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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[“Esparramar família”: sentidos e pertencimentos na ocupação da Amazônia brasileira]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This paper addresses the land occupation trajectory of a colonization project in Brazil during the military dictatorship. Through the use of a family report, I will shed light on the process of land occupation in the region of the Burareiro Settlement Project (PAD), located in the state of Rondônia, Brazil. I will highlight the specific way of life of those who called themselves “pioneers” during the 1970s, responsible for the occupation and beginning of the agricultural cycle in the Western Amazon. For that, I use the narrative potential of the experiences of the scene of the families that organize the experience of occupation in three movements. These movements in “search for the new” are presented through the “spreading” category, which, when referring to family dynamics, emphasizes the centrality of the origin family. Pioneering is seen as a form of social framework, in which the search for participation in the construction of new spaces is a constitutive element of the life of the families, having different meanings.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana" size="2">       <b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>      <p><font size="4" face="Verdana"><b>“Esparramar família”: sentidos e pertencimentos na ocupação da Amazônia brasileira</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="3" face="Verdana">&ldquo;Spreading   family&rdquo;: meanings and belongings in the occupation of Brazilian Amazon</font> </b></p>     <p>&nbsp;</p> <font face="Verdana" size="2">     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Manuela Souza Siqueira   Cordeiro</b><sup><b>I</b></sup></p> <sup>I</sup>Instituto de Antropologia, Universidade Federal de Roraima (UFRR), Brasil. <i>E-mail:</i> <a href="mailto:cordeiro.manuela@gmail.com">cordeiro.manuela@gmail.com</a>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> </font> <hr noshade size="1"> <font face="Verdana" size="2">     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>RESUMO</b></p>     <p>Esse artigo aborda a   trajetória de ocupação da terra de um projeto de colonização no Brasil, durante   a ditadura militar. Por meio do uso de um relato de família, lançarei luz sobre   o processo de ocupação de terras na região do Projeto de Assentamento Dirigido   (PAD) Burareiro, localizado no estado de Rondônia, Brasil. Colocarei em   evidência o modo específico de vida daqueles que se denominam “pioneiros”,   durante a década de 1970, responsáveis pela ocupação e início do ciclo agrícola   na Amazônia Ocidental. Para tanto, utilizo o potencial narrativo das   experiências de cena das famílias que organizam a experiência da ocupação em   três movimentos. Esses movimentos em “busca do novo” são apresentados por meio   da categoria “esparramar”, que, ao se referir à dinâmica familiar, enfatiza a   centralidade da família de origem. O pioneirismo é visto como uma forma de   enquadramento social na qual a busca pela participação na construção de novos   espaços é um elemento constitutivo da vida das famílias, tendo sentidos distintos.</p>     <p><b>Palavras-chave: </b>colonização, família, antropologia rural, pioneirismo</p> </font> <hr noshade size="1"> <font face="Verdana" size="2">     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>This paper   addresses the land occupation trajectory of a colonization project in Brazil   during the military dictatorship. Through the use of a family report, I will   shed light on the process of land occupation in the region of the Burareiro   Settlement Project (PAD), located in the state of Rondônia, Brazil. I will   highlight the specific way of life of those who called themselves “pioneers”   during the 1970s, responsible for the occupation and beginning of the   agricultural cycle in the Western Amazon. For that, I use the narrative   potential of the experiences of the scene of the families that organize the   experience of occupation in three movements. These movements in “search for the   new” are presented through the “spreading” category, which, when referring to   family dynamics, emphasizes the centrality of the origin family. Pioneering is   seen as a form of social framework, in which the search for participation in   the construction of new spaces is a constitutive element of the life of the families, having different meanings.