corn&eacute;lia ECKERT, 2013, <i>Etnografia de Rua: Estudos de Antropologia Urbana</i>. Porto
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    <p>ROSE, Tricia, 1997, &ldquo;Um estilo que ningu&eacute;m segura: pol&iacute;tica, estilo e
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    <!-- ref --><p>SANTAELLA, L&uacute;cia, e Renata LEMOS, 2010, <i>Redes Sociais Digitais: A Cogni&ccedil;&atilde;o Conectiva do Twitter</i>.
S&atilde;o Paulo, Paulus.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=188986&pid=S0873-6561201500030000600029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>SIBILIA, Paula, 2002, <i>O Homem P&oacute;s-Org&acirc;nico: Corpo, Subjetividade e
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    <!-- ref --><p>SIM&Otilde;ES, Jos&eacute; Alberto, 2010, <i>Entre a Rua e a Internet: Um Estudo sobre o </i>Hip-Hop<i>
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    <!-- ref --><p>WACLAWEK, Anna, 2008, <i>From</i><i> Graffiti to the
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</font>


    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">NOTAS</font></b></p>

<font size="2" face="Verdana">
    <p><a style='mso-footnote-id:ftn1' href="#_ftnref1"
name="_ftn1" title=""><sup>[1]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &ldquo;Terreno&rdquo; &eacute; um termo utilizado em Portugal
para designar o campo de pesquisa.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn2' href="#_ftnref2"
name="_ftn2" title=""><sup>[2]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Este trabalho foi apresentado na
29.&ordf;&nbsp;Reuni&atilde;o Brasileira de Antropologia, realizada entre os dias 3 e 6 de
agosto de 2014, na cidade de Natal, RN. Resulta de um
est&aacute;gio p&oacute;s-doutoral efetuado entre janeiro e dezembro de 2013, sob a
supervis&atilde;o do Professor Jos&eacute; Machado Pais, no Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais da
Universidade de Lisboa, com bolsa de est&aacute;gio s&ecirc;nior da Coordena&ccedil;&atilde;o de
Aperfei&ccedil;oamento de Pessoal de N&iacute;vel Superior (Capes).</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn3' href="#_ftnref3"
name="_ftn3" title=""><sup>[3]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sobre o percurso etnogr&aacute;fico realizado em
Lisboa em 2013, ver o document&aacute;rio produzido pela autora no decorrer da
pesquisa, dispon&iacute;vel em <a
href="https://vimeo.com/116549650" target="_blank">https://vimeo.com/116549650</a>.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn4' href="#_ftnref4"
name="_ftn4" title=""><sup>[4]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A &aacute;rea de percurso quase di&aacute;rio da
pesquisadora iniciava-se no Largo do Rato e passava pela Rua da Escola Polit&eacute;cnica.
Dali chegava ao Chiado, atingindo o Rossio, descendo at&eacute; o Cais do Sodr&eacute; e toda
extens&atilde;o da Avenida da Liberdade.</p>





    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a style='mso-footnote-id:ftn5' href="#_ftnref5"
name="_ftn5" title=""><sup>[5]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ricardo Campos (2010: 280) situa o <i>graffiti </i>como sendo um dos principais
elementos da cultura visual contempor&acirc;nea. Considera o autor a cultura visual,
primeiramente, como reposit&oacute;rio onde &ldquo;determinados l&eacute;xicos e signos visuais s&atilde;o
elaborados e trocados&rdquo;, e que atua, em segundo aspecto, como um modo
privilegiado de apreens&atilde;o e de descodifica&ccedil;&atilde;o visual da realidade na
mobiliza&ccedil;&atilde;o de &ldquo;um dispositivo composto por um aparato tecnol&oacute;gico, pol&iacute;tico,
econ&ocirc;mico e simb&oacute;lico&rdquo;. O <i>grafitti </i>&eacute;
uma express&atilde;o significativa das artes de rua (<i>street art</i>), tendo como sua principal marca a transgress&atilde;o e a
irrever&ecirc;ncia. De algum modo pode-se considerar, tal qual assinalou Tricia Rose
(1997: 192), que o movimento <i>hip-hop</i>,
surgido &agrave;s margens da Am&eacute;rica urbana e p&oacute;s-industrial anterior &agrave; era
Bush-Reagan, tem o <i>graffiti </i>como uma
de suas mais destacadas formas de express&atilde;o. Observa-se que tais dispositivos
de conceitua&ccedil;&atilde;o (<i>grafitti </i>e <i>street art</i>) abrem o leque para tantas
outras formas de apropria&ccedil;&atilde;o e inscri&ccedil;&atilde;o de sujeitos que atuam nas artes de
rua. Waclaweck (2008: 121) tamb&eacute;m associa o <i>graffiti
</i>a uma forma de participa&ccedil;&atilde;o transgressiva nas din&acirc;micas socioculturais das
cidades &ndash; a natureza ilegal e transgressora acompanha de forma mais direta a
genealogia do <i>graffiti</i>.
