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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Profetismos norte-ameríndios e colonialismo: um capítulo esquecido da história da antropologia?]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[North-Amerindian prophetisms and colonialism: a forgotten chapter in the history of anthropology?]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[James Mooney started his “multi-sited” fieldwork in different Indian reservations of the US in 1890, aiming at a clarification of a prophetic-messianic movement. His ethnography disclosed its transformations on both sides of the Rocky Mountains and in relation with the colonial context. In parallel, Mooney worked in the archive and sent queries by mail that instigated an extensive documentation on new Amerindian religions of Christian influence, directly or indirectly connected to the Ghost Dance. The institutional rise of the Boasian school obfuscated the importance of Mooney’s anthropology, which is not sufficiently acknowledged outside Americanist circuits. The article aims at divulging this figure as a methodological and intellectual forerunner of preoccupations and themes that only much later would reach the core of our discipline.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana" size="2"></font><font size="2"><b><font face="Verdana">ARTIGOS</font></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>       <p><b><font size="4" face="Verdana">Profetismos   norte-ameríndios e colonialismo: um capítulo esquecido da história da antropologia?</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="3" face="Verdana">North-Amerindian   prophetisms and colonialism: a forgotten chapter in the history of anthropology?</font></b></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Frederico Delgado Rosa<sup>I</sup></b></p> <sup>I</sup>CRIA, FCSH / Nova, Portugal; LAHIC / IIAC, França. <i>E-mail:</i><a href="mailto:fdelgadorosa@fcsh.unl.pt">fdelgadorosa@fcsh.unl.pt</a>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> </font> <hr noshade size="1"> <font face="Verdana" size="2">     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>RESUMO</b></p>     <p>Em 1890, James Mooney iniciou um trabalho de campo   “multissituado”, entre diversas reservas índias dos EUA, com vista a delimitar   um movimento profético-messiânico. A sua etnografia permitiu discernir as suas   transformações dos dois lados das Montanhas Rochosas e em relação com o   contexto colonial. Em paralelo, Mooney trabalhou em arquivo e fez questionários   por correspondência que instigaram a produção de uma vasta documentação sobre   novas religiões ameríndias de influência cristã, direta ou indiretamente ligadas   à Dança dos Espíritos (<i>Ghost Dance</i>). Devido à ascensão   institucional da escola boasiana, ficou em grande parte esquecida e não é ainda   hoje devidamente reconhecida, fora dos meios americanistas, a importância da   antropologia de Mooney, enquanto precursor metodológico e intelectual de   preocupações que só muito depois do seu tempo se tornariam capitais para a disciplina.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> James Mooney, Dança dos Espíritos, mormonismo, revivalismo</p> </font> <hr noshade size="1"> <font face="Verdana" size="2">     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>James Mooney   started his “multi-sited” fieldwork in different Indian reservations of the US   in 1890, aiming at a clarification of a prophetic-messianic movement. His   ethnography disclosed its transformations on both sides of the Rocky Mountains   and in relation with the colonial context. In parallel, Mooney worked in the   archive and sent queries by mail that instigated an extensive documentation on   new Amerindian religions of Christian influence, directly or indirectly   connected to the Ghost Dance. The institutional rise of the Boasian school   obfuscated the importance of Mooney’s anthropology, which is not sufficiently   acknowledged outside Americanist circuits. The article aims at divulging this   figure as a methodological and intellectual forerunner of preoccupations and themes that only much later would reach the core of our discipline.</p>     <p><b>Keywords: </b>James Mooney, Ghost Dance religion, Mormonism, revivals</p> </font> <hr noshade size="1">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“I fear a     major and growing loss of knowledge […]”    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>     (Herbert S. Lewis, <i>In Defense of       Anthropology</i>, 2014:&nbsp;726).</font></p> </blockquote> <font face="Verdana" size="2">    <p>No seu alerta contra o   processo de distorção da história da nossa disciplina, nomeadamente por parte   de representantes maiores do movimento de “crítica da antropologia”, Herbert   Lewis (2014) identifica três estereótipos correntes sobre os precursores da   disciplina antes do <i>power shift</i><a href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><sup>[1]</sup></a> dos anos 1960: que tratavam os povos etnografados   como sendo radicalmente diferentes; que abordavam cada cultura como uma unidade   isolada, ou desconectada das demais; e que tinham uma perspetiva a-histórica.   Se acrescentarmos a influente crítica de Fabian (1983) sobre a negação de   coevidade (ou contemporaneidade) às comunidades estudadas, talvez possamos dar   por identificada uma forma corrente desde há décadas, ou mesmo preponderante,   de encarar a produção do período colonial. Às contrailustrações poderiam   juntar-se as de outros “defensores da antropologia” (Darnell 2001; Sidky 2003;   Bashkow <i>et al</i>. 2004; Varisco 2008;   Belleau 2015) numa lógica de continuidade, que não de rutura, em relação a   momentos passados da sua história, e nomeadamente no sentido de revelar que   quaisquer generalizações sobre o discurso antropológico dito clássico são, no   melhor dos casos, deficientes e, no pior, absurdas. A diversidade teórica,   metodológica e epistemológica do arquivo, aliada à sua vastidão ideográfica,   simplesmente não deveria autorizar esse exercício. O presente artigo procura   demonstrá-lo através da obra de uma figura relativamente pouco conhecida na   comunidade antropológica lusófona, com o objetivo a um tempo humilde e   ambicioso de roçar a ponta de um icebergue cujas dimensões podem a qualquer momento ser perdidas de vista.</p>     <p>É que, à medida que o   tempo passa, a formação académica em antropologia vai forçosamente minimizando   – com consequências para a futura relação dos investigadores com a literatura   clássica – o leque de autores representativos das escolas fundadoras e portanto   dignos de serem conhecidos, ainda que sob uma camada de poeira talvez   inevitável. Se Jill Dias, por exemplo, podia dar-se ao luxo de discorrer, na   sua cadeira anual de História da Antropologia,<a href="#_ftn2" name="_ftnref2" title=""><sup>[2]</sup></a> sobre múltiplos representantes de cada corrente   (recordo, por exemplo, só para o evolucionismo britânico, aulas do final dos   anos 1980 especificamente dedicadas a Herbert Spencer, Edward Tylor, James   Frazer, Robertson Smith, Andrew Lang e Robert Marett), hoje são necessários   malabarismos para não reduzir esse ensino, entretanto semestral, a um   apontamento sobre meia dúzia de nomes para todo o período clássico, até 1960   grosso modo, e sempre os mesmos. De   resto, o problema letivo, propriamente dito, é já de si um reflexo do que vai   ficando progressivamente de fora nos manuais de história da antropologia. Ao   compararmos alguns dos mais antigos do século xx   (para não falar dos do século xix),   como os de Alfred C.&nbsp;Haddon (1934 [1910]) e de Robert H.&nbsp;Lowie   (1938), com alguns dos mais recentes, como os de T. H. Eriksen e F. S.   Nielsen (2001) e de H.&nbsp;Kuklick (2008), constatamos desaparecimentos   drásticos no que toca ao período fundador da disciplina. E voltando ao   evolucionismo, precisamente, as respetivas fontes etnográficas são bem   necessárias para contrariar a imagem simplista de que o trabalho de campo se   resumia, antes de Malinowski, e com a exceção de Franz Boas, a observações   superficiais por amadores ou à famigerada categoria de “etnografia de varanda” associada à expedição de Cambridge ao Estreito de Torres.</p>     <p>Ocupar-me-ei então de   James Mooney (1861-1921), uma figura ao mesmo tempo esquecida e incómoda. É   claro que a expressão “capítulo esquecido”,   utilizada no título do presente artigo, deve ser entendida em termos   inteiramente relativos, uma vez que o seu nome é uma referência incontornável   para diversos especialistas, desde logo para os americanistas que se dedicam ao   século&nbsp;XIX e em particular à Dança dos Espíritos de 1890. A verdade é que   permanece praticamente ausente dos epítomes e pouco conhecido (ouso dizer) por   parte de muitos antropólogos que não apenas nos países lusófonos.