<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0873-6561</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Etnográfica]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Etnográfica]]></abbrev-journal-title>
<issn>0873-6561</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Centro em Rede de Investigação em Antropologia - CRIA]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0873-65612017000300015</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Ser índio e ser gay: tecendo uma tese sobre homossexualidade indígena no Brasil]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Being native and being gay: weaving a thesis on indigenous homosexuality in Brazil]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Fernandes]]></surname>
<given-names><![CDATA[Estevão Rafael]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade Federal de Rondônia  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[Porto Velho RO]]></addr-line>
<country>Brasil</country>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>01</day>
<month>10</month>
<year>2017</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>01</day>
<month>10</month>
<year>2017</year>
</pub-date>
<volume>21</volume>
<numero>3</numero>
<fpage>639</fpage>
<lpage>647</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0873-65612017000300015&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0873-65612017000300015&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0873-65612017000300015&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[Este artigo busca apresentar a subalternização da homossexualidade indígena no Brasil como parte inerente da colonização, fazendo uso das contribuições de autores two-spirit norte-americanos. Estrutura-se em uma apresentação de sua percepção enquanto “perda cultural”; a perspectiva two-spirit sobre a colonização enquanto processo heteronormativo; e algumas reflexões sobre o caso brasileiro. Demonstra-se que a colonização equivale, necessariamente, à criação de dispositivos para normalizar as sexualidades indígenas, moldando-as à ordem colonial. Assim, as práticas de disciplinamento e as respostas por parte dos indígenas nos permitem compreender mais sobre os movimentos indígenas, as relações interétnicas, políticas indigenistas, assim como relações de poder nestes contextos nacionais.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This paper aims to present the subordination of indigenous homosexuality in Brazil as an inherent part of the settlement, making use of the contributions of two-spirit authors. It brings the literature on the Brazilian indigenous peoples, demonstrating its recent perception as “cultural loss”; the two-spirit perspective on colonization as heteronormative process; and some thoughts on the Brazilian case. It is shown that colonization necessarily creates devices to normalize indigenous sexualities, shaping them to the colonial order. So, disciplining practices and responses by indigenous allow us to understand more about indigenous movements, interethnic relations, indigenous policies, as well as power relations in these national contexts.]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[colonialismo]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[homossexualidade]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[etnologia]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[two-spirit]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[relações interétnicas]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[colonialism]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[homosexuality]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[ethnology]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[two-spirit]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[interethnic relations]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana" size="2">       <b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="4" face="Verdana">Ser índio e ser <i>gay</i>: tecendo uma tese sobre homossexualidade indígena no Brasil</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="3" face="Verdana">Being native and being gay: weaving a thesis on indigenous homosexuality in Brazil</font></b></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Estevão Rafael Fernandes</b><sup><b>I</b></sup></p> <sup>I</sup>Universidade Federal de Rondônia, Porto Velho (RO), Brasil. <i>E-mail:</i> <a href="mailto:estevaofernandes@gmail.com">estevaofernandes@gmail.com</a>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> </font> <hr noshade size="1"> <font face="Verdana" size="2">     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>RESUMO</b></p>     <p>Este artigo busca apresentar   a subalternização da homossexualidade indígena no Brasil como parte inerente da   colonização, fazendo uso das contribuições de autores <i>two-spirit </i>norte-americanos.   