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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Políticas prisioneiras e gestão penitenciária: incitações, variações e efeitos]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[A collective originated in prisons in Brazil in the early 1990s, Primeiro Comando da Capital (PCC), is currently present in most penitentiary institutions and urban areas in São Paulo, Brazil. In previous research it was examined as a “movement,” mainly characterized by: (1) undefined beginning or ending; (2) absence of territorial boundaries; (3) inclusion of many different movements; (4) openness as to what can move with it. From this perspective, a new research phase was intended to aprehend all that PCC can be composed of, and revealed it is also a result of Justice processes, public security operations, current law, and state policies. This approach is used to describe how prisoners convert administrative acts and prison policies into “movement,” and also how such movements become incitements to prison management. The boundaries separating the inside from the outside of the prison thus become blurred.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana">         <b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="4" face="Verdana">Políticas prisioneiras e gestão penitenciária: incitações, variações e efeitos</font></b></p>      <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="3" face="Verdana">Prison   politics and management: incitements, variations and effects</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Karina Biondi</b><sup><b>I</b></sup></font></p> <font size="2" face="Verdana"><sup>I</sup>Departamento de Ciências Sociais, Universidade Estadual do Maranhão, Brasil. <i>E-mail:</i> </font><font size="2" face="Verdana"><a href="mailto:ka.biondi@gmail.com">ka.biondi@gmail.com</a></font>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr noshade size="1">     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O Primeiro Comando da Capital   (PCC), coletividade originada nas prisões no início da década de 1990, hoje   está presente na maioria dos estabelecimentos penais e das áreas urbanas de São   Paulo (Brasil). Em pesquisa anterior, o abordei como um “movimento” cujas   principais características são: (1)&nbsp;não possui início ou fim definidos;   (2)&nbsp;não obedece a restrições territoriais; (3)&nbsp;é composto por inúmeros   movimentos; (4)&nbsp;não restringe o que pode com ele se movimentar. A partir   dessa perspectiva, iniciei nova fase da pesquisa atenta para tudo o que pode   compor o PCC. Isso permitiu enxergar como ele também deriva do exercício da   Justiça, das operações da segurança pública, da legislação vigente, das   políticas estatais. Essa abordagem possibilita descrever de que maneira os   presos transformam as ações administrativas e políticas penitenciárias em   movimento, bem como a forma como esses movimentos incitam a gestão das prisões.   Com isso, os limites entre o dentro e o fora da prisão deixam de ser tão   evidentes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Palavras-chave:</b> prisioneiros,   prisões, crime organizado, micropolíticas, movimento</font></p> <hr noshade size="1">     <p><b><font size="2" face="Verdana">ABSTRACT</font></b></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A collective   originated in prisons in Brazil in the early 1990s, Primeiro Comando da Capital   (PCC), is currently present in most penitentiary institutions and urban areas   in São Paulo, Brazil. In previous research it was examined as a “movement,”   mainly characterized by: (1)&nbsp;undefined beginning or ending;   (2)&nbsp;absence of territorial boundaries; (3)&nbsp;inclusion of many   different movements; (4)&nbsp;openness as to what can move with it. From this   perspective, a new research phase was intended to aprehend all that PCC can be   composed of, and revealed it is also a result of Justice processes, public   security operations, current law, and state policies. This approach is used to   describe how prisoners convert administrative acts and prison policies into   “movement,” and also how such movements become incitements to prison   management. The boundaries separating the inside from the outside of the prison   thus become blurred.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Keywords:</b> prisoners,   prisons, organized crime, micropolitics, movement</font></p> <hr noshade size="1">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">O Primeiro Comando da   Capital (PCC) surgiu no início da década   de 1990, no interior das prisões do estado de São Paulo, Brasil.<a href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><sup>[1]</sup></a> De acordo com os presos, o PCC apareceu como uma   forma de eles se organizarem para evitarem maus-tratos do sistema prisional,   mas também para coibir a violência entre presos. No início, o PCC era somente   uma das diversas gangues presentes nas prisões e com elas disputava espaços em   guerras sangrentas. No entanto, com o passar dos anos, ele ganhou muitas adesões e se expandiu para a grande maioria do sistema carcerário de São Paulo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O nascimento do PCC é   visto por muitos presos como o fim de um tempo em que agressões físicas e   violências sexuais eram bastante recorrentes; para evitá-las, muitas vezes não   havia outra saída senão aniquilar o agressor e adicionar um homicídio à pena.