<a href="#_ftn3" name="_ftnref3" title=""><sup>[3]</sup></a> Ou talvez seja um “antepassado excluído” (Handler   2000) justamente porque a sua obra ameaça as convicções correntes de   superioridade moral, ou mesmo intelectual, dos antropólogos do nosso tempo em   relação aos do período colonial. Ora, Mooney era, no seu tempo, “uma bomba   política”, um homem para quem “as questões de poder eram centrais”, aliás em   conflito crescente com os diversos agentes do colonialismo (Nader 2002: 50). Na   sua obra, em particular <i>The Ghost Dance     Religion and the Sioux Outbreak of 1890</i>, publicada em 1896, ultrapassava a   dissociação entre “o índio objeto de descrição científica” e o “índio vítima   das empresas militares e administrativas”, para produzir, a contracorrente, uma   “crónica do desespero índio” (Vidal 1976: 34, 53). O presente artigo procura   assim chamar a atenção dos antropólogos da contemporaneidade para uma   insuspeitada “genealogia invisível” (Darnell 2001). Este conceito que Regna   Darnell utiliza na sua história da tradição americanista, de forma quase   provocatória, para se referir à dívida mal assumida e todavia perene dos   antropólogos de hoje em relação aos boasianos, desvio-o aqui para uma outra   conexão com o passado, através de uma ideia porventura mais difícil de encarar:   que os estudos coloniais e a própria viragem para as questões de poder possam   ter um precursor – ainda para mais etnógrafo – num período de aguda violência   colonial, nomeadamente nos Estados Unidos da América, quando a historiografia   sistematicamente nos convida a olhar os finais do século&nbsp;XIX como o tempo dos antropólogos de gabinete (mais uma vez com a exceção de Boas).</p>     <p>A ironia, no caso de   Mooney, é que o processo de exclusão do seu nome da genealogia fundadora foi   iniciado, sob pretexto do seu amadorismo, precisamente pelos antropólogos que a   crítica pós-colonial acusa de terem fechado os olhos – tanto do ponto de vista   intelectual como político – ao sofrimento dos índios nas reservas, para melhor   salvarem as suas tradições enquanto era tempo. Refiro-me a Franz Boas e seus   discípulos (<i>vd</i>. Moses 2002 [1984]: xv).<a href="#_ftn4" name="_ftnref4" title=""><sup>[4]</sup></a> Se bem que tenha sido um dos fundadores da   American Anthropological Association, Mooney permanece assim “um homem   esquecido”, em contraponto à memória, apesar de tudo persistente, da   antropologia boasiana (Nader 2002: 52). Qual é o seu lugar na história da   antropologia? As raras respostas a esta questão vão efetivamente no sentido de   dizer que “um tipo de antropologia prosperou em detrimento do outro” (Iverson   1985: 89; <i>vd</i>. também Vidal 1976;   Hinsley 1981; Nader 2002), ou seja, que a pujança dos estudos pré-coloniais   ofuscou a abordagem de Mooney, uma abordagem a que chamo visionária (em jeito de presentismo esclarecido, inspirado por Darnell 2001).</p>     <p>Este ensaio histórico   divide-se em quatro partes. Começarei por evocar algumas transformações   recentes da imagem de Mooney no seio da tradição americanista, em particular no   universo dos estudos Lakota. Devido ao peso histórico do tristemente célebre   massacre de Wounded Knee de 1890, cujas relações com a Dança dos Espíritos   ocupam um lugar de relevo na estrutura da monografia de 1896, essa parte do seu   trabalho é a mais revisitada. Contudo, Mooney dedicou-se a vários outros   contextos etnográficos direta ou indiretamente relacionados com esse movimento   profético-messiânico; e daí que opte por dar mais atenção a outros capítulos,   que nem assim esgotam a sua etnografia “multissituada”,<a href="#_ftn5" name="_ftnref5" title=""><sup>[5]</sup></a> mas que servem para formar uma ideia do tipo de   antropólogo que foi: abordarei numa segunda parte o seu tratamento do   mormonismo do Utah em relação sobretudo com os índios <i>paiute</i> do Nevada; em seguida o dos <i>shakers</i> de Puget Sound (estado de Washington); e numa quarte parte   o da Igreja de Smohalla, no mesmo estado e vizinhos, o que proporcionará ainda   uma comparação com o (também esquecido) antropólogo boasiano, Leslie Spier   (1893-1961). Estarei então em medida, na conclusão (a que prefiro chamar   epílogo), de sintetizar o pioneirismo de Mooney na história da antropologia, o   que é também uma forma de relembrar à comunidade de antropólogos lusófonos que   os estudos americanistas, por vezes olhados de soslaio como relíquia colonial, são uma componente viva da antropologia contemporânea.<a href="#_ftn6" name="_ftnref6" title=""><sup>[6]</sup></a></p>     <p>&nbsp;</p> </font>     <p><font size="3"><b><font face="Verdana">OBSERVA&Ccedil;&Atilde;O PARTICIPANTE OU ETNOGRAFIA IMPOSS&Iacute;VEL?</font></b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>A antropologia de Mooney,   focalizada no contexto colonial norte-americano, contrastava não apenas com o   culturalismo anunciado por Boas, mas também com o evolucionismo simbolizado por   L. H. Morgan e defendido de forma extrema pelo diretor do Bureau of   Ethnology, major John Wesley Powell (1834-1902), que contratou o ex-jornalista   em 1885. A sua primeira missão de terreno, num espírito de etnografia de   salvação, dizia respeito aos <i>cherokee </i>–   uma das “tribos civilizadas”<sup>&nbsp;</sup><a href="#_ftn7" name="_ftnref7" title=""><sup>[7]</sup></a> do Sudeste que tinham sido forçadas a deslocar-se   para o Território Índio nos anos 1830   – e primeiramente uma comunidade mais tradicionalista que tinha escapado ao   controlo militar e se refugiara na Carolina do Norte.<a href="#_ftn8" name="_ftnref8" title=""><sup>[8]</sup></a> Em dezembro de 1890, pela primeira vez na vida,   Mooney ia atravessar o Mississipi para tomar contacto com os <i>cherokee</i> do Território Índio, que   partilhavam não apenas com outras “tribos civilizadas”, mas também, em reservas   contíguas, com segmentos importantes de várias tribos das Planícies, os grandes   cavaleiros caçadores de bisontes, agora acantonados e deprimidos, tais como os <i>arapaho</i>, os <i>cheyenne</i>, os <i>kiowa</i>, os <i>comanche</i>, os <i>caddo</i>, os <i>wichita</i>. Entre   o fim de novembro e o início de dezembro, no momento em que preparava a   partida, foi abalado pela leitura dos jornais. Algo de muito grave se passava a oeste do Mississipi, implicando precisamente os índios das Planícies.</p>     <p>Falava-se da Dança dos   Espíritos como de uma ilusão que se alastrara no universo das reservas a partir   de um “Messias dos peles-vermelhas”. Escrevia-se na imprensa que o personagem   pretendia ser Jesus Cristo regressado à Terra, em versão índia, e que anunciava   a iminente renovação da terra americana e a ressurreição dos mortos, o regresso   dos modos de vida antigos e dos bisontes, a par do “enterramento da raça   branca”.<a href="#_ftn9" name="_ftnref9" title=""><sup>[9]</sup></a> Temidos em todos os Estados Unidos pelo massacre   que tinham infligido às tropas do general Custer na batalha de Little Big Horn   de 1876, os <i>lakota</i><a href="#_ftn10" name="_ftnref10" title=""><sup>[10]</sup></a> contavam-se entre os prosélitos do misterioso   Messias; e, apesar ou justamente por causa da sua ulterior sujeição ao   colonizador, a sociedade americana estava como que predisposta a temer uma insurreição   militar associada ao novo movimento religioso. Powell e Mooney chegaram a   acordo para que a pesquisa de terreno contemplasse este fenómeno, a partir do   Território Índio. Conhecedor, pela sua própria experiência, dos bastidores da   imprensa americana, Mooney atribuiu-se a missão de pôr tudo em dúvida, para   atacar um certo número de questões capitais. Quem era esse profeta ou Messias?   Pretendia ser Jesus Cristo? Profetizava ou não o desaparecimento dos brancos?   Advogava ou não a violência contra os mesmos? Quem eram os seus prosélitos?   Quais os contornos e as razões de ser desse movimento religioso? Quais as suas redes e as suas transformações?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Se é verdade que os   antropólogos americanistas sofreram por tabela a sorte dos índios, como minoria   vencida, mas resistente, podemos bem compreender que, longe de se sentirem   incomodados com as questões levantadas por Mooney, fossem os primeiros a   sublinhar a sua natureza pioneira. O mesmo se aplica às respostas. Pelo facto   de ter interpretado a Dança dos Espíritos como uma adaptação religiosa aos   sofrimentos causados pela opressão, é desde há muito considerado – sobretudo   nos Estados Unidos, desde o apagamento da empresa de Boas – como um precursor   no estudo dos movimentos de revitalização ameríndios e mesmo, no plano mais   alargado, do comparativismo sociológico dos messianismos.<a href="#_ftn11" name="_ftnref11" title=""><sup>[11]</sup></a> Além disso, as palavras “simpatia” e “empatia”   são recorrentes, para exprimir a sua “capacidade de identificação com as   aspirações índias a um modo de vida melhor, orientado em termos indígenas”   (Wallace 1976 [1965]:&nbsp;vi; <i>vd</i>.&nbsp;também   Iverson 1985: 88; Nader 2002: 50; ­Darnell 2009). Sem receio de estabelecer uma   ponte genealógica com o século&nbsp;XIX, um dos protagonistas americanos deste   campo de investigação, Anthony F. C. Wallace (1976 [1965]), chegou mesmo   a dizer, no seu prefácio à reedição de 1965 do clássico de Mooney, que este era   capaz de “levar a sério” a fé dos <i>ghostdancers</i>.   E, na sua introdução à reedição de 1991 (por ocasião do centenário do massacre   de Wounded Knee), Raymond J.&nbsp;DeMallie afirma: “Se algum não crente alguma   vez compreendeu a Dança dos Espíritos, foi o próprio James Mooney. […] onde   outros viam um retrocesso pagão, Mooney viu um movimento social positivo, uma forma de revitalizar as culturas nativas através da religião” (1991:&nbsp;xv).