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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Feitos de semente e pedra: afecção e categorização em uma etnografia na Amazônia]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Made of seed and stone: affection and categorization in an ethnography in Amazonia]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Laboratório de Estudos Evolutivos  ]]></institution>
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<institution><![CDATA[,Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo  ]]></institution>
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<fpage>143</fpage>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article is based on an ethnography among the Wajãpi, an Amerindian group that speaks a Tupi-Guarani language and live in Brazilian Amazon. In this context, the concept of “logic of sensible qualities” (Lévi-Strauss 1970) appears as potent guide to following non-linear connections drew by the Wajãpi and enables to go across different scopes of this people’s life: botanical classifications, the processes of building wise persons, body construction, and healing actions.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Amazônia]]></kwd>
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<kwd lng="en"><![CDATA[word’s agency]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ 
    <p align="right"><font size="2" face="Verdana"><b>ARTIGOS</b></font></p>


    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="4" face="Verdana">Feitos de semente e pedra: afecção e categorização
  em uma etnografia na Amazônia</font></b></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">Made of seed and
stone: affection and categorization in an ethnography in Amazonia</font></b></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p>&nbsp;</p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p><b>Joana Cabral de Oliveira<sup>I</sup></b></p>

    <p><sup>I</sup>Instituto de
Biociências da Universidade
de São Paulo; Laboratório de Estudos Evolutivos; Centro de Estudos Ameríndios; bolsista FAPESP,
Brasil. <i>E-mail</i>: <a href="mailto:joanacoliveira2@gmail.com">joanacoliveira2@gmail.com</a></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
    <p>&nbsp;</p>
<hr noshade size="1">
    <p><b>RESUMO</b></p>
    <p>Esse artigo tem por base uma etnografia realizada entre os
  wajãpi, grupo falante de uma língua tupi-guarani, que habita a Amazônia
  brasileira. Seguindo conexões não lineares traçadas nesse contexto etnográfico,
  pretende-se mostrar como a “lógica do sensível” (Lévi-Strauss 1970) pode ser um
  potente guia para percorrer múltiplas searas da vida e
  do pensamento desse povo, tais como: as classificações botânicas, a
  constituição de pessoas repletas de conhecimento, a construção de corpos e a cura
  de doenças.</p>

    <p><b>Palavras-chave</b>: Amazônia, lógica do sensível, afecção, agência da palavra</p>
<hr noshade size="1">
    <p><b>ABSTRACT</b></p>

    <p>This article is based on an ethnography among the Wajãpi,
an Amerindian group that speaks a Tupi-Guarani language and live in Brazilian
Amazon. In this context, the concept of “logic of sensible qualities”
(Lévi-Strauss 1970) appears as potent guide to following non-linear connections
drew by the Wajãpi and enables to go across different
scopes of this people’s life: botanical classifications, the processes of
building wise persons, body construction, and healing actions.</p>

    <p><b>keywords</b>: Amazon, logic of
sensible qualities, affection, word’s agency</p>
<hr noshade size="1"></font>
    <p>&nbsp;</p>
    <p>&nbsp;</p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b><font size="3" face="Verdana">Abertura</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>Eu seguia ao encalço do velho Ororiwo que me conduzia em passos rápidos
pela trilha que chegava à sua aldeia; no chão jazia um fruto peludo que
despertou-lhe a atenção.<a style='mso-footnote-id:ftn1' href="#_ftn1"
name="_ftnref1" title=""><sup>[1]</sup></a> Ele estancou o andar e o
pegou, mostrando-me e dizendo: “<i>Ape’y eu
ijupe, jane rova jamõgy remë jane reynavaravu o’ë</i><sup>&nbsp;</sup>”
[“<i>Ape’y</i> (<i>Apeiba tibourbu</i>) nós o chamamos, quando passamos no nosso rosto a
barba nasce”].</p>

    <p>A cena singela nos põe defronte à complexidade
do campo: como transladar da classificação e identificação de plantas para
modalidades de construção do corpo, ações eficazes e tantos outros meandros da
vida de um coletivo?</p>

    <p>A pesquisa de campo em antropologia nos
apresenta o desafio de enfrentar conexões múltiplas e não lineares da forma
como um grupo elabora a vida por meio de relações interespecíficas, aspecto que
vem há algum tempo nos forçando a desestabilizar a centralidade do humano em
nossas reflexões (&shy;Bateson 1986), mas que só nas últimas duas décadas de
fato se desenvolveu de forma significativa com os trabalhos de autores como
Donna Haraway (2003) e Eduardo Kohn (2013).</p>

    <p>Frente à tarefa de lidar com uma forma de
existência que resiste às nossas concepções e categorias, a já antiga, porém
pouco explorada, noção de “lógica do sensível” de Lévi-Strauss (1970 [1962],
2004 [1964]) se mostrou como um potente operador para mover-se entre os
diversos âmbitos do cotidiano de famílias wajãpi.<a style='mso-footnote-id:
ftn2' href="#_ftn2" name="_ftnref2" title=""><sup>[2]</sup></a></p></font>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">Aproximações ao contexto</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>Ororiwo, que abre esse artigo, é um velho chefe que
habita numa das 80 aldeias da Terra Indígena Wajãpi (TIW). Com uma população
atual com pouco mais de 1200 pessoas, os wajãpi se espalham em pequenas aldeias
pelos 607.000 hectares de terra demarcada em uma área de floresta de terra
firme. Organizam-se em grupos locais (<i>wãna kõ</i>) dispersos, que se caracterizam
por uma grande autonomia social, econômica e política (Gallois 1986). A
ocupação é marcada pela grande mobilidade, pois habitam mais de uma aldeia,
deslocando-se conforme os ciclos de chuva e seca: no verão, quente e seco,
espalham-se por pequenas aldeias nos limites da TIW, acessadas por rio e&#8202;/&#8202;ou
longas caminhadas; no tempo das chuvas, juntam-se nas chamadas aldeias
centrais, acessíveis por estrada e&#8202;/&#8202;ou barco, que são na verdade
um conglomerado de pequenos pátios (aldeias) nas imediações de postos de
assistência (que variam entre escolas, postos de saúde, centro de formação e
casa da Funai). Atualmente, o sistema de educação escolar também tem
influenciado nessa dinâmica, e as famílias se concentram nas aldeias centrais
conforme o calendário de aulas.</p>

    <p>Apesar do número crescente de assalariados
entre as famílias wajãpi, a alimentação continua a ser oriunda dos produtos da
roça, da caça, da pesca e da coleta. Esse modo de vida resulta em uma dinâmica
cotidiana muito própria, caracterizada por incursões diárias pelas áreas de
floresta de terra firme, capoeiras, roças, igapós e igarapés. Os wajãpi
possuem, assim, um conhecimento acurado sobre os seres vivos e as paisagens com
os quais se relacionam na elaboração de uma boa vida, saberes que emergem de
uma atenção delicada e profunda sobre as plantas, os animais, os solos, as
rochas etc., o que nos conduz à proeminência da lógica do sensível
nesse contexto.</p></font>
    <p>&nbsp;</p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b><font size="3" face="Verdana">A lógica do sensível</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>Conceitualmente, a concepção de uma lógica do sensível é
apresentada por Lévi-Strauss na obra <i>O</i>&nbsp;<i>Pensamento
Selvagem</i> (1970 [1962]), cujo mote é a descrição e a
análise de um modo outro de pnsamento, o qual se contrapõe à ciência moderna
não por suas operações cognitivas, mas pelos trajetos de seu modo de conhecer.</p>

    <p>Tomando como ponto de contraste as teorias que
relegavam o pensamento dos povos de tradição oral aos interesses meramente
utilitaristas ou afetivos e o caracterizavam por um baixo nível de abstração,
Lévi-Strauss demonstra por meio de uma profusão vertiginosa de dados
etnográficos que o conhecimento produzido por tais grupos lida com ideias
abstratas e é movido pela mesma necessidade de ordenação e atribuição de
sentido que o pensamento científico, estando, pois, em um mesmo patamar de
desenvolvimento intelectual.</p>

    <p>Ainda que instigada pela curiosidade arguta,
pelo prazer estético e intelectual de ordenar o cosmos, bem como apoiada em uma
observação minuciosa, a “ciência do concreto” se distancia do pensamento
domesticado (a ciência moderna) por seus processos e interesses, operando por
meio de uma lógica do sensível: “[É] como se as relações necessárias, objetivo
de toda a ciência &#8211; seja ela neolítica ou moderna &#8211; pudesse ser
atingido por dois caminhos diferentes: um muito perto da intuição sensível e
outro muito afastado” (Lévi-Strauss 1970 [1962]:&nbsp;36).</p>

