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<publisher-name><![CDATA[Centro em Rede de Investigação em Antropologia - CRIA]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Do Ipê Roxo na Cidade Nova: experiência etnográfica e aprendizagem situada]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[About Ipê Roxo in Cidade Nova: ethnographic experience and situated learning]]></article-title>
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<surname><![CDATA[Silva]]></surname>
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<institution><![CDATA[,Universidade Estadual do Oeste do Paraná Centro de Educação, Letras e Saúde Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar Sociedade]]></institution>
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<country>Brasil</country>
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<fpage>119</fpage>
<lpage>142</lpage>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The objective of this article is to present reflections on an ethnographic experience centered on learning occurring through an assumed engagement between university researchers, elementary and middle school teachers, children, adolescents and parents in a public school in Foz do Iguaçu. The ethnographic data were built during a program developed in the school and shows that, though demanded by managers of national public education policy, this experience opened reflexive conditions in our interactions, and brought ethical, political, and epistemological implications regarding learning in context. Based on the premise that learning results in a social interaction which incorporates social inequalities as well as qualifying processes and is embedded in practice, this ethnographic experience intrinsically linked diverse activities of those involved, including the school and the neighborhood as in memory and lived time, and showed these spaces as achievements inseparable from a process of symbolic fight and policy in interaction with the city.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[aprendizagem]]></kwd>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[antropologia e educação]]></kwd>
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<kwd lng="en"><![CDATA[childhood]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ 
    <p align="right"><font size="2" face="Verdana"><b>ARTIGOS</b></font></p>


    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="4" face="Verdana">Do Ipê Roxo na Cidade
  Nova: experiência etnográfica e aprendizagem situada</font></b></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">About Ip&ecirc;
  Roxo in Cidade Nova: ethnographic experience and situated learning</font></b></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p>&nbsp;</p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p><b>Regina Coeli Machado e Silva<sup>I</sup></b></p>

    <p><sup>I</sup>Programa de
Pós-Graduação Interdisciplinar Sociedade, Cultura e Fronteiras/CELS (Centro de
Educação, Letras e Saúde), Unioeste/Universidade
Estadual do Oeste do Paraná, Brasil. <i>E-mail</i>: <a
href="mailto:rcoelims@gmail.com">rcoelims@gmail.com</a></p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
    <p>&nbsp;</p>
<hr noshade size="1">
    <p><b>RESUMO</b></p>
    <p>Apresentar reflexões de uma experiência etnográfica centrada em
  aprendizagens ocorridas por um engajamento assumido em conjunto entre
  pesquisadores universitários, professores de ensino fundamental e médio,
  crianças, adolescentes e pais em uma escola pública&nbsp;de&nbsp;Foz do Iguaçu
  é o objetivo deste artigo. Os dados etnográficos foram construídos durante um
  programa desenvolvido na escola e mostram que, embora demandada por gestores
  das políticas educacionais públicas nacionais, essa experiência abriu condições
  de reflexividade em nossas interações e trouxe&nbsp;implicações éticas,
  políticas e epistemológicas sobre a aprendizagem em contexto. Partindo da
  premissa de que a aprendizagem resulta de uma interação social que incorpora as
  desigualdades sociais e os processos classificatórios e que está embebida na
  prática, a pesquisa ligou intrinsecamente diversas atividades dos envolvidos,
  incluiu a escola e o bairro no tempo da memória e do vivido e evidenciou esses
  espaços como conquistas indissociáveis de um processo de luta simbólica e
  política em interação com a cidade.</p>

    <p><b>Palavras-chave</b>: aprendizagem, etnografia escolar,
antropologia e educação, escola, infância</p>
<hr noshade size="1">
    <p><b>ABSTRACT</b></p>

    <p>The
objective of this article is to present reflections on an ethnographic
experience centered on learning occurring through an assumed engagement between
university researchers, elementary and middle school teachers, children,
adolescents and parents in a public school in Foz do Iguaçu. The ethnographic
data were built during a program developed in the school and shows that, though
demanded by managers of national public education policy, this experience
opened reflexive conditions in our interactions, and brought ethical,
political, and epistemological implications regarding learning in context.
Based on the premise that learning results in a social interaction which
incorporates social inequalities as well as qualifying processes and is
embedded in practice, this ethnographic experience intrinsically linked diverse
activities of those involved, including the school and the neighborhood as in
memory and lived time, and showed these spaces as achievements inseparable from
a process of symbolic fight and policy in interaction with the city.</p>

    <p><b>Keywords</b>: learning,
educational ethnography, anthropology and education, school, childhood</p>
<hr noshade size="1"></font>
    <p>&nbsp;</p>
    <p>&nbsp;</p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b><font size="3" face="Verdana">Introdução</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>O objetivo deste artigo<a style='mso-footnote-id:
ftn1' href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><sup>[1]</sup></a>
é apresentar reflexões de uma experiência etnográfica centrada em aprendizagens
assumidas em conjunto, envolvendo pesquisadores e estagiários universitários,
alunos, professores, pais e responsáveis, em uma escola pública estadual de Foz
do Iguaçu, de ensino fundamental e médio.<a style='mso-footnote-id:ftn2'
href="#_ftn2" name="_ftnref2" title=""><sup>[2]</sup></a>
Embora a afirmação da existência de uma aprendizagem assumida em conjunto
suponha um grupo de “aprendizes”&nbsp;<a style='mso-footnote-id:ftn3' href="#_ftn3" name="_ftnref3"
title=""><sup>[3]</sup></a> atuando
como interlocutores, a experiência nessa escola foi, inicialmente, demandada
por agentes de instituições educacionais públicas brasileiras, por meio do
Observatório da Educação, um programa de abrangência nacional, operacionalizado
localmente.<a style='mso-footnote-id:ftn4' href="#_ftn4" name="_ftnref4"
title=""><sup>[4]</sup></a> Esse programa concebe a
escola como uma organização integrada, de gestão pública e privada, e se baseia
no ideal de transferência de um conhecimento universalizável endereçado a
crianças e jovens. O programa tem como pressuposto habilidades cognitivas para
aprendizagem fora de contexto &#8211; a serem testadas por meio de exames
internacionais e nacionais como o Programa Internacional de Avaliação de Alunos
(PISA) e a
Prova Brasil, que avaliam os índices de aproveitamento escolar dos alunos nas
escolas públicas brasileiras, compatibilizados com os países da Organização
para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).<a style='mso-footnote-id:
ftn5' href="#_ftn5" name="_ftnref5" title=""><sup>[5]</sup></a>
Assim, condicionado por dados estatísticos sobre os &shy;baixos índices de
aproveitamento dos alunos de escolas públicas do Brasil, foi esse o ponto de
partida da experiência etnográfica em questão.<a style='mso-footnote-id:ftn6'
href="#_ftn6" name="_ftnref6" title=""><sup>[6]</sup></a></p>

    <p>O programa foi desenvolvido durante três anos,
como proposto por Maria Elena Pires Santos (2010), e reuniu professores e
pesquisadores da universidade (no momento inicial também gestores, pois
coordenadores locais do programa), com formação em Linguística Aplicada e em
Antropologia, além de estudantes da pós-graduação e estagiários de licenciatura
em Letras. Durante esse período, manteve-se uma média de 20 a 25 professores
participantes da escola. No primeiro ano, foram realizados encontros de grupo
de estudo interdisciplinar, formados por pedagogos e professores de diferentes
disciplinas da escola.<a style='mso-footnote-id:ftn7' href="#_ftn7"
name="_ftnref7" title=""><sup>[7]</sup></a> Os temas para estudo eram
escolhidos pelo grupo e, nesses encontros, emergiu a proposta dos professores
de “construir” a memória do bairro, efetivada como um projeto de pesquisa.
Momento de inflexão fundamental, o desenvolvimento do projeto ultrapassou o
contexto institucional escolar, incluindo pais dos alunos e moradores do
bairro. A efetividade dessa experiência propiciou uma aprendizagem situada,
ligou intrinsecamente práticas de todos os envolvidos, manifestou o bairro e a
escola como inseparáveis e abriu condições de reflexividade das nossas próprias
interações simbólicas e políticas. Todo esse desdobramento trouxe implicações
éticas, políticas e epistemológicas para pensar a aprendizagem em termos
cognitivos e relacionais.</p>