</p>     <p>Sucede que as   transformações da sensibilidade antropológica nas últimas décadas do   século&nbsp;XX favorecem, desde então, os discursos de rutura com o passado da   disciplina, em detrimento do reconhecimento de continuidades genealógicas,   sejam elas visíveis ou invisíveis. O facto de os índios dos EUA, contrariamente   aos colonizados dos impérios europeus, nunca terem tido uma verdadeira   descolonização parece mesmo acentuar o imperativo de demarcação entre os   antropólogos norte-americanos do tempo presente e os que viveram e escreveram   antes dos anos 1960. Por conseguinte, James Mooney não pode senão estar   implicado. A principal expressão da “superioridade” moral e intelectual   contemporânea, como para resolver a “ameaça” que representam as opções vanguardistas   de Mooney, encontramo-la num artigo de 1998, “Ethnography, reform, and the   problem of the real: James Mooney’s <i>Ghost     Dance Religion</i>”, assinado por Michael Elliott. Este autor resolutamente   pós-moderno admite que Mooney se sentia desconfortável com as ideias e os   métodos do Bureau of Ethnology, mas considera que ele fracassou na tentativa de   ultrapassar os limites da sua própria época, uma vez que a ideologia realista o   impedia de aceitar o alcance propriamente religioso da Dança dos Espíritos, que   não seria mais do que uma resposta provisória e ilusória a um problema de   privação económica, política e cultural: “Mooney não quer que olhemos para a   Dança dos Espíritos como um possível conjunto de crenças válidas” (Elliott 1998:&nbsp;222).</p>     <p>Não tenho espaço para   analisar os problemas que esta leitura levanta. É preciso admitir, em todo o   caso, que uma tal crítica, ao mesmo tempo que revela <i>l’air du temps</i>, pode ser relacionada com a desconfiança, por assim   dizer crescente, de alguns especialistas atuais da Dança dos Espíritos de 1890   a respeito da autoridade etnográfica de Mooney. Fala-se mesmo de um “excesso de   confiança” na sua obra (Maddra 2006: 29), quando na verdade terá tido   dificuldades muito significativas na captação dos conteúdos propriamente religiosos   e sobretudo da verdadeira amplitude do pacifismo subjacente ao fenómeno. As   relações entre índios e brancos nas representações da chegada do milénio são o   pomo da discórdia e a versão dos <i>lakota</i>   é especialmente visada, pois Mooney considerava que eles tinham produzido uma   variante militarista contrária aos ensinamentos originais do Messias, ao ponto   de dar <i>lettres de noblesse</i> ao termo <i>outbreak</i> (insurreição) no próprio título   da obra.<a href="#_ftn12" name="_ftnref12" title=""><sup>[12]</sup></a> Vai-se ao ponto de o acusar de ter inaugurado uma   tradição intelectual que reproduz, nessa matéria, o olhar dos vencedores,<a href="#_ftn13" name="_ftnref13" title=""><sup>[13]</sup></a> um veredicto que é suscetível de dialogar com a   crítica pós-colonial e de acentuar a distância entre os antropólogos do   presente e do passado (Maddra 2006:&nbsp;7; Andersson 2008).<a href="#_ftn14" name="_ftnref14" title=""><sup>[14]</sup></a> É também posta em dúvida a sua caracterização das   ideias do fundador da religião, mais uma vez no plano das relações entre   colonizados e colonizadores no momento do encontro entre os vivos e os mortos.   Segundo o biógrafo do profeta, Michael Hittman (1997 [1990]), não se tratava de um milénio índio, mas sim de um paraíso para todos, incluindo os brancos.</p>     <p>Pioneiro da observação   participante, James Mooney dançou a Dança dos Espíritos no Território Índio,   onde desenvolveu uma invulgar relação de confiança com os prosélitos, sobretudo   <i>arapaho</i> e <i>cheyenne</i>. Essa ocorrência acentua, por contraste, as dificuldades   de integração que experimentou entre os <i>lakota</i>   da reserva de Pine Ridge, no seguimento do massacre de Wounded Knee, colmatadas   sobretudo pelo seu recurso privilegiado aos numerosos documentos produzidos e   compilados pelas duas instituições governamentais (rivais entre si) mais   implicadas nas questões índias: o Office of Indian Affairs e o War Department.   Como atrás ficou dito, irei debruçar-me sobre outros contextos porventura menos   conhecidos do que o <i>lakota</i>, ou mais marginais, embora este termo seja bastante relativo na monografia em questão.</p>     <p>&nbsp;</p> </font>     <p><b><font face="Verdana">CIRCUITO IMAGIN&Aacute;RIO? A D&Aacute;DIVA DOS M&Oacute;RMONES</font></b></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>Mooney   escreveu que Wovoka não pretendia ser Cristo ou o Filho de Deus: “He makes no   claim to be Christ, the Son of God, as has been so often asserted in print”   (Mooney 1896: 773). Não sabemos se   lhe colocou diretamente a questão “sois Jesus reincarnado?” ou se tirou essa   conclusão do conjunto das suas declarações. O facto é que Mooney aceitou a sua   palavra a esse respeito.<a href="#_ftn15" name="_ftnref15" title=""><sup>[15]</sup></a> Independentemente do que quiseram acreditar os   delegados ou os prosélitos de outras tribos, o messias era mais propriamente um   profeta. Considerando a amplitude do movimento, o antropólogo manteve todavia o   primeiro termo, inclusive no título do capítulo. Compreendeu aliás que a   nebulosa do estatuto de Wovoka, tanto no plano conceptual como no plano da   difusão cultural, não podia senão implicar no assunto diversas igrejas cristãs   – ou “seitas”, para usar um termo de sua eleição. O mormonismo encabeçava a   lista por razões óbvias: a proximidade geográfica do Utah e sobretudo a relação   muito especial que essa corrente religiosa mantinha com as populações   aborígenes enquanto descendentes das tribos perdidas de Israel. Os índios – ou   lamanitas – estavam profeticamente destinados a contribuir, segundo a doutrina   mórmon, para a fundação de uma Nova Jerusalém numa América do Norte fisicamente   transformada para acolher o reino milenar de Jesus Cristo. Era prioritário o   proselitismo a eles dirigido, por serem um povo escolhido e já visitado, outrora, pelo Filho de Deus.</p>     <p>Para além disso, havia   uma coincidência cronológica entre os dois movimentos, na medida em que se   atribuía ao fundador do mormonismo, Joseph Smith (1805-1844), uma profecia   segundo a qual o Messias ia reaparecer sob forma humana em 1890. O documento   provavelmente mais sensacional, citado por Mooney em <i>The Ghost Dance Religion</i>, era um panfleto mórmon, em circulação na   capital do mormonismo por altura da sua pesquisa, segundo o qual o Messias   tinha efetivamente regressado à Terra na data prevista: encontrava-se entre os   índios, ele próprio era índio – ninguém menos que Wovoka. Muito virulento a   respeito dos “gentios”, ou seja, os norte-americanos brancos não mórmones, o   documento atacava muito em particular o governo dos Estados Unidos pela sua   política de expropriação dos “herdeiros” e da violência contra os mesmos, com   uma referência explícita ao massacre de Wounded Knee. Os poderes instituídos   eram associados ao Diabo – <i>the Beast</i>   –, mas o poder superior do Messias acabaria por restituir as riquezas dos <i>gentiles</i> aos “índios americanos”,   entretanto reconvertidos (<i>cit</i>.<i>&nbsp;in </i>Mooney 1896: 793). Mooney   considerava que este panfleto era não apenas uma ilustração da atitude   contrastada dos mórmones face aos índios, mas também ou sobretudo da atenção   que deram aos acontecimentos no Nevada, o que não podia senão gerar influências nos dois sentidos.</p>     <p>Antes de o acompanhar   nessa direção, é útil evocar as críticas dirigidas a Mooney por historiadores   mórmones do nosso tempo, como Lawrence G.&nbsp;Coates. Ao mesmo tempo que   insiste nas diferenças entre o mormonismo e a Dança dos Espíritos, este autor   acusa Mooney de ter mal interpretado o panfleto de Salt Lake City “como sendo   representativo das ideias da maior parte dos mórmones a respeito desse   movimento índio” e nomeadamente da posição da Igreja em relação a Wovoka   (Coates 1985: 98). Pelo contrário, era o discurso de uma fação minoritária,   quando não dissidente, em todo o caso distinta do círculo principal, sancionado   pelos dirigentes, entre os quais o “presidente” Wilford Woodruff (1807-1898). O próprio título do panfleto   indicava essa circunstância: “The Mormons have stepped down and out of Celestial   Government – the American Indians have stepped up and into Celestial   Government”. O contexto desta   formulação era a renúncia oficial da Igreja à poligamia, em outubro de 1890, o   que provocara a insatisfação dos mais conservadores. Eram eles, igualmente, que   insistiam na aparição do Messias nesse ano, quando na verdade a profecia   precisava que Jesus só apareceria na América <i>se </i>Joseph Smith completasse então o seu 85.º&nbsp;aniversário. Ora,   ele tinha morrido em 1844, o que obrigava a deixar em aberto a data do regresso   do Messias (<i>vd</i>.&nbsp;Barney 2011:   171-173). É preciso dizer que Mooney estava consciente da existência dessas   divergências, pois que não deixou de citar um dos jornais “ortodoxos” do   mormonismo, o <i>Deseret Evening News</i>,   no qual se anunciava: “1890 has passed, and no Messiah has come” (<i>cit</i>.