    <p>A proximidade da “intuição sensível” é a
escolha de determinado pensamento de lidar com qualidades concretas
&#8211;&nbsp;captadas em todas as medidas pelos cinco sentidos&nbsp;&#8211; na
produção de uma reflexão lógica, isto é, no estabelecimento de relações
necessárias que permitam tornar o mundo inteligível. O caminho trilhado pelo
pensamento selvagem opera com um amálgama entre sensível e inteligível,
concedendo uma existência lógica a oposições como duro e mole, liso e rugoso,
cru e cozido, fétido e cheiroso…</p>

    <p>Diferente do pensamento científico, que opera
com conceitos cada vez mais apartados de seus referentes, a ciência do concreto
lida com signos &#8211; elementos a meio caminho entre o conceito e a imagem
(talvez o melhor seria dizer entre o conceito e o percepto, uma vez que o
código visual é apenas um dos operadores em jogo): “Como a imagem, o signo é um
ser concreto, mas assemelha-se ao conceito por seu poder de referência: um e
outro não se referem, exclusivamente, a si próprios, podem substituir outra
coisa que a si” (Lévi-Strauss 1970 [1962]:&nbsp;39).</p>

    <p>A concepção de signo usada por Lévi-Strauss é
inspirada na definição de Ferdinand de Saussure acerca do signo linguístico
&#8211; formado pela relação entre imagem acústica e conceito, significante e
significado respectivamente.<a style='mso-footnote-id:ftn3' href="#_ftn3"
name="_ftnref3" title=""><sup>[3]</sup></a> À diferença do conceito, o
signo mantém um nexo direto com um mundo, tal como ele é percebido por aqueles
que o habitam: “[…] uma das maneiras, ao menos, de o signo opor-se ao conceito
prende-se a que o segundo pretende ser integralmente transparente à realidade,
enquanto que o primeiro aceita, e exige mesmo, que uma certa densidade de
humanidade seja incorporada a essa realidade” (Lévi-Strauss 1970
[1962]:&nbsp;41).</p>

    <p>Podemos compreender essa “certa densidade de
humanidade” como a percepção, passo elementar no movimento de conhecer e construir
categorias sensíveis. A percepção deve ser entendida aqui como um “engajamento
do ser no mundo”, para tomarmos de empréstimo a expressão de Tim Ingold (2000),
ou seja, ela não é absoluta e universal, mas como enfatiza &shy;Lévi-Strauss
(2004 [1964]) na abertura das <i>Mitológicas</i>,
trata-se antes de um processo elaborado coletivamente. Ainda que as categorias
concretas de quente e frio, duro e mole sejam “definíveis com precisão pela
mera observação etnográfica” (&shy;Lévi-Strauss 2004 [1964]: 19), apesar de sua
concretude elas precisam ser descritas e compreendidas “sempre a partir do
ponto de vista de uma cultura particular” (2004 [1964]: 19): o queimado ou o
podre não têm valores semânticos absolutos, mas se inserem em diferentes feixes
de relações, os quais são tecidos de modo singular por cada grupo de sujeitos.
A opacidade humana fica, assim, a cargo de uma percepção construída, que pode
ser compreendida na chave de uma “educação da atenção” tal como formulada por
Ingold (2010). A educação da atenção funda-se na ideia de que os processos de
socialização recaem sobre o ensino de maneiras de percorrer sensorialmente um
mundo (modos de ver, ouvir, sorver, provar, tocar), ou seja, um orientar da
atenção trilhado na convivência entre parentes, e não sobre a transmissão de
qualidades concretas em si. Aqui, inspirada pela proposta de Kohn (2013) e
Haraway (2003), diria que o processo de educação da atenção não se restringe ao
compartilhar a vida entre humanos, mas abarca também uma relação de convivência
interespecífica, onde o engajamento com outros seres molda a percepção, sendo,
por exemplo, o <i>ape’y</i> (o fruto peludo)
um sujeito da relação perceptual.</p>

    <p>Voltando à ciência do concreto, será por meio
desse vasto material fornecido pela relação entre mundo e sujeito que o
pensamento selvagem operará à maneira de um <i>bricoleur</i>,
criando inteligibilidade por meio do estabelecimento de relações entre
elementos do mundo e categorias sensíveis.<a style='mso-footnote-id:ftn4'
href="#_ftn4" name="_ftnref4" title=""><sup>[4]</sup></a> De acordo com Keck, “O <i>bricoleur</i> lévi-straussiano é um esteta:
ele combina as partes da matéria sensível a fim de lhes fazer produzir arranjos
sempre novos, pelo mero prazer da combinação” (2004: 50).<a style='mso-footnote-id:
ftn5' href="#_ftn5" name="_ftnref5" title=""><sup>[5]</sup></a>
É tal modo de combinar, de relacionar, que Lévi-Strauss denomina de “lógica do sensível”.</p></font>
    <p>&nbsp;</p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b><font size="3" face="Verdana">Duro e não duro</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>Certa manhã Majuware resolveu ir trabalhar na derrubada de uma porção de mata
que seria seu futuro roçado. Ele reuniu alguns parentes para ajudá-lo. Seguiram
para a tarefa seus três cunhados adultos munidos de machados, um jovem com um
terçado, seu pequenino filho e uma de suas irmãs que carregava um terçado e um
panelão de <i>kasiri miti</i> (bebida de
mandioca não fermentada). A área havia sido previamente limpa, delineando os
limites do trabalho. Os homens empunhando os machados talhavam as árvores mais
grossas, enquanto a mulher e o menino cortavam as árvores mais finas com seus
facões. Todos desferiam os golpes em uma mesma direção, mas não cortavam os
troncos por completo, deixavam as árvores seguras por uma faixa de madeira
intocada. Essa técnica é realizada para que a última árvore (a única a ser
cortada inteiramente) se incumba de arrastar as demais consigo para o chão,
poupando, dessa maneira, algum esforço.</p>

    <p>Foi nesse contexto que um dos jovens cunhados
estancou as machadadas e perguntou ao dono do futuro roçado: “<i>Moma’e põ yvyra tairo</i>” [“Que árvore é
essa, cunhado?”]. Majuware parou, fitou o tronco, seguiu com os olhos até
alcançar a copa e fez a típica pergunta retórica: “<i>Moma’e si põ</i>” [“Como se diz mesmo?”]. Depois de alguns instantes,
respondeu: “<i>Akusityry, eu ijupe!</i>”
[“&shy;<i>Akusityry</i>&nbsp;<a style='mso-footnote-id:
ftn6' href="#_ftn6" name="_ftnref6" title=""><sup>[6]</sup></a> se fala
para ela!”]. O jovem cunhado então concluiu em alto e bom tom: “<i>Yvyra ãtã!</i>” [“Árvore dura!”]. Findo o
dia, antes de nos encaminharmos de volta à aldeia, notei uma árvore que se
mantinha intacta no meio da clareira. Perguntei seu nome e porque não havia
sido derrubada, ao que me responderam: “<i>Kurata’y
noityi, yvyra ãããtã ajawyi</i>” [“Pé de Kurata (<i>Couratari </i>sp.) não se derruba, porque é árvore duuura”].</p>

    <p>Nas formas classificatórias dos wajãpi, a
dureza aparece na estruturação de duas categorias opostas: <i>yvyra ãtã </i>(árvores duras) e <i>yvyra
nãtãi </i>(árvores não duras).<a style='mso-footnote-id:ftn7' href="#_ftn7"
name="_ftnref7" title=""><sup>[7]</sup></a> Arduamente apreendidas na
prática, como se pode notar, as árvores duras são percebidas e se constituem
como uma categoria sobretudo ao longo da derrubada de uma porção de floresta. É
preciso pontuar que nesse contexto etnográfico não faz sentido falar em um
sistema de classificação, temos antes uma multiplicidade de taxonomias
estruturadas por princípios diversos que entram em ação conforme o contexto e
as intenções de quem classifica (Cabral de Oliveira 2008, 2012). Algumas
qualidades sensíveis, como a dureza, atravessam essas diferentes
classificações, e são relevantes para além da importante oposição entre
plantado (<i>temitãgwerã</i>) e não plantado
(<i>temitãe’ã</i>).</p>

