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<publisher-name><![CDATA[Centro em Rede de Investigação em Antropologia - CRIA]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Entidades espirituais: materializações, histórias e os índices de suas presenças]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Spiritual entities: materializations, histories, and the index of their presences]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade Federal da Bahia Departamento de Antropologia e Etnologia ]]></institution>
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<fpage>211</fpage>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The review suggests some appropriations of two recently edited volumes - The Social Life of Spirits (2014) e Spirited Things: The Work of “Possession” in Black Atlantic Religions (2014) - focusing on the central debates around and through which the effects, the agency and the presence of spiritual entities are thought in the chapters of both books. In the discussion of spiritual entities, three subjects are highlighted: materiality, history, and the operation of semiotics regimes through which indexes of spiritual presences are thought, conceptualized and defined by humans.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[espíritos]]></kwd>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[possessão]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ 
    <p align="right"><font size="2" face="Verdana"><b>ARGUMENTO</b></font></p>

    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="4" face="Verdana">Entidades espirituais: materializações,
  histórias e os índices de suas presenças</font></b></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">Spiritual entities: materializations, histories, and the index of their
presences</font></b></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p>&nbsp;</p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p><b>Marcelo Moura Mello<sup>I</sup></b></p>

    <p><sup>I</sup>Departamento
de Antropologia e Etnologia,
UFBA, Brasil. <i>E-mail</i>: <a
href="mailto:mmmello@gmail.com">mmmello@gmail.com</a></p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
    <p>&nbsp;</p>
<hr noshade size="1">
    <p><b>RESUMO</b></p>

    <p>O ensaio sugere apropriações possíveis de duas coletâneas
recentes &#8211; <i>The Social Life of Spirits </i>(2014) e <i>Spirited Things: The Work of “Possession” in
Black Atlantic Religions </i>(2014) &#8211;, destacando os debates centrais em
torno &#8211; e por meio &#8211; dos quais os efeitos, a agência e as presenças
de entidades espirituais são pensados nos capítulos que compõem as obras. Na
discussão de entidades espirituais, três temas são destacados: a materialidade,
a história, e a operação de regimes semióticos por meio dos quais índices de
presenças espirituais são pensados, conceituados e definidos pelos humanos.</p>

    <p><b>Palavras-chave</b>: espíritos, materialidade, história,
possessão</p>
<hr noshade size="1">
    <p><b>ABSTRACT</b></p>

    <p>The review suggests some appropriations of
two recently edited volumes &#8211; <i>The
Social Life of Spirits</i> (2014) e <i>Spirited
Things: The Work of “Possession” in Black Atlantic Religions</i> (2014) &#8211;
focusing on the central debates around and through which the effects, the
agency and the presence of spiritual entities are thought in the chapters of both
books. In the discussion of spiritual entities, three subjects are highlighted:
materiality, history, and the operation of semiotics regimes through which
indexes of spiritual presences are thought, conceptualized and defined by
humans.</p>

    <p><b>Keywords</b>: spirits, materiality,
history, possession</p></font>
<hr noshade size="1">
    <p>&nbsp;</p>
    <p>&nbsp;</p>

<font size="2" face="Verdana">

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>BLANES, Ruy, e Diana ESPÍRITO
SANTO (orgs.), 2014, <i>The Social Life of
Spirits</i>. Chicago, The University of Chicago Press, 305 pp.</p>
    <p>JOHNSON, Paul (org.), 2014, <i>Spirited
  Things: The Work of “Possession” in Black Atlantic Religions</i>. Chicago, The
University of Chicago Press, 334 pp.</p>
    <p>Este ensaio delineia apropriações possíveis
  de duas coletâneas recentes, <i>The Social
    Life of Spirits</i> (doravante, SLS),
  organizado por Ruy &shy;Blanes e Diana Espírito
  Santo (2014), e <i>Spirited Things: The Work
    of Possession in Black Atlantic Religions</i> (doravante,
  ST), volume compilado pelo antropólogo e historiador Paul
  Christopher Johnson (2014).<a style='mso-footnote-id:ftn1' href="#_ftn1"
name="_ftnref1" title=""><sup>[1]</sup></a> As dificuldades de se
  escrever um artigo bibliográfico sobre coletâneas são bem conhecidas:
  variabilidade nas orientações teórico-metodológicas, oscilações qualitativas
  entre os capítulos, vocabulário técnico heteróclito, objetivos distintos e
  eventuais descompassos entre aquilo que é proposto pelos organizadores das
  coletâneas e o que é levado a cabo por colaboradores. Embora existam pontos de
  convergência evidentes entre as obras, como a atenção conferida à possessão
  espiritual, opta-se por destacar, inicialmente, duas temáticas mais amplas: a
  da materialidade e a da história. Ver-se-á que uma questão transversal a vários
  capítulos é a exploração etnográfica de regimes semióticos por meio dos quais
  presenças espirituais são pensadas, conceituadas e debatidas nos encontros de
  humanos com entidades espirituais. Essa ênfase visa, sobretudo, superar
  antinomias consolidadas no pensamento antropológico e romper com análises que
  concebem espíritos, meramente, como representações, esquemas mentais ou
símbolos.</p></font>
    <p>&nbsp;</p>

    <p><b><font size="3" face="Verdana">Materialidade
e história: índices da
presença espiritual</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    <p>É sabido que mortos, espíritos e ancestrais ocuparam um lugar de
destaque na produção antropológica já nos primórdios da disciplina, desde as
teorizações de Tylor (1871) até monografias pioneiras, como a de Malinowski
(1988 [1916]). Não obstante, as tentativas de pensar os efeitos e as ações de
entidades espirituais, bem como seu íntimo entrelaçamento com a vida de humanos
em diversos espaços de experiência, foram, não raro, formuladas em domínios
especializados. Na esteira de estudos recentes da antropologia da religião que
colocam em questão a própria rentabilidade da categoria religião, pela
apropriação criativa de vocabulário técnico heteróclito e por meio da inserção
dos problemas relativos a, e colados por, entidades espirituais no centro de
grandes preocupações teóricas contemporâneas, os capítulos de SLS e ST
embaralham, no bom sentido do termo, os métodos, os conceitos e as teorias mobilizados
para situar, teórica e empiricamente, entidades espirituais no âmbito da
prática antropológica.</p>