<a href="#_ftn2" name="_ftnref2" title=""><sup>[2]</sup></a> Os prisioneiros se apoderavam dos bens   disponíveis, desde um rolo de papel higiênico até a cela, para vendê-los   àqueles que não conseguiam conquistá-los à força. Nesse quadro, a proposta do   PCC, que envolvia uma mudança na ética dentro das prisões, era sedutora, motivo pelo qual rapidamente conquistou adesões dentro e fora das prisões.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">No começo dos anos 2000,   já era possível notar a presença do PCC na maioria das unidades prisionais.   Isso ficou explícito em 2001, quando 29 prisões se rebelaram simultaneamente,   no que ficou conhecido como a primeira megarrebelião. Em 2006, ocorreu a   segunda megarrebelião, que envolveu 84 instituições penitenciárias e foi   acompanhada por 299 ataques a órgãos públicos, 82 ônibus incendiados, 17   agências bancárias alvejadas a bombas, 42 policiais e agentes de segurança   mortos e 38 feridos. Isso deixou evidente que o PCC não mais se restringia às prisões,   mas havia se expandido para a maior parte das áreas urbanas do estado. À época,   intelectuais, políticos e profissionais ligados à segurança pública foram   chamados a refletirem acerca desse novo fenômeno carcerário e urbano. Desde   então, muito se disse sobre ele, sobre suas leis, sua hierarquia, sobre o organograma do que seria essa “organização criminosa”.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Atualmente as produções   acadêmicas a respeito do PCC são bastante numerosas e uma revisão bibliográfica   do tema extrapola os propósitos e os limites deste artigo. Cabe destacar,   entretanto, que entre os pesquisadores que se dedicam a esse tema há diferenças   éticas, metodológicas, analíticas e ­epistemológicas. Um dos eixos nos quais   esses trabalhos se distribuem tem, em uma de suas pontas, uma perspectiva que   postula o PCC como problema de segurança pública, uma ameaça ao Estado   democrático de direito, e cuja abordagem está preocupada com sua morfologia,   geralmente análoga ao próprio Estado. Próxima analítica e epistemologicamente   das investigações policiais, essa é a perspectiva hegemônica sobre o PCC,   presente nos discursos da mídia e da opinião pública. Entre as pesquisas que se   aproximam dessa ponta, destaco as de Adorno e Salla (2007) e Dias (2011). Na   outra ponta do eixo encontra-se uma perspectiva preocupada em ouvir o que os   próprios participantes do PCC têm a dizer, suas reflexões, os problemas que   levantam e a forma como buscam solucioná-los. Geralmente traçando diálogos com   abordagens epistemológicas contra-hegemônicas nas ciências humanas, entre os   trabalhos que se aproximam dessa ponta do eixo estão os de Marques (2014) e Telles e Hirata (2007).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Alinhada a estes últimos,   minha pesquisa aponta para um PCC substancialmente diferente da imagem forjada   pelos discursos hegemônicos. Minhas etnografias (Biondi 2010, 2014)   apresentaram quatro aspectos do PCC que sobressaem por suas dissonâncias com   relação ao que costuma ser dito: (1)&nbsp;ele não funciona na base de leis; (2)&nbsp;ele não é   uma estrutura hierárquica piramidal (embora formações hierárquicas não cessem   de aparecer em seu interior); (3)&nbsp;o conceito de crime organizado não é   apropriado para qualificar o PCC; (4)&nbsp;ele é melhor definido como um   movimento, cujas principais características são que (a)&nbsp;não possui início   ou fim definidos, (b)&nbsp;não obedece a restrições territoriais, (c)&nbsp;é composto por inúmeros movimentos e (d)&nbsp;não restringe o que pode com ele se movimentar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Como exporei adiante,   essas características permitem abordar de maneira original a relação entre   prisioneiros, gestão prisional, políticas de segurança e legislação. Neste   artigo, apresento os resultados de minha mais recente pesquisa, realizada em   uma prisão situada na região metropolitana de São Paulo. Depois de seis anos da   pesquisa que eu havia realizado dentro de prisões, retornei a uma instituição   penal a fim de, por um lado, observar as mudanças pelas quais o PCC passou e,   por outro, abordar as especificidades de sua composição local, especialmente em   relação à gestão da unidade prisional. Para fins de exposição, dividi este artigo   em quatro secções. Na primeira, abordarei algumas das principais   características do PCC; na segunda, apresentarei a unidade prisional onde foi   realizada a pesquisa e os presos que ali estavam abrigados; a terceira secção descreverá as   mudanças pelas quais o PCC passou nos últimos anos; a última mencionará alguns problemas decorrentes   dessas mudanças, colocados tanto por presos quanto por funcionários da instituição.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Políticas prisioneiras</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A característica mais   marcante do PCC é que sua presença não está atrelada à de seus integrantes. Ele não se restringe à soma   de seus membros. Uma prisão onde não há “irmãos” (membros do PCC) pode, mesmo   assim, ser uma “cadeia do Comando” e ter o PCC atuando intensamente ali. Isso   torna inadequado o conceito de “crime organizado”   –&nbsp;intimamente relacionado a uma   composição de indivíduos em torno de negócios ilícitos&nbsp;– para lidar com o PCC. Por outro lado, as   propostas de antropólogos contemporâneos para superar os conceitos de   sociedade, de cultura ou de grupo como forças exteriores que modelam os   indivíduos que os compõem (Wagner 1974; Strathern 1996; Latour 2005) mostram-se bastante apropriadas para realizar essa tarefa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Não é somente essa característica que afasta o PCC do   conceito de crime organizado. A descrição de como ele é produzido   independentemente de seus integrantes faz   aparecer os efeitos, para a formação do “Comando”, da ideia de “igualdade”, uma das palavras que   compõem o lema do PCC: “Paz, Justiça, Liberdade e Igualdade”. A “igualdade”   está muito presente na vida dos prisioneiros e nas reflexões que eles acionam.   