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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Entre fábulas e reformulações: o turismo na Mauritânia pós-colonial]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article aims to reflect on the reconfigurations recently performed within the scope of Mauritanian tourism. Seeking in a first moment to list the processes that led to the formalization of tourism in the post-colonial period, it then characterizes the crisis currently experienced in the sector, pursuing to identify its origins. Starting from an ethnography carried out in Nouakchott in 2010 and 2011, the text seeks to give voice to various parties linked to the tourism sector. Finally, the text discusses tourism reconversion strategies that include the export of cultural symbols and authenticity markers, and suggests the existence of new relations of dependence between France and its former colony.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana">       <b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b><font size="4" face="Verdana">Entre fábulas e reformulações: o turismo na Mauritânia pós-colonial</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="3" face="Verdana">Between fables and reformulations: tourism in post-colonial Mauritania</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Joana Lucas</b><sup><b>I</b></sup></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><sup>I</sup>Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA/NOVA FCSH), Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Portugal</font>. <font size="2" face="Verdana">E-mail:    <a href="mailto:joana.i.lucas@gmail.com">joana.i.lucas@gmail.com</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <hr noshade size="1">     <p><font size="2" face="Verdana"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Este artigo pretende   refletir sobre as reconfigurações recentemente operadas no âmbito da atividade   turística na Mauritânia. Procurando, em primeiro lugar, elencar os processos   que conduziram à formalização do turismo no período pós-colonial,   caracteriza-se posteriormente a crise que se vive atualmente no setor,   procurando identificar as suas origens. A partir de uma etnografia realizada em   Nouakchott em 2010 e 2011, o texto procura dar voz a diversos interlocutores ligados   ao setor do turismo. Por último, são discutidas algumas estratégias de   reconversão do turismo mauritano que passam pela exportação de símbolos culturais e marcadores de   autenticidade, e sugere-se a existência de novas relações de dependência entre   França e o antigo território colonial.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Palavras-chave:</b> Mauritânia, turismo, pós-colonialismo, mercantilização da cultura</font></p> <hr noshade size="1">     <p><b><font size="2" face="Verdana">ABSTRACT</font></b></p>     <p><font size="2" face="Verdana">This article   aims to reflect on the reconfigurations recently performed within the scope of   Mauritanian tourism. Seeking in a first moment to list the processes that led   to the formalization of tourism in the post-colonial period, it then   characterizes the crisis currently experienced in the sector, pursuing to   identify its origins. Starting from an ethnography carried out in Nouakchott in   2010 and 2011, the text seeks to give voice to various parties linked to the   tourism sector. Finally, the text discusses tourism reconversion strategies   that include the export of cultural symbols and authenticity markers, and   suggests the existence of new relations of dependence between France and its   former colony.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Keywords:</b> Mauritania, tourism, post-colonialism, commodification of culture</font></p> <hr noshade size="1">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">Centrando-se no período   pós-colonial da Mauritânia e na sua (tardia) consolidação turística, este texto   procura esboçar uma breve contextualização relativa à formalização da atividade   turística, discutindo igualmente os desafios contemporâneos de um país que se tornou refém da política externa francesa e das suas idiossincrasias.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">A partir de uma pesquisa   de terreno etnográfica realizada em 2010 e 2011 em Nouakchott, procurarei   ilustrar, dando voz a interlocutores diversos, as formas como é vivida e   percecionada a já duradora crise no setor do turismo nacional, e que   reconfigurações foram operadas localmente, com especial ênfase nas áreas geográficas onde a atividade turística era mais expressiva.<a href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><sup>[1]</sup></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O turismo irá assumir-se   assim enquanto objeto central deste texto. Creio que, se o turismo deve ser   entendido quer como um ato de consumo quer como uma construção social, não faz   sentido, tal como afirma Sampaio, reduzi-lo a uma atividade estritamente   económica, nem “[…] alienar as práticas turísticas dos contextos materiais   (sociais, económicos e político-económicos) em que se inserem” (Sampaio 2013:&nbsp;178).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Assim, procurarei   privilegiar o entendimento do turismo enquanto fenómeno cultural complexo, tal como é proposto por Leite e Graburn:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“Tourism is     […] most productively viewed not as an entity in its own right, but instead as     a social field in which many actors engage in complex interactions across time     and space, both physical and virtual” (Leite e ­Graburn 2009:&nbsp;37).</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Desta forma, o estudo do   turismo na Mauritânia deverá ter em conta a especificidade dos encontros   históricos e coloniais que tiveram lugar no território, e ao longo deste texto   procurarei lembrar como o mesmo foi construído turisticamente através de   discursos heterogéneos e variáveis, mas também através de agendas políticas em constante transmutação.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>A estruturação da atividade turística na   Mauritânia pós-colonial</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ao contrário do período   colonial, em relação ao qual é possível ­traçar e contextualizar,   essencialmente através de material de arquivo, o desenvolvimento da atividade   turística na Mauritânia, as ­fontes relativas ao período que se segue à   independência do território são escassas.