    <p>Dessa forma, a dureza não é um critério de
qualificação exclusivo das árvores da floresta (<i>ka’a</i>), ela aparece também na apreciação e no trabalho com as
espécies vegetais, em especial aquelas que são plantadas (<i>temitãgwerã</i>). Os wajãpi possuem um léxico minucioso&nbsp;<a style='mso-footnote-id:ftn8' href="#_ftn8"
name="_ftnref8" title=""><sup>[8]</sup></a> para
falar da maturação de frutas e tubérculos; algumas espécies são ditas estarem <i>ipirã</i> (<i>i-</i>&#8197;=&#8197;pronome possessivo de 3.ª&nbsp;pessoa; <i>-pirã</i>&#8197;=&#8197;vermelho) quando
maduras, esse é o caso do mamão (<i>Carica </i>sp.),
do caju (<i>Anacardium occidentali</i>), da
pupunha (<i>Bactris gasipaes</i>) etc. Outro
conjunto tem sua maturação plena qualificada como <i>omy katu</i> (<i>omy</i>&#8197;=
escuro; <i>katu</i>&#8197;=&#8197;bem,
bonito), esse é o caso do açaí (<i>Euterpe
oleracea</i>) e da bacaba (<i>Oenocarpus
bacaba</i>). Outros são ditos estarem <i>ipije</i>
(<i>i-</i>&#8197;=&#8197;pronome possessivo
de 3.ª&nbsp;pessoa; <i>-pije</i>&#8197;=&#8197;cheiroso)
como o cupuaçu (<i>Theobroma grandiflorum</i>).
Poderia seguir enumerando mais exemplos, mas esses são suficientes para
apresentar aquele que nos interessa: algumas plantas têm o ápice de sua
maturação marcado pela dureza e, por isso, são ditas estarem <i>ãtãrõma</i> (<i>ãtã</i>&#8197;=&#8197;duro; <i>-rõ</i>&#8197;=&#8197;partícula
que indica transformação; <i>-ma</i>&#8197;=&#8197;completivo).
A mandioca (<i>Manihot esculenta</i>), a
batata (<i>Ipomoea batatas</i>) , a cuia (<i>Crescentia cujete</i>), a cabaça, o
cará-moela (<i>Dioscorea bulbifera</i>) e o
sisal (<i>Agave</i> ssp.) quando estão no
ponto de colheita são qualificados como “plenamente duros” (<i>ãtãrõma</i>). Já a jaca madura é dito estar
mole, <i>ipyu (i-</i>&#8197;=&#8197;pronome
possessivo de 3.ª&nbsp;pessoa; <i>-pyu</i>&#8197;=&#8197;mole).</p>

    <p>A dureza é um critério importante também na
classificação e qualificação das mandiocas. Os trabalhos femininos, quase
diários, de preparação de alimentos à base desse tubérculo exigem um árduo
processamento em ralos manuais. Dessa atividade comumente toma parte um grupo
de mulheres ligadas por laços de consanguinidade, o que inclui pequenas meninas
que fazem dessa uma atividade lúdica de aprendizado. Nesse contexto há uma
apreciação e uma apreensão minuciosas das texturas e da dureza das diversas
variedades de mandioca.<a style='mso-footnote-id:ftn9' href="#_ftn9"
name="_ftnref9" title=""><sup>[9]</sup></a> Esse, aliás, é um critério
importante no processo de identificação: quando se pergunta o nome de uma
variedade é comum partirem a raiz para ver a combinação de cores que a compõem,
bem como para sentir sua dureza.</p>

    <p>O aprendizado da dureza das árvores, das
mandiocas e de tantos outros vegetais ocorre, assim, nas ocasiões de trabalhos
ordinários: ao sentir através do machado o esforço necessário para se talhar um
tronco; ao empenhar mais ou menos potência para ralar uma mandioca; ao
constatar nas pontas dos dedos a maturação de uma cuia ou das folhas de sisal.
Além de uma percepção fina apreendida nesses eventos de interação
interespecífica, o compartilhar de asserções sobre tais qualidades é
fundamental nesse processo de construção de categorias e saberes.</p>

    <p>A categorização das plantas em duras e não
duras constitui-se, assim, em uma relação direta com uma experiência corporal
(que envolve um engajamento em uma relação com cada espécime) e uma troca de
apreciações (que envolve o compartilhamento de enunciações sobre o que se
percebe). Essa questão abre um gancho para as proposições de Lakoff (1990) da
mente encorporada (<i>embodied mind</i>).
Lakoff se encaixa em um movimento teórico de reatar corpo e mente no âmbito dos
estudos de cognição, alicerçando a categorização (e o pensamento de modo geral)
na experiência corporal: “[…] sistemas conceituais emergem da experiência
corporal e fazem sentido em termos dela; o núcleo de nossos sistemas
conceituais está diretamente fundado na percepção, no movimento corporal, e na
experiência dos aspectos físico e social” (Lakoff 1990:&nbsp;xiv).<a
style='mso-footnote-id:ftn10' href="#_ftn10" name="_ftnref10" title=""><sup>[10]</sup></a></p>

    <p>Em certo sentido, Lakoff se alinha a outros
autores que tratam a experiência como cerne do conhecimento, tal como Ingold
(2000), que intenta desmanchar as fronteiras entre corpo e mente, sujeito e
ambiente. Com o objetivo de delinear um modelo cognitivo, Lakoff repõe os
processos de categorização em uma prática ordinária, onde a experiência se
torna o elo de fusão dessas grandes divisões.</p>

    <p>Apesar da importância do corpo nesses
movimentos de conhecer, não se pode esquecer a relevância e a centralidade da
palavra, um compartilhamento reflexivo sobre o que se experimenta. O partilhar
de vivências, a troca de apreciações, é um processo fundamental para consolidar
generalizações e alicerçar categorias.<a style='mso-footnote-id:ftn11'
href="#_ftn11" name="_ftnref11" title=""><sup>[11]</sup></a></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Além disso, nesse movimento de descentrar o
humano das análises antropológicas, é importante frisar que esse engajamento se
dá com uma multiplicidade de seres, no caso aqui enfocado com algumas plantas,
que são agentes da relação. Cada vegetal apresenta suas particularidades,
fazendo com que as pessoas sejam afetadas e sejam motivadas a reagir a elas nesse
processo. Não é toda árvore que é deixada intacta no meio de uma roça, mas sim
aquele <i>kurata </i>da roça nova de
Majuaré; não é qualquer fruto que permite aos homens ter barba, mas sim o fruto
peludo que a árvore <i>ape’y </i>produz. Reformulando a proposição
de Lakoff, os sistemas conceituais emergem não só das experiências corporais,
mas das relações que se travam com uma miríade de seres para além da humanidade.</p></font>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">Perecível e imperecível</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>Se, por um lado, a dureza se constitui
como um operador importante na classificação de plantas, fundamentando
categorias que permitem orientar ações como empregar mais ou menos força para
ralar uma mandioca, deixar de derrubar algumas espécies de árvore etc., em um
movimento em que o corpo se molda e apreende um mundo, por outro lado, em
contextos distintos, os wajãpi enfatizam o inverso: é a dureza de determinados
elementos mundanos que cria e age sobre os corpos, numa perspectiva que
ressalta a agência e autonomia de plantas, animais, pedras etc., o que é
reconhecido e captado, por exemplo, em algumas fórmulas enunciativas.</p>

    <p>Os wajãpi possuem encantações (<i>jërõnïga</i>) formadas por enunciados
ritmados que têm alta potência agentiva: eles são capazes de aplacar alguns
males.<a style='mso-footnote-id:ftn12' href="#_ftn12" name="_ftnref12" title=""><sup>[12]</sup></a> De conhecimento comum, os <i>jërõnïga</i> são pronunciados em tom baixo
junto ao enfermo para curar dor de dente, picada de cobra, desmaios etc.</p>

    <p>As encantações usadas para dor de dente, por
exemplo, agenciam a dureza&#8202;/&#8202;moleza de alguns elementos,
desdobrando esse par em um jogo de qualidades sensíveis que constituem uma
cadeia de relações duais, conectando diversos âmbitos da vida wajãpi. Vejamos sua execução:</p>