    <p>As referências analíticas mais específicas
para a compreensão dessa aprendizagem partem da ontologia social da cognição,
pressupondo a oralidade, a leitura e a escrita como práticas sociais
específicas, intrínsecas à vida relacional. Para desenvolver esse argumento, na
primeira seção do artigo contextualizo os debates da antropologia implicados na
cognição, empreendidos por suas articulações com a educação, a infância e a
escola. Trata-se de uma contextualização que, ao inserir esses debates no
movimento de refinamento teórico recente da disciplina, igualmente pretende
realçar as contribuições analíticas recentes sobre a cognição e suas relações
com a aprendizagem como um recurso epistemológico e metodológico para transpor
certos determinismos sociológicos quando nos indagamos sobre diferentes
problemas envolvidos na educação. Sob esse enquadramento, apresento uma
proposta analítica de compreensão da aprendizagem como parte intrínseca de um
sistema cognitivo construído na interação social. Na segunda seção, aponto os
caminhos que permitiram nossa inserção na escola, com suas particularidades; na
terceira, descrevo o desenvolvimento e os resultados desse processo etnográfico
com envolvimento de todos e no qual formamos uma “comunidade de aprendizes”.
Finalmente, teço considerações a respeito das implicações teóricas, políticas e
epistemológicas da experiência aqui apresentada.</p></font>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">A aprendizagem como modo de participação em práticas sociais</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>Pressupor que o sistema cognitivo é construído
na interação social nos coloca no centro das questões abordadas pela antropologia
da cognição proposta por Jean Lave (1988; Lave e Wenger 1991). Partindo de uma
teoria mais abrangente sobre a prática social, essa autora define a
aprendizagem como atividade situada no processo de pensamento, com implicações
para nossas concepções sobre a infância e sobre a educação, fenômenos aí
correlacionados. Embora correlacionados, eles circunscrevem subcampos na
antropologia, com problemas analíticos específicos, de modo que podemos
identificar subcampos reconhecidos como o das relações entre antropologia e
educação, o da antropologia da criança e o da antropologia cognitiva.<a
style='mso-footnote-id:ftn8' href="#_ftn8" name="_ftnref8" title=""><sup>[8]</sup></a> Enquanto o interesse da
antropologia na educação ou no ensino formal tenha sido pouco enfatizado na
história da antropologia, a preocupação com a socialização e a transmissão da
cultura, ao contrário, foi importante não só pela premissa da especificidade
ontológica social do pensamento, mas também pela aprendizagem diretamente
ligada às preocupações com a cognição, a como se processa o conhecimento e como
se constroem modelos de compreensão das sociedades e suas relações.
Recentemente, esses subcampos da antropologia vêm se interpenetrando cada vez
mais, colocando em primeiro plano a aprendizagem, objeto congruente e
constitutivo da autocrítica da antropologia que, nos últimos anos, trouxe o
retorno do sujeito, da agência e da prática, como apontaram Ortner (1984) e
Viveiros de Castro (2002). De modo análogo e complementar, os desdobramentos
dessa autocrítica tiveram como efeito colocar sob suspeita o alcance
explicativo de conceitos sociológicos como o de cultura e de sociedade (a
exemplo de Abu-Lughod 1999; Stolke 1995; Strathern 2014), exigindo mais
refinamentos na análise. Trata-se de formulações propiciadoras de um debate
instigante que evidencia o comprometimento com a relativização dos próprios
fundamentos da antropologia, cujo desafio interpretativo continua aberto.</p>

    <p>Meu interesse ao centrar a reflexão no
processo de aprendizagem é, justamente, explorar o desafio interpretativo de
conceber a aprendizagem como prática social que ultrapassa o contexto
institucional escolar, mesmo estando situada e localizada em uma escola. Isto
é, o enfoque na cognição construída na interação nos permite ir além das ideias
de que os processos educacionais supostos na escola são modos de existência
reproduzindo a si mesmos, pela reprodução legítima das desigualdades e das
distinções sociais, ao modo de Bourdieu (1982), ou formas de poder ou
resistência imanentes a essa reprodução (Foucault 1988, 1999). Tais
perspectivas analíticas, mesmo divergentes, compartilham a suposição da
especificidade ontológica do social, de tal modo que o processo cognitivo é
visto como fenômeno histórico, social e culturalmente situado, tanto em termos
políticos (Bourdieu 1982; Lahire 2003), quanto na prática social cotidiana
(Lave 1988, 1996; Lave e Wenger 1991; Toren 1993, 2003). Isso implica atenção
ao modo como jovens, crianças e adultos constituímos nosso conhecimento no
mundo, como o processamos e para qual direção movimentamos a aprendizagem.</p>

    <p>Essa atenção ao modo como constituímos nosso
conhecimento é também um recurso epistemológico e metodológico para transpor
determinismos sociológicos dos quais às vezes participamos quando nos indagamos
sobre os &shy;diferentes problemas envolvidos na educação, perceptíveis desde
as promessas de “formar cidadão” e promover a “emancipação humana” até as
políticas públicas de educação no país.<a style='mso-footnote-id:ftn9'
href="#_ftn9" name="_ftnref9" title=""><sup>[9]</sup></a>
Como apontou Lahire (2003), as teorias da reprodução social colocaram “a escola
no cerne dos processos de reprodução das desigualdades sociais, por um lado, e
num espaço político que tem fé no papel democrático da escola, por outro. Ao
analisarem as funções sociais da escola a partir da questão da igualdade e da
desigualdade das chances, os sociólogos […] contribuíram para a construção social
e a manutenção de um espaço político fundado sobre a crença em valores de
igualdade” (Lahire 2003: 987). Se esse princípio da igualdade de chances pode
ser decifrado e criticado como um discurso que justifica as funções da escola,
obscurecendo o fato de que ela pode constituir um dos fatores do surgimento e
da permanência de mecanismos de seleção social (pelo diploma e acesso às
posições profissionais privilegiadas), não seria porque esse modo de pensar
deixa de fora a inescapável relação com as práticas sociais dos alunos no
contexto em que elas se desenvolvem, assim reiterando a legitimidade da cultura
escolar e de todo o sistema de oposições apontado por Bourdieu (1979)?<a
style='mso-footnote-id:ftn10' href="#_ftn10" name="_ftnref10" title=""><sup>[10]</sup></a></p>

    <p>Outro efeito da teorização do ensino e da
aprendizagem que pode ser observado nas teorias da reprodução social aparece
nas propostas da antropologia da educação norte-americana, criticadas por
McDermott e Varenne (1995). Esses autores evidenciaram um tipo de determinismo
social anterior à escola, pois as crianças e os jovens são vistos como parte de
grupos socialmente desiguais ou de uma minoria cultural, condições limitadoras
da aprendizagem. Trata-se de um senso comum social e sociológico que atribui as
dificuldades de aprendizagem à privação (pobreza) e à diferença cultural, de
modo que a escola pode tornar-se uma forma de honrar a vida daqueles que foram
e são impedidos ou tiveram dificuldades para nela permanecer. Ocorre então uma
insuspeita e delicada tensão entre essas duas abordagens (a da pobreza e a da
diferença) porque ser pobre e destituído pode ser uma das formas comuns de
existir dentro de uma estrutura social, no primeiro caso, e de fazer parte da
cultura, no segundo. O contexto e a cultura tornam-se empecilhos para os
esforços para ultrapassar as dificuldades de aprendizagem por parte dos
professores, enredados por essas racionalizações que subscrevem a aprendizagem
à desigualdade e à diferença na sociedade, reiterando, assim, a reprodução
social das desigualdades. Em uma direção oposta, mas produzindo as mesmas
consequências, está, primeiro, a poderosa e multissituada produção de
identidades na escola como comunidades de prática nos EUA, que pode resultar, por
exemplo, na produção da racialização, como mostrou Jean Lave (1996). Segundo,
mas igualmente poderosa em seus efeitos, a produção de divisões de classe e da
desigualdade de gêneros. Em analogia com os aprendizes de alfaiate da Libéria
que a autora estudou, as crianças e os jovens norte-americanos estão
aprendendo, na prática, as divisões sociais e as diferenças de gênero da
formação social na qual eles vivem suas vidas (Lave 1996).</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As abordagens da escola que a concebem como um
modo de reprodução social, embora analiticamente diferentes mas próximas em
suas consequências, têm também em comum um postulado implícito, que é a
separação entre as crianças que devem aprender e os adultos que devem ensinar,
razão pela qual a aprendizagem é entendida como parte do processo de
socialização e de inculcação cultural. Uma abordagem antropológica consistente
com a ontologia social da cognição não concebe as crianças e os jovens como
grupos separados do mundo adulto, mas como interlocutores de um processo de
aprendizagem em suas relações. Como afirma Christina Toren (1993), a infância
não é uma etapa da vida isolada da vida adulta, mas se constitui como um espaço
de intersubjetividades de modo que o processo cognitivo depende da inserção da
criança no mundo e do conhecimento sobre ele obtido por meio das relações
sociais que as crianças estabelecem com outros membros da comunidade (outras
crianças e adultos). Essa autora chama a atenção para a falta de interesse dos
antropólogos contemporâneos pelas crianças, cuja raiz pode estar, segundo ela,
na ideia de que o fim da socialização é conhecido (Toren 1993). É a falta de
atenção à criança como interlocutora entre adultos que induz à baixa
consideração das experiências intersubjetivas de aprendizagem, como vem
chamando a atenção Jean Lave, ao supor que a socialização é um processo
contínuo. Essa autora propõe uma antropologia cognitiva da aprendizagem como um
problema relacional na vida social, cujos participantes interagem uns com os
outros como condição e precondição de sua existência, motivo pelo qual não faz
sentido pensá-la como uma questão que diz respeito apenas às crianças e aos
jovens.</p>

    <p>Segundo Lave (1988: 1),<a style='mso-footnote-id:
ftn11' href="#_ftn11" name="_ftnref11" title=""><sup>[11]</sup></a>
a cognição é um fenômeno social complexo, que pode ser observado na prática
cotidiana, sendo distribuída entre mente, corpo, atividade e ambientes
culturalmente organizados. A cognição é um <i>nexus</i> de relações entre a
mente em ação e o mundo no qual ela atua. Como consequência, a aprendizagem é
histórica e contextual. É um aspecto das atividades em que as pessoas são
constituídas e se constituem em comunidades de práticas (Lave 2011: 19).<a
style='mso-footnote-id:ftn12' href="#_ftn12" name="_ftnref12" title=""><sup>[12]</sup></a> Como tentarei evidenciar, a
aprendizagem é situada,<a style='mso-footnote-id:ftn13' href="#_ftn13"
name="_ftnref13" title=""><sup>[13]</sup></a> está embebida na prática e
resulta de uma interação social de componentes que incorporam as desigualdades
sociais, os processos classificatórios e os comportamentos adquiridos.</p>

    <p>Conceber a aprendizagem como uma maneira de
“estar” no mundo e como compreensão pela prática supõe igualmente uma
compreensão da linguagem como prática sócio-historicamente situada (Bakhtin
2003) e tem inúmeras repercussões para o campo da linguística aplicada, da
sociolinguística e para os educadores em geral. Moita Lopes e Rojo (2004)
demonstram como é importante pensar na natureza construcionista,
sociointeracional e situada da linguagem, trazendo à tona o fato de que a
linguagem não ocorre em um vácuo social. Portanto, segundo eles, textos orais e
escritos não têm sentidos em si mesmos, do mesmo modo que crianças e jovens aí
são compreendidos como sujeitos ativos, interagindo com esses textos como
práticas sociais.</p>

