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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Bakhtinianas: usar Mikhail Bakhtin para a etnografia das práticas quotidianas do trabalho]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In this paper, we try to show, starting from a research on the industrial work, the relevance that Mikhail Bakhtin&#8217;s intellectual proposals have for the ethnography. After the characterization of the site of inquiry, we highlight the epistemic value of notions such as &#8220;eventness&#8221;, &#8220;context of enunciation&#8221; and &#8220;chronotope&#8221;. These notions are not treated under hermeneutic intentions, but always to point out their heuristic potential for the ethnography of everyday practices of working. The paper ends with the suggestion of tuning up the ethnography with the requirements of &#8220;participative thinking.&#8221; The immediate engagement of the researcher on unique and concrete events, while still allowing for the use of conceptual instruments and procedures of self-reflection, also shows the limits and virtues of understanding the ethnography as a process of knowledge in act.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[  <font face="Verdana" size="2">     <P align="right">   <b>ARTIGOS</b></P>     <P align="right">&nbsp;</P> </font>     <P><font size="4" face="Verdana"><b>Bakhtinianas:   usar Mikhail Bakhtin para a etnografia das pr&aacute;ticas   quotidianas do trabalho</b></font></P>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b><font face="Verdana">Bakhtiniana:   using Mikhail Bakhtin to the ethnography of the everyday practices of   work</font></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>      <P><font size="2" face="Verdana"><b>Bruno   Monteiro<sup>I</sup></b></font>  </P> <font face="Verdana" size="2"><sup>I</sup>Instituto   de Sociologia, Universidade do Porto; Instituto de Hist&oacute;ria     Contempor&acirc;nea, Universidade Nova de Lisboa, Portugal. <i>E-mail: </i><A HREF="mailto:bjrmonteiro@gmail.com">bjrmonteiro@gmail.com</A>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P> </font> <hr noshade size="1"> <font face="Verdana" size="2">     <P><b>RESUMO</b></P>     <P>Neste   texto vamos mostrar, a partir de uma pesquisa sobre o mundo do   trabalho industrial, a relev&acirc;ncia que t&ecirc;m as propostas     intelectuais de Mikhail Bakhtin para a etnografia. Depois de     procedermos a uma caracteriza&ccedil;&atilde;o do terreno de     pesquisa, salientamos a pertin&ecirc;ncia que t&ecirc;m no&ccedil;&otilde;es     como &ldquo;eventicidade&rdquo;, &ldquo;contexto de enuncia&ccedil;&atilde;o&rdquo;   e &ldquo;cronotopo&rdquo; para a etnografia. Estas no&ccedil;&otilde;es     n&atilde;o s&atilde;o tratadas com pretens&otilde;es hermen&ecirc;uticas,     mas sempre para mostrar a sua heuristicidade para a pesquisa     etnogr&aacute;fica das pr&aacute;ticas quotidianas do trabalho. O     texto termina avan&ccedil;ando uma proposta de sintoniza&ccedil;&atilde;o     da etnografia com as exig&ecirc;ncias do modo de &ldquo;pensamento     participativo&rdquo;. A implica&ccedil;&atilde;o imediata do     investigador com os eventos concretos e singulares, sem renunciar,     muito pelo contr&aacute;rio, ao uso de instrumentos conceptuais da     autorreflexividade, torna salientes os limites e virtualidades do entendimento da etnografia como processo de conhecimento em ato.</P>     <P>   <b>Palavras-chave:</b> Bakhtin,   etnografia do trabalho, eventicidade, cronotopo, pensamento participativo.</P> </font> <hr noshade size="1"> <font face="Verdana" size="2">     <P><b>ABSTRACT</b></P>     <P>In   this paper, we try to show, starting from a research on the   industrial work, the relevance that Mikhail Bakhtin&rsquo;s     intellectual proposals have for the ethnography. After the     characterization of the site of inquiry, we highlight the epistemic     value of notions such as &ldquo;eventness&rdquo;, &ldquo;context of     enunciation&rdquo; and &ldquo;chronotope&rdquo;. These notions are     not treated under hermeneutic intentions, but always to point out     their heuristic potential for the ethnography of everyday practices     of working. The paper ends with the suggestion of tuning up the     ethnography with the requirements of &ldquo;participative thinking.&rdquo;   The immediate engagement of the researcher on unique and concrete   events, while still allowing for the use of conceptual instruments   and procedures of self-reflection, also shows the limits and virtues of understanding the ethnography as a process of knowledge in act.</P>     <P><b>Keywords:</b> Bakhtin,   ethnography, eventness, chronotope, participative thinking.</P> </font> <hr noshade size="1">      <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="2" face="Verdana">O relacionamento com autores, textos ou conceitos entretanto   integrados no &ldquo;c&acirc;none&rdquo; acad&eacute;mico n&atilde;o   est&aacute; restringido &agrave; exegese.<A NAME="sdfootnote1anc" HREF="#sdfootnote1sym"><SUP>1</SUP></A> Uma via alternativa consiste em tirar os autores, conceitos e textos   do seu casulo original para, literalmente, os &ldquo;p&ocirc;r a   trabalhar&rdquo;. Fazer &ldquo;trabalhar um conceito&rdquo;   corresponde, para Georges Canguilhem (1990: 206), a uma postura   epistemol&oacute;gica que v&ecirc; na investiga&ccedil;&atilde;o   cient&iacute;fica uma pr&aacute;tica aplicada e n&atilde;o uma   atitude de contempla&ccedil;&atilde;o. No nosso trabalho de pesquisa   etnogr&aacute;fica sobre a experi&ecirc;ncia quotidiana de uma   comunidade industrializada (Rebordosa, no concelho de Paredes),   realizado em 2007 e 2008, pudemos testar sobre o terreno um programa   de investiga&ccedil;&atilde;o que surgiu da imers&atilde;o prolixa e   prolongada nos textos de Mikhail Bakhtin.<A NAME="sdfootnote2anc" HREF="#sdfootnote2sym"><SUP>2</SUP></A> Esta imers&atilde;o foi-nos paulatinamente impregnando com o seu   enxame de interroga&ccedil;&otilde;es, orienta&ccedil;&otilde;es e   preocupa&ccedil;&otilde;es a respeito da centralidade da vida   prosaica. At&eacute; ent&atilde;o flutuando liquefeitas em solu&ccedil;&atilde;o,   uma terminologia e uma tecnologia de pesquisa puderam tornar-se, em   virtude da sua condensa&ccedil;&atilde;o sobre um terreno de   inqu&eacute;rito em concreto, conceitos operat&oacute;rios: j&aacute;   n&atilde;o apenas t&oacute;picos convencionais ou termos soltos, mas   tamb&eacute;m instru&ccedil;&otilde;es de observa&ccedil;&atilde;o,   registo e interpreta&ccedil;&atilde;o do mundo social. A invoca&ccedil;&atilde;o   de Mikhail Bakhtin nas ci&ecirc;ncias sociais acumulou entretanto uma   densa hist&oacute;ria (Brandist e Tihanov 2000; Hirschkop e Sheperd   2001); este texto n&atilde;o pretende, a este t&iacute;tulo, nenhuma   originalidade. Aqui, para verificar a proficuidade da perspetiva   intelectual de Mikhail Bakhtin para a etnografia, estamos   interessados em concretizar, aplicar, em sentido estrito, o sistema   de conceitos que subjaz aos seus textos a um caso particular do mundo   social, mais do que impor uma vis&atilde;o ortodoxa a respeito do seu   contributo te&oacute;rico.</font></P> <font face="Verdana" size="2">    ]]></body>
<body><![CDATA[<P>   O c&iacute;rculo da controv&eacute;rsia onde alternativas exeg&eacute;ticas     concorrem pela imposi&ccedil;&atilde;o de uma vers&atilde;o can&oacute;nica     a respeito de um conceito, autor ou m&eacute;todo arrasta usualmente     consigo a inconsci&ecirc;ncia dos contraventores sobre os     pressupostos em que assenta essa alterca&ccedil;&atilde;o     (<I>vd</I>.&nbsp;Gingras 2014); em contrapeso, remeteremos     oportunamente para o contexto hist&oacute;rico de incuba&ccedil;&atilde;o     das propostas de desenvolvimento e supera&ccedil;&atilde;o da heran&ccedil;a     neokantiana que foram avan&ccedil;adas ao longo dos primeiros 20 anos     do s&eacute;culo&nbsp;XX, entre as quais se incluem os trabalhos     iniciais de Mikhail Bakhtin (Godzich 1991). Dissemos j&aacute; que o     presente texto procura trazer uma aplica&ccedil;&atilde;o mais do que     uma interpreta&ccedil;&atilde;o ortodoxa do trabalho de Mikhail     Bakhtin, menos ainda a sua cataloga&ccedil;&atilde;o entre as     controv&eacute;rsias a respeito da rece&ccedil;&atilde;o da sua obra.     Eventualmente por isso, a vis&atilde;o apresentada neste texto     comporta um imperfeito alinhamento com as partes em disputa na     importante pol&eacute;mica sobre a integra&ccedil;&atilde;o do     trabalho de Mikhail Bakhtin por correntes de pensamento associadas ao   &ldquo;p&oacute;s-modernismo&rdquo; (sobre estes posicionamentos,   <I>vd</I>.&nbsp;Adlam 2001: 247-248) ou, em sentido inverso, a sua     sinaliza&ccedil;&atilde;o como mecanismo de compensa&ccedil;&atilde;o     contra as vers&otilde;es mais extremas do relativismo ou &ldquo;dissolu&ccedil;&atilde;o     do sujeito&rdquo; (Gardiner 2003). Michael Gardiner, ali&aacute;s,     salienta que a obra de Mikhail Bakhtin surge extemporaneamente     investida quando transposta para os termos desta pol&eacute;mica,     pois o seu contexto de enuncia&ccedil;&atilde;o inicial (hist&oacute;rico,     tal como intelectual) era completamente outro: inserido neste,     Mikhail Bakhtin &ldquo;evita os extremos g&eacute;meos do absolutismo     moral e do &lsquo;tudo serve&rsquo; do relativismo p&oacute;s-moderno&rdquo;   (2003: xii). A este respeito, talvez seja importante registar, como   sugere Peter Hitchcock, a distin&ccedil;&atilde;o existente entre o   &ldquo;Mikhail Bakhtin&rdquo; que os partidos antagonistas constroem   &agrave; sua imagem e semelhan&ccedil;a e o Mikhail Bakhtin em a&ccedil;&atilde;o     sobre o contexto hist&oacute;rico em que estava (<I>vd</I>.&nbsp;Gardiner 2003:&nbsp;xiii).</P>     <P>   Tendo em vista a economia da exposi&ccedil;&atilde;o, iremos     sobretudo concentrar-nos sobre o nosso trabalho de observa&ccedil;&atilde;o     participante, em que trabalh&aacute;mos como manobrador de m&aacute;quinas   &ndash; leia-se: aprendiz ou auxiliar de &ldquo;maquinista&rdquo; &ndash;   numa empresa de mobili&aacute;rio por um per&iacute;odo de 14     semanas. Vamos, assim, recorrer extensivamente &agrave;s nossas notas     de campo, procurando trazer para a superf&iacute;cie aparentemente     in&oacute;cua do papel as tribula&ccedil;&otilde;es que o trabalho     etnogr&aacute;fico comportou. Os longos excertos com que intercalamos     o exerc&iacute;cio de objetiva&ccedil;&atilde;o etnogr&aacute;fica     n&atilde;o pretendem constituir &ldquo;provas&rdquo; em sentido     positivista; s&atilde;o, antes, a tentativa de plasmar sobre o texto     uma experi&ecirc;ncia que resiste &agrave; transcri&ccedil;&atilde;o     integral. Por outras palavras, tentar que a &ldquo;prosa do mundo&rdquo;   se volva prosa literalmente. As varia&ccedil;&otilde;es sobre temas     bakhtinianos, como podem ser vistas as sucessivas sec&ccedil;&otilde;es     deste texto, pretendem revelar a sua proficuidade para a etnografia &ndash;   e n&atilde;o apenas proporcionar um mostru&aacute;rio de no&ccedil;&otilde;es     ou trazer os nossos enunciados para a ribalta. Por isso, sondaremos     as rugosidades do nosso material emp&iacute;rico com recurso a uma     aparelhagem bakhtiniana, esp&eacute;cie de corante que releva     incid&ecirc;ncias que s&atilde;o impercet&iacute;veis a um olhar     contemplativo ou imp&aacute;vido. Neste texto, interessamo-nos     sobretudo por salientar precisamente a interce&ccedil;&atilde;o,     sobre o terreno de pesquisa, ocorrida entre as propostas de Mikhail     Bakhtin, postas em movimento como &ldquo;perguntas&rdquo; ou   &ldquo;interesses de pesquisa&rdquo;, e a massa de acontecimentos que     preenche a banalidade da vida de todos os dias da f&aacute;brica e     que puderam, em virtude do uso de utens&iacute;lios bakhtinianos,     aparecer nitidamente ao olhar etnogr&aacute;fico. Oportunamente,     iremos remeter para sucintas ilustra&ccedil;&otilde;es dos principais     conceitos de Mikhail Bakhtin, sem ter, todavia, a veleidade de     percorrer exaustivamente o seu vocabul&aacute;rio (para um gloss&aacute;rio consistente, <I>vd</I>.&nbsp;Morson e Emerson 1990:&nbsp;15-62).</P>     <P>   Numa primeira sec&ccedil;&atilde;o do texto, iremos ver, portanto,     como os trabalhos de Mikhail Bakhtin nos sensibilizaram para com a     viscosidade da vida ordin&aacute;ria, tida usualmente por vulgar e     insignificante. Neste ponto, iremos mostrar a import&acirc;ncia que     tem, para uma etnografia das pr&aacute;ticas materiais e simb&oacute;licas     dos oper&aacute;rios, a recupera&ccedil;&atilde;o da no&ccedil;&atilde;o     de &ldquo;eventicidade&rdquo;, t&atilde;o cara a Mikhail Bakhtin.<A NAME="sdfootnote3anc" HREF="#sdfootnote3sym"><SUP>3</SUP></A>   Existem propriedades sensoriais e situacionais que s&oacute; s&atilde;o     expostas em estado vivo (ou conservadas apenas pelo decurso da a&ccedil;&atilde;o)     e que, por serem t&atilde;o fugazes e t&atilde;o comuns, s&atilde;o     imperfeitamente registadas e repostas pelas recole&ccedil;&otilde;es     verbais dos sujeitos, sobretudo quando surgem numa narrativa <I>post       festum</I>. Numa segunda sec&ccedil;&atilde;o, vamos explorar a ampla     reflex&atilde;o de Mikhail Bakhtin a respeito da ideia de &ldquo;contexto     de enuncia&ccedil;&atilde;o&rdquo;.<A NAME="sdfootnote4anc" HREF="#sdfootnote4sym"><SUP>4</SUP></A>   Neste caso em particular, iremos pugnar pela explora&ccedil;&atilde;o     da virtualidade epistemol&oacute;gica do conceito de &ldquo;cronotopo&rdquo;   para a pesquisa etnogr&aacute;fica do mundo do trabalho. A terminar,     tentaremos mostrar a import&acirc;ncia da interpreta&ccedil;&atilde;o     de Mikhail Bakhtin a respeito dos &ldquo;pequenos mundos&rdquo;   (te&oacute;rico, est&eacute;tico, &eacute;tico) com que ele     caracteriza a complexidade e a polinomia da exist&ecirc;ncia humana.     Essa inspe&ccedil;&atilde;o do lugar pr&oacute;prio da &ldquo;teoria&rdquo;   como cria&ccedil;&atilde;o ligada a uma esfera de atividade peculiar     que, todavia, se concretiza em pr&aacute;ticas pela aplica&ccedil;&atilde;o     a um contexto &uacute;nico e concreto, cont&eacute;m igualmente uma     proposta de revis&atilde;o do papel do etn&oacute;grafo: visto n&atilde;o     s&oacute; como &ldquo;pensador&rdquo;, mas como uma variedade     especial de &ldquo;ator&rdquo; que pode incorporar e aplicar a   &ldquo;teoria&rdquo; em atos, ao mesmo tempo que consegue sustentar a     vigil&acirc;ncia epistemol&oacute;gica de si mesmo &ndash; o que lhe     permite prevenir a &ldquo;postura escol&aacute;stica&rdquo; pela qual     o investigador se coloca acima do mundo que observa, sem deslizar     para o impressionismo ing&eacute;nuo (<I>vd</I>.