    <blockquote><i>“Kaikusi ipi nokõ nãi
jayi&#8202;/&#8194;moma’e kãgwerã osu’u remë
ipi nokõ nãi jayi&#8202;/&#8194;Ta’e vo jë iko
nerãi ne&#8202;/&#8194;tay
e’ã wetë nerãi<sup>&nbsp;</sup>”.    <br>
</i>“Onça a que não dói o dente&#8202;/&#8194;que quando
morde osso o dente não dói&#8202;/&#8194;Como ela seu dente deve ficar&#8202;/&#8194;seu
dente não deve doer.”</blockquote>

    <p>Essa fórmula remete diretamente à constituição dos seres (uma ontogênese) em
outro tempo-espaço &#8211;&nbsp;o das origens&nbsp;&#8211; conduzindo a um
conjunto de narrativas das experiências vividas pelos primeiros homens (<i>taivïgwerã</i>).<a style='mso-footnote-id:
ftn13' href="#_ftn13" name="_ftnref13" title=""><sup>[13]</sup></a>
Entre as diversas escolhas feitas pelos <i>taivïgwerã</i>,
algumas marcam a mortalidade dos homens por meio de um corpo perecível. Uma
dessas escolhas refere-se ao material de que foram feitos os dentes humanos:
contrariando o conselho de um demiurgo, <i>janejarã</i>,
os homens optam por inserir em suas gengivas a mole semente de <i>pariri</i> (<i>Heliconea</i> sp.) ao invés da dura pedra <i>tãsï</i> (quartzo branco), que é, então, destinada ao jaguar,
garantindo imperecibilidade aos seus dentes &#8211; aspecto que é confirmado
nos tempos de hoje a cada vez que uma onça é morta e tem seus caninos
arrancados, momento em que podem ser tocados e admirados por sua dureza e
brancura.<a style='mso-footnote-id:ftn14' href="#_ftn14" name="_ftnref14"
title=""><sup>[14]</sup></a></p>

    <p>A encantação acima equaciona justamente a
dureza dos dentes de jaguar e a moleza e perecibilidade dos dentes humanos,
evocando a ontogênese de ambos. Desse modo constitui-se uma afecção no sentido
deleuziano: uma mudança de qualidade ou estado de um corpo-pessoa alterado por
meio de outro corpo-pessoa, ou seja, uma mistura entre corpos.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em outra fórmula, esse jogo é repetido com uma pequena
variação:</p>

    <blockquote><i>“Yryapyry pekajã ma’ë tãsinary
tui ipi ronõ&#8202;/&#8194;Irõwã gatu kajã
ma’ë ipi ronõ&#8202;/&#8194;Ta’e vo jë iko nerãi
në<sup>&nbsp;</sup>”.    <br>
</i>“Na nascente que tem pedra
tãsi&#8202;/&#8194;Lá que está bem frio&#8202;/&#8194;Como ela seu dente deve ficar”.</blockquote>

    <p>Nessa encantação a pedra
<i>tãsi</i> é evocada diretamente, remetendo
tanto a sua dureza como a sua qualidade térmica &#8211; a frieza.
Localizando-se dentro ou próximo as nascentes, <i>tãsi</i> porta uma frieza intrínseca, que deve aplacar o calor da
inflamação de um dente podre.</p>

    <p>Em ambas as encantações, o par
duro&#8202;/&#8202;mole se desdobra em frio&#8202;/&#8202;quente,&nbsp; são&#8202;/&#8202;purulento,
imperecível&#8202;/&#8202;perecível e vida&#8202;/&#8202;morte. Todo esse jogo
aparece sob a égide de dois índices: <i>pariri</i>
e <i>tãsi</i>.</p>

    <p>Proponho aqui marcarmos uma pequena distinção
nos modos de operação dos signos, tal como estabelecido por Lévi-Strauss ao
caracterizar a lógica do sensível. A referida distinção remete diretamente a
uma diferenciação dos contextos aqui em pauta: se de um lado há a
operacionalização de categorias classificatórias &#8211;&nbsp;como <i>yvyra ãtã </i>(árvores duras), <i>kurata </i>(árvore<i> kurata</i>), <i>mani’o</i>
(mandioca), <i>jawarã</i> (onça), <i>pariri</i> (<i>Heliconea</i> sp.) etc.&nbsp;<i>&#8211;</i> e de qualidades
sensíveis &#8211; como <i>ãtã</i> (duro), <i>ipyu</i> (mole), <i>irowã</i> (frio), <i>aku</i>
(quente) etc.&nbsp;&#8211; que emergem em contextos ordinários da produção da
vida, de outro lado há os momentos específicos de uso dos <i>jërõgïga</i>
e de procedimentos de construção de corpos (descritos adiante), onde as
categorias classificatórias são pensadas e mobilizadas a partir de índices, ou
seja, de elementos concretos que obliteram um complexo jogo
de qualidades sensíveis.</p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p align="center"><img src="/img/revistas/etn/v20n1/20n1a07f1.jpg" width="512" height="201"></p>
    
<p>&nbsp;</p>
    <p>A noção de índice remete necessariamente a
Charles Peirce, que o define como um signo indicador a partir do qual se pode
fazer inferências (<i>apud</i> Gell 1998).
Na proposta de antropologia da arte de Alfred Gell, o autor acrescenta ao
conceito peirciano uma carga semântica de agentividade. Eduardo Kohn (2013),
por sua vez, também toma de empréstimo o conceito de Pierce na proposição de
uma “antropologia para além do humano”, na qual a linguagem passa por uma
“provincialização” (Kohn 2013: 38-42) e deixa de ser um atributo exclusivo ao
homem. Segundo Kohn, a propriedade característica do índice é sua capacidade de
significar mais do que ele representa, contrapondo-se à noção de ícone, que
representa a ele mesmo (2013: 32-33). Aqui as duas características ressaltadas por
ambos os autores são fundamentais para justificar a escolha do conceito de
índice, isto é, sua capacidade de agência e de significado estendido.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Chamarei, assim, de índices
os signos que, em determinados contextos, tornam-se elementos indicadores de um
conjunto de atributos sensíveis, os quais estão eclipsados em um ser concreto e
que produz um efeito, uma transformação em outros corpos.</p>

    <p>Essa caracterização de modos distintos de
manejar os signos conduz a uma questão abordada em <i>O Pensamento Selvagem</i>: a heurística da noção de espécie. A espécie,
para Lévi-Strauss (1970 [1962]), aparece como um operador médio que articula
diferentes níveis de uma classificação, os mais abstratos, ou seja, as
categorias de maior inclusão, e os mais concretos, que se situam ao nível do
indivíduo (do espécime), onde se assenta o nome próprio. A espécie permitiria,
assim, transladar de um polo a outro: da universalização à particularização, do
abstrato ao concreto. Daí sua proeminência no pensamento selvagem.</p>

    <p>A espécie aparece, pois, como um instrumento
conceitual, onde o que está em jogo é uma complexa combinação de
características de cada grupo de seres, suas cores, texturas, comportamentos,
sons, cheiros etc., o que leva &shy;Lévi-Strauss a concluir: “Essa matriz
tridimensional, verdadeiro sistema por meio de um animal, e não o próprio
animal, constitui o objeto do pensamento e fornece o instrumento conceitual”
(1970 [1962]:&nbsp;176).</p>

    <p>Todavia, manter o termo espécie para denominar
esse tipo de signo nos tempos atuais significaria ignorar a complexa discussão
e disputa em torno desse conceito (Rapini 2004). Há na biologia diferentes
acepções em jogo. O conceito biológico de espécie se alicerça sobre a ideia de
isolamento reprodutivo: para ser considerada uma espécie é preciso gerar descendentes
férteis. Trata-se, pois, de uma relação do âmbito do dado, ou seja, a espécie é
entendida como uma entidade biológica. O conceito evolutivo de espécie segue
rota semelhante, definindo a espécie como uma linhagem que evolui separadamente
de outras. Por fim, para mencionar uma última entre outras concepções, há
aquela qualificada como conceito taxonômico de espécie<i>,</i> que se refere apenas a um nível classificatório de um sistema,
não sendo, portanto, compreendida como uma entidade biológica em si, ou ligada
a uma corrente teórica, mas apenas um táxon, uma classe entre classes.</p>