    <p>Tais pressupostos teóricos sobre a
aprendizagem, trazidos por Jean Lave, e sobre a linguagem, trazidos por Bakhtin,
como se pode observar, não presumem um processo de segregação ou de isolamento
da educação escolar da criança, modo pelo qual nossas escolas estão
organizadas, e isso nos devolve ao ponto de partida da nossa experiência
etnográfica. Como propôs Qvortrup (2010:&nbsp;640), a escolarização da infância
é também um resultado das demandas provenientes de uma economia e de um sistema
de governo em transformação, sob determinadas circunstâncias, como as das
políticas públicas nacionais. Em outras palavras, a infância, em termos
estruturais, assume formas diferentes como resultado das transformações sociais
(Qvortrup 2010:&nbsp;640-641).</p>

    <p>Contudo, se a escolarização da infância é
parte de mudanças que aconteceram devido às demandas na economia e no sistema
de governo, isso não a torna menos “comunidade de prática”, isto é, expressiva
das interações entre grupos posicionados diferentemente no contexto.<a
style='mso-footnote-id:ftn14' href="#_ftn14" name="_ftnref14" title=""><sup>[14]</sup></a> Ao contrário, como aqui
pretendo mostrar, a interação tornou-se condição da nossa experiência na
escola: ao responder a essas demandas como pesquisadores, convertendo-nos no
mesmo movimento em gestores de um programa nacional, confrontamo-nos, como
interlocutores, com outros modos de enfrentar os mesmos problemas, com
interesses e desejos divergentes; com as particularidades de alunos, moradores
e professores em situações nas quais somos também participantes. É como
interlocutora, procurando reter o momento do diálogo e da conversa que,
primeiro, apresentarei a escola e como chegamos a ela. Depois, menciono as
condições de possibilidade da experiência etnográfica implicada na
&shy;aprendizagem, com ênfase nas considerações mais significativas que
resultaram dessa experiência e evidenciando um evento aglutinador que
“desentranhou” a escola de si mesma para abranger o bairro e a cidade.</p></font>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">Conduzidos pelo Observatório da Educação para a escola</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>Inicio situando a escola onde ocorreu essa
experiência. Localizada no bairro Cidade Nova, periférico à cidade de Foz do
Iguaçu, na fronteira do Brasil com o Paraguai e a Argentina, é uma instituição
estadual que atende alunos do 6.º ao 9.º&nbsp;ano do ensino fundamental e do
ensino médio. O bairro foi criado por meio de uma disputa com o poder político
local durante um processo de desapropriação urbana ordenada pela Prefeitura
Municipal. Os caminhos que nos levaram à escola são os das políticas públicas
que financiam programas para escolas com baixa avaliação no IDEB (índice de
desenvolvimento da educação básica),<a style='mso-footnote-id:ftn15'
href="#_ftn15" name="_ftnref15" title=""><sup>[15]</sup></a>
dentre eles o Observatório da Educação, coordenado nacionalmente pelo
Ministério de Educação (MEC) e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
(Capes). As políticas de educação no Brasil avançaram depois da Constituição de
1988 e da aprovação das diretrizes a ela direcionadas. Embora com avanços para
a educação inclusiva e democratização do acesso, essas políticas vêm afirmando
as “parcerias” com os setores público e privado&nbsp;<a style='mso-footnote-id:ftn16'
href="#_ftn16" name="_ftnref16" title=""><sup>[16]</sup></a> e penetrando, de forma ampla, nas instituições educativas públicas,<a
style='mso-footnote-id:ftn17' href="#_ftn17" name="_ftnref17" title=""><sup>[17]</sup></a> abrangendo desde propostas
para o conteúdo do conhecimento até os métodos para sua produção ou
socialização. Paralelamente, a ênfase na avaliação verificada no Plano Nacional
de Educação para o decênio 2011-2020 induz as administrações estaduais e
municipais a atentarem para esses parâmetros, descentralizando as ações nas
quais se situa nossa experiência etnográfica.</p>

    <p>As diretrizes do Observatório da Educação
entendem a educação como uma realidade inconteste, passível de ser
“fortalecida”, “ampliada” e instrumentalizada por meio de produções acadêmicas,
da formação de recursos humanos (docentes, gestores, avaliadores) e da criação
e manutenção de programas interdisciplinares. Simultaneamente, elas visam a um
sistema educacional eficiente para o ensino fundamental e médio que acompanhe
os padrões de avaliação nacional e internacional, como o PISA e a Prova Brasil antes
mencionados.</p>

    <p>Conduzido por essas referências, o programa
Observatório da Educação, proposto pela coordenação local (professores de um
mestrado interdisciplinar e da graduação em Letras), foi iniciado em 2011 e
tinha como objetivo a formação de professores do ensino fundamental e médio do
Colégio Estadual Ipê Roxo, em Foz do Iguaçu. Integrando a pesquisa, o ensino e
a extensão, o programa iniciou ministrando minicursos e organizando grupos de
estudos, cujos temas eram decididos conjuntamente. Paralelamente ocorriam
atividades de pesquisa dos docentes universitários e estágios da graduação. Em
seu início, o grupo era constituído por professores da escola, e por
professores, estudantes e estagiários de graduação e pós-graduação da
universidade. Depois, quando nos tornamos mais próximos e menos intrusos, e à
medida que o trabalho se desenvolvia, alunos, pais e moradores do bairro
integraram as atividades.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Por causa dos caminhos que nos conduziram à
escola, encontramos as dificuldades comuns de qualquer entrada no campo
etnográfico e entre elas estava a relutância, por parte dos professores, em
participar do programa. Tal relutância era justificada pela aceitação do
fracasso escolar como um dado aceito e incontestável, independentemente deles
mesmos como professores, que assim reiteravam o senso comum sociológico das
teorias da reprodução social da desigualdade social e das diferenças culturais,
contra eles mesmos. Uma das razões para isso pode ser encontrada nas profundas
ressonâncias das ideias associadas à localização da escola em um bairro
periférico. Isto é, o bairro é caracterizado por moradores de Foz do Iguaçu
como perigoso, de um ponto de vista exterior e estigmatizante, percepção
advinda da construção ativa e persistente de um processo de exclusão social,
cristalizada em identificações negativas. No entanto, para os primeiros
moradores, a denominação Cidade Nova caracterizava os sonhos e a esperança de
“uma vida nova e melhor”.<a style='mso-footnote-id:ftn18' href="#_ftn18"
name="_ftnref18" title=""><sup>[18]</sup></a> Ele foi criado em 1998 por
meio de um programa de “desfavelamento” da região central da cidade.
Inicialmente, a prefeitura pretendia instalar as famílias em uma vila rural
distante, mas um processo de mobilização e negociação desses moradores com os
representantes da prefeitura e do governo estadual fez com que o assentamento
fosse transferido para o local atual.</p>

    <p>O bairro cresceu e, longe do centro da cidade,
não tinha transporte público adequado para viabilizar o deslocamento de jovens
e crianças para a escola. Foi então criada pelo governo estadual a escola de
ensino fundamental e médio, em 2002, cujo nome, Ipê Roxo, ao contrário dos da
maioria da cidade que têm nomes de personalidades públicas ou artísticas, foi
uma homenagem à árvore que é símbolo de Foz do Iguaçu.</p>

    <p>O sonho realizado de ter casa própria está nos
arquivos de matrícula da escola. Em um levantamento aleatório de dados de 60
alunos, observou-se que 50 residem em casa própria, seis em casa cedida e três
em casa alugada. Nas fichas de matrícula também consta informação sobre a renda
familiar e, desse total, 38 alunos têm renda familiar de até um salário mínimo;
20, de um a três; e dois têm renda familiar acima de três salários mínimos.</p>

    <p>Buscar manter a distância o bairro e seus
moradores, contudo, pode ser resultado de um desdobramento que envolve a cidade
geopoliticamente, como vêm mostrando pesquisadores por meio do estudo de vários
temas que a afetam em função de sua posição geográfica (cf.&nbsp;Catta 2011;
Cardin 2011; Santos 2012; Albuquerque 2010). Trata-se de uma experiência
coletiva singular, por a cidade estar localizada na fronteira entre três
países, mas particularmente vivida pelo bairro, associado às atividades dos
moradores envolvidos com a zona de livre comércio com o Paraguai. Assim, apesar
de dispor de uma boa infraestrutura urbana, com avenidas largas, ruas com
calçamento, iluminação e todos os serviços básicos de atendimento à comunidade
&#8211;&nbsp;como disse um dos moradores, “só faltam uma loja lotérica para
fazer pagamentos e um posto de gasolina”&nbsp;&#8211;, o bairro continua sendo
percebido como perigoso, tanto pelo passado de seus moradores vivido em
“favela” quanto por ser identificado como um lugar de atividades “ilícitas”,
isto é, ligadas ao contrabando de mercadorias no intenso comércio
transfronteiriço, e principalmente com Ciudad del Este, onde parte dos
moradores do bairro encontra fonte de subsistência, com o transporte ilegal de
mercadorias. As mulheres frequentemente trabalham como faxineiras, domésticas e
comerciárias e há também ocupações temporárias no setor de serviços turísticos,
porque as Cataratas do Iguaçu fazem da cidade um dos polos de atração turística
mais importantes no país. Assim, pode-se dizer que há falta de emprego, mas não
falta de atividade remunerada, mesmo que incerta e precária. Recentemente, por
causa da proximidade com o Paraguai, o bairro tem recebido famílias de
“brasiguaios” expulsos pelos conflitos e lutas pela posse da terra nesse país.<a
style='mso-footnote-id:ftn19' href="#_ftn19" name="_ftnref19" title=""><sup>[19]</sup></a></p>