Estrutura-se em uma apresentação de sua percepção enquanto “perda cultural”; a perspectiva <i>two-spirit</i> sobre a colonização enquanto processo heteronormativo; e   algumas reflexões sobre o caso brasileiro. Demonstra-se que a colonização   equivale, necessariamente, à criação de dispositivos para normalizar as   sexualidades indígenas, moldando-as à ordem colonial. Assim, as práticas de   disciplinamento e as respostas por parte dos indígenas nos permitem compreender   mais sobre os movimentos indígenas, as relações interétnicas, políticas indigenistas, assim como relações de poder nestes contextos nacionais. </p>     <p><b>Palavras-chave:</b> colonialismo, homossexualidade, etnologia, <i>two-spirit</i>, relações interétnicas</p> </font> <hr noshade size="1"> <font face="Verdana" size="2">     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>This paper   aims to present the subordination of indigenous homosexuality in Brazil as an   inherent part of the settlement, making use of the contributions of two-spirit   authors. It brings the literature on the Brazilian indigenous peoples,   demonstrating its recent perception as “cultural loss”; the two-spirit   perspective on colonization as heteronormative process; and some thoughts on   the Brazilian case. It is shown that colonization necessarily creates devices   to normalize indigenous sexualities, shaping them to the colonial order. So,   disciplining practices and responses by indigenous allow us to understand more   about indigenous movements, interethnic relations, indigenous policies, as well as power relations in these national contexts. </p>     <p><b>Keywords:</b> colonialism, homosexuality, ethnology, two-spirit, interethnic relations</p> </font> <hr noshade size="1"> <font face="Verdana" size="2">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>No início de 2012 dei   início à minha pesquisa de doutorado sobre homossexualidade indígena no Brasil   (Fernandes 2015).<a href="#_ftn1" name="_ftnref1" title="">[1]</a> A pesquisa buscou ser uma reflexão mais   aprofundada sobre homossexualidade em áreas indígenas – algo que, apesar de   testemunhado por etnógrafos em campo usualmente, não era ainda alvo de uma preocupação mais sistemática na literatura antropológica brasileira.</p>     <p>Tenho consciência dos   riscos e problemas inerentes ao uso da expressão “homossexualidade indígena”   neste texto e pretendo abordá-los nas próximas páginas.<a href="#_ftn2" name="_ftnref2" title=""><sup>[2]</sup></a> Tais questões merecem uma nota explicativa para   efeitos de introdução deste artigo, ainda que breve (para um olhar mais detido sobre esse ponto, cf.&nbsp;Fernandes e Arisi 2017).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A expressão   “homossexualidade” (bem como “heteronormatividade”) surge em um contexto   temporal e social bastante específico – europeu, moderno e burguês – e trazê-lo   aqui pode representar um duplo risco de viés eurocêntrico e anacrônico.   Entretanto, em princípio a utilizo como expressão guarda-chuva para abranger as   diversas práticas sexuais e afetivas fora do modelo heteronormado hegemônico,   uma vez que cronistas e etnólogos que indicam a existência de tais práticas   entre os povos indígenas no país o fazem utilizando expressões como “pecado   nefando”, “sodomia”, “pederastia” e “hermafroditismo”, por exemplo. Ao utilizar   “homossexualidade”, aqui, indico não um sinônimo destes termos (cada qual   situado sócio-historicamente em contextos discursivos específicos, como indicou   Foucault 1988), mas, como espero deixar claro adiante, um marcador de diferença   advindo do processo de colonização: ver e  /  ou ser   visto como “homossexual” em um contexto interétnico possui implicações   políticas, ontológicas e existenciais entrelaçadas com outros marcadores –   étnicos, raciais, geracionais, etc. – cujo sentido pode ser plenamente   compreendido dentro das relações coloniais, interétnicas, e das relações de poder que operam dentro desses coletivos.