&nbsp;Bourdieu 2001).     Desta maneira, sugere-se a virtualidade de praticar a etnografia como     modalidade autorreflexiva de &ldquo;pensamento participativo&rdquo;.<A NAME="sdfootnote5anc" HREF="#sdfootnote5sym"><SUP>5</SUP></A>   Neste sentido, o texto &shy;permanecer&aacute; em estado de   &ldquo;inacabamento&rdquo; (<I>vd.</I>&nbsp;nota&nbsp;2): ensaiando     uma &shy;pesquisa etnogr&aacute;fica no universo quotidiano do     trabalho industrial, ele vai ainda sujeitar o pr&oacute;prio impulso     de etnografar &agrave;s solicita&ccedil;&otilde;es do pensamento de     Mikhail Bakhtin. Antes de avan&ccedil;ar para esta sequ&ecirc;ncia de     temas, comecemos, todavia, por proceder a uma paulatina aproxima&ccedil;&atilde;o     ao terreno de pesquisa, caracterizando as circunst&acirc;ncias     sociais e hist&oacute;ricas que circundam a comunidade sob     investiga&ccedil;&atilde;o e apresentando sucintamente os procedimentos metodol&oacute;gicos usados nesta pesquisa etnogr&aacute;fica.</P>     <P>&nbsp;</P> </font>     <P> <font size="3" face="Verdana"><b>Transcrever a prosa do mundo: aproxima&ccedil;&otilde;es ao terreno de pesquisa</b></font></P> <font face="Verdana" size="2">     <P>   Rebordosa corresponde, em termos administrativos, a uma freguesia do   concelho de Paredes, com uma popula&ccedil;&atilde;o de 9106     habitantes (em 2001). Este concelho, com uma forte implanta&ccedil;&atilde;o     das atividades industriais em termos latos, mostra uma particular     especializa&ccedil;&atilde;o produtiva em torno do setor do     mobili&aacute;rio. Em 2001, a ind&uacute;stria do mobili&aacute;rio     representava 45,4% dos trabalhadores do setor secund&aacute;rio do     concelho de Paredes (e 27,3% da popula&ccedil;&atilde;o ativa).     Segundo o relat&oacute;rio de uma associa&ccedil;&atilde;o     empresarial nacional, o complexo industrial associado a este setor     estava, por sua vez, pautado pela relev&acirc;ncia que tinham as     empresas de micro e pequena dimens&atilde;o (cada unidade de produ&ccedil;&atilde;o     empregava, em m&eacute;dia, sete trabalhadores), caracterizadas por     uma administra&ccedil;&atilde;o de cariz familiar e pouco     formalizada, por um equipamento tecnol&oacute;gico incipiente ou     pouco inovador, e pelas baixas remunera&ccedil;&otilde;es e   &shy;qualifica&ccedil;&otilde;es do pessoal empregado (AEP  /  Gabinete     de Estudos 2005).<A NAME="sdfootnote6anc" HREF="#sdfootnote6sym"><SUP>6</SUP></A>   A &shy;partir destas indica&ccedil;&otilde;es sum&aacute;rias,     podemos situar o lugar espec&iacute;fico ocupado pela &ldquo;Empresa&nbsp;K&rdquo;   no interior da economia local de Rebordosa: veja-se os 35 &shy;trabalhadores que empregava (incluindo os &ldquo;encarregados&rdquo;   ou outros empregados, por exemplo), a posse de servi&ccedil;os     administrativos especializados e profissionalizados (um &ldquo;escrit&oacute;rio&rdquo;   com um gerente e uma &ldquo;engenheira&rdquo;), a instala&ccedil;&atilde;o     de maquinaria que revelava m&oacute;dicas preocupa&ccedil;&otilde;es     com a inova&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica e com a normaliza&ccedil;&atilde;o     dos processos produtivos (&ldquo;certifica&ccedil;&atilde;o de     qualidade&rdquo;, &ldquo;fichas de produ&ccedil;&atilde;o&rdquo;), ou     a utiliza&ccedil;&atilde;o de procedimentos de publicidade pouco     usuais entre as empresas de Rebordosa. Dotada destas propriedades, a     empresa aparecia, segundo os par&acirc;metros localmente prevalecentes, como uma unidade &ldquo;moderna&rdquo;.</P>     <P>   Durante 14 semanas, tivemos oportunidade de cumprir um hor&aacute;rio     de trabalho completo &ndash; come&ccedil;ando &agrave;s 8 horas e     terminando &agrave;s 18 horas, por vezes mais tarde, quando se     realizavam &ldquo;horas extraordin&aacute;rias&rdquo; &minus; como     manobrador de m&aacute;quinas. Na realidade, o nosso trabalho     correspondeu, inicialmente, ao patamar mais modesto das hierarquias     t&eacute;cnica e estatut&aacute;ria do coletivo oper&aacute;rio: como   &ldquo;mo&ccedil;o&rdquo; cumpr&iacute;amos as tarefas sob a estrita     vigil&acirc;ncia de outro oper&aacute;rio, a pedido de um   &ldquo;maquinista&rdquo; mais experiente, ou como simples &ldquo;ajudante     de marceneiro&rdquo;. S&oacute; mais tarde, praticamente um m&ecirc;s     ap&oacute;s a entrada ao servi&ccedil;o, &eacute; que come&ccedil;&aacute;mos     a assegurar por n&oacute;s pr&oacute;prios o controlo de uma m&aacute;quina,     aparentemente a que implicava menores compet&ecirc;ncias pr&eacute;vias     (&ldquo;orladora&rdquo;). O acesso ao terreno foi mediado por um     contacto pessoal, que nos apresentou ao respons&aacute;vel pela     administra&ccedil;&atilde;o da empresa como &ldquo;estudante&rdquo;   que pretendia realizar uma &ldquo;tese para a universidade&rdquo;. Da     nossa concerta&ccedil;&atilde;o pr&eacute;via nasceu o &ldquo;contrato&rdquo;   impl&iacute;cito que viria a presidir &agrave; nossa presen&ccedil;a     sobre o terreno: nessa ocasi&atilde;o, torn&aacute;mos patentes as     motiva&ccedil;&otilde;es e as inten&ccedil;&otilde;es do nosso     trabalho de pesquisa; renunci&aacute;mos a uma presta&ccedil;&atilde;o     salarial pelo nosso trabalho oper&aacute;rio, pois que n&atilde;o     pretend&iacute;amos que surgisse sequer a impress&atilde;o de     cumprirmos uma tarefa ou uma encomenda para a empresa como     contrapartida por esse pagamento; comprometemo-nos a apresentar,     terminada a nossa pesquisa de terreno, uma exposi&ccedil;&atilde;o     sobre as nossas conclus&otilde;es, salvaguardando, por&eacute;m, os     elementos pessoais dos trabalhadores; garantimos perante a empresa a     nossa mais completa autonomia para a reda&ccedil;&atilde;o das     conclus&otilde;es da pesquisa, que ficou, por conseguinte, emancipada     das interfer&ecirc;ncias e aprova&ccedil;&otilde;es da ger&ecirc;ncia.     Ao longo da nossa perman&ecirc;ncia no terreno jamais perder&iacute;amos     a vincula&ccedil;&atilde;o com a institui&ccedil;&atilde;o leg&iacute;tima     que &eacute; a universidade &ndash; por isso, apenas como exemplo,     sempre que um colega pretendia comprar uma pe&ccedil;a de equipamento     tecnol&oacute;gico, por muito que confess&aacute;ssemos a nossa     ignor&acirc;ncia sobre o assunto, era-nos pedido conselho. Em todo o     caso, a presen&ccedil;a continuada no terreno e, por consequ&ecirc;ncia,     a crescente integra&ccedil;&atilde;o nas intrincadas redes de     interdepend&ecirc;ncias que se v&atilde;o entretecendo entre os     colegas de trabalho, tanto em resposta &agrave;s imposi&ccedil;&otilde;es     t&eacute;cnicas do processo de trabalho, como em resultado da     rotiniza&ccedil;&atilde;o das trocas de &ldquo;ajudas&rdquo;,   &ldquo;favores&rdquo; e &ldquo;obriga&ccedil;&otilde;es&rdquo; entre     colegas, permitiu que o estigma de &ldquo;estudante&rdquo;, invocado     em termos ir&oacute;nicos, pudesse ser complementado, sen&atilde;o     subalternizado pela condi&ccedil;&atilde;o de copresen&ccedil;a na     f&aacute;brica (&ldquo;colega&rdquo;, &ldquo;mo&ccedil;o que ajuda&rdquo;).     As notas de campo, que foram por n&oacute;s coligidas todos os dias,     eram depois tratadas pessoalmente como &ldquo;di&aacute;rios de campo&rdquo;.</P>     <P>   Tendo por preocupa&ccedil;&atilde;o restituir a integralidade da     experi&ecirc;ncia oper&aacute;ria, regressar&iacute;amos no ano     seguinte, em 2008, para residir em Rebordosa durante 16 semanas.     Nessa altura, aproveit&aacute;mos para interrogar as pr&aacute;ticas     e os sentidos que se concretizavam fora dos muros da f&aacute;brica:     frequentando espa&ccedil;os de sociabilidade como caf&eacute;s ou     gin&aacute;sios, encontrando os oper&aacute;rios nos seus &ldquo;tempos     livres&rdquo; em casa ou nos quintais, ligando-nos com eles em     t&aacute;ticas de restitui&ccedil;&atilde;o de si e em ocasi&otilde;es     de valoriza&ccedil;&atilde;o pessoal e coletiva (por exemplo,     acompanhando uma equipa amadora de futebol). Por acr&eacute;scimo ao     nosso trabalho de observa&ccedil;&atilde;o etnogr&aacute;fica,     realiz&aacute;mos entrevistas aprofundadas a oper&aacute;rios a solo,     casais de oper&aacute;rios e outros atores locais ou setoriais     relevantes, procurando com isto saturar as indica&ccedil;&otilde;es     de terreno com testemunhos que correspondessem com enuncia&ccedil;&otilde;es     verbais &agrave;s nossas solicita&ccedil;&otilde;es, via perguntas     semidiretivas. Pelas raz&otilde;es acima invocadas, vamos, neste     texto, insistir sobretudo sobre as notas de campo que trazem para o     papel os ind&iacute;cios dispersos pela f&aacute;brica, uma cultura     com uma relevante componente som&aacute;tica, logo &ldquo;muda&rdquo;,     e constitu&iacute;da por marcadores verbais que n&atilde;o     correspondem exata e integralmente aos protocolos da linguagem codificada.</P>     <P>&nbsp;</P> </font>     <P> <font size="3" face="Verdana"><b>Explorar o &ldquo;mundo da raz&atilde;o pr&aacute;tica&rdquo;: a natureza de &ldquo;eventicidade&rdquo; da pausa do &ldquo;lanche&rdquo;</b></font></P> <font face="Verdana" size="2">     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>   Para Mikhail Bakhtin, &eacute; preciso &ldquo;levar-em-conta&rdquo; a     unicidade do ato, em que se comprimem e exprimem todas as vertentes     da exist&ecirc;ncia do seu protagonista, para escapar &agrave;s     variedades da metaf&iacute;sica. Desta maneira, por exemplo, em vez     de seccionar uma vertente unilateral de um ato para o interpretar     analiticamente, imp&otilde;e-se restituir a &ldquo;mescla&rdquo;   entre &ldquo;componentes&rdquo; (que s&oacute; aparecem como tal     mediante uma desagrega&ccedil;&atilde;o extempor&acirc;nea) que se     opera nesse mesmo ato pela sua realiza&ccedil;&atilde;o num certo     contexto. Nos termos de Mikhail Bakhtin, entre o mundo-como-evento, o     ato supera toda a hip&oacute;tese; para o participante do ato,     colocado sobre o plano do evento em processo, o mundo &eacute;   compreendido a partir do seu inextrinc&aacute;vel envolvimento pelo     contexto de exist&ecirc;ncia imediato. &ldquo;Tudo em mim &ndash;   cada movimento, gesto, experi&ecirc;ncia vivida, pensamento,     sentimento &ndash; tudo deve ser um ato ou a&ccedil;&atilde;o; &eacute;   apenas sob esta condi&ccedil;&atilde;o que eu realmente vivo, que eu     n&atilde;o me separo das ra&iacute;zes ontol&oacute;gicas do ser     real. Eu existo no mundo da realidade inescap&aacute;vel, e n&atilde;o     no mundo da possibilidade contingente&rdquo; (Bakhtin 1993: 63). Esta     perten&ccedil;a inexaur&iacute;vel do participante a um contexto     particular constitui &ldquo;a base t&aacute;cita do seu n&atilde;o-&aacute;libi     no Ser&rdquo;, o que nos impele a perceber as suas a&ccedil;&otilde;es     em combina&ccedil;&atilde;o com as compuls&otilde;es, valoriza&ccedil;&otilde;es     e imputa&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o inerentes ao &ldquo;lugar     pr&oacute;prio&rdquo; ocupado por ele. Neste sentido &eacute; que se     pode constatar que tais a&ccedil;&otilde;es sejam realizadas   &ldquo;responsavelmente&rdquo; perante as exig&ecirc;ncias que traz a     participa&ccedil;&atilde;o ativa num contexto concreto (1993: 33-34,     50). Os participantes s&atilde;o transportados, implicados e     comovidos pela natureza do evento que os compreende, ou pelo objeto     que encaram, tomando-os uns e outros, eventos e objetos, n&atilde;o     como produtos cristalizados, mas como produ&ccedil;&otilde;es   &ldquo;inacabadas&rdquo;<I>, </I>como   &ldquo;algo-ainda-por-ser-alcan&ccedil;ado&rdquo;. Assim, o mundo     v&ecirc;-se tratado menos como uma &ldquo;entidade pronta&rdquo; do     que como o movimento que o participante, por via de uma &ldquo;atitude     valorativa&rdquo;, procura realizar ou prevenir, manobrar ou     contornar em raz&atilde;o da implica&ccedil;&atilde;o que o mundo tem     para si nesse instante. Nessa medida, o evento nunca est&aacute;   irreversivelmente terminado nem completamente isolado, surge   integrado nesse fluxo que segue para &ldquo;algo-ainda-a-ser-alcan&ccedil;ado&rdquo;,     pois as coisas ou as pessoas n&atilde;o s&atilde;o apenas conhecidas     como &ldquo;algo totalmente dado&rdquo;, mas, acima de tudo, dependem     das variadas &ldquo;atitudes valorativas&rdquo; &ndash; ou   &ldquo;intona&ccedil;&otilde;es&rdquo; &ndash; que os participantes     revelam e assumem em rela&ccedil;&atilde;o a elas, sejam tais     atitudes expressas como a&ccedil;&otilde;es, sensa&ccedil;&otilde;es     ou pensamentos. Desta maneira, tais acontecimentos, coisas e pessoas     tornam-se &ldquo;momentos constituintes do evento vivo em processo&rdquo; (1993:&nbsp;38).</P>     <P>   Estas observa&ccedil;&otilde;es acarretam consequ&ecirc;ncias para a     investiga&ccedil;&atilde;o etnogr&aacute;fica, levando-a a     privilegiar compreender os contextos de &ldquo;unicidade&rdquo; onde     os atos s&atilde;o &ldquo;inescap&aacute;vel, irremedi&aacute;vel e     irrevocavelmente&rdquo; executados (Bakhtin 1993: 47). Mergulhados na     vida de todos os dias, n&atilde;o estamos colocados perante escolhas     especulativas, ocasionais ou ilimitadas, que possam ser evitadas ou     substitu&iacute;das por outras; nela, somos &ldquo;compelidos a agir&rdquo;   porque participamos de um contexto a que pertencemos empaticamente,   que orienta o &ldquo;sentido&rdquo; e a &ldquo;facticidade&rdquo; do     ato e que supera toda e qualquer &ldquo;hip&oacute;tese&rdquo; (1993:     30). Embora &ldquo;a cogni&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica de um     objeto que exista por si, independentemente da sua posi&ccedil;&atilde;o     real no mundo &uacute;nico do ponto de vista de um eu&rdquo;, seja     perfeitamente justificada aos olhos de Mikhail Bakhtin, este mundo     te&oacute;rico s&oacute; pode emergir, &ldquo;com a sua pr&oacute;pria     lei imanente&rdquo;, com reivindica&ccedil;&otilde;es de   &ldquo;universalidade&rdquo; e &ldquo;idealidade&rdquo;, portanto,     para &ldquo;um contemplador situado do lado de fora da arquitet&oacute;nica     do mundo&rdquo; (1993: 70). Neste estado absoluto e abstrato, a   &ldquo;teoria&rdquo; pura apenas se torna plaus&iacute;vel ou     imprescind&iacute;vel para uma perspetiva &ldquo;exot&oacute;pica&rdquo;   (1993: 75). Por seu turno, o &ldquo;mundo da raz&atilde;o pr&aacute;tica&rdquo;,   &ldquo;o mundo no qual um ato ou a&ccedil;&atilde;o realmente se     desenvolve, no qual ele &eacute; realmente completado, &eacute; um     mundo unit&aacute;rio e &uacute;nico, experimentado concretamente: &eacute;   um mundo que &eacute; visto, tocado e pensado, um mundo impregnado no     seu todo pelos tons emocionais-volitivos da validade afirmada dos     valores&rdquo; (1993: 59). Ele imp&otilde;e uma temporalidade e uma     espacialidade aos seus participantes, que s&atilde;o, portanto,     absorvidos como seres incarnados, numa &ldquo;comunh&atilde;o &uacute;nica     com o ser-evento&rdquo; e que, sem ter que negar a     validade da verdade cient&iacute;fica no &shy;interior da     circunscri&ccedil;&atilde;o do mundo te&oacute;rico (ou, nos seus     respetivos mundos, a validade de aprecia&ccedil;&otilde;es morais ou     est&eacute;ticas), nenhuma inst&acirc;ncia de teoreticismo consegue substituir e compreender integralmente (1993: 10-11, 8).