Provavelmente, tal qual discute Pallamin (2000: 46), a arte urbana, de modo
geral, diz respeito &agrave;s pr&aacute;ticas sociais de natureza est&eacute;tica, de uso e
apropria&ccedil;&atilde;o visuais dos espa&ccedil;os da rua, n&atilde;o assumindo necessariamente um
car&aacute;ter ilegal. No Brasil, define-se como picha&ccedil;&atilde;o o <i>graffiti</i> ilegal, criando uma outra fenda de an&aacute;lise. Vale
ressaltar, retomando o di&aacute;logo com Campos (2013: 119), que as artes urbanas, de
modo geral, pelo &ldquo;facto de n&atilde;o estarem encerradas, protegidas, e com acesso
condicionado [s&atilde;o convertidas] em obras potencialmente dispon&iacute;veis para todos&rdquo;.
A natureza ef&ecirc;mera desse tipo de inscri&ccedil;&atilde;o urbana, efetuada sem uma finalidade
espec&iacute;fica, como no caso da publicidade, imprime a ela caracter&iacute;sticas
singulares comparativamente &agrave;s demais obras de arte. No campo da arte urbana,
al&eacute;m do <i>graffiti</i>, as pinturas de
muros, tamb&eacute;m denominadas de muralismo, o est&ecirc;ncil, t&eacute;cnica de pintura por meio
de elementos vasados, a colagem ou lambe, os <i>stickers, </i>dentre outros, se inserem dentro do mesmo campo
sem&acirc;ntico. Trouxe esse conjunto de considera&ccedil;&otilde;es para que se possa identificar
o terreno complexo e amb&iacute;guo de qualquer esfor&ccedil;o de conceitua&ccedil;&atilde;o desses campos de
a&ccedil;&atilde;o e de interven&ccedil;&atilde;o urbana.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn6' href="#_ftnref6"
name="_ftn6" title=""><sup>[6]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <i>Tag</i> &eacute; a assinatura, e o termo &eacute; comumente utilizado para
designar os <i>graffiti</i> ilegais.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn7' href="#_ftnref7"
name="_ftn7" title=""><sup>[7]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mat&eacute;ria do jornal <i>The</i><i> World Post</i>, em
<a
href="http://www.huffingtonpost.com/2014/04/17/best-street-art-cities_n_5155653.html?&amp;ir=World&amp;ncid=tweetlnkushpmg00000017" target="_blank">http://www.huffingtonpost.com/2014/04/17/best-street-art-cities_n_5155653.html?&amp;ir=World&amp;ncid=tweetlnkushpmg00000017</a>
(consultado em 18/07/2014, &uacute;ltima consulta em setembro de 2015).</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn8' href="#_ftnref8"
name="_ftn8" title=""><sup>[8]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Refiro-me ao texto de Carlo Ginzburg denominado &ldquo;Sinais: ra&iacute;zes de um paradigma
indici&aacute;rio&rdquo;, onde o autor ressalta que &ldquo;o conhecedor da arte &eacute; compar&aacute;vel ao
detetive que descobre o autor do crime baseado em ind&iacute;cios percept&iacute;veis
para a maioria&rdquo; (Ginzburg 1990:&nbsp;145).</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn9' href="#_ftnref9"
name="_ftn9" title=""><sup>[9]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por exemplo o Flickr,
uma plataforma da <i>web</i> caracterizada
como uma rede social e cujo foco &eacute; o armazenamento e a partilha de fotografias.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn10' href="#_ftnref10"
name="_ftn10" title=""><sup>[10]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Utilizo aqui a express&atilde;o discutida por Andy