</p>     <p>Entendo, a partir dos   dados obtidos e das várias falas ouvidas ao longo da pesquisa, que assumir-se   como homossexual e indígena é, de alguma forma, contrapor-se ao modelo   hegemônico (ocidental, cristão, moderno, “normal”) de sexualidade. Nesse   contexto, fica claro que, uma vez que expressões como “<i>gay</i>”,   “bicha”, “veado” e “homossexual” alcançam as aldeias, também lá chega a carga   de abjeção e preconceito que o modelo colonial impõe. Chamar este fenômeno de   “homossexualidade indígena”, desta forma, busca provocar não apenas uma   reflexão sobre as implicações desta saída do armário em contextos indígenas,   mas, também, sobre os próprios limites interpretativos de várias de nossas   chaves conceituais e categorias interpretativas – o que explica, em parte,   minha opção por trabalhar com autores <i>two-spirit</i>, <i>queer</i> e críticos pós-coloniais, como Césaire, Fanon, Anzaldúa, Miñoso, Mbembe, dentre outros.</p>     <p>Tal discussão não é nova   e surge desde, pelo menos, o texto de Luiz Mott (1997) intitulado   “Etno-história da homossexualidade na América Latina”, no qual o autor indaga   “até que ponto o conceito de homossexualidade pode ser usado com propriedade   heurística para descrever e interpretar as relações unissexuais do mundo   extraeuropeu”. Em que, pese o próprio autor não responder a esse questionamento   (“deixarei ao leitor, ao final deste trabalho, tirar suas próprias conclusões”),   os vários textos mencionados a seguir indicam que o avanço destas questões   aponta para uma crítica tanto aos dispositivos que levaram à colonização das   sexualidades indígenas (cf.&nbsp;Fernandes e Arisi 2017) quanto a várias noções   bastante consolidadas de indianidade, identidade e gênero, e ainda à relação entre elas.</p>     <p>Desta maneira, ficará   óbvia ao leitor minha opção, neste texto, de não partir “dos <i>insights</i> e   debates na rica literatura etnográfica sobre corporalidade e socialidade entre   os povos indígenas da América do Sul” (McCallum 2013: 57), mas tomar a   homossexualidade indígena, nos termos acima, enquanto uma possibilidade   epistêmica e como um <i>locus</i> de enunciação política. Este texto buscará desenvolver melhor essa ideia.</p>     <p>Neste sentido, apresentaremos,   mesmo que de forma sucinta, um contraponto ao discurso – ouvido e lido por   diversas vezes ao longo da pesquisa – de que a homossexualidade indígena se   relaciona com uma eventual “perda da cultura”, um “contágio advindo do   contato”, surgido sobretudo desde meados da década de 1970 (em especial na   imprensa). Ao longo da pesquisa, ficou claro que várias das lideranças   indígenas manifestavam essa mesma opinião.<a href="#_ftn3" name="_ftnref3" title=""><sup>[3]</sup></a> Alguns exemplos ilustrativos disso são facilmente localizados em uma pesquisa pelo tema na mídia brasileira.</p>     <p>Em 27 de julho de 2008, a <i>Folha de São Paulo</i> publica uma reportagem intitulada “Índios gays são alvo de preconceito no AM”:</p>     <p>“Entre os índios ticuna, a   etnia mais populosa da Amazônia brasileira, um grupo de jovens não quer mais   pintar o pescoço com jenipapo para ter a voz grossa, como a tradição manda   fazer na adolescência, nem aceita as regras do casamento tradicional, em que os casais são definidos na infância.</p>     <p>   Esse pequeno grupo assumiu a homossexualidade e diz sofrer preconceito dentro   da aldeia, onde os gays são agredidos e chamados de nomes pejorativos como   ‘meia coisa’. Quando andam sozinhos, podem ser alvos de pedras, latas e chacotas. […]</p>     <p>   O cientista social e professor bilingue (português e ticuna) de história   Raimundo Leopardo Ferreira afirma que, entre os ticunas, não havia registros   anteriores da existência de homossexuais, como se vê hoje. Ele teme que, devido   ao preconceito, aumentem os problemas sociais entre os jovens, como o uso de álcool e cocaína.</p> </font>     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2"> ‘Isso [a homossexualidade] é uma coisa que meus avós falavam que não existia’, afirmou”.<a href="#_ftn4" name="_ftnref4" title=""><sup>[4]</sup></a></font></p> </blockquote> <font face="Verdana" size="2">     <p>Quase um ano depois, em   23 de maio de 2009, a <i>Gazeta Online</i> publica uma reportagem com o título   “ONGs denunciam exploração sexual de jovens indígenas gays e travestis em Roraima”.