<a href="#_ftn2" name="_ftnref2" title=""><sup>[2]</sup></a> Torna-se, portanto, tarefa árdua a perceção de um   desenvolvimento linear da atividade turística a partir de 1960, e aqui darei   conta do parco material de arquivo encontrado, a partir do qual procurei   construir uma tímida e modesta genealogia da atividade turística na Mauritânia pós-colonial.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em 1972 é formalizada a   primeira agência de viagens em território mauritano: “L’Agence Mauritanienne de   Voyages et Transit”, única agência de viagens até ao início da década de 1980.   Alguns anos depois, em 1975, é editada uma brochura relativa às possibilidades   de turismo em vários países da África Ocidental onde a “dificuldade” de   organização de circuitos turísticos na ­Mauritânia é evidenciada, propondo esta   publicação uma visita ao recém-inaugurado Museu Nacional de Nouakchott como forma de substituir uma viagem pelo país:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“Les difficultés que pose l’organisation de     circuits touristiques en Mauritanie ont conduit à développer la description du     Musée dont la visite donne un excellent aperçu de cet immense pays” ([Anónimo]     1975:&nbsp;169).<a href="#_ftn3" name="_ftnref3" title=""><sup>[3]</sup></a></font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Esta brochura, editada em   Paris, recupera o embaraço e a inabilidade do turismo colonial em “gerir”   turisticamente as características do território da Mauritânia: grandes   extensões áridas e desérticas, ausência quase generalizada de monumentos ou   outro tipo de atrações materiais associadas às motivações de grande parte das   viagens turísticas.<a href="#_ftn4" name="_ftnref4" title=""><sup>[4]</sup></a> É neste contexto que o Museu Nacional se   apresenta como um aparente condensado da “cultura nacional” e uma “montra” oficial do país.<a href="#_ftn5" name="_ftnref5" title=""><sup>[5]</sup></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Numa publicação bilingue   (francês / inglês) e editada em ­Nouakchott, a Mauritânia aparece   como um destino turístico onde o deserto constitui uma das principais atrações, algo que é enfatizado na forma romantizada e metafórica como este é promovido:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“[…] le Grand Désert du Sahara dont les     dernières grandes vagues de sable blanc et blond viennent mourir en     moutonnements opales au pied des massifs gris de l’Adrar et du Tagant” ([Anónimo]<b>&nbsp;</b>s. d.).</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Mas, para além do   deserto, a Mauritânia poderia também oferecer a sua antítese: o grande oásis   como reverso e contraponto da aridez da paisagem. Descrito a partir das suas   cores “luxuriantes” e da sua flora abundante, o oásis é apresentado como o “duplo”   do deserto, o segredo bem guardado e oculto que reforça e consolida o discurso orientalista aplicado à paisagem:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“Terre des grands espaces et des vertes oasis     où, de mai à juillet, les grosses grappes de dattes rouges se nichent à la     naissance des palmes vertes, lamellées comme d’étranges stores vénitiens. […]     Ainsi placée entre ces grands axes naturels, la Mauritanie a connu de bonne     heure le double contact de l’Orient et de l’Occident” ([Anónimo]&nbsp;s. d.).</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Esta brochura enfatiza   igualmente a pluralidade geográfica do país, a sua ligação ao Norte de África e   a possibilidade de aliar deserto e floresta sem maiores dificuldades do que as centenas de quilómetros necessários para percorrer o território:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“[…] le choix est large, pour le visiteur     désireux de sites variés, du Nord des longes chaines de dunes de sable dont la     blancheur et la pureté fascinent, au bord du fleuve où l’enchevêtrement     chaotique des lianes de mimosées et des rideaux verts de palétuviers respire     quelque chose des grands forêts africaines…” ([Anónimo]&nbsp;s.d.).</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Somente em 1987 é criada   a Somasert (Société Mauritanienne de Services et Tourisme), que acaba por   funcionar durante perto de uma década como a principal impulsionadora do   turismo em território mauritano, assim como interlocutora privilegiada de operadores turísticos internacionais.<a href="#_ftn6" name="_ftnref6" title=""><sup>[6]</sup></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Será necessário esperar   até 1994 para que a iniciativa estatal com vista à coordenação e organização do   setor do turismo se manifeste através da publicação da “Déclaration de   Politique Générale du Tourisme” e da criação do Ministério do Comércio, do   Artesanato e do Turismo, seguidas em 1996 de uma lei que regulamenta o setor.<a href="#_ftn7" name="_ftnref7" title=""><sup>[7]</sup></a> As principais questões e condições para o   desenvolvimento do turismo no país são enunciadas neste documento: o turismo   deveria respeitar os valores religiosos e culturais do país, assim como o seu equilíbrio ambiental.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em 2003, quase uma década   após a criação do referido ministério, é fundado, em julho, o Gabinete Nacional   do Turismo, estrutura administrativa intermédia que se ocuparia de gerir a   atividade turística a nível nacional, mas também de promover o turismo mauritano para o exterior.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Estas estruturas de   gestão e administração do turismo nacional são concebidas e postas em marcha   alguns anos depois do início de um movimento de crescimento progressivo da   atividade turística no país, que começara no final de 1996 na região do Adrar.   De facto, foi a Somasert que tomou em mãos a consolidação do turismo e fê-lo, em grande medida, substituindo o Estado mauritano.