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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O uso do crack como ele é: o cachimbo, o &#8220;bloco&#8221; e o usuário]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[The use of crack as it is: the pipe, the &#8220;block&#8221; and the user]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade Federal de São Paulo Programa de Saúde Coletiva ]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In order to get a good pull, meaning to satisfactorily consume crack, its users developed a rich paraphernalia, as well as values related to convivial relationships and rituals of use. The common purpose of obtaining pleasure by consuming, gradually, a fraction of the crack &#8220;rock&#8221; contributes to the establishment of certain relationships, in places of consumption, around specific social roles. Through ethnographic research, conducted in the central area of São Paulo, it was possible to follow different user groups, their practices and representations.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <P align="right"><font size="2" face="Verdana"><b>ARTIGOS</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><b><font size="4" face="Verdana">O uso do       <I>crack</I> como ele &eacute;: o cachimbo, o &ldquo;bloco&rdquo; e o usu&aacute;rio</font></b></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><b><font size="3" face="Verdana">The use of   crack as it is: the pipe, the &ldquo;block&rdquo; and the user </font></b></P>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>      <P><b><font size="2" face="Verdana">Ygor   Diego Delgado Alves</font></b><font size="2" face="Verdana"><b><sup>I</sup></b></font></P>     <P><font size="2" face="Verdana"> <sup>I</sup>Programa   de Sa&uacute;de Coletiva, Unifesp, Brasil. <i>E-mail:</i> <a href="mailto:antropologiaygor@yahoo.com.br">antropologiaygor@yahoo.com.br</a></font></P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P> <hr noshade size="1">     <P><font size="2" face="Verdana"><b>RESUMO</b></font></P>     <P><font size="2" face="Verdana">Com   o objetivo de obter um bom &ldquo;trago&rdquo;, ou seja, consumir   satisfatoriamente o <I>crack</I>, seus usu&aacute;rios desenvolveram   uma rica parafern&aacute;lia, assim como valores relacionados com a   boa conviv&ecirc;ncia e rituais de uso. O prop&oacute;sito coletivo   de obter prazer consumindo, a cada tragada, uma fra&ccedil;&atilde;o   da &ldquo;pedra&rdquo; de <I>crack</I> contribui para que certas   rela&ccedil;&otilde;es se estabele&ccedil;am, nos locais de uso, em   torno de pap&eacute;is sociais espec&iacute;ficos, como os de   &ldquo;vapor&rdquo;, &ldquo;conten&ccedil;&atilde;o&rdquo; e   &ldquo;parasita&rdquo;<I>. </I>A partir de pesquisa etnogr&aacute;fica,   realizada na regi&atilde;o central da cidade de S&atilde;o Paulo,   p&ocirc;de-se acompanhar diferentes grupos de usu&aacute;rios com   suas pr&aacute;ticas e representa&ccedil;&otilde;es.</font></P>     <P><font size="2" face="Verdana">   <b>Palavras-chave:</b> consumo do <I>crack</I>, etnografia, ritual de uso, parafern&aacute;lia</font>.</P> <hr noshade size="1">     <P><font size="2" face="Verdana"><b>ABSTRACT</b></font></P>     <P><font size="2" face="Verdana">In   order to get a good pull, meaning to satisfactorily consume crack,   its users developed a rich paraphernalia, as well as values related   to convivial relationships and rituals of use. The common purpose of   obtaining pleasure by consuming, gradually, a fraction of the crack   &ldquo;rock&rdquo; contributes to the establishment of certain   relationships, in places of consumption, around specific social   roles<I>.</I> Through ethnographic research, conducted in the central   area of S&atilde;o Paulo, it was possible to follow different user   groups, their practices and representations.</font></P>     <P><font size="2" face="Verdana">   <b>Keywords:</b> crack consumption, ethnography, ritual of use, paraphernalia</font>.</P> <hr noshade size="1">     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="2" face="Verdana"> A pesquisa que deu origem a este artigo foi realizada sob a   orienta&ccedil;&atilde;o do antrop&oacute;logo Edward MacRae e fez   parte do doutoramento em Antropologia Social realizado pelo autor na   Universidade Federal da Bahia. Deu-se entre os anos de 2013 e 2014,   na regi&atilde;o central da cidade de S&atilde;o Paulo, mais   especificamente na regi&atilde;o conhecida como Cracol&acirc;ndia, e   em dois outros locais de uso e com&eacute;rcio de <I>crack</I> localizados no bairro do Cambuci, tamb&eacute;m na regi&atilde;o   central da cidade. Contou, em seu in&iacute;cio, com o aux&iacute;lio   de um informante privilegiado pertencente ao c&iacute;rculo mais   pr&oacute;ximo do autor, cultural e socialmente. Foi uma imers&atilde;o   de car&aacute;ter etnogr&aacute;fico no campo, com o pesquisador   convivendo com diferentes usu&aacute;rios e grupos de usu&aacute;rios de <I>crack</I> por tempo n&atilde;o inferior a um ano e meio.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="2" face="Verdana">   Pretende-se analisar como o uso do <I>crack</I> proporcionou a   cria&ccedil;&atilde;o de uma rica parafern&aacute;lia, composta por   ferramentas e utens&iacute;lios dos mais variados, para a obten&ccedil;&atilde;o   do melhor &ldquo;trago&rdquo; poss&iacute;vel. Esse uso tamb&eacute;m   impulsionou o desenvolvimento de uma verdadeira tecnologia do   disfarce, o &ldquo;barraco&rdquo;, feito com materiais dispon&iacute;veis   no ambiente urbano, utilizados para as necessidades pr&oacute;prias   do contexto delicado do proibicionismo. Estes artefatos relacionam-se   com os padr&otilde;es de consumo da droga e rituais dos usu&aacute;rios,   ao serem trocados, compartilhados, vendidos, desmontados e refeitos   ao sabor das necessidades e possibilidades dos consumidores de <I>crack</I>.   Os artefatos ainda se prestam a prevenir danos, compor e demonstrar   ades&atilde;o a certos tipos identit&aacute;rios e corporalidades.   Assim, as estrat&eacute;gias de redu&ccedil;&atilde;o de danos acabam confrontando-se com estas pr&aacute;ticas nas cenas de uso.</font></P>     <P><font size="2" face="Verdana"> Partiremos do cachimbo para chegar ao &ldquo;fum&oacute;dromo&rdquo;   e nesta &ldquo;caminhada&rdquo;<SUP>&nbsp;<A NAME="sdfootnote1anc" HREF="#sdfootnote1sym"><SUP>1</SUP></A></SUP> teremos a oportunidade de ter uma breve mirada sobre alguns dos   objetos produzidos pelo g&ecirc;nio craqueiro. Seu uso foi   acompanhado na pr&aacute;tica, nas ocasi&otilde;es em que s&atilde;o   trocados, compartilhados, vendidos, desmontados e refeitos em sua media&ccedil;&atilde;o com o corpo.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><b><font size="3" face="Verdana"> O &ldquo;maquin&aacute;rio&rdquo; e o cachimbo</font></b></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana">&ldquo;Maquin&aacute;rio&rdquo; &eacute; a categoria nativa para     designar a parafern&aacute;lia utilizada no consumo do &ldquo;bloco&rdquo;,     ou &ldquo;pedra&rdquo; de <I>crack</I>. O cachimbo &eacute; o     principal artefato deste conjunto e a maior realiza&ccedil;&atilde;o     artesanal do g&ecirc;nio craqueiro.<A NAME="sdfootnote2anc" HREF="#sdfootnote2sym"><SUP>2</SUP></A>   Na <I>webpage</I> da Confraria dos Amigos do Cachimbo, a descri&ccedil;&atilde;o     do ato de fumar assim &shy;aparece: &ldquo;Fumar cachimbo &eacute;   adaptar um ritual ocioso de descontra&ccedil;&atilde;o e prazer, que     requer aten&ccedil;&atilde;o, destreza e conhecimento. Talvez seja     esta a raz&atilde;o que leva a generalidade das pessoas associe o     cachimbo a pessoas nobres e profissionais&rdquo; (Castro s.      d.).     Veremos como o cachimbo de fumar <I>crack</I>, ou &ldquo;Boris&rdquo;,     tamb&eacute;m faz jus a estas observa&ccedil;&otilde;es,     principalmente com respeito &agrave; aten&ccedil;&atilde;o, destreza e conhecimento. Ent&atilde;o, vejamos.</font></P>     <P><font size="2" face="Verdana">O <I>crack</I> pode ser fumado de diversas maneiras, em latas   dobradas e perfuradas, em copos de &aacute;gua mineral descart&aacute;veis   sobre furo na tampa de alum&iacute;nio, em copos de <I>Yakult</I><SUP>&nbsp;<A NAME="sdfootnote3anc" HREF="#sdfootnote3sym"><SUP>3</SUP></A></SUP> com o mesmo furo na tampa e um &ldquo;caninho&rdquo;,<A NAME="sdfootnote4anc" HREF="#sdfootnote4sym"><SUP>4</SUP></A> em cotovelos de tubula&ccedil;&atilde;o de PVC, em l&acirc;mpadas e   narguil&eacute;s. Por&eacute;m, em S&atilde;o Paulo, o cachimbo &eacute;   o instrumento mais utilizado e fumar em cachimbo n&atilde;o &eacute;   uma inven&ccedil;&atilde;o dos craqueiros, mas costume muito   difundido desde o consumo do &ldquo;pito de pango&rdquo;, ou maconha,   em &ldquo;maricas&rdquo;<SUP>&nbsp;<A NAME="sdfootnote5anc" HREF="#sdfootnote5sym"><SUP>5</SUP></A></SUP> (Alves 1998: 125). Assim, utilizaremos o cachimbo curvo de fumar   tabaco para comparar, em seus elementos constitutivos e pr&aacute;ticas   de manuseio, com o cachimbo mais comum encontrado por n&oacute;s   dedicado ao uso do <I>crack</I>. Esta compara&ccedil;&atilde;o ir&aacute;   mostrar continuidades entre as pr&aacute;ticas e mesmo entre as   representa&ccedil;&otilde;es sobre este costume. O cachimbo ou   &ldquo;Boris&rdquo; &eacute;, na maioria das vezes, arranjado todo em   metal. A haste e seu encaixe costumam ser uma mesma pe&ccedil;a, o   &ldquo;caninho&rdquo;. O encaixe se adapta comumente de modo direto   ao fornilho, sem a necessidade de um pesco&ccedil;o que sirva de   liga&ccedil;&atilde;o entre os dois. Isto proporciona a passagem   direta da fuma&ccedil;a que se pretende sorver, do fornilho &agrave;   haste. O &ldquo;Boris&rdquo; n&atilde;o costuma ser curvo, mas   direito, termo usado pelos usu&aacute;rios de tabaco para   referirem-se aos cachimbos retos, aqueles nos quais o conjunto da   haste forma um &acirc;ngulo reto com o fornilho. Isto facilita a   retirada dos restos de tabaco e saliva que possam impregnar seu   interior. O cachimbo de fumar tabaco existe previamente ao de   consumir <I>crack</I>; por&eacute;m, &eacute; poss&iacute;vel que   sempre estivesse presente como ideia. Na rela&ccedil;&atilde;o entre   estes objetos e os usu&aacute;rios, o copo de &aacute;gua mineral<SUP>&nbsp;<A NAME="sdfootnote6anc" HREF="#sdfootnote6sym"><SUP>6</SUP></A></SUP> foi deixado de lado e o &ldquo;caninho&rdquo; acrescentado. No   entanto, ser&aacute; na &ldquo;rapa&rdquo; que poderemos encontrar o   agenciamento capaz de promover este processo de mudan&ccedil;a.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/etn/v20n3/20n3a03f1.jpg" width="571" height="220"></P>     