</p>     <p><b>Keywords:</b> colonization, family, rural anthropology, pioneers</p> </font> <hr noshade size="1">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Introdução</b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>O artigo trata do   processo de ocupação de terras no projeto de colonização Burareiro, localizado   no estado de Rondônia, na Amazônia Ocidental, analisado por meio do relato de   famílias.<a href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><sup>[1]</sup></a> Nesta região, foram implantados dois projetos de   assentamento dirigidos (PAD), criados nos anos de 1974 e de 1978. A descrição   do processo de ocupação do lote PAD Burareiro e os movimentos para ocupar essa   terra serão assim o ponto de partida para observar as noções de “família” e uma   categoria nativa relacionada à mesma: “esparramar”. Estas falam não só desta   história de colonização brasileira, como também de um modo de existência   próprio dos chamados “pioneiros” e de suas famílias – modo que, como veremos, está profundamente articulado à experiência do movimento.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> No município de Ouro Preto d’Oeste, em   Rondônia, em 1970, foi criado o primeiro projeto de colonização no território   de Rondônia, o Projeto Integrado de Assentamento Ouro Preto d’Oeste, sendo a   responsabilidade pela implementação inteiramente do governo federal, no caso através   do Incra. Os projetos de assentamento dirigidos (PAD) faziam parte da   iniciativa do PIN – Programa de Integração Nacional – e do Proterra – Programa   e Redistribuição de Terras. Os objetivos dos projetos integrados de colonização   (PIC) eram “legitimar”, “disciplinar” e “organizar” a situação fundiária da   região, ao passo que os projetos de assentamento dirigidos tinham como meta   promover o assentamento de trabalhadores sem-terra nos projetos de colonização   implantados ao longo da década de 1970 (Lopes 1983). O principal incentivo ao   plantio no PAD Burareiro era a lavoura de cacau, enquanto no PAD Marechal Dutra   plantava-se principalmente café. As terras tinham tamanhos diferenciados – 250   hectares no caso do PAD Burareiro e 100 hectares no Marechal Dutra, além de um processo seletivo das famílias também distinto.</p>     <p>O Incra era responsável   pelos 12 programas da metodologia operacional nos PIC nos anos iniciais de   implantação, o que incluía distribuição de terra, organização territorial,   administração do projeto, assentamento, unidades agrícolas, infraestrutura   física, educação, saúde e previdência social, habitação rural, empresa   cooperativa, crédito e comercialização. Segundo Ianni, “Na prática, o Incra, a   Funai, a Sudam e o Basa, entre outros órgãos do governo federal, estaduais,   territoriais e municipais, continuaram a servir à criação, expansão ou   consolidação dos latifúndios, fazendas e empresas de propriedade de estrangeiros na Amazônia e no país” (1986:&nbsp;122).</p>     <p>No entanto, a política de   colonização não foi a primeira forma de ocupação das terras no território onde   se localiza o estado de Rondônia. A região de Ariquemes, na qual os dois   projetos de assentamentos foram implantados, eram áreas do distrito de Porto   Velho, atual denominação da capital do estado, desde a criação do Território   Federal do Guaporé. Essa região, por sua vez, era o ponto de apoio para a   atividade garimpeira do território, principalmente a extração de cassiterita.   Portanto, ficam em contradição as análises que consideram a terra “virgem” ou   que existiria um “vazio demográfico”, uma vez que seringueiros, seringalistas,   garimpeiros, populações indígenas e outros sujeitos sociais ocupavam a área de Ariquemes antes mesmo da colonização que teve início na década de 1970.</p>     <p>No presente artigo, por   meio dos relatos de dois irmãos que contam os seus movimentos e deslocamentos,   será apreendido o significado da ocupação do lote na área que se transformaria   no PAD Burareiro. Posteriormente, a noção de “esparramar” será analisada, de   maneira a demonstrar que as movimentações de família são responsáveis, em   última medida, por criar mais família, tornando a ruptura parte constitutiva,   portanto, não disruptiva, da dinâmica familiar. Trata-se de estratégias não   “oficiais” que são também contadas por outras famílias que se deslocaram para a   Amazônia no início da década de 1970. Dessa maneira, podem ser encontradas   socialidades contra o Estado (Clastres 2003 [1988]) mesmo dentro de sociedades   que possuem Estado e, mais do que isso, um projeto de colonização que foi   organizado tendo como base uma política pública de caráter federal. Está em   jogo, portanto, a política em outros termos, especificamente no que tange à   compreensão dos modos de ser e de pertencer, ligados à gestão da terra na   Amazônia. Essas resistências podem ser enquadradas em “formas cotidianas”   (Scott 2011), na medida em que não se trata de irrupções ou revoluções   camponesas, mas das maneiras pelas quais as famílias puderam ocupar a terra com   pouco investimento efetivo do Estado e permanecer nesta até hoje, realizando a   divisão do espaço para as gerações seguintes, mesmo diante de estrita legislação para o uso da terra no âmbito da Amazônia Legal.