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Foi este despertar tardio   em relação ao setor do turismo que levou a que a Somasert operasse durante   cerca de dez anos sem qualquer enquadramento, tendo como parceira uma   organização francesa de “turismo solidário”: a Point-Afrique. Esta constitui-se   em 1996 enquanto cooperativa de viagens, muito centrada na figura de Maurice   Freund, seu diretor e principal dinamizador de circuitos, propondo aos seus   clientes uma deontologia turística, assim como “cartas éticas do viajante”, no   sentido de uma “moralização do turismo”, tal como é definida por Butcher   (2003).<a href="#_ftn8" name="_ftnref8" title=""><sup>[8]</sup></a> A deontologia turística defendida pela   Point-Afrique procura não perder de vista a defesa de um turismo pelo   desenvolvimento e propõe uma prática turística assente na igualdade e no respeito pelo “outro”.<a href="#_ftn9" name="_ftnref9" title=""><sup>[9]</sup></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Assim, e após o   estabelecimento de uma parceria entre a Somasert e a ­Point-Afrique, em   dezembro de 1996 começam a ser realizados voos <i>charter</i> entre França e Atar, uma pequena localidade no nordeste da   Mauritânia. O primeiro voo transportou 135 passageiros, e nos anos seguintes o   número de voos <i>charter</i> não parou de aumentar.<a href="#_ftn10" name="_ftnref10" title=""><sup>[10]</sup></a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Do <i>boom</i> ao desconcerto: sobrevivência e nichos de mercado</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Avancemos para o   acontecimento que transformou radicalmente o panorama turístico da Mauritânia e   pôs ponto final ao crescimento de uma década. A 24 de dezembro de 2007 são   assassinados quatro cidadãos franceses em Aleg, no sul do país, e poucos dias   depois é cancelada a edição de 2008 do rali Paris-Dakar, que a partir dessa data deixa de se realizar no continente africano.<a href="#_ftn11" name="_ftnref11" title=""><sup>[11]</sup></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Este homicídio foi   rapidamente imputado à “Al Qaeda do Magreb Islâmico” (AQMI) e constituiu algo   inédito na Mauritânia, país sem historial de extremismos religiosos e / ou   políticos. Estes acontecimentos levaram a que o Ministério dos Negócios   Estrangeiros francês classificasse no seu <i>website</i> a Mauritânia como lugar desaconselhável para as deslocações turísticas, e   dividisse o território entre “zona vermelha”, “formalmente desaconselhada”, e   “zona laranja”, “desaconselhada salvo razão imperativa”, correspondendo à   proclamada “zona vermelha” a principal área de desenvolvimento da atividade turística – o Adrar (ver <a href="#f1"f1">figura&nbsp;1</a>).<a href="#_ftn12" name="_ftnref12" title=""><sup>[12]</sup></a></font></p>     <p><a name="f1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/etn/v21n3/21n3a04f1.jpg" width="281" height="407"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">A partir desse momento, a   atividade turística na Mauritânia teve um decréscimo abrupto. A Point-Afrique,   principal operadora turística no país desde 1996, manteve numa primeira fase os   voos <i>charter</i> com destino à   Mauritânia, mas rapidamente é levada a reconsiderar a decisão.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A Point-Afrique daria   assim por suspensa a sua atividade turística na Mauritânia e começava a   programar novos destinos, tais como o Chade, que nas palavras da operadora   constituiria “O único deserto saariano aberto ao turismo”.<a href="#_ftn13" name="_ftnref13" title=""><sup>[13]</sup></a> Quanto à Mauritânia, e apesar das dúvidas da   Point-Afrique relativamente ao verdadeiro “perigo” que a visita turística representava, ficaria fora dos seus circuitos durante largos anos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Após a suspensão dos voos <i>charter</i> e a retirada da Point-Afrique   da Mauritânia, interessava-me perceber se seria mantida alguma atividade   turística que não estivesse enquadrada na lógica e nos circuitos outrora   frequentados pelos passageiros dos voos <i>charter</i>.   Foi nesse sentido que questionei os meus entrevistados, procurando perceber se   haviam sido criados nichos de mercado ou se a Mauritânia teria acentuado o seu   caráter de país de “passagem”, lugar temporário para turistas que atravessam o território com destino a outros países africanos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Se o seu caráter   transitório foi, e continua a ser, uma realidade que importa discutir no   contexto do panorama turístico nacional da Mauritânia, interessaria igualmente   perceber se “existiria vida” para além da Point-Afrique e dos seus circuitos   pelo Adrar. Alguns dos meus interlocutores confirmaram a existência de nichos   de mercado turísticos, constituindo-se na sua maioria enquanto programas que não beneficiavam as populações locais, tal como refere M.&nbsp;Hamza Babetta:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“Neste momento há muita     gente que vem da Argentina, do México, da América do Sul para a caça no sul do     país. Temos uma casa mauritana que recebe todos os anos centenas de turistas     que vêm de muito longe e que gastam muito dinheiro para vir à Mauritânia, para     irem à caça perto de Rosso [no sul, junto ao rio Senegal]: eles caçam o facochero.     Eu sei que os caçadores não são muito queridos na Europa, mas eles têm o     direito de fazer o que gostam… […] Recebemos também gente     do Golfo que vem para a caça com falcões. É gente muito rica. Eles compram as suas autorizações de caça no     Ministério, trazem carros, ficam um mês, mês e meio, e vêm em família. Eles     acampam, mas trazem tudo dos seus países” [entrevista a M.&nbsp;Hamza Babetta,     Nouakchott, 20 de outubro de 2011].<a href="#_ftn14" name="_ftnref14" title=""><sup>[14]</sup></a></font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Também Mohamed Mahmoud   Bewba Nemoud confirma a existência de um turismo autossuficiente, não   beneficiando as populações locais, como é o caso dos circuitos de <i>camping-car</i>, nos quais os turistas   utilizam as suas próprias viaturas como lugares para pernoita e alimentação,   apenas recorrendo ao comércio local para o abastecimento de combustível e bens alimen­tares.