<i>&nbsp;in   </i>Mooney 1896: 792). Mooney regia-se por uma lógica de inclusão; e parece-me   evidente que a controvérsia no seio do mormonismo do seu tempo não deve   autorizar hoje, com recurso a critérios de dicotomia entre ortodoxia e   heterodoxia, a exclusão de setores de opinião oitocentistas cuja amplitude   permanece indeterminada. O próprio Coates admite paradoxalmente, no fim de   contas, que a ideia do regresso iminente do Messias estava “de tal forma   enraizada <i>entre o povo</i>” que o   presidente Woodruff teve de tomar medidas para a contrariar (<i>cit</i>.<i>&nbsp;in </i>Barney 2011: 173; o itálico é meu).</p>     <p>Uma vez mais, isto dizia   diretamente respeito a Wovoka. Foi sobretudo através dos relatos de   missionários mórmones, incluindo missionários índios, que as notícias relativas   ao “Cristo” do Nevada chegaram a Salt Lake City, em meados de 1890 (<i>vd</i>.&nbsp;Coates 1985: 106). Esses   testemunhos não vinham forçosamente do epicentro, em Walker Lake, mas de   reservas mais ou menos afastadas e afetadas pela mensagem. Encarregado por   Woodruff de partir para o terreno a fim de investigar o caso, o <i>cherokee</i> John King<sup>&nbsp;</sup><a href="#_ftn16" name="_ftnref16" title=""><sup>[16]</sup></a> foi até a uma reserva do Idaho (estado vizinho do   Nevada), onde tinha parentes e onde encontrou, através deles, um prosélito   maior da Dança dos Espíritos, o <i>cheyenne</i>   Porcupine (<i>c</i>.&nbsp;1848-1929). Este   personagem também foi entrevistado – ou interrogado – por um major do exército   norte-americano, o que deu lugar a uma longa versão escrita em inglês e na   primeira pessoa. Enviado em seguida aos arquivos de Washington, tal documento   de 15 de junho de 1890 foi consultado por Mooney em 1891. Sem saber que uma   versão paralela do mesmo relato tinha sido entregue ao presidente da Igreja   Mórmon por um dos seus missionários, Mooney teve o reflexo ou a intuição de o   citar imediatamente a seguir ao panfleto anónimo sobre Wovoka. Eis uma das   justaposições surpreendentes com que <i>The     Ghost Dance Religion</i> nos presenteia. Há duas razões principais que a podem   justificar. Primeiramente, Porcupine tinha encontrado Wovoka e apresentava-o,   preto no branco, como Jesus Cristo; mais impressionante ainda, o relato incluía   uma reconstituição, em discurso direto, de palavras atribuídas a Wovoka corroborando esse estatuto.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em segundo lugar,   Porcupine tinha encontrado colonos mórmones no caminho, aquando da sua   peregrinação ao Nevada. Bem entendido, a designação não surge no documento; mas   a verosimilhança desta leitura, inaugurada por Mooney, é admitida por vários   especialistas, ainda que a academia mórmon ponha em dúvida ou relativize a   ideia segundo a qual Porcupine “traveled ­constantly through the Mormon   country” (Mooney 1896: 794).<a href="#_ftn17" name="_ftnref17" title=""><sup>[17]</sup></a> Eis, em todo o caso, algumas passagens sobre a benevolência dos brancos   do Great Basin que Mooney interpretou como indícios de mormonismo: “I thought   it strange”, dizia Porcupine, “that the people there should have been so good,   so different from those here”; ou ainda: “Where I went to there were lots of   white people, but I never had one of them say an unkind word to me” (<i>cit</i>.<i>&nbsp;in   </i>Mooney 1896: 794, 796). Segundo o   relato deste fiel, havia brancos que participavam na Dança dos Espíritos em   vários sítios – o que pode efetivamente ser associado à suspeita de Mooney sobre a relação entre os dois movimentos religiosos.</p>     <p>Sabendo que ele aceitava   a palavra de Wovoka no que diz respeito ao estatuto não crístico do mesmo, não   podemos senão concluir, de facto, que a sua visão antropológica da Dança dos   Espíritos era extraordinariamente dinâmica. Quando escreveu que os mórmones   contribuíram para lhe dar forma, não queria sugerir uma influência direta sobre   Wovoka, mas antes um ambiente de difusão cultural cujos contornos eram, em   todos os sentidos, fluidos. Isto quer dizer que o entusiasmo de pelo menos   alguns mórmones (incluindo índios) relativamente a Wovoka contribuiu para propagar,   em certos contextos, a ideia de que ele era Jesus Cristo. Os quiproquós   linguísticos e conceptuais não eram, para Mooney, fenómenos secundários, mas   uma característica essencial da Dança dos Espíritos, tanto entre índios, como   entre índios e brancos. Os interstícios e as periferias eram por ele   considerados como centrais, em detrimento das doutrinas pretensamente puras dos protagonistas de cada Igreja.<a href="#_ftn18" name="_ftnref18" title=""><sup>[18]</sup></a></p>     <p>&nbsp;</p> </font>     <p><b><font size="3" face="Verdana">AM&Eacute;RICA EM TRANSE: OS SHAKERS DO ESTREITO DE PUGET</font></b></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>Uma outra genealogia   intelectual que remonta diretamente a Mooney é a hipótese sempre evocada, ainda   que duvidosa, de uma relação histórica entre a Dança dos Espíritos e uma Igreja   cristã ameríndia do estado de Washington, os <i>shakers</i>, assim chamados por causa dos seus estremecimentos   nervosos. Em <i>The Ghost Dance Religion</i>,   é dedicado todo um capítulo a essa matéria, tendo o hipnotismo como grande tema   de abertura, mais exatamente o “conhecimento dos segredos hipnóticos”, o qual   poderia ligar esse outro movimento religioso ao próprio Wovoka, neste caso como   aprendiz – mas rapidamente mestre, pois a técnica proveniente da costa noroeste   teria sido transmitida por ele a “todos os apóstolos da Dança dos Espíritos”   (Mooney 1896: 746). Trata-se de um dossiê com ramificações complexas, que não   tenho espaço para desenvolver neste artigo. Permanece até hoje incerto que   Wovoka tenha alguma vez encontrado os <i>shakers</i>;   mas além da obsessão de Mooney por ­processos ­contemporâneos de difusão, o   principal interesse desta incursão é outro, nomeadamente o facto de, na busca de todas as conexões, ter construído o seu próprio labirinto colonial.</p>     <p>Estou a referir-me a um   processo de multiplicação da própria pesquisa através de cartas enviadas a   vários agentes do colonialismo dos Estados Unidos, e nomeadamente das regiões   centrais e orientais suscetíveis de relação direta ou indireta com a Dança dos   Espíritos. Para além da sua atenção ao arquivo, esse <i>modus operandi</i> engendrou novos documentos, alguns dos quais   permanecem peças históricas incontornáveis. É o caso das longas respostas   recebidas de James Wickersham (1857-1939), um advogado que assumira a defesa   dos <i>shakers </i>contra os preconceitos da   comunidade branca do estreito de Puget. Mooney deu uma importância capital a   esse testemunho “carefully written” por um homem que conhecia aquela gente   “intimamente” e cuja abertura de espírito dialogava com a sua. “It may be considered as an official   statement of the Shaker case by their legally constituted representative”, declarou (Mooney 1896:&nbsp;751).</p>     <p>Como prova da sua   sensibilidade rara, Wickersham começara por partilhar com os “seus amigos   índios” a leitura da carta de Mooney. E a sua resposta era, em grande medida, a   de um intermediário. “[T]hey   beg me to write you and explain that they are not Ghost dancers and have no   sympathy with that ceremony […]”, começava por esclarecer (Wickersham, <i>cit.&nbsp;in </i>Mooney 1896: 750). O seu relato tinha a particularidade de dar voz a   John Slocum, uma vez que, no começo do seu trabalho com e para os <i>shakers</i>, um ano antes, tinha anotado em   rascunho o que esse personagem lhe transmitira sobre si próprio e sobre a sua   revelação, através de um intérprete “who spoke pretty good English”. Era com   gosto que enviava a Mooney uma versão mais cuidada, que podia ser tomada como   uma transcrição das “palavras exatas” da figura central do movimento,   importante na medida em que, conforme refere um especialista na matéria, outros   registos contemporâneos sobre esse episódio da vida de um “índio obscuro”, à   parte “rumores, especulações e memórias pouco fiáveis”, são “praticamente   inexistentes” (Wickersham, <i>cit</i>.<i>&nbsp;in </i>Mooney 1896: 752; Barnett 1957:   11). Wickersham também anotara outros discursos, entre os quais o de Louis   Yowaluch, principal apóstolo de Slocum, que punha em evidência a forma como a   pressão colonial engendrara, no estreito de Puget, graves problemas de   alcoolismo e outras dependências, como os jogos de azar, que os missionários   tinham dificuldade em contrariar. “Minister came here, but we laugh at him”, dizia Yowaluch (<i>in</i>&nbsp;Wickersham, <i>cit</i>.<i>&nbsp;in </i>Mooney 1896:   753). Após a sua viagem ao céu, o ébrio descrente que era John Slocum   metamorfoseara-se em defensor da abstinência e de todas as virtudes, sob o   signo do cristianismo – exceto que os índios podiam prescindir dos missionários brancos e da Bíblia.</p>     <p>Não é portanto surpreendente   que esta Igreja cristã indígena, cujos membros faziam o sinal da cruz com muito   mais frequência que os de qualquer outra confissão, tenha sido perseguida até à   entrada em cena de Wickersham. “The spectacle of an Indian church with Indian officers, preachers, and   members, and of houses built by the Indians for church purposes, was too much   for the average citizen of Puget sound”, escreveu o próprio (<i>cit</i>.