</p>     <p>&nbsp;</p> </font>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Primeiro movimento: “vir e ver as   terras”</b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>O relato da família   Zanella será apresentado por meio de três movimentos. Sigo a proposição teórica   de Crapanzano (2006), na medida que o artigo se baseia em duas concepções   concomitantes: o reconhecimento daquilo que é considerado “objetivo” ou quiçá   “oficial” – a política pública de ocupação da Amazônia na década de 1970 – e a   “cena”, isto é, o relato das famílias. Existe uma maneira recorrente de   estruturar a sua experiência, subdividindo-a em três etapas consecutivas:   verificar a qualidade da terra e viabilidade de permanência; organizar a   família e seus pertences para a deslocação do Sul do país até o Norte; o   processo de “abertura de terras” e suas implicações na construção da noção de “pioneirismo”.</p>     <p>O acaso esteve presente   na decisão de deslocamento da família Zanella, o que fazia seu João sorrir,   pois se lembra de saber sobre Rondônia por meio de um primo que estava   “fugido”. No estado do Espírito Santo, em Colatina, os Zanella viviam em uma   “chácara” de oito alqueires e, naquela época, contando os membros das famílias   dos irmãos que já eram casados, eles chegavam a somar 40 pessoas. “Um bocado de   capixaba foi para o Paraná, quando abriu lá”, seu João comentou a respeito do   processo de “abertura” realizado no estado do sul do país, porém relata que a   sua família não se deslocou para aquele estado. A “abertura das terras” é um   processo presente tanto no Paraná quanto em Rondônia em diferentes momentos   históricos. A geração anterior à de seu João Zanella teve a possibilidade de   possuir terras no Paraná, se quisesse “abri-las”, participando da política de   governo em questão, que permitia a divisão das terras para os ocupantes. Em   Rondônia, mais especificamente em Ariquemes, a “abertura das terras” ficava a cargo dos próprios trabalhadores que se mudavam para o estado.</p>     <p>Depois de saber pelo   primo da possibilidade de possuir terra em Rondônia, a primeira decisão de seu   João Zanella foi ir lá para “ver as terras”. Decide vir só com amigos, não traz   a família para esse reconhecimento, nem esposa e filhos, nem seus pais e   irmãos. No entanto, salienta que essa decisão foi tomada em conjunto com os   irmãos, por ele “ser mais velho” e por “resolver as coisas”. Todos os amigos   que foram junto com ele moravam em terras vizinhas em Colatina e, nesse primeiro momento de reconhecimento, só homens foram “para olhar a terra”.</p>     <p>Ao chegar às terras do   PIC Ouro Preto d’Oeste e encontrar seu primo, ele percebeu que a ocupação das   terras naquela localidade já estava ocorrendo longe do eixo da estrada federal,   a BR-364. Além disso, não era mais possível encontrar em Ouro Preto uma área grande   de terra com lotes contíguos para que os irmãos a pudessem ocupar sendo   vizinhos uns dos outros, o que facilitaria a “abertura da terra” e o trabalho   em conjunto, tendo o objetivo de se separarem no futuro, como será abordado na   secção sobre a “abertura das terras”.   A vicinalidade se aproxima da descrição   realizada por João de Pina Cabral (1991) quando sinaliza que, no contexto do Porto, esta   é constituída por grupos unidos por relações sociais primárias, formados por   famílias de irmãos ou primos próximos física e socialmente. Assim, “a ajuda   mútua é prestada segundo um espírito de reciprocidade generalizada em que não se contam os favores” (1991:&nbsp;185).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Quando seu João encontrou   seu primo, ele contou que comprara uma área de 200 alqueires em Ariquemes e   disse que poderia oferecer essa terra à família do seu João, se fosse do seu   interesse. Seu João Zanella resolveu comprar a terra, pensando em seus irmãos e   irmãs, principalmente os casados, aqueles que estavam buscando terra para a   família recém-formada. Mas ele comenta que realizou a compra um pouco receoso por não consultar os irmãos e, principalmente, seu pai.