<P>&nbsp;</P>     <P><font size="2" face="Verdana">Para os consumidores de tabaco, a borra ou res&iacute;duo aderente &agrave;s   paredes da c&acirc;mara e canal do fornilho, assim como ao canal da   haste, &eacute; algo a ser retirado para evitar-se o entupimento do   sistema e que depois &eacute; descartado. Para os usu&aacute;rios de <I>crack</I>, a &ldquo;rapa&rdquo; &eacute; valiosa, unanimemente   tida como de poder superior ao &ldquo;bloco&rdquo; (&ldquo;pedra&rdquo;   de <I>crack</I>)<I>.</I> Os l&aacute;bios da boquilha s&atilde;o do   mesmo material da haste, muitas vezes met&aacute;lico, o que leva a   seu grande aquecimento ap&oacute;s o contato reiterado da chama com a   base do fornilho, o que ocorre caso se deseje &ldquo;atochar&rdquo;   (ou &ldquo;tochar&rdquo;) o cachimbo. D&aacute;-se esse nome ao modo   de consumir a &ldquo;rapa&rdquo; sem retir&aacute;-la, mas pelo   aquecimento do &ldquo;fog&atilde;ozinho&rdquo; (ou fornilho) e do   &ldquo;caninho&rdquo;.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="2" face="Verdana"> A queima da &ldquo;pedra&rdquo; &eacute; feita n&atilde;o no interior   do fornilho, como no consumo de tabaco, mas em uma inova&ccedil;&atilde;o   feita sobre a tampa da c&acirc;mara do fornilho tradicional, o   &ldquo;alum&iacute;nio&rdquo;<I>. </I>Ele &eacute;   geralmente proveniente de tampa de copo de &aacute;gua   descart&aacute;vel e posteriormente perfurado. Segundo os depoimentos   colhidos em nossa etnografia, o in&iacute;cio do consumo do <I>crack</I> na cidade de S&atilde;o Paulo deu-se sobre o alum&iacute;nio   perfurado de copos de &aacute;gua descart&aacute;veis; assim, podemos   afirmar de modo sint&eacute;tico que o copo tornou-se &ldquo;fog&atilde;ozinho&rdquo;,   o alum&iacute;nio perfurado foi mantido e acrescentou-se uma haste,   ou &ldquo;caninho&rdquo;.<A NAME="sdfootnote7anc" HREF="#sdfootnote7sym"><SUP>7</SUP></A> Neste caso, do uso em copos descart&aacute;veis, o usu&aacute;rio ou   os usu&aacute;rios que fumassem uma quantidade razo&aacute;vel de   &ldquo;pedras&rdquo;, dez, por exemplo, poderiam retirar a &ldquo;rapa&rdquo;   da tampa de alum&iacute;nio do copo, e se usassem &aacute;gua em seu   fundo, a &ldquo;rapa&rdquo; boiaria sobre ela e seria retirada em um   processo dif&iacute;cil e pouco eficiente. A &ldquo;rapa&rdquo; e o   desejo de obt&ecirc;-la desestabilizou o conjunto   copo    /    cinza    /    alum&iacute;nio na pr&aacute;tica   do uso e at&eacute; hoje; juntamente com o &ldquo;trago&rdquo; e os outros materiais, continua a provocar transforma&ccedil;&otilde;es.</font></P>     <P><font size="2" face="Verdana"> Ap&oacute;s fumar uma quantidade de <I>crack</I>, a cinza utilizada   j&aacute; n&atilde;o serve mais para nova dose e deve ser substitu&iacute;da   por cinza nova. O cigarro, desta forma, &eacute; presen&ccedil;a   indispens&aacute;vel nas &ldquo;rodas de pedra&rdquo; e novos   suprimentos s&atilde;o muito bem recebidos. Mas podem ser muito pouco   fumados e n&atilde;o poucos usu&aacute;rios de <I>crack</I> s&atilde;o   abst&ecirc;mios de tabaco. Um cigarro pode ser aceso e, depois de   &shy;comedida fumada, muitas vezes sem tragar, deixado queimar em   posi&ccedil;&atilde;o vertical at&eacute; que todo o fumo seja   transformado na desejada cinza. Ap&oacute;s sua queima, juntamente   com o <I>crack</I> apresentado na forma de &ldquo;pedra&rdquo; ou p&oacute;,   a cinza torna-se esbranqui&ccedil;ada e, ap&oacute;s o sorvimento da   tragada pelo usu&aacute;rio, sua cor &eacute; sinal de destreza na   pr&aacute;tica de fumar: aqueles capazes de fumar com habilidade   dever&atilde;o ser tamb&eacute;m competentes em deixar a cinza o mais   branca poss&iacute;vel sobre o papel de alum&iacute;nio, por vezes   levemente c&ocirc;ncavo, a fazer papel de fornilho, para n&atilde;o   passarem por &ldquo;frangos&rdquo;<I>,</I> ou seja, ne&oacute;fitos   in&aacute;beis. A cinza branca indica queima total da &ldquo;pedra&rdquo;   l&aacute; colocada. Indica destreza e aus&ecirc;ncia de desperd&iacute;cio.   O &ldquo;frango&rdquo; em uma roda de <I>crack</I> pode ver-se na   situa&ccedil;&atilde;o de ser, al&eacute;m de alvo de chacota, o mais   solicitado a &ldquo;fortalecer&rdquo;<SUP>&nbsp;<A NAME="sdfootnote8anc" HREF="#sdfootnote8sym"><SUP>8</SUP></A></SUP> outros participantes da roda. Segundo interlocutores, pode, em casos   extremos, ou em rodas com desconhecidos e    /    ou em   &ldquo;biqueiras&rdquo;<SUP>&nbsp;<A NAME="sdfootnote9anc" HREF="#sdfootnote9sym"><SUP>9</SUP></A></SUP> afastadas de sua &ldquo;&aacute;rea&rdquo;,<A NAME="sdfootnote10anc" HREF="#sdfootnote10sym"><SUP>10</SUP></A> ser roubado e at&eacute; v&iacute;tima de sequestro rel&acirc;mpago,   caso aparente ter conta em banco e possuir cart&atilde;o de saque.   Assim sendo, no ritual de uso do <I>crack</I>, a apar&ecirc;ncia da   cinza ap&oacute;s a queima da &ldquo;pedra&rdquo; possui ag&ecirc;ncia como signo mediador do prest&iacute;gio do usu&aacute;rio na roda.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/etn/v20n3/20n3a03f2.jpg" width="579" height="353"></P>     
<P><font size="2" face="Verdana">    <BR> </font></P>     <P><font size="2" face="Verdana">Este   cachimbo pode ser considerado o estado da arte em termos de &ldquo;Boris&rdquo;.   Destacam-se o &ldquo;caninho&rdquo; e o   fornilho    /    &ldquo;fog&atilde;ozinho&rdquo; do tipo   &ldquo;curvinha&rdquo;, muito valorizado entre os usu&aacute;rios   devido ao cobre utilizado em sua fabrica&ccedil;&atilde;o capaz de   produzir uma &ldquo;rapa&rdquo; branca e n&atilde;o preta,   considerada de menor qualidade em compara&ccedil;&atilde;o &agrave;   primeira.<A NAME="sdfootnote11anc" HREF="#sdfootnote11sym"><SUP>11</SUP></A> Possui porca rosqueada ao fornilho e tamb&eacute;m a uma caneta por   onde passa o &ldquo;caninho&rdquo;<I>. </I>Juntamente com um papel de   alum&iacute;nio colocado entre o &ldquo;caninho&rdquo; e a parte   interna do fornilho, promove ampla veda&ccedil;&atilde;o do sistema e   um &ldquo;trago&rdquo; muito agrad&aacute;vel. &ldquo;Caninhos&rdquo;   mais longos permitem o consumo de uma fuma&ccedil;a mais fria e o   termo usado para esta pr&aacute;tica &eacute; &ldquo;buscar longe&rdquo;.   Ap&oacute;s uma tragada, diferentemente do cachimbo para tabaco, no   &ldquo;Boris&rdquo; o fornilho n&atilde;o serve para colocar fumo,   cinza, ou &ldquo;pedra&rdquo;, mas como c&acirc;mara de g&aacute;s, e   l&aacute; a desejada fuma&ccedil;a oriunda da queima da &ldquo;pedra&rdquo;   sobre a cinza se concentra ap&oacute;s o &ldquo;trago&rdquo;. O   objetivo do &ldquo;chimb&oacute;&rdquo;, outro nome para o cachimbo,   &eacute; permitir a r&aacute;pida e total queima da &ldquo;pedra&rdquo;   para produ&ccedil;&atilde;o da fuma&ccedil;a a ser absorvida ap&oacute;s   cumprir seu trajeto iniciado no fornilho, se estendendo pela haste   at&eacute; a boquilha, passando pela cavidade bucal, faringe,   laringe, at&eacute; atingir a traqueia e se dividir entre os   br&ocirc;nquios direito e esquerdo para atrav&eacute;s destes chegar   aos bronqu&iacute;olos e &agrave; corrente sangu&iacute;nea. Segundo   alguns, a confec&ccedil;&atilde;o destes artefatos, com sua grande   riqueza de detalhes, &eacute; preferencialmente realizada sob a   &ldquo;brisa&rdquo; (efeito) do <I>crack</I> &ndash; ela   aumentaria, nas palavras de um ex-usu&aacute;rio, a sensibilidade   art&iacute;stica do craqueiro    /  artes&atilde;o.</font></P>     <P><font size="2" face="Verdana">No   &ldquo;trago&rdquo;, a fuma&ccedil;a &eacute; absorvida no pulm&atilde;o   e pode ser eliminada tanto pela boca, o mais comum, quanto pelo   nariz. Enfim, deseja-se obter fuma&ccedil;a, &eacute; ela o bem   valorizado no momento do &ldquo;trago&rdquo;. Ap&oacute;s este, a   boquilha &eacute; comumente tampada para evitar-se a perda da fuma&ccedil;a   que n&atilde;o p&ocirc;de ser tragada apesar do esfor&ccedil;o feito   pelo diafragma e pulm&otilde;es. O topo do &ldquo;fog&atilde;ozinho&rdquo;   tamb&eacute;m se encontra coberto pela cinza requeimada no processo   de combust&atilde;o da &ldquo;pedra&rdquo;. A fuma&ccedil;a fica   presa dentro do sistema que comp&otilde;e o &ldquo;chimb&oacute;&rdquo;   de fumar &ldquo;pedra&rdquo;. &Eacute; poss&iacute;vel sorver com   relativa tranquilidade a fuma&ccedil;a aspirada, pode-se respir&aacute;-la   e, se o usu&aacute;rio quiser ou tiver necessidade, conversar, pedir   algo, beber &aacute;gua ou alguma bebida alco&oacute;lica de sua   prefer&ecirc;ncia, enquanto a boquilha &eacute; obstru&iacute;da   firmemente com o polegar, at&eacute; um derradeiro &ldquo;trago&rdquo;,   colocando o isqueiro aceso novamente sobre o topo do fornilho. Ap&oacute;s   esta repeti&ccedil;&atilde;o, a cinza poder&aacute; ser retirada e a   boquilha liberada. Se n&atilde;o houver nenhum reparo a fazer no   &ldquo;Boris&rdquo; e disponibilidade de &ldquo;pedra&rdquo;, cinza e   isqueiro, o processo poder&aacute; ser reiniciado quando for conveniente, minimizando-se o desperd&iacute;cio.</font></P>     <P><font size="2" face="Verdana">No   &ldquo;Boris&rdquo; ou &ldquo;chimb&oacute;&rdquo;, o material   depositado no fornilho e no &ldquo;caninho&rdquo;, a &ldquo;rapa&rdquo;<I>,</I> corresponde &agrave; parcela daquilo que se intenciona consumir.<A NAME="sdfootnote12anc" HREF="#sdfootnote12sym"><SUP>12</SUP></A> N&atilde;o esque&ccedil;amos que a superf&iacute;cie do &ldquo;fog&atilde;ozinho&rdquo;   n&atilde;o tem contato direto com a &ldquo;pedra&rdquo; e tampouco   com a cinza queimada sobre o alum&iacute;nio no topo da c&acirc;mara.   Assim sendo, o &ldquo;fog&atilde;ozinho&rdquo; &eacute; integralmente   raspado para a retirada da borra depositada. Esta &eacute; novamente   fumada. Pode ser constantemente misturada &agrave; cinza que vai se   obtendo na queima de cigarros em um processo de esmagamento da borra   colocada em meio &agrave; cinza sobre uma superf&iacute;cie de apoio.   Um cart&atilde;o de visita ou carta de baralho geralmente presta-se a   essa tarefa, sendo com ela misturada a borra retirada da haste e   &ldquo;fog&atilde;ozinho&rdquo;, geralmente ap&oacute;s o desmonte do   conjunto. Tudo &eacute; amassado, novamente espalhado e amassado   outra vez at&eacute; que atinja a apar&ecirc;ncia desejada. Com o   cart&atilde;o levemente arqueado no sentido do lado mais longo, a   mistura &eacute; colocada com o apoio dos dedos indicador e polegar,   para evitar desperd&iacute;cio de material, sobre o fornilho do   &ldquo;chimb&oacute;&rdquo;, estando, assim, apta a ser fumada ou entregue a outro integrante da roda de <I>crack</I>.</font></P>     <P><font size="2" face="Verdana">O   desmonte do &ldquo;chimb&oacute;&rdquo; &eacute; feito para a   retirada da &ldquo;rapa&rdquo; ou para algum reparo, como trocar o   isolamento de pl&aacute;stico que possa estar permitindo o escape de   fuma&ccedil;a do &ldquo;fog&atilde;ozinho&rdquo;<I>.</I> Esta   retirada requer a soltura do pl&aacute;stico derretido, geralmente   grudado &agrave; parede externa do &ldquo;fog&atilde;ozinho&rdquo;   que veda o cachimbo ao prender o &ldquo;alum&iacute;nio&rdquo;   dobrado sobre suas laterais. Ap&oacute;s a retirada da parte   derretida, todo o pl&aacute;stico vedante pode ser removido, assim   como o alum&iacute;nio. Este pode ser reparado e    /    ou   raspado para retirada da &ldquo;rapa&rdquo; ali grudada, que tende a   fechar os furos do alum&iacute;nio indispens&aacute;veis &agrave;   entrada da fuma&ccedil;a oriunda da queima da &ldquo;pedra&rdquo;,   sobre ou misturada com cinza de cigarro. A retirada dessa borra   requer um cuidado maior para n&atilde;o danificar o metal,   principalmente no caso de um alum&iacute;nio que se queira   reaproveitar. Pode-se usar papel ou o mesmo pl&aacute;stico de veda&ccedil;&atilde;o para a limpeza.