    <p>Cobrindo um amplo espectro etnográfico &#8211;
do Chaco argentino à Mongólia, de Cuba à Amazônia, do Caribe à Zâmbia, dos
Estados Unidos ao Nordeste brasileiro &#8211;, ambas as coletâneas tratam, às
vezes por meio de pesquisa documental, de xamanismo, de encantados, de
neopentecostalismo e de religiões afro-americanas. Contrariando o que se pode
imaginar, os livros, salutarmente, não confinam a análise à delimitação de
identidades e filiações religiosas, tampouco à descrição de cosmologias e
sistemas de crenças. Essa postura metodológica e teórica é bem evidenciada em
capítulos como o de Vânia Cardoso (SLS), no qual a macumba no Rio de Janeiro é
tratada como uma socialidade inextricavelmente marcada pela presença de
espíritos que atravessam fronteiras entre o ritual e o cotidiano, o sagrado e o
mundano, o passado e o presente, o privado e o público, o real e o imaginário.
A macumba é pensada, então, como um modo de percepção, de imaginação e de
engendramento de um cotidiano imbuído da presença de espíritos, e não em termos
de uma identidade religiosa (SLS:&nbsp;94-95).</p>

    <p>Com efeito, o vocabulário conceitual da
antropologia é posto à prova insistentemente nos dois livros. Tanto na
introdução a ST quanto em sua contribuição à obra (capítulo&nbsp;1), Paul
Johnson esboça uma genealogia histórica e político-econômica da possessão
espiritual no Atlântico, traçando temas, encontros, lugares e momentos nos
quais essa categoria foi forjada, destacada de contextos particulares,
universalizada e amplamente replicada em histórias, etnografias e mesmo nas
esferas rituais. Segundo o autor, a categorização da possessão espiritual fez
recurso a ideias europeias sobre propriedade, contrato, pessoalidade e
sociedade, emergindo na metade do século XVII, contexto no qual surgiram novas
ideias sobre o Estado, a política nacional e os indivíduos. Empregando
continuamente jogos de palavras com o termo inglês <i>possession</i>, Johnson (ST:&nbsp;35) nota que a categoria possessão
espiritual &#8211; a posse (<i>possession</i>),
ou ocupação de um corpo por agentes invisíveis &#8211; emergiu de uma relação
analógica com possessões materiais, de terras e de pessoas por sujeitos civis
concebidos enquanto indivíduos racionais capazes de possuir coisas e seres
humanos, ao invés de serem possuídos por entes imateriais. Nessa conjuntura
político-econômica e material, assentada na exploração colonial e na
escravização de pessoas, a possessão figurou, para os europeus, como índice da
ausência de um <i>self</i> apropriadamente
autocontido por aqueles suscetíveis de terem seus corpos possuídos por
espíritos e por outras pessoas humanas (ST:&nbsp;1-5).</p>

    <p>Na perspectiva de Johnson, tanto as
classificações antropológicas acerca da possessão espiritual quanto práticas contemporâneas
de religiões afro-atlânticas são tributárias de encontros entre noções
europeias e africanas, remetendo ao regime escravista, no qual significações
atribuídas às relações de posse, sujeição e autonomia entre deuses, coisas,
corpos e pessoas se (re)formaram (ST:&nbsp;5). Embora o argumento seja
instigante e bem fundamentado, há problemas na argumentação de Johnson, alguns
dos quais tratados por Michel &shy;Lambek (ST:&nbsp;259) no capítulo final do
livro. Lambek coloca questões pertinentes: até que ponto a possessão espiritual
é moldada pela experiência da escravidão ou concebida em analogia a ela? Em que
medida a possessão espiritual deve ser entendida como determinada pela política
e por forças econômicas? O foco privilegiado em boa parte das contribuições de
ST não é, como atesta Johnson, a “fenomenologia das experiências de possessão”
(ST:&nbsp;7), e sim os “encontros de noções europeias e africanas sobre a
possessão espiritual, as formas de relacionamento de religiões afro-atlânticas
com esse fenômeno e as classificações antropológicas acerca dessas práticas”
(ST:&nbsp;6). De todo modo, como notou Lambek no posfácio de ST, há filosofias
embebidas nos sistemas de possessão espiritual (ST:&nbsp;260) e a “polifonia
complexa” associada ao fenômeno não resulta de um mesmo encontro, na medida em
que o fetichismo da mercadoria e a escravidão podem ou não estar presentes nos
universos sociais relacionados à possessão (ST:&nbsp;264).<a style='mso-footnote-id:
ftn2' href="#_ftn2" name="_ftnref2" title=""><sup>[2]</sup></a>
Destaque-se, aliás, que Johnson reconhece a pertinência da crítica de Lambek,
ao notar, na introdução (ST:&nbsp;19) que o ato de ser possuído tece uma rede
de relações recíprocas que “mistura tropos de servidão, parceria, soberania,
etc.”</p>