</p>     <p>A compra da terra foi   possível porque a família Zanella possuía uma propriedade em Colatina; além do   preço da terra em Ariquemes ser muito mais baixo em comparação com o   Centro-Sul, naquela época não se iniciara o processo de colonização na   localidade. Ele afirma que tinha certeza de que os seus irmãos viriam: “Foi o   seguinte: a gente queria terra. Um monte de homem igual à gente, era o que se falava.   Onde tinha homem, tinha que ter terra para trabalhar!” Desta forma, era   importante que houvesse espaço suficiente para cada família, o que significava,   no caso dos Zanella, que cada irmão casado e cada irmã casada (porém, a decisão   de se deslocar ficava a cargo do marido, neste caso) pudesse ter o seu próprio   pedaço de terra. Os irmãos ficaram satisfeitos diante da possibilidade de haver   uma área para a família que era dez vezes maior da que tinham no Espírito Santo e de poderem efetivamente dividir a terra entre eles:</p> </font>     <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2">“Cheguei lá e falei para     os meus irmãos, assim, assim, como é que é. Eu falei e eles ficaram doidos. Eu     falei: ‘Ó<i>, </i>comprei uma área lá de<i> 200 </i>alqueires’. Por quanto? ‘Comprei por 9 mil, 9 milhões na época’. Agora,     ficamos bonitos! Quem tinha lá 20 alqueires e poder comprar 200 alqueires aqui,     dava para dividir pra cada um e ficava muito bom!” [Seu     João Zanella, 27 / 04 / 2012]</font></p> </blockquote> <font face="Verdana" size="2">     <p>Ao conversar com um dos   irmãos mais novos, seu Abel Zanella, pude visualizar a importância de seu João   como o irmão que tomava as decisões que, de fato, eram acatadas pela família.   Contava a história da sua família rememorando momentos anteriores àquele do   deslocamento para Rondônia, construindo os motivos que fizeram com que   acontecesse. Tal como demonstra Desconsi (2009) em relação aos pequenos   proprietários de Mato Grosso do Sul, estava em jogo também para as famílias que   se deslocaram para a Amazônia uma avaliação cotidiana das possibilidades de   acesso à terra em assentamentos rurais. No entanto, diferentemente da argumentação   do autor, para as famílias dos projetos de assentamento dirigidos em Rondônia   não se tratava apenas de um horizonte de possibilidade para acesso ao trabalho   agrícola, a terra representava a possibilidade de poder deixar um bem de   herança às gerações futuras. Isto porque no Sul do país as terras estavam já   sofrendo um processo intenso de subdivisão, impedindo que os filhos dos moradores da zona rural pudessem permanecer na terra.</p>     <p>&nbsp;</p> </font>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Segundo movimento:   a travessia da “casa a rodar”</b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>Em 9 de julho de 1972,   seu Abel Zanella fez aniversário na estrada, completava 22 anos. Eles passaram   mais tempo do que o previsto na viagem, algo em torno de dez dias, porque o   veículo teve problemas mecânicos. Assim, ele conta, explicando como seguiram pela estrada em cima do “pau de arara”:</p> </font>     <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2">“O famoso pau de arara. O     pau de arara é um carro grande, coberto, alonado e dentro colocava várias     famílias. Só da minha [família] vieram quatro [famílias] e mais duas     conhecidas. Tinha seis famílias. Ah, tinha bastante gente, tinha de contar! Era     um caminhão de gente que vinha junto com a mudança, não mandava a mudança,     vinha tudo junto. A gente vinha parando, cozinhando, vinha vivendo na estrada.     Foram 12 dias de viagem. O carro ainda quebrou em Mato Grosso, teve que voltar     para Cuiabá e a gente ficou esperando” [seu Abel,     05 / 03 / 2013].</font></p> </blockquote> <font face="Verdana" size="2">     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os relatos demonstram que   a família Zanella se organizou para a viagem. Ao mesmo tempo, Rondônia não era   um “sonho” de poucos, como pode ser visto pela quantidade de famílias que   vinham juntas, enfrentando os desafios da estrada, buscando reforçar as   relações familiares e de amizade, que eram fundamentais para enfrentar os   próximos “movimentos de família”. Corroboro a leitura de Martins: “A história   do recente deslocamento da fronteira é uma história de destruição. Mas, é   também uma história de resistência, de revolta, de protesto, de sonho e de esperança” (1996:&nbsp;26).