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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O santo, a face e o outro: quando Cristo e Tiradentes se encontram em Ouro Preto]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In this article, I examine a particular Christ’s effigy that participates in the re-enactment of the Via Crucis during the Holy Week in Ouro Preto, Minas Gerais (Brazil). Analysing the history of the replacement of the statue’s head, I observe how the native search for a new “face” to this figure highlights Georges Bataille’s and Michael Taussig’s questions about the porosity of boundaries between sacred and profane, as well as the transgressions that mutually reinforce them. Their theories allow me to approach the theme of the fragmentation of the human body and to explore the civic cult held in Ouro Preto to Tiradentes, a Brazilian political hero who became progressively a Christianised martyr. To conclude, I outline multiple implications produced by those (absent) faces and bodies - of Christ and Tiradentes - during different rituals and in different historical moments, including the Catholic festive context.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana">         <b>ARTIGOS</b> </font></p>      <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana"><b>O santo, a face e o outro: quando Cristo e   Tiradentes se encontram em Ouro Preto</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>The saint, the face and the other: when Christ   and Tiradentes meet in Ouro Preto</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Edilson Pereira<sup>I</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><sup>I</sup>Departamento de Antropologia, Programa de   Pós-Graduação em Ciências Sociais, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Brasil. <em>E-mail:</em> <a href="mailto:edilperei@yahoo.com.br">edilperei@yahoo.com.br</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <hr noshade size="1">     <p><font size="2" face="Verdana"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Abordo neste artigo uma imagem particular de   Cristo que participa da reencenação da via-crúcis durante a Semana Santa na   cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais (Brasil). A partir da história da   necessidade de substituição da cabeça dessa imagem, observo como a busca de uma   nova “face” para tal figura coloca em evidência questões próximas àquelas   desenvolvidas por Georges Bataille e Michael Taussig para tratar da porosidade   dos limites entre sagrado e profano e das transgressões que os reforçam   mutuamente. Ao me aproximar de tais autores, abordo o tema da fragmentação do   corpo humano para tratar de outro mártir celebrado em Ouro Preto: Tiradentes,   herói político nacional que foi, em seu culto cívico, progressivamente cristianizado.   Reflito, ao fim, sobre as múltiplas implicações que os rostos e corpos   (ausentes) dessas figuras – Cristo e Tiradentes – produziram entre si no curso   de diferentes rituais e momentos históricos, incluindo o contexto festivo   católico. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Palavras-chave:</b> transgressão, Semana Santa, Ouro Preto,   Tiradentes, corpo sagrado</font></p> <hr noshade size="1">     <p><font size="2" face="Verdana"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">In this article, I examine a particular   Christ’s effigy that participates in the re-enactment of the Via Crucis during   the Holy Week in Ouro Preto, Minas Gerais (Brazil). Analysing the history of   the replacement of the statue’s head, I observe how the native search for a new   “face” to this figure highlights Georges Bataille’s and Michael Taussig’s   questions about the porosity of boundaries between sacred and profane, as well   as the transgressions that mutually reinforce them. Their theories allow me to   approach the theme of the fragmentation of the human body and to explore the   civic cult held in Ouro Preto to Tiradentes, a Brazilian political hero who   became progressively a Christianised martyr. To conclude, I outline multiple   implications produced by those (absent) faces and bodies – of Christ and   Tiradentes – during different rituals and in different historical moments,   including the Catholic festive context. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Keywords:</b> transgression, Holy Week, Ouro Preto,   Tiradentes, sacred body</font></p> <hr noshade size="1">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">Neste artigo, abordo alguns dados de pesquisa que   analiso após a conclusão da minha tese de doutorado, na qual discorri sobre as   dinâmicas sociais e transformações rituais que caracterizam a celebração da   Semana Santa na cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais (Pereira 2014).<a href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><sup>[1]</sup></a> Conhecida por muitos em função de seu patrimônio   histórico e arquitetônico, que remete aos desdobramentos do chamado Ciclo do   Ouro brasileiro – contexto econômico e social que datava do século&nbsp;XVIII   –, a Ouro Preto do presente tem em festas como a Semana Santa um momento   importante de sua vida social. Junto à atração de turistas para a cidade,   interessados na chamada “Paixão de Cristo à moda mineira”&nbsp;<a href="#_ftn2" name="_ftnref2" title=""><sup>[2]</sup></a> – que seria herdeira de uma estética barroca e de   “tradições” mantidas na sua forma de festejar a Páscoa cristã –, esse período   festivo coloca em evidência tensões e delimitações sociais operativas na   divisão de bairros e paróquias locais. Na minha pesquisa, entre os anos 2009 e   2013 (com incursões de trabalho de campo realizadas antes, durante e após a   festa), eu observei os principais personagens que permitem entrever e   compreender as redes que se estabelecem por conta da Semana Santa e,   igualmente, os símbolos – religiosos, históricos, sociais – acionados nesse   contexto.<a href="#_ftn3" name="_ftnref3" title=""><sup>[3]</sup></a> Entre as figuras abordadas estava evidentemente o   Cristo, protagonista de todo o drama reencenado no curso de cerimônias   religiosas e procissões que ocupam praças do centro da cidade e atravessam seus bairros de um lado a outro. E é sobre ele que falarei aqui. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/etn/v20n2/20n2a07f1.jpg" width="351" height="562"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/etn/v20n2/20n2a07f2.jpg" width="347" height="563"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ao desenvolver este exercício de análise, quero   partir de alguns dados da minha pesquisa para avançar rumo a outros cenários   que se ligam às representações cristãs da dor, da morte e do sacrifício e que   se conectam a certos modos de sacralização. Igualmente, interessa-me observar a   dinâmica associada à decomposição e à separação dos corpos considerados   “santos” (bem como de suas partes constitutivas) do domínio da vida comum,   ordinária – passando a ser alvo de “proteção” de certos museus. De modo   sintético, pode-se dizer que a ideia global deste texto parte do intento de   pensar como a história do Cristo, observada a partir de uma situação   emblemática que envolve uma de suas representações materiais, isto é, um de   seus ícones utilizados nos rituais da Semana Santa, pode nos conectar também   com a materialidade, mesmo que ausente (conforme discutirei adiante), do corpo   de outra figura particular. Esta última, ainda que exceda ao universo da   toponímia do “religioso”, também se destaca na história e nos rituais públicos   que ocorrem na cidade de Ouro Preto. Ela nos mostra, complementarmente, como os   sentidos associados à violência da paixão cristã e aos seus ícones podem   exceder a esfera do religioso, contaminando as coisas e as pessoas que se   aproximem do seu entorno. Tenho por objetivo, portanto, realizar um movimento   gradual que nos leve da figura do Cristo e de sua face sagrada, daquele que é   tomado como a “cabeça” da Igreja, rumo a uma alteridade, a um outro tipo de   santo cujas correspondências com aquele nos permitem perceber alguns modos de   sua mútua afetação. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Assim, apresentarei primeiramente o contexto   ouro-pretano no qual as imagens religiosas estão inseridas e destacarei as   formas de relação que tendem ao reconhecimento de atributos humanos às mesmas,   como parte de uma dinâmica de reconhecimento (por algumas pessoas) de sua   subjetividade. A partir desse ponto, passo a abordar uma imagem em particular.   A história contada sobre ela e o local onde ela é exposta nos permitirão, em   seguida, refletir sobre uma forma contraditória – senão blasfema – de sua   utilização ritual. Valendo-me, então, de reflexões que buscam compreender de   modo positivo o caráter de fenômenos ambivalentes,<a href="#_ftn4" name="_ftnref4" title=""><sup>[4]</sup></a> tais como aqueles que se associam à noção de   sagrado, revisito parte da teoria de autores como Georges Bataille (1987, 1990),   e de alguns de seus atualizadores como Michael Taussig (1997, 1999), para   pensar o chamado “poder do negativo”. Em tal expressão, segundo esse último   autor, estaria impressa a força que é observada nos atos blasfematórios   (intencionais ou não) que, ao invés de efetivamente aniquilarem o mistério de   algo sagrado, acabariam por reforçá-lo, ainda que obrigando-o a se reconfigurar de algum modo. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Na sequência, aproveito as reflexões sobre o   Cristo para pensar um personagem brasileiro que após ser sacrificado também   assumiu a máscara daquela <em>persona</em> sagrada. Para falar do mártir político   nacional Tiradentes, revisitarei brevemente o seu histórico, a fim de mostrar   como a sua consagração como herói remete a momentos e a interesses diversos e   chega até o tempo ­presente (incluindo aí o da minha própria incursão de   pesquisa de campo em Ouro Preto). Depois de refletir sobre ele e os corpos dos   demais inconfidentes, ­voltarei finalmente à Semana Santa para encontrar esse   “outro” dentro dos rituais cristãos. Deixarei, então, ao/à   leitor/a a missão de descobrir as ­correspondências entre Cristo   e ele no transcorrer do próprio texto. Ressalto, não obstante, que mais do que   uma comparação entre essas duas figuras míticas para observar o que elas isoladamente   teriam de semelhante entre si, me interessa sobretudo pensar o que há no espaço comum que foi sendo constituído entre elas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana"><b>Imagens da Paixão ouro-pretana</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">De modo comum a diversos outros locais, as   representações materiais do Cristo em Ouro Preto se constituem tanto de ícones   tridimensionais (talhados em madeira), quanto de alguns rapazes vinculados a   grupos religiosos que encenam, durante a Semana Santa, os Autos da Paixão. A   diferença entre esses dois tipos de “atores”, todavia, vai além do caráter   esculpido ou não de seus corpos. De um modo geral, os Cristos encenados por   pessoas fazem parte de apresentações que percorrem áreas mais periféricas da   cidade, enquanto no centro – área mais valorizada, que compreende o perímetro   urbano tombado pelo antigo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional   (SPHAN)&nbsp;<a href="#_ftn5" name="_ftnref5" title=""><sup>[5]</sup></a> e onde se concentra a maior parte das igrejas barrocas do século&nbsp;XVIII – a preponderância é das imagens. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Uma das justificativas que ouvi em campo a   respeito dessa segmentação espacial das formas de representar o Cristo veio do   diretor do Museu de Arte Sacra do Pilar, que faz parte e é englobado pela   igreja de Nossa Senhora do Pilar, situada na região mais próxima ao centro da cidade. Segundo Carlos: </font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“[Certas] cidades vizinhas não foram muito felizes     em adotar… em adotar figuração [viva] em encenações bíblicas, né? Há casos, por     exemplo, de Cristo pregado na cruz com o relógio no braço, essas coisas. Então,     Ouro Preto nunca fez isso de colocar um Cristo vivo lá pregado na cruz, não,     sempre foi uma imagem de madeira e sempre foi uma… das imagens do     século&nbsp;XVIII”.</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Diferentemente dos locais que apostam em   releituras “atualizadas” do drama cristão – como em uma cidade vizinha chamada   Congonhas, por exemplo, onde já fizeram uma peça com o Cristo sendo   representado por um ator negro –, em Ouro Preto os organizadores da Semana   Santa preferem reforçar o caráter “tradicional da festa”, que apontei acima. A   utilização de imagens barrocas seria, assim, um modo de mobilizar a aura   associada a determinadas figuras religiosas visando reforçar o caráter   “histórico” da Semana Santa em sua versão ouro-pretana, e serviria também para   evitar “deslizes” por parte dos atores vivos ou “anacronismos” como o de um   Cristo com relógio de pulso. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Há evidentemente outras razões que entram em cena   na contraposição que se delineia entre as imagens, de um lado, e os atores   humanos, de outro. Deve-se considerar, por exemplo, a larga tradição católica   que, em meio a uma festa que mobiliza diversos grupos sociais, coloca em   destaque as imagens religiosas, fazendo-as assumir determinados papéis. Em seu   estudo sobre as expressões religiosas populares de Portugal, por exemplo,   Pierre Sanchis afirmava que “a imagem do Santo de Romaria acede à plenitude de   sua presença funcional” justamente no momento de sua exibição em praça pública,   quando “ela entra ativamente num jogo eficaz de encenação”. É na procissão “[e]   através dela que o santo reata e intensifica o contato que sua permanência dentro do santuário tornava simbolicamente mais distante” (Sanchis 1983:&nbsp;20-21).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Na minha pesquisa (Pereira 2014), abordei em maior   detalhe as dinâmicas que envolvem a gradativa preparação ritual e material das   efígies que saem em procissão durante a celebração da Semana Santa em Ouro   Preto, viabilizando a forma de atividade mencionada por Sanchis. E, de modo   complementar, gostaria de destacar aqui o fato de que as efígies do Cristo   ganham importância naquele momento não só porque elas lhe dão um corpo   material, permitindo que ele seja apresentado às pessoas que participam dos rituais   públicos, mas porque elas reforçam – através de sua condição de bens artísticos   patrimonializados, como arte sacra e objetos de devoção popular – uma imagem   que os ouro-pretanos projetam sobre a sua própria cidade. Como se observa na continuação da fala de Carlos, diretor do museu:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“Ouro Preto tem uma Semana Santa diferenciada, né,     se a gente olhar em outros lugares no Brasil. É a própria atmosfera, o lugar,     essas ruas tortas, né, esse conjunto. Você tem toda uma ambientação. O barroco     trabalhava todos os sentidos humanos, né, e a gente percebe que isso era tão     importante que… a gente percebe que essa atmosfera, ela faz parte dessa     religiosidade do povo, né?” </font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Nessa cidade-cenário, considerada propícia para   abrigar as dramatizações da Semana Santa, as imagens sacras desempenham um   papel de reforço do ideário de sua antiguidade e de sua autenticidade. Algumas   delas datam da época de fundação da antiga Vila Rica e seriam portanto “bens   culturais” valiosos, que devem ser conservados e “protegidos” em museus como   aquele no qual Carlos trabalha.<a href="#_ftn6" name="_ftnref6" title=""><sup>[6]</sup></a> Quando chega a época de celebrar a Páscoa cristã,   esses bens passam, não obstante, a ser exibidos também fora das igrejas-museus.   As imagens barrocas do século&nbsp;XVIII, em seu duplo registro artístico e   religioso, ajudam a reforçar a sacralidade que já estaria contida na   representação material de um personagem divino como o Cristo. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Além disso, a valorização de tais ícones como   atores rituais se acentua pelas características formais desses artefatos, como   me dizia Carlos: “as imagens aqui, elas são vivas, né? Parece que elas são   reais. Têm cabelo, têm olho de vidro, ’tão chorando… O Cristo, ele tem… [é]   articulado, ele é articulado, ele movimenta. Tem roupa”. Falas como essa são   frequentes em Ouro Preto e em outras cidades, dentro e fora do país, onde se   lida com esse tipo de imagem religiosa (Quites 2006). Entre as várias efígies   de Cristo existentes na cidade, aquelas que possuem um tamanho análogo ao de um   ser humano adulto e que podem ter seus membros – braços e pernas – manipulados   e movimentados de modo a assumir diferentes posturas são as que costumam   mobilizar mais as pessoas. Ao acompanhar as interações mantidas antes e durante   a festa entre os moradores, devotos ou não, e tais imagens realistas, observei   que são produzidas várias analogias entre o corpo humano vivo e o corpo das   imagens dos santos, englobando não só as relações mantidas com estes últimos   dentro de sua atuação em determinados rituais, mas também sua biografia cultural de modo mais amplo, no sentido que Kopytoff (2008) dá à expressão. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em sua análise sobre as lógicas que em diferentes   sociedades caracterizam a mercantilização das coisas, por um lado, tornando-as   “comuns”, isto é, comercializáveis, substituíveis, e a sua singularização, por   outro, que pode remeter a processos de sacralização e/ou de   personalização dos objetos, Kopytoff afirma que seria possível “traçar uma   analogia entre a maneira pela qual as sociedades constroem indivíduos e a   maneira pela qual constroem coisas” (2008: 120), destacando particularmente os   casos intermediários entre os vetores de mercantilização (das “coisas”) e de   singularização (das “pessoas”). Esses dois termos, entretanto, não seriam   fixos. Como relembra o autor, seres humanos já foram comercializados, em   contextos de escravidão, e muitas coisas foram e são singularizadas, sendo por   isso mesmo frequentemente retiradas do domínio da troca mercantil. Para   Kopytoff, as noções do que é um “objeto” e do que é uma “pessoa” variam de   acordo com os contextos históricos e culturais. Seria através da reconstituição   biográfica de um objeto, portanto, que poderíamos observar a passagem de coisas   e pessoas àquilo que as definiria como “comuns”, mercantilizáveis, ou o   contrário, quando esses objetos ou seres humanos adquirem um estatuto cultural particular, destacando-os de todo o resto. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">No caso das imagens religiosas de Ouro Preto, a   sua singularização se realiza por pelo menos duas vias complementares. De uma   parte, através daquilo que focaliza sua condição de bem artístico   patrimonializado, como ficou claro quando conversei com o diretor do Museu do   Pilar e ele me disse que o museu da igreja serviria como uma “caixa-forte”,   para proteger aquilo que estava em seu interior. Com isso, tornou-se evidente o   caráter valioso e, nessa mesma medida, singular (porque não substituíveis)   daqueles objetos ali protegidos. De outra parte, e complementarmente, quando   elas são utilizadas num contexto ritual, as imagens têm identificados, pelas   pessoas que interagem com elas, uma série de atributos que as definem como   semelhantes a um ser humano – como se elas tivessem sido produzidas à sua   imagem e semelhança. Uma das interlocutoras com quem interagi em campo, por   exemplo, acentuava um dos elementos que aproximariam imagens sacras e pessoas   vivas ao me dizer, a respeito das primeiras, que “santo não come, santo não   bebe… [mas] em muita igreja o santo é vestido!” Durante minha pesquisa e a   partir da bibliografia que analisa esse tipo de artefato artístico-religioso   (cf.&nbsp;Webster 1998; ­Albert-Llorca 1995), pude constatar que tais imagens   ultrapassam sua condição de mero “objeto”, sendo progressivamente   pessoalizadas.<a href="#_ftn7" name="_ftnref7" title=""><sup>[7]</sup></a> As imagens dos santos têm, além disso, um corpo   (fabricado) que, como o de uma pessoa, também demandaria certos cuidados –   incluindo, por exemplo, o de evitar que suas “intimidades” fossem exibidas a olhares curiosos.<a href="#_ftn8" name="_ftnref8" title=""><sup>[8]</sup></a> </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>O reflexo de uma cena “chocante” </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A manipulação das imagens religiosas de Ouro Preto   engloba, para além dos técnicos em restauração de arte sacra e dos funcionários   do museu onde Carlos trabalha, pessoas que assumem outro tipo de   responsabilidade com os santos.<a href="#_ftn9" name="_ftnref9" title=""><sup>[9]</sup></a> Quando se aproximam os momentos festivos em que   as imagens religiosas serão retiradas de seus altares ou vitrines e serão   exibidas em áreas públicas da cidade, o trabalho das “zeladoras” – em sua   maioria mulheres – ganha maior visibilidade. São elas as responsáveis por   preparar as imagens (trocar suas ­roupas, arrumar os cabelos, limpá-las e, às vezes, perfumá-las) para sua atuação na Semana Santa. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A atribuição do papel de zelador está   frequentemente associada às relações de parentesco, amizade e vizinhança. Isso   faz com que os pais costumem ser substituídos por seus filhos e filhas na   tarefa de cuidar dos santos (incluindo aqueles que durante o ano ficam   resguardados dentro de uma igreja-museu), ou que uma zeladora indique a filha   de uma amiga para dar continuidade ao trabalho quando aquela, por qualquer   razão, precisar se afastar desse posto. No caso de Rita Cota, uma senhora que   cuida de um dos Cristos que participa das cerimônias públicas da Semana Santa,   o seu trabalho como zeladora é herança de sua mãe. Nascida em Ouro Preto, na   mesma casa onde ainda mora, ela é responsável pelo “passo” que fica contíguo à   sua residência, localizada na rua Getúlio Vargas. Cada “passo” – do latim <em>passus</em>,   que significa sofrimento – é uma das capelas que, em seu conjunto, destinam-se   a reproduzir o encadeamento de cenas que constituem a via-crúcis, isto é, os   episódios que narram a paixão e morte de Cristo. Em Ouro Preto existem   atualmente cinco dessas capelas destinadas à exibição de uma imagem particular   do Cristo. Todas elas fazem parte do acervo arquitetônico patrimonializado da   cidade e definem, tais como marcos geográficos, o percurso das procissões –   cortejos estes que sempre têm, durante a Semana Santa, outra imagem do Cristo carregada sobre um andor. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Considerando a centralidade desses ícones para   dramatizar o martírio até a crucifixão, e conhecendo as intensas relações de   afeto e de devoção que podem ser estabelecidas por algumas zeladoras com “suas”   imagens,<a href="#_ftn10" name="_ftnref10" title=""><sup>[10]</sup></a> foi com bastante surpresa que, em 2011 (já no   terceiro ano da pesquisa), ouvi de Rita uma história que eu desconhecia. Foi   “uma coisa chocante!”, ela me disse referindo-se à imagem que ficava na capela   ao lado de sua casa. Tratava-se de uma representação do protagonista da festa   sob a iconografia de um <em>Ecce Homo</em>: Jesus com o torso desnudo, as costas   cobertas por uma capa vermelha, portando uma coroa de espinhos, o corpo marcado   por várias feridas e as mãos atadas por uma corda que está amarrada também ao   seu pescoço, como que enforcando-o. O choque citado ocorreu porque durante uma   Semana Santa, de anos passados, quando o público (de moradores e turistas que   acompanhavam uma procissão) se aproximou desse passo, deparou com um Cristo   decapitado. Segundo Rita, tal evento ocorreu nos anos&nbsp;70 do século   passado, mas mesmo depois de tanto tempo, a cena ainda permanece gravada na memória. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Conversávamos a respeito da imagem que fica no   interior daquele passo quando ela me interrompeu e disse: “Essa cabeça aí não é   dela, não”. Sem entender direito, eu perguntei se haviam trocado a cabeça do   santo – pois trata-se de uma imagem de madeira, assim como as demais utilizadas   na Semana Santa, cujos membros podem ser conectados para formar a integridade   do corpo –, e Rita me respondeu: “Não, roubaram! […] a cabeça foi roubada à   noite. Arrombaram a porta [do passo], [e] roubaram apenas a cabeça… a cabeça era encaixada, então desapareceram com ela”. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">A história do roubo de parte fundamental do corpo   do santo, que é também um objeto de arte sacra, pode nos remeter a uma dinâmica   mais ampla que envolve a identificação, a patrimonialização e a comercialização   (inclusive ilegal) de obras que são classificadas como “bens culturais” – noção   importante em um contexto como o observado, de uma cidade patrimonializada e   que valoriza tal condição. Mas, para além desse pano de fundo e dos debates   específicos que ele envolve, considero que mais interessante do que a situação   do roubo em si (ou, melhor dizendo, do relato que o acusa como a causa do evento,   embora não houvesse como assegurar se fora efetivamente um ladrão ou um devoto   que havia retirado a cabeça da imagem) seja a continuidade da utilização   daquele santo para representar a pessoa de Jesus. Quando pensamos numa   perspectiva comparativa, considerando outros contextos de religiosidade   católica, assim como o Norte da Espanha analisado por William   Christian&nbsp;Jr. (1972: 80-82), vemos que a reposição/recuperação   da imagem de determinado santo – como resultado de sua perda, deterioração ou   remoção propositada do altar – está condicionada à atualidade e vigência da   devoção mais ampla da qual ela era objeto.<a href="#_ftn11" name="_ftnref11" title=""><sup>[11]</sup></a> Ou seja, nem toda a imagem de santo é recuperada   e volta ao seu respectivo altar ou uso ritual. Observar a posição ocupada (ou   abandonada) pelas imagens nos revela, logo, as articulações sociais mais amplas das quais elas fazem parte. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Desse modo, e sabendo que em Ouro Preto existiam   outras réplicas do Cristo nas igrejas e museus da cidade, pergunto-me por que,   justamente num momento de profundo luto religioso que aciona símbolos rituais   para atualizar a paixão cristã, permitiram que se exibisse publicamente o   protagonista da festa sem cabeça. Não seria essa uma atitude contraditória? Não   se produziria, no meio da Semana Santa, uma forma de blasfêmia, uma   transgressão ao respeito que se deduz no contato com as imagens dos santos,   ainda mais com um “santo supremo” de quem os demais santos do cristianismo seriam diferentes formas de emulação (Jolles 1976:&nbsp;41)? </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ora, a imagem em questão não apenas representa um   protótipo distante de sua materialidade; ela pode ser interpretada – e   frequentemente o é – como um tipo de mediador desse mesmo protótipo divino que,   através de uma conjuntura ritual, comunica-se de alguma forma com as pessoas   que a tocam, fotografam, emocionam-se e rezam diante e para ela. <em>Ecce Homo</em>,   “Eis o Homem” conclamava a efígie com cerca de 1,5&nbsp;m de altura posta sobre   um altar erigido dentro daquele passo, mas que apesar da posição de destaque   não oferecia a possibilidade de interlocução, de se produzir um vínculo de   reciprocidade entre aqueles que o olhavam e que esperavam serem vistos de   volta.<a href="#_ftn12" name="_ftnref12" title=""><sup>[12]</sup></a> Um hiato se produz. Naquela ocasião, a imagem   exibida era na verdade a de uma ausência radical, <em>obs-cena</em> e contraditória, que   colocava em questão (e em hipótese) até mesmo o caráter indubitável de sua   identidade. Seria mesmo o corpo do filho de Deus, e não de qualquer santo ou de mártir que pudesse estar imitando-o? Qual rosto ocuparia aquele corpo? </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A ausência desse rosto sagrado implica, de uma   parte, a perda do “órgão expressivo” por excelência, para reproduzir uma   expressão que Simmel (1986: 679) utilizava para diferenciar o rosto do resto do   corpo – cujos membros, como mãos, braços e pernas, “fazem” algo ou participam   da sua sustentação. O rosto, por sua vez, é o órgão que daria a ver a   singularidade de uma pessoa, revelando-a aos seus interlocutores. Ele diria aos demais quem ela é. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Mas quem então exibiria a imagem de um Cristo   decapitado a centenas de pessoas que acompanhavam a procissão em plena Semana   Santa? E por quê? De acordo com Rita, ninguém menos que padre Simões, o   religioso que naquela época era o responsável pela coordenação das atividades   da festa. Ao saber que a cabeça daquele Jesus tinha sido roubada, fato que o   deixou profundamente consternado, o padre decidiu exibir aquele corpo sem   cabeça justamente para gerar espanto, tentando fazer com que os moradores da   cidade não ficassem indiferentes ao roubo de parte do acervo de bens culturais   que pertencia ao patrimônio local. Na época, instituições como o Museu do Pilar   ainda não tinham se consolidado e muitas peças acabavam sendo furtadas por   ladrões de arte sacra. Para Rita, essa foi a maneira que o sacerdote encontrou   para realizar uma forma de protesto, para gerar algum tipo de espanto que   poderia levar à reflexão. De modo parecido com o que propunha Bertolt Brecht   (1967) em sua contraposição ao teatro dramático, aristotélico, aquela imagem   contraditória – de um Cristo que não se vê por inteiro – deveria mexer não só com os corações, mas também com as mentes dos espectadores da festa.<a href="#_ftn13" name="_ftnref13" title=""><sup>[13]</sup></a> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A (aparentemente boa) intenção do padre,   entretanto, não evitou que o susto sentido por diversos moradores se   convertesse numa série de reclamações – mais ou menos explícitas, afinal   tratava-se de um religioso respeitado na cidade – e, com elas, que sua decisão   fosse abandonada para as Semanas Santas seguintes. Era como se a ausência   daquela cabeça, daquele rosto sagrado, fizesse penetrar no tempo de luto ritual   um tipo de violência diferente da que se esperava ver representada na procissão   que reencenava o sacrifício de Cristo. É como se ele já tivesse sofrido demais   para redimir os pecados humanos, segundo conta a tradição cristã, e arrancar-lhe a cabeça – ou a cabeça de sua imagem – fosse um excesso. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>O peso da cabeça e sua desfiguração </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A cabeça tem um peso fundamental na constituição   da humanidade que se reconhece no Cristo, mas também na sacralidade que seria   inerente à sua dimensão divina. Inversamente, o vazio de seu rosto coloca em   relevo a negatividade que se vislumbra pela ausência desse mesmo teor divino –   como se infere a partir da própria história do cristianismo. No contexto   medieval, por exemplo, a ocultação dos rostos através de máscaras foi   intensamente condenada pela Igreja porque elas poderiam ser utilizadas pelo   Demônio, o mestre dos disfarces e da enganação. Por outro lado, a figura de   Deus teria uma única face – a de Cristo –, aquela que seria a <em>similitudo</em> legítima e verdadeira (Schmitt 2001: 217). O rosto de Cristo, na tradição   cristã, seria sempre aquele que se revela, que se deixa ver como é verdadeiramente. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Abordando problemas teológicos complementares a   esse, mas observando-os desde o momento presente, Giorgio Agambem nos lembra também o seguinte: </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“Na nossa cultura, a relação     rosto/corpo é marcada por uma assimetria fundamental, que […]     corresponde um primado da cabeça, que se manifesta dos modos mais variados, mas     que permanece mais ou menos constante em todos os âmbitos, da política (na qual     o titular do poder é chamado de capo [em português: cabeça, chefe]) à religião     (a metáfora cefálica de Cristo em Paulo), da arte (na qual se pode representar     a cabeça sem corpo – o retrato –, mas não – como é evidente no ‘nu’ – o corpo     sem cabeça) à vida cotidiana, na qual o rosto é por excelência o lugar da     expressão” (Agambem 2014:&nbsp;126). </font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">A exibição ritual de Cristo sem cabeça coloca em   evidência um tipo de excesso – de ausência – que as pessoas não estavam   preparadas para ver, como bem imaginava o sacerdote ouro-pretano, mas que por   isso mesmo fez com que tal ato contivesse um caráter fundamentalmente   ambivalente. Pois se, por um lado, a iniciativa foi bem sucedida no sentido de   que pelo choque produziu-se memória, quase como num trauma – como me mostrava   Rita ao falar desse episódio com detalhes –, por outro, o espanto era provocado   porque, inevitavelmente, aquela exposição estava sendo passível de ser   compreendida como um ato blasfemo, transgressor. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Para pensar essa situação eminentemente ambígua,   considero úteis as observações de autores como Michel Leiris e Georges   Bataille, para quem as relações entre sagrado e profano não eram   necessariamente opositivas e de autoexclusão.<a href="#_ftn14" name="_ftnref14" title=""><sup>[14]</sup></a> Ao invés disso, eles pensavam o caráter   ambivalente do sagrado, como sintetizou Bataille: “o sagrado designa ao mesmo   tempo duas coisas opostas. […] o terror, que intimida, e a atração, que comanda   o respeito fascinado” (1987: 63-64), ou ainda, “o sagrado é precisamente   comparável à chama que destrói a madeira ao consumi-la. Ele é este contrário de   uma coisa, o incêndio ilimitado, que se propaga, irradia calor e luz, inflama e   cega…” (1990: 44). Como autores relacionados – ainda que de modos variados –   com certo conjunto de ideias que marcou o surrealismo europeu, eles também se   colocaram a repensar as relações mantidas (na arte e fora dela) com o corpo   humano, que estaria, ainda, aprisionado na concepção unitária cristã que toma a   natureza terrena de Jesus como modelo referencial para os homens.<a href="#_ftn15" name="_ftnref15" title=""><sup>[15]</sup></a> Na contramão dessa perspectiva, esses   intelectuais se apoiavam na ideia de fragmentação e decomposição da figura   humana. Através de suas obras literárias e visuais, eles faziam intervir no   corpo humano forças e objetos improváveis, ao mesmo tempo em que traçavam   outras aproximações com o domínio do não humano, do bestial. A produção da   revista <em>Acéphale</em> ilustra de modo bastante claro a valorização dessa desfiguração transgressora.<a href="#_ftn16" name="_ftnref16" title=""><sup>[16]</sup></a> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Falando sobre esse conjunto de ideias, Eliane   Robert de Moraes aponta que na figura do “homem sem cabeça” deve ser reconhecida</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“a imagem do ‘ser inacabado’ que remete […] a uma     das mais frequentes definições de monstro, presente tanto em textos da     Antiguidade quanto no Renascimento. […] Sem dúvida, a imagem de um homem sem     cabeça expressa, por excelência, a ideia do ser privado ou desprovido de alguma     capacidade ou órgão indispensáveis na qualificação do humano e, enquanto tal,     constitui-se uma das principais matrizes dos ‘desvios da natureza’”     (Moraes 2012: 184-185). </font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">A profanação do corpo criado à imagem e semelhança   de Deus produz um tipo de deslocamento simbólico que gera, como resposta, o   espanto diante da inumanidade/monstruosidade de um corpo sem   cabeça – ainda mais se ele estiver sobre um altar, dentro de uma capela aberta   à vista de todos os que passam diante dela. Mas isso não é tudo, como afirma   Moraes ainda a respeito das ideias de Bataille:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“Contudo essa mutilação não é apenas negativa […].     A ausência de cabeça não significa portanto ausência de vida, e a ferida da     decapitação abre novas possibilidades de sentido para a existência humana.     Ademais, o corpo vivo e potente do decapitado atesta que a cabeça é apenas um     de seus limites orgânicos. Restam as outras extremidades. Ou, simplesmente, o     resto do homem” (Moraes 2012:&nbsp;187). </font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">O caráter ambivalente de um corpo santo decapitado   se expressa aí também; objeto de repulsa e alvo de interesse, imagem   inesquecível para aqueles que enxergavam a subjetividade que poderia ser   inferida da imagem de um santo. A “ausência sagrada do rosto”, para parafrasear   outro comentador de Bataille (Didi-Huberman 1998), pode nos fazer atentar não   só àquilo que falta, mas também a algo que se revela no interior mesmo dessa   (suposta) ausência. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ao meu ver, a história que acompanhamos em Ouro   Preto pode ser entendida como uma transgressão movida por um religioso que   rompe com certo interdito – aquele que proíbe a manipulação considerada   desrespeitosa para com os santos e suas imagens, ainda mais no momento em que   eles estão em destaque, quando se realiza uma festa em sua homenagem. Ao   transgredir essa fronteira, entretanto, o próprio ato transgressor produziu,   como efeito, um reforço da validade e da demanda pelo “respeito” àquele corpo   de Cristo. Lidamos, pois, com uma atitude que colocou em ação aquilo que   Michael Taussig (1997) chama de “poder do negativo”, como uma característica   dos atos transgressores – sejam eles intencionais ou não. Inspirado em autores   como Walter Benjamin e Bataille, Taussig afirma que a relação mantida entre   sagrado e profano opera numa lógica de interação contínua que se aproxima mais   da ideia de um circuito – que pode entrar em curto-circuito, aliás, como na   situação de choque dos devotos diante de um santo sem cabeça no meio da procissão – do que de uma oposição radical entre os termos. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Além disso, para o autor, o corpo e a imagem não   seriam apenas símbolos ou sintomas da transgressão no domínio religioso, mas   antes o seu próprio veículo de realização. Segundo Taussig: “Death and dismemberment   return us to the human body as a privileged theatre of sacred activity in a way   that makes it hard to avoid the topics of automutilation, of the killing of the   god, and of the god killing himself” (1997: 360). Como vemos, as formas de transgressão que ocorrem   dentro do cristianismo, onde o filho de Deus tornado homem é sacrificado por   seu próprio pai, aparecem como particularmente úteis para pensarmos os (curtos-)circuitos entre sagrado e profano.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Exemplo privilegiado de retroalimentação mantida entre   tais polos estaria nos chamados “segredos públicos”, segredos que não são   necessariamente desconhecidos, mas que ao serem alvo de uma “revelação”   transgressora não perderiam a sua força, não se anulariam. Ao contrário: a   própria intenção de desvelamento poderia colaborar na sua sacralização, no   reforço de seu mistério e na produção do <em>make-believe</em> de que pode haver, ainda, algum outro segredo guardado (Taussig 1997). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Se voltarmos nossa atenção à situação   ouro-pretana, veremos que o que o padre Simões fazia, no mesmo ato de   “protestar” contra o roubo de arte sacra e tentar mobilizar a população para   aquele problema (ou seja, para defender aquele artefato), era revelar o segredo   público de que aquele Cristo era uma imagem de madeira considerada bem cultural.   Dentro da capela que serve de <em>frame</em> para o <em>Ecce Homo</em> (indicando a sacralidade   que lhe deve ser imputada e, ao mesmo tempo, servindo para que ele fosse   destacado de todo o entorno, que está fora daquele passo), a exposição do corpo   decapitado, nem vivo, nem morto, colocava em primeiro plano – e acima da   atuação ritual prevista, como mais um ícone que colabora no fluxo de imagens   que recontam a via-crúcis – a condição de artefato artístico da imagem, como   “bem material” fabricado por mãos humanas, estética e historicamente   localizáveis. Mãos profanas, portanto, demasiadamente humanas para um momento   liminar como o da Sexta-Feira da Paixão. Aquele ato profanador – não só do   objeto em si, mas da relação mantida entre os ícones religiosos e o corpo dos   fiéis, que se espantavam ao olhar para ele pois viam que qualquer possibilidade   de “mistério” por trás dele havia sido reduzida a um objeto despedaçado, uma   cabeça roubada – produziu como resposta uma intensificação da sacralidade do <em>Ecce     Homo</em>, como se infere do abandono da estratégia de choque mantida pelo sacerdote e, posteriormente, na busca de uma nova cabeça para Jesus. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Conforme disse Rita, finalizando a história que me contava:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“Você sabe que ele [o padre] era polêmico, que ele     gostava de causar impacto mesmo, né? P’ra ver se sensibilizava quem roubou. Mas     não apareceu. Aí, depois… Angelo Oswaldo, o prefeito atual, quando ele era     prefeito da outra vez, ele indo à igreja de S.&nbsp;Francisco de Assis, tem um     malão lá com algumas peças. E ele viu uma cabeça de apóstolo [e], como ele     conhece tudo, né, ele conhece todas as peças de arte aqui de Ouro Preto, ele     falou assim: ‘Eu acho que essa cabeça serve lá no passo’. Trouxe pra cá. Não é     bonita como a de antigamente, [mas] encaixou maravilhosamente”. </font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Dentro de um acervo de peças de arte sacra,   reunidas indiferentemente entre si, o então prefeito fez uma busca de cabeças   naquele repertório de ­máscaras possíveis. Mas qual seria aquela que poderia se   “encaixar maravilhosamente”, como dizia a zeladora, isto é, que pudesse   imitá-lo tão bem a ponto de se fazer passar pelo próprio Cristo? Curiosamente,   é a cabeça de um apóstolo, de um seguidor, que assume o corpo daquele que era o   seu mestre. O apóstolo que mimetizava se torna agora a imagem mesma que ele   copiava. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Nessa substituição de cabeças, observamos, de modo   análogo ao que descreve Taussig (1999), que o <em>defacement</em> opera a partir de uma   negação, mas não se realiza como uma mera subtração. Na verdade, a desfiguração   atua mais como uma obliteração, um tipo de esfacelamento das margens do jogo   que definia o que era explícito/oculto até o momento do ato   transgressor, e que será reorientado depois da sua intervenção. Assim, ao ser   recomposta a “face” em questão, o <em>defacement</em> “ativa a sacralidade que é   atribuída a essas coisas [materiais]; fechando o circuito que realiza o vínculo   entre uma imagem e o que ela representa” (Giumbelli 2014: 146). Para cada   cabeça perdida, outra poderia ser encontrada para lhe tomar o lugar e tornar presente, sob certas condições, a sua pessoa.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>O outro (do) Cristo </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ao refletir sobre essa dinâmica de trocas da   cabeça dos santos, como num jogo de máscaras e de suas <em>personas</em> e identidades   públicas, proponho pensar ainda um último exemplo que, ao meu ver, pode ser   relacionado ao tipo de movimentação simbólica que acompanhamos até aqui.   Trata-se da relação entre a face de Cristo e a de outra figura que conta com um   culto público no centro patrimonializado de Ouro Preto. Sua existência   histórica coincide com o tempo de origem das imagens barrocas do século&nbsp;XVIII   e sua biografia é alvo, igualmente, de especulações que envolvem as ideias de   martírio, sacrifício e consagração. Passemos então da materialidade da imagem   do <em>Ecce Homo</em>, com seu corpo flagelado, as mãos atadas e o pescoço envolto por   uma corda, à figura de ­Tiradentes, famoso cidadão ouro-pretano associado à história nacional – sobretudo em sua versão republicana. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Conforme se ensina nas aulas de história do   Brasil, Joaquim José da Silva Xavier foi um dos sujeitos envolvidos num   movimento relativamente organizado que ficou conhecido como a Inconfidência   Mineira. No cenário do Brasil colônia, cuja extração de minerais (tal como   aquele que dá nome a Ouro Preto) constituía-se ainda como importante atividade   econômica, as relações entre mineradores de origens diversas, por um lado, e   funcionários da coroa portuguesa, responsáveis pela cobrança de impostos como o   “quinto”,<a href="#_ftn17" name="_ftnref17" title=""><sup>[17]</sup></a> por outro, eram continuamente conflituosas – e   percebidas, em versões da história que recontam a vida de Tiradentes, como   profundamente injustas. Diante desse quadro, o militar de baixa patente (um   alferes) e outros sujeitos que tinham certas posses defendiam que os impostos,   considerados abusivos, não fossem pagos; que as riquezas extraídas do solo das   Gerais permanecessem nas mãos daqueles que ali viviam, contrapondo-se à   exploração mantida pelo reino do outro lado do Atlântico. Por parte da coroa   portuguesa, essas ideias foram recebidas como uma conspiração, um plano de   deposição política, uma blasfêmia ao poder colonial.<a href="#_ftn18" name="_ftnref18" title=""><sup>[18]</sup></a> Em resposta a isso, e seguindo as ordens   D.&nbsp;Maria, a Louca, os inconfidentes foram alvo de um processo chamado de   “devassa”, que cuidava de investigar todos os detalhes e os envolvidos na   difusão de ideias de (suposta) independência e que tratava de definir as respectivas   punições aos acusados. Entre aqueles que foram alvo da repressão portuguesa,   apenas Tiradentes – visto como o cabeça do grupo – foi condenado à morte em   praça pública, fato que ocorreu em 21 de abril de 1792, no Rio de Janeiro. Os demais presos políticos foram em sua maioria condenados ao degredo na África. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Quanto maior a violência do sacrifício, maior o   sentimento de sacralidade que ele envolve, dizia Bataille (1987). E assim como   vimos que o <em>defacement</em> do <em>Ecce Homo</em> se completava pela substituição da ausência   através da colocação de nova cabeça no santo, nos cabe questionar qual seria a   imagem que pôde assumir o rosto desse sujeito que foi enforcado e depois teve o   seu corpo esquartejado, os membros salgados para que durassem mais e pudessem   ser exibidos por mais tempo, servindo assim de exemplo do perigo de se desafiar o poder da coroa portuguesa. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Do corpo desse homem – cujos descendentes e   parentes mais próximos foram obrigados a abandonar o sobrenome, para apagar a   identidade daquela linhagem – restou, todavia, a cabeça que, segundo reza a   lenda histórica, foi enviada de volta a Ouro Preto para ser exibida aos seus   conterrâneos. Essa cabeça deveria servir como imagem (sacra) da força colonial   e da fraqueza daquele que ameaçou tal poder. Como sublinha Moraes (2012: 17):   “Gesto último do ritual da execução, a exibição do rosto do decapitado pelo   carrasco anunciava o triunfo do corpo político sobre seus traidores, culminando   o espetáculo com a apresentação do ‘verdadeiro retrato do monstro’&nbsp;”. Ao   falar da guilhotina usada no contexto revolucionário francês, que separava o   corpo da cabeça, a autora refere-se a essa máquina de decapitação ritual como a   primeira máquina de tirar retratos – que focam apenas uma parte da pessoa,   justamente aquela que permitiria (graças ao valor dado ao rosto) identificá-la, distinguindo-a de todas as outras. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Mas se nos lembrarmos que “matar, na verdade, nem   sempre tem significado literal”, como nos avisava Bataille (1990: 39),   Tiradentes pode ganhar nova vida através de uma outra feição que ele passou a   assumir após seu sacrifício. Apesar, ou melhor, por causa mesmo de sua   decomposição física realizada com extrema violência, Tiradentes foi reavivado   através de diferentes histórias que serviam para que grupos variados se apropriassem   da sua figura e a envolvessem com máscaras particulares, dando-lhe feições que   refletiam seus próprios valores. Num processo que foi sendo renovado em   diferentes épocas, podemos ver que a consagração de Tiradentes se iniciou ainda   no contexto final da monarquia no Brasil, passou pela instauração do Estado   Novo e atravessou o último século até chegar aos dias atuais. E apesar das   evidentes diferenças existentes entre tais momentos históricos, pode-se   observar a continuidade de uma projeção que acaba transformando o Tiradentes em uma mimese do Cristo. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ao falar sobre o primeiro desses momentos, o   historiador José Murilo de Carvalho (1990) comenta a contraposição que se   formou no século&nbsp;XIX entre monarquistas e republicanos – estes últimos   rebatendo a imagem de Tiradentes à de D.&nbsp;Pedro&nbsp;I. Os antimonarquistas   tomavam Tiradentes como um “herói que se sacrificava por uma ideia” (Carvalho   1990: 60), uma espécie de mártir. Depois de proclamada a República, em 1889, o   culto a Tiradentes intensificou-se de tal modo que as celebrações cívicas em   homenagem ao líder político brasileiro se confundiam com um culto religioso,   como aponta Carvalho: “O desfile que passou a fazer parte das comemorações do   21 de abril [dia da morte de Tiradentes] lembrava a procissão do enterro de   sexta-feira santa. As analogias apareceram já no primeiro desfile realizado em   1890 [no Rio de Janeiro]” (1990: 64). Formava-se, dessa forma, a imagem de um “Cristo cívico” (1990:&nbsp;67). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Algumas décadas depois, já no contexto dos   anos&nbsp;1930, na mesma época em que Ouro Preto seria elevada à categoria de   “Cidade Patrimônio Nacional” (uma passagem fundamental para sua posterior   configuração como destino turístico), o então presidente Getúlio Vargas cedeu   aos apelos de intelectuais e políticos mineiros e assinou um decreto que   autorizava a repatriação dos restos mortais dos inconfidentes falecidos no   degredo. Para recebê-los, o estadista ordenou que fosse feita uma reforma na   antiga Casa da Câmara e cadeia para que ela se tornasse o Museu da Inconfidência   – um amplo edifício que fica bem no centro de Ouro Preto, justamente no local onde teria sido exposta a cabeça de Tiradentes nos idos do século&nbsp;XVIII. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O mesmo presidente que dá nome à rua onde fica a   capela do <em>Ecce Homo</em> ouro-pretano foi, assim, um dos responsáveis pelo   acionamento da busca pela materialidade dos restos corporais daqueles que   haveriam sido injustamente punidos no passado. Nessa procura revela-se o   caráter ritual de recuperação e exibição de algo que se havia perdido, de   tentativa de supressão de um (recém-criado) vazio. Ou ainda, como bem aponta a   indagação de Bruno Latour (2008: 115): “Não são os museus os templos nos quais   sacrifícios são feitos para se pedir desculpas por tanta destruição, como se   quiséssemos de repente parar de destruir e estivéssemos começando o culto   indefinido de conservar, proteger, reparar?” A instituição do Museu da   Inconfidência pode ser vista assim como uma forma de continuação do movimento   que tenta redimir os excessos implicados àqueles corpos – cada vez mais   sacralizados. Além disso, e se nos lembrarmos das palavras do diretor do museu   de arte sacra citado anteriormente, Carlos, espaços como aquele servem como uma   “caixa-forte”, que tanto protege quanto permite que as peças de seu acervo   continuem presentes, isto é, sendo expostas – ao contrário do que ocorreu com aquela cabeça do Cristo, que desapareceu. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Se, como dizia Marx, a história só se repete como   tragédia ou como farsa,<a href="#_ftn19" name="_ftnref19" title=""><sup>[19]</sup></a> nos dois casos parece-me que as aproximações   entre Cristo e Tiradentes se difundem de modo a reforçar a criatividade   envolvida na crucifixão (política ou religiosa), entendida aqui não como uma   mentira, mas como uma criação, uma dramatização tal como o é como uma tragédia   teatral. Digo isso porque, de sua parte, a cabeça de Tiradentes, levada à Vila   Rica e exposta em seu pátio central de modo análogo aos rituais de crueldade   que Foucault (2009) analisa no início de <em>Vigiar</em> e <em>Punir</em>, também teve um destino   obscuro como a do <em>Ecce Homo</em>. Ela desapareceu. Numa cidade que tem no culto à   história e ao passado um importante valor compartilhado entre seus habitantes,   a materialidade que permitiria identificar esse santo político em sua   singularidade, o índice corporal que permitiria remeter à sua existência   histórica concreta aparece apenas como ausência que tenta ser suprimida pela   reposição de outras faces – dentre as quais a de Cristo parece ser a mais potente. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A aproximação entre as duas figuras se realiza,   todavia, ainda nos dias mais próximos de nosso tempo. A imagem do mártir   político continua sendo manipulada de modo a não apenas se constatar a sua   desfiguração passada, mas a dar vazão a uma atividade contrária, que visaria   preencher de alguma forma o “espaço vazio” criado naquele corpo completamente   aniquilado e – na mesma medida – santificado. Em seu estudo sobre as   representações de Tiradentes na imprensa brasileira no século&nbsp;XX, por   exemplo, a historiadora Thais de Lima e Fonseca (2002) nos mostra como aquela   cristianização da figura destacada por Murilo de Carvalho, no século&nbsp;XIX,   segue atualizada nos períodos históricos seguintes. Ela recupera, por exemplo,   uma nota publicada no jornal <em>O Estado de Minas</em>, em 2000, onde a aproximação   entre Cristo e Tiradentes ganha destaque pela coincidência das datas de celebração de seus sacrifícios:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“Hoje o coração do povo brasileiro vivencia a     emoção de dupla cerimônia: uma religiosa e outra cívica, quando celebra-se a     Sexta-feira da Paixão e o Dia de Tiradentes […]. Coincidentemente, Cristo e     Tiradentes morreram por causas nobres, visando o bem-estar do homem. Cristo por     pregar a verdade, o amor, a paz, a igualdade, na tentativa de libertar o homem     do pecado. Tiradentes, por pregar e lutar pela tão sonhada liberdade do povo     brasileiro, explorado e massacrado pela Coroa portuguesa, e por querer fazer deste     País uma verdadeira nação. Um na cruz, outro na forca. […] É intrigante. Uma     pergunta cuja resposta nunca convence. Por que as pessoas de bem, honestas e     dedicadas às causas alheias pagam tão alto por seus nobres gestos?” (<em>apud</em> Fonseca     2002). </font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Junto ao sentimento reavivado por ocasião dos   feriados coincidentes, conforme expresso nessa nota, chama a atenção também a   continuidade daquela prática de remissão do pecado colonial contra os   inconfidentes. Tanto o sentimento quanto a prática relacionada se vinculam,   ainda, com um ritual político instituído desde os anos&nbsp;1950 pelo então   governador de Minas Gerais, ­Juscelino Kubitschek. Foi a partir do seu governo   que a capital mineira passou a ser simbolicamente transferida de Belo Horizonte   (a atual capital administrativa) para a histórica Ouro Preto em cada dia 21 de   abril. Anualmente, diferentes figuras públicas são condecoradas por líderes   políticos com a Medalha da Inconfidência, uma honraria concedida até hoje pelo   Estado brasileiro. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em 2011, já sob o governo de Dilma Rousseff, a   presidenta viajou para Ouro Preto para seguir o ritual estabelecido e   condecorou as pessoas que teriam se destacado no país ao longo do último ano. A   cerimônia naquele 21 de abril teve, porém, um momento de particular destaque: quando   se fez menção às novas urnas com os restos mortais dos inconfidentes que   finalmente estavam sendo recebidas na cidade. Tratava-se dos restos de três   outros degredados que haviam sido recuperados ainda no governo de Getúlio, mas   que não tinham sido identificados até então – tarefa agora possível graças a   novas tecnologias de pesquisa.<a href="#_ftn20" name="_ftnref20" title=""><sup>[20]</sup></a> O percurso temporal entre o momento de retorno   das ossadas ao Brasil e, após décadas, a sua identificação e transporte para o   Museu da Inconfidência chegou a ser tratado como um tipo de peregrinação, como   ilustra um jornalista do <em>O&nbsp;Estado de S.&nbsp;Paulo</em>, remontando mais uma vez as figuras políticas às noções do domínio religioso:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“Depois de uma peregrinação por instituições     públicas, os restos mortais foram encaminhados em 1994 para a unidade da     Unicamp, em Piracicaba, onde permaneceram os últimos 17 anos e foram submetidos     a um processo de identificação […]. O prefeito de Ouro Preto, Ângelo Oswaldo,     lembra que as três ossadas chegaram ao Brasil ‘misturadas’ […]: ‘Eles ficaram     durante anos dentro de uma urna, nos arquivos do Itamaraty, no Rio de Janeiro’”.<a href="#_ftn21" name="_ftnref21" title=""><sup>[21]</sup></a> </font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Lembro que o prefeito citado, Angelo Oswaldo, é o   mesmo que aparecera anteriormente na fala de Rita a respeito do encontro de uma   nova cabeça para o <em>Ecce Homo</em>; foi ele que encontrou dentro de uma grande mala   cheia de outras peças de arte sacra, ou melhor, de outros restos corporais dos   santos, todos eles misturados, a que se identificava com o Cristo. Além disso,   a própria conversa que tive com Rita a respeito da decapitação daquela imagem,   como possível resultado de um roubo, aconteceu na mesma época em que as ossadas   citadas acima eram levadas para Ouro Preto. E, para completar as aproximações   não planejadas entre certos eventos de que fui me dando conta somente durante o   processo de escrita deste texto, naquele mesmo 2011, a data do 21 de abril caía   numa Quinta-Feira Santa, véspera do dia em que se celebra a morte de Cristo. Os   dois martírios se somavam mais uma vez no calendário festivo da cidade. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Foi então no mesmo contexto ritual, em que   referências simbólicas se cruzavam inclusive de modo material – pois a praça   Tiradentes também é um lugar onde se realizam atividades decisivas das   procissões da Semana Santa, que têm de disputar espaço com os palanques   erigidos para destacar as figuras políticas –, que a chegada daquelas ossadas   deixava em destaque a 14.a&nbsp;lápide dos inconfidentes que,  diferentemente das outras 13 ocupadas,   permanece sem nome, vazia. No interior do Museu da Inconfidência, ela marca a   ausência daqueles que não foram recuperados; a ausência dos desaparecidos, incluindo, entre eles, Tiradentes. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Mas ocorre que nessa mesma conjuntura festiva – e   para voltarmos às procissões que nos serviram de ponto de partida –, num   contexto em que uma centena de personagens bíblicos passam a ser representados   por moradores da cidade como parte da encenação que revisita várias passagens   até culminar nos eventos que marcam a paixão e morte de Cristo, eis que ouço   aqui e acolá alguns sussurros sobre Tiradentes. Nas margens das procissões   dessa época, eu notava que certas pessoas se perguntavam, de modo jocoso, se   ­determinada cabeça levada em meio ao cortejo da Semana Santa seria, enfim,   aquela desaparecida séculos atrás. Por intermédio do ritual e da dramatização   que ele coloca em evidência, trazendo diferentes representações sociais à tona   e destacando-as daquelas que regem a vida do dia-a-dia, a cabeça que era vista   nas mãos de figuras bíblicas como Judite (figura do Antigo Testamento que   degola um militar que queria invadir a terra dos israelitas) ou da escrava de   ­Herodes (rei que satisfez o desejo de Salomé, filha de sua esposa, que queria   ter a cabeça de João Batista numa bandeja, de presente) era pensada como   possível substituta daquela do mártir ouro-pretano. Assim, entre risos   discretos, essas pessoas faziam Tiradentes passar de Cristo político a personagem improvável das escrituras bíblicas. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Outra vez assistimos à associação entre a perda da   unidade do corpo provocada por um ato violento, sacrificial, e a sua   recomposição sob uma forma outra, sendo não só objeto de desfiguração, mas   também de transfiguração. Entre as cabeças de Cristo e de Tiradentes observa-se   um jogo de máscaras, de suas <em>personas</em> trágicas e heroicas. Ao invés de   apresentarem-se como pessoas singulares e insubstituíveis – numa visão   compatível com nossa concepção moderna de indivíduo, compreendido como ser   único –, eles se apresentam mais próximos da ambiguidade característica da <em>persona</em> romana, conforme descrita por Mauss (2003: 389). Na antiguidade, a <em>persona</em>, o   “eu”, dizia respeito simultaneamente à representação de um personagem teatral,   que pode ser continuamente reencenado, e à “verdadeira natureza do indivíduo”,   que remete a um ser de direito, com um nome e uma história particular. No caso   que acompanhamos, uma macronarrativa dramática se vincula a uma trajetória   individual, representada sob uma forma trágica, que acaba por afetar o contexto de atualização da primeira. Elas contaminam-se mutuamente. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Considerações finais</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Diante de figuras refletidas entre si como imagens   em um espelho, minha aposta de leitura se realiza sob a inspiração do   procedimento que focaliza as potencialidades do pensamento analógico –   fundamental para os autores e artistas vinculados ao surrealismo, que se   ocupavam não apenas de “estabelecer correspondências ao comparar os diversos   elementos do universo, mas sim de inventá-las” (Moraes 2012: 41). Através deste   exercício, aqui baseado em dados etnográficos e na bibliografia comentada,   busco abrir uma outra frente de entendimento da representação de personagens   sagrados, religiosos e/ou políticos, levando em consideração uma   dinâmica de contínua produção de mimese e de alteridade entre eles,   evidenciando a fabricação de similitudes e de certas destruições (materiais) ao longo do tempo de suas existências. Em suma, transformando-os. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ao compreendê-los como protagonistas de situações   que colidem e se reforçam dentro do cenário de uma cidade encantada pelos   efeitos da memória e de suas histórias, nós avançamos no conhecimento sobre as   formas de pensamento e de expressão que delineiam o imaginário local sobre tais   figuras e sobre parte importante de seu próprio passado. Um passado, como nos   alertava Benjamin (1987: 224), que “só se deixa fixar, como imagem que lampeja   irreversivelmente, no momento em que é reconhecido”. No ato de observação   dessas imagens, interessa menos aquilo que elas já teriam em si mesmas, a&nbsp;priori, e mais aquilo de novo que conseguimos – ou que elas nos permitem – enxergar. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Bibliografia</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">AGAMBEM, Giorgio, 2014, <em>Nudez</em>. Belo Horizonte, Autêntica Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193734&pid=S0873-6561201600020000700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">ALBERT-LLORCA, Marlène, 1995, “La Vierge mise à nu par ses chambrières”, <em>CLIO: Histoire, femmes et sociétés</em>, 2, disponível em <a href="http://clio.revues.org/494" target="_blank">http://clio.revues.org/494</a> (última consulta em maio de 2016).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193736&pid=S0873-6561201600020000700002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BATAILLE, Georges, 1987, <em>O Erotismo</em>. Porto Alegre, LPM Editores.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193738&pid=S0873-6561201600020000700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BATAILLE, Georges, 1990, <em>Teoria da Religião</em>. São Paulo, Ática.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193740&pid=S0873-6561201600020000700004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BELTING, Hans, 2007, <em>La vraie image: Croire aux images?</em> Paris, Gallimard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193742&pid=S0873-6561201600020000700005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BENJAMIN, Walter, 1987, <em>Obras Escolhidas, vol. I: Magia e Técnica, Arte e Política</em>. São Paulo, Brasiliense.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193744&pid=S0873-6561201600020000700006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BRECHT, Bertold, 1967, <em>Teatro Dialético: Ensaios</em>. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193746&pid=S0873-6561201600020000700007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">CARVALHO, José Murilo de, 1990, “Tiradentes: um   herói para a República”, em J.&nbsp;Murilo de Carvalho, <em>A&nbsp;Formação das Almas: O Imaginário da República no Brasil</em>. São Paulo, Companhia das Letras, 55-74.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193748&pid=S0873-6561201600020000700008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">CHRISTIAN JR., William A., 1972, <em>Person and God   in a Spanish Valley</em>. Nova Iorque, Seminar Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193750&pid=S0873-6561201600020000700009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">DIDI-HUBERMAN, Georges, 1998, “O rosto e a terra: onde começa o retrato, onde se ausenta o rosto”, <em>Porto Arte</em>, 16: 61-82.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193752&pid=S0873-6561201600020000700010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">DURKHEIM, Émile, 1996, <em>As Formas Elementares da Vida Religiosa: O Sistema Totêmico na ­Austrália</em>. São Paulo, Martins Fontes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193754&pid=S0873-6561201600020000700011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">FONSECA, Thais Nivia de Lima e, 2002, “A Inconfidência   Mineira e Tiradentes vistos pela imprensa: a vitalização dos mitos (1930-1960)”, <em>Revista Brasileira de História</em>, 22&nbsp;(44): 439-462.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193756&pid=S0873-6561201600020000700012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">FOUCAULT, Michel, 2009, <em>Vigiar e Punir: Nascimento   da Prisão</em>. Petrópolis, Vozes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193758&pid=S0873-6561201600020000700013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">FREEDBERG, David, 1989, <em>The Power of Images:   Studies in the History and Theory of Response</em>. Chicago, The University of Chicago Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193760&pid=S0873-6561201600020000700014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">GELL, Alfred, 1998, <em>Art and Agency: An   Anthropological Theory</em>. Oxford, Clarendon Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193762&pid=S0873-6561201600020000700015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">GIUMBELLI, Emerson, 2014, <em>Símbolos Religiosos em Controvérsias Públicas</em>. São Paulo, Terceiro Nome.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193764&pid=S0873-6561201600020000700016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">JOLLES, André, 1976, “A legenda”, em A.&nbsp;Jolles, <em>Formas Simples</em>. São Paulo, Cultrix, 30-59.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193766&pid=S0873-6561201600020000700017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">KOPYTOFF, Igor, 2008, “A biografia cultural das   coisas: a mercantilização como processo”, em A.&nbsp;Appadurai (org.), <em>A Vida Social das Coisas</em>. Niterói, EdUFF, 89-121.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193768&pid=S0873-6561201600020000700018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">LATOUR, Bruno, 2008, “O que é iconoclash? Ou, há   um mundo além das guerras de imagem?”, <em>Horizontes Antropológicos</em>, 14&nbsp;(29): 111-150.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193770&pid=S0873-6561201600020000700019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">LEIRIS,   Michel, 1979 [1938], “Le sacré dans la vie quotidienne”, em D.&nbsp;Hollier   (org.), <em>Le Collège de Sociologie</em>. Paris, Gallimard, 60-74.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193772&pid=S0873-6561201600020000700020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MARX, Karl, 1851-1852, <em>O 18 de Brumário de Louis Bonaparte</em>, a partir de Marxists Internet Archive, disponível em <a href="http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ma000066.pdf" target="_blank">http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ma000066.pdf</a> (última consulta em maio de 2016).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193774&pid=S0873-6561201600020000700021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MAUSS, Marcel, 2003, “Uma categoria do espírito   humano: a noção de pessoa, a de ‘Eu’”, em M.&nbsp;Mauss, <em>Sociologia e Antropologia</em>. São Paulo, Cosac &amp; Naify, 367-398.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193776&pid=S0873-6561201600020000700022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MAXWELL, Kenneth R., 1978, <em>A Devassa da Devassa:   Inconfidência Mineira, Brasil e Portugal, 1750-1808</em>. Rio de Janeiro, Paz e Terra.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193778&pid=S0873-6561201600020000700023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MORAES, Eliane Robert, 2012, <em>O Corpo Impossível: A   Decomposição da Figura Humana de ­Lautréamont a Bataille</em>. São Paulo, Iluminuras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193780&pid=S0873-6561201600020000700024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">PEREIRA, Edilson, 2014, <em>O Teatro da Religião: A   Semana Santa em Ouro Preto Vista através de Seus Personagens</em>. Rio de Janeiro,   Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro, tese de doutorado em Antropologia Social.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193782&pid=S0873-6561201600020000700025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">QUITES, Maria Regina Emery, 2006, <em>Imagem de   Vestir: Revisão de Conceitos através do Estudo Comparativo entre as Ordens Terceiras Franciscanas no Brasil</em>. Unicamp, tese de doutorado em História.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193784&pid=S0873-6561201600020000700026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SANCHIS, Pierre, 1983, “A caminhada ritual”, <em>Religião e Sociedade</em>, 9: 15-26.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193786&pid=S0873-6561201600020000700027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SCHMITT,   Jean Claude, 2001, “Les masques, le diable, les morts”, em J.-C. Schmitt, <em>Le     Corps, les rites, les rêves, le temps: Essais d’Anthropologie Médiévale</em>. Paris, Gallimard, 211-237.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193788&pid=S0873-6561201600020000700028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SEVERI,   Carlo, 2011, “L’espace chimérique: perception et projection dans les actes du regard”, <em>Gradhiva</em>, 13: 9-47.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193790&pid=S0873-6561201600020000700029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SIMMEL, Georg, 1986, “Digresión   sobre sociología de los sentidos”, em G.&nbsp;Simmel, <em>Sociología: Estudio sobre las Formas de Socialización</em>. Madrid, Alianza, vol.&nbsp;2., 676-695.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193792&pid=S0873-6561201600020000700030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">TAUSSIG, Michael, 1997, “Transgression”, em   M.&nbsp;Taylor (org.), <em>Critical Terms for Religious Studies</em>. Chicago, The University of Chicago Press, 349-364.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193794&pid=S0873-6561201600020000700031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">TAUSSIG, Michael, 1999, <em>Defacement</em>. Stanford, CA, Stanford University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193796&pid=S0873-6561201600020000700032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">WEBSTER, Susan Verdi, 1998, <em>Art and Ritual in   Golden-Age Spain: Sevillian Confraternities and the Processional Sculpture of Holy Week</em>. Princeton, NJ, Princeton University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193798&pid=S0873-6561201600020000700033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>NOTAS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref1" name="_ftn1" title="">[1]</a>       Versões   preliminares deste texto foram apresentadas na III Jornada de Antropologia da   Devoção, realizada no Museu Nacional/UFRJ, e no evento   “Religiões, Materialidades, Espaços Públicos”, que ocorreu na UFRGS, em abril e   junho de 2015 respectivamente. Agradeço a Renata Menezes, Emerson Giumbelli,   Lilian Gomes e Leonardo Dupin pelos comentários que contribuíram para   desenvolver as ideias presentes no texto. Agradeço também aos pareceristas   anônimos pelas valiosas sugestões.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref2" name="_ftn2" title="">[2]</a>       Título   da matéria no jornal carioca <i>O Globo</i>, no caderno “Boa Viagem”, publicado em 25 de fevereiro de 2010 (disponível em <a href="http://oglobo.globo.com/boa-viagem/semana-santa-paixao-de-cristo-moda-mineira-3048979" target="_blank">http://oglobo.globo.com/boa-viagem/semana-santa-paixao-de-cristo-moda-mineira-3048979</a> (última consulta em maio de 2016).