    <p>Isso não exclui a possibilidade de haver
correlações entre a possessão espiritual e possessões materiais, tal como
sucede nos casos descritos, em ST, por Brazeal acerca da relação entre o
comércio de esmeraldas e a possessão na Bahia, e as articulações, tratadas por
Selka para o caso da Igreja Universal do Reino de Deus, entre autonomia
(libertação da possessão espiritual, da feitiçaria e da ação de demônios) e
acumulação (deter e conquistar a posse de bens materiais). Do mesmo modo, as
práticas neopentecostais no Haiti, analisadas por McAlister em ST, são marcadas
por tentativas de despossuir forças espirituais ancestrais firmemente
estabelecidas na terra por meio de rituais nos quais se revela uma dialética
entre possessão e desapossamento (ST:&nbsp;181). O que esses casos demonstram é
que as relações entre religião, economia, mercadorias, posse, propriedade, etc.
podem assumir contornos vários quando deslindadas etnograficamente.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O escrutínio da categoria possessão espiritual
segue outras vias no capítulo de Karen Richman acerca do vodu haitiano em ST.
Conquanto estudos sobre a possessão no Haiti assumam que a prática ritual é uma
poderosa expressão comunal dos laços entre espíritos e participantes, o enfoque
privilegiado na bibliografia especializada foi, segundo Richman, o das
&shy;transformações &shy;individuais, em detrimento das experiências coletivas
com ancestrais. Para Richman, negligenciou-se que a possessão é uma performance
corporal de interdependência entre membros vivos de um grupo de descendência,
membros mortos desse grupo e seus espíritos, os quais conectam memórias
familiares, inclusive de posse da terra (ST:&nbsp;207). Ademais, a fascinação
com a “imagética da possessão” no vodu obscureceu uma apreciação mais detalhada
de aspectos fundamentais da “comunicação corporificada” de haitianos com
espíritos (ST:&nbsp;207).</p>

    <p>Críticas à ênfase visualista na antropologia
como um todo (Fabian 1983; Taussig 1993) e no tratamento analítico dispensado à
possessão espiritual (Stoller 1995) não datam de hoje, e ambos os livros
avançam nesse tocante. No fascinante capítulo escrito por Stephan Palmié em ST
acerca dos usos de tecnologias sonoras para mediar, anunciar e amplificar o
poder dos espíritos de impingir a percepção sensorial humana, o autor trata das
convergências entre as “ideologias auditivas e fônicas de mediação do divino”
no ritual afro-cubano de <i>abakuá</i> e as
tecnologias de transmissão acústica através do tempo e espaço que
reconfiguraram os mundos auditivos ocidentais desde a segunda metade do século
XIX. Palmié chama a atenção para o fato de que rituais como o de <i>abakuá</i> consistem na criação de contextos
sociais nos quais o simples volume físico, ou o peso semiótico do som,
privilegiam a audição como uma modalidade sensorial proeminente em relação a
outros aspectos sensoriais (ST:&nbsp;58-60). A reprodução da voz de espíritos
dos mortos constitui, então, uma transformação sônica do mundo e de instanciação
espiritual propagada pelo alcance acústico de presenças espirituais
(ST:&nbsp;73-77).</p>

    <p>Entidades espirituais estão intimamente
atreladas ao que Kristina Wirtz cunhou, em ST, de “economia representacional da
presença espiritual”, ou seja, ordens semióticas e ontológicas que informam
como as pessoas humanas tomam certas coisas como representações de outras, como
signos ganham valor indicial como signos (ST:&nbsp;99). Esse aspecto é
fundamental, pois talvez as reflexões em torno dessas questões sejam as principais
contribuições de SLS e ST. Tome-se, inicialmente, os capítulos de Kristina
Wirtz em ambas as obras. Em ST, a autora explora as ordens semióticas e
ontológicas que informam como as pessoas tomam certas coisas como
representações de outras, como signos ganham valorações indiciais enquanto
signos das materializações espirituais. O reconhecimento da agência imaterial
dos espíritos requer um tipo especial de orientação sensorial que pressupõe o
inculcamento de uma “fenomenologia cultural específica” na qual os efeitos
materiais de agências espirituais
tornam-se experiências sensíveis (ST:&nbsp;100). Desse modo, as qualidades
perceptíveis de coisas podem servir como índices da presença espiritual e de
sua agência. Os aspectos tangíveis e sensoriais das instanciações materiais de
espíritos são fundamentais na medida em que, para os praticantes de religiões
afro-cubanas, o mundo material é entendido como permeável e animado por
espíritos (ST:&nbsp;107).</p>

    <p>Como argumenta em SLS, os espíritos manifestam
sua agência por meio de várias ordens de materialização (SLS:&nbsp;131). No
contexto trabalhado pela autora, esses seres são entendidos como presenças
fugazes que infundem objetos cotidianos e substâncias tratadas ritualmente, ou
que causam sensações e transformações corporais (SLS:&nbsp;133). Desse modo, as
manipulações de materiais e intervenções rituais são condições necessárias para
materializações espirituais. Em ST, Wirtz nota que ofertas materiais incluem
não apenas itens duráveis (e perecíveis) de objetos, animais e alimentos, mas
também oferendas mais efêmeras, mas igualmente materiais, como fumaça, cânticos
e músicas. Por meio dessas manipulações do mundo material circulam signos da
presença espiritual, cujas propriedades indiciais estimulam e moldam a
imaginação da vida social dos espíritos (SLS:&nbsp;118-119).</p>