</p>     <p>A insegurança quanto à   possível falta de alimentos na estrada e a incerteza em relação ao que   encontrariam para comprar foram administradas com a organização da família   Zanella e das demais famílias que estavam se deslocando com eles. “Na verdade,   a gente vinha… A gente ficou morando na estrada, meio parecido com ciganos, não   é?”, tal como conta seu Abel Zanella. Os seus irmãos traziam os filhos pequenos, parte do cenário que é descrito por seu Abel:</p> </font>     <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2">“Tinha uma pá de crianças,     era um pacote de crianças. Ah, elas faziam parte da festa da vida. Choravam,     riam, brincavam, tudo misturado. Vinha meio apertado o caminhão da mudança, mas     a gente criou um espaço em cima dos colchoados, vinha todo mundo deitado o dia     todo e, quando parava então, fazia um pouco de exercícios, esticava as pernas,     movimentava. Viajava, dormia, noite e dia no mesmo lugar. Praticamente ficou a     carreta estivada de colchões e cada um tinha o seu, ficava sentado, deitado. E     aí o motorista só pedia para a gente evitar pôr a cabeça para fora. Mas tinha     as duas laterais, abriu-se uma corrente de ar, puxava a lona com a corda e     ficava uma espécie de duas portas laterais. Então, a gente tinha os visuais. A     gente fazia de tudo para visualizar um pouco as coisas. Era a casa, né? A casa     a rodar, a casa ambulante” [seu Abel, 05 / 03 / 2013].</font></p> </blockquote> <font face="Verdana" size="2">     <p>Além da preparação para a   viagem, outra estratégia da família Zanella foi dividir a família em dois   grupos para ocuparem as terras em Rondônia. Assim, por meio dessa mudança em   dois estágios, o grupo que veio primeiro poderia criar as condições para que o segundo se instalasse, bem como instruí-lo a respeito do que encontraria.</p>     <p>&nbsp;</p> </font>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Terceiro movimento: a “abertura das   terras”</b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>Nas terras em Ariquemes,   os irmãos poderiam ter a sua parcela de forma contígua e no eixo da estrada,   facilitando o trabalho de “abertura dos lotes”. Seu Abel Zanella conta que os   dois irmãos mais velhos foram os responsáveis por propor essa possibilidade   para os outros irmãos e irmãs. O pai deles tinha ido morar numa “chácara” com   os irmãos menores, já os irmãos mais velhos formaram um grupo de sete homens,   dentre os quais havia duas figuras que eram caracterizadas como líderes na família   para seu Abel Zanella: seu João, anteriormente mencionado, e também Luiz,   segundo irmão mais velho. “Eles que ajeitavam isso aí e trouxeram para cá uma   parte dos irmãos, se desfizeram de uma parte [da terra] e investiram aqui e,   mais tarde, o meu pai se desfez [do que tinha] e investiu aqui também”. Seu   irmão João comenta que, no início da ocupação em Ariquemes, o trabalho da   família foi realizado de forma conjunta, eles fizeram um barraco só no lote,   mas pontua a necessidade crescente de “debandar”, isto é, separar,   principalmente porque alguns irmãos já eram casados. Seu João afirma que no   começo era “Tudo uma panela só. Até um tempo, depois foi debandando. A ideia   era essa, né? Debandar. É difícil trabalhar junto. Ainda mais a gente é irmão,   dá certo até que não tenha as noras, as mulheres. Como nós éramos dez homens, aí começou a entrar mulheres diferentes e não funcionou”.</p>     <p>Seu João Zanella também   se recorda de quais famílias foram contemporâneas na chegada a Ariquemes: “Os   primeiros que vieram junto com a gente foram os Cozer, a primeira família,   depois os Juliatti, os Martinelli, os ­Tamanini, todos capixabas e com   ascendência italiana. Brumatti, Ferrari, tem três gerações de Ferrari aí”. O “pioneiro” tem que ser capaz de se   recordar do que existia na área quando a ocuparam, bem como de outras famílias   que vieram na mesma época, para a organização de um retrato fiel do período de ocupação, prova de que estavam em Ariquemes quando “ainda não havia nada”.</p>     <p>Algumas coisas mudaram no   tempo, o que é marcado como “quando o Incra chegou”, mas a família pioneira   Zanella já estava morando no local. Seu Abel comenta que os primeiros   agricultores já estavam ali há cinco anos. “Quando os agricultores chegaram,   havia um projeto imaginário”, isto é, não haviam sido colocados em prática os   projetos de assentamento dirigidos que foram mencionados na secção anterior. Seu Abel   Zanella pontuou: “O agricultor faz linha de foice e o Incra de imaginação”, em alusão ao trabalho que   foi realizado por sua família e outras que ocuparam a área de Ariquemes para   efetivamente “abrir as terras”, e que contavam apenas com o aval, mas não a   assistência técnica e nem de infraestrutura do governo federal, para essa   abertura. No entanto, o próprio governo estava criando os mecanismos para   regulamentar a ocupação materializada nos projetos, por isso a caracterização como “linha imaginária”.