    <p>Do ponto de vista dos professores, expresso no
documento da escola denominado <i>Projeto Político Pedagógico</i> (PPP 2002) &#8211;&nbsp;no
qual eles expõem as intenções políticas e programáticas do ensino&nbsp;&#8211;,
por causa da localização, não apenas social, mas também simbólica do bairro, a
escola possui uma alta rotatividade de professores e pedagogos. Como ouvimos
durante uma reunião, ser professor no Ipê Roxo significa ser “rebaixado” na
carreira. Isso não impede, contudo, que todos, inclusive funcionários e
colaboradores diretos e indiretos, estejam integrados para “fazer valer a
missão da escola”. O Projeto Político Pedagógico reitera as consequências desse
“isolamento” simbólico do bairro, feito da história do “desfavelamento” e
percebido pelos moradores da cidade como um lugar perigoso, de atividades
ilícitas e até mesmo de descontrole social, imagens comumente associadas às
fronteiras geopolíticas. O mesmo documento descreve uma pesquisa feita no
colégio, cujo resultado apontou que “a maioria dos alunos ficam sozinhos em
casa, sem um responsável para acompanhar e cobrar tarefas escolares. Na maioria
das vezes, por estarem sozinhos acabam se envolvendo com más companhias e até
mesmo se envolvendo em atividades ilícitas. E assim, seu desenvolvimento e a
sua formação acabam sendo prejudicados” (PPP 2002). Parte dessa constatação provém de uma
percepção comum, reiterada pelos professores em diferentes momentos, de que as
famílias não só deixam os filhos sozinhos, como também são desestruturadas e,
por isso, não constituem referências de educação e de disciplina.<a
style='mso-footnote-id:ftn20' href="#_ftn20" name="_ftnref20" title=""><sup>[20]</sup></a> No levantamento feito nas
fichas de matrícula, acima referido, no campo do formulário onde se deve
indicar o responsável pelo aluno, dos 60 alunos, 40 têm como responsável a mãe,
11 deles têm como responsável o pai e 9 têm como responsáveis seus avós ou
outros. No Projeto Político Pedagógico lê-se a descrição do perfil do bairro
como carente e vulnerável, estando os alunos em situações de risco. A escola é
vista como um ponto para onde convergem as problemáticas familiares, pois os
pais delegam a ela a responsabilidade de educar os seus filhos, na percepção
dos professores e pedagogos, expressa no documento (PPP 2002). Tal situação interfere
de forma direta no processo de aprendizagem, não só pela adoção implícita
daquele senso comum sociológico que vincula as dificuldades de aprendizagem à
privação e à cultura, que comprometem a prática pedagógica, mas também pela
falta de acompanhamento da vida escolar por parte das famílias. Tudo isso,
segundo o documento, influencia nesta escola os grandes índices de reprovação e
evasão escolar. Segundo os professores, há casos de alunos que frequentam a escola
refazendo a mesma série por até três anos consecutivos, com graves problemas de
adaptação e de indisciplina na sala de aula.</p>

    <p>Diante desses “problemas sociais”, categoria
que sintetiza, nesse campo etnográfico, as diversas causas para a evasão, a
reprovação escolar e o baixo índice de avaliação dos alunos nos exames
nacionais, como os professores tentam resolver a equação que subscreve a
aprendizagem a esse contexto específico? Como enfrentam o dilema das
contradições trazidas por critérios universalizantes que pressupõem um
conhecimento abstrato e geral, e a &shy;resolução de problemas cognitivos nesse
processo de aprendizagem condicionado pelas circunstâncias do bairro?</p>

    <p>Não é por acaso que o bairro, durante a
pesquisa etnográfica, foi objeto de uma proposta de construção da sua memória
feita pelos professores &#8211; por sua história e por sua posição no espaço
urbano e mantida a distância simbolicamente pelos moradores de Foz do Iguaçu,
que impõe a estes uma permanente indignidade por esses princípios de diferenciação
social, buscando mantê-los afastados de toda forma de legitimidade social em
uma série de domínios. Essa proposta constituiu-se em um ponto de inflexão
importante, porque acabou se revelando como um dos modos possíveis pelos quais
professores, alunos, moradores e pesquisadores passamos a nos ver como
indissociáveis desse processo de luta simbólica e política, participantes das
arenas envolvidas no processo de classificação e de diferenciação social,
dentro do qual a escola é parte inseparável. A proposta de “construir” a
memória do bairro, identificada como “Projeto Memória”, revelou-se uma
experiência etnográfica compartilhada, dando lugar a uma aprendizagem singular
e situada.</p></font>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">O Projeto Memória: uma experiência etnográfica compartilhada
como aprendizagem</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>A proposta feita pelos professores durante os
grupos de discussão, que depois passou a ser identificada por todos como
Projeto Memória, configurou-se em um ponto de inflexão fundamental,
redirecionando nossa experiência etnográfica e nos tornando uma “comunidade de
conhecedores” e uma “comunidade de prática”. Atuando como princípio e conteúdo
da efetividade da aprendizagem, o desenvolvimento do Projeto Memória ligou
intrinsecamente diversas atividades de professores, alunos, pais, moradores e pesquisadores,
incluiu o bairro e a escola no tempo da memória e do vivido nas interações de
todos os agentes envolvidos. Como foi possível a efetividade da aprendizagem se
fazer como experiência coletiva?</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>É importante mencionar que a proposta do
Projeto Memória definiu-se pelos professores da escola depois de encontros
realizados uma vez por mês, durante um ano, sob a forma de grupos de trabalhos
para a formação de professores. Do ponto de vista da aprendizagem, adotou-se
como estratégia téorico-metodológica, primeiro, a abordagem interdisciplinar,
unindo professores de diferentes áreas do conhecimento em atividades conjuntas
complementares, para evidenciar as inter-relações constitutivas desses
conhecimentos e, depois, inspirados inicialmente nas teorias de Bakhtin para
“construir” a memória do bairro, os professores da escola sugeriram os gêneros
discursivos como propôs esse autor. Gêneros de discurso são “tipos
relativamente estáveis de enunciados” (Bakhtin 2003: 279), que incluem desde os
diálogos cotidianos até as enunciações da vida pública, institucional,
artística, científica e filosófica. Os gêneros não são adquiridos em manuais,
mas nos processos interativos. Para começar o levantamento do inventário da
história do bairro e da escola, o relato, o “causo”, a entrevista, a receita
culinária, o convite, a carta de agradecimento, a literatura de cordel, a peça
de teatro, a autobiografia e biografia efetivaram-se como práticas de leitura,
escrita e oralidade, desenvolvidas conjuntamente pelos professores das diferentes
disciplinas, considerando o caráter sociocomunicativo desses diferentes gêneros
do discurso.</p>

    <p>Para iniciar a história do bairro, alunos dos
7.º, 8.º e 9.º&nbsp;anos do ensino fundamental e do 1.º&nbsp;ano do ensino
médio, com os professores dessas séries, buscaram, junto aos moradores,
documentos, artigos de jornais, fotos que registravam diferentes momentos da
construção do bairro e da construção da escola. Trouxeram fotos antigas,
retratando o terreno vazio onde posteriormente foram construídas as casas e o colégio.
Fizeram um levantamento dos moradores mais antigos, bem como daqueles que
tiveram um papel de liderança nas reivindicações por melhorias no bairro, e
identificaram os músicos e os poetas, para serem posteriormente entrevistados.
Percorreram as ruas do bairro, para registrar, em fotos, o espaço ocupado pelo
bairro e se surpreenderam com lugares que não conheciam, embora o bairro seja
relativamente pequeno e recente. Nesse processo de “reconhecimento” do lugar da
moradia, encontraram um jornal em funcionamento, uma biblioteca pública
organizada e mantida por voluntários do próprio bairro, um grupo de <i>hap</i>,<i>
</i>o Hap Cidade Nova, do qual participam alguns alunos do colégio.</p>

    <p>Cada etapa dessa experiência de pesquisa
conjunta era retomada e compartilhada na sala de aula e nas reuniões. Com a
utilização da “TV Pendrive”&nbsp;<a
style='mso-footnote-id:ftn21' href="#_ftn21" name="_ftnref21" title=""><sup>[21]</sup></a> na sala de aula, identificavam suas casas, as casas dos seus colegas, o
comércio, as igrejas, as escolas, a creche, o “postinho” (o posto de
atendimento à saúde), o local de funcionamento da Pastoral da Criança onde
muitos fizeram a catequese, o clube esportivo e a casinha sobre a árvore de que
eles tanto gostavam. Compartilhar os “achados” foi reapropriar-se do bairro por
meio de uma identificação ao mesmo tempo próxima e distante. Um dos alunos
perguntou “como conseguimos fazer tudo ficar tão bonito?” A professora comentou
que, provavelmente, todos estavam “começando a ver o que não enxergavam. Se, no
início a maioria dos alunos se mostravam reticentes e desmotivados, depois
passaram a se envolver cada vez mais e, nas pesquisas seguintes, saíam na
frente, conversando com moradores sobre o projeto, pedindo permissão para
fotografar e registrar todos os momentos, sendo bem-recebidos por eles. A
&shy;partir desse envolvimento intenso na experiência, viam-se como agentes e
coconstrutores da própria história, (re)conhecendo o processo de construção
coletiva da memória do bairro e da escola como conquistas inseparáveis de
todos.</p>