Bennett (2004).</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn11' href="#_ftnref11"
name="_ftn11" title=""><sup>[11]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; O termo &ldquo;plat&ocirc;&rdquo; &eacute; aqui utilizado na
perspetiva do di&aacute;logo efetuado entre Gregory Bateson,
Deleuze e Guattari para designar regi&otilde;es descont&iacute;nuas
de intensidade da arte urbana numa mesma paisagem (Deleuze e Guattari 1995:&nbsp;33).</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn12' href="#_ftnref12"
name="_ftn12" title=""><sup>[12]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mais interessante foi perceber mais tarde
que o Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais (institui&ccedil;&atilde;o do est&aacute;gio p&oacute;s-doutoral) se
situa em Entrecampos.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn13' href="#_ftnref13"
name="_ftn13" title=""><sup>[13]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nas colagens, os denominados <i>stickers</i>, que no
Brasil recebem tamb&eacute;m o nome de lambe-lambe, s&atilde;o desenhos feitos no papel ou
impressos digitalmente anexados aos suportes materiais. Os est&ecirc;ncis s&atilde;o
basicamente qualquer tipo de material vazado em que s&atilde;o aplicados pigmentos.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn14' href="#_ftnref14"
name="_ftn14" title=""><sup>[14]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; L&uacute;cia Santaella e
Renata Lemos (2010: 14) entendem por redes sociais digitais la&ccedil;os de variadas
m&eacute;tricas, utilizando-se de meios t&eacute;cnicos dispon&iacute;veis para a media&ccedil;&atilde;o de
intera&ccedil;&otilde;es.</p>





    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a style='mso-footnote-id:ftn15' href="#_ftnref15"
name="_ftn15" title=""><sup>[15]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; O indiv&iacute;duo que faz <i>graffiti, </i>tamb&eacute;m conhecido por <i>graffer</i><i>.</i></p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn16' href="#_ftnref16"
name="_ftn16" title=""><sup>[16]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; No segundo m&ecirc;s recebi o decisivo apoio do
antrop&oacute;logo portugu&ecirc;s Ricardo Campos.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn17' href="#_ftnref17"
name="_ftn17" title=""><sup>[17]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sobre esse assunto, Ricardo Campos, no livro
<i>Porque Pintamos a Cidade?</i>, acerca da
condi&ccedil;&atilde;o de fazer etnografia, ressalta que &ldquo;este espa&ccedil;o fragmentado e
disseminado, f&iacute;sico e virtual, &eacute; acompanhado por um tempo igualmente
descont&iacute;nuo&rdquo; (Campos 2010:&nbsp;37).</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn18' href="#_ftnref18"
name="_ftn18" title=""><sup>[18]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Utilizo a categoria &ldquo;dobra&rdquo; tomando por base a discuss&atilde;o efetuada
por Deleuze (1991) na sua obra <i>A Dobra: Leibniz e o Barroco</i>. Assim sendo, a &ldquo;dobra&rdquo;, ao inv&eacute;s
de aludir a uma dimens&atilde;o de duplicidade, sinaliza uma conex&atilde;o de
multiplicidades. Vale ressaltar que, para Leibniz, &ldquo;o m&uacute;ltiplo n&atilde;o &eacute; o que tem
muitas partes, mas o que &eacute; dobrado de muitas maneiras&rdquo; (Deleuze 1991: 46).