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ainda que o “projeto da   família” tivesse como pretensão uma área bastante menor, diante da proposta de   um dos gestores do Incra à época, as famílias viram se concretizar à sua frente   o sonho não somente do acesso à terra, mas a uma extensão de área que nunca   havia feito parte de seu universo de possibilidades. A noção de “projeto”,   segundo Velho (2004), enfatiza a dimensão consciente da ação social, implicando   avaliação e estratégia para desenvolvimento de certas metas. No entanto,   “projeto”, na acepção da presente pesquisa, na maioria dos casos, não   representa uma tentativa individualizante de produzir e comunicar sentido, mas   uma possibilidade de produzir um coletivo (família de origem e formação de novos núcleos familiares) por meio da construção de objetivos comuns de vida.</p>     <p>&nbsp;</p> </font>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>“Esparramar”: sentidos dos movimentos de   família</b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>Como exposto brevemente   no relato dos Zanella, a família é uma unidade plástica, cabendo movimentos de   união e de separação ao longo do tempo, vista como referência que não se desfaz   com a ida para Rondônia. Há a possibilidade de formação de núcleos familiares   que, a partir do casamento, procuram “esparramar” e criar as próprias condições   de reprodução social para os filhos, mesmo que isto não signifique a   permanência na terra visando as outras gerações. A família de origem, na   formulação de seu João Zanella, é formada por aqueles que ainda estão “na mesma   panela”; porém, mesmo depois de se dividirem, continua sendo uma referência   para os que se “esparramam”. Por isso, em um primeiro momento, todos os irmãos   se ajudaram para depois terem condição de possuir uma terra para o seu grupo   familiar. O verbo “esparramar” possui dois principais sentidos: além de   espalhar, “separar”, um dos sinônimos utilizados pelas famílias para o   “esparramar” denota “debandar”. No caso dos pioneiros, está em jogo não um   espalhamento desorganizado das famílias, mas uma separação que, no limite, serve ao fim de se criar mais família, preparando-a para a sua continuação.</p>     <p>Observa-se que a família   está orientada para a construção de outros grupos familiares, que são em última   análise novas unidades, mas sem perder a ­identidade familiar de onde vieram. A   referência a uma origem comum da família é determinada pela efetiva união de   seus membros (cf.&nbsp;Thomas e ­Znaniecki 1918), que, mesmo ao se   “esparramarem”, conduzem esse movimento de acordo com os passos já dados por   membros da família de origem. No caso anterior, a “abertura das terras” foi um   projeto conjunto para que depois cada grupo familiar pudesse ter a sua propriedade.</p>     <p>O “esparramar” divide a   família de origem em outros núcleos que ampliam a sua área de atuação. Trata-se   de uma maneira de a família se reproduzir socialmente, contrapondo-se a   pressões da sociedade no sentido de sua dissolução. Thomas e Znaniecki (1918:   107) apontam que a família é uma organização dinâmica, e as mudanças internas,   como o casamento, o nascimento e crescimento, são incluídas como normais e não   como algo inesperado. Nesse sentido, os “movimentos de família” são também   esperados, e Rondônia não foi o primeiro lugar para o qual se deslocaram, ainda   que os sentidos desses deslocamentos sejam diferenciados. O “esparramar” faz   parte de um esquema reprodutivo que ocorre na vida dessas famílias, seja quando   se deparam com o problema da falta de terras para a próxima geração, seja em   função dos diferentes posicionamentos dos filhos e netos de “pioneiros” a   respeito de seus próprios futuros, não incluindo a permanência na terra. No   caso da família Zanella, foi a partir do casamento que ficou mais clara a   necessidade de se “separar”, “esparramar”, “debandar”. Portanto, o casamento   determina a necessidade de possuir um espaço próprio para a nova família que   será criada, e novas personagens se integram ao enredo da família:   principalmente as noras, mas também os genros, que, ao pensarem conjuntamente   os projetos de “futuro da família”, potencializam a ação e podem traçar novos caminhos para o “esparramar”.