<i>&nbsp;in   </i>Mooney 1896: 758). O relato dessa   opressão, levada a cabo em grande medida pelo agente da reserva de Skokomish,   Edwin Eells (1841-1895), e pelo seu irmão, o missionário congregacionalista   Myron Eells (1843-1907), é uma das passagens mais dramáticas de <i>The Ghost Dance Religion</i>, não apenas   porque John Slocum foi ele próprio preso, com outras figuras <i>shaker</i> de primeiro plano, mas também   porque Mooney não esconde a sua simpatia pelas vítimas. De facto, as suas palavras a esse   respeito têm uma dimensão universal: “However, religious persecution failed as   utterly in its purpose in this case as it has and must in all others” (Mooney   1896: 756). Citava longamente a argumentação de Wickersham em defesa dos <i>shakers</i>, sendo óbvio que se identificava   com a mesma: “Their only offense was worship of a different form from that   adopted by the agent and his brother. They had broken no law, created no disorder, and yet they suffered ignominious incarceration […]” (<i>cit</i>.<i>&nbsp;in </i>Mooney 1896:&nbsp;756).</p>     <p>&nbsp;</p> </font>     <p><font face="Verdana"><b><font size="3">A IGREJA DE SMOHALLA E A DAN&Ccedil;A PR&Eacute;-COLONIAL</font></b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O aspeto vanguardista do   pensamento de Mooney, nomeadamente o seu reconhecimento das componentes cristãs   e a sua insistência na dimensão colonial da Dança dos Espíritos, sobressai por   contraste com ulteriores leituras culturalistas que procuravam insistir, pelo   contrário, na essência aborígene e literalmente pré-colonial do fenómeno. Foi Leslie   Spier (1893-1961) quem levou mais longe esta perspetiva, ao ponto de gerar uma   polémica no seio da própria antropologia boasiana, quando vários representantes   da mesma se inclinavam entretanto para os estudos de aculturação (mas sem que   por isso o nome de Mooney tenha sido recuperado, por assim dizer).<a href="#_ftn19" name="_ftnref19" title=""><sup>[19]</sup></a> Trata-se da controvérsia da “Dança do Profeta”,   expressão criada por aquele discípulo de Boas para designar aquilo que   acreditava ser um complexo escatológico pré-europeu, originalmente centrado na   bacia do Colúmbia, em seguida na costa noroeste até ao interior do Plateau, mas com repercussões mais longínquas.<a href="#_ftn20" name="_ftnref20" title=""><sup>[20]</sup></a></p>     <p>Especializado nos estudos   de difusão cultural, Spier considerava que a Dança dos Espíritos de 1890 devia   ser compreendida através da descoberta das suas verdadeiras raízes históricas,   que remontariam à Dança do Norte. Mas, sobretudo, insistia no facto de que os   ingredientes ditos milenaristas, nomeadamente a renovação da Terra e o regresso   dos mortos, eram originais e não de influência cristã. Eis porque fez um ajuste   cirúrgico no momento de resumir a doutrina de Wovoka, como que para a extirpar   dessa conotação propriamente alógena. O profeta do Nevada tinha visitado “os   mortos” (e não Deus) e deles teria recebido o ensinamento da dança; aquando da   ressurreição geral, regressariam à Terra “under the guidance of Big Man or Old   Man, their chief”, e não de Deus ou, pior ainda, de Jesus (Spier 1935:&nbsp;7). Spier quis visivelmente evitar estes termos na sua monografia de 1935,   <i>The Prophet Dance of the Northwest and Its Derivatives: The Source of   the Ghost Dance. </i>De igual modo,   desvalorizava as transformações do movimento messiânico nas reservas das   Planícies. Tratava-se apenas de “slight emendations” (Spier 1935:&nbsp;7). É   certo que estava disposto a reconhecer que algumas alterações, como a ênfase na   destruição dos brancos, representavam uma “diferença radical na perspetiva dos   índios”. A forma como completava esta frase de antologia traía contudo a sua   falta de interesse – ou mesmo de sensibilidade – relativamente às questões de   poder colonial: “[…] mas de um ponto de vista descritivo, elas [essas   alterações] têm pouca importância [em inglês, “they are of little moment”]” (Spier 1935:&nbsp;7).</p>     <p>Demarcava-se de Mooney de   forma explícita, ou mesmo exagerada, pois o seu objetivo era demonstrar que a   “origem última” da Dança dos Espíritos de 1890 remontava à Dança do Profeta, e   também que “as circunstâncias do aparecimento” de uma e de outra eram   comparáveis, o que implica, portanto, uma rejeição da interpretação do movimento   como uma reação à situação colonial (<i>vd</i>.&nbsp;Spier   1935:&nbsp;5). A marca intelectual de Spier, a verve da sua obra para o melhor   e para o pior, consistia em ver mais longe, temporalmente falando, do que os   relatos etnográficos dos começos do século&nbsp;XIX, que falavam de um culto de   inspiração cristã em diferentes tribos da bacia do Colúmbia, profetizando um   cataclismo renovador e promovendo uma dança aprendida com os mortos que   preparava o seu feliz regresso à Terra. Era preciso um antropólogo avisado para   não ofuscar a dimensão aborígene desta escatologia de contornos xamânicos. “The situation has been sadly   misinterpreted by these early travellers”, escrevia Spier, “They have assumed   that the source of this medley was wholly Christian; that the pagan rites were unimportant   aberrations” (Spier 1935: 20). Queria   então abrir uma janela sobre um mundo pré-europeu, no mínimo do século&nbsp;XVIII.</p>     <p>Levado pelo entusiasmo,   afirmava por um lado que a sua tese assentava em “provas abundantes a partir de   fontes documentais ou nativas”, enquanto por outro lado a entremeava de   confissões em sentido contrário, chegando a admitir que certas reconstruções   eram “quite tenuous”, “bastante frágeis”, porquanto baseadas em dados   “escassos” ou “fragmentários” (Spier 1935: 13, 16, 18). Fosse como fosse, os   primeiros registos não deviam excluir “ocorrências ainda mais antigas”; era   preciso, no fim de contas, seguir as pistas que permitiam recriar a dança   “anterior à chegada dos brancos” (Spier 1935:&nbsp;8). Além do “mito de Orfeu”   ameríndio, descrevendo em numerosos contextos as aventuras de um herói na terra   dos mortos, tratava-se mais precisamente, na bacia do Colúmbia, de visitas   xamânicas ao além, associadas a sonhos, é claro, e por conseguinte a regressos   ao mundo dos vivos. “Aparentemente”, dizia Spier, “tais relações com os mortos   eram um tema corrente nas culturas do Noroeste, tanto da costa como do Plateau”   (Spier 1935: 15). Uma tal extensão geográfica, a par da imbricação com outras   instituições culturais, “sustentava uma antiguidade considerável” (Spier 1935:   16). Em certos casos, a mensagem trazida do mundo dos mortos defendia a bondade   entre os homens, sob risco de consequências negativas no momento final. Neste   ponto em concreto, Spier admitia que era impossível dizer se se tratava de uma   referência ao juízo final cristão ou a ideias similares no complexo da Dança do   Profeta. De qualquer forma, o <i>leitmotiv</i>   da visita aos mortos provavelmente ganhara a sua roupagem profética nas   culturas do Plateau, onde a doutrina da iminente destruição e renovação da Terra se combinara com uma dança ritual.</p>     <p>Leslie Spier não   considerava que esse tipo de preocupação fizesse parte das tradições   pré-coloniais do Great Basin; em qualquer caso, estava fora de questão associar   a Dança dos Espíritos do Nevada à influência das igrejas cristãs. Pelo   contrário, desenvolveu esforços para provar ou sugerir a existência de laços   históricos, durante o século&nbsp;XIX, entre os <i>paiute</i> do Norte, ou <i>paviotso</i>,   e certos movimentos religiosos da bacia do Colúmbia que julgava herdeiros da   Dança do Profeta.<a href="#_ftn21" name="_ftnref21" title=""><sup>[21]</sup></a> Acontece que esses movimentos, segundo o próprio   Spier, tinham componentes “indubitavelmente cristãs”, mas nem por isso se devia   concluir que a sua essência aborígene passava para segundo plano (Spier 1935:   35). Primeiramente, o antropólogo relembrava um facto aceite pelos   especialistas da região, a saber, que a cristianização a montante do Colúmbia e   do seu grande afluente, o Snake, tinha sido, nos anos 1830, uma   “autocristianização”, ou seja, um processo de difusão entre índios (a partir de   uma célebre trupe de iroqueses do Montana), anterior à chegada dos missionários   ou outros agentes brancos (Spier 1935: 31). E em segundo lugar, considerava que   a existência prévia da Dança do Profeta podia explicar a difusão rápida do   cristianismo, por proselitismo de iniciativa autóctone ou, entretanto, por ação   missionária. Muito simplesmente, havia denominadores comuns, de ordem escatológica, entre as duas tradições religiosas.</p>     <p>Numa palavra, Spier   criticava Mooney por este sobrestimar o lado branco da medalha. O contraste   entre os dois antropólogos torna-se flagrante em relação à Igreja de Smohalla,   um culto profético-messiânico do Plateau que o primeiro associava   genealogicamente à Dança do Profeta, e nomeadamente às versões autocristianizadas   dos anos 1830, para em seguida colocar a hipótese de se tratar de uma das   fontes da Dança dos Espíritos entre os <i>paiute</i>   do Nevada. Porque é que Mooney dedicava dois capítulos a essa Igreja? Porque,   dizia Spier em tom pejorativo, procurava ilustrar outros movimentos ameríndios   de reação religiosa à presença colonial, ignorando o seu enraizamento comum – direto ou indireto, talvez imbricado – na velha Dança do Profeta.</p>     <p>Pior ainda, na perspetiva   deste boasiano estrito, o autor de <i>The     Ghost Dance Religion</i> tinha cometido o erro de acentuar de forma excessiva   as influências cristãs, incluindo mórmones, do profeta Smohalla (<i>c.