    <p>Como bem notaram Espírito Santo e Tassi
(2013:&nbsp;3) na introdução a outra coletânea recente, cujo foco é sobre
questões de materialidade e transcendência, particularmente as relações entre
objetos religiosos com espíritos e humanos, a separação entre o espiritual e o
material, presente em boa parte da história do cristianismo, resultou na quase
exclusão de investigações acerca da interação e da transformação recíproca
entre esses domínios. Segundo Espírito Santo e Tassi, artefatos religiosos
transgridem o estatuto ontológico de meros objetos, participando ativamente da
criação de cosmologias (2013:&nbsp;6), podendo ser vistos como pessoas que
ocupam posições múltiplas no âmbito da ação religiosa (2013:&nbsp;8).<a
style='mso-footnote-id:ftn3' href="#_ftn3" name="_ftnref3" title=""><sup>[3]</sup></a> Nessa perspectiva, objetos
religiosos, palavras, textos, assim como outros materiais (comida, dinheiro,
pedras, pedaços de ferro, etc.) não são concebidos como portadores de símbolos,
conceitos e significados, mas antes como elementos capazes de produzir
transformações ontológicas de diversas ordens, inclusive no plano espiritual
(2013:&nbsp;10). “Entidades processuais potentes”, na terminologia de Coupaye
(2013: 114), as coisas estão continuamente em movimento no tempo e no espaço,
carregam consigo trajetórias biográficas, traçam caminhos, forjam relações,
geram efeitos na vida das pessoas, não sendo, portanto, meros mediadores, ou
meras projeções, de relações sociais e de cosmologias, pois produzem efeitos
por meio de seu movimento, de sua circulação, de suas propriedades estéticas e
de sua incorporação ao mundo social (Espírito Santo e Tassi 2013:&nbsp;17).</p>

    <p>No capítulo constante em SLS, Wirtz faz a
importante advertência de que entidades espirituais podem infundir-se em
objetos, corpos, lugares, eventos, falas e sonhos sem que suas presenças,
necessariamente, corporifiquem-se ou tomem uma forma material. Com efeito, não
é nada supérfluo perguntar se objetos, artefatos e ícones podem ser,
simultaneamente, materiais e imateriais (cf. Espírito Santo e Tassi 2013: 13).
Em contextos nos quais a iconografia de entidades espirituais é restrita, como
ocorre no caso de encantados no Tambor de Mina do Maranhão, descrito por Cunha
em SLS, a materialização de entidades se dá em canções, linguagens verbalizadas
e sonhos. Ao mesmo tempo, o universo onírico, no qual existem redes sociais
preexistentes, parece ser mais do que um espaço de experiência no qual encantados se materializam: poder-se-ia dizer,
na esteira de Tim Ingold (2011), que tais seres <i>habitam</i> esse e outros espaços,
precipitando efeitos no transitar de pajés entre o “mundo de cá” e o “mundo de
lá”.</p>

    <p>Questões relativas à materialidade conduzem à
reorientação do conceito de agência, que deve ser tratado para além daquilo que
é empiricamente verificável. Na estimulante introdução a SLS, Diana Espírito
Santo e Ruy Blanes caracterizam os capítulos da obra como “diferentes
conceitualizações de uma agência dos intangíveis, tentando deslindar a
contingência de várias entidades em seus efeitos” (SLS:&nbsp;1). Daí, segue-se
uma reflexão filosófica e epistemológica: reconhecer a relevância antropológica
dos mecanismos e efeitos dos domínios assim chamados de invisíveis ou
intangíveis, sejam eles constituídos por espíritos, leis, valores monetários ou
estruturas quânticas (SLS:&nbsp;1).</p>

    <p>Três grandes problemas são enfrentados, articuladamente,
na introdução de SLS: definir e traçar as entidades espirituais e seus efeitos
na vida das pessoas; analisar a maneira pela qual esses efeitos se interceptam
com o mundo social; e delinear uma antropologia dos intangíveis
(SLS:&nbsp;3-4). Em termos metodológicos, apresentam-se instrumentais para
traçar e definir entidades e seus efeitos em locais específicos, em contextos
particulares de experiência, atentando para sua materialização em ordens
discursivas (SLS:&nbsp;4). Invocando filósofos pragmatistas (particularmente
William James), Espírito Santo e &shy;Blanes se perguntam:</p>

    <blockquote>“Quais entidades, espíritos e seres tornam-se verdadeiros e evidentes em tal
ou qual comunidade? Como isso acontece, e com qual efeito ou valor? Com isso,
deve-se perguntar não apenas como conceitos dão à luz a mundos, mas também como
entidades podem vir a ser […] Os capítulos deste livro exploram, etnográfica e
teoricamente, entidades espirituais de vários tipos, não apenas, ou
primariamente, como conceitos ou componentes de &shy;cosmologias dadas e
compartilhadas, mas como efeitos-no-mundo, com o potencial constante de
imprevisibilidade e transgressão (SLS:&nbsp;6,
tradução livre).</blockquote>

    <p>O entendimento da noção de efeito, uma noção ampla e um tanto vaga, como
admitem os autores, é passível de elaboração etnográfica, conquanto possa-se
identificar uma série de preocupações mais gerais no tocante aos efeitos de
entidades espirituais, dentre as quais: a centralidade da experiência corporal;
a importância da materialidade e de objetos na mediação do conhecimento sobre
entidades; diferentes regimes de evidência e validação na determinação do que
está agindo; a relevância de biografias individuais e de narrativas no
entendimento dos fluxos e fronteiras de agentes invisíveis; a performance e o
potencial criativo da linguagem na evocação de intersecção de vidas; o papel da
incerteza e da ambiguidade na geração de presenças espirituais (SLS:&nbsp;17).
Assim, cabe investigar sob quais circunstâncias entidades se manifestam, são
interpretadas e tornam-se objetos e sujeitos no mundo, que tipos de eventos ou
experiências são tomados como índices válidos ou uma causa primária da agência
espiritual e que modos de raciocínio, ou sistemas de inferência, são
necessários para que entidades venham a existir (SLS:&nbsp;17).</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A tentativa de compreender a agência dos
intangíveis a partir da “pragmática de seus efeitos” (SLS:&nbsp;17) também
conduz a indagações acerca do valor analítico e conceitual conferido a
entidades não humanas nas etnografias. Espírito Santo e Blanes interessam-se
nas “extensões”, “rastros”, “evidências” e “traços” das formas espirituais de
existência, afastando-se de posturas sociologizantes, sem concebê-las como
meros epifenômenos de configurações sociopolíticas, históricas ou de fenômenos
“mais reais” (SLS:&nbsp;28). Tal como no caso descrito por Harris em SLS, as
histórias sociais de entidades como os encantados revelam muito sobre a
história de vida de ribeirinhos na Amazônia e não apenas de formações sociais
mais amplas. Dito de outra forma, a partir das reflexões de Giumbelli (SLS), é
preciso estar atento para não reduzir os caminhos percorridos por entidades
espirituais às formações nacionais, políticas e religiosas nas quais certas
práticas (e existências) estão imersas.</p>