Atuando na qualidade de um espa&ccedil;o cont&iacute;guo de representa&ccedil;&otilde;es, a dobra n&atilde;o
possibilita discernir onde acaba o espa&ccedil;o configurado e onde se iniciam os
per&iacute;metros de um outro espa&ccedil;o. No &acirc;mbito desta pesquisa etnogr&aacute;fica, realizada
entre ambientes digitais e cidade material, tenta-se ultrapassar os frequentes
binarismos entre real e virtual, entre espa&ccedil;o da Internet e rela&ccedil;&otilde;es
presenciais, considerando assim uma esp&eacute;cie de copresen&ccedil;a. Nesse caso, tamb&eacute;m
um texto de <i>blog</i> publicado no
ciberespa&ccedil;o age &ldquo;alimentando correspond&ecirc;ncias <i>online</i> e confer&ecirc;ncias eletr&ocirc;nicas, correndo em redes, fluido,
desterritorializado, mergulhado no meio oce&acirc;nico do ciberespa&ccedil;o, esse texto
din&acirc;mico reconstitui, mas de um modo infinitamente superior, a copresen&ccedil;a da
mensagem e de seu contexto vivo que caracteriza a comunica&ccedil;&atilde;o oral&rdquo; (L&eacute;vy 1996:
39). &ldquo;Dobras&rdquo; entre ambientes de
pesquisa e a copresen&ccedil;a de narrador e
pesquisador caracterizam a trilha metodol&oacute;gica do esfor&ccedil;o etnogr&aacute;fico aqui
narrado.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn19' href="#_ftnref19"
name="_ftn19" title=""><sup>[19]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como j&aacute; havia outros dom&iacute;nios com o nome Antropologizando, decidi incluir tr&ecirc;s ZZZ,
conseguindo assim criar um novo <i>site </i>(ver
<a
href="http://antropologizzzando.blogspot.pt/" target="_blank">http://antropologizzzando.blogspot.pt</a>)
e dando a conota&ccedil;&atilde;o do som da lata de
tinta em <i>spray</i> ao ser acionada pelo <i>graffiter</i>.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn20' href="#_ftnref20"
name="_ftn20" title=""><sup>[20]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como destaca o referido autor, estamos cada
vez mais familiarizados com os relatos de campo feitos em separado. &ldquo;O texto,
diferentemente do discurso, pode viajar. Se muito da escrita etnogr&aacute;fica &eacute;
produzida no campo, a real elabora&ccedil;&atilde;o de uma etnografia &eacute; feita em outro lugar&rdquo;
(Campos 2010:&nbsp;38).</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn21' href="#_ftnref21"
name="_ftn21" title=""><sup>[21]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ver <a
href="http://antropologizzzando.blogspot.com.br/2013/09/o-que-pensam-as-artes-de-dalaiama.html" target="_blank">http://antropologizzzando.blogspot.com.br/2013/09/o-que-pensam-as-artes-de-dalaiama.html</a>.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn22' href="#_ftnref22"
name="_ftn22" title=""><sup>[22]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; O <i>blogger</i> disp&otilde;e n&atilde;o apenas do n&uacute;mero de acessos e visitas
como tamb&eacute;m destaca os pa&iacute;ses de origem do tr&aacute;fego e a diversidade do p&uacute;blico.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn23' href="#_ftnref23"
name="_ftn23" title=""><sup>[23]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Google &eacute; uma empresa de alcance multinacional
de servi&ccedil;os <i>online</i> e <i>software</i> dos Estados Unidos que propicia
buscas na Internet.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn24' href="#_ftnref24"
name="_ftn24" title=""><sup>[24]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; H&aacute; nos desenhos de Tamara uma esp&eacute;cie de
viola&ccedil;&atilde;o das conven&ccedil;&otilde;es que padronizam e disciplinam gestos e comportamentos,
uma desloca&ccedil;&atilde;o entre permitido e proibido, legal e ilegal. A obra da referida
artista &eacute; uma esp&eacute;cie de convoca&ccedil;&atilde;o corporal. &Eacute; como se cada uma de suas
ilustra&ccedil;&otilde;es evidenciasse o corpo e a arte como dispositivos de passagem,
v&aacute;lvulas comunicantes de instintos. &ldquo;A artista esbo&ccedil;a o que Deleuze e Guattari
cognominaram de um corpo sem &oacute;rg&atilde;os. Suas pinturas transp&otilde;em hierarquiza&ccedil;&otilde;es
que fundam os organismos, elas quase sempre alteram a posi&ccedil;&atilde;o de um membro ou
&oacute;rg&atilde;o do corpo, encontrando um modo de escorrer, como circuitos dentro-fora,
fora-dentro. A obra de Tamara enuncia-se como extensivo panorama er&oacute;tico do
corpo contempor&acirc;neo, agenciando cont&iacute;nuos efeitos de dilata&ccedil;&atilde;o dos limites