Ela instaurou tensões que infiltraram e percorreram as capilaridades do PCC,   implicando construções e dissoluções simultâneas de hierarquias. Diversos   mecanismos e estratégias são acionados para a construção de um “Comando” entre   “iguais”. Desde então, dizem os prisioneiros, o que mais se faz numa cadeia é   “debater” sobre o que é “o&nbsp;certo”, “debates” que dizem respeito desde o   que é mais cotidiano até decisões capitais. O que, em um tempo anterior ao PCC, era decidido pela força bruta, hoje é objeto de “debates”.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Após a adição da   “igualdade”, a expressão “é de igual” passou a ser uma das mais proferidas   entre os prisioneiros. No entanto, manter a posição “de&nbsp;igual” não é nada fácil. Exige   muitos investimentos, por parte de cada preso,   no sentido de não subjugar ninguém e nem ser subjugado,   não mandar e nem receber ordens de outros prisioneiros,   em nenhum âmbito de sua experiência prisional. Mesmo com   todos esses esforços, as diferenças não param de aparecer e, com elas, manifestações hierárquicas. Mas, assim que   aparecem, deparam com esse importante princípio norteador vigente no PCC: a   “igualdade”. O resultado disso é a existência de hierarquias que aparecem a todo momento, mas que não se cristalizam em uma estrutura hierárquica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Enxergar o PCC sob o   prisma do “crime organizado” nos levaria a atribuir-lhe uma estrutura e um modo   de funcionamento condizente com as características que dão sentido a esse   conceito (hierarquia, previsão de lucros, divisão do trabalho, planejamento   empresarial, simbiose com o Estado, conforme Mingardi 2007). Nos levaria,   ainda, a considerá-lo como um “Estado paralelo” ou uma “empresa capitalista”.   Definir o PCC como “organização criminosa” conduz a revesti-lo dessa figura   fantasmática (Misse 2006) que, além de não revelar muito acerca de seu   funcionamento, é capaz de esconder uma grande variedade de elementos da vida   prisional que penetraram as existências dos prisioneiros quando passaram a   configurar uma maneira singular de ver e pensar o mundo, mas também de conduzir   suas vidas. A esse modo de condução de existências, os integrantes do PCC dão o nome de “ética”.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Longe de produzir uma   reificação do PCC, essa “ética” permite a existência de PCC muito diferentes   uns dos outros, a depender de como, onde, quando se vê. Ao mesmo tempo, é capaz   não só de conduzir a existência das pessoas que a operam, mas de promover   formações sociais singulares. Ou “ritmos”, como lhes chamam meus   interlocutores: “cada cadeia [ou quebrada, ou cela] tem um ritmo, mas a ética   do Comando é uma só”. Isso porque o PCC é, também, um “movimento”, cujas   características mencionei acima. Pessoas, “situações”, telefones, relações   afetivas, “ideias”, “lutas”, vidas, mortes, “quebradas”, transações comerciais,   não há restrições quanto ao que pode compor os movimentos. Ademais, eles não se   conformam a espaços ou a intervalos de tempo, pois não têm origem ou fim   definidos. Assim, o “Comando” não se limita às trajetórias das pessoas, mesmo às dos “irmãos”, e nem permanece confinado em redutos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">No intenso fluxo de   movimentos simultâneos constituintes do PCC, eles se cruzam, convivem,   disputam, acoplam-se, tensionam uns aos outros. Isso leva cada um que transite   pelo seu interior não só a se engajar simultaneamente em vários movimentos,   como também a saltar constantemente de um a outro. De cada uma das posições   assumidas nesse fluxo emerge um ponto de vista singular. Nenhuma perspectiva é   idêntica a outra. Logo, os movimentos vistos por um estão ocultos para outros,   e vice-versa. Nesse trânsito, é inevitável que movimentos sejam perdidos de   vista ao mesmo tempo em que outros apareçam. Isso não quer dizer, entretanto,   que eles só sejam apreensíveis fragmentária ou parcialmente, pois partes e   fragmentos só fariam sentido em relação a um todo que supostamente um dia   compuseram, do qual se desprenderam ou ao qual estão submetidos. De acordo com   Strathern, “um motivo para desejar que as coisas se encaixem repousa na   suposição de que elas foram cortadas de algo” (2004 [1991]: 109). Para ela, se   não tivermos como ponto de partida a relação entre parte e todo, o corte não produz fragmentos; ele revela relações.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Nesse sentido, longe de   serem uma unidade natural pronta a ser apreendida, os movimentos são exatamente   o que os diferentes pontos de vista são capazes de apreender. Além disso, a   cada manifestação, eles recebem as marcas das condições locais nas quais   ocorrem e variam de acordo com essas mesmas condições. A “malandragem” denomina   as variações apresentadas como “ritmo”, nome dado também às próprias condições   que fazem os movimentos variarem. Veremos, a seguir, as consequências dessa   abordagem na descrição dos movimentos que compõem o “ritmo” de uma unidade prisional.