    <p>Discussões sobre as relações entre espíritos e
história abundam em ambos os trabalhos. De fato, essa não é uma temática nova.
Debates instigantes sobre a possessão espiritual enquanto meio de transmissão e
registro da história questionaram a rentabilidade de se tratar rituais apenas
sob o viés sincrônico, ritual e&#8202;/&#8202;ou cosmológico. Se aquilo que
poderíamos denominar de “irrupções memoráveis” dos espíritos (cf.&nbsp;Lambek
1996:&nbsp;242) possibilitam pensar “práticas historiográficas indígenas”
(Stoller 1995:&nbsp;32), ou “imagens do passado dos subordinados” (Williams
1990:&nbsp;133), por meio da possessão espiritual, parece necessário não só
estar ciente das consequências de se utilizar alegorias históricas para tratar
de espíritos (Kwon 2008)&nbsp;<a style='mso-footnote-id:ftn4' href="#_ftn4"
name="_ftnref4" title=""><sup>[4]</sup></a> como questionar que tipos de
histórias, eventos e narrativas emergem, se reconfiguram e se atualizam com a
presença de entidades espirituais nos planos mundano e espiritual.</p>

    <p>Como nota Palmié em SLS, deve-se reconhecer
que a maneira pela qual se traz uma dimensão histórica à análise antropológica
permanece em dívida, metodológica e epistemologicamente, a um conjunto de
pressupostos originados no Atlântico Norte. Servindo-se de uma vinheta
etnográfica &#8211; a interação, em um ritual afro-cubano recente no âmbito de
Regla de Ocha, entre espíritos de um sacerdote e de um escravo africano
&#8211;, Palmié submete, em um exercício de simetrização, as formas ocidentais
de historicismo à análise antropológica. A torção analítica de Palmié é deveras
notável: o autor não opta por racionalizar a maneira pela qual o passado é
presentificado quando os espíritos de mortos interagem com os vivos em
cerimônias de possessão ritual afro-cubanas; ao invés disso, o foco volta-se
para os modos pelos quais a historiografia historiciza o passado. Embora seja
viável descrever qual conhecimento é produzido com base em certas suposições
presentes nas formas contemporâneas afro-cubanas, a indagação de Palmié
(SLS:&nbsp;219-220) é a seguinte: pode-se chegar a descrições similares no caso
da historiografia ocidental? Em seu capítulo, Palmié escrutina conceitos
historicistas de tempo e os comprometimentos metafísicos e ontológicos que as
concepções aí embutidas implicam. A hibridização temporal efetuada pela
copresença de agentes situados em posições cronológicas distintas (o sacerdote
e o escravo) é concebida como uma forma específica de conhecimento semiótico
que coloca à prova as garantias epistemológicas dos regimes evidenciários
historicistas, que conceberiam, na melhor das hipóteses, a aparição de
espíritos como uma forma icônica, simbólica, mas não indicial de um passado concreto
(SLS:&nbsp;220-222,&nbsp;226).</p>

    <p>Os problemas do historicismo não se limitam ao
fato de que o processo de construção de arquivos silenciou (cf. Trouillot 1995)
as histórias do sacerdote e do escravo africano mortos que interagiram na
vinheta etnográfica apresentada por Palmié. Indivíduos cujas vidas foram
excessivamente documentadas (como Einstein, Napoleão, George Washington, etc.)
não apenas permanecem se comunicando com os vivos em círculos espirituais
cubanos, como continuam a produzir escritos após o fim de sua existência
terrena por meio de médiuns. As informações adquiridas nessas mensagens &#8211;
como a mudança de opinião de George Washington, em sua vida pós-morte, sobre a
escravidão &#8211; &shy;conduziriam os historiadores a alargar seu <i>corpus</i> de evidências para tratar da vida
desses indivíduos, pergunta-se provocativamente Palmié (SLS:&nbsp;238-239)?</p>

    <p>De fato, como aponta Wirtz em SLS, as
biografias de espíritos violam noções empíricas de historicidade
(SLS:&nbsp;136). Como demonstrou Michel &shy;Lambek no início da década de
1980, a possessão espiritual instaura canais de comunicação que transmitem
mensagens verbais e materiais que podem ser usadas, pragmaticamente, para
endereçar certos problemas, dos quais os espíritos tomam parte, dos humanos
(Lambek 1981:&nbsp;28, 70-75, 86). Com efeito, nos momentos nos quais espíritos
de distintas épocas interagem simultaneamente, pessoas, pontos de vista e
eventos previamente separados no tempo são justapostos e conjugados no espaço.
E justamente porque há uma série de validações empíricas de proposições
concernentes à natureza dos espíritos nesse processo e reelaborações
retrospectivas de situações passadas, as irrupções memoráveis de espíritos
instauram canais de comunicação que tornam o passado imperfeito, no sentido
gramatical e ontológico (cf. Lambek 1996). Nesse sentido, as próprias reflexões
desse autor indicam que há mais coisas em jogo do que uma dimensão textual na
possessão espiritual, aspecto privilegiado em sua clássica monografia.<a
style='mso-footnote-id:ftn5' href="#_ftn5" name="_ftnref5" title=""><sup>[5]</sup></a></p>