    <p>Não há dúvidas que Lévi-Strauss usa “espécie”
nesta última acepção. Esclarecido esse ponto poderíamos, a princípio, dar
continuidade aos termos do autor. Contudo, enquanto um táxon, muito do que
Lévi-Strauss menciona em seus exemplos não se encontra ao nível de espécie, mas
sim de gênero. Note-se que a grande maioria dos antropólogos e dos linguistas
que se dedicaram ao estudo de sistemas classificatórios nativos aponta como
nível taxonômico mais proeminente o de gênero (Lakoff 1990; Hunn 1977; Berlin
1992).</p>

    <p>Contudo, o ponto em questão aqui não é fixar
um nível taxonômico como o mais elementar, mas notar que há um conjunto de
categorias que estariam em um nível médio do sistema e que seriam, justamente
por isso, mais proeminentes, uma vez que funcionam como um eixo de passagem, um
operador elementar. Nesse sentido, opto por me desfazer dos termos de
Lévi-Strauss, mas não de suas ideias, parece-me que a lógica motriz permanece.</p>

    <p>O cerne da questão é que as categorias usadas
para nomear um conjunto bem delimitado de seres, tais como <i>tapi’irã </i>(anta), <i>jãvi</i>
(jabuti), <i>mani’o</i> (mandioca), <i>pariri</i> (<i>Heliconea</i> sp.) etc., que podem ser enquadradas como espécie ou
gênero segundo a taxonomia ocidental e que podem ser subdivididas em categorias
menos abrangentes de acordo tanto com a classificação wajãpi como com a
científica, são operadores médios, pois articulam níveis distintos de abstração
e permitirem a transição entre diferentes domínios dos saberes e do cotidiano
wajãpi.<a style='mso-footnote-id:ftn15' href="#_ftn15" name="_ftnref15" title=""><sup>[15]</sup></a></p>

    <p>Ao ser transladado para práticas eficazes
(encantações e construção da pessoa), esse nível categórico mediano passa a
figurar como índice de categorias sensíveis como as de duro e mole, quente e
frio etc. Quando evocados nos enunciados agentivos, os índices equacionam
junção e disjunção entre distintos seres por meio de uma palavra eficaz.
Voltando aos exemplos etnográficos, o primeiro enunciado aproxima jaguar e
homem com o objetivo de afastar homem e <i>pariri</i>;
o segundo junta homem e <i>tãsï</i> para
operar uma cisão entre homem e <i>pariri</i>.
As frases das encantações intentam executar, por meio de índices, uma
transformação da moleza dos dentes humanos em dureza, da quentura em frieza e
do podre em são.</p>

    <p>Há mais cantos usados no tratamento da dor de
dente que reforçam esse procedimento. Pode-se evocar as qualidades dos dentes
de <i>ka’i</i> (mico, <i>Mico</i> ssp.), que são pontiagudos e duros, sendo capazes de furar
tabocas, ou referir-se à <i>uwa</i>
(caranguejo) cuja hipermoleza do aparelho bucal pode ser transferida aos dentes
enfermos fazendo-os caírem rapidamente para findar a dor.</p>

    <p>Toda a eficácia dessas encantações está, pois,
depositada sobre dois princípios: a potência agentiva da palavra e a
operacionalização de equações sensíveis por meio de índices que são elementos
agenciadores de afecções corporais.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As encantações para desmaio (<i>manomano</i>) também são emblemáticas desse
jogo de qualidades sensíveis via índices que compõem afecções. Eis dois trechos
de <i>jërõnïga</i> proferidos junto a um desfalecido:</p>

    <blockquote><i>“Ay kae penokõ jakãnopã remë&#8202;/&#8194;nomanoi, nomanoi”    <br>
</i>“Preguiça real que quando batemos na cabeça&#8202;/&#8194;não morre, não
morre”</blockquote>

    <blockquote>“Javi, jãvi, jãvi&#8202;/&#8194;nomanoi, nomanoi jakãnopã remë<i><sup>&nbsp;</sup></i>”    <br>
“Jabuti, jabuti, jabuti&#8202;/&#8194;não morre,
não morre quando batemos na sua cabeça”</blockquote>

    <p>Aqui, são evocados a
dureza da cabeça de preguiça &#8211; apresentada na dificuldade de matá-la com
uma cacetada &#8211; e a afamada resistência à morte de jabuti, uma vez que o
desmaio (<i>manomano</i>) é entendido como
um tipo de morte (<i>mano</i>), isto é, de
afastamento do princípio vital <i>-‘ã</i>. Note-se,
ainda, que os wajãpi possuem um longo ciclo de narrativas, consideradas por
eles como histórias para criança, onde jabuti, personagem principal, resiste
por sua sapiência e corporalidade (em especial por seu duro casco) a diversas
disputas e tentativas de assassinato. O jabuti é um índice da resistência à
morte, que é apreendido em distintas dimensões e contextos, tanto nas suas
desventuras narradas às crianças, como na prática quando é “coletado” pelas
famílias wajãpi, momento em que seu casco duro é apalpado, seu difícil
esquartejamento é sentido através do facão e o pulsar do coração do bicho já
dilacerado é observado.</p>

    <p>Nesse caso, não posso me furtar a desvelar um
jogo de oposições sensíveis recorrente: duro&#8202;/&#8202;mole ::
vida&#8202;/&#8202;morte, desdobramento notado por Lévi-Strauss (2004 [1964]:
184-186) ao tratar do tema da vida breve em um conjunto de mitos onde a morte
irrompe devido à resposta dos primeiros homens ao chamado da madeira (putrescível
e mole) e não ao da rocha (imperecível e dura).</p></font>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">Boca mole, braço duro</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>Mas, como nos ensina Lévi-Strauss, as oposições nas cosmologias
ameríndias não são fixas, muito menos possuem valor absoluto. Assim sendo,
duro&#8202;/&#8202;mole podem assumir valores distintos em outro feixe de relações
e articular-se a outras dualidades concretas. É isso que ocorre quando notamos
sua operacionalização na construção de corpos capazes de conhecer.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Tema extenso e complexo, a construção da
pessoa wajãpi envolve vários mecanismos (Gallois 1988; Rosalen 2005; Cabral de
Oliveira 2012): resguardos, controle da alimentação, ensinamentos, picadas de
formigas etc. Focar-me-ei em alguns desses
procedimentos, os quais conformam um conjunto aberto e diversificado de formas
de capacitar corpos-pessoas a aprender.</p>

    <p>A capacidade de falar é construída na infância
por meio de algumas dessas práticas. Uma das mais difundidas é a ingestão de
língua de japiim (<i>Corvídea</i> sp.), ação
que é realizada juntamente com uma fórmula enunciativa: “<i>eporegeta katu japu vo kene</i>” [“fale bem como japiim”]. Ave famosa
por imitar outros pássaros, intenta-se por meio de uma aproximação parcial com
japiim (ingestão da língua) e de uma fala eficaz transmitir a capacidade desse
pássaro à criança, para que ela possa aprender línguas estrangeiras facilmente.</p>

    <p>O rito de picadas de formigas <i>tapija’i </i>também pode realizar a
capacitação para o falar bem (de modo eloquente) ou para aprender outro idioma.
As ferroadas marcam o final
da reclusão da menarca &#8211; momento em que a púbere sai de sua casa, para
que ocorra a aplicação sobre seu corpo das tramas de palha repletas de
formigas, todas presas com os ferrões na mesma face. Nessa &shy;circunstância,
além da jovem, as demais crianças da aldeia recebem algumas picadas, mas só
devem aplicar as formigas os sabidos: as mulheres que &shy;trabalham bem nas
roças, os bons caçadores, os bons artesões, as boas tecelãs, aqueles que falam
e cantam bem, pois tais capacidades serão transmitidas por meio das ferroadas.
Por esse motivo fui exortada a picar diversas crianças para que viessem a
aprender o português tão bem quanto eu. Da mesma forma fui eu picada por homens
e mulheres mais velhas na esperança de vir a falar a língua wajãpi.</p>