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>A prisão e sua população</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A prisão onde realizei   minha pesquisa é uma unidade de regime semiaberto, destinada a presos que   conquistaram o direito à progressão de pena e com infraestrutura destinada a   atividades laborais. Com capacidade para 246 presos, abriga atualmente 568   homens, divididos em dois pavilhões. Boa parte deles trabalha, se não na própria unidade prisional, fora da cadeia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Segundo os homens com   quem conversei, naquela unidade de regime semiaberto ele era “realmente   semiaberto”, em contraposição a prisões que definiam como “semifechado”. Eles   destacavam as oportunidades de trabalho e ensino oferecidas, contrastantes com   as que encontraram em outras cadeias. Em contrapartida, ali ainda existia o que   eles definiam como injustiças praticadas pela equipe de funcionários da prisão   em relação aos presos. Além disso, o convívio entre os presos não era o melhor que já haviam vivido. Isso devia-se a três fatores.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em primeiro lugar, por se   tratar de um regime de progressão de pena que geralmente antecede o regime   aberto, muitos presos tinham o receio de reagir a essas injustiças e, com isso,   voltar ao regime fechado. Adicionalmente, suas saídas temporárias seriam   prejudicadas e eles poderiam ser encaminhados para a solitária. Diziam os   presos, ainda, que o juiz responsável pela vara de execuções criminais “soltava   bastante”, motivo pelo qual, avaliavam, não era o melhor momento para cometer   qualquer tipo de falta que pudesse prejudicar a oportunidade de, como tantos outros, “ganhar a liberdade”.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Podemos ver, aqui, como a   legislação penal, em sua regulação a respeito dos regimes de cumprimento de   pena, a execução penal, com suas orientações sobre benefícios, e a gestão   carcerária, com a previsão de castigos, são transformadas em movimentos pelos   presos. Eles passam não só a avaliar as possibilidades de ação dentro da “situação”   na qual se encontram, como, também, a transitarem por esses movimentos. Esses   elementos, ao comporem os movimentos nos quais os presos se engajam, tornam-se   parte integrante do cotidiano da prisão e não mais podem ser considerados   fatores externos à vida carcerária. Assim, nesse caso, visto a partir daquela   instituição penitenciária, é possível notar que dentre os movimentos que   compõem as “situações” nas quais aqueles presos se encontram estão elementos da gestão prisional, da execução e da legislação penal.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O segundo fator que,   segundo os presos, fazia o convívio entre eles ser problemático dizia respeito   à população prisional ali abrigada, formada majoritariamente por presos   primários que cumpriam penas pequenas. Muitos haviam sido condenados diretamente   ao regime semiaberto. Para os presos com quem conversei, a grande maioria desses primários “não era do crime”, mas sim “noia” (usuários de drogas).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Um dos presos disse que a   população prisional poderia ser classificada da seguinte maneira: os que são “do   crime” (o que não quer dizer exatamente que sejam praticantes de atividades   criminosas, mas sim que orientam suas condutas de acordo com a “ética do PCC”), os   “zé-povinho” (aqueles que, ainda que tenham praticado a atividade criminosa que   os levou à cadeia, não orientam sua existência de acordo com o “crime”), os   “noias” (usuários de drogas levados à prisão em virtude de ações praticadas   para sustentar seu vício, como furtos ou assaltos, ou, ainda, que foram presos   como traficantes quando portavam substâncias que seriam usadas para consumo   próprio) e, finalmente, os “treze” (pessoas com algum tipo de deficiência   mental). Desses, apenas o “ladrão” (aquele que é “do crime”) contribuiria para   uma boa convivência entre os detentos, regida pela “ética do Comando”. A ele,   disse o preso, cabia ser um “psicólogo”, para saber com quem estava tratando. Afinal, disse,</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“não dá pra cobrar de um     noia, de um treze ou de um zé-povinho o proceder de ladrão. Tem que analisar     com quem está falando e agir diferente com cada um. O ladrão é –&nbsp;e tem     mesmo que ser!&nbsp;– mais cobrado porque ele está mais ciente de como as     coisas funcionam. Com os outros, tem que ter mais paciência, explicar, mas tá     difícil”.</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Para os presos, a   impossibilidade ou a dificuldade de cobrar energicamente determinada postura   desses homens fazia com que a convivência dentro da cadeia ficasse   “desgovernada”. Era “muita falta de proceder”, diziam, “ninguém respeita   ninguém”. Diante dessa situação, os que se consideram “malandros” procuravam se   diferenciar dos demais, mantendo para si a “ética do crime” e tentando fazer com que os demais   aderissem minimamente a ela, o necessário para tornar seu cotidiano mais   tranquilo. Diziam que graças a isso havia o mínimo de condições de convivência,   sem a ocorrência de brigas, agressões e, no limite, mortes. Asseguravam também,   com isso, a presença do PCC naquela prisão, na forma de sua “ética”.   Disseram-me também que não raras vezes aquela unidade prisional fica sem nenhum   “irmão”, mas que isso nunca impediu que a prisão fosse considerada uma “cadeia do Comando” ou que ela fosse ameaçada pela invasão de outras facções.