<a href="#_ftn5" name="_ftnref5" title=""><sup>[5]</sup></a> O relato narra a vida de indígenas da Terra   Indígena Raposa / Serra do Sol que, muitas vezes fugindo da   violência proveniente de familiares em suas casas, acabam se prostituindo em   cidades como Boa Vista – como o caso da travesti Paulina, da etnia makuxi,   garota de programa na capital roraimense. Alguns meses antes, em 02 de março   daquele ano, a imprensa mato-grossense divulgava no portal de notícias <i>24     Horas News</i> a matéria “Revelado drama de índios gays do Mato Grosso”.<a href="#_ftn6" name="_ftnref6" title=""><sup>[6]</sup></a></p>     <p>Como no caso dos tikuna e   dos makuxi acima, os umutima que assumem sua homossexualidade sofrem agressões   físicas e verbais, tendo que se afastar de suas famílias para morar na cidade   de Barra do Bugres, onde acabam se travestindo e tornam-se garotas de programa.   Como esses, há vários outros relatos, se não em reportagens que surgem, aqui ou   lá, nas rodas de conversas de etnólogos, pesquisadores e trabalhadores em saúde   junto a povos indígenas. As narrativas mencionadas acima, se lidas atentamente,   deixam claro como essa perspectiva é permeada não apenas dos preconceitos   subjacentes ao contato interétnico quanto, especialmente, das relações de poder que operam no cotidiano daqueles sujeitos.</p>     <p>Desta forma, buscar-se-á   indicar a literatura desde a qual partiu meu referencial analítico: as críticas   <i>two-spirit</i>, com vistas a apontar como a colonização significou (e   significa) para os povos indígenas um encadeamento de dispositivos de heterossexualização   compulsória: políticas de casamento interétnico, de escolarização, de trabalho   nas aldeias e mesmo atos como vestir, dar nomes ou cortar os cabelos dos indígenas   implicaram / implicam, necessariamente, em incorporá-los a um modelo de sexualidade hegemônico.</p>     <p>Ainda que abundem dados   neste sentido nos documentos e literatura sobre as políticas indigenistas no   país, sua sistematização mais ampla aos moldes de trabalhos como Stoler (1995,   2002) e Young (2005) é ainda algo a ser feito na antropologia brasileira.   Entretanto, em que pesem as potencialidades analíticas desses autores no   tocante à relação entre raça, sexo e colonização, lhes falta um olhar mais   aproximado aos contextos indígena e homossexual – tal olhar me foi apontado   pelos autores <i>two-spirit</i> norte-americanos, possibilitando, desde a   perspectiva comparada com o contexto brasileiro, realizar um “arco   interpretativo” (Oliveira 2000). Assim, nosso esforço será o de apresentar,   neste texto, o pensamento<i> two-spirit</i> como meio de acessar a   homossexualidade indígena pensada enquanto crítica ao processo colonial. Ao   final, apresentaremos algumas conclusões sobre o contexto brasileiro, a partir da experiência indígena norte-americana.</p>     <p>&nbsp;</p> </font>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Estabelecendo um arco interpretativo: os   <i>two-spirit</i></b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>A fim de tentar   compreender essas narrativas, busquei estabelecer o que Cardoso de Oliveira   (2000) chama de “arco interpretativo”: um exercício de elucidação recíproca, a   partir de uma perspectiva comparada. Nesse caso, o contraponto foi encontrado   na formação do movimento <i>two-spirit</i>, como chave de interpretação para a compreensão dessas sexualidades não hegemônicas em povos indígenas.</p>     <p>Em 1990, por ocasião da   Third Native American / First Nations Gay and Lesbian Conference,   em Winnipeg, estudiosos, indígenas e ativistas resolveram adotar o termo “<i>two-spirit</i>”<i>.</i>   A escolha da expressão <i>two-spirit</i>, proveniente da expressão ojibwa <i>niizh     manitoag</i>, possui implicações de natureza política. Como escrevem Jacobs, Thomas e Lang:</p> </font>     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">“Muitos homens     nativo-americanos urbanos tentaram voltar para casa em suas reservas para     passar seus últimos anos com suas famílias antes de morrer por complicações da     infecção pelo HIV. Cada um de nós ouviu histórias pessoais de     homens que não eram bem-vindos em ‘casa’ porque eles tinham ‘doença de gay     branco’ e que homossexualidade não era parte da cultura tradicional. Usando a     palavra <i>‘two-spirit’</i>, enfatiza-se o aspecto espiritual da vida e     minimiza-se a <i>persona</i> homossexual” (1997: 3, tradução minha).