    <p>A capacidade de aprendizado de um idioma
estrangeiro é qualificada pelos wajãpi em termos de rigidez e maleabilidade da
língua. Ao se referirem a minha suposta facilidade em aprender o wajãpi, era
comum que dissessem: “<i>Nejuru savevojë
porëgeta</i>” [“Sua boca é mole&#8202;/&#8202;suave para falar”]. Assim como
muitos wajãpi justificam sua suposta dificuldade com o português devido à
dureza de seu aparelho fonador: “<i>Nakuwai
karai ayvu, ejuru ãtã</i>!” [“Não sei a fala dos brancos, minha boca é dura!”];
“<i>Janepekõ ãtã</i>” [“Nossa língua é
dura”]. Para falar bem é preciso ter uma boca e língua maleáveis, que se dobrem
frente aos fonemas do estrangeiro. Todavia, se a capacidade de falar novos
idiomas passa pela construção de uma boca e língua moles, qualidade transmitida
por meio da proximidade parcial e controlada com uma alteridade (um forasteiro
ou uma ave), outras habilidades requerem um corpo duro.</p>

    <p>Durante um de meus campos, ao chegar a uma
nova aldeia minha anfitriã veio apresentar-me uma de suas filhas, a qual
possuía algum problema de nascença. Ela me disse: “<i>Ememyry notekokuwai katu. Ijyva nokuwai mani’o kyry</i>” [“Minha filha
não entende bem. O seu braço não sabe ralar mandioca”]. Segundo a mãe, os
braços dela eram fracos e moles (<i>savevojë</i>)
e por isso eram inaptos ao trabalho de ralar. Os braços devem ser duros e
fortes para o processamento da mandioca, assim como as pernas devem ser
robustas, rígidas e potentes para suportar as longas caminhadas e o peso dos <i>panakõ</i> (as mochilas feitas de folha de
açaí).</p>

    <p>Certa feita, enquanto observava Pisika
destrinchando uma anta, ela convocou seus netos: “<i>Ejo tapoanõ epary</i>” [“Venham meus netos, para eu lhes passar
unguentos”]. Enquanto as crianças a rodeavam, ela esfregou a mão no humor
melado do joelho de anta e untou os tornozelos e canelas de seus netos
repetindo a frase: “<i>Ene kasia’y panakõ
movy</i>” [“Você seja forte ao carregar <i>panakõ</i>”].
Eu lhe indaguei sobre o motivo de tal ação e ela explicou: “<i>Ikasi omovy panakõ. Yvytyry remë nikaneõi,
nimarai ata. Awï vo tapi’ira</i>” [“Eles serão fortes para carregar <i>panakõ</i>. Nas montanhas não se cansarão,
não se acidentarão. Tal como a anta”].</p>

    <p>A anta, maior mamífero da Amazônia, por sua
conhecida habilidade de subir montanhas carregando seu tamanho excessivo,
apresenta-se como um índice das capacidades de aguentar peso e de se deslocar
facilmente, atributos muito valorizados pelos wajãpi. Não por acaso a velha
Psika recorreu a uma consubstanciação parcial de seus netos com a anta. Como em
tantos outros procedimentos de capacitação e construção de corpos, conjuga-se
uma proximidade entre elementos devido a suas qualidades comportamentais e
sensíveis; nesse caso, tais aspectos são operacionalizados como afecções
juntamente com uma fala eficaz.</p>

    <p>As qualidades sensíveis da anta fazem dela,
aliás, um excelente índice de intensidade e grandeza: o enorme peso para se
transportá-la quando morta, o que requer que o caçador vá buscar ajuda na
aldeia; a farta quantidade de carne, que é largamente distribuída; o grande
volume de fezes que é retirado de suas tripas durante o esquartejar; o odor
excessivamente fétido emanado dessa operação; e seu robusto e forte corpo &#8211;
tudo em exagero.</p>

    <p>Tapir, assim como os outros animais e plantas
aqui mencionados, constitui um índice que condensa em si diversas qualidades
sensíveis, as quais se prestam tanto para operar transformações eficazes (como
em sua participação na elaboração de corpos-pessoas), como para categorizar e
conceitualizar elementos do cosmos.</p>

    <p>Voltando ao âmbito das classificações
botânicas, note-se que <i>tapi’irã</i>
(anta) compõe o epíteto de algumas variedades de cultivares: <i>nãnã tapi’irã</i> [abacaxi-anta], variedade
de abacaxi que fornece grandes frutos; <i>asikaru
tapi’irã</i> [cana de açúcar anta], variedade de cana que possui caules mais
grossos; a árvore <i>tapi’irã yvyra </i>[árvore
anta], assim denominada pelo seu enorme
porte etc.</p></font>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">Categorias, índices e afecções: execuções da lógica do sensível</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>A opção por denominar determinadas
qualidades sensíveis, tais como a dureza, ora como categoria, ora como afecção
&#8211;&nbsp;oscilação que não deve ter passado despercebida ao
leitor&nbsp;&#8211; deve-se ao intuito de marcar contextos distintos de
operacionalização dessas qualidades. Se nos encantamentos, nos processos de
capacitação para o aprendizado e na fabricação de pessoas apropriadamente
humanas a ideia de afecção ganha relevo, no âmbito das classificações e dos
saberes ordinários a proeminência é da noção de categoria
(classe, grupo). O que se pretende
marcar com tal léxico é a distinção entre situações em que o potencial agentivo
dos habitantes do mundo produz transformações e os momentos em que tais seres
são apenas apreciados quanto às suas qualidades, sem afetarem os corpos
daqueles que lidam com eles.</p>

    <p>Ainda que se opte por marcar uma distinção
entre dois conjuntos de contextos de enunciação e operacionalização das
qualidades sensíveis, ambos estão intimamente conectados. De forma paradoxal, a
opção por produzir tal cisão parece útil para qualificar as relações que os
unem de maneira imiscuída &#8211; afinal, é preciso diferenciar para
relacionar.</p>

    <p>Se, nas atividades como a derrubada da roça, o
ralar mandioca, o esquartejar um jabuti ou uma preguiça, a dureza dos elementos
é depreendida de uma prática onde o corpo dos homens e tais seres se engajam
mutuamente, possibilitando categorizar mandiocas ou árvores como duras e não
duras, constatar a resistência à morte de um jabuti ou a rigidez da cabeça de
uma preguiça, em outros momentos a dureza passa a figurar como elemento para
constituir o corpo dos homens, torna-se afecção ao produzir transformações por
meio da mistura de corpos.</p>

    <p>Tais transformações são executadas sempre a
partir de um nível elementar de categorização, o qual está a meio caminho entre
categorias mais inclusivas (genéricas) e categorias mais restritas
(específicas) que têm como polo extremo os indivíduos (os espécimes). Ao ser
agenciado para uma produção controlada de transformações, esse nível elementar opera
como índice e eclipsa uma série de qualidades sensíveis dispostas em cascata. A
noção de “imagem quimérica” de Severi (2013, ver também Severi e Lagrou 2013)
parece guardar alguma semelhança com a noção de índice que estou empregando
aqui. Tomando os grafismos indígenas (em especial dos Wayana, grupo vizinho e
relacionado aos wajãpi por diversos eixos) como uma representação quimérica,
Severi aponta para a presença de uma extensão invisível nesses desenhos; a
imagem quimérica “[…] se caracteriza pela condensação da imagem em alguns
traços essenciais. […] Aquilo que pode ser visto é considerado, implicitamente,
uma parte de outra forma, cuja presença é imputada e eventualmente
representada” (Severi 2013: 26). Um dos efeitos dessas operações quiméricas é a
intensificação do que não é visto ou, para ser coerente aos dados evocados pela
etnografia wajãpi, do que não é percebido e captado pelos sentidos. Como também
aponta Kohn (2013), o índice significa mais do que ele representa. Em suma,
parece que os índices são eminentemente agentivos devido à sua característica
de condensação de qualidades sensíveis e de um eclipsamento que permitem que os
dentes do jaguar, por exemplo, possam ser percebidos por uma série de
qualidades que não estão evidentes, ou seja, seguindo a noção de Severi, que se
estendem para além do que é dado a perceber. Os dentes de jaguar em sua
dimensão índice &#8211;&nbsp;que transforma corpos&nbsp;&#8211; tem uma relação
de contiguidade (metonímica) com seu referente e dessa forma produz uma
agência.<a style='mso-footnote-id:ftn16' href="#_ftn16" name="_ftnref16"
title=""><sup>[16]</sup></a></p>