</p>     <p>&nbsp;</p> </font>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Considerações finais</b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>As categorias abordadas   nesse artigo, notadamente família e seu movimento êmico “esparramar”, foram   trazidas à tona a partir da incursão do potencial narrativo das experiências de   cena (cf.&nbsp;Crapanzano 2006) nos projetos de assentamento dirigidos em   Rondônia. Portanto, com base nesses relatos familiares, busquei mostrar   formalmente a estruturação da cena (<i>framing     of framing</i>), nos termos de Crapanzano, como a experiencialidade da ocupação   foi construída. Os dados trazidos dessa narrativa são particulares à família   Zanella, mas a organização do relato em três momentos, quais sejam “vir e ver   as terras”, a travessia da “casa a rodar” e a “abertura das terras”, está presente nas outras   famílias com as quais foram realizadas as pesquisas, como índices, nos termos   de Pierce (1955), que marcam a temporalidade de ocupação da terra em Rondônia   na ótica de quem efetivamente ocupou e hoje é responsável pela gestão das terras.</p>     <p>As ações relacionadas ao   projeto de integração nacional organizado pela política de colonização, bem   como os movimentos de família, influenciaram na formação do projeto de futuro.   Assim, temos a evidência de resistência e plasticidade de estratégias, baseadas   em noções de reputação, notadamente ligadas ao pertencimento (pioneirismo) e   família, mesmo no seio de uma sociedade com Estado (cf.&nbsp;Clastres 2003   [1988]). No primeiro caso, os funcionários do Incra, seguindo os   direcionamentos legais cabíveis, conduziram o processo de seleção responsável   por “cortar as famílias”, no sentido de enquadrá-las como marechais ou   burareiros. Ao mesmo tempo, seu Abel Zanella faz questão de pontuar dois   processos de demarcação da terra que julga completamente distintos: a “linha da   foice”, isto é, fruto do trabalho do agricultor no lote, e a “linha   imaginária”, que remete apenas à projeção do gestor do Estado. Ficam patentes   as formas cotidianas de resistência camponesa (cf.&nbsp;Scott 2011) no processo   de “abertura de terras” e, em análise mais geral, nas estratégias conjuntas de movimentação familiares.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A noção de família que   seu João mostra em seu relato inclui os irmãos que eram aqueles “da mesma   panela”, aqueles que pensavam de maneira parecida sobre o gerenciamento da   terra a serem levados em conta para o “primeiro movimento”. No entanto, ao se   casarem, a terra no estado do Espírito Santo fica pequena em área como em   possibilidade de cada família recém-formada tocar seus próprios planos para a   terra, sendo necessário se “separar” ou se “esparramar”. Depois de explicar a   quantidade de terra a que teriam acesso naquele novo estado, ele faz questão de   marcar que era necessário que se separassem, principalmente porque os irmãos já   tinham as suas famílias (nucleares, formadas por eles, esposas e filhos), o que   incluía novas personagens no enredo familiar: as noras. Os irmãos prometeram às   esposas, como salienta seu João, que no início os Zanella trabalhariam juntos,   mas que depois se separariam e cada família poderia “tocar o que é seu”,   trabalhar na sua terra, já adquirida e “aberta”, de acordo com as regras de cada uma dessas novas famílias.</p>     <p>A “casa a rodar”, ou o   segundo “movimento”, é uma imagem que mostra a relevância da mudança para   Rondônia realizada pela família Zanella, bem como para as outras famílias acima   mencionadas e para aquelas que tenham ido para aquelas terras de diferentes   maneiras. Dessa forma, pode-se dizer que eles trouxeram a casa junto com eles,   “era transportada”, reproduzindo grande parte do que possuíam na construção do   novo espaço doméstico em Rondônia. A “casa a rodar” se referia aos elementos   anteriormente descritos por ele próprio – a mistura de gente e de sentimentos,   a preparação em conjunto dos alimentos e a desorganização espacial entre as famílias dos irmãos.</p>     <p>Sobre o processo da   abertura das terras, o “terceiro movimento”, seu Abel comenta: “A abertura,   sim, foi combinada de todo mundo abrir junto e, quando estivesse acabando a sua   abertura, aí então cada um tocava por conta própria. Já era um projeto junto   até pela necessidade. É, projeto da família”<i>.</i>   Havia, assim, o trabalho inicial conjunto para depois se “esparramarem” para   cada um dos lotes, que seria da posse de cada família “formada”, isto é, aquela   dos irmãos casados, o que é denominado como “projeto de futuro da família”.   