    <p>Textos constantes tanto em SLS quanto em ST
exploram regimes de evidencialidade e ordens semióticas envolvidas com a
produção, circulação e reconhecimento de índices da presença espiritual
(Palmié, Wirtz, Kirsh, Delaplace, Espírito Santo e Blanes &#8211; SLS; Wirtz e
Romberg &#8211; ST),<a style='mso-footnote-id:ftn6' href="#_ftn6"
name="_ftnref6" title=""><sup>[6]</sup></a> bem como pensam as
trajetórias históricas e biográficas de entidades espirituais à luz de
processos narrativos. Em termos metodológicos, como argumenta Cardoso em SLS, é
necessário refletir sobre o próprio papel da narração etnográfica na
articulação de estórias sobre o povo da rua da macumba enquanto objeto etnográfico. Ao invés de capturar os eventos em
uma narrativa linear que produz uma sequência de eventos discretos que
progressivamente iluminam um ao outro até atingirem uma explanação fechada,
deve-se forjar mecanismos para permitir que a etnografia seja contaminada pela
própria poética do objeto (SLS:&nbsp;104). Afinal, semelhantemente às histórias
sobre o povo de rua, a narrativa etnográfica produz certas relações entre
lugares, pessoas e espíritos (SLS:&nbsp;107).</p>

    <p>Um aspecto importante das estórias sobre o
“povo da rua” diz respeito ao “senso do inesperado” (SLS:&nbsp;93) e ao
“ocultamento” dos detalhes de suas vidas, que são reveladas por meio de uma
contínua produção de incertezas sobre suas identidades (SLS:&nbsp;101) &#8211;
semelhantemente, a dúvida é um elemento central nos encontros de pessoas com
fantasmas na Mongólia, cujos espectros não guardam, segundo Delaplace (SLS),
uma relação de identidade (e de origem) com uma alma específica a partir do
qual foram originados (SLS:&nbsp;53). Assim, as narrativas sobre entidades
espirituais podem figurar como diagramas de relações semióticas que criam
histórias e trajetórias de vida para pessoas e entidades não materiais (Wirtz
em SLS).</p>

    <p>Levar a sério a realidade êmica da possessão
espiritual implica em aceitar, também, as dúvidas, suspeições e acusações
acerca da veracidade, simulação e autenticidade acerca dos eventos de
possessão, assinala com precisão Romberg em ST (Brazeal também trata, em ST,
desses pontos). Elemento fundamental das “tecnologias da presença nos rituais
de possessão espiritual” (ST:&nbsp;230), a dúvida articula-se à corporalidade
mimética e a discursos de indeterminação, conquanto mudanças dramáticas das
estruturas interpretativas e emocionais dos participantes de rituais face à
presença de entidades espirituais apontem para a autoridade, intencionalidade e
para as consequências implícitas das mensagens transmitidas por espíritos
(ST:&nbsp;243-244). Se a mimese é pensada por Romberg sob a chave da invocação,
canalização e transgressão dos poderes de outros, inclusive de memórias
incorporadas sobre o passado colonial, Polk, em um dos capítulos de ST, trata
da encenação da negritude por menestréis e atores nos Estados Unidos do século
XX, a qual é performada por meio da descrição de uma complexa ação recíproca de
simbolismo coletivo, fantasia individual e produção da negritude, de modo que a
mediunidade permaneceu alinhada com modos textuais, gráficos e teatrais de
representação racial (ST:&nbsp;202).</p></font>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">Etnografando entidades espirituais</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O principal mérito
de SLF e ST repousa, a meu ver, na feliz combinação de pensar entidades
espirituais para além dos quadros de referência de domínios especializados da
disciplina com a formulação de alternativas metodológicas e teóricas para se
etnografar formas extra-humanas de existência. De fato, ambas as obras não se
restringem a temáticas específicas, aventurando-se por debates centrais na
teoria antropológica contemporânea, colocando em xeque a rentabilidade de
métodos, teorias e epistemologias da disciplina como um todo. Os leitores e as
leitoras não encontrarão muito espaço para certas temáticas, como a da morte e
a do gênero,<a style='mso-footnote-id:ftn7' href="#_ftn7" name="_ftnref7"
title=""><sup>[7]</sup></a> tampouco para diálogos com
vertentes da &shy;psicologia. Por outro lado, há alternativas e sugestões
estimulantes, algumas das quais destacadas abaixo, em especial aquelas
esboçadas pelos organizadores das obras.</p>

    <p>Destaco, inicialmente, que o escrutínio de
conceitos e categorias mobilizados pela disciplina e, especialmente, pela
antropologia da religião, é relevante, bem fundamentado e pertinente.
Empreendimentos como os de Paul Johnson chamam a atenção para os riscos de se
tomar a possessão como um conceito normalizador (cf.&nbsp;Asad 1993), além de
destacar que os eventos de possessão são interseccionados por significações
materiais, religiosas, econômicas e políticas, bem como por encontros entre
noções europeias e não europeias acerca desse fenômeno. Daí a importância de se
precisar, no tempo e no espaço, os encontros, lugares e momentos nos quais a
possessão espiritual emerge (ou emergiu) enquanto evento multifacetado. O viés
histórico das proposições de Johnson configura-se como antídoto às análises que
pressupõem a existência de sistemas (simbólicos, rituais e cosmológicos)
cerrados e autocontidos.</p>

