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<publisher-name><![CDATA[Centro em Rede de Investigação em Antropologia - CRIA]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Entre projeto e convivialidade: um exercício de reflexividade etnográfica em torno da socialidade juvenil em Cabo Verde]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Between project and conviviality: an exercise of ethnographic reflexivity in research on youth sociality in Cape Verde]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade do Minho Centro em Rede de Investigação em Antropologia ]]></institution>
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<institution><![CDATA[,Instituto Politécnico do Porto Escola Superior de Educação ]]></institution>
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<fpage>77</fpage>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article presents the reflective path that accompanied an ethnographic research on collective and associative practices of young people living in poor suburbs of the city of Mindelo, Cape Verde. This analytical exercise is based on a relational interpretation of youth sociality in which young people’s processes of constitution as social subjects become the axis of revelation and understanding of various and complementary conceptions - both the author’s and young people’s - about youth and, consequently, about person. In the context of recent transformations in the Cape Verdean society, youth sociality seems to develop in a paradoxical way, between the imagination of individual projects of future fulfillment and the everyday investment in conviviality and interdependence among peers as a key way of self making, this tension being deeply dependent on - and defining of - the ambiguity and uncertainty associated with youth in contemporary Cape Verde.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Cabo Verde]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ 

    <p align="right"><font size="2" face="Verdana"><b>ARTIGOS</b></font></p>

    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="4" face="Verdana">Entre projeto e convivialidade: um exercício de
  reflexividade etnográfica em torno da socialidade juvenil em Cabo Verde</font></b></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">Between project and conviviality: an exercise of
ethnographic reflexivity in research on youth sociality in Cape Verde</font></b></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p>&nbsp;</p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p><b>Filipe Martins<sup>I</sup></b></p>

    <p><sup>I</sup>CRIA&#8202;/&#8202;UMinho;
Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do
Porto, Portugal. <i>E-mail</i>: <a
href="mailto:filipemartins79@gmail.com">filipemartins79@gmail.com</a></p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
    <p>&nbsp;</p>
<hr noshade size="1">
    <p><b>RESUMO</b></p>
    <p>Neste artigo apresenta-se o percurso de análise reflexiva que
  acompanhou uma pesquisa etnográfica sobre práticas coletivas e associativas de
  jovens habitantes das periferias pobres da cidade do Mindelo, em Cabo Verde.
  Este exercício analítico parte de uma interpretação eminentemente relacional da
  socialidade juvenil, na qual os processos de constituição dos jovens enquanto
  sujeitos sociais são tomados como eixo de revelação e compreensão de conceções
  diversas e complementares &#8211; tanto do autor como dos jovens estudados
  &#8211; sobre juventude e, consequentemente, sobre pessoa. No contexto das
  transformações recentes ocorridas na sociedade cabo-verdiana a socialidade
  juvenil parece configurar-se de modo paradoxal, entre a imaginação de projetos
  individuais orientados para o futuro e, paralelamente, o investimento
  quotidiano na convivialidade e na interdependência entre pares enquanto
  modalidade central de constituição de si, sendo esta tensão profundamente
  dependente &#8211; e definidora &#8211; da ambiguidade e da incerteza
  associadas à condição juvenil contemporânea em Cabo Verde.</p>

    <p><b>Palavras-chave</b>: Cabo Verde, juventude, projeto,
convivialidade, interdependência</p>
<hr noshade size="1">
    <p><b>ABSTRACT</b></p>

    <p>This article presents the reflective path that
accompanied an ethnographic research on collective and associative practices of
young people living in poor suburbs of the city of Mindelo, Cape Verde. This
analytical exercise is based on a relational interpretation of youth sociality
in which young people’s processes of constitution as social subjects become the
axis of revelation and understanding of various and complementary conceptions
&#8211; both the author’s and young people’s &#8211; about youth and,
consequently, about person. In the context of recent transformations in the
Cape Verdean society, youth sociality seems to develop in a paradoxical way,
between the imagination of individual projects of future fulfillment and the
everyday investment in conviviality and interdependence among peers as a key
way of self making, this tension being deeply dependent on &#8211; and defining
of &#8211; the ambiguity and uncertainty associated with youth in contemporary
Cape Verde.</p>

    <p><b>Keywords</b>: Cape Verde, youth, project, conviviality,
interdependence</p></font>
<hr noshade size="1">
    <p>&nbsp;</p>
    <p>&nbsp;</p>
<font size="2" face="Verdana">
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Iniciei a minha pesquisa para doutoramento em
Cabo Verde, em 2007, com o
objetivo de estudar “os jovens” cabo-verdianos.<a style='mso-footnote-id:ftn1'
href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><sup>[1]</sup></a>
Não era para mim um contexto novo; na verdade sentia-o como familiar, pois
tinha trabalhado neste país como voluntário de uma ONGD portuguesa por curtos
períodos nos anos de 2002, 2003 e 2004, no contexto de projetos de cooperação
com grupos e associações juvenis. Porém estes trabalhos sempre me deixaram um
sentimento de superficialidade e de desadequação, e a possibilidade de
regressar a Cabo Verde a cada ano confirmava-me a ausência de impactos ao nível
do envolvimento dos jovens em atividades associativas e a descontinuidade das
iniciativas promovidas. Tal parecia evidenciar um desencontro entre o que era
enunciado e projetado pelos jovens e aquilo que realmente era posto em prática
após cada “projeto”. Partindo desta constatação, impunha-se um sentimento de
que algo faltava compreender para dar sentido ao aparente desfasamento entre o
assumido pelos jovens e aquilo que efetivamente realizavam ao longo do tempo.
Algo faltava conhecer sobre as suas vidas que “justificasse” porquê as suas
prioridades e motivações pareciam inverter-se depois de terminadas as ações de
formação e os desenhos de projetos…</p>

    <p>Naturalmente eu sabia que os contextos
formativos e de planificação, por mais participativos que fossem, constituíam
sempre espaços abstratos e de algum modo desfasados dos contextos de vida dos
participantes, permitindo, se não uma fuga à realidade, pelo menos um
esquecimento parcial dos constrangimentos sociais que a determinam. Como tal,
era justamente aí que eu imaginava estar a raiz do “desfasamento” entre o
discurso e a prática dos jovens cabo-verdianos, e foi isso que me propus
conhecer com maior profundidade: as suas vidas fora da sala de trabalho, os
seus contextos de sociabilidade, os seus constrangimentos, as suas aspirações.
Este pareceu-me um projeto relevante, dado que na altura quase nenhuns estudos
existiam em Cabo Verde sobre a juventude, uma faixa etária demograficamente
dominante mas sobre a qual muito pouco conhecimento sistematizado e baseado em
pesquisas empíricas havia sido produzido, em particular de natureza
etnográfica. E fazia ainda mais sentido num contexto em que, pelo contrário, a
“crise da juventude” (associada à criminalidade, desemprego, ociosidade,
consumismo e comportamentos de risco) se tornava um tópico central nos
discursos quotidianos e a “área” da juventude crescia como lugar de intervenção
social, política e policial.</p>

    <p>Optei por levar a cabo a pesquisa etnográfica
na cidade do Mindelo, na ilha de São Vicente, uma vez que, devido à rápida
urbanização do país nas últimas décadas, tem sido nas maiores cidades que a
presença (demográfica, cultural, mediática) da juventude se tem tornado mais
expressiva. Paralelamente, era no Mindelo (a segunda maior cidade do país) que
se registavam os maiores índices de pobreza e desemprego juvenil, e
interessava-me conhecer justamente os percursos dos jovens mais vulneráveis socioeconomicamente.
Assim, ao longo da pesquisa fui ensaiando a construção de um olhar que fosse
especificamente dedicado aos “jovens” cabo-verdianos, procurando compreender
melhor o significado de “ser” jovem em Cabo Verde e a forma como estes
construíam as suas identidades “juvenis” e imaginavam os seu percursos de vida,
em especial num contexto de crescente urbanização, fragilidade socioeconómica e
assimetrias materiais e simbólicas.</p></font>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">Juventude e mudança social em Cabo Verde</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>Em Cabo Verde, bem como genericamente em todo
o continente africano, a categoria “juventude” vem ganhando importância e
extensão, tanto demográfica, como económica, política e simbólica. Essa
extensão é no entanto marcada pela ambiguidade do seu conteúdo e dos seus
limites &#8211; quem são os jovens?, o que querem eles?, quando termina a
juventude? &#8211; refletindo ao mesmo tempo as ambiguidades das paisagens
sociais contemporâneas. Assim sigo, na minha análise, a antropóloga Deborah
Durham quando esta afirma: “A juventude como categoria social historicamente
construída, como um conceito relacional, e os jovens como um grupo de atores
formam uma lente especialmente aguda através da qual as forças sociais estão
focadas em África, tal como em grande parte do mundo” (2000: 114). Tomando a
juventude como eixo central de análise, interessei-me por compreender como as
rápidas e drásticas mudanças ocorridas nas últimas décadas em Cabo Verde têm
originado a reconstrução &#8211; ou a continuidade &#8211; das dimensões
simbólicas da individualidade e da agencialidade (cf.&nbsp;Durham 2000).</p>