    <p>Esse processo possibilitou a efetividade da
aprendizagem de forma social e culturalmente situada na prática cotidiana,
obtida pela coconstrução do conhecimento por meio dos gêneros discursivos.
Apresentarei aqui apenas dois dos gêneros discursivos em nossa experiência
etnográfica. O gênero autobiografia, elaborado por meio de redações dos alunos,
por dar uma ideia de parte da experiência coletiva vivida no bairro, e o gênero
teatro. A escrita, preparação e encenação da peça de teatro foi tanto uma forma
sintética de totalizar a história do bairro e da escola, quanto condensação de
diversos gêneros de discursos utilizados para a construção do Projeto Memória.
Ressalto, porém, que todos os gêneros discursivos propiciaram formas de
autoentendimento e de reflexividade dos alunos e de todos os participantes. O
gênero discursivo receita culinária, por exemplo, embora estivesse ligado à
preocupação com as medidas matemáticas, revelou-se como uma prática
significativa. Redigir a receita permitiu ver, de forma reflexiva, os hábitos
alimentares como veículos de emoção, pois o comportamento relativo à comida
estava diretamente ligado à identidade de cada aluno, evidenciando a
afetividade de suas relações no ambiente familiar: as receitas estavam
intimamente ligadas aos pratos preferidos pelos alunos, às habilidades
especiais de um dos membros da família em fazer um prato específico, às datas
comemorativas, quando são feitos pratos especiais, como aniversários, Natal e
Dia dos Pais. As receitas explicitaram o ato de comer como sentimento
relacional e duradouro, mostrando as relações afetivas dos alunos em seu
convívio mais íntimo.</p>

    <p>O convite feito aos jovens pelos professores
para escreverem a autobiografia causou estranhamento porque esses gêneros,
segundo eles, são apenas para “pessoas importantes”. Uma das alunas argumentou
não ser “muito velha por isso não tenho muitas histórias para contar”
(Indianara). A autobiografia revelou-se um dos mais pregnantes dentre os outros
para apreender a aprendizagem como situada e como comunidade de prática.
Privilegio aqui 21 autobiografias feitas por alunos das turmas de 8.º e
9.º&nbsp;anos, jovens com a idade variando entre 12 e 14 anos, momento
circunstancial vivido por interações sociais mais diversificadas e dotadas de
muitas outras fontes de informação (como o acesso à TV e à Internet) que permitem o
exercício imaginativo de projeção para a vida futura.<a style='mso-footnote-id:
ftn22' href="#_ftn22" name="_ftnref22" title=""><sup>[22]</sup></a></p>

    <p>Feitas por meio de redações, as autobiografias
dos jovens evidenciam o exercício da imaginação sobre o futuro mediado por suas
relações com os outros, desde o nascimento até a rotina vivida pela escola,
porque inseridos em um processo de construção, manutenção e modificação de
significados da experiência coletiva no bairro. Sob esse prisma, a posição
centrada em si mesma, trazida pelo gênero autobiografia, é relativizada pelo
nascimento, entrada no movimento da vida, e pela interação com os pais,
parentes próximos, professores e amigos.</p>

    <p>Em todas as redações o ponto de partida é a
data do nascimento, mas as circunstâncias que envolveram o nascimento
identificam interações existentes para o acolhimento deles. Por exemplo: “a mãe
ficou contente com a gravidez” [Ana]; “Ela [a mãe], contou-me que no dia do meu
nascimento estava em casa. Meu pai estava cansado e no momento das contrações
ele estava dormindo…” [Everton]; “Minha mãe estava ansiosa com a minha chegada.
Meu pai estava viajando e não acreditou que eu era uma menininha […]” [Gisele].
As circunstâncias do nascimento indicam ainda a entrada no convívio com irmãos
e nas interações em termos hierárquicos pela ordem do nascimento. Dizer com
quem moram (normalmente com os pais), quantos irmãos têm, quantos morreram, se
é mais velho ou mais novo é inseparável da apresentação de si e da própria
identidade profundamente relacional.</p>

    <p>As condições vividas pelos moradores no bairro
são elaboradas pelos jovens no modo como compreendem a realidade cotidiana por
meio da sua rotina. Frequentar a escola faz parte dessa rotina, ao lado das
brincadeiras com os amigos e dos jogos na Internet, e da ajuda nos afazeres
domésticos, principalmente no caso das meninas. A rotina vivida é um <i>continuum</i>
do trabalho dos pais e dos adultos e não aparece como um contraponto entre um
mundo cotidiano, íntimo, e um mundo público. Assim, quando falam dos pais,
falam sobretudo dos meios de sobrevivência. Falar da sobrevivência é falar mais
do trabalho do que da profissão. Isto porque falar do trabalho expressa as
formas de cuidado com eles e com os outros: “minha mãe trabalha, meu pai não”,
“minha mãe é dona de casa”. O tipo de ocupação exercida pelos pais não é
explicitado, mas eles são qualificados como “trabalhador”, “guerreiro”,
“batalhador”. Tais categorias talvez indiquem o significado problemático que o
trabalho pode ter no contexto de circulação de mercadorias na fronteira, embora
alguns alunos indiquem a profissão dos pais como dona de casa, secretário,
marceneiro, catador de lixo, etc.</p>

    <p>Finalmente, como o exercício imaginativo
desses jovens &#8211;&nbsp;que não se veem velhos o suficiente para falarem de
si mesmos, mas não tão crianças que não possam falar de um passado de “quando
eram pequenos”&nbsp;&#8211; é mediado por suas interações com os outros, a
projeção do futuro é também um exercício de compreensão das pessoas e das
interações sociais no bairro. Assim, tal como para os seus pais, o trabalho é a
realização de si mesmos como adultos no futuro, mas, diferentes deles, querem
ser advogados, policiais, engenheiros ou “professora para ajudar as crianças a
ser alguém na vida” [Amanda]. “Ser alguém na vida” é uma categoria recorrente
entre os jovens alunos e parece indicar tanto a capacidade de manter a própria
sobrevivência quanto ter uma profissão especializada, capaz de cuidar e
assegurar as relações de parentesco próximas. Daí a importância da escola vista
quase como um único meio de formação profissional e de ascensão social. Algo
interessante a ser pensado mais detidamente é a recorrência do sonho de ser
advogado, que pode ser interpretado como uma profissão necessária para defesa
dos direitos em um bairro em que o legítimo e o ilegal se confundem pelo
comércio fronteiriço. As atividades de transportar mercadorias além da cota
permitida ou proibidas, embora sejam um trabalho ilegal, são vistas como
legítimas, condição existencial que insere muitos em uma zona de indeterminação
em que a cidadania brasileira é, no mesmo movimento, reconhecida mas colocada
em suspensão quando flagrados pelo envolvimento com essas atividades ilícitas,
crimes caracterizados como contrabando e descaminho. Outras interpretações
possíveis são que o sonho de ser advogado pode ser, em parte, devido à vontade
de ingressar em uma carreira considerada prestigiada por altos cargos e
privilégios no Brasil atual, às expectativas trazidas pelas ressonâncias de um
debate intensificado no país a respeito dos direitos das minorias e à
visibilidade crescente do Direito nas investigações da corrupção na política.
Nesse sentido, a imaginação sobre o futuro explicita o processo pelo qual o
significado de “ser alguém na vida” está em transformação nas mesmas atividades
em que eles se mantêm, como filhos de “trabalhadores”, “batalhadores” e
“guerreiros”.</p>

    <p>Se as autobiografias evidenciaram a
experiência dos alunos mediada por suas relações com os outros, dentro e fora
da escola, o gênero teatro, ao incluir outros gêneros de discurso em sua
preparação e ao encenar a história do bairro e da escola, reproduziu a totalidade
da experiência etnográfica permitida pela inflexão trazida pela proposição e
realização do Projeto Memória. A professora e os alunos dos primeiros anos do
ensino médio escreveram juntos e encenaram um texto dramático para contar a
história do bairro Cidade Nova, a ser apresentado na “Semana Interativa”. A
Semana Interativa é um evento importante, instituído pelo calendário escolar
regular, quando a escola interrompe a sua rotina para interagir como os pais e
moradores mostrando o que se vive e o que se faz na escola. Todas as salas de
aulas ficam abertas nos três turnos de funcionamento com a exposição de
diferentes tipos de trabalhos feitos por alunos. Na Semana Interativa do ano
letivo em que ocorreu o Projeto Memória, foram expostos os cadernos de receitas,
as cartas convites e cartas de agradecimento, o livreto da literatura de
cordel, as fotografias antigas e recentes e os jornais do bairro, como também
vídeos com as gravações das entrevistas e das biografias dos moradores. Um
desses vídeos, com a biografia de um dos primeiros moradores feita por uma das
alunas do 8.º&nbsp;ano, Ana Gabriela Dias, foi publicado pelo blogue CNI (Cidade Nova Informa),
compartilhado no YouTube.<a style='mso-footnote-id:ftn23' href="#_ftn23"
name="_ftnref23" title=""><sup>[23]</sup></a></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>À medida que trabalhavam com a parte técnica
de montagem da peça compreendendo melhor os elementos necessários para a
encenação, com a colaboração de uma estagiária, foi iniciada a escrita. Para a
escrita da peça, todos os dados das pesquisas do Projeto Memória foram
utilizados, como as entrevistas, relatos orais e escritos dos moradores, além
dos jornais do bairro e da cidade, de documentos oficiais da Cohafoz (Companhia
de Habitação de Foz do Iguaçu). Utilizou-se também, como fonte, um documentário
sobre as Cataratas do Iguaçu, em que se destacavam os moradores mais antigos.
Durante a escrita, a professora, há 11 anos na escola, utilizou uma linguagem
mais formal, mas os alunos levantaram as seguintes perguntas: “Professora, os
moradores daqui não falam assim não, eles não tiveram escolaridade; nós, os
filhos, que estamos estudando, é que falamos assim e se temos que representar a
voz do povo do Cidade Nova, essa voz do texto não se parece com eles”. O texto
foi modificado várias vezes, o que rendeu noites de reescritas, discussões
divertidas, e resultou na apresentação da peça, encenada nos três turnos
&#8211;&nbsp;matutino, vespertino e noturno&nbsp;&#8211; do dia 28 de agosto de
2012, na Semana Interativa Comunidade Escola. O poema abaixo compõe o final da
peça e narra a escola e o bairro como conquistas de um processo de luta simbólica
e política:</p>