    <p>Mas a dureza dos dentes de jaguar e da pedra <i>tãsï</i> (quartzo) não produz transformações
nos seres que dela se aproximam o tempo todo, mas apenas em determinadas
circunstâncias em que são operados como índice concreto para agenciar uma
modificação através da mistura de corpos, momento em que a dureza, frieza e
perenidade se apresentam como afecções. Nesse contexto, a ontogênese de jaguar
e dos homens é evocada e conectada a uma ação ou, para falar nos termos da
discussão de Lévi-Strauss em <i>O Pensamento
Selvagem</i>, se estabelece uma conexão entre mito e rito, entre classificação
e ação.</p>

    <p>A fala ocupa nesses processos uma posição
central, uma vez que para os wajãpi ela é essencialmente eficaz e agentiva, é
ela que dispara a ação. Além disso, é papel da fala recortar os aspectos de
interesse na composição de capacidades e de características de corpos humanos.
Num mundo onde a transformação é eminente, é perigoso estabelecer relações de
consubstanciação completa com outros seres, pois arriscar-se-ia uma metamorfose
sem volta.<a style='mso-footnote-id:ftn17' href="#_ftn17" name="_ftnref17"
title=""><sup>[17]</sup></a> Por isso, as falas enunciam
o aspecto que se deseja recortar para a composição da pessoa: a dureza de <i>tãsï</i>, a resistência da anta, a
maleabilidade da língua de japiim, e assim por diante. Trata-se da construção
da pessoa por meio de uma composição de afecções de outros sujeitos (humanos e
não humanos).<a style='mso-footnote-id:ftn18' href="#_ftn18" name="_ftnref18"
title=""><sup>[18]</sup></a></p>

    <p>Enfim, é por meio da palavra, tanto em seu
aspecto eficaz como em seu caráter nominalizador (de rotular categorias), que
se manipulam as qualidades sensíveis de diferentes seres para produzirem
alterações controladas que operam por meio de uma lógica do sensível, a qual
perpassa e conecta os diferentes contextos aqui abordados. De um lado temos uma
concepção de fala que permite unir classificação e ação. De outro, a lógica do
sensível que também entrelaça taxonomia e agência, conectando sujeito e mundo
duplamente: em um sentido, é o sujeito que age sobre um mundo, apreendendo
corporal e intelectualmente as qualidades sensíveis dos entes que o povoam; em
sentido oposto, são tais entes, em sua concretude, que atuam sobre os sujeitos,
transformando-os. A relação sujeito-mundo se comunica e se altera mutuamente
pelo concreto, pelo sensível, e por uma palavra que age.</p>

    <p>Contudo, a fala (a palavra) não deve ser
entendida como um viés exclusivo, de maneira a ocupar uma posição privilegiada
na comunicação entre essa miríade de sujeitos. Apostando na ideia de
comunicação em um sentido alargado, tal como propõem Bateson (1986) e
recentemente Kohn (2013), ou seja, para além da linguagem articulada, a
comunicação pode abarcar o próprio jogo sensível que se dá nas relações
interespecíficas. Cada sujeito apresenta suas características e afecções,
aspecto que pauta tanto os modos de relação como a ação. Voltando a
Lévi-Strauss, a ciência do concreto não é arbitrária como a relação entre
significante e significado na língua; os animais, plantas e pedras são
conhecidos num processo de engajamento minucioso entre humanos e não humanos;
cada ente que compõe os enunciados eficazes, os mitos etc. é escolhido com
precisão, em uma relação de contiguidade (metonímica). Assim, os homens se
afetam, se dobram frente às especificidades de um japiim, de um jabuti, de uma
helicônea que, assim, operam como sujeitos da relação.</p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p></font>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">Bibliografia</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <!-- ref --><p>BATESON, Gregory, 1986, <i>Mente e Natureza: Uma Unidade Necessária</i>.
Rio de Janeiro, Francisco Alves.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191427&pid=S0873-6561201600010000700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>BERLIN, Bert, 1992, <i>Etnobiological Classification</i>. Princeton, Princeton University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191429&pid=S0873-6561201600010000700002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>CABRAL DE OLIVEIRA, Joana, 2006, <i>Classificações em Cena: Algumas Formas de
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dissertação de mestrado.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191431&pid=S0873-6561201600010000700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>CABRAL DE OLIVEIRA, Joana, 2008,
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    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>CABRAL DE OLIVEIRA, Joana, 2012, <i>Entre Plantas e Palavras</i>. São Paulo,
Universidade de São Paulo, tese de doutorado.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191435&pid=S0873-6561201600010000700005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>GALLOIS, Dominique T., 1986, <i>Migração, Guerra e Comércio:
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    <!-- ref --><p>GALLOIS, Dominique T., 1988, <i>O Movimento na Cosmologia Waiapi: Criação, Expansão e Transformação
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    <!-- ref --><p>GALLOIS, Dominique T., 1993, <i>Mairi Revisitada: A Reitegração da Fortaleza de Macapá na Tradição
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    <!-- ref --><p>GELL, Alfred, 1998, <i>Art and Agency: An Anthropological Theory.</i> Oxford, Clarendon Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191443&pid=S0873-6561201600010000700009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>HARAWAY, Donna, 2003, <i>The Companion Species Manifesto: Dogs, People and Significant Otherness</i>.
Chicago, Prickly Paradigm Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191445&pid=S0873-6561201600010000700010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>HUNN, Eugene S., 1977,<i> Tzeltal Folk Zoology: The Classification of Discontinuities in Nature.</i>
Nova Iorque, Academic Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191447&pid=S0873-6561201600010000700011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>INGOLD, Tim, 2000, <i>The Perception of the Environment: Essays on Livelihood, Dwelling and
Skill</i>. Londres, Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191449&pid=S0873-6561201600010000700012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>INGOLD, Tim, 2010, “Da transmissão de
representações à educação da atenção”, <i>Educação</i>,
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    <!-- ref --><p>KECK, Frédéric, 2004, <i>Lévi-Strauss et la pensée sauvage</i>. Paris, Presses Universitaires de
France.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191453&pid=S0873-6561201600010000700014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>KOHN, Eduardo, 2013, <i>How Forests Think: Toward an Anthropology beyond the Human</i>.
&shy;Berkeley, University of California Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191455&pid=S0873-6561201600010000700015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>LAKOFF, George, 1990, <i>Women, Fire and Dangerous Things: What Categories Reveal about the
Mind.</i> Chicago, The University of Chicago Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191457&pid=S0873-6561201600010000700016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>LÉVI-STRAUSS, Claude, 1970 [1962], <i>O Pensamento Selvagem.</i> São
Paulo, Editora da Universidade de São Paulo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191459&pid=S0873-6561201600010000700017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>LÉVI-STRAUSS, Claude, 2004 [1964], <i>O Cru e o
Cozido.</i> São Paulo, Cosac Naify
.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191461&pid=S0873-6561201600010000700018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MACEDO, Valéria M. de, 2009, <i>Nexos da Diferença: Cultura e Afecção em Uma
Aldeia Guarani na Serra do Mar</i>. São Paulo, Universidade de São Paulo, tese
de doutorado.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191463&pid=S0873-6561201600010000700019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>RAPINI, Alessandro, 2004, “Classes or individuals? The paradox of systematics revised”, <i>Studies in History and Philosophy of Biological
and Biomedical Sciences</i>, 35:
675-695.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191465&pid=S0873-6561201600010000700020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>ROSALEN, Juliana, 2005, <i>Aproximações à Temática das DST junto aos Wajãpi
do Amapari: Um Estudo sobre Malefícios, Fluidos
Corporais e Sexualidade. </i>São Paulo, Universidade de São Paulo, dissertação
de mestrado em Antropologia Social.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191467&pid=S0873-6561201600010000700021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>SAUSSURE, Ferdinand, 1995 [1916], <i>Curso de Lingüística
Geral</i>. São Paulo, Cultrix.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191469&pid=S0873-6561201600010000700022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>SEVERI, Carlo, 2013, “O espaço quimérico:
percepção e projeção nos atos do olhar”, em Carlo Severi e Els Lagrou (orgs.), <i>Quimeras em
Diálogo: Grafismo e Figuração nas Artes Indígenas</i>, Rio de Janeiro,
7&nbsp;Letras, 25-66.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191471&pid=S0873-6561201600010000700023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>SEVERI, Carlo, e Els LAGROU,
2013, “Introdução”, em
Carlo Severi e Els Lagrou (orgs.),
<i>Quimeras em Diálogo: Grafismo e Figuração
nas Artes Indígenas</i>. Rio de Janeiro, 7&nbsp;Letras, 11-24.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=191473&pid=S0873-6561201600010000700024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p></font>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">NOTAS</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">