</font></p> </blockquote> <font face="Verdana" size="2">     <p>Roscoe (1998: 100 ss.)   traça um panorama dos caminhos que levaram a essa articulação – advinda tanto   das lutas pelos direitos homossexuais em San Francisco (Califórnia) quanto das   lutas indígenas na América do Norte, e ainda, posteriormente, pelas demandas   surgidas com o aparecimento da AIDS. O   marco dessa luta foi, justamente, a fundação da GAI (Gay American Indian), em 1975. A articulação que   levou à criação dessa organização apenas foi ­possível após a ocupação de   Alcatraz por ativistas indígenas, em novembro de 1969: o movimento Red Power   deu aos grupos indígenas – inclusive àqueles marginalizados, como os   homossexuais – coragem para organizarem-se e enfrentarem o aparato   pós-colonial. Até então, os indígenas homossexuais eram vistos como párias,   mesmo pelos indígenas, e como resultado da ação colonial (que incluía práticas   como conversão forçada, integracionismo sexual, corte de seus cabelos como   forma de humilhação e, eventualmente, assassinatos). O discurso que então as   lideranças indígenas proferiam era, majoritariamente, no sentido de que a   homossexualidade refletia todas as atitudes avançadas pelo discurso   heteronormativo ocidental de que a homossexualidade corresponderia à depravação.</p>     <p>Contudo, como resultado   indireto desse percurso, Roscoe sinaliza que crescia a consciência de tradições   de gêneros alternativos, não apenas pela memória oral, mas através de livros   que buscavam retratar essas realidades – como <i>Living the Spirit </i>(Roscoe   1988) e <i>The Spirit and the Flesh </i>(Williams 1992). Assim, as organizações   homossexuais indígenas começaram a ter como bandeira de luta recuperar o papel “tradicionalmente sagrado” dos <i>two-spirit</i> em suas culturas.</p>     <p>Nas palavras de Sue Beaver (mohawk):</p> </font>     <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2">“Nós acreditamos que     existe o espírito tanto de homem quanto de mulher interiormente. Olhamos para     nós mesmos como sendo muito privilegiados. O Criador criou seres muito     especiais, quando criou os <i>two-spirit</i>. Ele deu a alguns indivíduos dois     espíritos. Nós somos pessoas especiais, e isso tem sido negado desde o contato     com os europeus… O que os heterossexuais alcançam no casamento, nós conseguimos     dentro de nós mesmos” (Roscoe 1998: 109, tradução minha).</font></p> </blockquote> <font face="Verdana" size="2">     <p>Na verdade, mais do que a   adoção de termos como <i>gay</i>, gênero alternativo, <i>berdache</i>,   etc., o termo <i>two-spirit</i> recuperava um papel tradicional e sagrado –   diferentemente dos demais termos, como <i>berdache</i>. Além disso, ao fazê-lo,   tornava-se uma postura anticolonial, por não mais aceitar as categorias ocidentais de classificação de determinadas práticas.</p>     <p>As ponderações do ativista cherokee Qwo-Li Driskill vão nesse sentido:</p> </font>     <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2">“… as críticas <i>two-spirit</i> apontam para a     incumbência de os estudos <i>queer</i> examinarem o colonialismo em curso, o     genocídio, a sobrevivência e a resistência das nações e povos indígenas. Além disso, eles desafiam os estudos <i>queer</i> para confundir as noções de nação e de diáspora, prestando atenção às     circunstâncias específicas das nações indígenas nos fundamentos territoriais     dentro dos quais Estados Unidos e Canadá colonizam. Para levar as perguntas     acima mais adiante, eu gostaria de perguntar o que as críticas <i>two-spirit</i> podem nos dizer sobre essas mesmas questões. Além disso, o que essas ­críticas     podem nos dizer sobre nação, diáspora, colonização e descolonização?” (Driskill     2010: 86, tradução minha).</font></p> </blockquote> <font face="Verdana" size="2">     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O que parece claro, aqui,   é que a atualização dessa identidade não pode ser compreendida fora do contexto   pós-colonial. Assim, para compreendermos a emergência, ou não, de movimentos   indígenas homossexuais, faz-se necessário buscar entendê-los não apenas enquanto   demandas de gênero ou sobre o corpo, mas, sobretudo, como fenômenos políticos   relacionados à forma como sua relação com o Estado, com os   próprios indígenas e com a sociedade envolvente se mantém. A literatura   acumulada a partir do contexto etnográfico norte-americano pode nos apontar   desafios e direções às quais, dada a (ainda) parca produção acadêmica sobre o   tema produzida sobre povos indígenas no Brasil, não temos votado a devida atenção.