    <blockquote>“Em cada consciência, uma lembrança.    <br>
Cidade Nova, um sonho, uma esperança, uma nova chance…    <br>
A hora não é de sofrer, não deixa a tristeza saber.    <br>
A vida ensina, a escola da vida foi assim.    <br>
Sonhos não envelhecem.    <br>
Homens que aqui ocuparam se resumiam em sonhos.    <br>
O sonho da casa própria!    <br>
Um passo atrás do outro, um tijolo que se erguia, uma mão amiga    <br>
Uma gente querida, numa nova vila, vida, paisagem.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>
Cidade Nova, memória viva hoje e sempre!” [Patrícia de Souza, professora]</blockquote>

    <p>Como a imagem de um fractal, em si mesmo parte
que reproduz todas as partes do todo, impedindo uma diferenciação entre a parte
e o todo pela autossimilaridade, a encenação da peça expôs dupla e
sinteticamente o cenário de luta pela urbanização e pela construção da escola
como um acontecimento publicamente reconhecido, assim tornado explícito e sem
nenhum subentendido. A política local emergiu nas encenações das reuniões em
pequenos grupos no bairro, em assembleias de todos os moradores e de seus
líderes com os representantes do poder público em torno das reivindicações do
bairro, mas incluiu falas dos atores sobre o idealismo, a capacidade altruísta
e o compromisso dos moradores. Digno de interesse é o simbolismo da “memória do
bairro” feito pelo jornal escrito: a passagem do tempo transcorrido era encenada
com a leitura em voz alta das manchetes dos jornais da época enquanto o cenário
ia sendo mudado.</p>

    <p>A peça do teatro foi a forma sintética de
totalizar a história do bairro e da escola, pela condensação de diversos
gêneros de discursos usados na escrita do texto, pela encenação de
acontecimentos publicamente reconhecidos e pela diluição dos limites entre a
escola e o bairro. Entendido como práticas efetivas de aprendizagem, o
movimento dessa experiência deu-se pela abertura não só física, mas simbólica
dos limites da escola para os moradores do bairro. Porém, foi o movimento
inverso, da diluição dos limites da escola em direção ao bairro que construiu
um evento particular e aglutinador, ao solidificar essa totalidade da
experiência etnográfica do Projeto Memória: a pesquisa de campo. Os moradores e
os pais foram convidados para um encontro, quando os alunos fariam a realização
das entrevistas, como se verá a seguir.</p>

    <p>Em uma manhã de inverno gelada, úmida e
cinzenta, foi feita uma caminhada dos alunos, professores e pesquisadores, para
o encontro com os pais e outros moradores na chácara localizada no bairro e
cedida pelo proprietário, frequentemente utilizada pelos moradores para
momentos de lazer, sempre com autorização, e denominada pelos alunos como
“chacrinha”.</p>

    <p>As entrevistas foram marcadas com antecedência
com os moradores mais antigos e com aqueles que tiveram um papel de liderança
nas reivindicações por melhorias no bairro. Elas foram preparadas antes e o dia
do encontro é que foi designado como o “dia da pesquisa de campo”. Esse foi o
evento aglutinador de condensação dessa experiência coletiva, podendo ser
entendido como um ritual de conversão simbólica,<a style='mso-footnote-id:ftn24'
href="#_ftn24" name="_ftnref24" title=""><sup>[24]</sup></a>
de apropriação moral e política do bairro, que, em um movimento inverso, “saiu”
da escola para se espraiar no bairro e alcançar a “chacrinha”. Desde a saída da
escola havia um clima festivo, dado pelos balões coloridos. Depois de uns mil
metros de caminhada e chegando à “chacrinha”, faixas de agradecimento público
foram estendidas. Estar na “chacrinha” foi uma celebração, um momento festivo.
Ela se tornou o espaço da vivência de um momento extraordinário de
transformação da rotina escolar em que se exaltou a lembrança da luta pela
apropriação do bairro, das conquistas obtidas, como a escola e os serviços de
infraestrutura urbana.</p>

    <p>A caminhada forneceu um sentimento de
comunidade política complexa, invocando diferentes laços relacionais, mas
igualmente incorporando os efeitos contraditórios da desapropriação anterior,
presente pela lembrança da “luta” e dos “sofrimentos” dos moradores do bairro.
Simultaneamente, foi outra manifestação do espaço interativo tornado possível
pela articulação entre as políticas públicas nacionais, corporificadas no
programa Observatório da Educação, e as práticas e os saberes, tanto escolares
quanto locais. Trata-se de uma forma de conhecimento vivido como “comunidade de
prática” em que moradores, alunos, pais, professores, pesquisadores e
participantes se deram a ver e, como diria Durkheim (2000), se recriaram.</p>

    <p>Foi também uma experiência estética, no
sentido de Dewey (2010), de enriquecer a experiência imediata, tornando-a
repleta de significados. Isto é, uma experiência singular que se tornou
manifesta e claramente perceptível na caminhada ritual e no encontro festivo na
chacrinha, nos quais houve a revelação de todos como comunidade específica,
como pessoas que interagem e dialogam entre si. O “(des)entranhamento” da
escola como inseparável da conquista dos pais/moradores em suas disputas com o
poder político local, propiciado pela experiência da aprendizagem como
“comunidade de prática”, evidenciou, assim, a aprendizagem como parte da
intervenção social e política no presente vivido na escola e no bairro.</p></font>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">Considerações finais</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>Do ponto de vista da experiência coletiva
vivida na escola, podemos enfatizar três considerações importantes, descritas a
seguir.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A primeira, retomando a ideia de Roy
Wagner (2010), é que nossos modelos analógicos para a interpretação são
eles mesmos interpretados no processo de experiência coletiva, com claras
implicações para todos os envolvidos, evidenciando uma forma de conhecimento
muito mais baseada na participação e no aprendizado conjunto do que na
compreensão. Como consequência, se nossa inserção como pesquisadores nos tornou
igualmente gestores e porta-vozes de um programa nacional de educação, ao nos
confrontarmos com outros modos de enfrentar o fracasso escolar e com as
particularidades da escola e do bairro, tornamo-nos interlocutores entre
professores, alunos e moradores, compartilhando a mesma situação. Gradualmente,
no curso da experiência etnográfica, tornou-se explícito o elo que nos
transformou em uma “comunidade de conhecedores”, pelo atravessamento das
políticas educacionais do Estado unindo a universidade à escola, pela imersão
no contexto histórico e social do bairro na cidade e pela visibilidade
ontológica da política na aprendizagem, a partir da efetiva e ativa
participação dos alunos e de todos.</p>

    <p>A segunda, um desdobramento da primeira, é que
uma antropologia cognitiva da aprendizagem implica entender essa questão como
um problema relacional na vida social, cujos participantes interagem uns com os
outros como condição e precondição de sua existência. Na terminologia de Jean
Lave (1988), a aprendizagem é “compreensão pela prática”, não apenas a
transmissão de conhecimento feita por um processo de socialização e inculcação
cultural. Como tentei evidenciar, a aprendizagem é situada, está embebida na
prática e resulta de uma interação social de componentes que incorporam as
desigualdades sociais, os processos classificatórios e os comportamentos
adquiridos. Disso resulta que a proposição do Projeto Memória gerou um processo
de inflexão fundamental, pois incorporou esses componentes, visíveis nos
“problemas sociais”, categoria que sintetiza, no campo etnográfico, as diversas
causas para os baixos índices de avaliação e elevada evasão e reprovação dos
alunos: a localização espacial e simbólica do bairro, identificado como pobre,
“perigoso”, marcado pelo passado vivido em favela e pelas atividades ilícitas,
e da própria escola, marginalizada por essa localização do bairro na cidade.
Esses “problemas sociais” incorporados deixaram de ser obstáculos e se
converteram em princípios geradores de uma aprendizagem situada, ao reunir um
modo de pertencimento social singular e abranger formas de interação e de
historicização como parte do presente social, cultural e político vivido na
escola e no bairro como um todo inseparável. Embora a aprendizagem tenha tido
como tema central a memória do bairro, os vários “gêneros discursivos” (Bakhtin
2003) foram praticados por várias disciplinas dos professores participantes do
projeto (língua portuguesa, matemática, geografia, inglês e história). Todos os
gêneros discursivos implicaram a leitura, a compreensão e a estrutura
composicional que não só permitiram uma análise linguística e o desenvolvimento
de práticas pedagógicas de interesse dos pesquisadores sociolinguistas, mas,
sobretudo, permitiram aos participantes constituir-se como grupo pelas relações
de interação aí aprofundadas. Isto é, foi esse processo que possibilitou a
efetividade da aprendizagem de forma social e culturalmente situada na prática
cotidiana, pela coconstrução do conhecimento, por meio dos gêneros discursivos
(Pires-Santos <i>et al</i>. 2015). Tornou-se, assim, manifesta a dissolução de
dicotomias entre aprender e fazer, entre a diferença cultural e a desigualdade
social, entre criança e adulto, professor e aluno, forma e conteúdo da
aprendizagem. Por isso, o conhecimento é uma relação entre comunidades de
prática e participação em prática.</p>