    <p>Com efeito, após a independência nacional, a 5
de julho de 1975, Cabo Verde tem registado progressivas melhorias em múltiplos
indicadores de desenvolvimento (crescimento económico e rendimento <i>per capita</i>, literacia e acesso à
educação, saúde, infraestruturas de transporte e comunicação, administração
pública, setor empresarial, sistema democrático estável desde 1991, organização
da sociedade civil).<a style='mso-footnote-id:ftn2' href="#_ftn2"
name="_ftnref2" title=""><sup>[2]</sup></a> Em especial desde a
“abertura política” de 1991 (designação local das primeiras eleições multipartidárias
livres), o país tem seguido uma política económica liberal alinhada com as
orientações das organizações internacionais e sustentada pela ajuda destas
(Lobban 1995), tendo como corolário o rápido desenvolvimento de uma economia de
mercado essencialmente assente nos setores do comércio, serviços e turismo
internacional (Lobban 1995). Em paralelo, os consecutivos governos desde a
independência têm assumido como estratégia basilar o investimento no capital
humano (Pina 2009; CGE 2012), tendo-se consequentemente universalizado o acesso
ao ensino básico e generalizado o acesso ao ensino secundário (mais
recentemente também ao ensino superior, embora centralizado nos dois principais
polos urbanos).</p>

    <p>A par das transformações descritas, o país
registou um crescimento demográfico muito intenso nas últimas décadas, com uma
população que cresceu de 200.000 habitantes em 1960 para 491.575 em 2010 (INE
2010). Este crescimento foi acompanhado por um expressivo peso demográfico da
população jovem: 54,4% dos habitantes de Cabo Verde têm menos de 25 anos de
idade e 70,4% tem menos de 35 anos (INE 2010). Paralelamente, num país com uma
forte tradição rural, hoje 62% da população reside em núcleos urbanos: 120.000
habitantes na cidade da Praia (capital do país, na ilha de Santiago), e 70.000
habitantes na cidade do Mindelo (INE 2010).</p>

    <p>A nível socioeconómico, se nas últimas décadas
se registou uma expressiva redução da pobreza e uma melhoria geral das
condições de vida, a contínua dependência macroeconómica externa (ajuda
internacional e remessas dos emigrantes), a par de uma reduzida produção local,
têm originado uma elevada dependência de bens importados, aumentando assim o
custo de vida face aos baixos rendimentos da maioria da população (Lobban
1995). Este fator, reforçado ainda por uma persistente taxa de desemprego
&#8211; mais expressiva entre os jovens<a style='mso-footnote-id:ftn3'
href="#_ftn3" name="_ftnref3" title=""><sup>[3]</sup></a>
&#8211; tem tido como consequência um aumento das desigualdades sociais nos
últimos anos (Laurent e Furtado 2008; Proença 2009; Lima 2011). Por outro lado,
a frágil economia nacional é ainda incapaz de sustentar um sistema público de
proteção social que apoie eficazmente os grupos mais desfavorecidos da
sociedade, entre os quais se encontram muitos jovens.</p>

    <p>Por fim, se a emigração tem sido desde há
muito em Cabo Verde um dos principais mecanismos de “fazer a vida” (Åkesson
2004) face à fragilidade socioeconómica, também aqui se verificaram mudanças
recentes, uma vez que os países europeus e norte-americanos, principais
destinos da emigração cabo-verdiana, têm vindo a endurecer as suas políticas
imigratórias. Como consequência, atualmente tem-se registado em Cabo Verde uma
severa restrição de uma das estratégias mais importantes de subsistência e de
mobilidade social: a mobilidade internacional (Carling 2002; Åkesson 2008).</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No contexto destas rápidas mudanças, os jovens
foram conquistando um lugar de destaque na sociedade cabo-verdiana; porém, um
lugar paradoxal. É inegável que aumentaram as oportunidades de realização dos
jovens nos domínios da educação formal, das comunicações, do consumo e do
lazer. &shy;Contudo, face à sua crescente pressão demográfica, os frágeis
sistemas económico e de proteção social do país, aliados às crescentes
dificuldades para emigrar, tornam difícil responder às crescentes aspirações de
autonomização de grande parte da juventude nacional, nomeadamente de obtenção
de um emprego estável, de uma habitação própria, de padrões de consumo mais
elevados e de estabelecimento de núcleos familiares autónomos.
Consequentemente, muitos jovens cabo-verdianos encontram-se atualmente num
lugar identitariamente ambíguo e socioeconomicamente vulnerável, o que gera
sentimentos de frustração e incerteza face ao futuro (Martins 2009, 2011).<a
style='mso-footnote-id:ftn4' href="#_ftn4" name="_ftnref4" title=""><sup>[4]</sup></a></p>

    <p>Foi justamente no seio desta contradição entre
aspirações e frustrações, ambas crescentes, que situei a minha pesquisa
etnográfica, procurando compreender como ela tem determinado &#8211; e como
dela se têm apropriado &#8211; as trajetórias sociais dos jovens em Cabo Verde.
Para tal procurei afastar-me de uma visão externa e abstratizante do grupo
social “juventude” e de uma análise das relações sociais definidas por
interesses coletivos, comummente concebidas no plano normativo, e nas quais os
jovens teriam de se “socializar”. Ensaiei antes uma análise de natureza
eminentemente relacional e processual, assente na noção de socialidade (neste
caso juvenil), ou seja, nos “modos de [se] constituir e [de] agir socialmente”
(Viegas 2007: 52) dos jovens estudados, pretendendo desse modo realçar a
experiência vivida destes e o seu processo de constituição como sujeitos
sociais, como seres-no-mundo (cf.&nbsp;Strathern 1988; Toren 1999) num contexto
social de elevada instabilidade e incerteza.</p></font>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">Etnografia de um lugar juvenil</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>Desenvolvi uma parte significativa da minha
pesquisa etnográfica em torno de estruturas coletivas juvenis (mais ou menos
formais), na expectativa de compreender como os seus objetivos e práticas
faziam transparecer o leque de representações e intenções que eram veiculadas
sobre (e para) os jovens, e como estas eram (ou não) entendidas, apropriadas e
negociadas pelos próprios como elementos constitutivos das suas socialidades.<a
style='mso-footnote-id:ftn5' href="#_ftn5" name="_ftnref5" title=""><sup>[5]</sup></a> Para tal escolhi como
contexto etnográfico privilegiado uma associação juvenil que passarei a
designar “Associação União Juvenil” (AUJ), e cuja atuação se centrava na
periferia sudeste da cidade, sendo responsável pela dinamização de dois centros
juvenis em duas zonas distintas. Nestes pude conhecer e envolver-me em
atividades coletivas com um elevado número de jovens residentes nessas áreas,
algumas das mais densamente povoadas e mais pobres da cidade.</p>

    <p>A AUJ surgira da vontade e do empenho do seu
presidente, A., que, embora natural de um país europeu, vivia em São Vicente
desde 1993 e sempre mantivera grande proximidade e envolvimento com as áreas e
grupos mais pobres da cidade. Ele tinha dado início à AUJ em 2002,
constituindo-a primeiramente a partir de um grupo informal de pessoas suas
conhecidas (principalmente professores) motivadas a apoiar os jovens mais
vulneráveis da cidade. Nessa fase, A. tinha mobilizado também um conjunto de
jovens na zona da “&shy;Fontinha” (nome fictício), no leste da periferia do
Mindelo, e obtido a autorização da Câmara Municipal de São Vicente para
restaurar e dinamizar um antigo centro social naquela localidade. Acompanhado
por estes, A. conseguiu em poucos meses abrir um centro juvenil naquela zona,
oferecendo oportunidades de prática desportiva e danças tradicionais, sessões
de cinema, uma pequena biblioteca, um espaço de estudo com um computador, e
ainda um espaço de lazer com televisão e jogos, onde também era possível
realizar festas e atividades culturais, assim como palestras e ações de
formação. Em 2007 a AUJ formalizou-se enquanto associação e obteve autorização
municipal para restaurar e dinamizar, com recursos e atividades da mesma
natureza, um novo centro social na zona de “Covada” (nome fictício), no sul da
periferia da cidade.</p>

    <p>Para A., esta era a forma mais adequada de
apoiar os jovens: oferecer-lhes espaços. Num texto de sua autoria, de fevereiro
de 2009, procurando reescrever as linhas orientadoras da AUJ, constava no
preâmbulo:</p>

    <blockquote>“Quando algo vem à existência ocupa um espaço.
Se não tiver o espaço necessário arrisca-se ao sufocamento. Não encontrar o
espaço procurado leva a sofrer uma condição de marginalização. A falta de
espaço põe a risco a formação de uma identidade. […] Mesmo se a juventude é
hoje uma camada social considerada, torna-se difícil que as estruturas da
sociedade satisfaçam os seus anseios. É um problema dado pela dificuldade de
entender as aspirações da juventude, que utiliza linguagens e categorias muitas
vezes pouco compreensíveis, pela falta de sensibilidade de quem dirige a
sociedade, por o facto que a juventude precisa [de] serviços muitas vezes não
imediatamente rentáveis e pela falta de interlocutores capazes de dialogar com
eles. Mesmo a disponibilização de um espaço é algo que carrega os seus custos
para os quais a juventude, na maioria das vezes, não [se] pode responsabilizar.
[…] Oferecer um espaço é criar, antes de mais, uma defesa e para quem está na
aprendizagem da vida isto é uma necessidade. […] Criar e oferecer espaço para a
existência duma dinâmica juvenil é a primeira aposta da nossa iniciativa. O
espaço é reconhecedor da existência”.</blockquote>