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="2" face="Verdana">Para   a retirada da borra do &ldquo;fog&atilde;ozinho&rdquo; e &ldquo;caninho&rdquo;   usa-se material contundente, de espessura suficientemente fina para   permitir-lhe alcan&ccedil;ar e percorrer todo o interior do   &ldquo;fog&atilde;ozinho&rdquo;, &ldquo;caninho&rdquo; e encaixe   quando houver. O &ldquo;raspador&rdquo; pode ser um peda&ccedil;o de   arame qualquer ou uma vareta de guarda-chuva, esta &uacute;ltima   muito valorizada por ser longa e possuir um formato c&ocirc;ncavo   apropriado &agrave; raspagem sem retirar material met&aacute;lico das   paredes do &ldquo;fog&atilde;ozinho&rdquo;. Este material, caso   retirado, se uniria &agrave; &ldquo;rapa&rdquo;, podendo influenciar   seu gosto, assim como provocar males &agrave; sa&uacute;de, ou seja,   esse &eacute; um procedimento espont&acirc;neo de redu&ccedil;&atilde;o de danos por parte dos usu&aacute;rios de <I>crack</I>.</font></P>     <P><font size="2" face="Verdana">Soma-se   &agrave; parafern&aacute;lia de uso um peda&ccedil;o fino de arame   qualquer, ou mesmo o alfinete de um brinco que se preste &agrave;   finalidade de produzir os furos &shy;necess&aacute;rios no &ldquo;alum&iacute;nio&rdquo;   do cachimbo, o &ldquo;furador&rdquo;. Sobre estes furos vai a cinza   de cigarro, inclusive ao fumar-se na embalagem de <I>Yakult</I> ou no   copo de &aacute;gua descart&aacute;vel. O cigarro &eacute;   fundamental para o consumo do <I>crack</I>. Isso &eacute; socialmente   traduzido na figura do &ldquo;cigarreiro&rdquo;, pessoa presente nos   locais de consumo e respons&aacute;vel por abastecer os usu&aacute;rios   com cigarros, vendidos em ma&ccedil;os ou a granel, ou mesmo trocados   por &ldquo;tragos&rdquo;. Ele &eacute; comumente chamado por este   nome e, assim, o usu&aacute;rio necessitado de seus servi&ccedil;os   pode simplesmente gritar &ldquo;cigarreiro!&rdquo; e logo este se aproximar&aacute; com o ma&ccedil;o &agrave; m&atilde;o.<A NAME="sdfootnote13anc" HREF="#sdfootnote13sym"><SUP>13</SUP></A></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><b><font size="3" face="Verdana"> O &ldquo;bloco&rdquo; e o &ldquo;trago&rdquo;</font></b></P>     <P><font size="2" face="Verdana"> Quando produzido no Brasil, o &ldquo;bloco&rdquo; ou &ldquo;pedra&rdquo;   de <I>crack</I> &eacute; geralmente feito a partir do cozimento da   pasta base da coca&iacute;na, ou &ldquo;giz&rdquo;<I>,</I> com   bicarbonato de s&oacute;dio. Isto pode ser feito, por exemplo, em uma   panela de press&atilde;o sobre a chama de um fog&atilde;o dom&eacute;stico,   ou em uma fogueira numa cal&ccedil;ada ou pra&ccedil;a p&uacute;blica.   Para aumentar a lucratividade, impurezas podem ser acrescidas, como   farinha ou <I>Maizena</I>. Portanto, existem &ldquo;pedras&rdquo; com   diferentes n&iacute;veis de pureza e os usu&aacute;rios est&atilde;o   muito atentos a isto. Reclamam da m&aacute; qualidade da &ldquo;pedra&rdquo;   de uma &ldquo;biqueira&rdquo;, deixam de adquirir em um local e o   trocam por outro, exaltam a &ldquo;pedra&rdquo; da Cracol&acirc;ndia   em detrimento do &ldquo;bloco&rdquo; do bairro e vice-versa, podem   comentar haver no bairro o melhor &ldquo;bloco&rdquo; e no centro o   pior. Assim, sua qualidade pode variar com o fornecedor, havendo   &ldquo;blocos&rdquo; considerados do tipo A, B ou C. Ou mesmo,   com nomes pr&oacute;prios como a &ldquo;Incr&iacute;vel Hulk&rdquo;,   merecedora deste apelido devido a sua cor esverdeada e alta   qualidade. H&aacute; tamb&eacute;m a &ldquo;pedra a &oacute;leo&rdquo;,   feita exclusivamente da parte superior da fervura da pasta base com o   bicarbonato e &aacute;gua, sem o acr&eacute;scimo de impurezas.   Importante frisar que &eacute; um erro considerar o <I>crack</I> uma   esp&eacute;cie de subproduto da coca&iacute;na, tanto quanto a   feijoada foi, segundo observou &shy;Bolaffi (2004), h&aacute; tempos,   considerada &ldquo;a sobra&rdquo; do alimento da Casa-Grande. A   grande quantidade consumida em ambos os casos n&atilde;o permite a   produ&ccedil;&atilde;o por &ldquo;restos&rdquo;. Fica a&iacute;, mais   provavelmente, uma quest&atilde;o de classe refor&ccedil;ada   ideologicamente a partir de certos produtos. Por esta forma de   pensar, o <I>crack</I> do pobre e a feijoada do escravo s&oacute;   poderiam ser feitos a partir das sobras do leit&atilde;o do Senhor e   da coca&iacute;na dos ricos. Mas n&atilde;o s&atilde;o!   Enfatizamos que o <I>crack</I> &eacute; produzido da mesma pasta   base da produ&ccedil;&atilde;o da coca&iacute;na, fato confirmado por   relatos de quem produziu as duas variedades e pela literatura, como presente em Araujo (2012).</font></P>     <P><font size="2" face="Verdana"> O tamanho da &ldquo;pedra&rdquo; &eacute; padronizado em uma cidade,   ou regi&atilde;o. Em S&atilde;o Paulo, ao adquirir-se uma &ldquo;pedra&rdquo;,   espera-se obter o suficiente para seis &ldquo;&shy;tragos&rdquo;;   na cidade de Santos, o dobro. O &ldquo;trago&rdquo; &eacute; a   unidade de consumo do &ldquo;bloco&rdquo;<I>.</I> Pode significar   tanto a quantidade colocada sobre o cachimbo, ou &ldquo;Boris&rdquo;,   quanto o ato de fumar. Algu&eacute;m, ao &ldquo;favorecer&rdquo;<SUP>   <A NAME="sdfootnote14anc" HREF="#sdfootnote14sym"><SUP>14</SUP></A></SUP> outro, pode referir-se ao peda&ccedil;o do &ldquo;bloco&rdquo;   ofertado como &ldquo;trago&rdquo;, &ldquo;est&aacute; a&iacute;   seu trago&rdquo;, e quem recebeu o peda&ccedil;o da &ldquo;pedra&rdquo;,   ao fumar, pode observar: &ldquo;agora, vou dar meu trago&rdquo;.   Salientamos que &ldquo;dar um bom trago&rdquo; pode ser considerado o   objetivo final do usu&aacute;rio e da roda de <I>crack</I>; para   tanto h&aacute; de contribuir uma s&eacute;rie de fatores. Mesmo esta   unidade, o &ldquo;trago&rdquo;, pode ser repartida. O ato de colocar   a boca no orif&iacute;cio do &ldquo;caninho&rdquo; do cachimbo e   aspirar a fuma&ccedil;a, enquanto com o <I>Bic </I>aceso queima-se a   &ldquo;pedra&rdquo;, pode ser dividido geralmente em dois movimentos.   No primeiro, comumente aquece-se previamente o &ldquo;trago&rdquo;   colocado sobre a cinza do &ldquo;Boris&rdquo;, antes de iniciar sua   aspira&ccedil;&atilde;o. Com isto, o &ldquo;trago&rdquo; derrete e   mistura-se &agrave; cinza, formando um todo mais coeso e est&aacute;vel   em compara&ccedil;&atilde;o com o peda&ccedil;o do &ldquo;bloco&rdquo;   solto sobre o &ldquo;alum&iacute;nio&rdquo; perfurado do cachimbo.   Isto permite a movimenta&ccedil;&atilde;o do conjunto para os lados e   facilita o contato com a chama evitando a queima dos dedos,   particularmente o polegar, caso seja necess&aacute;rio inclinar-se o   isqueiro 90&deg; para acender um cachimbo com o &ldquo;fog&atilde;ozinho&rdquo;   postado na vertical. Assim, &eacute; poss&iacute;vel compreender a   exist&ecirc;ncia de usu&aacute;rios habituais de <I>crack</I> que   possuem os dedos preservados, sem queimaduras.<A NAME="sdfootnote15anc" HREF="#sdfootnote15sym"><SUP>15</SUP></A> Certa vez, perguntei a um &ldquo;vapor&rdquo;<SUP>&nbsp;<A NAME="sdfootnote16anc" HREF="#sdfootnote16sym"><SUP>16</SUP></A></SUP> porque alguns usu&aacute;rios de <I>crack</I> deixam os dedos   queimados e outros n&atilde;o: &ldquo;Esse neg&oacute;cio de queimar   o dedo, tamb&eacute;m queima quem quer, n&eacute;?&rdquo; Resposta de   Dobem: &ldquo;N&atilde;o, quem deixa se levar. Sou da margin&aacute;lia,   sou do <I>crack</I>&rdquo;. Deixar os dedos queimarem e portar no   corpo as marcas estigmatizantes de usu&aacute;rio de <I>crack</I> pode estar vinculado ao desejo de, atrav&eacute;s da marca corporal,   demonstrar certa ades&atilde;o a um grupo estigmatizado e a um modo de viver.</font></P>     <P><font size="2" face="Verdana"> Ap&oacute;s aspirar a primeira vez, pode sobrar parte do &ldquo;trago&rdquo;   n&atilde;o consumido sobre a cinza. Este ser&aacute; fumado em nova   combust&atilde;o sob a chama do <I>Bic</I> e aspirado. Assim, o   &ldquo;trago&rdquo; estar&aacute; completo. Ao mesmo tempo, entre um   movimento e outro, parte da fuma&ccedil;a pode ser preservada ap&oacute;s   o &ldquo;trago&rdquo;, no interior do cachimbo, bloqueando-se o   &ldquo;caninho&rdquo; com o polegar. Tanto esta fuma&ccedil;a   restante no interior do cachimbo quanto o resto de &ldquo;trago&rdquo;   n&atilde;o queimado podem ser dados em &ldquo;favorecimento&rdquo; a   algu&eacute;m, ou &ldquo;segundinha&rdquo;. Entra, ent&atilde;o, no   circuito da &ldquo;treta,<A NAME="sdfootnote17anc" HREF="#sdfootnote17sym"><SUP>17</SUP></A> de que falaremos a seguir.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><b><font size="3" face="Verdana"> A roda de <I>crack</I></font></b></P>     <P><font size="2" face="Verdana"> Pessoas sentadas pr&oacute;ximas umas das outras, fumando e   interagindo entre si, sob os efeitos excitantes da fuma&ccedil;a   inalada, constitui uma pr&aacute;tica possivelmente anterior ao   surgimento das primeiras civiliza&ccedil;&otilde;es humanas e que   ainda est&aacute; presente entre usu&aacute;rios de <I>crack</I>. O   cachimbo n&atilde;o passa obrigatoriamente de m&atilde;o em m&atilde;o,   mas h&aacute; compartilhamento ocasional. Geralmente, cada usu&aacute;rio   disp&otilde;e de cachimbo pr&oacute;prio e este &eacute;   constantemente aferido, arrumado, consertado, rearranjado e mesmo   refeito. Como um &ldquo;bloco&rdquo; pode ser dividido em seis   &ldquo;tragos&rdquo; em m&eacute;dia e como o objetivo da roda &eacute;,   e isto &eacute; importante salientar, proporcionar a todos um bom   &ldquo;trago&rdquo;,<A NAME="sdfootnote18anc" HREF="#sdfootnote18sym"><SUP>18</SUP></A> dificilmente ele ser&aacute; fumado na integralidade por um &uacute;nico   usu&aacute;rio. Este ser&aacute; possivelmente convidado a   &ldquo;favorecer&rdquo; ou mesmo &ldquo;fortalecer&rdquo;   algu&eacute;m. O primeiro termo, como j&aacute; afirmado, tem um   significado mais brando em rela&ccedil;&atilde;o ao segundo e &eacute; mais trivial.<A NAME="sdfootnote19anc" HREF="#sdfootnote19sym"><SUP>19</SUP></A></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="2" face="Verdana"> A circula&ccedil;&atilde;o dos &ldquo;tragos&rdquo;, ou sexta parte   do &ldquo;bloco&rdquo;, assim como do material necess&aacute;rio para   o reparo dos cachimbos e consumo do &ldquo;trago&rdquo;, como   cigarro, &ldquo;furador&rdquo; e <I>Bic, </I>fazem parte da &ldquo;treta&rdquo;.   