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">É possível notar que os movimentos que passam por aquela unidade   são compostos pela gestão da Secretaria da Administração Prisional do Estado de São Paulo (que define   o perfil dos presos abrigados na unidade), pela legislação que descriminalizou   o consumo de drogas, pela atuação policial e ação dos tribunais de justiça (que   levaram à prisão como traficantes os que antes eram considerados usuários)<a href="#_ftn3" name="_ftnref3" title=""><sup>[3]</sup></a> e, finalmente, pela “ética do PCC”, de acordo com a   qual, por um lado, evita-se ao máximo agressões entre os prisioneiros e, por   outro, a postura dos presos é cobrada em diferentes graus, em função de seu   envolvimento com o “crime”. Assim, todos esses elementos eram transformados nos   movimentos que compunham as “situações” em que os presos viviam e moldavam o   “ritmo” daquela prisão. A grande presença de “noias” entre os apenados incitava   movimentos que faziam aquela cadeia ser mais “desgovernada” (no tocante ao   convívio entre os presos), que levavam os demais presos a adotarem posturas   específicas diante dessa população e, além disso, que conduziam os usuários a vivenciarem mais intensamente a “ética do Comando”.<a href="#_ftn4" name="_ftnref4" title=""><sup>[4]</sup></a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Oportunidade e resgate</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Segundo os homens com   quem conversei, o terceiro fator pelo qual o convívio entre os presos não era o   melhor que já haviam vivido era o PCC estar pouco rigoroso, o que dava margens   para recorrentes atitudes não condizentes com a “ética do Partido”. Eu já havia ouvido, nas ruas, queixas parecidas: “a   quebrada está largada”, “o PCC está fraco”, “ele já não é mais o mesmo”. Foi   esta pesquisa, entretanto, que revelou com maior nitidez a mudança pela qual o   PCC passara e que motivava esses enunciados. De acordo com os presos, “cadeia   era cadeia de verdade até 2009; depois virou bagunça”. Isso porque atualmente   “o Comando não cobra mais ninguém, não coloca uma disciplina, e o povo abusa”.   Explicaram que, até 2009, alguém que cometesse algum erro recebia uma   “cobrança” (repreensão, agressão, expulsão do convívio com os demais presos ou,   em último caso, morte). De 2009 em diante, o PCC se tornou “mais tolerante”;   seus integrantes passaram a preferir “conscientizar” os presos a cobrá-los. Com   isso, dizem, não há mais “seguro” (espaço destinado a presos cujas vidas correm   risco quando em convívio com os demais). Somente estupradores, delatores e   membros de outras facções, casos considerados muito graves, são mandados para prisões de “oposição” (onde não há PCC).<a href="#_ftn5" name="_ftnref5" title=""><sup>[5]</sup></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Para os presos, isso   fazia com que os erros fossem mais comuns a cada dia, com que os prisioneiros   (especialmente os “primários”) não respeitassem o “Comando” e,   consequentemente, com que o convívio entre os presos ficasse mais problemático.   Isso porque a maioria das “cobranças” realizadas anteriormente dizia respeito a   erros que um preso cometia com relação ao outro, muitos considerados falta de   respeito. A “disciplina do Comando”, para eles, fazia com que um respeitasse o   outro. Citaram como exemplos de “disciplina” que deixou de existir nas cadeias   o cuidado para não usar palavras de baixo calão, a atenção à maneira adequada   de se sentar na cama do companheiro de cela, o cuidado na forma de se comportar   nos dias de visita. Dizem que até agressões físicas e furto de um preso a outro   não são “cobrados” como eram antes, sendo motivos para a “conscientização”   daqueles que o praticaram. No tocante à inexistência de “seguro”, disseram que   até ex-policiais, ex-seguranças e pessoas que já cumpriram pena em “cadeias de   oposição” são, atualmente, aceitos no convívio. Presos pertencentes a outras   facções passam pelas cadeias do PCC sem serem agredidos (só pedem para que eles solicitem à administração a sua transferência imediata a outra prisão). Antes de 2009, essas pessoas nem   podiam pisar em “cadeias do Comando”, sob risco de morte.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Os presos que cumpriram   pena antes de 2009 manifestavam sua indignação com essa postura do PCC.   Encontrei apenas dois prisioneiros que defenderam explicitamente essa mudança.   Segundo eles, era melhor trazer as pessoas para o lado do “Comando” do que   rejeitá-las e enviá-las definitivamente para a “oposição”. Argumentaram que, se   essa mudança não tivesse ocorrido, hoje o seguro seria maior do que o convívio   e, consequentemente, a “oposição” seria maior do que o PCC. Disseram, por fim,   que essa postura evita muitas “injustiças” que poderiam acontecer (e, com   efeito, aconteceram, de acordo com os casos por eles lembrados) no convívio das   “cadeias do PCC”. Era mais correto, na visão deles, dar uma oportunidade para   os que erraram e tentar conscientizá-los do que arriscar cometer “injustiças”   e, adicionalmente, contribuir para o aumento da “oposição”. Nessas duas   situações nas quais presos defenderam a postura do PCC, os demais prisioneiros   presentes chegaram a concordar com os argumentos lançados e disseram que,   embora reiterassem que ainda preferiam a forma como as prisões funcionavam até   o ano de 2009, não sabiam qual seria a alternativa para contornar os problemas que essa outra postura veio tentar enfrentar.