    <p>Para A., este entendimento do espaço como
condição de existência e de identidade articulava-se com a sua visão dos jovens
mais pobres do Mindelo, cujas vulnerabilidades conhecia bem. Para ele, em Cabo
Verde, e em especial nas zonas urbanas periféricas, os jovens passavam por
dificuldades familiares, económicas e culturais que se reforçavam mutuamente e
que agravavam uma já natural vulnerabilidade associada à condição juvenil.</p>

    <p>Ao perguntar-lhe o que pretendia conseguir com
a AUJ, A. respondeu-me com uma metáfora e com uma intenção:</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>“Eu queria bater, ou diminuir, ou enfraquecer
aquele sentimento de abandono que a sociedade cria nesta juventude, que cria em
toda a sociedade, não é?, mas que o jovem pode ser mais afetado. Também porque
o jovem precisa de um acompanhamento, de um apoio, de um espaço seu; o jovem
não se pode pensar que tenha de pagar cada divertimento, cada instrumento que
utiliza. E o raciocínio é a sociedade como uma família; na minha família os
filhos não pagam para comer, não é?, e na sociedade os filhos não pagam para se
divertir. O divertimento não é opcional; para um jovem é a forma de [se]
relacionar com os outros, a forma de descobrir a si, é a forma para aprender a
entrar na sociedade. Então este divertimento pelo menos até uma certa medida
deve ser oferecido, como se oferece o prato de comida na casa. […] E depois quero
mostrar que isso deve ser, digamos assim, se pode fazer coisas, há pessoas que
fazem sem interesses económicos ou políticos, mesmo religiosos; […]. Essa é uma
mensagem que quero passar” [entrevista a A., 12 de dezembro de 2010].</blockquote>

    <p>A associação que A. tinha criado estava assim
estruturada em torno de uma ética “familiar”, onde justamente se valorizava uma
relação de orientação entre os adultos e os jovens e o caráter gratuito e quase
incondicional dos serviços prestados. Para A., este era um modelo de apoio
social que valia a pena divulgar e multiplicar, uma “crítica à sociedade”,
assente em valores solidários alternativos ao economicismo, individualismo e
egoísmo que lhe pareciam ser dominantes na sociedade cabo-verdiana atual.</p>

    <p>Coerente com esta visão, a AUJ assumia como
objetivos “oferecer espaços de encontro saudáveis onde os jovens podem
encontrar-se e conhecer-se sem gastos de dinheiro, apoiar as iniciativas que
surgem do meio juvenil e criar dinâmicas educativas de grupo que ajudem o
indivíduo no crescimento da sua personalidade e da sua inserção social e
política”.<a style='mso-footnote-id:ftn6' href="#_ftn6" name="_ftnref6" title=""><sup>[6]</sup></a> Estes objetivos eram
prosseguidos através da dinamização dos dois centros juvenis da associação e,
consequentemente, foi nestes locais que passei mais tempo com os jovens, embora
privilegiando o centro da Covada que, por ser mais amplo e oferecer mais
atividades, atraía um número consideravelmente maior de frequentadores.</p>

    <p>Para me aproximar das práticas quotidianas
desta associação, assim como dos jovens que as realizavam, disponibilizei-me
desde logo a envolver-me nas suas atividades e a participar nas reuniões de
gestão. Para isso procurei criar uma relação de confiança e colaboração com os
responsáveis operacionais destes centros, designados de “educadores”. Naquela
altura estes eram Elton e Stip, ambos com 24 anos de idade, que haviam sido
escolhidos por A. para frequentar um curso de nove meses sobre animação juvenil
numa universidade europeia, no compromisso de posteriormente assumirem funções
de coordenação nos centros juvenis da associação. Assim, em abril de 2008, Stip
era responsável pela coordenação do centro juvenil de Covada e Elton, envolvido
há mais tempo na associação e conhecido de A. desde criança, coordenava o
centro juvenil de Fontinha. Nos meses seguintes acompanhei estes dois
educadores nos seus trabalhos nos centros e partilhei com eles ideias sobre a
juventude do Mindelo e sobre as atividades da AUJ.</p>

    <p>Naquela altura a AUJ apostava em promover
atividades de interesse para os jovens no recém-inaugurado centro da Covada e
procurava constituir um grupo de jovens locais que voluntariamente assumisse
responsabilidades na sua organização e manutenção. Prontifiquei-me a colaborar
neste processo, encarando-o como uma possibilidade de integração e pesquisa.
Deste modo tive oportunidade de participar e dinamizar reuniões, sessões de
formação e debates com um grupo alargado de jovens locais,<a style='mso-footnote-id:
ftn7' href="#_ftn7" name="_ftnref7" title=""><sup>[7]</sup></a>
conhecendo as suas perspetivas sobre a juventude, sobre as suas comunidades e
sobre o sentido que davam ao seu envolvimento enquanto voluntários na AUJ. Com
efeito, a adesão dos jovens às propostas da AUJ era entendida por estes como
natural, pois estava em linha com atividades e coletividades juvenis informais
já previamente existentes a nível local (as designadas “maltas de zona”, muito
frequentes em todo o país, sendo a mais expressiva manifestação de práticas
coletivas juvenis em Cabo Verde). A AUJ viria apenas dar um enquadramento
físico e organizacional a algo que para os jovens já era familiar.</p>

    <p>Neste contexto, vários jovens rapidamente se
mobilizavam para participar em iniciativas comunitárias promovidas pela AUJ
(recolha e dádiva de bens para famílias carenciadas, campanhas de limpeza de
espaços públicos, palestras de sensibilização, doação de sangue, apoio escolar
a crianças e adolescentes…), bem como em atividades culturais e lúdicas
(festas, passeios, desfiles e concursos, grupos de dança, de teatro ou
desportivos). Impressionado por este intenso envolvimento voluntário, procurei
em diversos contextos compreender o sentido que os jovens lhe atribuíam. Por
exemplo, numa sessão de debate sobre cidadania, notei o seguinte:</p>

    <blockquote>“Finalmente, quanto à obrigatoriedade de se
dedicar parte do tempo livre à sua comunidade, dividiram-se as opiniões. De um
lado estavam os que concordavam, valorizando o voluntariado como uma coisa <i>drêt</i>,<a
style='mso-footnote-id:ftn8' href="#_ftn8" name="_ftnref8" title=""><sup>[8]</sup></a>
o espírito de entreajuda e solidariedade comunitária, e revelando ainda uma
forte ligação às suas zonas e comunidades de residência; de outro lado estavam
aqueles que também valorizavam estes aspetos mas que achavam que tal não devia
ser obrigatório e que só o fazíamos quando isso também fosse bom para nós e nos
desse prazer. Um dos jovens deste grupo disse mesmo que o melhor que temos a
fazer pela nossa comunidade é desenvolvermo-nos a nós mesmos” [notas de campo,
17 de abril de 2008].</blockquote>

    <p>Se, por um lado, os jovens associavam o
voluntariado a um forte sentido de obrigação de ajudar os mais carenciados e a
um contributo comunitário importante, por outro lado o exercício do
voluntariado constituía também um meio de integração social e autopromoção, com
vantagens para o desenvolvimento pessoal, para a aquisição de novos
conhecimentos e para a vivência de novas experiências e amizades.</p>

    <p>Este envolvimento juvenil era frequentemente
concebido pelos próprios sob a forma de “projetos”, por vezes inclusivamente
através de documentos escritos que explanavam objetivos, atividades,
cronogramas e orçamentos. Porém, a sua concretização era quase sempre pontual,
descontinuada e descoordenada, com pouca ou nenhuma correspondência com os
“projetos” delineados previamente. Na verdade, as atividades e os projetos da
AUJ que eram assumidos pelos jovens voluntários e pelos educadores (nos quais
A. quase nunca intervinha) raramente tinham continuidade, sendo tão rapidamente
idealizados como abandonados. Tal aconteceu inclusivamente com o projeto de
estruturação do próprio grupo de voluntários (processo no qual me envolvi
também), que se desenrolou por várias reuniões durante dois meses para, logo
após a festa da sua apresentação pública, ficar esquecido e não ser
implementado. </p>

    <p>Com efeito, ao longo de todo o período em que
acompanhei a AUJ, o envolvimento dos jovens voluntários foi sempre
caracterizado por colaborações esporádicas e descoordenadas, principalmente
motivadas por razões de convívio e amizade. Estas eram motivações, aliás,
transversais às práticas da generalidade das coletividades juvenis (formais e
informais) que conheci no Mindelo, que de forma mais ou menos organizada
prontamente se dispunham a dinamizar festas, passeios, refeições coletivas e
atividades pontuais de beneficência comunitária, sem que as mesmas se
integrassem numa perspetiva de continuidade.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na AUJ, tal tendência teve para mim o seu
expoente maior na preparação do desfile de Carnaval da associação. Sendo o
Carnaval uma festa que &shy;mobiliza e anima toda a cidade, tinha surgido entre
os voluntários a ideia de a AUJ participar no desfile dos grupos de animação, a
realizar no centro da cidade no domingo de Carnaval. Esta era uma atividade que
ia claramente ao encontro dos seus interesses e os voluntários rapidamente se
mobilizaram para a tornar possível. O desfile começou a ser discutido na
associação em janeiro e, logo numa primeira reunião, os voluntários quiseram
escolher um tema para o desfile. A meio da discussão, um rapaz que eu não
conhecia levantou-se e fez um discurso inflamado sobre a luta dos jovens para
terem sucesso na vida. A forma como falou, mais do que o conteúdo do seu
discurso, cativou os presentes e todos rapidamente concordaram que o tema seria
“Nos luta” (a nossa luta). Curiosamente, nunca voltei a ver este rapaz no
centro, mas a sua sugestão permaneceu.</p>