Nela, al&eacute;m do j&aacute; exposto, entra tudo aquilo pass&iacute;vel   de ser trocado: vestimenta, cal&ccedil;ado, telefones celulares,   rel&oacute;gios, &aacute;gua e comida (embora a venda ou mesmo a   simples troca destes dois &uacute;ltimos itens seja algo muitas vezes   mal visto) e, &eacute; claro, dinheiro. Um &ldquo;trago&rdquo; pode   ser comprado por dois reais, ou trocado por uma camisa na roda de <I>crack</I>, antigos favorecimentos podem ser lembrados e   retribu&iacute;dos. V&iacute;nculos de amizade, relacionamentos   amorosos e hierarquias s&atilde;o postos &agrave; prova e ent&atilde;o   confirmados, fortalecidos ou fragilizados e at&eacute; mesmo   destru&iacute;dos. A &ldquo;treta&rdquo; &eacute; um agenciamento   constantemente presente na rede social dos usu&aacute;rios; nela,   diversas materialidades s&atilde;o colocadas em rela&ccedil;&atilde;o e tra&ccedil;am a tessitura das intera&ccedil;&otilde;es.</font></P>     <P><font size="2" face="Verdana">   O <I>ethos</I> subjacente a estas pr&aacute;ticas tem na &ldquo;sintonia&rdquo;   seu sentimento positivo norteador e na &ldquo;radia&ccedil;&atilde;o&rdquo;,   o negativo. A &ldquo;sintonia&rdquo; &eacute; o sentimento de   confian&ccedil;a e empatia entre usu&aacute;rios partilhando a mesma   droga, o contexto favor&aacute;vel &agrave; &ldquo;brisa&rdquo;   deleitosa, uma agrad&aacute;vel sensa&ccedil;&atilde;o de paz,   seguran&ccedil;a e comunh&atilde;o. A &ldquo;radia&ccedil;&atilde;o&rdquo;   &eacute; seu inverso. &Eacute; a disc&oacute;rdia, a   desconfian&ccedil;a, o medo. &Eacute; o efeito de alguma pessoa   &ldquo;meter o louco&rdquo; ou &ldquo;arrastar&rdquo; outra ou   mesmo todo um grupo. &Eacute; a quebra da reciprocidade, o roubo, a   trai&ccedil;&atilde;o, o abuso de confian&ccedil;a e o desrespeito.   Uma &ldquo;brisa horrenda, medonha&rdquo; tamb&eacute;m tem o   poder de trazer &ldquo;radia&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Pode   &ldquo;arrastar&rdquo;, contaminar todo um grupo e mesmo gerar   &ldquo;aproxima&ccedil;&atilde;o&rdquo;, expor aquelas pessoas,   chamar a aten&ccedil;&atilde;o sobre elas. Neste sentido, a &ldquo;brisa&rdquo;   &eacute; tamb&eacute;m performance (Almeida e Eugenio 2008) e   parte constituinte do contexto de uso, como no di&aacute;logo abaixo obtido no campo:</font></P>     <blockquote>       <p>     <font size="2" face="Verdana">&ldquo;<I>Ygor</I> &mdash; Cara, vem c&aacute;, brisa &eacute;     uma coisa mal vista, n&eacute;?</font></p>       <p>     <font size="2" face="Verdana"><I>Ant&ocirc;nio</I> &mdash; A&iacute; depende. A brisa,       o efeito que ela d&aacute;. Tem brisa que voc&ecirc; fica, poxa, voc&ecirc;     acaba roubando a brisa do outro. O que &eacute; de prazer, o que &eacute;     de curtir. Porque voc&ecirc; vai ficar preocupado com algu&eacute;m       que vai ficar olhando pra voc&ecirc;. Assim, n&atilde;o fica       sossegado. Ent&atilde;o, o cara que t&aacute; curtindo numa boa,     acaba tendo a aten&ccedil;&atilde;o virada pra voc&ecirc;.</font></p>       <p>     <font size="2" face="Verdana"><I>Ygor</I> &mdash; O cara que t&aacute; curtindo numa     boa, t&aacute; brisando tamb&eacute;m.</font></p>       <p>     <font size="2" face="Verdana"><I>Ant&ocirc;nio</I> &mdash; Claro. A sua brisa &eacute;     diferente. Acaba sendo medonha, horrenda. Arrasta. &lsquo;O cara       arrasta, meu. Voc&ecirc; &eacute; louco&rsquo;. Arrasta, ou seja,       muito mal visto. Chama muita gente pra ficar olhando. Fica chamando       radia&ccedil;&atilde;o pra c&aacute;. Aproxima&ccedil;&atilde;o. &lsquo;N&atilde;o       d&aacute; pra fumar com esse cara n&atilde;o. Vamos embora&rsquo;.       Tem cara que entra dentro dos hot&eacute;is e fica de boa l&aacute;,       assistindo televis&atilde;o a noite inteira, trocando ideia. N&atilde;o       fica encanado com ningu&eacute;m. &lsquo;Eu t&ocirc; pagando essa       porra. T&ocirc; pagando, t&ocirc; usando a minha droga, n&atilde;o       roubei de ningu&eacute;m. Vou ficar aqui de boa, cara. [Risos] Que se     foda todo mundo&rsquo;<SUP>&nbsp;</SUP>&rdquo;.</font></p> </blockquote>     <P><font size="2" face="Verdana"> Vimos como se d&aacute; um &ldquo;trago&rdquo;, agora devemos   salientar seu aspecto coletivo. O proibicionismo e a ilicitude formam   o pano de fundo, o dado estrutural fundamental do consumo de <I>crack</I>.   Lidar com isso, ser capaz de usar sem medo &eacute; condi&ccedil;&atilde;o   para a &ldquo;sintonia&rdquo; e, objetivamente, para a seguran&ccedil;a   do grupo desviante. A roda de <I>crack</I> n&atilde;o se encontra   alheia ao mundo. &Eacute; parte de seus valores o respeito pelos n&atilde;o   usu&aacute;rios. &ldquo;Olha o anjo&rdquo; &eacute; uma frase   pronunciada, por exemplo, na aproxima&ccedil;&atilde;o de uma crian&ccedil;a   e imediatamente o uso cessa em sinal de respeito. O mesmo ocorre na   passagem de qualquer n&atilde;o usu&aacute;rio por perto, por exemplo   um transeunte. Os usu&aacute;rios s&atilde;o conscientes do impacto   negativo causado pela sua pr&aacute;tica e o evitam, tanto quanto ou   at&eacute; mais do que se guardam de serem vistos pela pol&iacute;cia.   N&atilde;o se encontram, portanto, fora de nossa cultura, mas fazendo   dela uma leitura alternativa. Existem, assim, situa&ccedil;&otilde;es   em que agir&atilde;o dentro do considerado majoritariamente como   &ldquo;normal&rdquo;, enquanto, em outras, podem adotar   comportamentos divergentes (Velho 2013: 50). Certamente, existem   situa&ccedil;&otilde;es em que pode ocorrer o uso individual, como   quando, no decorrer de uma &ldquo;caminhada&rdquo;, o usu&aacute;rio   se encontra longe de seu local de perman&ecirc;ncia mais constante,   ou ent&atilde;o quando ele esteja de posse de uma quantidade   demasiadamente pequena da subst&acirc;ncia. Por&eacute;m, o uso em   roda, na companhia de &ldquo;par&ccedil;as&rdquo; &eacute; o   preferencial. Tanto dentro quanto fora da roda, a &ldquo;treta&rdquo;   &eacute; generalizada. Al&eacute;m disso, insumos vindos de fora s&atilde;o   frequentemente necess&aacute;rios e bem-vindos. Um usu&aacute;rio em   uma roda pode chamar a aten&ccedil;&atilde;o dos vizinhos para suas   necessidades e possibilidades de troca. &ldquo;Quem favorece &aacute;gua? Favore&ccedil;o cigarro! &ndash; Cigarreiro!&rdquo;</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><b><font size="3" face="Verdana"> A &ldquo;brisa&rdquo;</font></b></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="2" face="Verdana"> Para um ne&oacute;fito, aprendiz do uso do <I>crack</I>, o indicador   de que est&aacute; &ldquo;brisando&rdquo; pode ser um zumbido no   ouvido. &Eacute; muito comum ouvir a m&aacute;xima &ldquo;cada um tem   sua brisa&rdquo;. Assim, esse aspecto idiossincr&aacute;tico da   percep&ccedil;&atilde;o dos efeitos (MacRae e Sim&otilde;es 2000: 15)   dever&aacute; ser considerado em seu contexto social abrangente. A   &ldquo;brisa&rdquo; certamente varia, mas esta varia&ccedil;&atilde;o,   seja ela qual for, se d&aacute; em um contexto de uso. Um usu&aacute;rio,   com forma&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica e de classe social   superior &agrave; do comum dos frequentadores de certa &ldquo;biqueira&rdquo;,   pode &ldquo;brisar&rdquo; corrigindo reiteradamente a gram&aacute;tica   dos demais participantes da roda de <I>crack</I>. Uma senhora   beirando os 70 anos, frequentadora de uma &ldquo;biqueira&rdquo; com   &ldquo;fum&oacute;dromo&rdquo;, quando &ldquo;brisava&rdquo;<I>, </I>se   levantava e permanecia soturna e est&aacute;tica, com a bolsa sob o   bra&ccedil;o, como se fora partir. Tal sinal corp&oacute;reo, tomado   como indicador de que o uso est&aacute; tendo os efeitos desejados, &eacute;   procurado pelo novo usu&aacute;rio a partir de indica&ccedil;&otilde;es   feitas pelos outros na roda de <I>crack</I>, durante o processo de   aprendizado (Becker 2008 [1963]: 55) para identificar efeitos e   atribuir a eles uma positividade. Isto &eacute; similar ao que ocorre   entre usu&aacute;rios de maconha em uma roda de fumo (MacRae e Sim&otilde;es 2000:&nbsp;16).</font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana">&ldquo;A brisa boa &eacute; quando d&aacute; um tuim&rdquo;. Ao     perguntar a Salom&atilde;o, um usu&aacute;rio, como era sua &ldquo;brisa&rdquo;,     obtive a seguinte resposta: &ldquo;Depende do lugar e da     circunst&acirc;ncia&rdquo;. A &ldquo;brisa&rdquo;<I>,</I> tida como     sensa&ccedil;&atilde;o agrad&aacute;vel, depende da &ldquo;sintonia&rdquo;   na roda de <I>crack</I>. Outro usu&aacute;rio, Zez&eacute;,     cercado por revistas pornogr&aacute;ficas em seu barraco e na     presen&ccedil;a de uma mo&ccedil;a jovem e bonita, diz: <I>&ldquo;</I>Eu     uso porque me d&aacute; prazer. Se todo mundo tivesse a brisa que eu     tenho, o <I>crack</I> n&atilde;o ia valer dez, ia valer trinta [&hellip;]     Porque minha vida &eacute; boa, entusiasmado pra trabalhar, planejo e     executo. E tenho um grande aumento da libido [&hellip;] A minha brisa   &eacute; a libido&rdquo;. O mesmo usu&aacute;rio, alijado do contexto     de seu barraco, sentir&aacute; outro efeito, n&atilde;o ser&aacute;   mais o prazeroso descrito acima, mas o <I>crack</I> passar&aacute; a     servir como combust&iacute;vel para o corpo fatigado. Como sempre     salientado por Zinberg (1984), mudado o contexto, altera-se o prop&oacute;sito, varia o efeito.</font></P>     <blockquote>       <p>     <font size="2" face="Verdana">&ldquo;<I>Zez&eacute;</I> &mdash; Eu sou uma pessoa       ainda presa a situa&ccedil;&otilde;es sociais que me deixam com       vergonha, inseguro de fumar numa cal&ccedil;ada. N&atilde;o tenho       brisa. Se estiver fumando em uma cal&ccedil;ada &eacute; pra ficar       acordado, pra seguir em uma caminhada. N&atilde;o pra poder ter       prazer. Prazer pra mim &eacute; estar fumando dentro de um barraco.       Lendo uma revista, trocando uma ideia, alisando uma gostosa. Mas, na       rua, eu t&ocirc; ali, no meu limite. Lembra da agulha vermelha do       combust&iacute;vel j&aacute; acabando? Eu estou na cal&ccedil;ada,       buscando uma treta pra me manter acordado at&eacute; o pr&oacute;ximo     lance, um trabalho, o pr&oacute;ximo [&hellip;]&rdquo;.</font></p> </blockquote>     <P><font size="2" face="Verdana"> O uso no &ldquo;corre&rdquo;, como observa o usu&aacute;rio Zez&eacute;   acima, n&atilde;o &eacute; hedonista, mas voltado &agrave;   produtividade do trabalho, &eacute; combust&iacute;vel a ser   queimado. Por&eacute;m, este mesmo &ldquo;corre&rdquo; pode ser   considerado como o conjunto de pr&aacute;ticas baseadas na &ldquo;treta&rdquo;   para obten&ccedil;&atilde;o dos fundos necess&aacute;rios &agrave;   obten&ccedil;&atilde;o da droga. Num cotidiano absorvente, &eacute;   capaz de proporcionar a aventura de um dia inteiro para quem, de   outra forma, poderia estar entediado ou frustrado (Leary 1999 [1983]:   432). O chamado &ldquo;binge&rdquo; de <I>crack</I>, ou seu   uso at&eacute; esgotarem-se todas as for&ccedil;as e posterior estado   de prostra&ccedil;&atilde;o do usu&aacute;rio, pode ser compreendido   na situa&ccedil;&atilde;o de rua como associado a um estilo de vida.   