<a href="#_ftn15" name="_ftnref15" title=""><sup>[15]</sup></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Apesar da existência   destes nichos de mercado, o panorama turístico nacional está ainda “de luto”,   assistindo-se a um êxodo com origem no Adrar. Se, com o início dos voos <i>charter</i> em 1996 e o crescente movimento   por eles gerado, uma importante fatia da população que havia outrora migrado   para os principais centros urbanos (Nouakchott e Nouadhibou) regressara aos seus lugares de origem, então o movimento tendia a inverter-se.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Como refere M. Saad   Maayniye Cheikh Saad Bouh, assistiu-se a uma inversão migratória no período   posterior ao <i>boom</i> turístico e   voltaram a ser os grandes aglomerados urbanos o destino migratório das populações que se haviam dedicado ao turismo na região do Adrar:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“Há as populações que não     têm escolha, que vivem no Adrar e que não se podem deslocar, que vão fazendo um     pouco de agricultura enquanto as coisas não melhoram. E depois há uma segunda     população, mais juvenil, que presta serviços. Esses vão certamente sair do     Adrar, para ­Nouadhibou e ­Nouakchott” [entrevista a M.&nbsp;Saad Maayniye     Cheikh Saad Bouh, ­Nouakchott, 18 de outubro de 2011].<a href="#_ftn16" name="_ftnref16" title=""><sup>[16]</sup></a></font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Esta afirmação é   corroborada por Nemoud, que relata a estagnação económica na região do Adrar,   mas aponta algumas soluções encontradas pelos habitantes outrora dependentes da   economia do turismo, que reconfiguraram as suas atividades e as puseram ao serviço das populações locais:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“Nemoud afirma que as     coisas na região do Adrar estão muito complicadas. A maior parte das pessoas     mantém os albergues abertos porque não tem condições económicas para fazer     outras coisas e porque não podem sair da zona. Algumas agências de viagem     venderam os seus veículos e mudaram de ramo. Há o caso concreto da Salima     Voyages, que transformou a sua frota automóvel, que servia para transportar     turistas, em carreiras de autocarro entre Nouakchott e Atar. Nemoud refere     também que grande parte da população mais jovem migrou nos últimos anos para as     grandes cidades – ­Nouakchott e Nouadhibou – à procura de trabalho” [excerto do     diário de campo, Nouakchott, 25 de outubro de 2011].<a href="#_ftn17" name="_ftnref17" title=""><sup>[17]</sup></a></font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Já Zaida Mint Bilal,   residente em Ouadane e proprietária de um albergue turístico, chama a atenção   para o facto de as possibilidades de mobilidade não serem iguais para todos.<a href="#_ftn18" name="_ftnref18" title=""><sup>[18]</sup></a> Zaida é menos otimista quanto às reais   possibilidades de reconfiguração social para as populações que se dedicavam quase exclusivamente ao turismo desde a segunda metade dos anos 1990:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“Não é toda a gente que se     pode meter a caminho de Nouakchott ou Nouadhibou para trabalhar como taxista ou     outra coisa qualquer… A maior parte das ‘Tour Operators’ de Atar, Ouadane e     Chinguetti fecharam e venderam as viaturas. Outros montaram autocarros entre     Atar e Nouakchott. Mas a maior parte das pessoas está lá à espera que as coisas     mudem e que os turistas regressem” [entrevista a Zaida Mint Bilal, Nouakchott,     26 de outubro de 2011].</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">A constatação das   reconfigurações sociais na região do Adrar é igualmente observada pelas   agências turísticas internacionais que operavam na área. Também estas referem   uma alteração significativa da paisagem social e económica, provocada pela quebra drástica da atividade turística na região:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“A Atar comme à Chinguetti, les touristes ont     disparu. Parmi ceux qui ont travaillé avec Zig-Zag ces dernières années,     certains sont partis pour ­Nouakchott et d’autres accompagnent leurs troupeaux     de chameaux au gré des précipitations, vers le Zemmour ou le Tagant (la     Mauritanie est sans doute un des derniers pays au monde où existe encore un     véritable nomadisme ou semi-nomadisme!). Une situation que nous espérons     provisoire d’autant plus que les quelques randonneurs présents dans l’Adrar     l’hiver passé ont pu constater que tout était calme!” [<i>Website</i> da agência de viagens Zig-Zag]<sup>&nbsp;</sup><a href="#_ftn19" name="_ftnref19" title=""><sup>[19]</sup></a></font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Aquando da minha estadia   em Nouakchott em 2011, a Association Nationale des Guides Sahariens acabara de   publicar no seu <i>website</i> uma carta   aberta ao então presidente francês, Nicolas Sarkozy. Nesta missiva criticavam a   classificação de parte do país enquanto “zona vermelha” pelo poder político   francês, e responsabilizavam a França pela destruição do tecido económico da   região, deixando entrever a enorme dependência que o país continuava a ter em relação à metrópole francesa:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“Mesdames et Messieurs, avez-vous vraiment     conscience qu’en classant ainsi les zones touristiques mauritaniennes, vous     condamnez à mort une activité essentielle au développement de notre pays vers     un modèle respectueux de notre population, de l’environnement, et riche de nos     savoirs-faire ancestraux&nbsp;?” [“Lettre ouverte à Monsieur le Président de la     République française”, 18 de outubro de 2011]<b><sup>&nbsp;</sup></b><a href="#_ftn20" name="_ftnref20" title=""><sup>[20]</sup></a></font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Neste pequeno excerto vemos como as lógicas e   a linguagem associadas a uma atividade turística política e moralmente correta   – a ecologia, a tradição e a sustentabilidade – foram incorporadas pelos   agentes locais da dinamização turística, e são acionadas quando em diálogo com   as estruturas e os representantes do poder. Este apelo ao poder francês revela   antes de mais o perpetuar de uma relação de dependência entre a Mauritânia e o   antigo colonizador, assumindo agora outros contornos e nuances: o aval francês   relativo à visitabilidade turística do país tornou-se um imperativo categórico para a sobrevivência das populações.