corporais&rdquo; (em <a
href="http://antropologizzzando.blogspot.pt/2013/04/tamara-alves-animalidade-no-ciberespaco.html" target="_blank">http://antropologizzzando.blogspot.pt/2013/04/tamara-alves-animalidade-no-ciberespaco.html</a>).</p>





    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a style='mso-footnote-id:ftn25' href="#_ftnref25"
name="_ftn25" title=""><sup>[25]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Brincadeira de inf&acirc;ncia em que, no geral, se
usa um el&aacute;stico em forma de c&iacute;rculo ou aro. Duas crian&ccedil;as esticam o el&aacute;stico
por detr&aacute;s das pernas para que uma terceira crian&ccedil;a ultrapasse o ret&acirc;ngulo
formado por entre as pernas dos participantes, efetuando movimentos onde se
prende e se solta o material.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn26' href="#_ftnref26"
name="_ftn26" title=""><sup>[26]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; <i>Inbox</i> &eacute; a caixa de mensagens diretas do Facebook.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn27' href="#_ftnref27"
name="_ftn27" title=""><sup>[27]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; &ldquo;Across the different approaches
reflexivity has commonly been coined
as a need for understanding
&lsquo;where the researcher is coming from&rsquo; and how
this impacts on the knowledge
produced. Some leave this at a question of validity
and research quality control. However, most visual anthropologists take a quite
different tack to argue that reflexivity should be integrated fully into
processes of fieldwork and visual or written representation in ways that do not
simply explain the researcher&rsquo;s approach but reveal the very processes by which
the positionality of researcher and informant were
constituted and through which knowledge was produced during the fieldwork&rdquo;
(Pink 2006: 35). Tradu&ccedil;&atilde;o livre da autora: &ldquo;Dentre as diferentes abordagens, o
termo reflexividade tem sido comumente cunhado como uma necessidade de
compreens&atilde;o sobre de onde parte o pesquisador e como isso impacta no
conhecimento produzido. Alguns veem isso como uma quest&atilde;o de validade e
controle de qualidade da pesquisa. No entanto, a maioria dos antrop&oacute;logos
visuais toma um rumo bastante diferente para argumentar que a reflexividade
deve ser integrada plenamente nos processos de trabalho de campo e
representa&ccedil;&otilde;es visuais ou escritas de uma forma que n&atilde;o apenas explique a
abordagem do pesquisador, mas que revele os pr&oacute;prios processos pelos quais a
posicionalidade do pesquisador e informante foram constitu&iacute;das e atrav&eacute;s dos
quais o conhecimento foi produzido durante o trabalho de campo&rdquo;.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn28' href="#_ftnref28"
name="_ftn28" title=""><sup>[28]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Andrea Mubi Brighenti, ao discorrer sobre uma experi&ecirc;ncia etnogr&aacute;fica
acerca do impacto das imagens nas cidades contempor&acirc;neas, afirma ter percebido
que o <i>graffiti</i> &eacute; um fen&ocirc;meno que
irrita, representando algumas vezes &ldquo;um ataque, um insulto, uma degrada&ccedil;&atilde;o&rdquo; (Bringhentti 2011:&nbsp;37).</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn29' href="#_ftnref29"
name="_ftn29" title=""><sup>[29]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ver <a href="http://www.facebook.com/dalaiamaa?ref=ts&amp;fref=ts" target="_blank">https://www.facebook.com/dalaiamaa?ref=ts&amp;fref=ts</a>
e <a
href="http://dalaiama.blogspot.com.br/" target="_blank">http://dalaiama.blogspot.com.br</a>.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn30' href="#_ftnref30"
name="_ftn30" title=""><sup>[30]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; S&iacute;tio de Lisboa pr&oacute;ximo &agrave; minha resid&ecirc;ncia
na &eacute;poca.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn31' href="#_ftnref31"
name="_ftn31" title=""><sup>[31]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Vivenciei, junto a Dalaiama,
num ambiente fechado do Facebook, um tipo de
etnografia &ldquo;<i>inbox</i>&rdquo;,
qual seja, uma cena dual, confessional, &iacute;ntima e de natureza virtual. Machado
Pais (2006), no pref&aacute;cio de um livro intitulado <i>Culturas Jovens</i> (organizado por Maria Isabel Mendes de Almeida e
Fernanda Eugenio), destaca o lugar da cria&ccedil;&atilde;o no campo dos afetos virtuais.