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Os relatos sobre os problemas   decorrentes dessa postura “mais tolerante” do PCC eram acompanhados por   exemplos que evidenciavam que, ao contrário de o PCC mostrar-se como fraco, ele   atuava intensamente nessa nova configuração. A questão não era, portanto, de um   PCC ausente, mas de uma presença intensiva do PCC sob outros modos. Afinal,   como diziam os próprios críticos a essa postura, se não fosse o “Comando”, eles   já haveriam lançado mão de agressões físicas contra os “vacilões” que não   paravam de cometer erros. Diziam, ainda, que metade dos presos que estavam   naquela prisão não mereciam, de acordo com suas considerações, habitar o “convívio”.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">É possível notar que os movimentos que passam por   aquela unidade são compostos pelas mais diversas avaliações a respeito de como tratar aqueles que cometem erros. Muitas   das avaliações negativas a respeito da recente postura do PCC levam em conta os   efeitos dessa disposição nas ruas. A política faccional e as estratégias para   manter o PCC presente na maioria das prisões paulistas tensionam esses   movimentos, que não deixam também de ter, entre os seus componentes, a   prerrogativa do poder público de realocar os presos entre as unidades prisionais de acordo com seus pertencimentos a uma ou a outra facção.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Celulares, responsa e castigo</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Um caso ocorrido durante   minha pesquisa ilustrou os problemas de convivência apontados. Depois de 15   dias de castigo, quando um pavilhão inteiro ficou fechado, sem que os presos   pudessem sair para trabalhar, estudar ou para o banho de sol (e mesmo para   colaborar com minha pesquisa), explicaram-me o que ocorrera. Segundo os presos,   houve uma revista que apreendeu mais de 40 telefones celulares. Os agentes   penitenciários solicitaram que os presos responsáveis pelos aparelhos se   apresentassem, mas ninguém se manifestou. Algo parecido havia acontecido   algumas semanas antes, quando foi feita uma apreensão de drogas e, também,   ninguém se apresentou como responsável por elas. Nas duas ocasiões, todos os presos sofreram o castigo de ficarem trancados no pavilhão.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Uma funcionária disse-me   que, nesses casos, a administração precisa de um nome a quem atribuir o   material encontrado e que geralmente os próprios presos apresentam alguém para   se responsabilizar. Os presos confirmaram que isso funciona, ou ao menos   deveria funcionar, dessa maneira: um preso assume o material apreendido para   que o castigo não recaia sobre todos. No entanto, ninguém assumiu a   responsabilidade e todos foram castigados. Se, por um lado, isso mostrou a   falta de solidariedade entre os presos ou a falta de alguém entre eles que   tivesse força argumentativa para convencer um preso a assumir a falta (o que   denota uma certa fraqueza, se não a inexistência, dos “irmãos” na unidade   prisional), por outro lado isso revelou que a “igualdade”, tão valiosa na   “ética do Comando”, estava ali com toda a sua força. Afinal, nenhum preso se viu obrigado a assumir a falta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Um detento cuja primeira   prisão ocorrera no começo da década de 1990 mostrava-se inconformado com o que   ocorrera. Segundo ele, diante da ausência de um preso que se apresentasse como   responsável pelos celulares, o diretor do presídio foi ao pavilhão para   palestrar sobre como as coisas funcionam nesses casos. “Foi um tapa na cara dos   pilotos”, disse, referindo-se aos presos responsáveis por manterem a “disciplina do Comando” na unidade. E continuou:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“Uma coisa é o diretor ou     o funcionário falar sobre o trabalho dele, o que pode, o que não pode, o que     tem a ver com o funcionamento da cadeia. Mas o convívio entre os presos é     assunto de preso. Nós temos que resolver entre nós. Mas daí o diretor foi dar     uma palestra pra falar como nós temos que nos comportar entre nós. Isso não tem     cabimento!”</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Segundo ele, eram os   “pilotos” que deveriam explicar para os presos como as coisas funcionam no caso   da apreensão de objetos não permitidos. Algum voluntário para assumir a   responsabilidade pelos objetos deveria aparecer para evitar que 300 presos   fossem prejudicados e era responsabilidade do PCC cuidar para que isso acontecesse.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Ao mesmo tempo, a   tolerância e permissividade do PCC havia criado um problema para a   administração da prisão: a ausência de um nome a quem responsabilizar pelas apreensões.