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Esta subordinação às políticas e imposições   francesas remete-nos para as análises de Nash (1978) e Cazes (1989), para quem   o turismo praticado em ex-territórios coloniais constitui uma nova forma de   imperialismo, ou ainda uma perpetuação do seu estatuto colonial,   respetivamente. Para Nash (1978), o poder dos centros metropolitanos para   desenvolverem “fora de portas” atividades turísticas que respondam às   necessidades de um “centro produtivo” – aquele que gera os turistas e as suas necessidades – é a essência mesma do turismo enquanto forma de imperialismo:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“[…] metropolitan centers have varying degrees     of control over the nature of tourism and its development, but they exercise it     – at least at the beginning of their relationship with tourist areas – in alien     regions. It is this power over touristic and related developments abroad that     makes a metropolitan center imperialistic and tourism a form of imperialism”     (Nash 1978:&nbsp;35).</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Mas se, como afirma Nash, é a expansão dos   interesses de uma sociedade fora dos seus limites geográficos que a torna   imperialista, as “novas colónias de férias”, tal como enunciadas por Cazes (1989)   coincidem, como é o caso da Mauritânia, com ex-territórios coloniais que   continuam a procurar responder às necessidades de um “centro produtivo”,   perpetuando a sua “essência” enquanto lugares marcados pelo “exotismo”, mas também pela dependência económica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Paralelamente, a carta redigida pela ANGS   levanta igualmente o véu sobre a assimetria das políticas francesas quanto à   classificação de destinos turísticos “seguros” e “inseguros”, revelando a   desproporção das medidas adotadas face à Mauritânia quando comparadas com a atitude perante outros contextos geográficos:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“Vous objecterez que des drames survenus en     Mauritanie en 2007 et 2009 expliquent ce classement. Pouvons-nous humblement     vous demander s’il est des places au monde qui n’aient jamais été éclaboussées     par les soubresauts liés à l’état actuel du monde&nbsp;? Plus récemment encore,     le célèbre café Argana à Marrakech dans lequel plusieurs citoyens français ont     trouvé la mort, a suscité même une réaction positive du gouvernement français     en encourageant et en approuvant cette destination” [“Lettre ouverte à Monsieur     le Président de la République française”, 18 de outubro de 2011].<a href="#_ftn21" name="_ftnref21" title=""><sup>[21]</sup></a></font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">A reação por parte do Ministério dos Negócios   Estrangeiros francês ao caso do atentado ocorrido em Marraquexe em abril de 2011,   no qual 17 turistas perderam a vida, parece ser, para Mohamed Nemoud, o exemplo   mais claro da assimetria das políticas externas francesas face a eventuais   ameaças terroristas. Para Nemoud, a manutenção de grande parte do território   mauritano enquanto “zona vermelha” revela antes de mais a existência de   interesses políticos e económicos por parte da França em relação à Mauritânia   que não se coadunam com a atividade turística. Também outros interlocutores referiram alguma estranheza quanto ao   facto de a França manter a classificação de metade do território da Mauritânia   como “zona vermelha”,<a href="#_ftn22" name="_ftnref22" title=""><sup>[22]</sup></a> fazendo alusão à possibilidade da existência de uma “agenda oculta” do lado francês.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>O turismo reconfigura-se? Segurança, familiaridade e   exportações</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Entretanto, e em plena crise turística, a   Point-Afrique lançava um novo produto turístico para o verão de 2013.   Tratava-se do “Campement Tamana”, que consistia na instalação de tendas   “tradicionais” mauritanas – as <i>khaïma-s</i> – no sudeste francês (mais concretamente em Ardèche, região de Rhône-Alpes),   onde os turistas seriam acolhidos pelos guias – aliás “amigos” – mauritanos, que tratariam de recriar a vida e o ambiente de uma “tenda moura”.<a href="#_ftn23" name="_ftnref23" title=""><sup>[23]</sup></a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/etn/v21n3/21n3a04f2.jpg" width="345" height="322"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">Sob o mote “Si vous n’allez pas en Afrique,   alors l’Afrique vient à vous”, a operadora turística anunciava:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“Vos hôtes venus du désert de Mauritanie, parés     de leurs superbes boubous bleus, vous reçoivent sous la tente traditionnelle     autour de la cérémonie de bienvenue de 3&nbsp;thés… L’immersion est immédiate     et totale”.</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Num ambiente “tranquilo e preservado”, onde a   vegetação local faria lembrar aquela da Mauritânia ou do Sahel, e numa estadia   “100% natural” pontuada por duches aquecidos por energia solar com saneamento   fitossanitário e casas de banho secas, a operadora turística tentava   acrescentar uma dimensão ecológica à já presumida vertente “étnica” e   “tradicional” deste acampamento. Mas, para que não se duvidasse da genuinidade   destes anfitriões, eles revelariam presencialmente a sua história e atestariam, acima de tudo, as suas origens:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“Enfin, sous les étoiles de ce petit bout du     monde ardéchois, vos hôtes du Sahara, selon l’humeur, vous content anecdotes,     mystères et secrets de leur oasis et villes ensablées”.