Como n&atilde;o h&aacute; espa&ccedil;o f&iacute;sico para se dormir   confortavelmente, o sono s&oacute; viria como resultado e   possibilitado pelo completo esgotamento de for&ccedil;as. Ao   encontrarmos Zez&eacute; neste dia, ele havia acabado de acordar em   seu barraco e estava bem-disposto; por&eacute;m, juntou-se a n&oacute;s   um usu&aacute;rio que declarou estar acordado tinha cinco dias &ndash;   ele n&atilde;o possu&iacute;a barraco e possivelmente s&oacute; viria dormir no completo esgotamento de suas for&ccedil;as.</font></P>     <P><font size="2" face="Verdana">   O uso do <I>crack</I> pode estar ligado a &ldquo;brisas&rdquo; as   mais distintas poss&iacute;veis, como a de V&oacute;, descrita   anteriormente e que consistia em levantar-se e agarrar a bolsa,   permanecer silenciosa, est&aacute;tica e aparentemente pensativa. O   &ldquo;corre&rdquo; como &eacute; vivenciado pelos usu&aacute;rios   pode corresponder &agrave;quilo que T.&nbsp;Leary descrevia como uma   aventura capaz de preencher um dia inteiro, por&eacute;m &eacute;   interessante observar como a &ldquo;brisa&rdquo; pode preencher o   cotidiano e transformar-se em estilo de vida, como no caso de Esmeralda, o de menina ladra de rua.</font></P>     <blockquote>       <p>     <font size="2" face="Verdana">&ldquo;Eu n&atilde;o gostava de traficar, porque a minha       noia era roubar, onde eu estivesse. Podia ter at&eacute; mil reais na       m&atilde;o, ter droga dentro da calcinha, que eu dava um pega e tinha       que roubar. N&atilde;o sei por qu&ecirc;, eu tinha que roubar. Cada       um tem um tipo de obsess&atilde;o, a minha era roubar. [&hellip;] Uma       coisa muito boa tamb&eacute;m &eacute; ser honesta. Isso &eacute;     legal, porque de vez em quando vem a vontade de roubar. &Agrave;s       vezes do nada vem a vontade. &Agrave;s vezes eu seguro minha m&atilde;o       e ando assim no meio da rua. &Eacute; mais no centro da cidade que me       d&aacute; vontade. Ent&atilde;o eu ando segurando minha m&atilde;o,       porque &eacute; compulsivo, roubar vira uma doen&ccedil;a&rdquo;     (Ortiz 2001: 104, 207).</font></p> </blockquote>     <P><font size="2" face="Verdana"> Essa era uma &ldquo;brisa&rdquo; de roubar em uma vida na rua como   ladra. O efeito do uso do <I>crack</I> em determinado meio permite a   exterioriza&ccedil;&atilde;o da interioridade da &ldquo;brisa&rdquo;   como disposi&ccedil;&atilde;o dur&aacute;vel, se tornando um   princ&iacute;pio gerador de pr&aacute;ticas regulares associadas a   este meio &ndash; no caso de Esmeralda, o ato de roubar no centro da   cidade de S&atilde;o Paulo. Assim, o uso do <I>crack</I> por uma   menina em situa&ccedil;&atilde;o de rua como Esmeralda pode predispor   a um estado habitual de seu corpo, ao ponto de ela ter de segurar a   m&atilde;o, ser uma tend&ecirc;ncia, inclina&ccedil;&atilde;o ou   propens&atilde;o, enfim, como exposto por Bourdieu (2003), parte de   um <I>habitus</I> como sistema de disposi&ccedil;&otilde;es. Entender   a &ldquo;brisa&rdquo; como uma disposi&ccedil;&atilde;o que em   determinada exterioridade pode compor um <I>habitus</I> nos abre a   possibilidade de novo olhar sobre a express&atilde;o &ldquo;sou da   margin&aacute;lia, sou do <I>crack</I>&rdquo; e a corporalidade do   craqueiro, com seu andar peculiar, meio arrastando as pernas um pouco   bambas, sua voz por vezes extremamente rouca, seus dedos queimados, a   boca rachada e por vezes com um pouco de baba branca a se acumular   nas laterais dos l&aacute;bios. Acompanham estas caracter&iacute;sticas   f&iacute;sicas suas roupas geralmente sobrepostas em arranjos   criativos de camisetas por cima de camisas e bermudas a cobrir   cal&ccedil;as. Assim, ser do <I>crack</I> &eacute; possuir certas   percep&ccedil;&otilde;es sobre os acontecimentos na rua, como a   &ldquo;radia&ccedil;&atilde;o&rdquo;, ser capaz de certas   aprecia&ccedil;&otilde;es, julgamentos e a&ccedil;&otilde;es. Ser do <I>crack</I> &eacute; ter discernimento quanto aos riscos e   possibilidades da vida em torno de uma &ldquo;biqueira&rdquo;, enfim,   dispor de uma &ldquo;<I>matriz de percep&ccedil;&otilde;es, de     aprecia&ccedil;&otilde;es e de a&ccedil;&otilde;es</I>&rdquo;   (Bourdieu 2003: 57, it&aacute;lico no original) que torne   poss&iacute;vel a realiza&ccedil;&atilde;o, entre outras a&ccedil;&otilde;es, da &ldquo;treta&rdquo; e do &ldquo;corre&rdquo;.</font></P>     <P><font size="2" face="Verdana"> Outro usu&aacute;rio nos afirmou que fumar na rua, exposto &agrave;   presen&ccedil;a da pol&iacute;cia e de n&atilde;o usu&aacute;rios,   lhe &ldquo;rouba a brisa&rdquo;. William Burroughs (2013 [1953]: 73)   fala em &ldquo;tiranoia&rdquo;, a paranoia capaz de assemelhar todos   a tiras. Portanto, para dar-se um &ldquo;trago&rdquo; e obter a   &ldquo;brisa&rdquo; desejada n&atilde;o &eacute; suficiente o   importante servi&ccedil;o prestado pelo &ldquo;vapor&rdquo; aos   usu&aacute;rios, ao proporcionar o &ldquo;bloco&rdquo; em local com   condi&ccedil;&otilde;es prop&iacute;cias &agrave; &ldquo;brisa&rdquo;.   &Eacute; poss&iacute;vel que este &ldquo;trago&rdquo; seja   considerado um desprazer, ou seja, &ldquo;dar um trago&rdquo; sem   obter os efeitos desejados. Um local pouco apropriado pode tornar a   &ldquo;brisa&rdquo; dif&iacute;cil ou mesmo imposs&iacute;vel. At&eacute;   uma companhia desagrad&aacute;vel coloca em risco o &ldquo;trago&rdquo;.   Um &ldquo;Boris&rdquo; mal calibrado, com furos a mais ou a   menos no &ldquo;alum&iacute;nio&rdquo;, pode tornar a tragada   invi&aacute;vel a quem esteja sem f&ocirc;lego devido a um longo   per&iacute;odo de uso ininterrupto, por exemplo. Um pl&aacute;stico   mal colocado pode queimar e, assim, contaminar a fuma&ccedil;a   inalada e estragar o seu sabor. Um &ldquo;caninho&rdquo; entupido   pela &ldquo;rapa&rdquo;, com comprimento ou largura inadaptada ao   conjunto &ldquo;fog&atilde;ozinho&rdquo;    /    &ldquo;alum&iacute;nio&rdquo;,   ou uma entrada de ar por fora dos furos do &ldquo;alum&iacute;nio&rdquo;<I>,     </I>assim como tantas outras combina&ccedil;&otilde;es destes fatores   fazem do cachimbo de se fumar <I>crack</I> algo de grande   plasticidade e de dif&iacute;cil calibragem. Seus usos e os efeitos   provocados s&atilde;o relativos aos diversos estados corporais do   usu&aacute;rio, assim como ao seu estado de alimenta&ccedil;&atilde;o   e descanso no momento da tragada. &Eacute; corpo, contexto social e   prop&oacute;sito de uso entrando em rela&ccedil;&atilde;o com uma   droga e os meios de administr&aacute;-la e, todos em conjunto, ajudando a plasmar os efeitos percebidos (Fernandez 2007:&nbsp;144).</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P>     <P><b><font size="3" face="Verdana"> Um contexto para rodas de <I>crack</I>: o &ldquo;fum&oacute;dromo&rdquo;</font></b></P>     <P><font size="2" face="Verdana">   O uso do <I>crack</I> depende do &ldquo;fluxo&rdquo;.<A NAME="sdfootnote20anc" HREF="#sdfootnote20sym"><SUP>20</SUP></A> Ele garante a disponibilidade da droga e mant&ecirc;-lo &eacute;   obriga&ccedil;&atilde;o do &ldquo;vapor&rdquo; para com os usu&aacute;rios   e a &ldquo;biqueira&rdquo;. Estar no &ldquo;fluxo&rdquo; &eacute;   estar &ldquo;na responsa&rdquo;<I>, </I>no dever de alimentar a   &ldquo;biqueira&rdquo; com os &ldquo;blocos&rdquo;<I>. </I>N&atilde;o   &eacute; &agrave; toa que o &ldquo;vapor&rdquo; est&aacute; tamb&eacute;m   no &ldquo;corre&rdquo;. &Agrave;s vezes ele est&aacute; literalmente   correndo, como pudemos observar entre a &ldquo;biqueira&rdquo; da   &ldquo;Estudantes&rdquo; e o &ldquo;fum&oacute;dromo&rdquo; a c&eacute;u   aberto da Rua S&atilde;o Paulo. Existem &ldquo;biqueiras&rdquo;   <I>stricto sensu</I>, locais de mercado e n&atilde;o de consumo   (Fernandes e Pinto 2004: 149) como a &ldquo;Estudantes&rdquo;. Penso   na etimologia do termo &ldquo;biqueira&rdquo; como relacionado &agrave;s   filas formadas em frente &agrave;s fontes de &aacute;gua em favelas, a bica d&rsquo;&aacute;gua.<A NAME="sdfootnote21anc" HREF="#sdfootnote21sym"><SUP>21</SUP></A></font></P>     <P><font size="2" face="Verdana"> Ser &ldquo;vapor&rdquo; n&atilde;o &eacute; desempenhar o mesmo papel   em qualquer lugar ou situa&ccedil;&atilde;o, independente do   contexto. Ele pode ser mais ou menos ligado &agrave; &ldquo;biqueira&rdquo;   ou estar mais ou menos por conta pr&oacute;pria, a c&eacute;u aberto   ou em lugar fechado. Pode acumular fun&ccedil;&otilde;es de gest&atilde;o   do local de com&eacute;rcio e uso, al&eacute;m de se responsabilizar   pelo transporte dos &ldquo;blocos&rdquo;, agora agrupados no   &ldquo;pacote&rdquo;. Como uma esp&eacute;cie de concession&aacute;rio,   pode explorar e administrar um espa&ccedil;o de com&eacute;rcio   ligado a determinada &ldquo;biqueira&rdquo;. Tem a obriga&ccedil;&atilde;o   de manter o &ldquo;fluxo&rdquo; e o monop&oacute;lio do lucro na   venda do &ldquo;pacote&rdquo;. Este lucro pode se dar na propor&ccedil;&atilde;o   de 14 para 10, medida observada em mais de um caso e confirmada por   diferentes interlocutores. Cada &ldquo;pacote&rdquo; transportado ou   recebido possui comumente a quantidade n&atilde;o acidental de 14   &ldquo;blocos&rdquo;. Isso &eacute; fruto do c&aacute;lculo entre o   risco da posse material do &ldquo;flagrante&rdquo; e sua otimiza&ccedil;&atilde;o   log&iacute;stica. Carregar mais &ldquo;blocos&rdquo; significaria   correr maior risco de ser preso como traficante; por outro lado, ir e   retornar da &ldquo;biqueira&rdquo; com uma quantidade menor   obrigaria a um maior n&uacute;mero de viagens. Um &ldquo;pacote&rdquo;   comercializado por unidades de &ldquo;blocos&rdquo;, a 10 reais cada,   possibilitaria o lucro de quarenta por cento, dado o valor a ser   retornado &agrave; &ldquo;biqueira&rdquo;<I>.</I> Isto pelo fato de o   &ldquo;pacote&rdquo; custar 100 reais e a soma obtida pela venda de   14 &ldquo;pedras&rdquo; ser de 140 reais. O &ldquo;vapor&rdquo; teria   por lucro esta diferen&ccedil;a entre os 140 reais da venda e os 100   reais a retornar para a &ldquo;biqueira&rdquo;. Por&eacute;m, a   rotina e as motiva&ccedil;&otilde;es de um &ldquo;vapor&rdquo; n&atilde;o se restringem a um c&aacute;lculo t&atilde;o simpl&oacute;rio.</font></P>     <P><font size="2" face="Verdana"> Os &ldquo;blocos&rdquo; em um &ldquo;pacote&rdquo; costumam   sair da &ldquo;biqueira&rdquo; embalados um a um; por&eacute;m,   sempre h&aacute; a possibilidade de o &ldquo;vapor&rdquo; ser   respons&aacute;vel por estabelecer, ele pr&oacute;prio, as unidades   para com&eacute;rcio. Seu produto s&atilde;o os &ldquo;blocos&rdquo;   fornecidos por terceiros, sua pra&ccedil;a a &ldquo;biqueira&rdquo; e   o pre&ccedil;o, em S&atilde;o Paulo, atualmente &eacute; fixado em 10   reais por &ldquo;bloco&rdquo;<I>.</I> Resta ent&atilde;o ao &ldquo;vapor&rdquo;   explorar suas possibilidades de promo&ccedil;&atilde;o.