    <p>A genealogia da possessão espiritual é um
convite salutar para se acertar contas com o fato de que a categoria infiltrou
a produção antropológica e as próprias práticas religiosas de maneiras
paradoxais. Contudo, não se pode perder de vista que há diversas ordens de
hibridização temporal em jogo, seja no plano da longa duração, seja no do
presente etnográfico. Ou seja, as relações de entidades espirituais entre elas
mesmas e com humanos não só podem reconfigurar situações passadas e presentes,
como possibilitam a certos agentes (humanos e não humanos) transitar entre distintas
posições cronológicas e ordens temporais. De fato, os eventos em torno da
possessão espiritual podem reverberar domínios sobrepostos da religião,
economias coloniais expansivas, ideias emergentes sobre a política nacional e a
criação do cidadão individual. Mas afinal cabe perguntar: em que medida a
realidade da presença de pessoas mortas, espíritos e ancestrais, por exemplo,
perturba, nos termos de Palmié, os próprios cânones de análises historicamente
orientadas? Lambek (ver acima) parece-me correto ao sustentar que devemos
conferir papel central às filosofias embebidas nos sistemas de possessão
espiritual, deixando as retóricas da filosofia e antropologia europeias em
suspenso em prol da análise das práticas, conhecimentos e discursos locais em
seus próprios termos &#8211; independentemente de reverberarem ou não as
hibridizações aludidas por Johnson. Dito isso, é notável o esforço de autores
como Palmié, Wirtz, Cardoso, Giumbelli e Johnson para pensar questões relativas
à história sem recorrerem, simplesmente, a um viés historicizante.</p>

    <p>Essas considerações conduzem a um ponto
central: como entidades espirituais se interceptam com imaginários de
resistência e reflexões sobre histórias e economias políticas? De meu ponto de
vista, Espírito Santo e Blanes avançam significativamente ao questionarem o
privilégio normalmente conferido a fenômenos “mais reais” (economia, política,
história, etc.) na abordagem de seres intangíveis. Debruçar-se sobre as
trajetórias sociais traçadas por essas entidades no mundo &#8211; os efeitos da
presença de agências extramateriais &#8211; tem por contraparte não reduzir
tais entidades a epifenômenos da operação analítica de contextualização
histórica e sociopolítica.</p>

    <p>A influência de estudos associados à chamada
virada ontológica é evidente na introdução de SLF, algo recorrentemente
destacado por Espírito Santo e Blanes, aliás. E, não à toa, percebe-se um
afastamento de explicações sociocêntricas. Contudo, se as ressalvas são
extremamente pertinentes, as alternativas propugnadas por ambos pendem mais
para a divisão do trabalho do que para a conciliação de abordagens. Afinal,
discursos, narrativas e práticas mediadas pelas presenças e efeitos
desencadeados por entidades espirituais podem ser repletos de significados
históricos críticos e ganham atualidade justamente porque remetem a pressões
morais, políticas e sociais contemporâneas (cf.&nbsp;Kwon 2008:&nbsp;18). A
irrupção de lembranças e memórias incorporadas em práticas sociais, processos
rituais, hábitos e experiências corporificadas (cf.&nbsp;Shaw 2002:&nbsp;7) mostra-se
central para nossos interlocutores(as) em
diversos casos. Assim como a “economia política”, a “história” e “forças
sociais” não devem ser concebidas, <i>a
priori</i>, como as fontes de causação das várias ordens de presença de
entidades espirituais no mundo, não se deve afastar, de antemão, a
possibilidade de os modos de existência das pessoas remeterem, a seu modo, a
dinâmicas e processos relativos a eventos “históricos”, por &shy;exemplo.</p>

    <p>Por fim, ambas as obras deslocam a ênfase
excessiva da materialização de entidades espirituais em corpos (algo
recorrentemente destacado nos estudos sobre a possessão espiritual) e analisam
como esses seres infundem-se em objetos, instrumentos, rituais, discursos,
paisagens, rumores, narrativas, etc. Não se trata, cumpre destacar, de ignorar
a centralidade da experiência corporal, mas antes de se elucidar as técnicas
particulares de discernimento e as capacidades perceptivas envolvidas com o
reconhecimento de entidades espirituais como sujeitos e objetos no mundo
&#8211; a economia representacional e as tecnologias de instanciação da
presença espiritual, nos termos de Wirtz e Palmié. Assim, pode-se melhor
entender e integrar a alteridade perceptiva e sensorial na prática
antropológica, explorando-se os processos por meio dos quais formas de
existência outras assumem forma e eficácia em distintos contextos, práticas,
rituais e discursos (Espírito Santo e Blanes em SLS). As tentativas de se
etnografar seres intangíveis, os quais não estão confinados a corpos, espaços e
períodos nitidamente delimitados, colocam em suspenso, portanto, dicotomias
arraigadas na disciplina, como materialidade e imaterialidade, tangível e
intangível, visível e invisível, real e imaginado, material e mental.</p>