</font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Esta transposição do cenário turístico   mauritano para o ambiente seguro e sem surpresas do sudeste francês, no qual o   turista poderia desfrutar da uma recriação da autenticidade sem “correr   riscos”, é uma interessante manobra de <i>marketing</i> turístico que é útil para nos fazer pensar. Aqui trata-se de valorizar mais a   performance turística do que o destino turístico: é até certo ponto irrelevante   estar no deserto, ou no Adrar mauritano, quando a Mauritânia vem até Ardèche, empunhando alguns dos seus “símbolos identitários”: a <i>khaïma</i>, a cerimónia do chá, e os anfitriões mauritanos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O “Campement Tamana” tenta assim confundir os   valores de “casa” e de “estrangeiro”, criando um território híbrido que dá   novos significados e leituras à própria ideia de viagem, e que redimensiona o   “desejo” de consumo turístico da alteridade, imbricando-o com a familiaridade   (e a segurança) do terreno, sintetizando aquilo que Dicks identifica como   “bringing ‘there’ here” (Dicks 2003:&nbsp;2). Esta deslocalização permitiria o   consumo de um condensado de cultura, ou daqueles que são considerados os   símbolos de uma cultura, consumo esse que possibilitaria um vislumbre   rápido  e organizado dos referentes   culturais daqueles lugares, substituindo a viagem que comportaria,   invariavelmente, o acesso a uma realidade desorganizada e de consumo mais arriscado:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“ […] these various sites of display, which     appear to obviate the need for travel, have developed in an era in which travel     has become a mass activity – easy and affordable for large sections, at least,     of the world’s wealthier populations. What this suggests is that, rather than     travelling to places in order to interact with the people who live there,     visitors are travelling to places to interact with displays of those people     (and of people who live elsewhere). In other words, the more people travel, the     more they encounter their destination’s culture in the form of visitable     representations” (Dicks 2003:&nbsp;4).</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">São estas “representações visitáveis”,   enquanto condensados de cultura, que se apresentam como uma alternativa à   viagem, quando os terrenos – como a Mauritânia – deixam de ser apelativos ou   possíveis para o consumo turístico. Mas para lá da caricatura que esta   iniciativa da operadora Point-Afrique deixa transparecer sobre conceções de   autenticidade, será talvez mais prolífica a reflexão sobre como são construídos (e / ou destruídos) os destinos turísticos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Tal como durante o período colonial, quando a   sua validade turística era questionada, a Mauritânia continua a estar hoje   sujeita às agendas da antiga potência colonizadora, que constrói narrativas e   atribui valor, a partir da suposta autoridade de um passado de coexistência e   dependência, mobilizando e recorrendo concomitante e estrategicamente à   narrativa do “perigo”. Mais do que à procura da autenticidade, assistimos   recentemente a uma valorização turística de uma ideia de segurança, em nome da   qual quer os Estados quer as operadoras turísticas usam as suas estratégias:   construir narrativas sobre e para os territórios, em relação às quais estes ficam, irremediavelmente, reféns.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="3" face="Verdana">BIBLIOGRAFIA</font></b></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">[ANÓNIMO], s. d., <i>Visitez la Mauritanie / Come in   Mauritania</i>, Nouakchott, Imprimerie Jika.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=202119&pid=S0873-6561201700030000400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">[ANÓNIMO], 1975, <i>Guide Touristique de l’Afrique: Sénégal, Mali, Mauritanie, Niger</i>. Paris, Hatier.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=202121&pid=S0873-6561201700030000400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BONTE, Pierre, 2010, “<sup> </sup>‘La   Sorbonne du désert’: La production de l’authenticité culturelle dans le cadre   du tourisme saharien”, em K.&nbsp;Boissevain e P.-N.&nbsp;Denieuil (orgs.), <i>Socio-anthropologie de l’image au Maghreb</i>.   Paris, L’Harmattan / Institut de Recherche sur le Maghreb Contemporain, 89-102.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=202123&pid=S0873-6561201700030000400003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BUTCHER, Jim, 2003, <i>The Moralisation of Tourism, Sun, Sand… and Saving the World?</i> Londres e Nova Iorque, Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=202125&pid=S0873-6561201700030000400004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">CAZES, Georges, 1989, <i>Les Nouvelles colonies de vacances? Le Tourisme International à la conquête du Tiers-Monde. </i>Paris, L’Harmattan.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=202127&pid=S0873-6561201700030000400005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">DICKS, Bella, 2003, <i>Culture on Display: The Production of Contemporary Visitability.</i> Maid­enhead, Open University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=202129&pid=S0873-6561201700030000400006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">LEITE, Naomi, e Nelson GRABURN, 2009,   “Anthropological interventions in tourism studies”, em Tazim Jamal e Mike   Robinson (orgs.), <i>The Sage Handbook of Tourism Studies.</i> Los Angeles e Londres, Sage, 35-64.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=202131&pid=S0873-6561201700030000400007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">LUCAS, Joana, 2014, <i>Entre “o Céu e a Areia”: Turismo, Viagens e Expedições. Mapeando   Discursos e Práticas sobre a Mauritânia</i>, Lisboa,   FCSH / Universidade Nova de Lisboa, tese de doutoramento em Antropologia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=202133&pid=S0873-6561201700030000400008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MacCANNELL, Dean, 1976, <i>The Tourist: A New Theory of the Leisure Class. </i>Nova Iorque, Schocken Books.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=202135&pid=S0873-6561201700030000400009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">NASH, Dennison, 1978, “Tourism as a form   of Imperialism”, em V.&nbsp;Smith (org.), <i>Hosts and Guests: The Anthropology of Tourism</i>. Oxford, Basil Blackwell, 33-47.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=202137&pid=S0873-6561201700030000400010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">OULD CHEIKH, Abdel Wedoud, 2013,   “Património, memória, Estado: nota sobre o património mauritano e os seus   usos”, em M. C. Silva (org.), <i>Castelos a Bombordo</i>. Lisboa, CRIA, 155-171.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=202139&pid=S0873-6561201700030000400011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SAMPAIO, Sofia, 2013, “Estudar o turismo hoje: para uma revisão crítica dos estudos de turismo”, <i>Etnográfica</i>, 17&nbsp;(1): 167-182.