<A NAME="sdfootnote22anc" HREF="#sdfootnote22sym"><SUP>22</SUP></A> Tendo essa liberdade, ele a explora todo o tempo. Nesse caso,   trata-se de algu&eacute;m que det&eacute;m certa liberdade de a&ccedil;&atilde;o   e n&atilde;o de outro tipo de &ldquo;vapor&rdquo; que fica   simplesmente postado em uma &ldquo;biqueira&rdquo;, realizando o   trabalho repetitivo de perguntar a quantidade, receber o dinheiro e   entregar o &ldquo;bloco&rdquo;. Um espa&ccedil;o de com&eacute;rcio e   uso, muitas vezes, &eacute; abastecido por um(a)   &ldquo;vapor&rdquo;    /    usu&aacute;rio(a). Do seu quinh&atilde;o   de lucro, de quatro &ldquo;pedras&rdquo; por &ldquo;pacote&rdquo;,   ele ou ela pode fumar uma, usar outra como moeda de troca pelos mais   diversos bens e servi&ccedil;os, al&eacute;m de vender as outras na   forma de promo&ccedil;&atilde;o, por exemplo, seis &ldquo;pedras&rdquo; por 50 reais.<A NAME="sdfootnote23anc" HREF="#sdfootnote23sym"><SUP>23</SUP></A></font></P>     <P><font size="2" face="Verdana"> O &ldquo;vapor&rdquo; desenvolver&aacute; habilidades de venda de   acordo com as conting&ecirc;ncias de sua atividade. Anunciar&aacute;   sua chegada ao &ldquo;fum&oacute;dromo&rdquo; em alto e bom som &ndash;   &ldquo;&oacute;&nbsp;o bloc&atilde;o&rdquo; &ndash; assim como   alertar&aacute; sobre &ldquo;as &uacute;ltimas do pacote&rdquo;, na   esperan&ccedil;a de algu&eacute;m adquirir logo suas derradeiras   &ldquo;pedras&rdquo; ante a imin&ecirc;ncia de ter de aguardar novo   carregamento. Atualmente, as &ldquo;pedras&rdquo; de melhor reputa&ccedil;&atilde;o   s&atilde;o a &ldquo;Incr&iacute;vel Hulk&rdquo; e &ldquo;a&nbsp;&oacute;leo&rdquo;.   A tonalidade esverdeada da primeira a protege contra falsifica&ccedil;&otilde;es,   mas o mesmo n&atilde;o ocorre com a &uacute;ltima &ndash; assim,   qualquer &ldquo;vapor&rdquo; da regi&atilde;o central da cidade   poder&aacute; declarar estar comercializando &ldquo;pedras a &oacute;leo&rdquo;.   Este fato &eacute; semelhante ao ocorrido nos anos de 1987 e 1988 na   regi&atilde;o sudeste do pa&iacute;s. Aquino (2012) observa que com o   despejo de 22 toneladas de maconha de excelente qualidade nas &aacute;guas   marinhas pelo barco de bandeira panamenha <I>Solana Star</I>, a droga   acondicionada em latas fez imenso sucesso e, por alguns meses, todos   aqueles dispostos a vender maconha declaravam estar comercializando   can&aacute;bis &ldquo;da lata&rdquo;. O &ldquo;vapor&rdquo; precisa   ter habilidades de negocia&ccedil;&atilde;o e ser o mais   condescendente poss&iacute;vel com seus clientes. Estes avaliam o   papelote oferecido para compra e o apertam para senti-lo. Mesmo ap&oacute;s   aberto, o usu&aacute;rio pode decidir pela troca, caso n&atilde;o   considere o tamanho da &ldquo;pedra&rdquo; condizente com suas   expectativas. Quanto mais bem informado sobre a capacidade de compra   dos frequentadores da &ldquo;biqueira&rdquo;, melhor poder&aacute; o   &ldquo;vapor&rdquo; promover a forma&ccedil;&atilde;o de cons&oacute;rcios   entre os usu&aacute;rios e, assim, unir o possuidor de seis reais,   por exemplo, com outro de quatro, possibilitando a ambos adquirir um   &ldquo;bloco&rdquo; de dez reais. Por&eacute;m, quanto mais o &ldquo;vapor&rdquo;   puder fugir da responsabilidade da partilha do &ldquo;bloco&rdquo;, deixando-a para os usu&aacute;rios, melhor ele se sente.</font></P>     <P><font size="2" face="Verdana"> O usu&aacute;rio de <I>crack</I> comumente reclama: assim, ele pode   &ldquo;radiar&rdquo;,<A NAME="sdfootnote24anc" HREF="#sdfootnote24sym"><SUP>24</SUP></A> falando, por exemplo, que &ldquo;essa aqui t&aacute; ruim&rdquo;.   Isto ele faz na expectativa de, em futuras compras, ter a quantidade   aumentada; al&eacute;m disso, uma &ldquo;pedra&rdquo; de tamanho mais   avolumado pode gerar expectativas e frustra&ccedil;&otilde;es quanto   &agrave;s demais. N&atilde;o faltam artif&iacute;cios ao &ldquo;vapor&rdquo;.<A NAME="sdfootnote25anc" HREF="#sdfootnote25sym"><SUP>25</SUP></A> Ele pode oferecer m&uacute;ltiplas varia&ccedil;&otilde;es de pre&ccedil;o   e quantidade ao interessado, ou ent&atilde;o deixar os &uacute;ltimos   &ldquo;blocos&rdquo; em consigna&ccedil;&atilde;o, enquanto busca o   pr&oacute;ximo &ldquo;pacote&rdquo;. Isto possibilita a   manuten&ccedil;&atilde;o do &ldquo;fluxo&rdquo; mesmo em sua   aus&ecirc;ncia, pois est&aacute; certo de que, caso apare&ccedil;a   algum comprador potencial, a informa&ccedil;&atilde;o sobre a   presen&ccedil;a de algumas &ldquo;pedras&rdquo; nas m&atilde;os de   determinado usu&aacute;rio e dispon&iacute;veis para venda ser&aacute;   imediatamente comunicada por algum &ldquo;parasita&rdquo;, de quem trataremos mais &agrave; frente, ou pelo &ldquo;conten&ccedil;&atilde;o&rdquo;.</font></P>     <P><font size="2" face="Verdana"> A &ldquo;conten&ccedil;&atilde;o&rdquo; &eacute; uma atividade   recorrente em &ldquo;biqueiras&rdquo; e &ldquo;fum&oacute;dromos&rdquo;.   Consiste em receber os usu&aacute;rios, manter o m&iacute;nimo de   disciplina e alguma seguran&ccedil;a com rela&ccedil;&atilde;o a   investidas da parte de policiais, assim como de outros poss&iacute;veis   invasores. Varia conforme o contexto. Em uma &ldquo;biqueira&rdquo;   localizada em comunidade favelada, por exemplo, o &ldquo;conten&ccedil;&atilde;o&rdquo;   pode ostentar uma arma e ser respons&aacute;vel por verificar as   condi&ccedil;&otilde;es dos clientes, obrigando-os a levantar a   camisa e a barra das cal&ccedil;as, para se certificar que est&atilde;o   desarmados. Assim, no espa&ccedil;o da &ldquo;biqueira&rdquo;, seria   ele o detentor do monop&oacute;lio do uso leg&iacute;timo da   viol&ecirc;ncia. Ele tenta impor o m&iacute;nimo de disciplina na   fila de usu&aacute;rios enquanto esperam o atendimento. Neste   interim, costumam reclamar do andamento do servi&ccedil;o, do fura   fila, da qualidade da &ldquo;pedra&rdquo;, ou comentam acontecimentos   do dia relacionados &agrave; presen&ccedil;a de pol&iacute;cia neste   ou naquele local e discutem o estado de outras &ldquo;biqueiras&rdquo;.   Curiosamente, seu comportamento n&atilde;o &eacute; muito   diferenciado do esperado para uma fila de banco ou mesmo para pegar   &aacute;gua na bica. O &ldquo;conten&ccedil;&atilde;o&rdquo; deve   tamb&eacute;m garantir o atendimento preferencial e imediato &agrave;s   mulheres que s&atilde;o colocadas em fila separada da masculina.<A NAME="sdfootnote26anc" HREF="#sdfootnote26sym"><SUP>26</SUP></A> Cabe tamb&eacute;m a ele fazer certo esfor&ccedil;o, embora   geralmente sem muito sucesso, para impor o m&iacute;nimo de seriedade correspondente a uma pr&aacute;tica il&iacute;cita.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/etn/v20n3/20n3a03f3.jpg" width="567" height="436"></P>     
]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P>     <P><font size="2" face="Verdana">Em   &ldquo;biqueiras&rdquo; menos estruturadas, o papel de &ldquo;conten&ccedil;&atilde;o&rdquo;   pode ser exercido por um &ldquo;parasita&rdquo; ali presente. Ao   redor do &ldquo;vapor&rdquo; podem agrupar-se certo n&uacute;mero de   usu&aacute;rios dispostos a prestar servi&ccedil;os em troca de um   &ldquo;trago&rdquo;. Quando a gest&atilde;o do &ldquo;fum&oacute;dromo&rdquo;   &eacute; deixada, totalmente ou em parte, sob a responsabilidade do   &ldquo;vapor&rdquo;, este poder&aacute; valer-se dos &ldquo;blocos&rdquo;   a mais auferidos em cada &ldquo;pacote&rdquo; para pagar pelos   servi&ccedil;os necess&aacute;rios ao funcionamento do local. Fazer a   &ldquo;conten&ccedil;&atilde;o&rdquo; &eacute; um deles, assim como   varrer o ch&atilde;o, retirar &shy;entulho, buscar &aacute;gua,   trocar moedas por notas, arrumar o barraco do &ldquo;vapor&rdquo;,   entre outras atividades. Ao abandonar momentaneamente a &ldquo;biqueira&rdquo;,   o &ldquo;vapor&rdquo; pode deixar alguns &ldquo;blocos&rdquo; sob a   responsabilidade do &ldquo;conten&ccedil;&atilde;o&rdquo;, at&eacute; seu retorno.<A NAME="sdfootnote27anc" HREF="#sdfootnote27sym"><SUP>27</SUP></A></font></P>     <P><font size="2" face="Verdana">A   contabilidade do &ldquo;fluxo&rdquo; leva em conta certas   informa&ccedil;&otilde;es: quantas &ldquo;pedras&rdquo; foram   deixadas com quem, em qual ocasi&atilde;o, sob quais condi&ccedil;&otilde;es   de pre&ccedil;o e prazo para venda, e tantos outros favores e   servi&ccedil;os prestados. Ela &eacute; feita periodicamente no   &ldquo;resumo&rdquo;. Este encerra uma &ldquo;situa&ccedil;&atilde;o&rdquo;   e &eacute; peri&oacute;dico. O &ldquo;resumo&rdquo; pode ser uma   experi&ecirc;ncia desgastante e de certa tens&atilde;o, dependendo da   exist&ecirc;ncia ou n&atilde;o de disparidades de avalia&ccedil;&atilde;o   entre o &ldquo;conten&ccedil;&atilde;o&rdquo;, o &ldquo;vapor&rdquo;,   alguma outra pessoa de refer&ecirc;ncia no &ldquo;fum&oacute;dromo&rdquo;   e respons&aacute;vel pelo &ldquo;fluxo&rdquo; no momento, al&eacute;m   de demais usu&aacute;rios ou &ldquo;parasitas&rdquo; que por qualquer   motivo tenham retirado &ldquo;blocos&rdquo; para venda em uma esp&eacute;cie   de &shy;consigna&ccedil;&atilde;o ou &ldquo;na confian&ccedil;a&rdquo;.   Um representante dos interesses da &ldquo;biqueira&rdquo;, presente   no &ldquo;fum&oacute;dromo&rdquo; com a finalidade de fazer o   &ldquo;resumo&rdquo;, ir&aacute; acertar com o(s) &ldquo;vapor(es)&rdquo;,   ou mesmo com um terceiro traficante de refer&ecirc;ncia, esp&eacute;cie   de coordenador dos &ldquo;vapores&rdquo;, os valores alusivos a   &ldquo;pacotes&rdquo; retirados e ainda n&atilde;o pagos. Os   &ldquo;vapores&rdquo; acertam contas entre si, manejando in&uacute;meras   possibilidades de trocas, empr&eacute;stimos e consigna&ccedil;&otilde;es   de &ldquo;blocos&rdquo; deixados &ldquo;na confian&ccedil;a&rdquo; de   algu&eacute;m para finalmente o &ldquo;resumo&rdquo; poder ser   feito com a &ldquo;biqueira&rdquo;. A diferen&ccedil;a de postura e   vestimenta entre os &ldquo;vapores&rdquo; e os traficantes de   refer&ecirc;ncia &eacute; not&oacute;ria. Enquanto os primeiros   parecem desejar deixar claro o quanto &ldquo;s&atilde;o do <I>crack</I>&rdquo;, os &uacute;ltimos fazem o inverso.</font></P>     <P><font size="2" face="Verdana">Como   mencionado acima, preservar os n&atilde;o usu&aacute;rios do impacto   provocado pela vis&atilde;o do consumo de <I>crack</I> &eacute; um   valor. Para tanto, recorre-se &agrave;s tecnologias dispon&iacute;veis   na rua para o abrigo e intimidade. O &ldquo;barraco&rdquo; &eacute; a   principal tecnologia dispon&iacute;vel na rua para o abrigo e   prote&ccedil;&atilde;o; sua constitui&ccedil;&atilde;o &eacute; t&atilde;o   variada quanto s&atilde;o os materiais dispon&iacute;veis,   habilidade, prop&oacute;sitos e gostos pessoais. Pode ser constru&iacute;do   a partir de materiais diversos como lona, papel&atilde;o ou   cobertores e ser apoiado em uma parede ou carro&ccedil;a. O barraco   pode ter ou n&atilde;o um colch&atilde;o, ser feito para se sentar ou   deitar, ou mesmo para os dois prop&oacute;sitos. Surge, ent&atilde;o,   um ambiente &iacute;ntimo, adequado para o uso seguro da droga, livre   da vergonha de se estar agredindo os valores dos passantes, assim   como da &ldquo;radia&ccedil;&atilde;o&rdquo; vinda de fora.