Instauramos um tipo de contato &ldquo;montado&rdquo; por elementos desenhados mentalmente e
mediados por pequenas pistas, &ldquo;como representa&ccedil;&atilde;o do que dele se constr&oacute;i
imaginariamente&rdquo; (Pais 2006:&nbsp;20).</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn32' href="#_ftnref32"
name="_ftn32" title=""><sup>[32]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Correspond&ecirc;ncia atrav&eacute;s do Facebook com Dalaiama feita em 23
de maio de 2013. As mensagens diretas do artista, em sua grande maioria, eram
muito extensas. Aqui publico apenas o trecho que, creio, n&atilde;o ir&aacute; comprometer
sua identidade.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn33' href="#_ftnref33"
name="_ftn33" title=""><sup>[33]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; James Clifford, ao refletir acerca dos
meandros da autoridade etnogr&aacute;fica, ressalta que &ldquo;o trabalho de campo
etnogr&aacute;fico permanece como um m&eacute;todo notavelmente sens&iacute;vel&rdquo; (Clifford
2011:&nbsp;19).</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn34' href="#_ftnref34"
name="_ftn34" title=""><sup>[34]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Resposta de Dalaiama
(atrav&eacute;s do Facebook no dia 8 de novembro de 2013) ao
texto &ldquo;Face to face: Dalaiama e eu&rdquo;, postado no <i>site</i> AntropologiZZZando
em 7 de novembro de 2013 (ver <a
href="http://antropologizzzando.blogspot.pt/2013/11/face-to-face-dalaiama-e-eu.html" target="_blank">http://antropologizzzando.blogspot.pt/2013/11/face-to-face-dalaiama-e-eu.html</a>).</p>





    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a style='mso-footnote-id:ftn35' href="#_ftnref35"
name="_ftn35" title=""><sup>[35]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Utilizando a ideia de Latour
(2000: 178) acerca da necessidade &ldquo;da interpreta&ccedil;&atilde;o dada pelos construtores de
fatos aos seus interesses e aos das pessoas que eles alistam&rdquo;.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn36' href="#_ftnref36"
name="_ftn36" title=""><sup>[36]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Trechos do encontro realizado entre a
pesquisadora e o artista, no dia 11 de outubro de 2013.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn37' href="#_ftnref37"
name="_ftn37" title=""><sup>[37]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; <i>Bombing</i> &eacute; o<i> graffiti </i>pintado
em movimento, no geral em metr&ocirc;s e trens, com pouco trabalho de finaliza&ccedil;&atilde;o,
sendo, usualmente, utilizadas as cores preta e silver.
No geral, s&atilde;o efetuados em locais de grande visibilidade. S&atilde;o associados, em
geral, a uma pr&aacute;tica <i>underground</i>.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn38' href="#_ftnref38"
name="_ftn38" title=""><sup>[38]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ver <i>Rastos
da Arte Urbana em Lisboa</i> (dispon&iacute;vel em <a href="https://vimeo.com/116549650" target="_blank">https://vimeo.com/116549650</a>).
Todas as filmagens foram realizadas nesse per&iacute;odo; a edi&ccedil;&atilde;o e a finaliza&ccedil;&atilde;o do
document&aacute;rio apenas ocorreram no in&iacute;cio de junho de 2014.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn39' href="#_ftnref39"
name="_ftn39" title=""><sup>[39]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mensagem direta por <i>inbox</i>, no Facebook,
recebida no dia 20 de novembro de 2013.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn40' href="#_ftnref40"
name="_ftn40" title=""><sup>[40]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; &ldquo;Por tecnopaisagem
refiro-me &agrave; configura&ccedil;&atilde;o global, sempre t&atilde;o fluida, da tecnologia e ao facto de
a tecnologia, tanto a alta como a baixa, a mec&acirc;nica e a informacional, transpor
agora a grande velocidade diversos tipos de fronteiras antes impenetr&aacute;veis&rdquo; (Appadurai 1996:&nbsp;52).</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn41' href="#_ftnref41"
name="_ftn41" title=""><sup>[41]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; No di&aacute;logo com Christine Hine,
na publica&ccedil;&atilde;o realizada no dia 15 de abril de 2013 no AntropologiZZZando,