</p>     <p>&nbsp;</p> </font>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>(R)Existindo como indígena e <i>gay</i></b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>Em comum nas situações   brasileira e norte-americana, talvez, suas sexualidades dissonantes em relação   ao modelo hegemônico estabelecido por uma lógica ocidental, moderna, cristã e   branca. Mas podemos ir além: a comparação entre as sexualidades indígenas no   Brasil e as críticas e pensamentos <i>two-spirit</i> nos indica algumas direções.</p>     <p>Em primeiro lugar, não se   pode afirmar que os percursos da colonização dos povos indígenas no Brasil e   nos Estados Unidos tenham seguido caminhos inteiramente divergentes. Em ambos   houve momentos marcados por missões, integração forçada, deslocamentos   forçados, escolas que buscassem “civilizá-los” compulsoriamente. Da mesma   forma, o manejo moral dos povos indígenas, seja por   meio de castigos ou de imposição de nomes próprios, padrões de divisão de   trabalho ou educação baseados no binarismo sexual, era parte fundamental de sua   incorporação compulsória ao sistema colonial. Entendo que, mesmo em diferentes   contextos nacionais, ambos estivessem sujeitos às mesmas ordens discursivas,   sendo compulsoriamente colonizados em suas sexualidades a partir de projetos   nacionais, civilizatórios, religiosos, integracionistas e enquadramentos diversos que buscassem manter a diferença colonial.</p>     <p>Desta forma, a   colonização das sexualidades indígenas, pensada a partir das críticas <i>two-spirit</i>,   nos mostra como tais processos não podem ser compreendidos separadamente das   relações de trabalho e dos modelos de moral e família hegemônicos. Tais   processos incidem sobre, e desarticulam, as redes de casamento, parentesco,   moradia, alianças e vida doméstica dos povos indígenas, na medida em que buscam   normalizar espaços, temporalidades e subjetividades indígenas. À colonização   corresponde, necessariamente, a criação de um aparato   burocrático-administrativo, político e psicológico para normalizar as   sexualidades indígenas, moldando-as à ordem colonial. O poder colonial se   assenta nessa assimetria de forças – ontológicas, epistemológicas, políticas –   de tal modo a abrir uma fissura naquelas pessoas cujas vidas não se enquadrem nos modelos hegemônicos.</p>     <p>Desta forma, a retórica   da homossexualidade enquanto “contágio” passa a adquirir um novo sentido, não   mais o da perda da “identidade indígena” – pautada, neste discurso, a partir de   um índio hiper-real (Ramos 1995), a-histórico –, mas enquanto “poluição” para o   projeto / processo civilizador: o índio <i>gay</i> subverte   duplamente o ideal colonizador; moralmente, por sua sexualidade, e etnicamente,   por sua indianidade. Acusar o indígena homossexual de “estar perdendo sua   cultura”, desta forma, é focar sobre uma dessas subversões, trazendo o debate   para dentro da esfera dos “civilizados”: esvaziando-se a diferença étnica,   esvazia-se também a necessidade de se pensar as fissuras abertas pelo processo colonial.</p>     <p>Em outros termos, a dupla   exclusão (étnica   e sexual) mostra as feridas causadas   pela colonização em curso, obrigando a cultura do colonizador a reconhecer suas   próprias contradições. Dessa maneira, retomando especificamente a   homossexualidade indígena, poderíamos dizer que a   civilização, baseada em ideais da cultura moderna / colonial   branca, cristã, patriarcal e heterossexual, impôs aos povos indígenas um   aprisionamento a uma imagem, a vitimização eterna em uma essência (cf.&nbsp;Fanon   2008: 30, 47): um indío hiper-real, a-histórico, sem conflitos internos, sexualidades,   desejos ou afetos. A homossexualidade indígena não é, desta perspectiva, sinal   de “perda cultural”, mas, antes, sua invisibilidade e subalternização são resultado de dinâmicas coloniais ainda em curso.</p>     <p>&nbsp;</p> </font><font size="3" face="Verdana"><b>BIBLIOGRAFIA</b></font> <font face="Verdana" size="2">    <!-- ref --><p>DRISKILL,   Qwo-Li, 2010, “Doubleweaving: two-spirit critiques – building alliances between native and queer studies”, <i>GLQ: A Journal of Lesbian and Gay Studies</i>. 16&nbsp;(1-2): 69-92.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203856&pid=S0873-6561201700030001500001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>FANON, Frantz, 2008, <i>Pele Negra, M</i>áscaras <i>Brancas.</i> Salvador, Edufba.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203858&pid=S0873-6561201700030001500002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>FERNANDES, Estevão R., 2015, <i>Decolonizando Sexualidades:   Enquadramentos Coloniais e Homossexualidade Indígena no Brasil e nos Estados   Unidos</i>. Brasília, CEPPAC, Universidade de Brasília, tese de doutorado em Estudos Comparados sobre as Américas.