</P>     <P>   Na &ldquo;Empresa&nbsp;K&rdquo;, como noutras f&aacute;bricas     parecidas, s&atilde;o salientes as clivagens entre participantes,     repartidos por uma rede de conex&otilde;es estabelecidas em torno da     competi&ccedil;&atilde;o pelo controlo do tempo-espa&ccedil;o, tanto     o pr&oacute;prio como o alheio; tais clivagens s&atilde;o     consequ&ecirc;ncia da posse de assim&eacute;tricos patrim&oacute;nios     de recursos estatut&aacute;rios e t&eacute;cnicos no interior da   &ldquo;configura&ccedil;&atilde;o de poder&rdquo; fabril (<I>vd</I>.&nbsp;Elias     1997). Desde logo, surgem separa&ccedil;&otilde;es f&iacute;sicas que     traduzem a vincula&ccedil;&atilde;o a postos de comando ou     subordinados. Numa vers&atilde;o vertical das &ldquo;regi&otilde;es&rdquo;   goffmanianas, a organiza&ccedil;&atilde;o material dos &ldquo;quadros     de intera&ccedil;&atilde;o&rdquo; da empresa &ndash; embora o pr&oacute;prio     Goffman tenha recusado, nos seus &uacute;ltimos livros, subscrever as   &ldquo;leis de ferro do lavor de palco&rdquo; (Goffman 1986: 128) &minus;   imp&otilde;e por si mesma um limite que separa os &ldquo;escrit&oacute;rios&rdquo;,     situados num plano arquitet&oacute;nico e hier&aacute;rquico     superior, onde ocorrem as atividades de prescri&ccedil;&atilde;o e     supervis&atilde;o da ger&ecirc;ncia, e o plano do &ldquo;serrim&rdquo;,     o r&eacute;s-do-ch&atilde;o da f&aacute;brica, onde se concentram os     oper&aacute;rios e as atividades de produ&ccedil;&atilde;o. Por sua     vez, entre os oper&aacute;rios, as parti&ccedil;&otilde;es podem ser     criadas em raz&atilde;o da especializa&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica     por sec&ccedil;&otilde;es. Podem tamb&eacute;m encontrar-se outros     princ&iacute;pios de reparti&ccedil;&atilde;o salientes, como a     hierarquia do prest&iacute;gio magistral &ndash; ser ou n&atilde;o     ser &ldquo;artista&rdquo;, isto &eacute;, virtuoso &ndash; ou a     condi&ccedil;&atilde;o et&aacute;ria ou sexual dos trabalhadores, que     por vezes coincidem com a sua especializa&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica     e hier&aacute;rquica (<I>vd</I>.&nbsp;Monteiro 2014a: 72-81). Nestas     circunst&acirc;ncias, o funcionamento pac&iacute;fico do processo de     trabalho obriga a uma interdepend&ecirc;ncia entre as sucessivas     sec&ccedil;&otilde;es do processo de trabalho. Os marceneiros, por     exemplo, precisam que os materiais &ndash; as &ldquo;pe&ccedil;as&rdquo;   &minus; com que montam os m&oacute;veis estejam em perfeitas     condi&ccedil;&otilde;es, o que, como sucede frequentemente, obriga a     ter que introduzir uma s&eacute;rie de pequenas corre&ccedil;&otilde;es     (em especial, realizar &ldquo;cortes&rdquo; ou &ldquo;acertos&rdquo;).     Este ajustamento das &ldquo;pe&ccedil;as&rdquo; com que trabalham os     marceneiros &eacute; apenas poss&iacute;vel por recurso aos     maquinistas, que t&ecirc;m, no caso de concordarem com o &ldquo;pedido&rdquo;   dos marceneiros, que interromper o trabalho em curso, controlado por   fichas de produ&ccedil;&atilde;o e pelo controlo hier&aacute;rquico     dos tempos de produ&ccedil;&atilde;o, para executarem essa tarefa     suplementar, tratada como &ldquo;favor&rdquo;. Em troca, portanto, &eacute;   usual que os marceneiros evitem expor os &ldquo;gatos&rdquo;, isto &eacute;,     as mensura&ccedil;&otilde;es erradas ou os cortes com uma inclina&ccedil;&atilde;o     impratic&aacute;vel para serem montados, que os maquinistas cometem ocasionalmente.</P>     <P>   Logo no in&iacute;cio do nosso trabalho de campo, pudemos ver como se     tornava importante, sobretudo quando pesavam circunst&acirc;ncias de     extrema urg&ecirc;ncia e de press&atilde;o patronal, a exist&ecirc;ncia     de uma colabora&ccedil;&atilde;o entre os oper&aacute;rios das v&aacute;rias     sec&ccedil;&otilde;es, uma entreajuda que permitia corrigir os     problemas cr&oacute;nicos do sistema de trabalho, usualmente surgidos     do esgotamento da capacidade de rea&ccedil;&atilde;o do coletivo de     trabalho (por exemplo, pelo volume inusitado de trabalho a executar     num curto prazo ou pelo cansa&ccedil;o acumulado ao fim de sucessivas     jornadas de trabalho prolongadas). Essa entreajuda servia tamb&eacute;m     para encontrar solu&ccedil;&otilde;es para contornar as perent&oacute;rias     regulamenta&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas e legais que pesavam     oficialmente sobre o trabalho, em particular mitigando a reatividade     e velocidade de execu&ccedil;&atilde;o. Podemos apresentar uma longa     lista de casos exemplares, desde as fichas de produ&ccedil;&atilde;o     que contemplavam tarefas impratic&aacute;veis nos tempos previstos,     at&eacute; aos m&oacute;veis cujas pe&ccedil;as n&atilde;o eram todas     perfeitamente concili&aacute;veis e que obrigavam a improvisa&ccedil;&otilde;es     (como a coloca&ccedil;&atilde;o de &ldquo;cha&ccedil;os&rdquo; nos     m&oacute;veis, pequenos peda&ccedil;os de madeira que refor&ccedil;avam   &acirc;ngulos e colagens). De resto, esta colabora&ccedil;&atilde;o     permitia superar instantaneamente os problemas surgidos de maneira imprevista (avarias, acidentes, absentismo).</P> </font>     <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2"> &ldquo;Os marceneiros tentam convencer, persuadir ou     amea&ccedil;ar os maquinistas a pararem e interromperem o seu     trabalho para &lsquo;despacharem uma pe&ccedil;a&rsquo; que t&ecirc;m     entre m&atilde;os. &lsquo;Anda l&aacute;, v&ecirc;-me l&aacute;     isto!&rsquo;, &lsquo;&Eacute; s&oacute; fazer aqui um corte&rsquo;.     Os marceneiros dependem da indulg&ecirc;ncia e das boas gra&ccedil;as     dos maquinistas, mesmo que se aventurem alguns deles a usar     esporadicamente as m&aacute;quinas&rdquo; [nota de campo, 19 de     janeiro de 2007].</font></p> </blockquote> <font face="Verdana" size="2">     <P>   Vemos, todavia, que este mecanismo de regula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o     tem a natureza de um &ldquo;aparelho&rdquo;, constituindo antes uma     rede de intera&ccedil;&otilde;es multipolar e el&aacute;stica que     pode ser freada, paralisada ou inclusive rompida se suficientemente excitada por circunst&acirc;ncias extraordin&aacute;rias da f&aacute;brica.</P>     <P>   Em particular, os momentos de celebra&ccedil;&atilde;o, como as     pausas do &ldquo;lanche&rdquo;, podem tornar-se ocasi&otilde;es de     satura&ccedil;&atilde;o das intera&ccedil;&otilde;es oper&aacute;rias.     Se &eacute; verdade que os &ldquo;lanches&rdquo; s&atilde;o ocasi&otilde;es     de enriquecimento sociabilit&aacute;rio, neles tamb&eacute;m se     projetam frustra&ccedil;&otilde;es e ang&uacute;stias e se constituem     rancores e ressentimentos, o que inverte parcialmente a convic&ccedil;&atilde;o     de que funcionam apenas como momentos de relaxamento das imposi&ccedil;&otilde;es     hier&aacute;rquicas e produtivas. Nesses eventos, as opini&otilde;es     verbalizadas pelos oper&aacute;rios podem ser vers&otilde;es     miscigenadas de &ldquo;regimes de justifica&ccedil;&atilde;o&rdquo;   (como escrevem Luc Boltanski e Laurent &shy;Th&eacute;venot),     combinando os registos de acusa&ccedil;&atilde;o e censura morais com     o c&aacute;lculo intuitivo de vantagens remunerat&oacute;rias. O     instante da vocaliza&ccedil;&atilde;o mostra-se, assim, capaz de     convocar pautas de justifica&ccedil;&otilde;es, espetros de     sensibilidade e padr&otilde;es de comportamento que coexistem entre     si, por vezes numa fric&ccedil;&atilde;o, numa sucess&atilde;o ou     numa altern&acirc;ncia que os registos etnogr&aacute;ficos e os     pr&oacute;prios relatos oper&aacute;rios parecem, n&atilde;o raras     vezes, incapazes de apreender e restituir perfeitamente. Na seguinte     nota de campo, onde realiz&aacute;mos um extenso relato que pretendia     sumariar as observa&ccedil;&otilde;es de toda uma semana de trabalho,     tornam-se patentes as ambival&ecirc;ncias, os desacordos e a     variedade de rea&ccedil;&otilde;es registados entre os oper&aacute;rios     em pleno &ldquo;lanche&rdquo;: a pluriaprecia&ccedil;&atilde;o da     qualidade da &ldquo;obra&rdquo; consoante a vincula&ccedil;&atilde;o     a distintos setores fabris, embora nos termos de um idioma partilhado sobre o trabalho.</P> </font>     <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2"> &ldquo;Oscila&ccedil;&otilde;es na intensidade da     press&atilde;o hier&aacute;rquica e no estado das rela&ccedil;&otilde;es     do grupo entre si (a maior ou menor consist&ecirc;ncia dos     pensamentos, palavras e obras realizadas em comum) podem provocar a     irrup&ccedil;&atilde;o de tens&otilde;es ocultas. Uma conversa     aparentemente in&oacute;cua pode resvalar para o limiar da     confronta&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica (lanche, 10h). Tobias     referia a superioridade da marcenaria. &lsquo;Ali, a ver aquele gajo     [refere-se a Jonas, maquinista] a cortar placas, aprende-se o qu&ecirc;?     Agora, aqui &eacute; que se v&ecirc; como mont&aacute;mos, v&ecirc;-se     o m&oacute;vel a nascer, v&ecirc;-se as placas fora de medida que     recebemos&rsquo;. Esta simples palavra desencadeou uma rea&ccedil;&atilde;o     da parte de Samuel, maquinista: &lsquo;Isso &eacute; normal. Se isto     fosse matem&aacute;tica n&atilde;o era preciso tanta gente a     trabalhar&rsquo;. &lsquo;Mas podia ser melhor, h&aacute; coisas que     n&atilde;o se admitem&rsquo;, responde Tobias. Insolentemente, Samuel     responde-lhe: &lsquo;Olha, se achas que os maquinistas n&atilde;o     prestam, pegas e vais ao Jo&atilde;o [gerente] dizer-lhe&rsquo;. &lsquo;Mas     o que &eacute; que tu queres dizer com isso? Tamos a conversar ou a     desconversar?&rsquo; Samuel e Tobias est&atilde;o sentados um ao lado     do outro. A tens&atilde;o eleva-se; o pessoal interrompe o lanche     para assistir. Samuel insiste: &lsquo;Tou a dizer: j&aacute; que tu     t&aacute;s a&iacute; a dizer que os maquinistas s&atilde;o uma merda,     que n&atilde;o prestam, que v&aacute;s dizer ao Jo&atilde;o isso. Eu     vim para aqui aprender. Nunca tinha trabalhado numa esquadrejadeira.     E dei-te obra sem estar em condi&ccedil;&otilde;es? Dou-te obra mal?&rsquo;     O tom eleva-se, quase que se berra. Inicia-se uma espiral de     acusa&ccedil;&otilde;es: Tobias recorda casos anteriores e Samuel     desafia-o a dizer publicamente se ele &lsquo;d&aacute;&rsquo; ou n&atilde;o     &lsquo;obra em condi&ccedil;&otilde;es&rsquo;. S&oacute; eles os dois     discutem. Este desfecho era j&aacute; expect&aacute;vel, depois de     nos &uacute;ltimos dias serem insistentes as refer&ecirc;ncias     veladas a uma &lsquo;escovalhice&rsquo; [leia-se: bajula&ccedil;&atilde;o]     de Tobias a Jo&atilde;o, que era o gerente da empresa (ambos     estiveram uns dias juntos na montagem do <I>stand</I> da empresa numa     feira de mobili&aacute;rio; por isso Tobias n&atilde;o estava sempre     na f&aacute;brica e era apelidado &lsquo;pelas costas&rsquo; de     &lsquo;encarregado do <I>stand</I>&rsquo;), e por Tobias supostamente     receber, com mais um outro marceneiro, um valor compensat&oacute;rio     pelos feriados, o que n&atilde;o acontecia com os restantes     marceneiros. Este suposto favorecimento indevido, tanto de Tobias em     rela&ccedil;&atilde;o a Jo&atilde;o, como vice-versa, aparece como     duplamente ofensivo, j&aacute; que Tobias &eacute; dos trabalhadores     que, em grupo, mais abertamente reclamam por n&atilde;o se &lsquo;pagarem     os feriados&rsquo;. A ser verdade, Tobias &eacute; mentiroso e     traidor.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">   O conflito &eacute; contido pela interven&ccedil;&atilde;o     conciliat&oacute;ria de Jonas: &lsquo;Nunca vai ser perfeito. Pode     andar para a frente muito, que nunca vai ser matem&aacute;tica. Isto     s&atilde;o homens e errar &eacute; humano. Cometemos sempre erros.     Agora, numa coisa ele [Tobias] tem raz&atilde;o, h&aacute; coisas que     podiam ir melhor. N&atilde;o se admite alguma obra ir como vai. Mas     isto est&aacute; uma merda, t&aacute; uma confus&atilde;o&rsquo;. As     prescri&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas embatem no facto     incontorn&aacute;vel &ndash; que &eacute;, em si mesmo, uma     reivindica&ccedil;&atilde;o &ndash; da humanidade dos oper&aacute;rios.     Samuel concorda que a obra &lsquo;n&atilde;o vai sempre bem&rsquo;.     Por&eacute;m, procura desviar a &lsquo;culpa&rsquo; &ndash; sempre     essa preocupa&ccedil;&atilde;o com a culpa de algu&eacute;m ou com as     inten&ccedil;&otilde;es de algu&eacute;m (&lsquo;sem inten&ccedil;&atilde;o&rsquo;   equivale a inimputabilidade; &lsquo;temos de ver que o homem n&atilde;o     teve culpa&rsquo;, diz-se para ilibar um patr&atilde;o de atrasos no     pagamento) &ndash; para as indica&ccedil;&otilde;es erradas que se     recebem no ch&atilde;o da f&aacute;brica: &lsquo;At&eacute; as fichas     n&atilde;o v&ecirc;m bem. No outro dia vinha 720 e era 72     [mil&iacute;metros]. J&aacute; viste se eu fazia como estava na     ficha? Eu vi e pensei: n&atilde;o; tirei como devia ser&rsquo;.     Isa&iacute;as refor&ccedil;a esta linha de racioc&iacute;nio: &lsquo;Se     isto fosse tudo certo, ele tinha tirado as frentes com 700 e tal e     n&atilde;o como deve ser&rsquo;. Depois de terminar o lanche, Samuel     havia de me dizer que &lsquo;mandou a boca&rsquo; a Tobias e que &lsquo;era     pa ele se aperceber&rsquo; da sua insinua&ccedil;&atilde;o&rdquo; [nota de campo, 28 de fevereiro de 2007].