</i>&nbsp;1815-1895). Este personagem da   pequena tribo <i>wanapum</i> de Washington   quase perdera a vida cerca de 1860, num duelo com um colaborador dos brancos,   após o que empreendeu uma longa excursão para sul.<a href="#_ftn22" name="_ftnref22" title=""><sup>[22]</sup></a> De regresso ao seu povo, qual um ressuscitado,   Smohalla declarou que “the Great Chief Above” ordenava o regresso aos modos de   vida antigos, uma vez que “a miséria da sua condição atual diante da raça   intrusiva” era devida a esse abandono (Mooney 1896: 719). A reconstituição feita por Mooney   suscitou a seguinte observação de Spier: “Mooney believed that Smohalla’s   doctrine was acquired on this journey, whereas I am certain that it is derived   lock, stock, and barrel from local antecedents” (Spier 1935: 40). A bem dizer, Mooney escreveu que a religião de   Smohalla era “um sistema baseado na prática e na mitologia aborígenes, com um   elaborado ritual que combinava características autenticamente índias com muitas   coisas que ele tinha visto e de que se lembrava do cerimonial católico e das   paradas militares, talvez com alguns acrescentos de traços mórmones” (Mooney   1896: 719). Além de rejeitar esta última hipótese, e apesar de admitir a   possibilidade das influências católica e militar, Spier considerava que os   ritos da nova religião eram “também muito provavelmente derivados das versões   cristianizadas da Dança do Profeta dos anos 1830” (Spier 1935: 40). Dito de   outra forma, e no essencial, eram independentes das missões. Sem poder negar a   influência destas na região, inclusive sobre Smohalla durante um período da sua   juventude passado junto de missionários franceses, o antropólogo tentava, portanto, hierarquizar as múltiplas fontes.</p>     <p>Feitas as contas, o   verdadeiro pomo da discórdia entre Spier e Mooney era a dimensão colonial da   Igreja de Smohalla. O primeiro insistia na identidade de doutrina entre esta e   a Dança do Profeta, desde a destruição iminente da Terra até ao regresso dos   mortos, passando pelos transes que permitiam reencontrá-los no interim. Eis uma outra frase de antologia,   destinada a minimizar aquela dimensão: “The only doctrinal peculiarity lay in a   fiercely nationalistic turn which emphasized the annihilation of the whites at   Doomsday” (Spier 1935: 21). Mooney,   por seu turno, tratou claramente a Igreja de Smohalla como sendo, antes de   mais, uma religião de resistência, sem por isso deixar de reconhecer   ingredientes pré-coloniais. Em suma, as duas perspetivas eram diametralmente opostas, ao nível das prioridades ou sensibilidades intelectuais. Deixemos <i>The Prophet Dance</i> e regressemos a <i>The Ghost Dance Religion</i>.</p>     <p>Sem entrar em pormenores,   basta dizer que Mooney fez o historial da opressão colonial das tribos a   montante do Colúmbia e apresentava Smohalla como um líder simultaneamente   político e religioso, cujos apóstolos, refratários à vida nas reservas, se   imiscuíam nelas para recrutar novos prosélitos. Aquilo que Spier percecionava   como uma espécie de pormenor doutrinário era para Mooney a própria essência do   movimento, ou seja, a crença segundo a qual a ressurreição permitiria reforçar   as fileiras índias contra o invasor da terra-mãe, entendido também como um   mutilador da mesma, quer pela agricultura, quer pela construção de estradas,   caminhos-de-ferro, minas, etc. Enquanto esperavam a destruição destas coisas,   os seguidores de Smohalla não deviam submeter-se passivamente aos brancos, mas resistir, ao mesmo tempo que deviam rejeitar as suas indústrias.</p>     <p>&nbsp;</p> </font>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b><font size="3" face="Verdana">EP&Iacute;LOGO: PARA&Iacute;SO PERDIDO</font></b></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>A etnografia   “multissituada” de Mooney, com uma duração total de 22&nbsp;meses no que diz   respeito à sua investigação da Dança dos Espíritos, repartidos entre finais de   1890 e finais de 1893, poderia, segundo o próprio, “prosseguir   indefinidamente”. Em vez de acreditar que a nova religião tinha sido destruída   pela repressão, informava os seus leitores que “a dança continua a existir,   desenvolvendo-se novas características em cada performance” (Mooney 1896: 653).   Podemos dizer que ao aspeto labiríntico do movimento se juntava, na sua perspetiva,   uma dimensão caleidoscópica, isto é, de constante transformação. É por isso que   Mooney dava a maior atenção ao alcance e aos limites de cada testemunho: tudo   era representativo e verdadeiro, tudo era, nas suas palavras, um “correct   statement” (Mooney 1896: 654), num quadro de variabilidade e fluidez   consubstanciais, que não de vã ortodoxia. Mooney tratava o caso profético de   Wovoka como estando imbricado numa teia de novos movimentos religiosos, tanto   do lado dos índios como do lado dos brancos. Não circunscrevia o seu estudo aos   universos ameríndios, pelo contrário alargava a pesquisa etnográfica ao   conjunto dos colonos, mais ou menos recentes, por vezes adeptos de religiões   perseguidas na Europa ou de Igrejas elas próprias em pleno cisma. A força do   antropólogo consistia em identificar diferenças no seio de cada um destes   mundos já de si diversos. Teve o dom de discernir que nada estava circunscrito   de forma estanque: atento às circulações, aos hibridismos, à construção de   novas tradições, apropriadas de forma diferente consoante os contextos, eis um   antropólogo oitocentista que, plenamente mergulhado na história, contradiz um por um os estereótipos que referi no início do artigo.</p>     <p>Por considerar (em face   do que expus acima) demasiado evidente que Mooney revela essa disfunção   historiográfica do olhar pós-colonial, proponho aqui um epílogo, mais do que   uma conclusão. Sobre uma fundação comum derivada principalmente de Wovoka,   “cada tribo construiu uma estrutura a partir da sua própria mitologia, cada apóstolo   e cada crente intercalou pormenores de acordo com os respetivos dotes mentais   ou ideias de felicidade, através de acrescentos vindos ao espírito durante os   transes” (Mooney 1896: 777). Para ajudar o leitor a compreender uma tal   complexidade, o antropólogo evocava um caso histórico bem conhecido: “As   diferenças de interpretação são precisamente como as que encontramos no   cristianismo, com as suas centenas de seitas e as suas inumeráveis nuances de   opinião individual” (1896: 777). Se o cristianismo ocupa um lugar central no   seu estudo, não é apenas por causa das influências brancas na América do Norte;   é também porque Mooney vislumbra, para lá dessas relações históricas,   verdadeiras homologias entre os universos ameríndio e judaico-cristão. A sua   abordagem transcende o problema dos circuitos e das variações de um <i>leitmotiv</i>, para atingir uma dimensão   comparativista que acentua a proximidade, e não a distância, entre   “civilizados” e “selvagens” ou “bárbaros”, em contraste absoluto com as   convicções do seu empregador, John W.&nbsp;Powell. Não há dúvida que Mooney “se   aventurava perigosamente na heterodoxia, não apenas no seio do Bureau, mas na   América cristã em geral” (Moses 2002 [1984]: 91). O diretor do Bureau of   American Ethnology atrasou a publicação e tentou atenuar-lhe essa dimensão   imprevista, escrevendo em jeito de prefácio que era preciso “cautela” na hora   de comparar movimentos religiosos civilizados com “fantasias tais como as descritas na obra” (<i>cit</i>.<i>&nbsp;in </i>DeMallie 1991:&nbsp;xix).</p>     <p>Aparte as comparações de   ordem psicológica,<a href="#_ftn23" name="_ftnref23" title=""><sup>[23]</sup></a> é o comparativismo sociológico que torna a obra   de Mooney rara no panorama da antropologia do século&nbsp;XIX e que reforça o   seu estatuto de pioneiro dos estudos coloniais. Sem esquecer a sua evocação,   nos primeiros capítulos, de uma dúzia de outros profetas norte-ameríndios   anteriores a Wovoka, cuja emergência se explicava segundo ele pela presença   colonial europeia no continente, Mooney transpunha a fronteira entre esse   contexto e a duração universal, através de uma perceção da ubiquidade das questões   de dominação. Ultrapassa assim o estatuto de etnógrafo / historiador   da América, graças à suspeita de que pudesse estar por detrás de todo e   qualquer movimento profético-messiânico uma resposta religiosa a situações de   sujeição política de um povo, nomeadamente por potências estrangeiras. Pode   mesmo dizer-se que intuiu o paralelismo entre o contexto imperial romano de emergência do cristianismo e o da Dança dos Espíritos.</p>     <p>No final de contas, é aí   que está a chave da própria situação colonial deste antropólogo de origem   irlandesa: fazendo embora parte do sistema, que lhe fornece meios e   colaboradores de toda a ordem, Mooney identifica-se essencialmente com os   dominados. Não é por acaso que, em fases ulteriores da sua carreira, entrou em   conflito crescente com instituições e personalidades implicadas na gestão das   reservas. Em referência <i>a contrario </i>ao   pensamento de Fabian, afirmo que, para Mooney, a contemporaneidade dos índios –   de quem sempre assumia a defesa – era radical. É justo que as palavras de   encerramento do presente artigo retomem uma passagem do capítulo inaugural de <i>The Ghost Dance Religion</i>, intitulado   “Paradise lost”. As doutrinas do Messias hebreu, do milénio cristão e da Dança   do Espíritos eram, dizia ele, “essencialmente as mesmas”, porque tinham a sua   origem “numa esperança e num desejo comuns a toda a humanidade”: a recuperação da liberdade.