<A NAME="sdfootnote28anc" HREF="#sdfootnote28sym"><SUP>28</SUP></A> O ambiente externo ao &ldquo;barraco&rdquo; est&aacute; na verdade   amplamente interligado a ele porque a &ldquo;biqueira&rdquo; com   &ldquo;fum&oacute;dromo&rdquo; a c&eacute;u aberto, por exemplo, &eacute;   um lugar extremamente agitado, onde a troca rec&iacute;proca de todo   o tipo de bens e servi&ccedil;os &eacute; constante. O &ldquo;barraco&rdquo;   &eacute; suficientemente perme&aacute;vel a ponto de possibilitar a   requisi&ccedil;&atilde;o de bens e servi&ccedil;os dispon&iacute;veis   no lado externo e, ao mesmo tempo, acompanhar alguma agita&ccedil;&atilde;o   maior na rua. Para a arquiteta Maria Cecilia Loschiavo (2005), o &ldquo;barraco&rdquo; est&aacute; relacionado a:</font></P>     <blockquote>       <p>     <font size="2" face="Verdana">&ldquo;[&hellip;] culturas do desemprego, que levaram ao       nomadismo, &agrave; bricolagem como formas de resistir &agrave;     exclus&atilde;o e cria&ccedil;&atilde;o de estrat&eacute;gias para       sobreviver. Outro aspecto a ressaltar refere-se ao estabelecimento de       uma justaposi&ccedil;&atilde;o da cidade formal com a cidade de       pl&aacute;stico e de papel&atilde;o, que frequentemente incorpora       elementos do ambiente constru&iacute;do, como marquises, espa&ccedil;os     residuais, baixios de viaduto, etc.&rdquo; (Loschiavo 2005:&nbsp;14).</font></p> </blockquote>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3" face="Verdana"><b>Conclus&atilde;o</b></font></P>     <P><font size="2" face="Verdana">   O uso do <I>crack</I> pode ser considerado como um constante refazer.   O usu&aacute;rio de <I>crack</I> refaz seu cachimbo conforme as   necessidades do corpo. Busca materiais, os troca na &ldquo;treta&rdquo;   e os transforma em coisa, num renovado e v&iacute;vido &ldquo;dar   forma&rdquo;. O cachimbo industrializado seria a morte da atividade   fren&eacute;tica do artes&atilde;o, agora engessada na forma acabada.   O craqueiro n&atilde;o precisa de um plano de cachimbo   preestabelecido na mente. Ele tenta, adapta, improvisa, molda,   acomoda, comp&otilde;e, inventa, p&otilde;e em movimento, aviva e   traz &agrave; tona os materiais (recicl&aacute;veis) &ndash;   presentes como for&ccedil;as no ambiente &ndash; no processo cont&iacute;nuo   de gera&ccedil;&atilde;o do cachimbo como coisa sempre nova e   diferenciada, pois adaptada ao corpo do usu&aacute;rio de <I>crack</I>,   naquele momento particular. Os materiais presentes no &ldquo;fluxo&rdquo;   s&atilde;o introduzidos em um fluxo de transforma&ccedil;&otilde;es.   Neste sentido, o usu&aacute;rio est&aacute; cercado de coisas a que   ele mesmo ou seus pares deram vida em um campo de rela&ccedil;&otilde;es   que os engloba: o cachimbo, o &ldquo;barraco&rdquo; com seu mobili&aacute;rio e o carrinho para carregar material reciclado.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3"><b><font face="Verdana">BIBLIOGRAFIA</font></b></font></P>     <P><font size="2" face="Verdana"> ALMEIDA, Maria Isabel Mendes de, e Fernanda EUGENIO, 2008, &ldquo;Paisagens   existenciais e alquimias pragm&aacute;ticas: uma reflex&atilde;o   comparativa do recurso &agrave;s &lsquo;drogas&rsquo; no contexto da   contracultura e nas cenas eletr&ocirc;nicas contempor&acirc;neas&rdquo;,   em B.    C. Labate <I>et</I>&nbsp;<I>al</I>. (orgs.), <I>Drogas e     Cultura:</I> <I>Novas Perspectivas.</I> Salvador, Editora da Universidade Federal da Bahia, 383-408.</font></P>     <!-- ref --><P><font size="2" face="Verdana">   ALVES, Ygor Diego Delgado, 1998, <I>Um V&iacute;cio Deselegante: O     Preconceito Racial e a Transforma&ccedil;&atilde;o da Maconha em     Problema P&uacute;blico no Brasil</I>. S&atilde;o Paulo, Pontif&iacute;cia   Universidade Cat&oacute;lica de S&atilde;o Paulo, disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=195064&pid=S0873-6561201600030000300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><P><font size="2" face="Verdana">   AQUINO, Wilson, 2012, <I>Ver&atilde;o da Lata:</I> <I>Um Ver&atilde;o que Ningu&eacute;m Esqueceu.</I> Rio de Janeiro, Texto Editores.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=195066&pid=S0873-6561201600030000300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><P><font size="2" face="Verdana">   ARAUJO, Tarso, 2012, <I>Almanaque das Drogas</I>. S&atilde;o Paulo, Leya.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=195068&pid=S0873-6561201600030000300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><P><font size="2" face="Verdana">   BECKER, Howard S., 2008 [1963], <I>Outsiders:</I> <I>Estudos de Sociologia do Desvio.</I> Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=195070&pid=S0873-6561201600030000300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><P><font size="2" face="Verdana"> BOLAFFI, Gabriel, 2004, <I>A Saga da Comida: Receitas e Hist&oacute;ria.</I> S&atilde;o Paulo, Record.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=195072&pid=S0873-6561201600030000300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <P><font size="2" face="Verdana"> BOURDIEU, Pierre, 2003, &ldquo;Esbo&ccedil;o de uma teoria da   pr&aacute;tica&rdquo;, em R. Ortiz (org.), <I>A Sociologia de Pierre Bourdieu</I>. S&atilde;o Paulo, Olho d&rsquo;&Aacute;gua, 39-72.</font></P>     <!-- ref --><P><font size="2" face="Verdana">   BURROUGHS, William S., 2013 [1953], <I>Junky.</I> S&atilde;o Paulo, Companhia da Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=195075&pid=S0873-6561201600030000300008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <P><font size="2" face="Verdana">CASTRO,   C.    A., s.    d., &ldquo;Cachimbo&rdquo;, Confraria dos Amigos do Cachimbo, dispon&iacute;vel em <A HREF="http://www.amigosdocachimbo.com.br/artigos/art_cachimbo_fumar.htm" target="_blank">http://www.amigosdocachimbo.com.br/artigos/art_cachimbo_fumar.htm</A> (&uacute;ltima consulta em outubro de 2016).</font></P>     <P><font size="2" face="Verdana"> FERNANDES, Lu&iacute;s, e Marta PINTO, 2004, &ldquo;El espacio urbano   como dispositivo de control social: territorios psicotr&oacute;picos   y pol&iacute;ticas de la ciudad&rdquo;, em <I>Uso de Drogas e     Drogodependencias</I>. Barcelona, Fundaci&oacute;n Medicina y Humanidades M&eacute;dicas, 147-162.</font></P>     <P><font size="2" face="Verdana">   FERNANDEZ, Osvaldo, 2007, <I>Coca Light?</I> <I>Usos do Corpo,     Rituais de Consumo e Carreiras de &ldquo;Cheiradores&rdquo; de     Coca&iacute;na em S&atilde;o Paulo.</I> Salvador, Universidade Federal da Bahia, tese de doutorado.</font></P>     <!-- ref --><P><font size="2" face="Verdana">   KOTLER, Philip, e Kevin Lane KELLER, 2006, <I>Administra&ccedil;&atilde;o de Marketing.</I> S&atilde;o Paulo, Pearson Prentice Hall.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=195080&pid=S0873-6561201600030000300012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="2" face="Verdana">   LEARY, Timothy, 1999 [1983], <I>Flashbacks &ldquo;Surfando no Caos&rdquo;</I>:   <I>A Hist&oacute;ria Pessoal e Cultural de Uma Era. Uma     Autobiografia. </I>S&atilde;o Paulo, Beca Produ&ccedil;&otilde;es Culturais.</font></P>     <P><font size="2" face="Verdana"> LOSCHIAVO, Maria Cecilia, 2005, &ldquo;Arquitetura, os moradores de rua e a transfigura&ccedil;&atilde;o de nossa sociedade&rdquo;, <I>Arqtexto</I>, 7: 12-15.</font></P>     <!-- ref --><P><font size="2" face="Verdana"> MacRAE, Edward, e J&uacute;lio Assis SIM&Otilde;ES, 2000, <I>Rodas de   Fumo: O Uso da Maconha entre Camadas M&eacute;dias Urbanas</I>.   Salvador, CETAD    /    Editora da Universidade Federal da Bahia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=195084&pid=S0873-6561201600030000300015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><P><font size="2" face="Verdana"> OLIVEIRA, L&uacute;cio Garcia de, 2007, <I>Avalia&ccedil;&atilde;o da   Cultura do Uso de Crack ap&oacute;s Uma D&eacute;cada da Introdu&ccedil;&atilde;o   da Droga na Cidade de S&atilde;o Paulo</I>. S&atilde;o Paulo, Universidade Federal de S&atilde;o Paulo, tese de doutorado.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=195086&pid=S0873-6561201600030000300016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><P><font size="2" face="Verdana"> ORTIZ, Esmeralda do Carmo, 2001, <I>Por Que N&atilde;o Dancei.</I> S&atilde;o Paulo, Editora Senac.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=195088&pid=S0873-6561201600030000300017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><P><font size="2" face="Verdana">   RUI, Taniele Cristina, 2012, <I>Corpos Abjetos: Etnografia em     Cen&aacute;rios de Uso e Com&eacute;rcio de Crack.</I> Campinas,   Instituto de Filosofia e Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade Estadual de Campinas, tese de doutorado.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=195090&pid=S0873-6561201600030000300018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="2" face="Verdana"> VELHO, Gilberto, 2013, &ldquo;O estudo do comportamento desviante: a   contribui&ccedil;&atilde;o da antropologia social&rdquo;, em   G.&nbsp;Velho, <I>Um Antrop&oacute;logo na Cidade:</I> <I>Ensaios de Antropologia Urbana.</I> Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 36-51.</font></P>     <!-- ref --><P><font size="2" face="Verdana">   ZINBERG, Norman E., 1984, <I>Drug, Set, and Setting: The Basis for Controlled Intoxicant Use.</I> New Haven, CN, Yale University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=195093&pid=S0873-6561201600030000300020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><b><font size="3" face="Verdana">NOTAS</font></b></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote1sym" HREF="#sdfootnote1anc">1</A> &ldquo;Passar     a caminhada&rdquo;: dar um conjunto de instru&ccedil;&otilde;es;   &ldquo;minha caminhada&rdquo;: a hist&oacute;ria de vida do usu&aacute;rio;   &ldquo;sair numa caminhada&rdquo;: percorrer certa dist&acirc;ncia,     geralmente a p&eacute;.</font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote2sym" HREF="#sdfootnote2anc">2</A> Por     si s&oacute; o cachimbo pode ser considerado um importante agente na     frui&ccedil;&atilde;o da &ldquo;pedra&rdquo; de <I>crack</I>: &ldquo;[&hellip;]     eu sinto diferen&ccedil;a porque se eu fumar a &ldquo;pedra&rdquo;   no cachimbo o tuim dela &eacute; mais forte do que na lata [&hellip;]     na minha concep&ccedil;&atilde;o a adrenalina no cora&ccedil;&atilde;o     fica mais forte [&hellip;] aquela sensa&ccedil;&atilde;o de medo e     da paranoia fica muito mais louca do que fumar ela [pedra] na lata.     O cachimbo em si, por causa do caninho, a sensa&ccedil;&atilde;o &eacute;   mais louca mesmo [&hellip;]&rdquo; (Oliveira 2007:&nbsp;101).</font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote3sym" HREF="#sdfootnote3anc">3</A>	<I>Yakult</I> &eacute; uma marca de iogurte l&iacute;quido vendida no Brasil.