    <p>Interessado nesta súbita movimentação em torno
do desfile de Carnaval, que aliás tornara o envolvimento dos voluntários na AUJ
quase exclusivamente centrado nesta atividade, decidi envolver-me também como
parte do grupo de voluntários. Propus assim dinamizar uma reunião para definir
que lema escrever nas nossas camisetas para o desfile, já que me interessava
explorar as razões da escolha do tema do desfile, as “lutas” que estes jovens
imaginavam travar.</p>

    <blockquote>“Propus que pensássemos inicialmente a partir
do tema geral que é ‘Nos luta’, sobre as nossas lutas individuais, as lutas e
objetivos da nossa vida. Eles próprios já tinham dito que queriam ir para além
dos lugares-comuns, queriam algo original. A ideia seria escrevermos as ‘nossas
lutas’ em pequenos papéis, anonimamente, e depois juntar todos, ler cada um e
construir a frase a partir daí. Lentamente eles começaram a escrever, uns a
levar a tarefa mais a sério do que outros. Resultaram daqui muitas ideias
genéricas, tais como ‘lutar pelos sonhos’, ‘sem medo, com responsabilidade’,
‘lutar para sobreviver’, ‘liberdade e independência’, ‘paixão’, ‘paz’, ‘amor’,
‘ajudar o companheiro’, ‘mudar’, ‘vencer’ e ‘um futuro melhor’, mas também
algumas lutas mais concretas como ‘estudar’, ‘trabalho e família’ e ‘dignidade
e respeito’. No final foi difícil escolher algumas das mais concretas e acabou
por se dar mais valor às expressões ‘sem medo, com responsabilidade’ e
‘vencer’. Finalmente, todos se identificaram com a ideia de ‘vencer’, que
ganhou força também com a comparação de Liliane entre a vida e um jogo de
futebol, onde temos de lutar para atingir os objetivos &#8211; vencer &#8211;
contornar obstáculos, defender e temos sempre alguém na plateia para nos
apoiar. Mas como esta ideia era difícil de passar para uma só frase, optou-se
por escrever apenas ‘vencer’ nas <i>t-shirts</i>” [notas de campo, 27 de
janeiro de 2009].</blockquote>

    <p>Nos meses seguintes, porém, todo o processo de
preparação do Carnaval viria a tornar-se confuso e desorganizado e eu duvidava
cada vez mais que os jovens conseguissem organizar este evento.</p>

    <blockquote>“Toda a preparação do Carnaval tem sido
complicada e desorganizada, com reuniões em que faltam sempre voluntários que
aparentemente tinham assumido algum papel de liderança e em que se decidem
coisas que depois não acontecem e não se percebe bem porquê. Por vezes é a
mensagem que não é compreendida, outras vezes porque se decidem coisas mas
ninguém é responsabilizado pela sua implementação, outras vezes ainda porque as
pessoas responsáveis não aprecem ou não fazem o que tinham assumido e ninguém é
capaz de lhes exigir o seu trabalho” [notas de campo, 15 de fevereiro de 2009].</blockquote>

    <p>À medida que se aproximava o fim de semana do
Carnaval, tudo o que já tinha vivido com os voluntários da AUJ na preparação do
desfile me fazia duvidar das suas capacidades de organização. Todavia, este
grupo iria mostrar-me como era capaz de, no meio do que a mim me parecia
confusão e despreocupação, realizar grandes atividades coletivas, sempre com
muito entusiasmo e prazer.</p>

    <blockquote>“No dia do desfile optámos por chegar ao centro
só depois das 14h30 (tinha sido decidido encontramo-nos todos às 14h) mas ainda
não estava lá quase ninguém. […] às 15h começaram a chegar os voluntários e muitos
outros jovens e crianças da zona para se pintarem e receberem as suas <i>t-shirts</i>.
Algumas das voluntárias responsáveis pela organização do desfile chegaram
fantasiadas e pintadas, muito animadas, sem apresentar qualquer justificação
para o atraso e nem mostrar preocupação com a falta de tempo que tínhamos, já
que o desfile devia começar às 16h30 na Praça D.&nbsp;Luís, no centro da
cidade. Eu não queria acreditar, mas resignei-me e aderi à animação.</blockquote>

    <blockquote>Stip tinha saído para almoçar quando nós
chegámos ao centro e só voltaria quase às 16h. […] Entretanto todos estavam a
ficar nervosos e com pressa. Finalmente alguns voluntários tinham percebido o
quão tarde era e começaram a gritar que era tarde e que tínhamos de ir embora.
Faltavam 15 minutos para as 16h quando começámos a sair e percebeu-se que se
fôssemos a pé nunca chegaríamos ao centro da cidade a tempo. Então Stip, que
acabava de chegar, aproximou-se de mim e perguntou-me: ‘podíamos alugar dois
Amizades?’ [autocarros da companhia Amizade]. Eu fiquei estupefacto! Como se
tinha lembrado ele disto agora? Porquê só agora? E seria assim tão fácil alugar
autocarros em tão pouco tempo? E teríamos nós dinheiro para isso?… Em cinco
minutos os autocarros chegaram. Afinal Stip tinha um amigo na companhia de
autocarros e foi só fazer um telefonema. Rapidamente todos entrámos nos
autocarros, alegres, divertidos e confiantes. Durante todo o percurso até ao
centro da cidade cantámos a nossa música e sentia-se o orgulho a crescer à
medida que íamos percorrendo aquelas ruas mais do que conhecidas a caminho da
Morada.<a style='mso-footnote-id:ftn9' href="#_ftn9" name="_ftnref9" title=""><sup>[9]</sup></a>
Uma alegria esfusiante vibrava dentro do autocarro e transbordava para as ruas,
fazendo os transeuntes olharem para nós. Uma grande festa para aqueles jovens…”
[Notas de campo, 27 de fevereiro de 2009]</blockquote>

    <p>Acabámos por chegar ao centro da cidade no
horário previsto e rapidamente todo o grupo da AUJ se organizou para desfilar.
O desfile começou com energia e organização, mas à medida que avançávamos fomos
perdendo ritmo e gradualmente os voluntários abandonaram a coreografia para
passarem a dançar frenética e desorganizadamente. Contudo, o grupo cumpriu todo
o percurso e o desfile terminou com grande alegria. No final, todos os
voluntários estavam orgulhosos e consideravam esta atividade como mais um
sucesso.</p></font>
    <p>&nbsp;</p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b><font size="3" face="Verdana">Diferentes noções de pessoa: um exercício de reflexividade</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>Participar, de modo comprometido, na
preparação e desenvolvimento das atividades e “projetos” da AUJ foi para mim um
exercício exigente de confronto com um modo de organização e planeamento que
não eram os meus. Os constantes atrasos ou ausências dos jovens nas reuniões ou
atividades, a desorganização das mesmas, o incumprimento de compromissos
assumidos e os frequentes desencontros entre o que se dizia e escrevia e o que
se fazia, sem que isso tivesse aparentemente qualquer consequência, tornaram o
meu percurso de envolvimento com estes jovens uma contínua angústia.</p>

    <p>Tal experiência, marcada por um íntimo
sentimento de frustração, reativava o propósito inicial da minha pesquisa,
nomeadamente a busca da razão pela qual os sucessivos projetos de “formação”,
“capacitação” e “organização” juvenil em Cabo Verde (promovidos por agentes
nacionais ou internacionais) pareciam sempre resultar em insucessos e na sua
própria repetição. Fui procurando, no decorrer da pesquisa, retomar este
propósito, esta pergunta, porém menos para lhe encontrar uma resposta &#8211;
que seria sempre ingénua e simplista &#8211;&nbsp; do que para analisar as condições da sua
formulação: o que significava fazê-la? Porque é que ela podia ser colocada? Num
esforço para tentar passar “da ansiedade ao método” (Devereaux 1967), procurei
assumir a minha própria experiência de envolvimento com a AUJ como elemento
passível de análise etnográfica. Consciente de que tais sentimentos revelavam
tanto sobre mim como sobre o contexto que eu analisava, ou melhor, revelavam
algo sobre mim nesse contexto, procurei destrinçar os elementos culturais que
se confrontavam neste meu encontro com o contexto juvenil cabo-verdiano.</p>