</font></p></blockquote> <font face="Verdana" size="2">     <P>   A f&aacute;brica &eacute; um contexto de enuncia&ccedil;&atilde;o,     portanto, em que se permite a comunica&ccedil;&atilde;o, mas onde     tamb&eacute;m se reproduzem barreiras e clivagens entre os     participantes. Os &ldquo;discursos menores da vida quotidiana&rdquo;   da f&aacute;brica, que resultam da enuncia&ccedil;&atilde;o produzida     na intera&ccedil;&atilde;o, preenchem a espessura simb&oacute;lica do     lugar, sem por isso se poder dizer que s&atilde;o incoerentes ou     inconsequentes. Por um lado, a f&aacute;brica funciona como lugar     onde s&atilde;o levadas a cabo enuncia&ccedil;&otilde;es sobre os     acontecimentos e experi&ecirc;ncias da vida fabril, sendo evidente a   &ldquo;pluriacentua&ccedil;&atilde;o&rdquo; social das enuncia&ccedil;&otilde;es     e trocas lingu&iacute;sticas que nela ocorrem de acordo com a posi&ccedil;&atilde;o     valorativa das pessoas (Bakhtine 1977: 44). Em termos extremos, pode     mesmo suceder que &ldquo;cada palavra, sabemo-lo, apresenta-se como     uma arena em miniatura onde se entrecruzam e lutam os acentos sociais     com orienta&ccedil;&atilde;o contradit&oacute;ria&rdquo; (1977: 67).     Por outro lado, ela encastra estas variadas enuncia&ccedil;&otilde;es     nos limites de um &ldquo;tema&rdquo; comum (1977: 142-143),     fornecendo-lhe o quadro est&aacute;vel a partir do qual se     cristalizam as convic&ccedil;&otilde;es, os estere&oacute;tipos e os     motivos da linguagem oper&aacute;ria. &ldquo;Na realidade, o locutor     serve-se da l&iacute;ngua para as suas necessidades enunciativas     concretas (para o locutor, a constru&ccedil;&atilde;o da l&iacute;ngua     est&aacute; orientada para a enuncia&ccedil;&atilde;o, para a     palavra). Trata-se, para ele, de utilizar as formas normalizadas     (admitamos por agora a sua legitimidade) num dado contexto concreto.     Para ele, o centro de gravidade da l&iacute;ngua n&atilde;o se situa     na conformidade &agrave; norma da forma utilizada, mas sim na nova     significa&ccedil;&atilde;o que aquela toma no contexto&rdquo; (1977:     99). Um tal entendimento permite-nos ponderar a &ldquo;qualidade     contextual&rdquo; das enuncia&ccedil;&otilde;es pr&aacute;tico-simb&oacute;licas     dos oper&aacute;rios. Os interlocutores, os oper&aacute;rios em     copresen&ccedil;a sobre o ch&atilde;o da f&aacute;brica, n&atilde;o     est&atilde;o isolados das suas radica&ccedil;&otilde;es sociais e     econ&oacute;micas. As formas e as implica&ccedil;&otilde;es da   &ldquo;enuncia&ccedil;&atilde;o atualizada&rdquo; s&atilde;o     transformadas tanto pela &ldquo;situa&ccedil;&atilde;o de     enuncia&ccedil;&atilde;o&rdquo;, como pelo seu &ldquo;audit&oacute;rio&rdquo;   (1977: 123). &ldquo;A enuncia&ccedil;&atilde;o &eacute; o produto da     intera&ccedil;&atilde;o de dois indiv&iacute;duos socialmente     organizados e, mesmo que n&atilde;o haja um interlocutor real, n&oacute;s     podemos substitu&iacute;-lo por um representante m&eacute;dio do     grupo social ao qual pertence o locutor. <I>A palavra dirige-se a um       interlocutor</I>; ela &eacute; fun&ccedil;&atilde;o da pessoa desse     interlocutor: ela variar&aacute; conforme se trate de um homem do     mesmo grupo social ou n&atilde;o, conforme ele seja inferior ou     superior na hierarquia social, conforme ele esteja ligado ou n&atilde;o     ao locutor por liga&ccedil;&otilde;es sociais mais ou menos estreitas     (pai, irm&atilde;o, marido, etc.)&rdquo; (1977: 138). Por isso,     podemos apreciar as enuncia&ccedil;&otilde;es transcritas na nossa     nota de campo como mais do que uma simples &ldquo;irrita&ccedil;&atilde;o&rdquo;   entre oper&aacute;rios: elas s&atilde;o a concretiza&ccedil;&atilde;o     verbal de um estilo expressivo que se vincula com a situa&ccedil;&atilde;o     social ocupada pelos interlocutores no interior da empresa     (respetivamente, as sec&ccedil;&otilde;es de marcenaria ou     maquinaria) e com as polariza&ccedil;&otilde;es e estrat&eacute;gias     nascidas da reparti&ccedil;&atilde;o de oportunidades no interior da situa&ccedil;&atilde;o fabril do momento.</P>     <P>&nbsp;</P> </font>     <P> <font size="3" face="Verdana"><b>Um &ldquo;cronotopo&rdquo;: as &ldquo;reuni&otilde;es&rdquo; entre oper&aacute;rios e chefias</b></font></P> <font face="Verdana" size="2">     <P>   Vemos que, para Mikhail Bakhtin, os &ldquo;discursos menores da vida     quotidiana&rdquo; s&atilde;o &ldquo;modelados pelo confronto da     palavra contra o meio extraverbal e contra a palavra de outrem&rdquo;   (Bakhtine 1977: 138). No dia 1 de mar&ccedil;o de 2007, perante a     excita&ccedil;&atilde;o que nascera numa conversa a prop&oacute;sito     da necessidade de recome&ccedil;ar a prestar horas extraordin&aacute;rias,     encontr&aacute;mos uma confirma&ccedil;&atilde;o suplementar desta     constata&ccedil;&atilde;o bakhtiniana. Para o nosso autor, o centro     de gravidade da enuncia&ccedil;&atilde;o encontra a sua significa&ccedil;&atilde;o     no contexto de intera&ccedil;&atilde;o entre indiv&iacute;duos   &ldquo;socialmente organizados&rdquo; (1977: 115). Vistas unicamente     a partir de uma vis&atilde;o consensualista da comunica&ccedil;&atilde;o     humana, as &ldquo;reuni&otilde;es&rdquo; seriam prioritariamente uma     ocasi&atilde;o para trocar informa&ccedil;&atilde;o ou para alcan&ccedil;ar,     por meio de uma negocia&ccedil;&atilde;o feita de concess&otilde;es     m&uacute;tuas e ajustamentos rec&iacute;procos, um acordo. Todavia, a   &ldquo;intona&ccedil;&atilde;o&rdquo; adotada pelos oper&aacute;rios     revela a &ldquo;qualidade contextual&rdquo; das enuncia&ccedil;&otilde;es     (1977: 100) empregues para conferir forma ao modo como essa mudan&ccedil;a     era vivida por eles. Por isso, veremos que as incompatibilidades,     contradi&ccedil;&otilde;es ou discord&acirc;ncias discursivas n&atilde;o     s&atilde;o meras insufici&ecirc;ncias, lacunas ou erros dos     oper&aacute;rios. Elas s&atilde;o a transla&ccedil;&atilde;o     enunciativa de um modo de organiza&ccedil;&atilde;o social peculiar:     as discord&acirc;ncias, contradi&ccedil;&otilde;es e     incompatibilidades mostram que se travam, simultaneamente, lutas de     sentido numa multiplicidade de terrenos, desdobrando-se entre os     colegas oper&aacute;rios por causa da sua descoincid&ecirc;ncia     parcial de interesses, entre os oper&aacute;rios e as chefias diretas     pela imposi&ccedil;&atilde;o ou resist&ecirc;ncia ao comando, ou     entre o piso t&eacute;rreo da f&aacute;brica visto no seu conjunto     (incluindo, portanto, os &ldquo;encarregados&rdquo;) e &ldquo;os     escrit&oacute;rios&rdquo; onde est&atilde;o a ger&ecirc;ncia e o servi&ccedil;o t&eacute;cnico.</P>     <P>   Estas &ldquo;reuni&otilde;es&rdquo;, se os valores expressivos das     enuncia&ccedil;&otilde;es exprimem (ou traduzem) o valor social dos     respetivos enunciadores, servem elas tamb&eacute;m para reconstituir     pela palavra as estruturas de poder que existem entre os     enunciadores. Pautadas que s&atilde;o pelas margens de liberdade     relativas que caracterizam as transa&ccedil;&otilde;es verbais entre     enunciadores, t&atilde;o mais contrastantes quanto maiores forem os     hiatos de poder entre eles, as enuncia&ccedil;&otilde;es transmutam     as polariza&ccedil;&otilde;es sociais em termos propriamente verbais,     como acontece com as prioridades de interpela&ccedil;&atilde;o que     existem nas conversas fabris (onde s&atilde;o os &ldquo;encarregados&rdquo;   a ter frequentemente a iniciativa no uso da palavra) ou com as   express&otilde;es de subservi&ecirc;ncia, como o sil&ecirc;ncio ou o   &ldquo;atrapalhamento&rdquo; em que os oper&aacute;rios se enredam     usualmente quando confrontados com as &ldquo;ordens&rdquo;, ou seja,     literalmente com as &ldquo;palavras de ordem&rdquo; pronunciadas     pelas chefias. &ldquo;A componente verbal do comportamento &eacute;   determinada em todos os momentos essenciais do seu conte&uacute;do     por fatores objetivo-sociais. O meio social deu ao homem as palavras     e uniu-as a determinados significados e aprecia&ccedil;&otilde;es; o     mesmo meio social n&atilde;o cessa de determinar e controlar as     rea&ccedil;&otilde;es verbalizadas do homem ao longo de toda a sua     vida&rdquo; (Bakhtin 2004: 86). As trocas lingu&iacute;sticas do     momento s&atilde;o &ldquo;pluriacentuadas&rdquo;, caracterizadas que     s&atilde;o pelos diferentes potenciais de poder dos interlocutores,     logo pelos interesses conexos e pelas estrat&eacute;gias que podem     imaginar e mobilizar para os realizar. Estas trocas n&atilde;o     correspondem, portanto, a uma simetria perfeita entre falantes. Elas     t&ecirc;m tamb&eacute;m a natureza de um &ldquo;processo&rdquo;   prolongado no tempo, realmente marcado pelo inacabamento a respeito   das conclus&otilde;es, equil&iacute;brios e rea&ccedil;&otilde;es dos     interlocutores, que se condicionam mutuamente pelas suas intera&ccedil;&otilde;es.     Por sua vez, os report&oacute;rios de ret&oacute;rica usados pelos     interlocutores s&atilde;o sens&iacute;veis n&atilde;o s&oacute; &agrave;s     posi&ccedil;&otilde;es ocupadas atualmente no sistema de poder     contempor&acirc;neo da f&aacute;brica, como igualmente aos trajetos     biogr&aacute;ficos percorridos ao longo do tempo pelos v&aacute;rios     participantes de uma conversa. Por &uacute;ltimo, insista-se que     nesses curtos e intermitentes epis&oacute;dios de intera&ccedil;&atilde;o,     apesar da varia&ccedil;&atilde;o e tr&acirc;nsito que constantemente     caracterizam os interc&acirc;mbios verbais, permanece um &ldquo;fundo     comum de consenso&rdquo; entre todos os interlocutores. No entanto,     essa conetividade surge unicamente a partir de um &ldquo;consenso     entre indiv&iacute;duos socialmente organizados no decurso de um     processo de intera&ccedil;&atilde;o&rdquo; (Bakhtine 1977: 41). Em     suma, os contextos de enuncia&ccedil;&atilde;o constituem &ldquo;espa&ccedil;os     de troca e conflito&rdquo; onde s&atilde;o empregados e reatualizados     os coeficientes de poder dos participantes, participantes que, longe     de serem meros suportes de uma &ldquo;estrutura social&rdquo; que os     transcende, continuamente a recriam nas suas intera&ccedil;&otilde;es     em situa&ccedil;&atilde;o. Esta imbrica&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m,     s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel porque todos os participantes     partilham convic&ccedil;&otilde;es comuns sobre as regras e as     hierarquias que, implicitamente, regulam as trocas verbais da     f&aacute;brica, permitindo que as diverg&ecirc;ncias e os acordos se     possam manifestar em termos compreens&iacute;veis e relevantes para     todos os participantes. Para discordar, em suma, requer-se concordar tacitamente sobre os termos da disc&oacute;rdia.</P>     <P>   O longo registo que, a 1 de mar&ccedil;o de 2007, realiz&aacute;mos     de uma &ldquo;conversa&rdquo; revela a subtileza das t&aacute;ticas     empregadas pelos interlocutores de acordo com os seus interesses     espec&iacute;ficos no interior da trama de rela&ccedil;&otilde;es rec&iacute;procas de for&ccedil;a da f&aacute;brica:</P> </font>     <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2"> &ldquo;Logo ap&oacute;s o almo&ccedil;o, Daniel     aproxima-se do espa&ccedil;o entre as esquadrejadeiras e chama, por     gestos ou pelo nome, todos os maquinistas. &lsquo;&Eacute; assim,     tivemos l&aacute; em cima a falar [refere-se &agrave; &lsquo;reuni&atilde;o&rsquo;     semanal em que os tr&ecirc;s encarregados se encontram com o gerente     para tra&ccedil;ar os objetivos semanais e avaliar o estado presente     da empresa] e parece que h&aacute; obra para se fazer, h&aacute; a&iacute;     uns contentores para carregar. Era para ver quem &eacute; que pode     come&ccedil;ar a vir &agrave; noite&rsquo;. &lsquo;Todos os dias?&rsquo;,     pergunta Samuel alarmado. &lsquo;N&atilde;o. Como dantes, &agrave;s     ter&ccedil;as e quintas, [que era] o que estava&rsquo;. &lsquo;&Eacute;     assim, jeito n&atilde;o me dava, n&atilde;o &eacute;, mas falando-se,     v&ecirc;-se. N&atilde;o te quero estar a dizer que sim, depois     acontece alguma coisa, ou temos m&eacute;dico ou isso e n&atilde;o se     pode vir&hellip;&rsquo;, diz Eliseu, numa resposta em que pouco se     compromete. &lsquo;E j&aacute; sabes que eu &agrave;s segundas,     quartas e quintas tenho curso [de desenho t&eacute;cnico]&rsquo;,     indica Samuel, invocando dispensas. &lsquo;Claro. Isso dos cursos,     continua assim, n&atilde;o se mexe&rsquo;, tranquiliza-o Daniel. &lsquo;Se     se falar, as pessoas arranjam-se para poderem vir. Podias falar [a     Jo&atilde;o, o gerente] em dar mais alguma coisa. Um incentivo para     motivar as pessoas. Dar mais alguma coisa pelas horas extras&hellip;&rsquo;     (Samuel). &lsquo;Estilo uma percentagem, n&atilde;o &eacute;? A     partir de certas horas dar mais um tanto&rsquo; (Eliseu). &lsquo;N&atilde;o     podemos ser s&oacute; n&oacute;s a colaborar. Ele tamb&eacute;m tem     de colaborar. N&atilde;o podem ser sempre os mesmos. Ele tem que     come&ccedil;ar a ver o nosso lado, n&atilde;o &eacute; s&oacute;     foder o pessoal. As f&eacute;rias, como &eacute; que ficou? (Jonas)     [refere-se ao pedido de mudan&ccedil;a dos per&iacute;odos de f&eacute;rias,     que o gerente n&atilde;o permitiu]. &lsquo;Eu falei-lhe e ele disse     que ia ver, que ia falar com o Fulano [patr&atilde;o]. Mas n&atilde;o     vos vou estar a enganar, bem sabeis que o mais certo &eacute; ficar     tudo na mesma. Ele vai mandar o pessoal foder-se. S&oacute; se lhe     der jeito, ou se a mulher em casa lhe pedir [risos], &eacute; que ele     muda&rsquo; (Daniel, encarregado). &lsquo;Se ele n&atilde;o mudar, j&aacute;     disse: n&atilde;o venho trabalhar nem mais uma ponte [intervalo entre     feriado e fim-de-semana]. Ele que pe&ccedil;a &agrave; vontade&rsquo;     (Samuel). [A conversa continua a este respeito, em termos id&ecirc;nticos.]     &lsquo;&Eacute; sempre para o mesmo lado. Nunca olha p&rsquo;r&aacute;     vida das pessoas!&rsquo; (Jonas) &lsquo;Eu antes, ainda quero ter uma     conversa com ele. N&atilde;o vou dizer nada enquanto ele n&atilde;o     vier falar comigo para resolver umas coisas&rsquo; (Eliseu). Eliseu     n&atilde;o teve, apesar das promessas do gerente, nenhum aumento nos     &uacute;ltimos tr&ecirc;s anos. Ele pretende o aumento, de contr&aacute;rio     amea&ccedil;a enviar &lsquo;uma carta&rsquo; para o patr&atilde;o a     lembrar-lhe todas as injusti&ccedil;as que sofreu desde que ali     trabalha. &lsquo;Isso tens que ver com ele, j&aacute; te disse o     recado que ele me deu&rsquo;, responde-lhe Daniel, lembrando que o     gerente tinha recusado o aumento. &lsquo;J&aacute;. Mas eu quero     falar com ele&rsquo; (Eliseu). &lsquo;O senhor vem, n&atilde;o vem?     Disse-me na outra vez que&hellip;&rsquo;, diz Daniel para Esdras. &lsquo;Eu     venho&rsquo;, limita-se este a responder. Estas foram as suas &uacute;nicas     palavras durante toda a conversa; acabou de diz&ecirc;-las e     afasta-se um pouco para tr&aacute;s, emudecendo definitivamente.     