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">É possível ver como movimentos incitados por essa postura do PCC contribuem para a composição da população carcerária daquela unidade. Afinal,   fosse outra a postura, muitos dos presos que cumpriam suas penas ali   estariam em “cadeias   de oposição”. Assim, a composição daquela unidade prisional, definida pela   gestão carcerária, é tensionada por movimentos acionados pela política   prisioneira. Além disso, a diminuição de casos de agressão e de mortes dentro   do sistema prisional cria condições específicas para a gestão das cadeias. Por   fim, a postura do PCC de ser leniente com os erros ou de não garantir que algum   preso se apresente como responsável por apreensões cria impasses para a   administração da prisão e para os processos administrativos que decorrem desses eventos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Considerações finais</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Vimos que, segundo os   presos, aquela unidade prisional não era a melhor pela qual já haviam passado   em virtude do regime de cumprimento de pena a que se destina, do perfil dos   presos que abriga e da recente postura do PCC. Todos esses fatores reúnem   elementos que não findam nos limites da unidade prisional e envolvem políticas   faccionais, políticas penitenciárias, a gestão da unidade, o corpo de   funcionários, a legislação vigente, a atuação policial, ações do tribunal de justiça e da vara de execuções penais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Neste artigo, procurei   mostrar que, quando se aborda o PCC como um “movimento” composto por inúmeros movimentos,   a distinção entre dentro e fora (seja do “Comando”, seja da unidade prisional)   deixa de ser tão evidente.<a href="#_ftn6" name="_ftnref6" title=""><sup>[6]</sup></a> Ainda que se considere as prisões como núcleos   duros do PCC, ou que “nunca se está mais dentro do Estado do que numa prisão”,   como lembra ­Barbosa (2005: 72) inspirado em Foucault (1996 [1975]), a   abordagem adotada ­permitiu ­oferecer uma perspectiva que nem o coloca   exatamente às margens do Estado (Das e Poole 2008) e nem como algo que surge na   ausência do mesmo. Diferentemente, dediquei-me a ver de que maneira os presos   abrigados naquela prisão transformavam as ações administrativas e políticas   penitenciárias em movimento, bem como a forma como esses movimentos incitavam a gestão das prisões.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>BIBLIOGRAFIA</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">ADORNO, Sérgio, e   Fernando SALLA, 2007, “Criminalidade organizada nas prisões e os ataques do   PCC”, <i>Revista Estudos Avançados</i>,   21&nbsp;(61):&nbsp;7-29.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203024&pid=S0873-6561201700030000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BARBOSA, Antonio   Rafael, 2005, <i>Prender e Dar Fuga:     Biopolítica, Sistema Penitenciário e Tráfico de Drogas no Rio de Janeiro</i>.   Rio de Janeiro, UFRJ / Museu Nacional, tese de doutorado em Antropologia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203026&pid=S0873-6561201700030000900002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BIONDI, Karina, 2010,     <i>Junto e Misturado: Uma Etnografia do PCC</i>. São Paulo, Editora Terceiro Nome.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203028&pid=S0873-6561201700030000900003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BIONDI, Karina, 2014,     <i>Etnografia no Movimento: Território,     Hierarquia e Lei no PCC</i>. São Carlos, Universidade Federal de São Carlos, tese de doutorado em Antropologia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203030&pid=S0873-6561201700030000900004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BOLDRIN, Guilherme   Ramos, 2017, <i>Desejo e Separação: Monas,     Gays e Envolvidos Num Presídio em São Paulo</i>. São Carlos, Universidade Federal de São Carlos, dissertação de mestrado em Antropologia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203032&pid=S0873-6561201700030000900005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">CUNHA, Manuela Ivone (org.), 2008, <i>Aquém e Além da Prisão: Cruzamentos e Perspectivas</i>. Lisboa, 90&nbsp;graus.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203034&pid=S0873-6561201700030000900006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">DAS, Veena, e Deborah POOLE, 2008, “El   estado e sus márgenes: etnografías comparadas”, <i>Cuadernos de Antropología Social</i>, 27: 19-52.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203036&pid=S0873-6561201700030000900007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">DIAS, Camila Caldeira Nunes, 2011, <i>Da Pulverização ao Monopólio da Violência:   Expansão e Consolidação do Primeiro Comando da Capital (PCC) no Sistema   Carcerário Paulista</i>. São Paulo, Universidade de São Paulo, tese de doutorado em Sociologia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203038&pid=S0873-6561201700030000900008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">FOUCAULT, Michel, 1996 [1975], <i>Vigiar e Punir: História da Violência nas   Prisões</i>. Petrópolis, Vozes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203040&pid=S0873-6561201700030000900009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">GODOI, Rafael, 2015, <i>Fluxos em Cadeia: As Prisões em São Paulo na Virada dos Tempos</i>. São   Paulo, Universidade de São Paulo, tese de doutorado em Sociologia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203042&pid=S0873-6561201700030000900010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">JESUS, Maria Gorete Marques de, <i>et&nbsp;al.</i>, 2011, <i>Prisão Provisória e Lei de Drogas: Um Estudo sobre os Flagrantes de   Tráfico de Drogas na Cidade de São Paulo</i>. São Paulo, Núcleo de Estudo da   Violência, disponível em &lt; <a href="http://www.nevusp.org/downloads/down254.pdf" target="_blank">http://www.nevusp.org/downloads/down254.pdf</a> &gt; (última consulta em outubro de 2017).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203044&pid=S0873-6561201700030000900011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">LATOUR, Bruno, 2005, <i>Reassembling the Social: An Introduction to Actor-Network-Theory</i>.   