    <p>Gradualmente fui percebendo que eram noções de
autonomia, realização e responsabilidade individual, em suma, de pessoa, que se
confrontavam. Porém, o que se afigurava mais desconcertante, e por isso mais
revelador, era o facto de este confronto não se operar através de uma simples
oposição entre noções de pessoa exógenas (as minhas) e endógenas (as dos
jovens). Tal confronto operava-se também nas próprias pessoas com quem estava
envolvido. Eram também os jovens que eu pesquisava que evocavam e expressavam
este confronto paradoxal entre diferentes formas de (des)envolvimento pessoal e
coletivo. Embora investindo aparentemente mais na festividade, no convívio e na
busca hedonista do prazer imediato,<a style='mso-footnote-id:ftn10'
href="#_ftn10" name="_ftnref10" title=""><sup>[10]</sup></a>
eles também investiam nos estudos e aspiravam ao sucesso profissional mesmo em
face de grandes constrangimentos (Martins 2011; Martins e Fortes 2011), também
exigiam e participavam em ações de formação, também desejavam e elaboravam
projetos, também se envolviam em associações cívicas e em atividades
comunitárias. Por isso percebia que as minhas representações de pessoa &#8211;
racional, livre, independente e responsável &#8211; não eram apenas minhas;
também eram dos jovens com quem me confrontava, e por isso eu podia colocar a
pergunta sem correr o risco de ser demasiado etnocêntrico: porque é que os
jovens parecem querer e ao mesmo tempo não querer projetos, formações,
desenvolvimento?…</p>

    <p>O próprio funcionamento da AUJ se afigurava
como um reflexo deste mesmo paradoxo. A.&nbsp;tinha-a idealizado com base numa
metáfora familiar e intergeracional. Consequentemente ele próprio assumia uma
autoridade quase paternal junto dos jovens, atuando como provedor (de espaços,
de recursos materiais e financeiros) e como dirigente (definindo as principais
linhas de atuação), mas deixando os jovens entregues a si próprios nas suas
“atividades” juvenis (festas, passeios, jogos, reuniões, teatro, desfiles de
Carnaval). A criação deste “espaço” juvenil, que para A.&nbsp;era “reconhecedor
da existência”, era aliás o principal objetivo explícito da associação, já que
ele acreditava que tal contexto de “divertimento” juvenil (gratuito) era
formador de “processos afetivos construtivos”, de “ligações e valores” &#8211;
como a “solidariedade”, que ele considerava um valor tradicional do país que
estaria atualmente em declínio, face ao desenvolvimento de uma ética mercantil
e individualista &#8211; em suma, uma forma de “aprender a entrar na
sociedade”.</p>

    <p>Porém, através da sua autoridade paternal, A.
não deixava também de estimular o desenvolvimento individual de cada jovem,
quer tornando materialmente possível a muitos dos que se envolviam na
associação a frequência escolar ou universitária (através do pagamento das
propinas escolares ou do apoio escolar), quer oferecendo-lhes oportunidades de
formação profissional ou de trabalho, quer promovendo as suas capacidades de
organização e planeamento, quer ainda exigindo-lhes responsabilidades face aos
seus compromissos, tanto na associação como nas esferas escolar, laboral e
familiar.</p>

    <p>E se aparentemente os jovens que frequentavam
os espaços da associação não se mostravam (aos meus olhos) autónomos e
responsáveis, capazes de realizar projetos e assumir compromissos de longa
duração, eles, porém, não deixavam de lá estar, envolvidos nesta relação
“filial” com A., procurando e aceitando tanto as suas exigências como os seus
recursos, tirando deles partido tanto coletivo como individual. Isso mesmo se
revela nos seus próprios discursos sobre a associação e sobre o voluntariado,
evidenciando sempre em paralelo dimensões individuais e comunitárias que se
articulam numa “convivência” que tanto “ajuda” os outros como a eles mesmos.</p>
    <p>&nbsp;</p></font>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">A importância da convivência</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>A par do envolvimento nas atividades da AUJ,
procurei sempre consultar os educadores sobre a forma como entendiam o
desenrolar do trabalho da associação. Com efeito, Elton reconhecia que o
envolvimento dos voluntários era pontual e imprevisível e, generalizando,
entendia que a maioria dos jovens tinha dificuldades em assumir
responsabilidades. Acreditava aliás que para envolver os jovens era sempre
necessário disponibilizar “estímulos” que os atraíssem, tais como comida,
festas, bens materiais ou retribuições financeiras. Esta era também a opinião
de A., que aliás transparecia no frequente apoio prestado pela associação a
atividades festivas e refeições coletivas ou nas retribuições individuais.<a
style='mso-footnote-id:ftn11' href="#_ftn11" name="_ftnref11" title=""><sup>[11]</sup></a> Já Stip considerava que o
que atraía os jovens para o voluntariado era o desejo de “fazer qualquer coisa
para a sociedade”. Contudo, acreditava que muitos também eram motivados pelo
desejo de ganhar experiência e pela possibilidade de terem acesso a formações, ambas
com vista a gerar oportunidades futuras de trabalho.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Elton identificava nos jovens cabo-verdianos
alguma “passividade” e “falta de empreendedorismo”, características que para
ele se manifestavam numa tendência a viver no presente e não fazer planos a
longo prazo, permanecendo antes à espera de apoios ou oportunidades externas.
Referindo-se em particular aos jovens da periferia da cidade, Stip reforçava
esta ideia: “Às vezes eles não têm muito interesse, falta de empenho, de
motivação, ficam sempre aqui […]. Ficam à espera que o trabalho venha ter com
eles. Às vezes é mesmo um desleixo” [entrevista a Stip, 24 anos, 16 de março de
2009]. Todavia, este educador justificava parcialmente esta tendência pelas
carências económicas sentidas pela maioria dos jovens da periferia, assim como
pelo seu afastamento da informação e das iniciativas de apoio &shy;existentes
no centro da cidade, que raramente chegavam ao conhecimento deles. Já Elton
entendia que a passividade juvenil estava relacionada com uma “baixa autoestima”
dos jovens, um receio de falhar nos seus projetos de vida, o que relacionava
com a falta de políticas de apoio aos jovens, nomeadamente para estudar,
trabalhar ou ocupar os tempos livres. Elton acreditava, contudo, que a
passividade e falta de confiança dos jovens também emergia como consequência da
ausência de crítica social numa sociedade pequena e profundamente partidarizada
como a cabo-verdiana, onde o medo de manifestar opiniões e fazer exigências se
sentia desde a escola até aos locais de trabalho, por receio de se ser
prejudicado e excluído de redes sociais ou de privilégios.</p>

    <p>Como alternativa, Elton, à semelhança de A.,
encarava a AUJ como um contexto onde seria possível promover uma interação
positiva entre os jovens. De resto, o aspeto mais valorizado tanto por Elton
como por Stip no trabalho da associação era justamente o contributo que os
centros juvenis teriam dado para que os jovens se conhecessem entre si e para
que se construíssem relações de convivência e amizade nas respetivas zonas e entre
elas. Stip referia com orgulho que na zona de Covada existiam grupos de jovens
rivais que depois se vieram a dissolver como consequência do trabalho do centro
juvenil. Para Elton, aliás, tão importante como manter as atividades já
oferecidas pelos centros nas áreas do desporto, cultura e apoio ao estudo,
seria também promover atividades de grande dimensão que envolvessem os jovens
de todos os grupos dos centros, de forma a “manter a união”.</p>

    <p>Paralelamente, procurei compreender a visão
dos voluntários sobre o trabalho da AUJ, assim como as suas motivações para
frequentar os seus espaços e atividades. As respostas que obtive
caracterizaram-se tanto pela sua consistência como pela sua generalidade. A
totalidade dos jovens tinha uma boa, mas genérica, impressão do trabalho
desenvolvido e valorizava a presença dos centros juvenis nas suas zonas. Este
enraizamento geográfico era aliás um fator muito evidenciado, sendo
frequentemente ressaltado o contributo da associação a nível comunitário:
“fazer bem pela zona” (Liliane, 20 anos), “ajudar a comunidade a
desenvolver-se” (Max, 25 anos), “aproximar grupos rivais” (Júnior, 22 anos).
Este contributo era evocado, no entanto, sempre de forma pouco concreta, e os
jovens tendiam a resumi-lo numa ideia central: “convivência”.</p>

    <blockquote>“&#8212;&nbsp;[…] Por isso eu digo um
‘excelente trabalho’.</blockquote>

    <blockquote>“&#8212;&nbsp;E o que é que tu achas que se
podia fazer mais, o que é que era importante para os jovens da zona?</blockquote>

    <blockquote>“&#8212;&nbsp;É chegar a outras zonas, para
conhecer outros lugares.</blockquote>

    <blockquote>“&#8212;&nbsp;Mas há algum tipo de atividade
que tu gostavas que fizessem mais? Algum apoio?</blockquote>

    <blockquote>“&#8212;&nbsp;Sim… humm… estar com outras
pessoas, ajudar a outras pessoas… eu não sei que tipo de ajuda mas o centro faz
um excelente trabalho porque teve uma época, no fim de ano, que deram tinta
para caiar as casas, nós limpámos a zona, nós demos cal para caiar a beira do
passeio, umas limpezas, nós fizemos um bocado de coisas para a convivência aqui
neste centro” [entrevista a Mac, 24 anos, 24 de março de 2009].</blockquote>

    <blockquote>“&#8212;&nbsp;Achas que este centro é bom?</blockquote>

    <blockquote>“&#8212;&nbsp;Claro.</blockquote>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>“&#8212;&nbsp;Porquê?</blockquote>

    <blockquote>“&#8212;&nbsp;Porque muitos meninos que estão
aqui antes estavam na rua a brincar, mas sempre saíam aquelas confusões e eles
resolviam era com pancada, mas quando eles vêm para aqui, até a ver televisão,
pelo menos alguns ficam quietos, falam com eles e eles ouvem, é melhor do que
ficarem lá na rua, onde podem acontecer uma data de coisas <i>mariod</i>;&nbsp;<a
style='mso-footnote-id:ftn12' href="#_ftn12" name="_ftnref12" title=""><sup>[12]</sup></a>
isso é importante. Ele é um centro de convivência, não é verdade?” [Entrevista
a Luísa, 17 anos, 12 de março de 2009]</blockquote>