Esdras &eacute; um maquinista rec&eacute;m-chegado &agrave; empresa e     que est&aacute; ainda &lsquo;&agrave; experi&ecirc;ncia&rsquo;. &lsquo;Fala     com ele para veres essas coisas. Diz-lhe que o pessoal j&aacute;     falou todo e que quer mudar as f&eacute;rias. E aquilo da     compensa&ccedil;&atilde;o, para dar motiva&ccedil;&atilde;o ao     pessoal. Mas n&atilde;o enroles, diz-lhe as coisas diretas&rsquo;     (Samuel). &lsquo;V&oacute;s bem sabeis que eu digo tudo. Eu digo     exatamente o que me disserem, que &eacute; para n&atilde;o haver     confus&otilde;es. Se ele gostar, gosta, se n&atilde;o, azar&rsquo;,     diz Daniel, enquanto j&aacute; se afasta, passando entre as placas de     madeira, para se dirigir agora para uma &lsquo;conversa&rsquo;     id&ecirc;ntica com os marceneiros. A reuni&atilde;o acabou. Perto da     banca de Abdias forma-se agora outro c&iacute;rculo. N&atilde;o ou&ccedil;o     o que a&iacute; se diz. Entre os maquinistas, come&ccedil;a a     conversar-se dois a dois ou em pequenos grupos. Faz-se a&iacute; um     momento de pondera&ccedil;&atilde;o&rdquo; [nota de campo, 1 de mar&ccedil;o     de 2007].</font></p> </blockquote> <font face="Verdana" size="2">     <P>   Vale a pena tentar conhecer com min&uacute;cia o processo de     negocia&ccedil;&atilde;o e acomoda&ccedil;&atilde;o rec&iacute;procas     entre oper&aacute;rios e chefias que se revela nestas &ldquo;conversas&rdquo;.     As &ldquo;reuni&otilde;es&rdquo; entre os oper&aacute;rios da sec&ccedil;&atilde;o     de produ&ccedil;&atilde;o e o respetivo encarregado servem, assim,     como inst&acirc;ncias de sondagem e ausculta&ccedil;&atilde;o dos     humores oper&aacute;rios; s&atilde;o uma esp&eacute;cie de plebiscito     conduzido pelo encarregado, que tateia assim as roturas latentes     entre as &ldquo;sec&ccedil;&otilde;es&rdquo; ou os eventuais     antagonismos nas opini&otilde;es pessoais dos oper&aacute;rios; s&atilde;o     uma audi&ecirc;ncia pr&eacute;via aproveitada pelos oper&aacute;rios     para insinuar amea&ccedil;as, agitar espetros de protesto, mostrar     respeito, recordar promessas. Forma-se pela conversa uma plataforma     provis&oacute;ria de negocia&ccedil;&atilde;o &ndash; a que o gerente     permanece estranho, pelo menos enquanto n&atilde;o s&atilde;o     ultrapassados certos limites de tempo ou viol&ecirc;ncia nas     conversas &ndash; que visa assegurar a continuidade e estabilidade do     processo de produ&ccedil;&atilde;o imediato. Mediante esta esp&eacute;cie     de interc&acirc;mbio de dons e contradons (por isso se fala em &ldquo;dar&rdquo;   horas, em fazer um &ldquo;favor&rdquo; ao patr&atilde;o ou ao     encarregado), todos os participantes visam satisfazer prop&oacute;sitos     particulares: para a ger&ecirc;ncia, trata-se de conseguir uma     produ&ccedil;&atilde;o relativamente pac&iacute;fica e constante;     para o encarregado, obter a prova cabal de que &ldquo;cumpre com as     suas obriga&ccedil;&otilde;es&rdquo; e de que &ldquo;&eacute;   respeitado&rdquo; entre os oper&aacute;rios (em sentido inverso, que   &ldquo;defende&rdquo; os oper&aacute;rios eficazmente perante o     gerente); para os trabalhadores, tentar melhorias na sua condi&ccedil;&atilde;o     ou a revis&atilde;o de decis&otilde;es patronais. N&atilde;o se     anula, em momento algum, a profunda assimetria de poder; mas     esgrimem-se amea&ccedil;as, ambi&ccedil;&otilde;es e irrita&ccedil;&otilde;es &ndash; que se acumulam e fazem perigar a ordem fabril.</P> </font>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2"> &ldquo;Nunca chegaremos &agrave;s ra&iacute;zes     verdadeiras e essenciais de uma enuncia&ccedil;&atilde;o singular se     as procurarmos apenas nos limites de um organismo individual     singular, mesmo quando tal enuncia&ccedil;&atilde;o se prende com os     aspetos pelos vistos mais pessoais e &iacute;ntimos da vida de um     homem. Toda motiva&ccedil;&atilde;o do comportamento de um indiv&iacute;duo,     toda tomada de consci&ecirc;ncia de si mesmo (porque a consci&ecirc;ncia     &eacute; sempre verbal, sempre consiste em encontrar um determinado     complexo verbal) &eacute; a coloca&ccedil;&atilde;o de si mesmo sob     determinada norma social, &eacute;, por assim dizer, a socializa&ccedil;&atilde;o     de si mesmo e dos seus atos&rdquo; (Bakhtin 2004:&nbsp;86-87).</font></p> </blockquote> <font face="Verdana" size="2">     <P>   Para compreender a l&oacute;gica destas trocas de palavras, que     parecem tantas vezes inconsequentes ou simples express&otilde;es     sentimentais, revela-se a vantagem de utilizar a sugest&atilde;o de     Mikhail Bakhtin: vincular as palavras ao pol&iacute;gono social que     organiza as enuncia&ccedil;&otilde;es e que elas contribuem para reiterar.</P>     <P>   A partir das notas de campo apresentadas abaixo, que antecedem a nota   de dia 1 de mar&ccedil;o acima transcrita e permitem perceber as     circunst&acirc;ncias da &ldquo;reuni&atilde;o&rdquo; ali relatada,     podemos ver as circunvolu&ccedil;&otilde;es que tem um conflito entre     os oper&aacute;rios e a ger&ecirc;ncia, intermediado pelas chefias,     que tamb&eacute;m jogam aqui os seus peculiares perigos e proveitos.     Tornam-se imediatamente percet&iacute;veis as interdepend&ecirc;ncias     que unem todos os participantes; a variedade de t&aacute;ticas de     esquiva e simula&ccedil;&atilde;o, choque, persuas&atilde;o ou     ocultamento que s&atilde;o usadas por uns e outros; a complexidade de     orienta&ccedil;&otilde;es imagin&aacute;rias e imputa&ccedil;&otilde;es     materiais que se interligam com as a&ccedil;&otilde;es e as palavras.     Torna-se, enfim, saliente que a aparente apatia pol&iacute;tica     destes oper&aacute;rios, caracterizados pela escassez de v&iacute;nculos     sindicais e com um sentido de voto que n&atilde;o se pode considerar     orientado para o protesto oper&aacute;rio, esconde um compacto     sedimento de &ldquo;transcri&ccedil;&otilde;es ocultas&rdquo; (Scott 1991).</P> </font>     <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2"> &ldquo;Ao almo&ccedil;o, Daniel parece agitado. Come&ccedil;a     por dizer: &lsquo;A partir de segunda ou ter&ccedil;a, vai come&ccedil;ar     uma guerra do caralho. H&aacute; a&iacute; uns contentores para     carregar; eles [os trabalhadores] v&atilde;o-se mandar ao ar. &Eacute;     mais trabalho. Muito mais trabalho. V&atilde;o ter que ficar at&eacute;     mais tarde&rsquo;. Tem andado nervoso. &lsquo;Se ele [Jo&atilde;o,     gerente] n&atilde;o mudar as f&eacute;rias, a puta t&aacute; armada&rsquo;.     E depois, de maneira desconcertante: &lsquo;Mas se for ele [Jo&atilde;o]     a pedir, eles j&aacute; n&atilde;o dizem nada&rsquo;. A insatisfa&ccedil;&atilde;o     dele adv&eacute;m disso, de poder ser visto como pusil&acirc;nime     pelo patr&atilde;o, por &lsquo;n&atilde;o ter m&atilde;o&rsquo; nos     trabalhadores. Esta disputa pelas datas do per&iacute;odo de f&eacute;rias     arrastava-se h&aacute; alguns dias. N&atilde;o surgiu, entre os     trabalhadores, uma concerta&ccedil;&atilde;o manifesta nem     proclama&ccedil;&otilde;es expl&iacute;citas sobre os objetivos e os     termos da reivindica&ccedil;&atilde;o a esse respeito, limitando-se     as conversas aos intervalos da jornada de trabalho ou, ap&oacute;s a     hora de almo&ccedil;o, ao breve encontro no caf&eacute; antes de     seguir para a f&aacute;brica. Foi-se instalando entre eles, por&eacute;m,     uma convic&ccedil;&atilde;o sobre o que &lsquo;d&aacute;&rsquo; ou     n&atilde;o &lsquo;jeito&rsquo; a um &lsquo;homem&rsquo; nesta     mat&eacute;ria, uma coniv&ecirc;ncia sobre as pretens&otilde;es e os     limites at&eacute; onde se poderia ir. O ajustamento de vontades     oper&aacute;rias ocorreu implicitamente, abrigando-se no registo das     evid&ecirc;ncias caracter&iacute;stico do senso comum: &lsquo;assume-se&rsquo;     o que &lsquo;tem que ser&rsquo;; &lsquo;basta ter olhos na cara para     ver como isto &eacute;&rsquo;; &lsquo;isto n&atilde;o cabe na cabe&ccedil;a     de ningu&eacute;m&rsquo;; &lsquo;n&atilde;o &eacute; preciso ser     muito fino para saber disto&rsquo;.</font></p>       <p><font face="Verdana" size="2"> Perguntei a Samuel qual achava ele que seria o desfecho     da conversa com o &lsquo;Roncas&rsquo;, o apelido depreciativo     atribu&iacute;do ao patr&atilde;o Fulano. &lsquo;Nenhum. A gente n&atilde;o     vem trabalhar, aposto que ele [Jo&atilde;o, o gerente] nem vai falar     disso. Vai ficar assim&rsquo;. Parecia que j&aacute; tinha sido     assumida uma atitude comum &ndash; mas onde?, perguntava-me eu &ndash;     de que n&atilde;o se viria trabalhar na pr&oacute;xima &lsquo;ponte&rsquo;,     da&iacute; a poucos dias.</font></p>       <p><font face="Verdana" size="2"> A 12 de fevereiro, transmite-se a Daniel a inten&ccedil;&atilde;o     de ver a data das f&eacute;rias alterada. Durante o lanche, Daniel     aproxima-se. &lsquo;Ent&atilde;o, toda a gente quer mudar as f&eacute;rias     para a segunda quinzena [de agosto]?&rsquo; &lsquo;Diz-lhe [ao Jo&atilde;o,     gerente] que o pessoal l&aacute; de baixo [isto &eacute;, o plano do     ch&atilde;o da f&aacute;brica] quer mudar. Se ele n&atilde;o aceitar,     queremos uma reuni&atilde;o [com ele]&rsquo; (Samuel). &lsquo;Temos     de ser todos a colaborar. N&atilde;o &eacute; s&oacute; n&oacute;s a     colaborar e ele n&atilde;o&rsquo; (Am&oacute;s). &lsquo;Quando ele     precisar de n&oacute;s para trabalhar, numa ponte ou assim, n&oacute;s     depois tiramos f&eacute;rias. Depois ele fica fodido&hellip;&rsquo;     Nestas poses de frontalidade perante o encarregado concentram-se os     protestos individuais &ndash; sem que por um s&oacute; momento     surgisse a virtualidade de recorrer a entidades percebidas como     estranhas, como os &lsquo;tribunais de trabalho&rsquo;, a &lsquo;inspe&ccedil;&atilde;o     de trabalho&rsquo; ou os sindicatos. No entanto, reside aqui tamb&eacute;m     um fator de in&eacute;rcia e relapsia das estruturas sociais da     empresa: exigindo ou supondo uma igualdade transversal a     trabalhadores e patr&otilde;es por ocasi&atilde;o da negocia&ccedil;&atilde;o     em situa&ccedil;&atilde;o interacional (&lsquo;homem a homem&rsquo;,     &lsquo;frente a frente&rsquo;, &lsquo;conversar com ele&rsquo;, &lsquo;n&atilde;o     vou tar a criar problemas, falo com ele e pronto&rsquo;), permanece     intocada, inquestionada at&eacute;, a desigualdade objetiva     preexistente. A colabora&ccedil;&atilde;o &eacute; &lsquo;trabalhar     em comum&rsquo;, subentendendo-se, desta maneira, que todos os     participantes est&atilde;o em id&ecirc;ntica situa&ccedil;&atilde;o &ndash;     o que &eacute; amplamente desmentido pela realidade.</font></p>       <p><font face="Verdana" size="2"> Logo no dia seguinte, a 13 de fevereiro de 2007, faz-se     saber a Daniel a concerta&ccedil;&atilde;o coletiva relativamente a     n&atilde;o trabalhar na ponte. Logo depois de come&ccedil;armos a     trabalhar, &agrave;s 8h, Daniel manda o pessoal parar o que est&aacute;     a fazer e chama toda a gente. &lsquo;&Eacute; assim, o Jo&atilde;o     diz que vai falar com o Fulano [patr&atilde;o] para ver se d&aacute;     para mudar as f&eacute;rias. J&aacute; houve tamb&eacute;m outras     pessoas a falarem e &eacute; para ver se &eacute; para mudar. Agora,     h&aacute; outra coisa. H&aacute; mais trabalho. E se calhar vai ser     preciso voltar ao que era em dezembro, em que ter&ccedil;as e quintas     tava-se at&eacute; mais tarde&rsquo;. A promessa de uma poss&iacute;vel     benevol&ecirc;ncia patronal vem acompanhada pela sugest&atilde;o de     uma contrapartida: os termos impl&iacute;citos deste acordo presumem     que, em caso de ced&ecirc;ncia patronal a respeito da marca&ccedil;&atilde;o     das f&eacute;rias, se espera uma ced&ecirc;ncia dos oper&aacute;rios     na quest&atilde;o das horas suplementares. &lsquo;&Agrave;s ter&ccedil;as     e quintas e s&aacute;bados de manh&atilde;?&rsquo;, pergunta Jonas.     &lsquo;&Eacute;. Ele falou tamb&eacute;m para o pessoal vir na     segunda at&eacute; &agrave;s 6 horas&rsquo;, diz Daniel.     Segunda-feira &eacute; v&eacute;spera de Carnaval, estando previsto     no &lsquo;mapa de f&eacute;rias&rsquo;, anunciado anteriormente, como     dia de &lsquo;ponte&rsquo;. &lsquo;Ontem at&eacute; se falou nisso     [como acima se mostrou, conjeturara-se j&aacute;, durante as pausas,     a imin&ecirc;ncia de haver um pedido patronal nesse sentido], e h&aacute;     muita gente [o conjunto de pessoas refere-se &lsquo;sem p&ocirc;r     nomes&rsquo;] que n&atilde;o vem. Eles disseram que n&atilde;o d&aacute;.     A mim, pessoalmente, tamb&eacute;m n&atilde;o d&aacute; muito jeito.     Ao menos uma vez na vida, o pessoal queria ter um fim-de-semana     prolongado&rsquo;, esclarece Eliseu. De modo nenhum este trabalhador     pretendeu falar como representante ou porta-voz; muito menos &eacute;     ele reconhecido como tal pelo restante pessoal. &lsquo;T&aacute; bem.     Ent&atilde;o ter&ccedil;as e quintas at&eacute; mais tarde?&rsquo;,     confirma Daniel, antes de voltarmos ao trabalho.</font></p>       <p><font face="Verdana" size="2"> Pouco depois, &agrave;s 10h, durante o lanche, haveria     de se falar do que acontecera. Diz Jonas: &lsquo;Ai, se eles n&atilde;o     mudarem as f&eacute;rias, sou eu que nem uma ponte venho trabalhar.     Ainda perco dinheiro, porque deixo de receber a ponte [como dia de     f&eacute;rias] e fazem-me [na mesma] os descontos&rsquo;. Tobias: &lsquo;Ao     menos podiam pagar os feriados. &Eacute; que fica-se sem ganhar&rsquo;.     Abdias: &lsquo;Na Empresa&nbsp;Y [outra empresa], d&aacute; 25 euros.     N&atilde;o &eacute; muito, mas &eacute; algum. E se tivermos dois     feriados num m&ecirc;s, j&aacute; viste? &Eacute; mais uma gra&ccedil;a     do que outra coisa. Mas d&aacute; muito jeito&rsquo;. Jonas retoma a     palavra: &lsquo;&Eacute;, aqui n&atilde;o d&aacute; gosto nenhum     trabalhar. S&oacute; vimos [trabalhar] mesmo porque, pronto&hellip;&rsquo;     Am&oacute;s conclui a frase: &lsquo;Porque temos que comer.     Precisamos dele [o sal&aacute;rio pago]&rdquo; [notas de campo, 12 e     13 de fevereiro de 2007].</font></p> </blockquote> <font face="Verdana" size="2">     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>   As interven&ccedil;&otilde;es verbais que acontecem sobre este     contexto de enuncia&ccedil;&atilde;o s&atilde;o tingidas pelas     circunst&acirc;ncias sociais e hist&oacute;ricas da f&aacute;brica,     ou melhor, surgem filtradas pelo prisma das rela&ccedil;&otilde;es de     poder peculiares em vigor no seu seio. Quisemos precaver-nos de impor   &agrave; partida o conceito de &ldquo;cronotopo&rdquo;, com isso     podendo circunscrever o plano de experi&ecirc;ncias a abranger pela     resposta.