</p> </font>     <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2">“And when     the race lies crushed and groaning beneath an alien yoke, how natural is the     dream of a redeemer, an Arthur, who shall return from exile or awake from some     long sleep to drive out the usurper and win back for his people what they have     lost. The hope becomes a faith and the faith becomes the creed of priests and     prophets, until the hero is a god and the dream a religion, looking to some great     miracle of nature for its culmination and accomplishment” (Mooney     1896:&nbsp;657).</font></p> </blockquote> <font face="Verdana" size="2">     <p>&nbsp;</p> </font><font size="3" face="Verdana"><b>BIBLIOGRAFIA</b></font><font face="Verdana" size="2">     <!-- ref --><p>ANDERSSON,   Rani-Henrik, 2008, <i>The Lakota Ghost Dance of 1890</i>. Lincoln, NE, e Londres, University of Nebraska Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200133&pid=S0873-6561201700020000100001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>BARNETT,   Homer, 1957, <i>Indian Shakers:&nbsp;A     Messianic Cult of the Pacific Northwest</i>. Carbondale, IL, Edwardsville, Southern Illinois University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200135&pid=S0873-6561201700020000100002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>BARNEY,   Garold D., 2011, <i>Mormons, Indians and the Ghost Dance Religion of 1890</i>. Boulder, CO, Bäuu Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200137&pid=S0873-6561201700020000100003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>BASHKOW,   Ira, <i>et al</i>., 2004, “A new Boasian anthropology: theory for the 21<sup>st</sup> century”, <i>American Anthropologist</i>, 106&nbsp;(3): 433-434.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200139&pid=S0873-6561201700020000100004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>BELLEAU, Jean-Philippe, 2015, <i>Ethnophilie: L’amour des autres nations</i>. Rennes, Presses Universitaires de Rennes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200141&pid=S0873-6561201700020000100005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>COATES, Lawrence G., 1985, “The Mormons and   the Ghost Dance”, <i>Dialogue: A Journal of Mormon Thought</i>, 18: 89-111.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200143&pid=S0873-6561201700020000100006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>DARNELL,   Regna, 2001, <i>Invisible Genealogies: A     History of Americanist Anthropology</i>. Lincoln, NE, e Londres, University of Nebraska Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200145&pid=S0873-6561201700020000100007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>DARNELL,   Regna, 2009, “James Mooney”, em Vered Amit (org.), <i>Biographical Dictionary of Social and Cultural Anthropology</i>. Londres e Nova Iorque, Routledge, 358-360.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200147&pid=S0873-6561201700020000100008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>DeMALLIE, Raymond J., 1982, “The Lakota Ghost Dance: an ethnohistorical account”, <i>Pacific Historical Review</i>, 51: 385-405.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200149&pid=S0873-6561201700020000100009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>DeMALLIE,   Raymond J., 1991, “Introduction to the Bison book edition”, em James ­Mooney, <i>The Ghost-Dance Religion and the Sioux     Outbreak of 1890</i>. Lincoln, NE, e Londres, University of Nebraska Press, xv-xxvi.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200151&pid=S0873-6561201700020000100010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>DU BOIS, Cora, 1939, <i>The 1870 Ghost Dance</i>. Berkeley, CA, University of California Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200153&pid=S0873-6561201700020000100011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>ELLIOTT,   Michael A., 1998, “Ethnography, reform, and the problem of the real: James Mooney’s <i>Ghost-Dance Religion</i>”, <i>American Quarterly</i>, 50: 201-233.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200155&pid=S0873-6561201700020000100012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>ERIKSEN,   Thomas Hyllan, e Finn Sivert NIELSEN, 2001, <i>A History of Anthropology</i>. Londres, Pluto Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200157&pid=S0873-6561201700020000100013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>FABIAN,   Johannes, 1983, <i>Time and the Other: How Anthropology Makes Its Object</i>. Nova Iorque, Columbia University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200159&pid=S0873-6561201700020000100014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>HADDON,   Alfred C., 1934 [1910], <i>History of Anthropology</i>. Londres, Watts &amp; Co.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200161&pid=S0873-6561201700020000100015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>HANDLER,   Richard (org.), 2000,<i> Excluded Ancestors,     Inventible Traditions: Essays Toward a More Inclusive History of Anthropology</i>. Madison, WI, University of Wisconsin Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200163&pid=S0873-6561201700020000100016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>HINSLEY,   Curtis, 1981, <i>Savages and Scientists: The     Smithsonian Institution and the Development of American Anthropology 1846-1910</i>. Washington, DC, Smithsonian Institution Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200165&pid=S0873-6561201700020000100017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>HITTMAN,   Michael, 1997 [1990], <i>Wovoka and the Ghost Dance</i>. Lincoln, NE, e Londres, University of Nebraska Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200167&pid=S0873-6561201700020000100018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>IVERSON,   Peter, 1985, recensão de L. G. Moses, <i>The Indian Man: A Biography of James ­Mooney</i>, <i>Reviews in American History</i>, 13: 86-89.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200169&pid=S0873-6561201700020000100019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>KUKLICK,   Henrika (org.), 2008, <i>A New History of Anthropology</i>. Malden, MA, Blackwell Publishing.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200171&pid=S0873-6561201700020000100020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>LEWIS,   Herbert S., 2014, <i>In Defense of     Anthropology: An Investigation of the Critique of Anthropology</i>. New Brunswick, NJ, Transaction Publishers.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200173&pid=S0873-6561201700020000100021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>LOCKE,   Alain, e Bernhard STERN (orgs.), 1946, <i>When     Peoples Meet: A Study in Race and Culture Contacts</i>. Nova Iorque, Hinds, Hayden &amp; Eldredge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200175&pid=S0873-6561201700020000100022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>LOWIE,   Robert H., 1938, <i>The History of Ethnological Theory</i>. Londres, G. G. Harrap &amp; Co.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200177&pid=S0873-6561201700020000100023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>MADDRA,   Sam A., 2006, <i>Hostiles? The Lakota Ghost     Dance and Buffalo Bill’s Wild West</i>. ­Norman, OK, University of Oklahoma Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200179&pid=S0873-6561201700020000100024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>MEAD,   Margaret, e Ruth L. BUNZEL, 1960, <i>The Golden Age of American Anthropology</i>. Nova Iorque, George Braziller.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200181&pid=S0873-6561201700020000100025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>MOONEY,   James, 1896, <i>The Ghost Dance Religion and     the Sioux Outbreak of 1890</i> (<i>Fourteenth       Annual Report of the Bureau of Ethnology to the Secretary of the Smithsonian       Institution 1892-1893, Part&nbsp;II)</i>. Washington, DC, Government Printing Office.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200183&pid=S0873-6561201700020000100026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>MOSES,   Lester G., 2002 [1984], <i>The Indian Man: A     Biography of James Mooney</i>. Lincoln, NE, e Londres, University of Nebraska Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200185&pid=S0873-6561201700020000100027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>NADER,   Laura, 2002, “Sleepwalking through the history of anthropology: anthropologists   on home ground”, em W.&nbsp;Merrill e   I.&nbsp;Goddard (orgs.), <i>Anthropology,     History, and American Indians: Essays in Honor of William Curtis Sturtevant.</i> Washington, DC, Smithsonian Institution Press, 7-54.