pontuei as tens&otilde;es e media&ccedil;&otilde;es que se estabelecem na paisagem das pr&aacute;ticas e
rela&ccedil;&otilde;es de natureza cultural quando se trata de observar e etnografar
o ciberespa&ccedil;o. Vale ressaltar que, assim como indica Christine Hine (2010), n&atilde;o
por isso devemos considerar a etnografia, na arena do ciberespa&ccedil;o, um modo
distinto de percep&ccedil;&atilde;o da cultura e de suas constru&ccedil;&otilde;es identit&aacute;rias. Segundo a
autora, &ldquo;o uso da Internet representa uma experi&ecirc;ncia localizada culturalmente
e, concomitantemente, se constitui numa interpreta&ccedil;&atilde;o flex&iacute;vel do objeto&rdquo; (Hine
2010: 9, tradu&ccedil;&atilde;o livre). Torna-se poss&iacute;vel, assim, perceber que as
experi&ecirc;ncias culturais se travam num &acirc;mbito capaz de condensar
linguagens&nbsp;globais&nbsp;consorciadas a referentes culturais locais.</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn42' href="#_ftnref42"
name="_ftn42" title=""><sup>[42]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assinala Di Felice
que habitar naquilo que ele denomina de &ldquo;metropoleletr&ocirc;nica&rdquo;
&ldquo;significa, portanto, inevitavelmente atravessar tais fluxos de comunica&ccedil;&atilde;o,
deslocar-se no interior desses <i>inputs </i>informativos,
e n&atilde;o somente ultrapassar geografias, estradas, pra&ccedil;as e bairros [&hellip;] <i>fl&acirc;neurs</i> eletr&ocirc;nicos, <i>footings </i>midi&aacute;ticos, consumos visuais e
formas transorg&acirc;nicas e h&iacute;bridas do habitar. Na <i>metropoleletr&ocirc;nica </i>e comunicativamente
atravess&aacute;vel, &eacute; a paisagem que se move. Um simples <i>bit, </i>alguns sons, o aperto do <i>play
</i>ou a digita&ccedil;&atilde;o de uma senha num&eacute;rica nos proporcionam a desloca&ccedil;&atilde;o das
paisagens e a supera&ccedil;&atilde;o do lugar e do seu sentido social&rdquo; (Di
Felice 2009:&nbsp;164).</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn43' href="#_ftnref43"
name="_ftn43" title=""><sup>[43]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Paula Sibilia, no
livro <i>O Homem P&oacute;s-Org&acirc;nico</i>, sinaliza
que &ldquo;afastados da l&oacute;gica mec&acirc;nica e investidos pelo novo regime digital os
corpos contempor&acirc;neos se apresentam como sistemas de processamento de dados,
c&oacute;digos, perfis cifrados, feixes de informa&ccedil;&atilde;o. Assim, entregues &agrave;s novas
cad&ecirc;ncias da tecnoci&ecirc;ncia, o corpo humano parece ter perdido a sua defini&ccedil;&atilde;o
cl&aacute;ssica e a sua solidez anal&oacute;gica: inserido na esteira digital, ele se torna
perme&aacute;vel, projet&aacute;vel, program&aacute;vel&rdquo; (Sibilia
2002:&nbsp;19).</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn44' href="#_ftnref44"
name="_ftn44" title=""><sup>[44]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Vale ressaltar que a suposta dist&acirc;ncia
instaurada pelo contato entre pesquisador e narrador no ambiente digital
possibilita que se exer&ccedil;a um tipo de interpreta&ccedil;&atilde;o. James Clifford adverte que
&ldquo;a interpreta&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; uma interlocu&ccedil;&atilde;o. Ela n&atilde;o depende de estar na presen&ccedil;a
de algu&eacute;m que fala&rdquo; (Clifford 2011:&nbsp;38).</p>





    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a style='mso-footnote-id:ftn45' href="#_ftnref45"
name="_ftn45" title=""><sup>[45]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; &ldquo;Mas o regime da m&aacute;quina de guerra &eacute; antes
dos afetos, que s&oacute; remetem ao m&oacute;vel em si mesmo, a velocidades e composi&ccedil;&otilde;es de
velocidades entre elementos. O afeto &eacute; descarga r&aacute;pida de emo&ccedil;&atilde;o, o revide ao
passo que o sentimento &eacute; uma emo&ccedil;&atilde;o sempre deslocada, retardada, resistente&rdquo;
(Deleuze e Guattari 1997:&nbsp;79).</p>





    <p><a style='mso-footnote-id:ftn46' href="#_ftnref46"
name="_ftn46" title=""><sup>[46]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mensagem recebida por <i>inbox</i> em junho de 2014.</p></font>





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