<A NAME="sdfootnote7anc" HREF="#sdfootnote7sym"><SUP>7</SUP></A>   No entanto, ap&oacute;s termos trazido um volume de material emp&iacute;rico     apreci&aacute;vel, podemos agora sugerir o tratamento da &ldquo;reuni&atilde;o&rdquo;   como cronotopo. Tendo em considera&ccedil;&atilde;o os registos     minuciosos das transa&ccedil;&otilde;es verbais e som&aacute;ticas     que acima transpusemos, podemos ver as &ldquo;reuni&otilde;es&rdquo;   como um lugar de organiza&ccedil;&atilde;o da experi&ecirc;ncia     social em que as enuncia&ccedil;&otilde;es dos participantes se     sintonizam numa melodia peculiar, uma harmoniza&ccedil;&atilde;o     (n&atilde;o: harmonia) segundo as censuras e incentivos impostos pela     materialidade do trabalho, pelos motivos e report&oacute;rios de     conversa&ccedil;&atilde;o, pelos t&oacute;picos e ideias-comuns que     s&atilde;o inerentes a esse contexto particular. Nos cronotopos,   &ldquo;concentradas, condensadas, evidentes e vis&iacute;veis,     encontram-se as marcas de um tempo hist&oacute;rico, de um tempo     biogr&aacute;fico ou de um tempo quotidiano, e ao mesmo tempo tudo     isto est&aacute; confundido, fundado nos &uacute;nicos &iacute;ndices     da &eacute;poca, e esta &uacute;ltima &eacute; percebida     concretamente, como sujeito&rdquo; (Bakhtine 2001: 387). Desta     maneira, cada cronotopo surge como um &ldquo;lugar de interse&ccedil;&atilde;o     das s&eacute;ries espaciais e temporais, de condensa&ccedil;&atilde;o     dos tra&ccedil;os da marcha do tempo no espa&ccedil;o&rdquo; (2001:     388). Na f&aacute;brica, o tempo e o espa&ccedil;o colapsam um sobre     o outro, o tempo plasma-se sobre o espa&ccedil;o e vice-versa; os     corpos s&atilde;o intercetados por esta imbrica&ccedil;&atilde;o,     presos a ela, pois &ldquo;o tempo adquire um car&aacute;ter     sensualmente concreto; no cronotopo, os acontecimentos [&hellip;]     ganham corpo, revestem-se de carne, enchem-se de sangue&rdquo; (2001:     391). Ao mesmo tempo, o cronotopo &eacute; um &ldquo;ponto de     interse&ccedil;&atilde;o&rdquo; concreto e imediato das vias pessoais     e coletivas que s&atilde;o os percursos de vida de indiv&iacute;duos     que pertencem a uma pluralidade de &ldquo;classes, situa&ccedil;&otilde;es,     religi&otilde;es, nacionalidades e idades&rdquo;. &ldquo;As s&eacute;ries     dos destinos e da vida do homem sob o seu aspeto espaciotemporal     podem a&iacute; conhecer combina&ccedil;&otilde;es variadas,     complicadas e concretizadas em fun&ccedil;&atilde;o das dist&acirc;ncias     sociais, a&iacute; superadas. Neste ponto, se entrela&ccedil;am e se     cumprem os acontecimentos&rdquo; (2001: 385).<A NAME="sdfootnote8anc" HREF="#sdfootnote8sym"><SUP>8</SUP></A>   Nele, est&atilde;o condensados e concretizados variados &ldquo;&iacute;ndices     do tempo&rdquo;, nomeadamente o &ldquo;tempo hist&oacute;rico&rdquo;   e o &ldquo;tempo biogr&aacute;fico&rdquo;, precisamente por o tempo     constituir o &ldquo;centro organizador dos principais acontecimentos&rdquo;   e o &ldquo;principal gerador do sujeito&rdquo;. No tempo mudam-se as     realidades aparentemente mais consistentes. No &ldquo;tempo     quotidiano&rdquo;, por exemplo, tempo &ldquo;viscoso&rdquo; em que     tudo acontece sem nada acontecer e tempo da &ldquo;repeti&ccedil;&atilde;o&rdquo;   em que toda a novidade segue uma rotina, podem irromper &ldquo;crises&rdquo;   nas quais o &ldquo;tempo aparece como um instante&rdquo; (2001: 389).     Uma futura aplica&ccedil;&atilde;o de um conceito como este promete     alargar o espa&ccedil;o de inquiri&ccedil;&atilde;o que abrimos com o     nosso trabalho; a ideia de &ldquo;cronotopo&rdquo; pode, assim,     mostrar-se prenhe de heuristicidade fora do seu &acirc;mbito comum de     aplica&ccedil;&atilde;o, os estudos liter&aacute;rios, tomando com     isso uma viragem que poder&iacute;amos apelidar &ldquo;sociol&oacute;gica&rdquo;,     designadamente usando-a para interpretar a pr&oacute;pria radica&ccedil;&atilde;o     da experi&ecirc;ncia social oper&aacute;ria num circuito restrito de     lugares territorialmente separados mas socialmente interligados entre     si pela produ&ccedil;&atilde;o em comum de uma cultura     significativamente coesa e genericamente partilhada pelo conjunto dos oper&aacute;rios locais (<I>vd</I>.&nbsp;Charlesworth 2000).</P>     <P>&nbsp;</P> </font>     <P> <font size="3" face="Verdana"><b>Nota final: a etnografia como &ldquo;pensamento participativo&rdquo;</b></font></P> <font face="Verdana" size="2">     <P>   Os primeiros 20 anos do s&eacute;culo XX viram suceder-se repetidas     tentativas, entre as quais encontr&aacute;mos tamb&eacute;m as obras     iniciais de Mikhail Bakhtin, para interrogar e superar as conven&ccedil;&otilde;es     acad&eacute;micas em vigor. Naquela que ser&aacute; comummente     reconhecida como a primeira etapa hist&oacute;rica e intelectual do     percurso de Mikhail Bakhtin, encontramo-lo no centro de um c&iacute;rculo     de discuss&atilde;o sobre temas liter&aacute;rios e filos&oacute;ficos     (<I>vd</I>.&nbsp;Clark e Holquist 1984: 35-62), primeiro em Nevel,     depois em Vitebsk, ocupado com a empresa de &ldquo;escapar ao     neokantismo rumo a uma conce&ccedil;&atilde;o mais sua&rdquo; (1984:     54). A originalidade de Mikhail &shy;Bakhtin consistiu em recusar a     l&oacute;gica substancialista em que se encerrava a luta de posi&ccedil;&otilde;es     entre conce&ccedil;&otilde;es que se pensavam de maneira mutuamente     exclusiva entre si (por exemplo, &ldquo;idealismo&rdquo; <I>versus</I>   &ldquo;materialismo&rdquo;). Pela mesma altura, outros autores     ocupavam-se com a releitura da heran&ccedil;a filos&oacute;fica     (<I>vd</I>.&nbsp;Friedman 2000). Entre eles, Max Weber pensava em   &ldquo;esferas de atividade&rdquo; ou &ldquo;ordens de vida&rdquo;   caracterizadas por uma &ldquo;lei &iacute;nsita&rdquo; caracter&iacute;stica     (1996: 411), tentando superar o hiato metodol&oacute;gico entre   &ldquo;explica&ccedil;&atilde;o&rdquo; e &ldquo;compreens&atilde;o&rdquo;   nas ci&ecirc;ncias sociais (<I>vd</I>.&nbsp;Ringer 1997). Da mesma     maneira, Ernst Cassirer invoca a ideia de &ldquo;formas simb&oacute;licas&rdquo;   para, em termos metodol&oacute;gicos, restituir sentido &agrave;   pluralidade de modalidades de organiza&ccedil;&atilde;o da perce&ccedil;&atilde;o     de que procedem as distintas representa&ccedil;&otilde;es da     realidade, sejam elas os mitos, a ci&ecirc;ncia ou a arte. Deste     modo, ao prestar aten&ccedil;&atilde;o &agrave; &ldquo;atividade     espiritual&rdquo; mais do que aos seus produtos acabados, Ernst     Cassirer consegue respeitar a particularidade das &ldquo;configura&ccedil;&otilde;es&rdquo;   que reconstroem o mundo nos termos da l&oacute;gica mitol&oacute;gica,     cient&iacute;fica ou art&iacute;stica (Cassirer 1972: 49).     Reconhecendo uma pluralidade de &ldquo;pequenos mundos&rdquo;, entre     eles a teoria, a est&eacute;tica e a moral, Mikhail Bakhtin tentava     vincar expressamente o car&aacute;ter espec&iacute;fico que tem o     princ&iacute;pio de valoriza&ccedil;&atilde;o que vigora internamente     em cada um desses universos, sem os colocar sob uma norma     transcendente e universal. Essas normas de a&ccedil;&atilde;o     espec&iacute;ficas, impondo um modo de funcionamento peculiar sobre     os participantes desses universos, eram apenas trasladadas de maneira     enviesada pelos crit&eacute;rios e regras usadas noutros universos,     os quais, por sua vez, retraduziam a experi&ecirc;ncia do mundo nos     termos de uma outra l&oacute;gica. Mikhail Bakhtin procurou mostrar     que, tendo embora os indiv&iacute;duos oportunidade de verter nos     eventos &uacute;nicos da exist&ecirc;ncia princ&iacute;pios retirados     de v&aacute;rias esferas de valoriza&ccedil;&atilde;o em simult&acirc;neo,     quando esses indiv&iacute;duos procuram apreciar toda a exist&ecirc;ncia     por refer&ecirc;ncia a um universo de significado e a&ccedil;&atilde;o     em particular, numa tentativa de interpretar esses eventos por     analogia com apenas um universo de sentido, ou ent&atilde;o     extrapolando as regras deste para o conjunto da exist&ecirc;ncia,     incorrem num trespasse que transfere esquemas de pensamento e a&ccedil;&atilde;o     apropriados a esse &ldquo;pequeno mundo&rdquo; para outros, omitindo as suas l&oacute;gicas espec&iacute;ficas de inteligibilidade.</P>     <P>   Para o caso particular dos usos da &ldquo;teoria&rdquo;, Mikhail     Bakhtin tinha o prop&oacute;sito de tornar vis&iacute;vel e prevenir     a possibilidade latente de uma hipostasia&ccedil;&atilde;o da   &ldquo;consci&ecirc;ncia universal&rdquo;, a postura hiperb&oacute;lica     que passa por pretender n&atilde;o apenas atingir a racionalidade que     caracteriza uma representa&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica do     mundo, como ainda por tomar a teoria como &ldquo;fundamento&rdquo; ou   &ldquo;princ&iacute;pio&rdquo; para o &ldquo;contexto unit&aacute;rio     da vida real&rdquo; das pessoas. Nestes casos, quando uma maneira de     conceber teoricamente o mundo, aplicada ao mundo, se erige em regra     de produ&ccedil;&atilde;o do pr&oacute;prio mundo, a vis&atilde;o     intelectual sobre a realidade social tende a converter-se em modelo     impl&iacute;cito da realidade social. Por seu turno, ao ignorar o     hiato existente entre a &ldquo;concretude hist&oacute;rica de um     facto individual&rdquo; e o &ldquo;momento formal de um ju&iacute;zo&rdquo;   (Bakhtin 1993: 22), a tenta&ccedil;&atilde;o do teoreticismo presume     que as pessoas t&ecirc;m a teoria da sua pr&oacute;pria a&ccedil;&atilde;o     e que, em consequ&ecirc;ncia da consci&ecirc;ncia transparente da     vida, se conduzem e se orientam precisamente pelos princ&iacute;pios,     silogismos e previs&otilde;es que procederiam da aplica&ccedil;&atilde;o     dos enunciados da teoria abstrata. Por exemplo, a respeito da &eacute;tica,     Mikhail Bakhtin mostra que ela &ldquo;n&atilde;o tem um conte&uacute;do     especificamente te&oacute;rico&rdquo;, ela surge, antes, interligada     com a integridade das pessoas que a p&otilde;em em pr&aacute;tica     como &ldquo;a&ccedil;&atilde;o em processo&rdquo; (1993: 23-24). Nada     impede, todavia, a validade do &ldquo;mundo te&oacute;rico&rdquo;. &ldquo;A     cogni&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica de um objeto que exista por si,     independentemente da sua posi&ccedil;&atilde;o real no mundo &uacute;nico     do ponto de vista do lugar &uacute;nico de um participante, &eacute;   perfeitamente justificada&rdquo; (1993: 51). O que importa, isso sim,   &eacute; impedir que se tomem os princ&iacute;pios de natureza     te&oacute;rica (ou est&eacute;tica ou moral), que podem ser usados     para entender nesses termos a exist&ecirc;ncia, como a causa primeira     das orienta&ccedil;&otilde;es pr&aacute;ticas que predominam na   &ldquo;vida-como-evento&rdquo;: uma transfer&ecirc;ncia comum a todas     as variantes de &ldquo;teoreticismo&rdquo;, que pressup&otilde;e a     perfeita identidade entre a &ldquo;historicidade abstratamente     conhecida&rdquo; e a &ldquo;temporalidade da historicidade real do     ser&rdquo;.<A NAME="sdfootnote9anc" HREF="#sdfootnote9sym"><SUP>9</SUP></A>   Desta maneira, v&ecirc;-se que, mais do que invalidar as pretens&otilde;es     da &ldquo;teoria&rdquo;, se trata de explicitar os limites em que se movem as representa&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas do mundo.</P>     <P>   Para cumprir precisamente com o pensamento de Mikhail Bakhtin, &eacute;   preciso ver nas abstra&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas, est&eacute;ticas     ou morais apenas parte e parcela dos eventos do mundo;     inclusivamente, o &ldquo;sujeito te&oacute;rico&rdquo; precisa de     estar incorporado por um &ldquo;sujeito real&rdquo; para se tornar     totalmente ativo (Bakhtin 1993: 7). As vis&otilde;es te&oacute;ricas     ou est&eacute;ticas ou morais apenas s&atilde;o justificadas enquanto     n&atilde;o forem al&eacute;m dos seus pr&oacute;prios limites, elas     que tentam, tantas vezes, &ldquo;fazer passar uma parte abstratamente     isolada como o todo real&rdquo; (1993: 18). Ocorre na &ldquo;cogni&ccedil;&atilde;o     te&oacute;rica&rdquo; um processo semelhante ao que sucede com a   &ldquo;contempla&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica&rdquo; ou com a   &ldquo;prescri&ccedil;&atilde;o normativa&rdquo;, pois em todas elas,     em primeiro lugar, tende a ser elaborada uma &ldquo;metaf&iacute;sica&rdquo;   que traduz, nos termos pr&oacute;prios do seu dom&iacute;nio     espec&iacute;fico, a rotura em rela&ccedil;&atilde;o aos atos     iterativamente concretizados por indiv&iacute;duos sens&iacute;veis e     atuantes. Existe, em combina&ccedil;&atilde;o com essa convic&ccedil;&atilde;o,     a inclina&ccedil;&atilde;o para &ldquo;conceber&rdquo;, &ldquo;apreciar&rdquo;   e &ldquo;julgar&rdquo; o mundo unicamente a partir do ponto de vista     exot&oacute;pico que as caracteriza (respetivamente: te&oacute;rico,     est&eacute;tico e moral), quer dizer, ponto de vista   &ldquo;situado-do-lado-de-fora&rdquo; perante os contextos de a&ccedil;&atilde;o     concretos. Se o esfor&ccedil;o de rotura com o ato concreto     constitui, por si, um procedimento preliminar necess&aacute;rio para     a constitui&ccedil;&atilde;o e conserva&ccedil;&atilde;o de uma     transcri&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica do mundo, que se governa   &ldquo;com as suas leis aut&oacute;nomas&rdquo; (1993: 8), j&aacute;   a essencializa&ccedil;&atilde;o do registo te&oacute;rico (ou     est&eacute;tico ou moral) conduz a &ldquo;um estado particular de     esterilidade&rdquo;, a uma obsess&atilde;o com problemas, hierarquias     e ant&iacute;teses que s&atilde;o puramente intelectuais e que n&atilde;o     t&ecirc;m validade a n&atilde;o ser no mundo te&oacute;rico em que se     produzem, tais como as oposi&ccedil;&otilde;es irredut&iacute;veis     entre objetivo e subjetivo, forma e conte&uacute;do, sentido e facto,     resultado e processo, particular e universal (1993: 39, 47). Por sua     vez, o comprazimento caracter&iacute;stico de um certo impressionismo     que procede pela compila&ccedil;&atilde;o e colagem de sensa&ccedil;&otilde;es     e intui&ccedil;&otilde;es tidas por &ldquo;aut&ecirc;nticas&rdquo; ou   &ldquo;espont&acirc;neas&rdquo;, usado em etnografia para justificar     a sobranceria em rela&ccedil;&atilde;o ao registo rigoroso e     articulado da &ldquo;ci&ecirc;ncia normal&rdquo;, <I>i.  e.