    <p>A par do envolvimento comunitário, o
conhecimento de pessoas novas e as amizades estabelecidas através da AUJ eram
frequentemente apontados pelos jovens tanto para valorizar o trabalho da
associação como para justificar a sua própria participação na mesma. Muitos
deles gostavam de lembrar, aliás, que tinha sido ali que se tinham conhecido e
tornado amigos.</p>

    <p>Numa interface entre uma dimensão interpessoal
concreta (novas pessoas, novas amizades) e um envolvimento comunitário mais
genérico (fazer o bem, ajudar os outros), evidenciava-se assim uma
“convivência” que, facilitada pela AUJ (mas também noutros contextos de
iniciativa coletiva juvenil como maltas de zona, grupos desportivos, religiosos
ou culturais), parecia ser uma dimensão importante nos quotidianos destes
jovens. Liliane, uma das voluntárias mais envolvidas naquela altura, no seu
jeito eloquente, explicitava bem esta articulação:</p>

    <blockquote>“&#8212;&nbsp;E aqui no centro porque é que tu
achas importante, porque é que participas no centro?</blockquote>

    <blockquote>“&#8212;&nbsp;Eu gosto [risos], não é a
primeira vez que eu faço estas coisas, eu gosto, tu sentes… quando fazes
aquelas coisas tu… tu sentes um alívio… não sei… tu sentes que estás a fazer
uma coisa <i>drêt</i>. E depois aqui tu estás no meio de amigos, tu sentes que
estás a fazer mas tu estás… para outras pessoas fazerem também; e perante a
situação que nós temos aqui no centro, aqueles meninos que nós temos aqui,
quando nós fazemos uma coisa destas nós sentimos que estamos a ajudar, a
contribuir para a nossa comunidade, nós não estamos só a estragar, tem um
bocado aqui que está só a estragar, pelo menos nós estamos a fazer alguma coisa
<i>drêt</i> para mais logo no futuro nós dizermos que nós ajudámos a fazer
aquela coisa lá.</blockquote>

    <blockquote>“&#8212;&nbsp;Sentes que o centro está a fazer
um bom trabalho?</blockquote>

    <blockquote>“&#8212;&nbsp;Sim, porque o centro chama muita
gente, pelo menos um bocado de nós conhecemo-nos aqui, ganhámos mais intimidade
com os companheiros foi aqui” [entrevista a Liliane, 20 anos, 20 de fevereiro
de 2009].</blockquote>

    <p>Ao relacionar o “alívio” que sentia por fazer
“uma coisa <i>drêt</i>” quando estava a
“contribuir para a nossa comunidade” com a “intimidade” que ganhou com os novos
“companheiros”, Liliane mostrava a relevância de uma dimensão relacional dentro
da qual parecia não haver oposição entre os seus pares (os seus amigos) e a
“comunidade” (concretizada no seu discurso através das crianças e adolescentes
apoiados pela AUJ). Ao evocar estas relações de “convivência” em conjunto para
falar do seu envolvimento na associação, Liliane evidenciava com clareza o modo
como estas dimensões aparentemente distintas (para mim) se articulavam e
complementavam (para ela) no contexto das suas práticas “&shy;juvenis”.</p></font>
    <p>&nbsp;</p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b><font size="3" face="Verdana">Da socialidade juvenil como projeto…</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>Refletindo sobre a socialidade juvenil no
contexto africano pós-colonial, a antropóloga Deborah Durham (2002) identifica
a emergência de uma “agencialidade híbrida”, “hibridizada entre um liberalismo
fortemente afirmado e a relevância renovada das experiências grupais” (2002:
165). Para esta autora, tal agencialidade estaria ancorada numa subjetividade
essencialmente definida pela incerteza, sendo esta tanto mais acentuada quanto,
em cada contexto nacional, as promessas de democracia e desenvolvimento
económico tiverem tido maior penetração (2002: 139). Durham desenvolve o seu
argumento a partir do contexto do Botswana no final dos anos 90, no rescaldo de
um período de três décadas de relativo crescimento económico e significativa
mobilidade social. Eu creio poder-se afirmar o mesmo sobre Cabo Verde no final
da década de 2000.</p>

    <p>As recentes transformações ocorridas no
arquipélago após a independência impulsionaram claramente uma ética liberal assente
no primado do indivíduo, do seu desenvolvimento e independência, favorecendo
tanto um processo social de individualização (cf.&nbsp;Beck e Beck-Gernsheim
2002) como a emergência de valores individualistas (cf.&nbsp;Velho 1994). A
rápida expansão do &shy;sistema de ensino formal (Afonso 2002) teve aqui um
papel central, reforçando e massificando possibilidades &#8211; mas
principalmente aspirações &#8211; de mobilidade social ascendente entre os
cabo-verdianos. Tal processo foi fortalecido pelo rápido crescimento dos
setores público e terciário nacionais, oferecendo &shy;crescentes oportunidades
de trabalho (mais e menos qualificado) na &shy;administração pública ou no
comércio e serviços (Afonso 2002; Lobban 1995), e &shy;acompanhado da abertura
do mercado nacional a bens de consumo importados e ao imaginário global
(cf.&nbsp;Appadurai 2004 [1996]).</p>

    <p>No mesmo sentido, nos discursos, nas políticas
e nos serviços dedicados à juventude, foram progressivamente implementadas
medidas de apoio à “capacitação” da população juvenil, nomeadamente através da
concessão de subsídios de apoio escolar e bolsas de estudo, de ofertas de
formação profissional e estágios profissionais, de serviços de orientação
vocacional, acompanhados de uma retórica de matriz liberal e moderna de reforço
da necessidade (e obrigação) de empenho escolar, da responsabilidade individual
e da capacidade de iniciativa (cf.&nbsp;Dubet 2002). Paralelamente, foi sendo
cada vez mais valorizada a “participação” social dos jovens, nomeadamente
através da constituição de associações e plataformas juvenis formais (embora
genericamente pouco estruturadas) e da elaboração e implementação de projetos
comunitários subvencionados por agências nacionais e internacionais. Foram
ainda criadas (modestas) políticas de concessão de crédito bancário a jovens para
aquisição de habitação ou criação de pequenos negócios, acompanhadas por
iniciativas de apoio e formação para o empreendedorismo.</p>

    <p>O contexto atual em Cabo Verde tornou-se assim
claramente favorecedor de uma noção de pessoa &#8211; e em particular de pessoa
jovem &#8211; que me era familiar, a saber, uma pessoa que se vê a si mesma num
processo de desenvolvimento individual, projetando metas para um futuro em que
se imagina independente e competente para fazer escolhas racionais em função
dessas mesmas metas. Escrevo esta frase não sem alguma intenção de
(auto)provocação, com consciência de que ela poderia ser uma definição
(neo)liberal de “jovem”, da qual fui reconhecendo que partilhava ao longo do
meu “confronto” com o universo juvenil cabo-verdiano. Mas os seus termos
&#8211; “desenvolvimento”, “individual”, “projetando”, “metas”, “futuro”,
“independente”, “competente”, “escolhas” e “racionais” &#8211; não eram só
meus; eles eram evocados também pelos discursos políticos e institucionais
sobre e para a juventude, bem como pelos próprios jovens cabo-verdianos. A sua
origem, porém, pode facilmente ser identificada numa tradição intelectual
ocidental que “define a ação humana como comportamento que cumpre uma intenção
prévia” (Johnson-Hanks 2005: 365), deste modo articulando conceções de
desenvolvimento individual e desenvolvimento socioeconómico (cf.&nbsp;Maira
2004) em torno de noções como racionalidade e liberdade e, mais recentemente,
de agencialidade.</p>

    <p>Quando aplicados à juventude, estes discursos
evocam, em suma, aquilo que Durham, num texto mais recente, chama “o romance da
agencialidade juvenil” (2008). Para esta autora, a teoria sociológica e
psicológica do século XX sobre a juventude é distintamente romântica: “… porque
coloca o jovem como herói de uma narrativa em forma romanesca, caracterizada
por desafio, crise e resolução e pela atenção à interioridade humana” (2008:
167). Tal visão tende a definir a juventude como um tempo de construção de uma
identidade individualizada, realizada através de um movimento de autonomização
que é tanto liberatório como desenvolvimental (2008: 167-168).<a
style='mso-footnote-id:ftn13' href="#_ftn13" name="_ftnref13" title=""><sup>[13]</sup></a></p>

    <p>Neste quadro teórico (e sociopolítico), a
ideia de “projeto” torna-se central, tanto a nível individual como coletivo. Os
jovens tornam-se (no sentido em que tanto representam como incorporam) projetos,
tanto pessoais como comunitários, ou até nacionais (Martins 2011). Os jovens
devem ter “projetos de vida” e devem envolver-se em “projetos comunitários”; os
jovens falam em projetos e desejam projetos, os seus grupos e associações
tornam-se lugares de promoção e realização de projetos. Mas qual o significado
cultural de tão expressiva presença de “projetos” na contemporaneidade?</p>

    <p>Segundo o antropólogo brasileiro Gilberto
Velho (1994), a noção de projeto torna-se fundamental para compreender a
constituição das identidades individuais face a uma fragmentação social que
seria característica das sociedades modernas.</p>