    <p>À guisa de conclusão, ressalto que a riqueza
de ST e SLF permitiria outras apropriações e comentários. Seja como for, e não
obstante as distintas orientações teóricas presentes nos livros, ambas as obras
sinalizam que os procedimentos de confinamento conceitual o&#8202;/&#8202;ou
disciplinar são postos à prova pela existência e pelas ações de entidades
espirituais que se replicam continuamente nos espaços de experiências
compartilhadas com os humanos.</p></font>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">Bibliografia</font></b></p>
<font size="2" face="Verdana">
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    <!-- ref --><p>SHAW, Rosalind, 2002, <i>Memories of the Slave Trade: Ritual and the Historical Imagination in
Sierra Leone</i>. Chicago, The University of Chicago Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=192045&pid=S0873-6561201600010001000020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>STOLLER, Paul, 1995, <i>Embodying Colonial Memories: Spirit Possession, Power and the Hauka in the West Africa</i>. Londres, Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=192047&pid=S0873-6561201600010001000021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>STRATHERN, Marilyn, 1999, “The
ethnographic effect&nbsp;I”, em M.&nbsp;Strathern, <i>Property, Substance and Effect:
Anthropological Essays on Persons and Things</i>. Londres, The Athlone Press,
1-26.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=192049&pid=S0873-6561201600010001000022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>TAUSSIG, Michael, 1993, <i>Mimesis and Alterity: A Particular History
of the Senses</i>. Londres, Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=192051&pid=S0873-6561201600010001000023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>TROUILLOT, Michel-Rolph, 1995, <i>Silencing the Past: Power and the Production of History</i>. Boston, Beacon Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=192053&pid=S0873-6561201600010001000024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>TYLOR, Edward B., 1871, <i>Primitive Culture</i>. Londres, John Murray.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=192055&pid=S0873-6561201600010001000025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>WILLIAMS, Brackette,
1990, “Dutchman ghosts and the history mystery: ritual, colonizer, and
colonized interpretations of the 1763 Berbice slave
rebellion”, <i>Journal of Historical
Sociology</i>, 3&nbsp;(2): 133-165.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=192057&pid=S0873-6561201600010001000026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p></font>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font size="3" face="Verdana">NOTAS</font></b></p>

<font size="2" face="Verdana">

    <p><a style='mso-footnote-id:ftn1' href="#_ftnref1"
name="_ftn1" title=""><sup>[1]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Expresso
meus agradecimentos às contribuições e ao interesse demonstrado por Rogério &nbsp;Wanderley Brittes e Iracema Hilário Dulley.</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn2' href="#_ftnref2"
name="_ftn2" title=""><sup>[2]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Um exemplo
sobre como tratar das relações entre memória, bruxaria, colonialismo, capitalismo e tráfico de escravos pode ser encontrado
em Shaw (2002).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn3' href="#_ftnref3"
name="_ftn3" title=""><sup>[3]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Proposição
diretamente tributária de
Alfred Gell &#8211; cuja influência, aliás, é reconhecida pelos organizadores de <i>Making Spirits</i>, em especial a ideia
de que objetos não são, meramente, representações ou veículos de símbolos (Espírito Santo e Tassi 2013:&nbsp;12). Os problemas da teoria de Gell são
bem conhecidos (cf.&nbsp;Ingold 2011; Henare, Holbraad e Wastell 2007; Leach
2007), dentre eles a concepção de que artefatos são agentes secundários, as
distinções entre agentes secundários e primários, agentes e pacientes,
recipientes e fontes de causação, etc., bem como os esquematismos implícitos
nas reflexões acerca das inesgotáveis combinações de relações entre índices,
autores, protótipos e recipientes (Gell 1998:&nbsp;20-22, 28-50). Deve-se
lembrar, contudo, que a análise do material etnográfico apresentado em <i>Art and Agency</i> &#8211; <i>vide</i> os casos relativos à possessão e o
culto a imagens no hinduísmo, por exemplo &#8211; rui as fórmulas propostas
pelo próprio autor, aproximando-o de uma definição de agência essencialmente
relacional e abrindo caminho para se investigar os efeitos relacionais
precipitados pela copresença de coisas e pessoas em um mesmo campo de atores
efetuais (cf.&nbsp;Strathern 1999:&nbsp;17).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn4' href="#_ftnref4"
name="_ftn4" title=""><sup>[4]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em
estudo sobre os espíritos surgidos no Vietnã após a guerra contra os Estados Unidos, Kwon sugere que esses seres não são
meros mecanismos históricos alegóricos invocados para direcionar o significado de novos eventos históricos similares aos anteriores.
A existência de fantasmas da guerra no Vietnã é percebida como um fenômeno
“natural” ao invés de um símbolo cultural, uma questão de ser ou tornar-se no
mundo (uma questão ontológica), ao invés de mera alegoria. Na medida em que
muitos desses espíritos passam a ser cultuados como ancestrais, eles
relacionam-se à história da socialidade da experiência vivida durante e após
guerra (Kwon 2008:&nbsp;15-16,&nbsp;168).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn5' href="#_ftnref5"
name="_ftn5" title=""><sup>[5]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Transações
rituais e comunicações mútuas estabelecidas entre divindades e humanos no Sul da Índia são pensadas
à luz do perspetivismo por Ishii (2012).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn6' href="#_ftnref6"
name="_ftn6" title=""><sup>[6]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Não
à toa, um autor frequentemente citado por vários
contribuidores das coletâneas é Webb Keane, particularmente
por seu questionamento
ao privilégio conferido a ideias ou crenças para se definir a religião. Como alternativa, Keane (2008) sugere repensar a
relação entre materialidade e a atividade religiosa, bem como as ideias
normalmente assumidas como definidoras da religião. Cite-se o argumento segundo
o qual o reconhecimento de instâncias de algo conhecível (fenômenos associados
à possessão espiritual, por exemplo) deve tomar uma forma semiótica, de modo
que o que circula entre as pessoas não são experiências ou ideias; tais
instâncias devem ter alguma manifestação material que as faça disponível,
interpretável e, na maioria dos casos, replicáveis por outras pessoas: ações
corporais, discursos, o tratamento de objetos, e assim por diante
(Keane 2008:&nbsp;S114).</p>



    <p><a style='mso-footnote-id:ftn7' href="#_ftnref7"
name="_ftn7" title=""><sup>[7]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Interessante
notar que em sua ampla revisão bibliográfica
sobre a possessão espiritual,
escrita há duas décadas, Boddy
(1994:&nbsp;415-422) dedicou uma
seção inteira de seu artigo às
relações entre gênero, o poder, corporeidade e resistência. Na esteira de sua fundamental monografia
(Boddy 1989), a autora ainda questionava a força das controversas teses de
Lewis (1971).</p></font>

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