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=202141&pid=S0873-6561201700030000400012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SILVA, Maria Cardeira da, 2006,   “Hospedaria Vasque: cultura, raça, género e expediente num oásis da   Mauritânia”, <i>Etnográfica</i>, 10&nbsp;(2): 355-381.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=202143&pid=S0873-6561201700030000400013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>NOTAS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref1" name="_ftn1" title="">[1]</a>             Este texto é   resultado da minha pesquisa de doutoramento em Antropologia, financiada pela   Fundação para a Ciência e a Tecnologia   (SFRH / BD / 46734 / 2008) entre março de   2009 e fevereiro de 2013. A dissertação (Lucas 2014) foi defendida em novembro   de 2014 na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de   Lisboa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref2" name="_ftn2" title="">[2]</a>             A Mauritânia obteve a   sua independência da França a 28 de novembro de 1960. Até esta data foi promovida   turisticamente enquanto destino de caça e de “turismo etnográfico”,   essencialmente enquanto parte do grupo de colónias da África Ocidental Francesa   (AOF), conjuntamente com o ­Senegal, o Mali, o Níger, a Guiné, a Costa do   Marfim, o Benim e o Burkina Faso. Sobre a promoção turística da Mauritânia   colonial, veja-se a minha dissertação de doutoramento (Lucas 2014). A pesquisa   sobre turismo colonial na Mauritânia teve lugar nos Archives Nationales d’Outre-Mer em Aix-en-Provence (França) entre fevereiro e abril de 2012.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref3" name="_ftn3" title="">[3]</a>             O Museu Nacional de   Nouakchott foi concluído em 1972, e a sua construção esteve a cargo de empresas   da República Popular da China. A respeito do Museu Nacional de Nouakchott, Ould   Cheikh refere: “Exceptuando a incorporação de pedras de alvenaria trazidas das   pedreiras da região de Atar para a fachada principal, o edifício não deve muito   nem aos materiais, nem às conceções arquitetónicas locais – que, em verdade se   diga, são particularmente pobres em monumentos de alguma dimensão. Edifício solenemente   quadrangular, construído sobre dois pisos de pé-direito elevado, a ‘Casa da   Cultura’, como passará a ser pomposamente chamada, constitui, com os seus   pórticos e altas colunas quadrangulares que percorrem três das suas fachadas,   uma terna síntese da arte monumental estalinista com vagas revisitações da tradição chinesa” (Ould Cheikh 2013:&nbsp;162).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref4" name="_ftn4" title="">[4]</a>             Sobre a construção de “atrações turísticas”, veja-se MacCannell (1976), entre outros autores.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref5" name="_ftn5" title="">[5]</a>             Durante o trabalho de   terreno realizado em 2011 tive ocasião de efetuar uma visita ao Museu Nacional   de Nouakchott, conduzida pelo seu diretor, M.&nbsp;Kanadiyya. Ao longo desta   visita pude constatar o apreço pela coleção arqueológica, considerada “joia da   coroa” do museu e sempre em crescimento, por oposição à coleção etnográfica,   “congelada” e exclusivamente consagrada à sociedade “moura”, eterna   representante das “tradições” nómadas e beduínas do país. Efetivamente, apesar   de o discurso oficial enfatizar a pluralidade e diversidade étnica da   Mauritânia (com a presença de comunidades mouras, fula, soninké e wolof), as suas representações identitárias continuam a cingir-se à realidade “moura”.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref6" name="_ftn6" title="">[6]</a>             A Somasert   contituiu-se como filial da Société Nationale Industrielle et Minière (SNIM),   que sucedeu à Société des Mines de Fer de Mauritanie (Miferma), criada em 1952   com vista à exploração dos recursos minerais do país pela administração colonial francesa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref7" name="_ftn7" title="">[7]</a>             A lei n.º 96-023, de   7 de julho de 1996, regulamenta a organização da atividade turística na República Islâmica da Mauritânia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref8" name="_ftn8" title="">[8]</a>             A ideia de que o   turismo podia contribuir ativamente para pôr “em perigo” não só o meio   ambiente, mas também as populações e as suas identidades, levou a uma   “moralização do turismo”, conducente à criação de novas formas de turismo   (alternativo, ético, comunitário, ecoturismo), que rapidamente se constituíram   enquanto produtos alternativos e “moralmente superiores” (Butcher 2003:&nbsp;i).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref9" name="_ftn9" title="">[9]</a>             “Point-Afrique   Voyages considère le tourisme comme un moyen, et non une fin en soi. Un moyen   de faire dialoguer les hommes et les cultures; un moyen d’offrir, non pas une   assistance ou une aide, mais la possibilité de gagner dignement sa vie par son   travail, dans le respect mutuel” (do <i>website</i>   da Point-Afrique, em <a href="http://www.point-afrique.com/point-afrique/default.aspx?toid=notre+histoire-266&amp;t=10" target="_blank">http://www.point-afrique.com/point-afrique/default.aspx?toid=notre+histoire-266&amp;t=10</a>, última consulta em outubro de 2017).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref10" name="_ftn10" title="">[10]</a>           A partir do que nos   refere Pierre Bonte (2010), a pista de Atar só será melhorada de forma a   receber os voos provenientes de França em 1997: “La réfection et la   modernisation de la piste d’aviation d’Atar, principale ville de l’Adrar, à la   suite d’un voyage officiel de Jacques Chirac dans le pays [em 1997], et grâce à   la coopération française, allaient rendre possible le débarquement des   touristes au cœur de la région” (Bonte 2010:&nbsp;89). Com base nos números   divulgados por um relatório de 2007 elaborado pelo Ministério do Artesanato e   do Turismo, podemos constatar o crescimento exponencial do número de   passageiros a cada nova época turística entre 1997 (1500 passageiros) e 2007   (9752 passageiros), do qual destacamos o aumento considerável (de 10.000 para   12.000 passageiros) entre 2001 e 2004 (ver “Le secteur du Tourisme en   Mauritanie, Rapport Annuel 2007”, Ministère de l’Artisanat et du Tourisme, République Islamique de Mauritanie).