    <p>A terceira consideração importante é que essa
experiência se constituiu como a emergência de espaços intermediários e
interativos, situados entre as formas institucionais incorporadas pelas
políticas públicas nacionais e a prática local dos muitos agentes envolvidos,
vivenciada como um surpreendente estranhamento que permitiu ver o que não se
via. Tal movimento tornou-se possível por um desentranhamento momentâneo da
escola que, de escola do bairro, passou a ser vista com outro significado, como
inseparável das conquistas dos moradores em suas disputas com o poder político
local. O resultado foi o “desentranhamento” da escola de si mesma para abranger
o bairro e a cidade e cuja razão de ser foi fruto de uma conquista política e
simbólica frente ao poder público local. Estruturante de práticas e saberes, a
aprendizagem implicou o modo de pertencimento do bairro e evidenciou múltiplos
cruzamentos de experiências diferentes e compartilháveis entre todos os
envolvidos.</p></font>
    <p>&nbsp;</p>
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(última consulta em
janeiro de 2016).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191203&pid=S0873-6561201600010000600032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>PPP &#8211;<i> Projeto Político Pedagógico</i>, 2002, elaborado pelos
professores do Colégio Ipê Roxo. Foz do Iguaçu, mimeo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191205&pid=S0873-6561201600010000600033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>QVORTRUP, Jens, 2010, “A infância enquanto categoria estrutural”, <i>Educação
e Pesquisa</i>, 36&nbsp;(2): 631-644, disponível em <a
href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1517-97022010000200014&amp;lng=en&amp;nrm=iso&amp;tlng=pt" target="_blank">http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1517-97022010000200014&amp;lng=en&amp;nrm=iso&amp;tlng=pt</a>
(última consulta em
janeiro de 2016).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191207&pid=S0873-6561201600010000600034&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>ROBERTSON, Susan, e Antonio VERGER, 2012, “A origem das parcerias público-privada na governança global da
educação”, <i>Educação e Sociedade</i>, 33&nbsp;(121): 1133-1156, disponível em
<a
href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0101-73302012000400012&amp;lng=en&amp;nrm=iso&amp;tlng=pt" target="_blank">http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0101-73302012000400012&amp;lng=en&amp;nrm=iso&amp;tlng=pt</a>
(última consulta em
janeiro de 2016).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191209&pid=S0873-6561201600010000600035&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>SANTOS, Maria Elena P. Pires, 2010, <i>Observatório da Educação. Núcleo de
Pesquisa/Extensão: Formação Continuada em Leitura, Escrita e Oralidade</i>.
Foz do Iguaçu, mimeo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191211&pid=S0873-6561201600010000600036&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>SANTOS, Maria Elena Pires, 2012, “Deslocamentos transfronteiriços e as
narrativas de identidades”, em M.&#8197;E.&#8197;P. Santos e
R.&#8197;C.&#8197;M. Silva (orgs), <i>Interdisciplinaridade e Fronteiras:
Movimentos, Identidades e Configurações</i>. Cascavel, Edunioeste, 147-173.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191213&pid=S0873-6561201600010000600037&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>SILVA, Regina Coeli Machado e, 2011, “Juventudes e dramas de moralidade:
dissonâncias nas práticas de leitura e de escrita em uma escola de Foz do
Iguaçu”, relatório CNPq, Foz do Iguaçu, mimeo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191215&pid=S0873-6561201600010000600038&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>SOUZA, Silvana Aparecida de, 2001, <i>Gestão Escolar Compartilhada:
Democracia ou Descompromisso?</i> São Paulo, Xamã Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191217&pid=S0873-6561201600010000600039&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>SOUZA, Silvana Aparecida de, 2009, “Formas renovadas de privatização da
educação no Brasil: o trabalho voluntário e a responsabilidade social da
empresa (RSE)”,
<i>Educação: Teoria e Prática</i>, 19&nbsp;(32): 73-88, disponível em <a
href="http://www.periodicos.rc.biblioteca.unesp.br/index.php/educacao/article/view/2598/2443" target="_blank">http://www.periodicos.rc.biblioteca.unesp.br/index.php/educacao/article/view/2598/2443</a>
(última consulta em
janeiro de 2016).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191219&pid=S0873-6561201600010000600040&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>SOUZA, Silvana Aparecida de, 2013, <i>Educação, Trabalho Voluntário e
“Responsabilidade Social”</i>. São Paulo, Xamã Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191221&pid=S0873-6561201600010000600041&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>STOLCKE, Verena,
1995, “Talking culture: new boundaries, new rhetorics of exclusion in Europe”, <i>Current
Anthropology</i>, 36: 1-24.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191223&pid=S0873-6561201600010000600042&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>STRATHERN, Marilyn, 2014, “O conceito de sociedade está teoricamente obsoleto?”,
em Marilyn Strathern, <i>O Efeito Etnográfico e Outros Ensaios</i>. São Paulo, Cosac Naify, 231-240.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191225&pid=S0873-6561201600010000600043&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>TOREN,
Christina, 1993, “Making history: the significance of childhood cognition for a
comparative anthropology of mind”, <i>Man</i>, 28: 461-478.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191227&pid=S0873-6561201600010000600044&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>TOREN,
Christina, 2003, “Becoming a Christian in Fiji: an ethnographic study of
ontogeny”, <i>The Journal of the Royal Anthropological Institute</i>, 9&nbsp;(4): 709-727, disponível em <a
href="http://www.jstor.org/stable/3134707" target="_blank">http://www.jstor.org/stable/3134707</a>
(última
consulta em janeiro
de 2016).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191229&pid=S0873-6561201600010000600045&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>TOREN, Christina, 2010, “A matéria da imaginação: o que podemos aprender com
as idéias das crianças fijianas sobre suas vidas como adultos”, <i>Horizontes
Antropológicos</i>, 34: 19-48.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191231&pid=S0873-6561201600010000600046&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>TOREN, Christina, 2012, “Antropologia e psicologia”, <i>Revista Brasileira
de Ciências Sociais</i>, 27&nbsp;(80): 21-36, disponível em <a
href="http://www.scielo.br/pdf/rbcsoc/v27n80/v27n80a02.pdf" target="_blank">http://www.scielo.br/pdf/rbcsoc/v27n80/v27n80a02.pdf</a>
(última consulta em
janeiro de 2016).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191233&pid=S0873-6561201600010000600047&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>WAGNER, Roy, 2010, <i>A Invenção da Cultura</i>. Rio de Janeiro, Cosac Naify.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191235&pid=S0873-6561201600010000600048&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p></font>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">NOTAS</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">


    <p><a style='mso-footnote-id:ftn1' href="#_ftnref1"
name="_ftn1" title=""><sup>[1]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Agradecemos à
Capes/Inep pelo financiamento do Observatório de Educação: Núcleo de Pesquisa/Extensão
&#8211; Formação Continuada em Leitura, Escrita e Oralidade (Santos 2010), bem
como o financiamento do projeto “Juventude e Dramas de Moralidade: Dissonâncias
nas Práticas de Leitura e de Escrita em Uma Escola de Periferia em Foz do
Iguaçu”, pelo MCTI/CNPq/MEC/Capes (Silva 2011), coordenados respectivamente por
Maria Elena Pires Santos e Regina Coeli Machado e Silva. Agradeço igualmente
aos professores, alunos e pais pelo trabalho colaborativo, à Antonádia Borges,
Diana Milstein e Maria Elena Pires Santos pelos debates instrutivos e aos
pareceristas pela leitura atenta e sugestões.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn2' href="#_ftnref2"
name="_ftn2" title=""><sup>[2]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No Brasil, a educação
pública é organizada em três esferas de competências e gestão: municipal,
estadual e federal. A educação básica é competência dos estados e municípios,
geralmente dividida entre a educação fundamental, da responsabilidade do
município até o 5.º&nbsp;ano. O ensino fundamental do 6.° ao 9.°&nbsp;ano e/ou
ensino médio é prioritariamente competência do estado, de acordo com a Lei de
Diretrizes Básicas da Educação Nacional (Lei n.°&nbsp;9394, de 20 de dezembro
de 1996, <i>Diário Oficial</i> [da República
Federativa do Brasil], Brasília, DF, v.&nbsp;134, n.&nbsp;248, 23 de dezembro
de 1996, seção&nbsp;I).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn3' href="#_ftnref3"
name="_ftn3" title=""><sup>[3]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Fiz aqui uma analogia
com a expressão “comunidade de conhecedores”, de Roy Wagner (2010:&nbsp;30).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn4' href="#_ftnref4"
name="_ftn4" title=""><sup>[4]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; “O Observatório da
Educação visa ao desenvolvimento de estudos e de pesquisas na área de educação.
Lançado em 2006, é implementado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal
de Nível Superior (Capes) e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgãos vinculados ao Ministério da
Educação do Brasil (MEC). Tem como objetivo estimular o crescimento da produção
acadêmica e a formação de recursos humanos pós-graduados, nos níveis de
mestrado e doutorado por meio de financiamento específico. As normas do
programa exigem a utilização dos dados estatísticos educacionais produzidos
pelo Inep como subsídio ao aprofundamento de estudos sobre a realidade
educacional brasileira” (<a href="http://observatorio.inep.gov.br/o-que-e" target="_blank">http://observatorio.inep.gov.br/o-que-e</a>,
última consulta em 17/09/2013).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn5' href="#_ftnref5"
name="_ftn5" title=""><sup>[5]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Segundo informações
contidas no <i>site</i>, “foi o Inep quem
estabeleceu parâmetros técnicos de comparação entre a qualidade dos sistemas de
ensino do Brasil com os de países da OCDE. Ou seja, a referência à OCDE é
parâmetro técnico em busca da qualidade, e não um critério externo às políticas
públicas educacionais desenvolvidas pelo MEC, no âmbito da realidade
brasileira” (<a
href="http://portal.inep.gov.br/web/portal-ideb/o-que-sao-as-metas" target="_blank">http://portal.inep.gov.br/web/portal-ideb/o-que-sao-as-metas</a>,
última consulta em 26/04/2015).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn6' href="#_ftnref6"
name="_ftn6" title=""><sup>[6]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; De acordo com dados
fornecidos pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio
Teixeira (Inep), o índice de desenvolvimento da educação básica (IDEB) do
Brasil tem ficado muito aquém daquele atingido pelos países da Organização para
a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (ocde).
O IDEB é um indicador de qualidade educacional que combina informações de
desempenho em exames padronizados (Prova Brasil ou Saeb) &#8211;&nbsp;obtido
pelos estudantes ao final das etapas do ensino fundamental (5.º e 9.º&nbsp;ano
e 3.º&nbsp;ano do ensino médio)&nbsp;&#8211; com informações sobre rendimento
escolar (aprovação). A média nacional registrada em 2009, para os anos iniciais
do ensino fundamental público ficou em 4,4 e para os anos finais do ensino
médio público ficou em 3,7. Embora esses índices tenham superado as metas propostas
pelo Inep para o referido ano (respectivamente 4,0 e 3,4), estão longe dos
índices dos países da OCDE, que atingem em média 6,0 (Santos 2010). Em 2013, o
país ultrapassou em 0,3 pontos as metas previstas para os anos iniciais (1.º ao
5.º&nbsp;ano) do ensino fundamental. O IDEB nacional nessa etapa ficou em 5,2,
enquanto em 2011 havia sido de 5,0. Nos anos finais (6.º ao 9.º&nbsp;ano) do
ensino fundamental, o IDEB nacional cresceu de 4,1 em 2011 para 4,2 em 2013. No
ensino médio se manteve em 3,7 (dados disponíveis em <a
href="http://portal.inep.gov.br" target="_blank">http://portal.inep.gov.br</a>, última consulta
em 22/09/2014).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn7' href="#_ftnref7"
name="_ftn7" title=""><sup>[7]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entre os professores da
escola, havia seis bolsistas (três de Língua Portuguesa, um de Geografia, um de
Matemática e um de Ciências); entre os alunos, cinco bolsistas e uma voluntária
dos cursos de Letras da Unioeste, as quais desenvolveram seus estágios
curriculares supervisionados juntamente com os professores da escola; entre os
professores da universidade, havia quatro professoras, duas do mestrado
interdisciplinar em Sociedade, Cultura e Fronteiras (Unioeste); uma orientadora
educacional e demais professores, de diferentes áreas, do colégio.</p>