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref3" name="_ftn3" title="">[3]</a>       As   idas a campo variaram em sua duração de acordo com o processo da pesquisa e as   demandas por novas informações – com períodos de curta estadia, de uma semana,   e outros de maior duração, com cerca de 80 dias ininterruptos, que se somavam   em diferentes momentos ao longo de cada ano. Ao total, foram produzidas mais de   cem entrevistas com gravador, além de dezenas horas de vídeo com entrevistas e   registros da festa e, ainda, um acervo de mais de 4600 fotografias – de pessoas, artefatos, espaços e situações rituais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref4" name="_ftn4" title="">[4]</a>       Isto   é, sem pressupor que tal característica – de ser ambíguo – seja uma forma de   desvio em relação a determinada normalidade. Assumo tal aspecto como uma dimensão constitutiva do universo analisado.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref5" name="_ftn5" title="">[5]</a>       Atualmente   chamado de IPHAN, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.   Criado nos anos&nbsp;30, o SPHAN tinha em seu decreto primeiro a definição do   que constituía o patrimônio histórico e artístico nacional, a saber: “o   conjunto de bens móveis e imóveis existentes no país e cuja conservação seja do   interesse público quer por sua vinculação a fatos memoráveis da História do   Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico,   bibliográfico ou artístico”. Ouro Preto foi uma das primeiras cidades cujas edificações   e área urbana foram patrimonializadas pelo Estado brasileiro, tornando-se assim uma referência para a história do patrimônio no país.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref6" name="_ftn6" title="">[6]</a>       Vila   Rica foi o primeiro nome de Ouro Preto, fundada em 1711. Em 1823, após a   Independência do Brasil, a Vila se tornava a “Imperial Cidade de Ouro Preto”, título conferido por D.&nbsp;Pedro&nbsp;I.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref7" name="_ftn7" title="">[7]</a>       O   gradiente de pessoalização pode avançar e gerar diferentes efeitos, como aponta   Christian&nbsp;Jr. (1972:   132), por exemplo, que aborda o estabelecimento de um tipo de parentesco entre  determinados santos e sua comunidade de   devotos: “Mary and other more universal saints […] have undergone a somewhat   revolutionary humanization of their image since the middle ages and are   accessible not merely as sources of power to be tapped […], but also as parents or uncles, to be loved and revered.”</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref8" name="_ftn8" title="">[8]</a>       Ao   falar da biografia cultural de um artefato como o que descrevo, pode-se remeter   ainda ao próprio contexto de produção das imagens, que já indicam formas de   pessoalização que se acumulam ao longo de sua existência. Em seu estudo sobre   as imagens sacras utilizadas nas festas sevilhanas do século&nbsp;XVIII, por   exemplo, a historiadora de arte Susan Webster (1998: 104-105) afirma que a   madeira era considerada pelos artesãos espanhóis de setecentos como uma   “matéria quente”, pois o material orgânico carregaria suas propriedades mesmo   depois de ter sido cortado ou arrancado do solo. A madeira manteria suas   qualidades latentes como algo vivo, em contraste com a pedra, o mármore e   outros materiais geológicos que seriam vistos como inertes e passivos. Assim,   desde suas origens, imagens religiosas como as de Ouro Preto (cuja origem   atribui-se a Espanha ou Portugal) poderiam ter reconhecidas certas   características que as aproximariam de um ser vivo e expressivo, tal como uma pessoa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref9" name="_ftn9" title="">[9]</a>       A   utilização do termo “santo” tem o intuito de seguir a fala nativa, que o aciona de modo substitutivo a “imagem do santo”.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref10" name="_ftn10" title="">[10]</a>     É comum,   ao conversar com as zeladoras, ouvi-las utilizar pronomes possessivos como   “minha” Nossa Senhora, ou “meu” santo para se referir a alguma das imagens que fazem parte do acervo de arte sacra da cidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref11" name="_ftn11" title="">[11]</a>     Essa   mesma dinâmica pode ser identificada em relação à matriz da paróquia do Pilar,   onde fica sediado o museu homônimo, cujos altares são dedicados, no presente, a   santos distintos do que eram no passado. Essa mudança frequentemente é   acompanhada pela alteração das irmandades responsáveis pelo cuidado do altar/imagem de cada santo (Pereira 2014).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref12" name="_ftn12" title="">[12]</a>     A   existência ou a possibilidade de inferência de algo parecido com “olhos” em   diferentes suportes materiais – sejam eles mais ou menos semelhantes a uma   cabeça humana ou animal – aparece em vários estudos como sendo um elemento   fundamental na atribuição de subjetividade, isto é, de algum grau de   humanidade, a diferentes artefatos. A respeito desse tópico, a referência “aos   atos do olhar” poderia ser feita a partir do trabalho de diferentes autores,   como David Freedberg (1989) e Alfred Gell (1998), mas também Hans Belting   (2007) ou Carlo Severi (2011). Apesar das variações existentes entre suas   análises, pode-se afirmar que, de um modo geral, os atos do olhar   frequentemente são tomados como parte da inferência da capacidade agentiva   atribuída aos artefatos – sejam eles quadros, esculturas, efígies, máscaras etc.   – ou ao seu reconhecimento como algo “atuante”, especialmente quando eles estão associados a contextos rituais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref13" name="_ftn13" title="">[13]</a>     Segundo   Brecht (1967: 109) o choque auxilia na produção de um distanciamento que   “intervém, não na forma da ausência da emoção, mas na forma de emoções que não   precisam corresponder à do personagem representado” no drama teatral. Ou seja,   elas (as emoções) não deveriam servir apenas para fazer com que o público se   projete sobre a cena e tenha algum conflito pessoal (simbolicamente) resolvido,   como num processo catártico. Ele buscava, ao contrário, mobilizar a capacidade   crítica e reflexiva dos espectadores frente àquilo que era encenado. A não   resolução de um problema e a inclusão de elementos contraditórios eram vistos como algo positivo no teatro brechtiano.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref14" name="_ftn14" title="">[14]</a>     Considerando   suas trajetórias intelectuais, inclusive enquanto membros do Collège de   Sociologie, Leiris e Bataille tinham acesso a outras formas de leitura e   enquadramento da relação entre sagrado e profano. Entre elas, provavelmente, a   clássica análise de Durkheim que ressaltava a existência de uma “dualidade   radical” (1996: 26) entre tais noções, tomadas como opostas e correlacionadas   entre si. De sua parte, Durkheim também mencionava uma ambiguidade do sagrado,   mas no sentido em que haveria um sagrado puro (fasto) e um impuro (nefasto),   como duas forças que provocariam o bem ou o mal (cf.&nbsp;1996: 425 e segs.) e   que eram vistas, ainda, como totalmente distintas do profano. Em contrapartida,   a reflexão apresentada, por exemplo, por Leiris em “Le sacré dans la vie   quotidienne”, observa como o sagrado pode irradiar de objetos, brincadeiras e   experiências aparentemente banais, inclusive no ambiente doméstico e familiar –   ampliando, dessa forma, a análise para além do chamado “sagrado oficial” que   ele reconhecia na política, na religião e na moral, e que seria distinto de tudo considerado ordinário e profano (Leiris 1979 [1938]).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref15" name="_ftn15" title="">[15]</a>     Em sua   análise sobre “a noção de pessoa”, também Marcel Mauss (2003: 392) apontava que   “nossa própria noção de pessoa humana é ainda fundamentalmente a noção cristã”,   esta baseada na ideia de singularidade e de unidade do “eu”. A pessoa é vista, logo, como um ser uno – tal como a própria Igreja e Deus o seriam.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref16" name="_ftn16" title="">[16]</a>     Com o   subtítulo composto pelas palavras “Religião, Sociologia, Filosofia”, a revista   teve seu primeiro número publicado em 1936, sob a responsabilidade de Georges Bataille, Pierre Klossowski e André Masson.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref17" name="_ftn17" title="">[17]</a>     O quinto   do ouro correspondia a um imposto de 20% do metal extraído na região e cobrado pela Metrópole.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref18" name="_ftn18" title="">[18]</a>     Como se   constata na declaração feita em 1798 pelo Visconde de Barbacena, enviado de   Portugal à Vila Rica: “A Mão do Omnipotente que regula o justo e feliz Governo   de S. Mag.<sup>de</sup> acaba de defender este paiz, se não da sua ruina ou   perdição total, ao menos de hum gravissimo estrago irreparavel por muitos   annos, e tem encaminhado as minhas diligencias de tal forma, que tenho a gloria   de poder ao mesmo tempo dar parte a V.<sup>a</sup> Ex.<sup>a</sup>, do grande   perigo com que lhe ameaçou o Sacrilego attrevimento de alguns perversos Homens,   e da completa vitoria com que se acha rebatido, e descoberto pela maior parte o infame sistema da sua maldade” (<i>apud</i> Maxwell 1978:&nbsp;168).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref19" name="_ftn19" title="">[19]</a>     Como se   lê no parágrafo de abertura de <i>O&nbsp;18     de Brumário de Louis Bonaparte</i>: “Hegel observa em uma de suas obras que   todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo   ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa” (Marx 1851-1852).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref20" name="_ftn20" title="">[20]</a>     Para   mais detalhes a respeito da cerimônia, cf. a notícia “Restos mortais de   inconfidentes”, assinada por Ezequiel Fagundes e publicada no <i>Correio Braziliense</i> em 22/04/2011, disponível em <a href="http://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/49469/complemento_1.htm?sequence=2" target="_blank">http://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/49469/complemento_1.htm?sequence=2</a> (última consulta em maio de 2016).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref21" name="_ftn21" title="">[21]</a>     Da   notícia “Minas homenageia três inconfidentes”, assinada por Eduardo Kattah e   publicada n’<i>O&nbsp;Estado de S.&nbsp;Paulo</i>, disponível em <a href="http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,minas-homenageia-tres-inconfidentes,706914" target="_blank">http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,minas-homenageia-tres-inconfidentes,706914</a> (última consulta em maio de 2016).</font></p>      ]]></body><back>
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