</I>   a discuss&atilde;o argumentada entre colegas ou a utiliza&ccedil;&atilde;o     de conceitos e instrumentos da disciplina, constitui uma solu&ccedil;&atilde;o     ilus&oacute;ria que parece ignorar que os pr&oacute;prios sentidos do     investigador e, logo, o seu estilo de sele&ccedil;&atilde;o e     inscri&ccedil;&atilde;o das impress&otilde;es sensoriais est&atilde;o     j&aacute; marcados por um tom emocional-volitivo e pela perten&ccedil;a a &ldquo;um lugar pr&oacute;prio no ser-evento&rdquo; (1993:&nbsp;31).</P>     <P>   Em termos gen&eacute;ricos, Mikhail Bakhtin simplesmente constata que     a &ldquo;teoria&rdquo;, incarnada pelo cientista (aqui, etn&oacute;grafo),   &ldquo;toma corpo&rdquo; literalmente, surgindo &ldquo;realizada e     suportada pelo homem todo: pensamento, sentimento e corpo&rdquo;   (Bakhtine 1970: 57). A aceita&ccedil;&atilde;o da prem&ecirc;ncia que     tem este &ldquo;princ&iacute;pio material e corporal&rdquo;, que,     desde logo, &ldquo;se op&otilde;e a qualquer corte com as ra&iacute;zes     materiais e corporais do mundo, a todo o isolamento e confinamento em     si mesmo, a todo o car&aacute;ter ideal abstrato, a todas as     pretens&otilde;es a uma significa&ccedil;&atilde;o desligada e     independente da terra e do corpo&rdquo; (1970: 28), permite, em     seguida, sugerir uma outra conce&ccedil;&atilde;o de etnografia, uma     que n&atilde;o s&oacute; sinaliza os limites da imagem te&oacute;rica     do mundo, mas que tira tamb&eacute;m consequ&ecirc;ncias sobre a     natureza impreterivelmente situada do trabalho do etn&oacute;grafo.     Dito laconicamente, a proposta de Mikhail Bakhtin torna-nos cientes     das condi&ccedil;&otilde;es sociais e intelectuais que s&atilde;o     necess&aacute;rias para a execu&ccedil;&atilde;o de uma conce&ccedil;&atilde;o     te&oacute;rica do mundo, tal como nos conduz de volta ao lugar onde a     pr&aacute;tica acontece com esse suplemento de consci&ecirc;ncia     sobre os limites da vers&atilde;o te&oacute;rica do mundo e sobre a     necessidade que consiste em experimentar a &ldquo;eventicidade&rdquo; de maneira participativa.</P> </font>     <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2"> &ldquo;[O] evento &uacute;nico do ser n&atilde;o &eacute;     apenas algo que &eacute; pensado, mas algo que &eacute;, alguma coisa     que est&aacute; a ser real e inescapavelmente realizada atrav&eacute;s     de mim e de outros (completado, <I>inter alia</I>, tamb&eacute;m na     minha a&ccedil;&atilde;o de conhecer); ele &eacute; realmente     experimentado, afirmado, de uma maneira emocional-volitiva, e a     cogni&ccedil;&atilde;o constitui apenas um momento desse     experimentar-afirmar&rdquo; (Bakhtin 1993:&nbsp;30).</font></p> </blockquote> <font face="Verdana" size="2">     <P>   Uma tal op&ccedil;&atilde;o significa sinalizar, interrogar e renovar     as no&ccedil;&otilde;es tradicionais, as rotinas inquestionadas, as     pseudoexplica&ccedil;&otilde;es involunt&aacute;rias que se misturam     ao trabalho etnogr&aacute;fico, no sentido de as submeter, elas     tamb&eacute;m, &agrave;s pr&aacute;ticas concretas de pesquisa e intele&ccedil;&atilde;o.</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>   Esta proposta equivale a entender a etnografia como processo de   pensamento em estado pr&aacute;tico submetido &agrave;   autorreflexividade do etn&oacute;grafo.<A NAME="sdfootnote10anc" HREF="#sdfootnote10sym"><SUP>10</SUP></A>   Nesta variante, o &ldquo;pensamento participativo&rdquo; significa,     por um lado, uma aplica&ccedil;&atilde;o da teoria aos contextos     valorativos concretos por for&ccedil;a de uma encarna&ccedil;&atilde;o     (Bakhtin 1993: 57) e, por outro, a aplica&ccedil;&atilde;o     sistem&aacute;tica de uma reflexividade sobre a unicidade ou     singularidade do lugar &uacute;nico ocupado pelas pessoas e, em     particular, pelo pr&oacute;prio etn&oacute;grafo nos contextos de     a&ccedil;&atilde;o. A&ccedil;&atilde;o que, segundo a conce&ccedil;&atilde;o     de Mikhail Bakhtin, pode abranger o pensamento, a contempla&ccedil;&atilde;o     ou o conhecimento (1993: 51). O regresso ao &ldquo;evento em     processo&rdquo; significa passar do estudo dos &ldquo;produtos&rdquo;   para o estudo dos &ldquo;atos&rdquo; que os constituem e reconstituem     sobre o mundo da a&ccedil;&atilde;o; uma incurs&atilde;o pelas     variedades de &ldquo;arquitet&oacute;nica concreta do mundo real do     ato realizado&rdquo;, cujos momentos centrais s&atilde;o, para     Mikhail Bakhtin, &ldquo;eu-para-mim&rdquo;, o &ldquo;outro-para-mim&rdquo;   e &ldquo;eu-para-o-outro&rdquo; (1993: 56). Esta vis&atilde;o de um     pensamento participativo vem contrariar as conce&ccedil;&otilde;es     escol&aacute;sticas do conhecimento te&oacute;rico, sem transigir,     todavia, com a ren&uacute;ncia relativamente &agrave;s tarefas de     investiga&ccedil;&atilde;o e interpreta&ccedil;&atilde;o da     etnografia. Afinal, a pesquisa de terreno etnogr&aacute;fica     mostra-se especialmente coincidente com a ideia bakhtiniana de um   &ldquo;ato realizado&rdquo; num contexto concreto, que, em vez de ser     visto apenas como &ldquo;um facto contemplado de fora ou pensado     teoricamente&rdquo;, pode ser responsavelmente &ldquo;levado-em-conta&rdquo;,     com &ldquo;a sua validade te&oacute;rica, a sua factualidade     hist&oacute;rica e o seu tom emocional-volitivo a figurarem como     momentos de uma s&oacute; decis&atilde;o ou resolu&ccedil;&atilde;o&rdquo; (1993:&nbsp;45).</P>     <P>   Em suma, a etnografia insinua-se neste texto menos como um &ldquo;texto&rdquo;   do que como uma &ldquo;pr&aacute;tica&rdquo;, consistindo em atos e     pensamentos de um determinado ser incarnado, o etn&oacute;grafo, que     participa de um contexto situado ao mesmo tempo que possui os     instrumentos para interrogar essa absor&ccedil;&atilde;o pela     situa&ccedil;&atilde;o. O etn&oacute;grafo, enquanto observa os     outros com que interatua, pode igualmente conduzir uma reflex&atilde;o     sobre si mesmo, vigiando e registando a sua presen&ccedil;a tamb&eacute;m.     A partir deste empenhamento participativo, o etn&oacute;grafo     precav&ecirc;-se de supor que a maneira de registar que aplica &agrave;   realidade descrita constitui a regra de produ&ccedil;&atilde;o de tal     realidade ou, por outras palavras, precav&ecirc;-se de converter a     sua vis&atilde;o te&oacute;rica sobre a realidade social em modelo     impl&iacute;cito da realidade social que observa. Por outro lado,     mediante o uso de conceitos e instrumentos de objetiva&ccedil;&atilde;o     etnogr&aacute;fica, ele pode impedir-se de tomar a vis&atilde;o     espont&acirc;nea dos ocupantes habituais de um lugar geogr&aacute;fico     e social como a &uacute;nica e exclusiva vers&atilde;o de     representa&ccedil;&atilde;o do mundo social. Pela encarna&ccedil;&atilde;o     e pela (auto)reflex&atilde;o que nasce da aplica&ccedil;&atilde;o da     etnografia como &ldquo;pensamento participativo&rdquo; sobre os     contextos observados, o etn&oacute;grafo pode superar a separa&ccedil;&atilde;o     estanque entre pensamento e a&ccedil;&atilde;o, ou envolvimento e     observa&ccedil;&atilde;o, prescrita pelo pensamento escol&aacute;stico.     Para retomar uma frase com que abrimos este texto: a &ldquo;prosa do     mundo&rdquo; pode volver-se prosa simplesmente, embora ambas     preservem a sua vincula&ccedil;&atilde;o a universos distintos que     n&atilde;o t&ecirc;m por que disputar prioridades relativas entre si.     A vincula&ccedil;&atilde;o do etn&oacute;grafo a ambos esses     universos por via do &ldquo;pensamento participativo&rdquo;   permite-lhe superar a unilateralidade de uma perten&ccedil;a     exclusiva, impedindo que a reflex&atilde;o te&oacute;rica se divorcie     da experi&ecirc;ncia vivida, e vice-versa.<A NAME="sdfootnote11anc" HREF="#sdfootnote11sym"><SUP>11</SUP></A>   A realiza&ccedil;&atilde;o desta exig&ecirc;ncia aparentemente     contradit&oacute;ria &eacute; apenas poss&iacute;vel pelo estatuto     bic&iacute;pite do etn&oacute;grafo. O exerc&iacute;cio da etnografia     como &ldquo;pensamento participativo&rdquo; permite recuperar a     vincula&ccedil;&atilde;o interessada e comprometida caracter&iacute;stica     da exist&ecirc;ncia prosaica e vivida das pessoas, sem que isso     signifique comprazimento intuitivo perante o mundo ou absor&ccedil;&atilde;o     at&oacute;nita pelo contexto envolvente. Pelo contr&aacute;rio, a     oportunidade de utilizar a etnografia n&atilde;o s&oacute; para     registar o mundo envolvente, mas ainda para concretizar a     autorreflexividade permite registar precisamente as circunst&acirc;ncias     e as implica&ccedil;&otilde;es que acompanham o interesse e o     comprometimento trazidos pela participa&ccedil;&atilde;o do etn&oacute;grafo     nesses contextos. Para estender as anota&ccedil;&otilde;es de Augusto     Ponzio (2012: 2-3) sobre as rela&ccedil;&otilde;es entre &ldquo;autor&rdquo;   e &ldquo;her&oacute;i&rdquo;, sem a participa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o   &eacute; poss&iacute;vel uma &ldquo;viv&ecirc;ncia&rdquo; do evento,     mas sem a alteridade (neste caso, permitida pela objetiva&ccedil;&atilde;o     etnogr&aacute;fica) n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel a sua   &ldquo;compreens&atilde;o&rdquo; e &ldquo;interpreta&ccedil;&atilde;o&rdquo;.     Se o etn&oacute;grafo vive esses contextos como um &ldquo;eu&rdquo;   entre outros, que se imiscui nos eventos em que se empenha, ele pode   tamb&eacute;m pensar-se a si mesmo como um &ldquo;outro-eu&rdquo; e     trazer essa mesma experi&ecirc;ncia reflexiva para a pesquisa etnogr&aacute;fica (2012:&nbsp;3).</P>     <P>&nbsp;</P> </font>     <P><font size="3" face="Verdana"><b>BIBLIOGRAFIA</b></font></P> <font face="Verdana" size="2">     <P>ADLAM, Carol, 2001, &ldquo;Critical work on the Bakhtin Circle: a new     bibliographic essay&rdquo;, em Ken Hirschkop e David Sheperd (orgs.),   <I>Bakhtin and Cultural Theory</I>. Manchester, &shy;Manchester     University Press, 241-266 (2.&ordf;&nbsp;edi&ccedil;&atilde;o revista e ampliada).</P>     <!-- ref --><P>   AEP/Gabinete de Estudos, 2005, <I>Ind&uacute;stria do       Mobili&aacute;rio</I>. Porto, Associa&ccedil;&atilde;o Empresarial de Portugal, Gabinete de Estudos.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=194467&pid=S0873-6561201600030000100002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></P>     <P>   BAKHTINE, Mikha&iuml;l, 1970, <I>L&rsquo;oeuvre de Fran&ccedil;ois       Rabelais et la culture populaire au Moyen Age et sous la Renaissance</I>. Paris, Editions Gallimard.</P>     <!-- ref --><P>   BAKHTINE, Mikha&iuml;l (V. S. Volochinov), 1977, <I>Le marxisme et la philosophie du langage</I>. Paris, Les Editions du Minuit.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=194470&pid=S0873-6561201600030000100004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><P>   BAKHTIN, M.  M., 1981, <I>The Dialogic Imagination: Four Essays</I>. Austin, University of Texas Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=194472&pid=S0873-6561201600030000100005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></P>     <!-- ref --><P>   BAKHTIN, M.  M., 1993, <I>Towards a Philosophy of the Act</I>. Austin, University of Texas Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=194474&pid=S0873-6561201600030000100006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></P>     <!-- ref --><P>   BAKHTINE, Mikha&iuml;l, 2001, <I>Esth&eacute;thique et th&eacute;orie du roman</I>. Paris, Editions Gallimard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=194476&pid=S0873-6561201600030000100007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></P>     <!-- ref --><P>   BAKHTIN, Mikhail, 2004, <I>O Freudismo</I>. S&atilde;o Paulo, Editora Perspectiva.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=194478&pid=S0873-6561201600030000100008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></P>     <P>   BOURDIEU, Pierre, 2001, <I>Science de la science et r&eacute;flexivit&eacute;</I>. Paris, Editions Raisons d&rsquo;Agir.</P>     <!-- ref --><P>   BRANDIST, Craig, e Galin TIHANOV (orgs.), 2000, <I>Materializing       Bakhtin: The Bakhtin Circle and Social Theory</I>. Basingstoke, MacMillan Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=194481&pid=S0873-6561201600030000100010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></P>     <P>   CANGUILHEM, Georges, 1990, <I>Etudes d&rsquo;histoire et de philosophie des sciences</I>. Paris, Vrin.</P>     <!-- ref --><P>   CASSIRER, Ernst, 1972, <I>La philosophie des formes symboliques,</I> volume&nbsp;2. Paris, Les Editions de Minuit.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=194484&pid=S0873-6561201600030000100012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></P>     <!-- ref --><P>   CHARLESWORTH, Simon, 2000, <I>A Phenomenology of Working Class Experience</I>. Cambridge, Cambridge University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=194486&pid=S0873-6561201600030000100013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></P>     <!-- ref --><P>   CLARK, Katerina, e Michael HOLQUIST, 1984, <I>Mikhail Bakhtin</I>.     Cambridge, MA, The &shy;Belknapp Press  /  Harvard University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=194488&pid=S0873-6561201600030000100014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></P>     <P>   CMP  /  Paredes Rota dos M&oacute;veis, 2005, <I>Recenseamento       Industrial: Sector do Mobili&aacute;rio &ndash; Paredes</I>. Paredes,     CMP  /  Paredes Rota dos M&oacute;veis, documento policopiado.</P>     <!-- ref --><P>   ELIAS, Norbert, 1997, <I>A Sociedade dos Indiv&iacute;duos</I>. Lisboa, Dom Quixote.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=194491&pid=S0873-6561201600030000100016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></P>     <!-- ref --><P>   FRIEDMAN, Michael, 2000, <I>A Parting of the Ways: Carnap, Cassirer,       and Heidegger</I>. Peru, IL, Open Court  /  Carus Publishing Company.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=194493&pid=S0873-6561201600030000100017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></P>     <P>   GARDINER, Michael, 2003, &ldquo;Editor&rsquo;s introduction&rdquo;,     em Michael Gardiner (org.), <I>Mikhail Bakhtin</I>, volume&nbsp;1, Sage Masters of Modern Social Thought. Londres, Sage, x-xxvi.</P>     <!-- ref --><P>   GINGRAS, Yves (org.), 2014, <I>Controverses: Accords et d&eacute;saccords en sciences humaines et sociales</I>. Paris, CNRS Editions.