Fica também nítido no relato da família que o irmão mais velho, isto é, seu   João, tinha a prerrogativa da tomada da decisão, mas   isso não pressupunha uma orientação hierárquica tão rígida que prescindisse   totalmente da aprovação dos irmãos e de seu pai. Nesta passagem, percebe-se a importância da figura do irmão mais velho na condução das decisões familiares.</p>     <p>O termo pioneirismo, por   sua vez, define uma geração determinada nesse contínuo processo de “esparramar”   das famílias ao longo dos tempos. Dessa maneira, a categoria nativa   “esparramar” não se opõe à separação, mas mostra como a separação é   constitutiva da união, o espaço sendo continuamente reconfigurado à medida que   novos núcleos familiares vão sendo formados, dando novos contornos à terra e à família.</p>     <p>&nbsp;</p> </font><font size="3" face="Verdana"><b>BIBLIOGRAFIA</b></font><font face="Verdana" size="2">     <!-- ref --><p>CABRAL, João de Pina,   1991, <i>Os Contextos da Antropologia</i>. Lisboa, Difel.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203757&pid=S0873-6561201700030001400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>CLASTRES, Pierre,   2003 [1988],<i> A Sociedade contra o Estado: Pesquisas de Antropologia Política</i>. São Paulo, Cosac Naify.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203759&pid=S0873-6561201700030001400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>CRAPANZANO, Vincent, 2006, “The scene: shadowing the real”, <i>Anthropological Theory</i>, 6&nbsp;(4): 387-405.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203761&pid=S0873-6561201700030001400003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>DESCONSI, Cristiano,   2009, <i>A Marcha dos “Pequenos”   Proprietários Rurais no Mato Grosso: Um Estudo a Partir das Trajetórias de     Migrantes do Sul do Brasil para a Microrregião do Alto Teles Pires</i>.   Seropédica, RJ, Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Federal   Rural do Rio de Janeiro, dissertação de mestrado em Ciências Sociais, Estudos de Cultura e Mundo Rural.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203763&pid=S0873-6561201700030001400004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>IANNI, Octavio, 1986,   <i>Ditadura e Agricultura: O Desenvolvimento   do Capitalismo na Amazônia: 1964-1978</i>. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203765&pid=S0873-6561201700030001400005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>LOPES, Eliano   S. A., 1983,<i> Colonização Agrícola     em Rondônia: A Relação Parceleiro-Agregado como Manifestação de Resistência à   Expropriação</i>. Itaguaí, RJ, Instituto de Ciências Humanas e Sociais,   Universidade Federal do Rio de Janeiro, dissertação de mestrado em Técnicas Agrícolas.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203767&pid=S0873-6561201700030001400006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>MARTINS, José de   Souza, 1996, “O tempo da fronteira: retorno à controvérsia sobre o tempo histórico da frente de expansão e da frente pioneira”, <i>Tempo Social</i>, 8&nbsp;(1): 25-70.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203769&pid=S0873-6561201700030001400007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>PIERCE, Charles, 1955, <i>Philosophical Writings of Pierce.</i> Nova Iorque, Dover Publications.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203771&pid=S0873-6561201700030001400008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>SCOTT, James C., 2011, “Exploração normal, resistência normal”, <i>Revista Brasileira de Ciência Política</i>, 5: 217-243.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203773&pid=S0873-6561201700030001400009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>THOMAS,   William I., e Florian ZNANIECKI, 1918, <i>The Polish Peasant in Europe and America: Monograph of an Immigrant Group</i>. Chicago / Boston, The University of Chicago Press / Badger.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203775&pid=S0873-6561201700030001400010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>VELHO,   Gilberto, 2004, <i>Individualismo e Cultura</i>. Rio de Janeiro, Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203777&pid=S0873-6561201700030001400011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p> </font>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>NOTAS</b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1" title="">[1]</a>             Este   artigo tem origem na pesquisa de doutorado “A casa a rodar: projetos e   pioneirismo na Amazônia Ocidental”, realizada entre março de 2010 e março de   2015 no âmbito do programa de pós-graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro.</p> </font>     ]]></body>
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