Oxford, Oxford University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203046&pid=S0873-6561201700030000900012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MARQUES, Adalton, 2014, <i>Crime e Proceder: Um Experimento Antropológico</i>.   São Paulo, Alameda.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203048&pid=S0873-6561201700030000900013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MENDES, Luiz Alberto, 2001, <i>Memórias de Um Sobrevivente</i>. São Paulo,   Companhia das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203050&pid=S0873-6561201700030000900014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MINGARDI, Guaracy, 2007, “O trabalho da   Inteligência no controle do crime organizado”, <i>Revista de Estudos Avançados</i>, 61&nbsp;(21): 51-69.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203052&pid=S0873-6561201700030000900015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MISSE, Michel, 2006, <i>Crime e Violência no Brasil Contemporâneo: Estudos de Sociologia do   Crime e da Violência Urbana</i>. Rio de Janeiro, Lumen Juris.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203054&pid=S0873-6561201700030000900016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">RAMALHO, José Ricardo, 2002 [1979], <i>Mundo do Crime: A Ordem pelo Avesso</i>. São   Paulo, IBCCrim.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203056&pid=S0873-6561201700030000900017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">RUI, Taniele, 2014, <i>Nas Tramas do Crack</i>: <i>Etnografia   da Abjeção</i>. São Paulo, Editora Terceiro Nome.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203058&pid=S0873-6561201700030000900018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">STRATHERN, Marilyn, 1996, “1989 debate:   The concept of society is theoretically obsolete. The presentations: for the   motion&nbsp;(1)”, em Tim Ingold (org.), <i>Key Debates in Anthropology</i>. Londres, Routledge, 50-55.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203060&pid=S0873-6561201700030000900019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">STRATHERN, Marilyn, 2004 [1991], <i>Partial Connections</i>. Walnut Creek,   Altamira Press (edição atualizada).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203062&pid=S0873-6561201700030000900020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">TELLES, Vera da Silva, e Daniel Veloso   HIRATA, 2007, “Cidade e práticas urbanas: nas fronteiras incertas entre o   ilegal, o informal e o ilícito”, <i>Revista Estudos Avançados</i>, 21&nbsp;(61): 173-191.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203064&pid=S0873-6561201700030000900021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">WAGNER, Roy, 1974, “Are there social   groups in the New Guinea Highlands?”, em M.&nbsp;Leaf (org.), <i>Frontiers of Anthropology: An Introduction to Anthropological Thinking</i>. Nova Iorque, Nostrand Company, 95-122.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203066&pid=S0873-6561201700030000900022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>NOTAS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref1" name="_ftn1" title="">[1]</a>             Este artigo é   resultado da pesquisa de pós-doutorado “Quando tudo se torna movimento: uma   etnografia acerca das relações entre presos e a gestão de prisões”,   desenvolvida na Universidade Estadual de Campinas, com bolsa da Capes, entre   janeiro de 2015 e fevereiro de 2016. É importante mencionar que a FAPESP apoiou   minhas pesquisas anteriores na forma de bolsa de pesquisa e o CNPq destinou   recursos para a realização desta pesquisa. Agradeço aos colegas do Laboratório   de Estudos sobre Agenciamentos Prisionais (LEAP) pela parceria, ao   Prof.&nbsp;Jorge Villela pela dedicação e ao parecerista anônimo desta revista pelas valiosas sugestões.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref2" name="_ftn2" title="">[2]</a>             Registros de casos   como esses podem ser encontrados em Ramalho (2002 [1979]) e Mendes (2001).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref3" name="_ftn3" title="">[3]</a>             Em 2006 passou a   vigorar a Lei N.º&nbsp;11.343 / 06, que diferencia usuários de   traficantes de drogas e aplica aos dependentes químicos penas alternativas à   prisão. Desde então, muitos usuários de drogas passaram a ser julgados como   traficantes. Algumas prisões passaram a ser chamadas, por outros detentos, de   “cadeias de noia” e se tornaram centros informais de recuperação da dependência   de <i>crack</i>. Apesar de isso ser de   conhecimento geral nas cadeias e nas quebradas (bairros), essa questão precisou   ser documentada segundo os padrões governamentais de práticas de conhecimento –   com estatísticas, gráficos, tabelas, entrevistas padronizadas, metodologias estabelecidas e financiamento institucional – para ganhar <i>status</i> de verdade e passar a ser oficialmente debatida (ver Jesus <i>et&nbsp;al</i>. 2011).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref4" name="_ftn4" title="">[4]</a>             Raramente a prisão é   o primeiro contato dos usuários de drogas com a ética do “Comando” (cf. Rui 2014).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref5" name="_ftn5" title="">[5]</a>             Sobre cadeias de   oposição, ver Marques (2014) e Boldrin (2017).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref6" name="_ftn6" title="">[6]</a>             Cunha (2008) e Godoi   (2015) já haviam apontado a porosidade das instituições penais, a partir de abordagens distintas das aqui apresentadas.</font></p>     ]]></body>
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