    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a style='mso-footnote-id:ftn8' href="#_ftnref8"
name="_ftn8" title=""><sup>[8]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Gusmão (1997), por
exemplo, enfatizou as origens do diálogo entre a antropologia e a educação, e
explicita os interesses de alguns antropólogos na questão educacional, a
exemplo de Boas, Ruth Benedict e Margaret Mead. Esse diálogo é revisitado por
Dauster (2004). A antropologia da criança tem pressupostos
teórico-metodológicos mais específicos (Cohn 2000, 2005; Pires 2010), enquanto
a antropologia cognitiva tem um campo de interesse bem maior, pois recentemente
tem na aprendizagem um foco de interesse importante, ao tentar responder como o
conhecimento humano é construído, aprendido, mantido e reformulado (Toren 1993,
2012; Ingold 1991, 1993, 2002; Lave 1988, 1996, 2011).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn9' href="#_ftnref9"
name="_ftn9" title=""><sup>[9]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Uma contribuição
importante para acompanhar, historicamente, as tentativas de ultrapassar
determinismos sociológicos, quando se pensa na educação no Brasil, pode ser
encontrada em Helena Bomeny (2001). Com o objetivo de escrever a biografia de
Darcy Ribeiro, ela toma como eixo condutor os debates internos sobre a relação
da educação com a sociedade no pensamento sociológico brasileiro e o importante
papel dos participantes nesses debates para a construção e implementação de
instituições educacionais para o Estado-nação, muitas delas operantes até hoje,
como o Inep e a Capes.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn10' href="#_ftnref10"
name="_ftn10" title=""><sup>[10]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Trata-se da hierarquização de
obras culturais em “nobres” e “respeitáveis” em oposição a outras consideradas
“vulgares”, “comuns”, etc.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn11' href="#_ftnref11"
name="_ftn11" title=""><sup>[11]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; “[…] what we call cognition
is in fact a complex social phenomenon. […] ‘Cognition’ observed in everyday
practice is distributed &#8211; stretched over, not divided among &#8211; mind,
body, activity and culturally organized settings (which include other actors)
[…] for pursuing explanations of cognition as nexus of relations between the
mind at work and the world in which it works” (Lave 1988:&nbsp;1).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn12' href="#_ftnref12"
name="_ftn12" title=""><sup>[12]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Christina Toren (2012) define
a cognição considerando a mente como uma função do ser humano integral em
relações intersubjetivas com outros no mundo circundante, o que diz respeito
aos humanos enquanto seres viventes e autopoiéticos.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn13' href="#_ftnref13"
name="_ftn13" title=""><sup>[13]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; “[…] situated activity is
anything but a simple concept; it is a general theoretical perspective that
generates interconnected theories of perception, cognition, language, teaming,
agency, the social world, and their interelations” (Lave e Wenger
1991:&nbsp;66).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn14' href="#_ftnref14"
name="_ftn14" title=""><sup>[14]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; “Comunidade de prática” tem
aqui um significado abrangente ao reunir atores sociais em contextos singulares
específicos. Hoje essa expressão tende a ser identificada como uma estratégia
para promover a aprendizagem em organizações, de um modo geral.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn15' href="#_ftnref15"
name="_ftn15" title=""><sup>[15]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; O IDEB observado, nessa
escola, foi de 3,4 para 2009 e 2011, e 3,7 em 2013 (dados disponíveis em <a
href="http://ideb.gov.br/resultado" target="_blank">http://ideb.gov.br/resultado</a> (última
consulta em 26/04/2015).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn16' href="#_ftnref16"
name="_ftn16" title=""><sup>[16]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Robertson e Verger (2012)
analisam o desenvolvimento global da rápida expansão das parecerias
público-privadas como um projeto mais amplo de reconstituição da educação pública
no âmbito do setor de serviços, do mesmo modo que Silvana A. Souza (2001, 2009,
2013) vem estudando esse tema no Brasil.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn17' href="#_ftnref17"
name="_ftn17" title=""><sup>[17]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tais políticas estão
inseridas no essencial de uma política macroeconômica que visa à ampliação de
políticas direcionadas à grande parte da população que vive abaixo da linha da
pobreza ou em um nível elementar de sobrevivência e consumo. Trata-se não
apenas da realização de políticas compensatórias para a baixa distribuição de
renda, como é o Programa Bolsa Família, mas do acesso diferenciado e intenso ao
crédito para aquisição de casa própria e a bens de consumo, a programas de
acesso à energia etc. No plano do financiamento registra-se a criação do Fundo
de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais
da Educação (Fundeb). Outro aspecto diferenciado, ainda que em termos
muitíssimo baixos, é a fixação do piso nacional para o magistério da educação
básica, uma conquista histórica do magistério nacional (Oliveira 2011).
Aprovado por lei federal, o piso nacional é um valor de salário a ser pago
igualmente a todos os professores no Brasil, mas enfrenta dificuldades de
implementação.</p>



    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a style='mso-footnote-id:ftn18' href="#_ftnref18"
name="_ftn18" title=""><sup>[18]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; A construção do bairro Cidade
Nova teve início em 1998 e só em 1999 os primeiros moradores tomaram posse de
suas casas.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn19' href="#_ftnref19"
name="_ftn19" title=""><sup>[19]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; “Brasiguaios” são brasileiros
e seus descendentes que se estabeleceram no Paraguai em áreas de fronteira com
o Brasil.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn20' href="#_ftnref20"
name="_ftn20" title=""><sup>[20]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Interessante pensar que o
argumento da desestruturação familiar tem como modelo a família nuclear, o que
impede a percepção das configurações familiares atuais.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn21' href="#_ftnref21"
name="_ftn21" title=""><sup>[21]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; “TV Pendrive” é um projeto da
Secretaria de Educação do Estado do Paraná, que instalou um televisor de cor
laranja nas salas de aula, com entrada para cartão de memória. O objetivo desse
projeto é proporcionar aos professores recursos que podem complementar e apoiar
o processo de ensino-aprendizagem. Eles podem salvar, em um <i>pen drive</i>, objetos de aprendizagem
disponíveis no Portal Dia-a-dia Educação do estado do Paraná e utilizá-los nas
aulas (informação em <a href="http://www.gestaoescolar.diaadia.pr.gov.br" target="_blank">http://www.gestaoescolar.diaadia.pr.gov.br</a>,
última consulta em 21/10/2014).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn22' href="#_ftnref22"
name="_ftn22" title=""><sup>[22]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao contrário das crianças
mais novas, mais centradas sobre si mesmas, como mostrou Christina Toren
(2010).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn23' href="#_ftnref23"
name="_ftn23" title=""><sup>[23]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ana Gabriela Dias, 2012,
“Biografia Morador Moisés do Bairro Cidade Nova &#8211; Parte II, Colégio Estadual
Ipê Roxo, CNI”, disponível em <a
href="https://www.youtube.com/watch?v=lZwQ14UZ0lU" target="_blank">https://www.youtube.com/watch?v=lZwQ14UZ0lU</a>
(última consulta em janeiro de 2016).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn24' href="#_ftnref24"
name="_ftn24" title=""><sup>[24]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Utilizo aqui as análises dos
rituais vinculados a eventos propostas por Mariza Peirano (2001). Trata-se de
eventos reconhecidos por seus participantes como fenômenos especiais, dotados
de significado político.</p></font>

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