    <p><a style='mso-footnote-id:ftn1' href="#_ftnref1"
name="_ftn1" title=""><sup>[1]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Uma
primeira versão desse artigo foi elaborada no âmbito do projeto temático “Redes Ameríndias”. Agradeço muito
a toda a equipe do projeto, em especial às coordenadoras Dra.&nbsp;Dominique
T.&nbsp;Gallois e Dra.&nbsp;Beatriz Perrone-Moisés, bem como à Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) pelo financiamento. Sou muito
grata a Valéria Macedo e Pedro Lolli, com quem dividi e discuti as questões
aqui abordadas. Agradeço por fim aos pareceristas pelos apontamentos
e comentários pertinentes.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn2' href="#_ftnref2"
name="_ftn2" title=""><sup>[2]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entre mestrado e pós-doutorado, ao todo
foram, aproximadamente, 16 meses de pesquisa de campo.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn3' href="#_ftnref3"
name="_ftn3" title=""><sup>[3]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; “O signo linguístico une não uma coisa e uma
palavra, mas um conceito e uma imagem acústica. Esta não é o som
material, coisa puramente física, mas a impressão (<i>empreinte</i>) psíquica desse som, a representação que dele nos dá o
testemunho de nossos sentidos” (Saussure 1995 [1916]:&nbsp;80).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn4' href="#_ftnref4"
name="_ftn4" title=""><sup>[4]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Além
de caracterizar o pensamento
selvagem, a forma do texto e do argumento
de Lévi-Strauss fazem operações
semelhantes: ao opor as figuras do <i>bricoleur</i>
e do engenheiro, o autor produz uma explicação
por meio de signos e não de conceitos.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn5' href="#_ftnref5"
name="_ftn5" title=""><sup>[5]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No original: “Le
bricoleur lévi-straussien est un esthète: il combine
des parties de la matière sensible en vue de leur faire produire des
agencements toujours nouveaux, pour simple plaisir de la combinaison” (Keck 2004:&nbsp;50).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn6' href="#_ftnref6"
name="_ftn6" title=""><sup>[6]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Árvore
não identificada.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn7' href="#_ftnref7"
name="_ftn7" title=""><sup>[7]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Há
uma densa discussão acerca das categorias denominadas <i>life form</i>, tal como
árvore, cipó, arbusto etc. (Berlin 1992; Hunn 1977) que não irei
recuperar aqui. Contudo, vale pontuar que tais categorias aparecem em um dos
sistemas de classificação wajãpi, o qual se estrutura por critérios
morfológicos. Ainda que tais categorias de “forma de vida” se apresentem, elas
só operam com as plantas não cultivadas, ou seja, são internas à categoria <i>temitãe’ã</i>. Há assim uma diferença na
classificação de plantas cultivadas e não cultivadas que reflete em sistemas
distintos, os quais são fundados por princípios diversos, algo que reafirma a
importância dessa cisão entre plantado e não plantado
para os wajãpi.</p>



    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a style='mso-footnote-id:ftn8' href="#_ftnref8"
name="_ftn8" title=""><sup>[8]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para mais exemplos desse léxico e seu uso,
ver Cabral de Oliveira (2006:&nbsp;180-184).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn9' href="#_ftnref9"
name="_ftn9" title=""><sup>[9]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Vale notar que em meu
levantamento cheguei a um total de mais de cem nomes de variedades de mandioca, havendo mesmo algumas
mulheres que podem chegar a ter por volta de vinte em suas roças.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn10' href="#_ftnref10"
name="_ftn10" title=""><sup>[10]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Traduzido
do original em inglês: “[…]
conceptual systems grow out of bodily experience and make sense in terms of it, the core of our conceptual systems is directly
grounded in perception, body movement,
and experience of physical
and social character” (Lakoff
1990:&nbsp;xiv).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn11' href="#_ftnref11"
name="_ftn11" title=""><sup>[11]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; As colocações
de uma mente encorporada, somada aos dados
apresentados aqui, podem conduzir apressadamente à conclusão de que
há um primado
do ambiente sobre o corpo. Entretanto, os wajãpi
possuem uma série de falas eficazes que agem sobre o mundo, garantindo, por
exemplo, o sucesso de suas plantações, o afastamento de cobras e onças etc.
(Cabral de Oliveira 2012). Esse conjunto de falas eficazes apresenta uma
inversão desse primeiro movimento descrito (de um mundo que molda um corpo, que
impõe um saber).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn12' href="#_ftnref12"
name="_ftn12" title=""><sup>[12]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Gallois (1988) aponta uma diferenciação
entre dois tipos de cantos,
em relação ao que chamo e grafo (acompanhando a grafia estabelecida pelos professores wajãpi) como <i>jërõnïga</i>: “<i>wyrõ-jinga</i>” que seriam
os cantos de cura e “<i>jirõ-jinga</i>” que seriam
cantos de agressão (feitiço). Como em meu campo não conheci essa diferenciação,
nem ouvi falar de cantos agressivos, provavelmente por ser esse um tipo de
saber perigoso, atribuído sempre a outros, como nos mostra a autora, não trato
dessa diferenciação. A autora também transcreve alguns desses cantos de
proteção e cura. Para mais detalhes, ver Gallois (1988: 281 e apêndice&nbsp;4).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn13' href="#_ftnref13"
name="_ftn13" title=""><sup>[13]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; <i>Taivïgwerã</i> pode
ser traduzido também como “antepassados
genéricos”, na medida em que não se conhecem
seus nomes e relações genealógicas. Entretanto, como apontou Gallois (1993:
23-25), esse termo deve ser compreendido também como um “conceito de
temporalidade”, podendo ser entendido como um contexto de transmissão: quando
homens e animais falavam uma
mesma língua.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn14' href="#_ftnref14"
name="_ftn14" title=""><sup>[14]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Outra escolha
narrada é a recusa dos <i>taivïgwerã</i> de entrarem em um
caldeirão de água fervente,
tal como <i>janejarã</i> lhes sugere. As cobras não temem
a quentura e entram na água fervente, o que lhes rende a imortalidade e o
rejuvenescimento por meio da troca de pele.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn15' href="#_ftnref15"
name="_ftn15" title=""><sup>[15]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esses táxons
(<i>tapi’irã</i>, <i>jãvi</i> e <i>mani’o</i>), entre outros, podem ser
subdivididos em categorias menos inclusivas (como espécie, subespécie e variedade): <i>jãvi ee</i> (jabuti mesmo) e <i>jãvi wasu</i> (jabuti grande); <i>mani’opirã</i> (mandioca vermelha), <i>mani’o tawa</i> (mandioca amarela), <i>mani’o yvyra</i> (mandioca árvore) e assim por diante.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn16' href="#_ftnref16"
name="_ftn16" title=""><sup>[16]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Essa
relação entre a noção de “representação quimérica” de
Severi e a forma como descrevo
os índices, foi apontada por um dos pareceristas
desse artigo, a quem sou muito grata pelo apontamento preciso.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn17' href="#_ftnref17"
name="_ftn17" title=""><sup>[17]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os wajãpi
possuem um estado, denominado -<i>awyry</i>, no qual uma pessoa
perde gradualmente sua perspectiva
humana-wajãpi, passando a habitar o mundo de <i>moju</i> (sucuri). Essa situação é
atribuída ao roubo do princípio vital (-<i>‘ã</i>),
operado por <i>moju</i> em retaliação pelo
descumprimento de algum resguardo por parte da vítima (Cabral de Oliveira
2012). O estado -<i>awyry</i> se assemelha
ao -<i>jepota</i> dos guarani mbya que, tal
como discutido por Macedo (2009), trata-se da transformação de uma pessoa
guarani em bicho, normalmente onça.</p>



    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a style='mso-footnote-id:ftn18' href="#_ftnref18"
name="_ftn18" title=""><sup>[18]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp; A respeito
das afecções de sujeitos humanos, note-se que os wajãpi possuem muitos procedimentos de transmissão substancial de capacidades entre parentes, tais como
passar suor em uma criança
para que ela seja trabalhadora como o dono do suor, colocar
a saliva de um bom cantador na boca de um neófito para que ele possa um
dia apreender a cantar bem etc.</p></font>

     ]]></body><back>
<ref-list>
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<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[BATESON]]></surname>
<given-names><![CDATA[Gregory]]></given-names>
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