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=194496&pid=S0873-6561201600030000100019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></P>     <P>   GODZICH, Wald, 1991, &ldquo;Correcting Kant: Bakhtin and     intercultural interactions&rdquo;, <I>Boundary</I>&nbsp;<I>2: An       International Journal of Literature and Culture</I>, 18&nbsp;(2): 5-17.</P>     <!-- ref --><P>   GOFFMAN, Erving, 1986, <I>Frame Analysis: An Essay on the       Organization of Experience</I>. Boston, Northeastern University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=194499&pid=S0873-6561201600030000100021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></P>     <!-- ref --><P>   HIRSCHKOP, Ken, e David SHEPERD (orgs.), 2001, <I>Bakhtin and       Cultural Theory</I>. &shy;Manchester, Manchester University Press (2.&ordf;&nbsp;edi&ccedil;&atilde;o revista e ampliada).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=194501&pid=S0873-6561201600030000100022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></P>     <!-- ref --><P>   MONTEIRO, Bruno, 2014a, <I>Fr&aacute;gil como o Mundo: Etnografia do       Quotidiano Oper&aacute;rio</I>. Porto, Edi&ccedil;&otilde;es Afrontamento.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=194503&pid=S0873-6561201600030000100023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></P>     <P>   MONTEIRO, Bruno, 2014b, &ldquo;Posf&aacute;cio: Bakhtin vai a     Rebordosa&rdquo;, em M.&nbsp;M. Bakhtin, <I>Para Uma Filosofia do Acto</I>. Porto, Deriva Editores, 105-153.</P>     <!-- ref --><P>   MORSON, Gary Saul, e Caryl EMERSON, 1990, <I>Mikhail Bakhtin: Creation of a Prosaics</I>. &shy;Stanford, Stanford University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=194506&pid=S0873-6561201600030000100025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></P>     <!-- ref --><P>   PAIS, Jos&eacute; Machado, 2002, <I>Sociologia da Vida Quotidiana:       Teorias, M&eacute;todos e Estudos de Caso</I>. Lisboa, Imprensa de Ci&ecirc;ncias Sociais.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=194508&pid=S0873-6561201600030000100026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></P>     <!-- ref --><P>   PEREIRA, Fernanda, 2006, <I>A Articula&ccedil;&atilde;o da RRVS com a       RM</I>. Paredes, Universidade &shy;Fernando Pessoa  /  Ader-Sousa,     trabalho apresentado &agrave; Universidade Fernando Pessoa no &acirc;mbito     da p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em Marketing Integrado de Comunica&ccedil;&atilde;o e Promo&ccedil;&atilde;o do Turismo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=194510&pid=S0873-6561201600030000100027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>PONZIO,     Augusto, 2012, &ldquo;Il cronotopo letterario: confluenza di     linguistica, etica ed estetica&rdquo;, comunica&ccedil;&atilde;o     apresentada em &ldquo;Incontro di Prospettive: Figure e Forme del     Narrare&rdquo;, Universit&agrave; di Bari &ldquo;Aldo Moro&rdquo;,     24-27 de outubro, dispon&iacute;vel em   <A HREF="http://www.augustoponzio.com/files/augusto-ponzio,-il-cronotopo-letterario.pdf" target="_blank">http://www.augustoponzio.com/files/augusto-ponzio,-il-cronotopo-letterario.pdf</A> (&uacute;ltima consulta em outubro de 2016).</P>     <P>   RINGER, Fritz, 1997, <I>Max Weber&rsquo;s Methodology: The       Unification of the Cultural and Social Sciences</I>. Cambridge, MA, Harvard University Press.</P>     <!-- ref --><P>   SCOTT, James, 1991, <I>Domination and the Arts of Resistance</I>. Yale, Yale University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=194514&pid=S0873-6561201600030000100030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></P>     <!-- ref --><P>   TODOROV, Tzvetan, 1984, <I>Mikhail Bakhtin: The Dialogical Principle</I>, Manchester, &shy;Manchester University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=194516&pid=S0873-6561201600030000100031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></P>     <!-- ref --><P>   WEBER, Max, 1996, <I>Sociologie de la religion</I>. Paris, Flammarion.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=194518&pid=S0873-6561201600030000100032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></P>     <P>&nbsp;</P> </font>     <P><b><font size="3" face="Verdana">NOTAS</font></b></P> <font size="3" face="Verdana"></font><font face="Verdana" size="2">     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>   <A NAME="sdfootnote1sym" HREF="#sdfootnote1anc">1</A>	Bruno 	Monteiro &eacute; bolseiro de p&oacute;s-doutoramento com o apoio da 	Funda&ccedil;&atilde;o para a Ci&ecirc;ncia e a Tecnologia 	(SFRH  /  BPD  /  85086  /  2012).</P>     <P>   <A NAME="sdfootnote2sym" HREF="#sdfootnote2anc">2</A>	A 	natureza de &ldquo;inacabamento&rdquo; que tem a rela&ccedil;&atilde;o 	que mantemos com a obra de Mikhail Bakhtin plasma-se nitidamente 	neste texto, em que, mais do que uma &ldquo;recens&atilde;o&rdquo;, 	procur&aacute;mos concretizar uma implica&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica 	com a sua obra por via da sua aplica&ccedil;&atilde;o &agrave;   pesquisa etnogr&aacute;fica. Neste artigo, retom&aacute;mos, 	ampli&aacute;mos e corrigimos explora&ccedil;&otilde;es que 	conduzimos anteriormente sobre este mesmo tema (Monteiro 2014a, 	2014b). Esta nossa contribui&ccedil;&atilde;o, que, insistimos, 	permanece uma cria&ccedil;&atilde;o em aberto, aproveitou o 	interc&acirc;mbio intelectual mantido com outros colegas, 	interessados por temas pr&oacute;ximos destes. Sem car&aacute;ter de 	exaustividade, vale a pena salientar a generosidade de Carlos 	Alberto Faraco, Cristov&atilde;o Tezza, Nuno Venturinha, Simon 	Charlesworth, Nuno Domingos, Ari Sitas, Sumangala Damodaran, Nikos 	Trimikliniotis, Amrita Pande e Wiebke Keim. Quer&iacute;amos ainda 	agradecer aos dois avaliadores an&oacute;nimos que a <I>Etnogr&aacute;fica</I>   destacou para este texto: aproveit&aacute;mos, tanto quanto pudemos, 	os seus coment&aacute;rios e sugest&otilde;es. Retomando as palavras 	de Mikhail Bakhtin, assumimos por completo a &ldquo;responsabilidade&rdquo;   pelas limita&ccedil;&otilde;es do presente texto, sem procurarmos um   &ldquo;&aacute;libi&rdquo; nos conselhos e cr&iacute;ticas que 	recebemos.</P>     <P>   <A NAME="sdfootnote3sym" HREF="#sdfootnote3anc">3</A>	Para 	Mikhail Bakhtin, a no&ccedil;&atilde;o de &ldquo;eventicidade&rdquo;   pretende restituir as propriedades espec&iacute;ficas do 	engendramento da exist&ecirc;ncia em evento, e n&atilde;o apenas a 	sua inclus&atilde;o pelo evento: deste modo, remete-se para a 	natureza intr&iacute;nseca e inescap&aacute;vel de atos enquanto 	ocorrem em evento; motivo que justifica a inventividade ligada a 	express&otilde;es como &ldquo;ser-evento&rdquo;, &ldquo;ser-como-evento&rdquo;   ou &ldquo;evento-em-devir-do-ser&rdquo;.</P>     <P>   <A NAME="sdfootnote4sym" HREF="#sdfootnote4anc">4</A>	Uma 	verbaliza&ccedil;&atilde;o nunca seria compreendida ou explicada sem 	o seu &ldquo;contexto de enuncia&ccedil;&atilde;o&rdquo;, 	constitu&iacute;do implicitamente pelo &ldquo;horizonte comum aos 	interlocutores [composto] de elementos espaciotemporais, sem&acirc;nticos 	e avaliativos (axiol&oacute;gicos)&rdquo; (Todorov 1984: 42). Desta 	maneira, Mikhail Bakhtin contesta simultaneamente a leitura 	estruturalista, para a qual as enuncia&ccedil;&otilde;es individuais 	s&atilde;o irrelevantes e, por outro lado, a escola subjetivista, 	que elimina as imputa&ccedil;&otilde;es sociais da verbaliza&ccedil;&atilde;o 	singular. Para uma vis&atilde;o mais completa sobre a relev&acirc;ncia 	da &ldquo;sociabilidade&rdquo; implantada nos contextos de 	enuncia&ccedil;&atilde;o, <I>vd</I>.&nbsp;Todorov (1984:&nbsp;42-43).</P>     <P>   <A NAME="sdfootnote5sym" HREF="#sdfootnote5anc">5</A>	Nos 	termos originais de Mikhail Bakhtin, a ideia de &ldquo;pensamento 	participativo&rdquo; remete para o ponto de vista das pessoas 	empenhadas no contacto com coisas, pessoas e outros seres, 	partilhando-os e simpatizando com todos eles. Neste sentido, ela 	permite, assim, prevenir o ponto de vista separado do mundo, tirado   &ldquo;a partir de lado nenhum&rdquo;, como diria P.  F. 	Strawson.</P>     <P>   <A NAME="sdfootnote6sym" HREF="#sdfootnote6anc">6</A>	Uma 	outra caracteriza&ccedil;&atilde;o do setor permite-nos complementar 	este retrato. O recenseamento industrial dedicado ao setor do 	mobili&aacute;rio em Paredes contabilizava, em 2005, 1166 empresas, 	258 delas em Rebordosa. Em termos gerais, tratava-se de 	microempresas (em m&eacute;dia, cada qual conta com oito 	trabalhadores; 851 empresas t&ecirc;m dez ou menos trabalhadores), 	extremamente vol&aacute;teis (436 foram criadas nos dez anos 	anteriores &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o do estudo), com uma 	estrutura produtiva tradicional (como sugere a reduzida presen&ccedil;a 	de trabalhadores administrativos &ndash; 827 num total contabilizado 	de 8439 trabalhadores a tempo inteiro &ndash;, ou a subcontrata&ccedil;&atilde;o 	generalizada dos servi&ccedil;os de gest&atilde;o financeira &ndash;   973 empresas est&atilde;o nessa situa&ccedil;&atilde;o), e dedicadas 	sobretudo &agrave; revenda e &agrave; subcontrata&ccedil;&atilde;o 	(912 empresas afirmam dedicar-se &agrave; revenda, 836 empresas n&atilde;o 	t&ecirc;m exposi&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria, 742 fazem m&oacute;veis 	por medida). Tudo isto s&atilde;o elementos que parecem confirmar o 	retrato de um tecido produtivo pulverizado e inst&aacute;vel 	(CMP  /  Paredes Rota dos M&oacute;veis 2005; Pereira 	2006:&nbsp;48-80).</P>     <P>   <A NAME="sdfootnote7sym" HREF="#sdfootnote7anc">7</A>	Para 	complementar as palavras que inclu&iacute;mos no texto a seu 	respeito, acrescentemos que o &ldquo;cronotopo&rdquo; se prende com 	as representa&ccedil;&otilde;es discursivas, sejam elas liter&aacute;rias 	ou triviais, a respeito do espa&ccedil;o e do tempo, aparecendo 	simultaneamente como conceito cognitivo e como marca narrativa da 	linguagem. No entanto, revela-se poss&iacute;vel alargar o &acirc;mbito 	de aplica&ccedil;&atilde;o do conceito de &ldquo;tempo-espa&ccedil;o&rdquo;   para &ldquo;outras &aacute;reas da cultura&rdquo;, como sugere o 	pr&oacute;prio Mikhail Bakhtin; para ele, a principal vantagem do 	termo residia em mostrar &ldquo;a inseparabilidade do tempo e do 	espa&ccedil;o&rdquo;, em que o tempo se &ldquo;densifica, ganha 	carne&rdquo; e, por sua vez, o espa&ccedil;o se torna &ldquo;carregado 	e reativo aos movimentos do tempo&rdquo; (Bakhtin 1981: 84). Na 	comunidade cient&iacute;fica portuguesa, vamos limitar-nos a 	reportar a invoca&ccedil;&atilde;o do conceito de &ldquo;cronotopo&rdquo;   realizada por Jos&eacute; Machado Pais (2002).</P>     <P>   <A NAME="sdfootnote8sym" HREF="#sdfootnote8anc">8</A>	Esta 	caracteriza&ccedil;&atilde;o do &ldquo;cronotopo&rdquo; refere-se 	originalmente ao &ldquo;cronotopo do caminho&rdquo;. No caso por n&oacute;s 	tratado, nem sempre se coloca a caracter&iacute;stica de   &ldquo;acidentalidade&rdquo; dos encontros que era originalmente 	reportada por Mikhail Bakhtin para esta modalidade cronot&oacute;pica 	(Bakhtine 2001:&nbsp;285).</P>     <P>   <A NAME="sdfootnote9sym" HREF="#sdfootnote9anc">9</A>	Neste 	momento, vale a pena ler uma passagem escrita pelo pr&oacute;prio 	Mikhail Bakhtin: &ldquo;Na medida em que o mundo aut&oacute;nomo 	abstratamente te&oacute;rico (um mundo fundamentalmente e 	essencialmente alheio &agrave; historicidade &uacute;nica e viva) 	permane&ccedil;a dentro dos seus limites, a sua autonomia &eacute;   justific&aacute;vel e inviol&aacute;vel. Tais disciplinas 	filos&oacute;ficas, como a l&oacute;gica, a teoria da cogni&ccedil;&atilde;o, 	a psicologia da cogni&ccedil;&atilde;o, a biologia filos&oacute;fica 	(todas elas procurando descobrir &ndash; teoricamente, isto &eacute;, 	por meio da cogni&ccedil;&atilde;o abstrata &ndash; a estrutura do 	mundo teoricamente conhecido e os princ&iacute;pios desse mundo) s&atilde;o 	igualmente justific&aacute;veis. Mas o mundo como objeto de cogni&ccedil;&atilde;o 	te&oacute;rica procura fazer-se passar como o mundo inteiro, isto &eacute;, 	n&atilde;o apenas como um ser abstratamente unit&aacute;rio, mas 	tamb&eacute;m como um ser concretamente &uacute;nico na sua poss&iacute;vel 	totalidade&rdquo; (1993:&nbsp;25).</P>     <P>   <A NAME="sdfootnote10sym" HREF="#sdfootnote10anc">10</A>	Esta 	aparente imbrica&ccedil;&atilde;o de atos reportados a universos de 	a&ccedil;&atilde;o distintos torna-se poss&iacute;vel e explica-se, 	segundo Mikhail Bakhtin, pela ocorr&ecirc;ncia de uma converg&ecirc;ncia 	sobre o evento &uacute;nico que aproxima a raz&atilde;o te&oacute;rica 	e a raz&atilde;o pr&aacute;tica, como se verifica pela seguinte 	passagem: &ldquo;Toda a raz&atilde;o te&oacute;rica na sua 	totalidade &eacute; apenas um momento da raz&atilde;o pr&aacute;tica, 	isto &eacute;, a raz&atilde;o da orienta&ccedil;&atilde;o moral   &uacute;nica do sujeito, no interior do evento do ser &uacute;nico. 	Este ser n&atilde;o pode ser determinado nas categorias da 	consci&ecirc;ncia te&oacute;rica n&atilde;o participante &ndash; ele 	pode ser determinado apenas nas categorias da comunh&atilde;o real, 	isto &eacute;, de um ato realmente realizado, nas categorias da 	experi&ecirc;ncia efetiva-participativa da unicidade ou 	singularidade concreta do mundo&rdquo; (1993:&nbsp;31).</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>   <A NAME="sdfootnote11sym" HREF="#sdfootnote11anc">11</A>	Para 	Augusto Ponzio, a supress&atilde;o da inclina&ccedil;&atilde;o 	teoreticista passa precisamente por &ldquo;encontrar um ponto de 	vista externo e ao mesmo tempo part&iacute;cipe&rdquo; a partir do 	qual se torne realiz&aacute;vel uma &ldquo;descri&ccedil;&atilde;o&rdquo;   da &ldquo;concreta arquitet&oacute;nica do mundo real do ato, verbal 	e n&atilde;o-verbal, enquanto evento uno e &uacute;nico&rdquo;   (2012: 2). Para este autor, a vis&atilde;o de Mikhail Bakhtin sugere 	que &ldquo;a interpreta&ccedil;&atilde;o-compreens&atilde;o da 	arquitet&oacute;nica pressup&otilde;e que essa se realize a partir 	de uma posi&ccedil;&atilde;o outra, diferente e ao mesmo tempo 	n&atilde;o-indiferente, mas por sua vez participativa. S&oacute; o 	ponto de vista do outro, na medida em que &eacute; externo e, 	portanto, capaz de um excedente &lsquo;transgrediente&rsquo;, 	permite que a descri&ccedil;&atilde;o do mundo do eu n&atilde;o seja 	uma outra <I>representa&ccedil;&atilde;o</I> interna a esse mundo e, 	assim, limitada e parcial, uma <I>re-presenta&ccedil;&atilde;o</I>   do relance do eu, mas uma vis&atilde;o compreensiva e envolvente, 	capaz de &lsquo;<I>refigura&ccedil;&atilde;o</I>&rsquo;&rdquo;   (2012:&nbsp;4).</P> </font>      ]]></body><back>
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