</font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote4sym" HREF="#sdfootnote4anc">4</A> &ldquo;Caninho&rdquo;:     tubo met&aacute;lico, como os de antena de autom&oacute;vel,     utilizado nos cachimbos de <I>crack</I>.</font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote5sym" HREF="#sdfootnote5anc">5</A> &ldquo;Maricas&rdquo;:     antigos cachimbos utilizados para se consumir fumo e maconha, feitos     geralmente de madeira.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote6sym" HREF="#sdfootnote6anc">6</A> Os     primeiros usu&aacute;rios de <I>crack</I> se valiam de um copo de   &aacute;gua mineral para consumir a &ldquo;pedra&rdquo;. Ela era     colocada sobre um buraco feito sobre a tampa de alum&iacute;nio,     coberto por cinzas de cigarro. Na cidade do Rio de Janeiro, o copo     de &aacute;gua descart&aacute;vel ainda &eacute; largamente     utilizado.</font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote7sym" HREF="#sdfootnote7anc">7</A> O     mesmo &eacute; v&aacute;lido para a embalagem de <I>Yakult</I>: nela     se fumava o <I>crack</I> sobre o alum&iacute;nio original perfurado     com o acr&eacute;scimo de cinzas para evitar o escoamento do <I>crack</I> derretido em sua combust&atilde;o para dentro da embalagem. O   &ldquo;caninho&rdquo; j&aacute; era usado neste sistema mais pr&oacute;ximo     do cachimbo atual que a lata e o copo.</font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote8sym" HREF="#sdfootnote8anc">8</A> &ldquo;Fortalecer&rdquo;   designa neste contexto o ato de fornecer <I>crack</I> a algu&eacute;m     como um grande favor.</font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote9sym" HREF="#sdfootnote9anc">9</A> &ldquo;Biqueira&rdquo;:     local de com&eacute;rcio e por vezes de consumo de <I>crack</I>.</font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote10sym" HREF="#sdfootnote10anc">10</A> &ldquo;&Aacute;rea&rdquo;:     local de moradia ou de consumo regular de <I>crack</I> onde se &eacute;   conhecido.</font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote11sym" HREF="#sdfootnote11anc">11</A> Ao     entrar em contato com um usu&aacute;rio de posse de cachimbo &ldquo;feito     de cobre&rdquo; em sua pesquisa de campo, Rui (2012) ouviu uma     explica&ccedil;&atilde;o de um redutor de danos sobre as vantagens     do cobre: &ldquo;Os redutores disseram-lhe que o cobre &eacute; um     dos melhores materiais para a confec&ccedil;&atilde;o do cachimbo:     n&atilde;o provoca intoxica&ccedil;&atilde;o como o alum&iacute;nio;     aguenta o calor, diferentemente do pl&aacute;stico; n&atilde;o     quebra como o vidro; mas tem a desvantagem de ser mais caro&rdquo;.     Por&eacute;m, n&atilde;o parece ter obtido do usu&aacute;rio     informa&ccedil;&otilde;es sobre as vantagens da &ldquo;rapa&rdquo;   branca.</font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote12sym" HREF="#sdfootnote12anc">12</A> A     sublima&ccedil;&atilde;o da fuma&ccedil;a n&atilde;o ocorre em uma     c&acirc;mara separada, como no caso do cachimbo de tabaco, ou seja,     entre o pesco&ccedil;o do fornilho e o encaixe da haste, dando-se     por toda a extens&atilde;o do &ldquo;Boris&rdquo;. Isto faz o     material se depositar por toda a haste, al&eacute;m do &ldquo;bolo&rdquo;   depositado no fornilho. No caso dos cachimbos de madeira utilizados   no consumo de tabaco, este bolo deve ser mantido at&eacute; a     espessura de 1,5&nbsp;mm. Caso cres&ccedil;a demais, reduzir&aacute;   a capacidade do fornilho. Por&eacute;m, quando retirado, n&atilde;o     dever&aacute; s&ecirc;-lo em sua totalidade, j&aacute; que a     presen&ccedil;a do bolo &eacute; fundamental no uso de cachimbos com     fornilhos de madeira.</font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote13sym" HREF="#sdfootnote13anc">13</A> A     presen&ccedil;a do &ldquo;cigarreiro&rdquo; diz respeito &agrave;   Cracol&acirc;ndia ou lugares com um n&uacute;mero consider&aacute;vel     de usu&aacute;rios.</font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote14sym" HREF="#sdfootnote14anc">14</A> &ldquo;Favorecer&rdquo;   no contexto desta frase &eacute; o ato de fornecer <I>crack</I> a algu&eacute;m, por&eacute;m com um comprometimento em termos de     gravidade da situa&ccedil;&atilde;o e d&iacute;vida adquirida menor     que &ldquo;fortalecer&rdquo; algu&eacute;m.</font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote15sym" HREF="#sdfootnote15anc">15</A> &ldquo;O     constante aquecimento dos cachimbos fere ainda os dedos utilizados     para bem posicionar o instrumento durante a tragada&rdquo; (Rui     2012: 271). Parece-nos que, ao inv&eacute;s deste registro, a queima     dos dedos deve ser buscada em uma din&acirc;mica relacional mais     complexa que a simples mec&acirc;nica de uso.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote16sym" HREF="#sdfootnote16anc">16</A> &ldquo;Vapor&rdquo;:     pequeno traficante, por vezes tamb&eacute;m usu&aacute;rio.</font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote17sym" HREF="#sdfootnote17anc">17</A> &ldquo;Treta&rdquo;:     troca generalizada de &ldquo;pedras&rdquo; de <I>crack</I> e outros     bens. Por vezes, servi&ccedil;os tamb&eacute;m podem entrar no     circuito da &ldquo;treta&rdquo;.</font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote18sym" HREF="#sdfootnote18anc">18</A> &ldquo;Dar     uma paulada&rdquo; tamb&eacute;m &eacute; uma express&atilde;o     utilizada.</font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote19sym" HREF="#sdfootnote19anc">19</A> &ldquo;Fortalecer&rdquo;   algu&eacute;m seria como fazer-lhe um imenso favor, enquanto ser     favorecido significa ser ajudado, ou receber algo de valor, por&eacute;m,     sem que resulte em uma grande d&iacute;vida ou obriga&ccedil;&atilde;o.     Ao pedir para ser fortalecido por um &ldquo;vapor&rdquo; em uma   &ldquo;biqueira&rdquo;, um usu&aacute;rio disse: &ldquo;pode chamar     n&oacute;s at&eacute; pra carregar caixa eletr&ocirc;nico e pode p&aacute;&rdquo;   &ndash; disp&otilde;e-se a trabalho perigoso em troca de um grande     favor e faz do &ldquo;vapor&rdquo; seu credor.</font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote20sym" HREF="#sdfootnote20anc">20</A> &ldquo;Fluxo&rdquo;   diz respeito ao movimento da &ldquo;pedra&rdquo; entre os usu&aacute;rios.</font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote21sym" HREF="#sdfootnote21anc">21</A> Ao     serem ocupadas pelo tr&aacute;fico, as favelas passam a receber uma     clientela de n&atilde;o moradores, interessada unicamente em     adquirir a droga ilegal. A ilegalidade impede o com&eacute;rcio     livre da droga e a exila a espa&ccedil;os igualmente ilegais,     distantes dos ditames da lei. Quando conseguem se suprir de &aacute;gua     encanada atrav&eacute;s de liga&ccedil;&otilde;es clandestinas, os     chamados &ldquo;gatos&rdquo;, seus moradores deixam de ter de se     postar em fila na bica. Esta situa&ccedil;&atilde;o fica reservada     aos frequentadores n&atilde;o residentes que v&atilde;o em busca da     droga, para eles t&atilde;o preciosa &agrave; mente e ao corpo, como   &aacute;gua para a vida. A sede se fez fissura, a &aacute;gua se faz   &ldquo;p&oacute;&rdquo; e &ldquo;pedra&rdquo;. Ao inv&eacute;s das     latas de &aacute;gua na cabe&ccedil;a, bolsos e m&atilde;os fechadas     a &ldquo;segurar o flagrante&rdquo;.</font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote22sym" HREF="#sdfootnote22anc">22</A> Os     quatro PP de Kotler e Keller (2006): pra&ccedil;a, pre&ccedil;o,     produto e promo&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote23sym" HREF="#sdfootnote23anc">23</A> Devemos     considerar o &ldquo;fluxo&rdquo; como interesse da &ldquo;biqueira&rdquo;   e valor em si mesmo. Retornar &agrave; fonte para novo carregamento     significa trabalho bem feito pelo &ldquo;vapor&rdquo; na     comercializa&ccedil;&atilde;o dos &ldquo;blocos&rdquo;; maior chance     de perman&ecirc;ncia na fun&ccedil;&atilde;o e a possibilidade de     barganhas por &ldquo;pacotes&rdquo; mais &ldquo;bem servidos&rdquo;   e &ldquo;blocos&rdquo; extras. Um &ldquo;vapor&rdquo; incapaz     de garantir e promover o &ldquo;fluxo&rdquo; poder&aacute; ser     substitu&iacute;do, ter&aacute; de encontrar outra forma de fazer     seu &ldquo;corre&rdquo; e bancar seu consumo de <I>crack</I>.</font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote24sym" HREF="#sdfootnote24anc">24</A> &ldquo;Radiar&rdquo;,     como referido acima, &eacute; uma express&atilde;o com o significado     de trazer disc&oacute;rdia e incomodar. </font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote25sym" HREF="#sdfootnote25anc">25</A> O     pagamento n&atilde;o precisa ser integral &ndash; &ldquo;Troco pra     galo [nota de 50 reais]&rdquo;, mas caso o vendedor esteja sem troco     pode deixar os &ldquo;blocos&rdquo; com o comprador e recolher o     dinheiro depois. Essa t&eacute;cnica de vendas possibilita converter     a diferen&ccedil;a a ser dada por troco em nova compra algum tempo     depois, quando os &ldquo;blocos&rdquo; inicialmente adquiridos     tenham sido consumidos. A negocia&ccedil;&atilde;o pode incluir     ofertas por quantidades maiores, cinco &ldquo;blocos&rdquo; podem     ser oferecidos a 40&nbsp;reais, por exemplo, inteirando o troco que     deveria ser inicialmente restitu&iacute;do.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote26sym" HREF="#sdfootnote26anc">26</A> Nas     palavras de um usu&aacute;rio de <I>crack</I>: &ldquo;[&hellip;]     mulher n&atilde;o pega fila, &agrave;s vezes tem fila, ent&atilde;o,     quando tem mulher, elas passam na frente dos caras, que &eacute; uma     lei, ent&atilde;o homem nunca pega primeiro [&hellip;]&rdquo;   (Oliveira 2007:&nbsp;93).</font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote27sym" HREF="#sdfootnote27anc">27</A> Fazer     a &ldquo;conten&ccedil;&atilde;o&rdquo; em um &ldquo;fum&oacute;dromo&rdquo;   pouco estruturado &eacute; atividade menos importante em compara&ccedil;&atilde;o   &agrave; venda dos &ldquo;blocos&rdquo;. A atividade pode ser     desenvolvida por um indiv&iacute;duo desarmado, ou em posse de uma     faca para sua pr&oacute;pria seguran&ccedil;a. Um usu&aacute;rio     antigo e frequentador do local n&atilde;o se sentir&aacute;   intimidado pelo &ldquo;conten&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Seu status     n&atilde;o &eacute; muito superior ao deste usu&aacute;rio e mesmo o   &ldquo;vapor&rdquo; s&oacute; exerce maior ascend&ecirc;ncia sobre o     grupo de &ldquo;parasitas&rdquo; a ele ligado e mesmo assim, de modo     inst&aacute;vel.</font></P>     <P>   <font size="2" face="Verdana"><A NAME="sdfootnote28sym" HREF="#sdfootnote28anc">28</A> Se     houver dist&uacute;rbios nas proximidades do local de uso, ao     perturbar o usu&aacute;rio de <I>crack</I>, eles prejudicam a     frui&ccedil;&atilde;o dos efeitos da &ldquo;pedra&rdquo;.</font></P>      ]]></body><back>
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