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref11" name="_ftn11" title="">[11]</a>           Tendo sido criado em   1979 por Thierry Sabine, o percurso do Paris-Dakar inclui de forma categórica a   Mauritânia a partir de 1987. Desde essa data o país passa a constituir, salvo   raras exceções, uma das principais etapas do rali. O incidente de 2007 é   invocado pela organização do Paris-Dakar para justificar o cancelamento da   edição de 2008: “After the murder of four French citizens and three Mauritanian   militaries in the days before the start, and answering the strong   recommendations of the French Foreign Affairs Ministry not to go to Mauritania,   the 2008 edition of the rally was cancelled. Terrorist threats identified by   the French authorities were directly pointed at the rally” (em “Dakar   Retrospective 1979-2009”, informação relativa a 2008, p.&nbsp;166, disponível   em <a href="https://pt.scribd.com/document/77339528/Historique-Dakar-1979-2009-Us" target="_blank">https://pt.scribd.com/document/77339528/Historique-Dakar-1979-2009-Us</a>, última consulta em outubro de 2017).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref12" name="_ftn12" title="">[12]</a>           Em <a href="http://www.diplomatie.gouv.fr/fr/conseils-aux-voyageurs/conseils-par-pays/mauritanie-122" target="_blank">http://www.diplomatie.gouv.fr/fr/conseils-aux-voyageurs/conseils-par-pays/mauritanie-122   91/</a> (última consulta em outubro de 2017). Na definição das zonas   assim classificadas, para além da arbitrariedade da divisão entre zonas   “desaconselhadas salvo razão imperativa” e zonas “formalmente desaconselhadas”,   era possível observar no mapa então publicado um pequeno círculo laranja na   região de Zouerate (a norte), o local onde se realizavam as prospecções petrolíferas francesas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref13" name="_ftn13" title="">[13]</a>           Em <i>Lettre de Point-Afrique</i>, 47, setembro de 2012, consultado em <a href="http://www.point-afrique.com/newsletters/nl047/Newsletter047.html" target="_blank">http://www.point-afrique.com/newsletters/nl047/Newsletter047.html</a> a 7 de junho de 2013.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref14" name="_ftn14" title="">[14]</a>           M. Hamza Babetta era, à   data de realização desta entrevista, secretário-geral da Union Nationale du Patronat Mauritanien – Fédération de Tourisme.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref15" name="_ftn15" title="">[15]</a>           Mahmoud Bewba Nemoud é   fundador da Association Nationale de Guides Sahariens (ANGS), criada em 2010 e que teria, à data de realização da entrevista, cerca de 70 guias inscritos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref16" name="_ftn16" title="">[16]</a>           M. Saad Maayniye Cheikh Saad Bouh foi diretor geral da Somasert entre 2009 e 2011.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref17" name="_ftn17" title="">[17]</a>           As cidades de Atar e Nouakchott distam 406 quilómetros entre si, em estrada alcatroada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref18" name="_ftn18" title="">[18]</a>           Zaida Mint Bilal era   proprietária do “Auberge Vasque” em Ouadane. Sobre o “Auberge Vasque” e a gestão do mesmo por Zaida Mint Bilal, ver Maria Cardeira da Silva (2006).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref19" name="_ftn19" title="">[19]</a>           Em <a href="http://www.zigzag-randonnees.com/579/mauritanie.html" target="_blank">http://www.zigzag-randonnees.com/579/mauritanie.html</a> (última consulta em outubro de 2017).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref20" name="_ftn20" title="">[20]</a>           Em <a href="http://angs-mauritanie.blogspot.pt/2011/10/lettre-ouverte-monsieur-nicolas-sarkozy.html" target="_blank">http://angs-mauritanie.blogspot.pt/2011/10/lettre-ouverte-monsieur-nicolas-sarkozy.html</a> (última consulta em outubro de 2017).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref21" name="_ftn21" title="">[21]</a>           Em agosto de 2009, um   ataque suicida contra a embaixada francesa em Nouakchott provocou feridos   ligeiros, entre os quais dois franceses do corpo de segurança da embaixada e   uma mulher mauritana. O ataque foi levado a cabo por um jovem mauritano, única vítima mortal da ofensiva.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref22" name="_ftn22" title="">[22]</a>           Durante o processo de   revisão deste texto, o mapa da Mauritânia que figurava no <i>site</i> do Ministério dos Negócios Estrangeiros francês foi finalmente   substituído. O mapa a que me refiro ao longo deste texto e que serviu de mote   para parte da reflexão aqui presente foi colocado no <i>site</i> do MNE francês em finais de 2007 ou início de 2008, pouco   depois do assassinato de Aleg e na sequência do cancelamento da edição de 2008   do rali Paris-Dakar. Dez anos depois, em finais de março de 2017, o MNE francês   procedeu a uma revisão da cartografia mauritana e da alegada segurança com que o   território pode ser visitado e fez algumas alterações das quais destacamos as   que nos parecem ser as mais relevantes: (1)&nbsp;uma grande fatia da costa   atlântica de Nouadhibou ao Senegal passou a “zona amarela” (vigilância   reforçada), mas manteve-se a fronteira com o Saara Ocidental a vermelho;   (2)&nbsp;Chinguetti e Ouadane, outrora principais atrações turísticas do país,   passam de “zona vermelha” a “zona laranja”. Ainda é cedo para perceber quais os   efeitos desta alteração, quer na Mauritânia quer junto dos operadores   turísticos internacionais, mas para já parece poder ser um sinal de alguma flexibilidade por parte da política externa francesa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref23" name="_ftn23" title="">[23]</a>           A informação relativa   ao programa “Campement Tamana” foi consultada no <i>website</i> da Point-Afrique (<a href="http://www.point-afrique.com/tamana/campement-tamana.html" target="_blank">http://www.point-afrique.com/tamana/campement-tamana.html</a>) em 10 de junho de 2013, mas não se encontra já disponível.</font></p>      ]]></body><back>
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