    <blockquote>“Nas sociedades onde predominam as ideologias
individualistas, a noção de biografia, por conseguinte, é fundamental. A
trajetória do indivíduo passa a ter um significado crucial como elemento não
mais contido mas constituidor da sociedade. É a progressiva ascensão do sujeito
psicológico, que passa a ser a medida de todas as coisas. […] Carreira,
biografia e trajetória constituem noções que fazem sentido a partir da eleição
lenta e progressiva que torna o indivíduo biológico em valor básico da
sociedade ocidental moderna” (Velho 1994:&nbsp;100).</blockquote>

    <p>Velho recorre a Shutz para definir projeto
como “conduta organizada para atingir finalidades específicas” (1979, cit. em
Velho 1994: 101) e aponta a centralidade da noção de projeto na constituição do
sujeito moderno: “o indivíduo-sujeito é aquele que faz projetos” (1994: 101).
Para Velho, se a memória dá consistência à biografia, o projeto permite
representá-la no futuro. Memória e projeto seriam assim as amarras fundamentais
das identidades sociais modernas, pois “situam o indivíduo, suas motivações e o
significado das suas ações, dentro de uma conjuntura de vida, na sucessão das
etapas de sua trajetória” (1994: 101).</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Se aplicado à juventude, o argumento de Velho
em torno do projeto parece, porém, replicar facilmente o “romance da
agencialidade juvenil” &shy;denunciado por Deborah Durham. A distância entre a
retórica do projeto (como &shy;compromisso, como trajetória, como identidade) e
a sua realização &#8211; justamente aquela distância que se evidenciava entre
os jovens que acompanhei na AUJ &#8211; permanece ainda por percorrer, por
compreender. Jean-Pierre Boutinet, no prefácio da sua obra &shy;<i>Antropologia do Projeto</i> (1997), salienta
justamente este desencontro, alertando para algumas “derivações patológicas” do
conceito de projeto nas sociedades atuais:</p>

    <blockquote>“São estas derivações que se torna, hoje em
dia, imprescindível inventariar, a fim de compreender melhor como é que um
regulador psicológico e cultural, o projeto, pode transformar-se em perturbador
social, tal como um imaginário sempre apresentado como criador e emancipador se
transforma no seu inverso, um imaginário enganoso e alienante” (Boutinet
1997:&nbsp;9).</blockquote>

    <p>Num exercício de “arqueologia” do conceito,
Boutinet demonstra como este emergiu e logo se tornou uma figura emblemática da
modernidade. Num contexto crescentemente marcado pela “individualização das
condutas” e pela “fragilização do tempo” (1997: 25), o projeto, como instrumento
(racional) antecipador num tempo prospetivo (em mudança), tornou-se uma
referência simbólica incontornável, cuja conotação positiva dominante advém do
facto de conferir um valor, um ganho identitário (narcísico) ao seu promotor.
Mas, para Boutinet, tal “cultura em projeto”, definida por uma profusão de
condutas antecipadoras, não procuraria mais do que fundar um lugar de
legitimidade, individual ou coletiva, “numa época em que esta legitimidade não
é mais concedida” (1997: 8), sendo esta busca de legitimidade tanto mais
premente quanto mais frágeis e precárias forem as posições dos atores. É neste
sentido que Boutinet alerta para uma das principais “derivações patológicas” do
conceito de projeto:</p>

    <blockquote>“… <i>aquela da desilusão ou da imposição
paradoxal</i>, que empurra os fora-de-projeto da nossa cultura (jovens mal
escolarizados, desempregados no fim do seu período de direito ao fundo de
desemprego, profissionais em reconversão problemática) a construir, para si
próprios, um projeto que não terão, na maior parte dos casos, meios para
realizar, por diferentes razões, relacionadas quer com as especificidades da
sua história pessoal, quer com as possibilidades limitadas oferecidas pelo seu
ambiente; daí decorrem, para as pessoas em situação precária, os riscos de
ilusão e, logo, de desilusão em face de um futuro demasiado rápido e
artificialmente idealizado” (1997: 9-10, itálico do autor).</blockquote>

    <p>Com efeito, também Velho (1994: 40) sublinha
que a construção de projetos não implica uma liberdade absoluta (de cariz
racionalista) da parte dos indivíduos, e lembra que a sua deliberação é sempre
enformada pelas circunstâncias socioculturais &#8211; o campo das
possibilidades &#8211; que delimitam e constrangem os sujeitos. Contudo, o que
Boutinet demonstra é mais do que a contingência dos projetos; é a fragilidade
do próprio conceito de projeto. Frequentemente assente na “pura abstração”, ele
torna-se facilmente um discurso ideológico de legitimação que não procura mais
do que mascarar uma “ausência fundadora” (Boutinet 1997:&nbsp;13).</p>

    <p>Se a adoção (e imposição) da retórica do
projeto entre os jovens cabo-verdianos pode sugerir a emergência de formas mais
individualizadas, se bem que contextualizadas, de construção das identidades
(cf.&nbsp;Velho 1994), ela parece também constituir um discurso ideológico que
evidencia rutura e alienação (cf.&nbsp;Boutinet 1997) e cuja incapacidade de
concretização deixa justamente entrever a marginalidade dos próprios jovens. O
caráter pontual e repetitivo das “atividades” associativas juvenis e as
frequentes frustrações na realização das aspirações individuais (Martins 2011),
ambas designadas paradoxalmente “projetos”, mostram com particular acutilância
a limitação deste conceito para compreender os jovens cabo-verdianos na
atualidade.</p></font>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">… à socialidade como convivência (reflexões finais)</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <blockquote>“To imagine youth, and to imagine the concept
relationally, is to imagine the grounds and forces of sociality” (Durham
2000:&nbsp;117).</blockquote>

    <p>Durante a maior parte da minha pesquisa, as
práticas juvenis que observava &#8211; tanto nas sociabilidades coletivas como
nas trajetórias pessoais &#8211; pareciam-me superficiais, pontuais,
descomprometidas, irracionais, em suma, irresponsáveis. Mas, percebi depois,
tal entendimento revelava muito mais de mim do que das práticas daqueles
jovens: para mim um (des)envolvimento “responsável” implicaria sempre um
compromisso racional e individual. Ora, foi exatamente aqui que os jovens que
conheci me ajudaram a pensar de outra forma. Ao praticarem e valorizarem uma
“convivência”, ao mesmo tempo lúdica e solidária, ao assumi-la como aquilo que
os atraía para o associativismo, para a comunidade, para o voluntariado, uns
para os outros, e ainda assumindo-a como aquilo que os fazia sentirem-se
“integrados”, percebi a fragilidade da minha análise “racionalista” e
“individualista”. Era justamente essa “convivência” que os definia, que os
constituía, (re)ativando relações intergrupais, intergeracionais e
comunitárias.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Estes jovens, ao evocarem a “convivência”,
evocavam assim uma noção de pessoa bem diferente da minha, da moderna
ocidental, do “indivíduo-sujeito” em “projeto”. O que os jovens revelavam era
antes uma noção de pessoa intersubjetiva, cuja existência enquanto ser-no-mundo
estaria sempre mediada por &#8211; e partilhada com &#8211; outras pessoas,
dependente da abertura ao outro e do entrelaçamento intersubjetivo
(cf.&nbsp;Toren 1993, 1999; Merleau-Ponty 1999 [1945]). Curiosamente,
A.&nbsp;parecia (talvez sabiamente) promover, através da AUJ, esta mesma
conceção de pessoa e, enfim, um modo de socialidade juvenil assente tanto (ou
mais) na “convivência” como no “projeto”. Colocando a “convivência” no centro
da socialidade juvenil distanciamo-nos assim de um entendimento da
agencialidade dos jovens constituído em torno de noções de <i>empowerment</i> e individualização, de dependência ou independência, e
reforçam-se antes as dimensões da interdependência e da intersubjetividade.</p>

    <p>Nesta mesma linha de análise, o cientista
social camaronês Francis Nyamnjoh, ao refletir sobre a constituição da
subjetividade dos grupos mais marginalizados do seu país, coloca a questão de
“como os indivíduos são capazes de ser quem são &#8211; agentes &#8211; através
de relações com os outros?” (Nyamnjoh 2002: 111). Tal enfoque na
intersubjetividade não nega que os indivíduos exerçam liberdade e racionalidade
nos seus quotidianos, contudo assume que os “projetos” e os “sucessos”
individuais são sempre dependentes do repertório de expectativas e referências
reconhecidas e legitimadas pelos outros. Aceitando-as, cada indivíduo afirma a
sua pertença ao grupo e tais expectativas &#8211; a cultura &#8211; asseguram-lhe
uma orientação para a ação sem necessariamente a determinarem. Ora, segundo
Nyamnjoh este processo, marcado pela negociação entre objetivos pessoais e
interesses coletivos, teria essencialmente lugar em contextos de
convivialidade: “a liberdade de perseguir objetivos individuais ou de grupo
existe dentro de um quadro socialmente predeterminado, que enfatiza o convívio
com interesses coletivos, ao mesmo tempo que permite a criatividade individual
e a autorrealização” (2002: 115). Nyamnjoh conclui, aliás, que este processo de
“coletivização do sucesso e do insucesso” assente na interdependência &#8211;
um processo que designa “de domesticação da agencialidade e da subjetividade”
&#8211; seria justamente um alívio contra a pressão para o sucesso
independente, inevitavelmente frágil e transitório num mundo de oportunidades
cada vez menores (2002:&nbsp;115).</p>