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200187&pid=S0873-6561201700020000100028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>ORTNER,   Sherry, 2006, <i>Anthropology and Social     Theory: Culture, Power and the Acting Subject</i>. Durham, NC, e Londres, Duke University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200189&pid=S0873-6561201700020000100029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>SIDKY,   H., 2003, <i>A Critique of Postmodern     Anthropology: In Defense of Disciplinary Origins and Traditions</i>. Lewiston, Queenston, Lampeter, The Edwin Mellen Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200191&pid=S0873-6561201700020000100030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>SPIER,   Leslie, 1935, <i>The Prophet Dance of the     Northwest and Its Derivatives: The Source of the Ghost Dance</i>. Menasha, WI, George Banta Publishing Company.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200193&pid=S0873-6561201700020000100031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>UTLEY,   Robert M., 1963, <i>The Last Days of the Sioux Nation</i>. New Haven, CT, Yale University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200195&pid=S0873-6561201700020000100032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>VARISCO,   Daniel Martin, 2008, <i>Reading Orientalism:     Said and the Unsaid</i>. Seattle, WA, e Londres, University of Washington Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200197&pid=S0873-6561201700020000100033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>VIDAL, Claudine, 1976, “Des peaux-rouges   aux marginaux: l’univers fantastique de l’ethno­logie”, <i>Cahiers Jussieu (Le mal de voir. Ethnologie et orientalisme: politique et epistémologie, critique et auto-critique)</i>, 2: 11-71.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200199&pid=S0873-6561201700020000100034&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>VINCENT,   Joan, 1990, <i>Anthropology and Politics:     Visions, Traditions, and Trends</i>. Tucson, AZ, The University of Arizona Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200201&pid=S0873-6561201700020000100035&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>WALLACE,   Anthony F. C., 1976 [1965], “James Mooney (1861-1921) and the study of   the Ghost Dance religion”, em J.&nbsp;Mooney,   <i>The Ghost Dance Religion and the Sioux Outbreak of 1890</i>. Chicago e Londres, The University of Chicago Press, v-x.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=200203&pid=S0873-6561201700020000100036&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> </font><font size="3" face="Verdana"><b>NOTAS</b></font><font face="Verdana" size="2">     <p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1" title="">[1]</a>       Expressão   utilizada por Sherry Ortner (2006) para designar a viragem da antropologia para as questões de poder.</p>     <p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2" title="">[2]</a>       No   Departamento de Antropologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.</p>     <p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3" title="">[3]</a>       O   livro de J. Vincent, <i>Anthropology and     Politics</i> (1990), que pode a justo título ser considerado uma das melhores e   mais completas histórias da antropologia, é uma importante exceção. A autora   corajosamente interpreta a obra de Mooney como um ponto alto do contributo da   antropologia clássica para o estudo das “políticas de dominação” (Vincent 1990: 201).</p>     <p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4" title="">[4]</a>       É   errado pensar, contudo, que a obsessão pré-colonial não foi ultrapassada por   diversos representantes do boasianismo. Os estudos de “aculturação” constituem   um dossiê vasto, bastante negligenciado hoje nas suas complexas dimensões teóricas e etnográficas.</p>     <p><a href="#_ftnref5" name="_ftn5" title="">[5]</a>       Naturalmente   que a utilização desta expressão de cariz metodológico, remetendo para   preocupações teóricas do nosso tempo, deve ser entendida no que tem de   provocatório, de acordo com a lógica que enunciei no parágrafo anterior, de   novas modalidades de presentismo em historiografia, suscetíveis de interpelar   os antropólogos de contemporaneidade de uma forma que nem sempre é conseguida   pelo historicismo <i>à</i>   <i>outrance</i> de um G. W. Stocking, Jr.</p>     <p><a href="#_ftnref6" name="_ftn6" title="">[6]</a>       Deve   ser tido em conta que, por razões de espaço, o presente artigo não contempla,   nem poderia contemplar, toda a bibliografia da Dança dos Espíritos de 1890,   cujas ramificações temáticas aliás extravasam os domínios da antropologia e   continuam a alimentar numerosos estudos no âmbito da história dos Estados Unidos da América.</p>     <p><a href="#_ftnref7" name="_ftn7" title="">[7]</a>       Esta   expressão das primeiras décadas do século XIX, ainda hoje usada no universo   americanista, designava os <i>cherokee</i>,   os <i>choctaw</i>, os <i>chickasaw</i>, os <i>creek</i> e os <i>seminole</i>, por terem adotado em grande medida a cultura dos brancos.</p>     <p><a href="#_ftnref8" name="_ftn8" title="">[8]</a>       Correspondendo   em grande medida ao futuro estado de Oklahoma, o vasto “Território Índio”   (Indian Territory) foi criado em 1834 para aí concentrar tribos expropriadas dos seus próprios territórios.</p>     <p><a href="#_ftnref9" name="_ftn9" title="">[9]</a>       “The   Indian Messiah dellusion”, <i>The New York Times</i>, 20 de novembro de 1890.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#_ftnref10" name="_ftn10" title="">[10]</a>     Os <i>lakota</i> (ou <i>teton</i>) eram um dos três grupos – o mais ocidental – que compunham a   grande nação índia popularmente designada pelo termo “<i>sioux</i>”. Os dois outros eram os <i>santee</i> (ou <i>dakota</i>) e os <i>yankton</i> (ou <i>nakota</i>). </p>     <p><a href="#_ftnref11" name="_ftn11" title="">[11]</a>     Não   posso aprofundar aqui a questão das interseções históricas evidentes, ainda que   complexas, entre os representantes deste campo de investigação e os culturalistas que se dedicavam aos estudos de aculturação.</p>     <p><a href="#_ftnref12" name="_ftn12" title="">[12]</a>     Note-se   que a palavra <i>outbreak</i> não quer dizer   forçosamente insurreição, mas de forma mais geral uma erupção de violência, razão pela qual a deixo em inglês.</p>     <p><a href="#_ftnref13" name="_ftn13" title="">[13]</a>     O   célebre clássico de Robert Utley (1963) seria o exemplo maior dessa tradição.</p>     <p><a href="#_ftnref14" name="_ftn14" title="">[14]</a>     É   curioso constatar que DeMallie (1982), fazendo a apologia sistemática de Mooney   a vários níveis, foi um dos primeiros americanistas que chamaram a atenção para   os limites do seu trabalho ao nível da Dança dos Espíritos <i>lakota</i>. Desse ponto de vista, é possível entrever uma história da   antropologia que situa as alegadas ruturas num quadro mais complexo de articulações intelectuais, ou mesmo continuidades, entre as diferentes gerações.</p>     <p><a href="#_ftnref15" name="_ftn15" title="">[15]</a>     Há um   consenso nessa matéria, entre Mooney e os especialistas atuais.</p>     <p><a href="#_ftnref16" name="_ftn16" title="">[16]</a>      Datas   de nascimento e morte não determinadas. </p>     <p><a href="#_ftnref17" name="_ftn17" title="">[17]</a>     Mooney   (1896: 794) admitia até que “a town on a big lake” fosse Salt Lake City.</p>     <p><a href="#_ftnref18" name="_ftn18" title="">[18]</a>     Esta   visão é também corroborada pelo célebre dossiê da <i>ghost shirt</i>, e suas hipotéticas relações com o <i>endowment robe</i> mórmon, que não tenho espaço para desenvolver.</p>     <p><a href="#_ftnref19" name="_ftn19" title="">[19]</a>     A obra   de Mooney está ausente da compilação de charneira, <i>When Peoples Meet</i> (Locke e Stern 1946). Por outro lado, Margaret   Mead e Ruth Bunzel (1960) fizeram uma justa reparação na sua coletânea <i>The Golden Age of American Anthropology</i>, onde incluíram excertos da obra de Mooney.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#_ftnref20" name="_ftn20" title="">[20]</a>     A lista   das etnias e grupos linguísticos envolvidos é complexa; abstenho-me de a reproduzir (<i>vd</i>. Spier 1935: 11).</p>     <p><a href="#_ftnref21" name="_ftn21" title="">[21]</a>     Em   estreita colaboração com Cora Du Bois, que fez do assunto seu domínio de   especialidade (Du Bois 1939), Spier tinha sobretudo em mente a influência   desses movimentos na Dança dos Espíritos de 1870 entre os <i>paiute</i>, acusando ao mesmo tempo Mooney de ter negligenciado a importância desta para compreender a ressurgência de 1890.</p>     <p><a href="#_ftnref22" name="_ftn22" title="">[22]</a>     Mooney   citava, a esse propósito, Junius MacMurray (1843-1898), um oficial do exército   americano que conhecia pessoalmente Smohalla e que ouvira da sua boca o relato da viagem.</p>     <p><a href="#_ftnref23" name="_ftn23" title="">[23]</a>      Mooney   fazia sobressair a normalidade, enquanto característica humana transversal, das   alterações psíquicas dos índios, ao ponto de levar a comparação até aos   fundadores das religiões do Livro. Sem poder aqui desenvolver esse capítulo da   história das ideias, o qual atingia o cristianismo, sublinho a compatibilidade   entre a perspetiva de Mooney e o comparativismo das semelhanças levado a cabo por numerosos antropólogos evolucionistas. </p> </font>       ]]></body><back>
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