    <p>Quando Elton oscila entre, por um lado, uma
crítica à irresponsabilidade e passividade dos jovens, que no entanto justifica
pelo “medo de falhar” e pelo “medo de expressar a suas opiniões” e, por outro
lado, um interesse em reforçar as grandes atividades conviviais, mesmo que seja
necessário oferecer “estímulos” para mobilizar os jovens, o que ele revela é
justamente a importância desta constante negociação entre interesses individuais
e coletivos, assente numa convivialidade que, mesmo se constrangedora, acaba
por proteger os jovens do insucesso individual. A metáfora do jogo de futebol
que Liliane evocou quando discutimos o sentido do “vencer” nas <i>t-shirts</i> do desfile de Carnaval torna-se
assim uma visão perspicaz sobre a (inter)subjetividade juvenil: há um jogo
pessoal a empreender, mas “temos sempre alguém na plateia para nos apoiar”.</p>

    <p>Comentando o argumento de Nyamnjoh na
introdução de <i>Postcolonial Subjectivities
in Africa</i>, Richard Werbner reforça esta visão de uma subjetividade
“incorporada” pela “implicação do sujeito na intersubjetividade” e evoca, por
fim, uma perceção bastante disseminada na África pós-colonial: “viver a vida ao
máximo é vivê-la em interdependência, em convivialidade, se possível” (2002:
19-20). Os jovens que conheci em Cabo Verde diziam-me e praticavam isto mesmo.
Preso a uma oposição entre “projeto racional” e “convivência superficial”, eu é
que não os sabia ouvir.</p></font>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">Bibliografia</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
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4&nbsp;(8): 294-312.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=190794&pid=S0873-6561201600010000400023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MARTINS, Filipe, 2013, <i>Entre Projeto e Convivência: Ser Jovem nas
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Universitário de Lisboa, tese de doutoramento em Antropologia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=190796&pid=S0873-6561201600010000400024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MARTINS, Filipe, e Celeste FORTES, 2011,
“Para além da crise: jovens, mulheres e relações familiares em Cabo Verde”, <i>(Con)Textos: Revista d’Antropologia i
Investigació Social</i>, 5: 13-29.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=190798&pid=S0873-6561201600010000400025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MERLEAU-PONTY, Maurice, 1999 [1945], <i>Fenomenologia da Percepção</i>. São Paulo,
Martins Fortes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=190800&pid=S0873-6561201600010000400026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>NYAMNJOH, Francis&nbsp;B., 2002, “‘A child
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    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>PAIS, José Machado, 2010, “Cursos de vida,
padronizações e disritmias”, em J.&#8197;M. Pais e V.&#8197;S. Ferreira
(orgs.), <i>Tempos e Transições de Vida:
Portugal ao Espelho da Europa</i>. Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais, 19-35.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=190804&pid=S0873-6561201600010000400028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>PAPPÁMIKAIL, Lia, 2010, “Juventude(s),
autonomia e sociologia: questionando conceitos a partir do debate acerca das
transições para a vida adulta”, <i>Sociologia</i>, XX: 395-410.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=190806&pid=S0873-6561201600010000400029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>PINA, Vera Duarte Lobo de, 2009, “Cabo
Verde e a educação: ganhos e desafios”, <i>Meta:
Avaliação</i>, 1&nbsp;(3): 375-385.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=190808&pid=S0873-6561201600010000400030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>PROENÇA, Carlos Sangreman, 2009, <i>A Exclusão Social em Cabo Verde: Uma
Abordagem Preliminar</i>. Lisboa, Centro de Estudos sobre África e do
Desenvolvimento do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade
Técnica de Lisboa, col. Documentos de Trabalho, n.º&nbsp;76.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=190810&pid=S0873-6561201600010000400031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>STRATHERN, Marilyn, 1988, <i>The Gender of the Gift</i>. Los Angeles,
University of California Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=190812&pid=S0873-6561201600010000400032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>TOREN, Christina, 1993, “Making history:
the significance of childhood for a comparative anthropology of mind”, <i>Man</i>, 28&nbsp;(3): 461-478.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=190814&pid=S0873-6561201600010000400033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>TOREN, Christina, 1999, <i>Mind, Materiality and History.</i> Londres,
Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=190816&pid=S0873-6561201600010000400034&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>VELHO, Gilberto, 1994, <i>Projeto e Metamorfose: Antropologia das
Sociedades Complexas</i>. Rio de Janeiro, Jorge Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=190818&pid=S0873-6561201600010000400035&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>VIEGAS, Susana de Matos, 2007, <i>Terra Calada: Os Tupinambá na Mata Atlântica
do Sul da Bahia</i>. Rio de Janeiro, 7Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=190820&pid=S0873-6561201600010000400036&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>WERBNER, Richard, 2002, “Postcolonial
subjectivities: the personal, the political and the moral”, em R.&nbsp;Werbner
(org.), <i>Postcolonial Subjectivities in
Africa</i>. Londres e Nova Iorque, Zed Books, 1-21.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=190822&pid=S0873-6561201600010000400037&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p></font>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">NOTAS</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">

    <p><a style='mso-footnote-id:ftn1' href="#_ftnref1"
name="_ftn1" title=""><sup>[1]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pesquisa realizada
entre outubro de 2007 e dezembro de 2010, financiada pela Fundação para a
Ciência e a Tecnologia (SFRH&#8202;/&#8202;BD&#8202;/&#8202;29586&#8202;/&#8202;2006)
e orientada por Miguel Vale de Almeida. Este artigo resulta de uma adaptação do
capítulo&nbsp;4, “Práticas e lugares de socialidade juvenil em Cabo Verde”, da
minha tese de doutoramento (Martins 2013).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn2' href="#_ftnref2"
name="_ftn2" title=""><sup>[2]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para uma visão geral da
evolução dos indicadores de desenvolvimento de Cabo Verde, ver o perfil do país
do Banco Mundial (<a href="http://data.worldbank.org/country/cape-verde" target="_blank">http://data.worldbank.org/country/cape-verde</a>).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn3' href="#_ftnref3"
name="_ftn3" title=""><sup>[3]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em 2010 o desemprego
afetava 25,1% na população entre 15 e 24 anos de idade e 9,5% na população
nacional entre os 25 e os 44 anos de idade em meio urbano (INE 2010).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn4' href="#_ftnref4"
name="_ftn4" title=""><sup>[4]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esta condição juvenil,
entendida como uma moratória indefinida face à assunção plena da idade adulta,
apresenta em Cabo Verde muitos dos mesmos contornos materiais e simbólicos
identificados noutros contextos ocidentais (para Portugal, ver Alves <i>et al</i>. 2011; para a Europa, ver Pais
2010). Contudo, diferencia-se destes pelo acentuado desequilíbrio entre a
elevada expressão demográfica das faixas etárias jovens e a profunda escassez e
fragilidade dos mecanismos estatais de proteção e equidade social a elas
destinados, intensificando assim a experiência local de estagnação e de
vulnerabilidade dos jovens (Martins 2013).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn5' href="#_ftnref5"
name="_ftn5" title=""><sup>[5]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esta pesquisa foi
complementada pela aplicação de um questionário a 92 jovens do Mindelo,
entrevistas a 13 profissionais locais do setor da juventude e entrevistas
biográficas a 21&nbsp;jovens.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn6' href="#_ftnref6"
name="_ftn6" title=""><sup>[6]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Adaptado de um
documento de apresentação da Associação União Juvenil de julho de 2009.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn7' href="#_ftnref7"
name="_ftn7" title=""><sup>[7]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Jovens com idades entre
os 16 e os 30 anos e com habilitações escolares muito diversas, desde o 6.º ano
de escolaridade à frequência do ensino superior.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn8' href="#_ftnref8"
name="_ftn8" title=""><sup>[8]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  Expressão do
cabo-verdiano que significa “bom” ou “correto”. </p>



    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a style='mso-footnote-id:ftn9' href="#_ftnref9"
name="_ftn9" title=""><sup>[9]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Designação local para
referir o centro da cidade.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn10' href="#_ftnref10"
name="_ftn10" title=""><sup>[10]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Neste sentido recorriam
muitas vezes à expressão “<i>depós de passá
sabe morrê é ca nada</i>” (que poderia ser aproximadamente traduzida como:
“depois de passar um bom momento morrer não importa”) para expressarem a forma como
priorizavam a busca de momentos prazerosos.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn11' href="#_ftnref11"
name="_ftn11" title=""><sup>[11]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Práticas também frequentes
noutras estruturas nacionais de mobilização juvenil, tais como os Centros da
Juventude governamentais, as juventudes partidárias ou as organizações não
governamentais.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn12' href="#_ftnref12"
name="_ftn12" title=""><sup>[12]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Expressão do crioulo
cabo-verdiano que significa “incorreto”, “errado” ou “estragado”.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn13' href="#_ftnref13"
name="_ftn13" title=""><sup>[13]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em coerência, aliás, com as
tradicionais perspetivas da sociologia da juventude, centradas nos processos de
individualização, autonomização e transição para a vida adulta; para uma
revisão crítica, ver Pappámikail (2010) e Côté (2000).</p></font>

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