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203860&pid=S0873-6561201700030001500003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>FERNANDES,   Estevão R., e Bárbara M. ARISI, 2017, <i>Gay Indians in Brazil: Untold Stories of the Colonization of     Indigenous Sexualities. </i>Cham, Springer.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203862&pid=S0873-6561201700030001500004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>FOUCAULT, Michel, 1988, <i>História da Sexualidade&nbsp;I: A&nbsp;Vontade de Saber</i>. Rio de Janeiro, Graal.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203864&pid=S0873-6561201700030001500005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>JACOBS, Sue   Ellen, Wesley THOMAS, e Sabine   LANG (orgs.), 1997, <i>Two-Spirit People: Native American Gender Identity, Sexuality, and Spirituality</i>. Urbana, University of Illinois Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203866&pid=S0873-6561201700030001500006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>McCALLUM, Cecilia, 2013, “Nota sobre as categorias   ‘gênero’ e ‘sexualidade’ e os povos indígenas”, <i>Cadernos Pagu</i>, 41: 53-61.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203868&pid=S0873-6561201700030001500007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>MOTT,   Luiz, 1997, “Etno-história de la homosexualidad en América Latina”, <i>Historia y Sociedad</i>, 4: 123-144.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203870&pid=S0873-6561201700030001500008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>OLIVEIRA, Roberto Cardoso de, 2000, “A dupla interpretação   da antropologia”, em R. C. de Oliveira, <i>O Trabalho do Antropólogo: Olhar, Ouvir, Escrever</i>. São Paulo, Editora da Unesp / Brasília, Paralelo 15, 95-106 (2.ª&nbsp;edição).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203872&pid=S0873-6561201700030001500009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>RAMOS, Alcida R., 1995, “O índio hiper-real”, <i>Revista Brasileira de Ciências Sociais</i>, 28&nbsp;(10):&nbsp;5-14.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203874&pid=S0873-6561201700030001500010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>ROSCOE, Will,   1988, <i>Living the Spirit: A Gay American Indian Anthology</i>. Nova Iorque, St.&nbsp;Martin’s Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203876&pid=S0873-6561201700030001500011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>ROSCOE, Will, 1998, <i>Changing Ones: Third and Fourth Genders in   Native North America</i>. Nova Iorque, St.&nbsp;Martin’s Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203878&pid=S0873-6561201700030001500012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>STOLER, Ann   Laura, 1995, <i>Race and the Education of Desire: Foucault’s History of Sexuality and the Colonial Order of Things</i>. Durham, Duke University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203880&pid=S0873-6561201700030001500013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>STOLER, Ann   Laura, 2002, <i>Carnal Knowledge and Imperial Power: Race and the Intimate in Colonial Rule</i>. Berkeley, University of California Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203882&pid=S0873-6561201700030001500014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>WILLIAMS, Walter   L., 1992, <i>The Spirit and the     Flesh:&nbsp;Sexual Diversity in American Indian Culture</i>. Boston, MA, Beacon Press (2.ª&nbsp;edição revista).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203884&pid=S0873-6561201700030001500015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>YOUNG, Robert J. C., 2005, <i>Desejo Colonial</i>. São Paulo, Perspectiva.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=203886&pid=S0873-6561201700030001500016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p> </font><font size="3" face="Verdana"><b>NOTAS</b></font><font face="Verdana" size="2">     <p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1" title="">[1]</a>             A   pesquisa teve financiamento através do Edital Universal do CNPq (processo   n.º&nbsp;472316 / 2011-7) e do programa de doutorado sanduíche no exterior da Capes (processo n.º&nbsp;8145-13-0).</p>     <p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2" title="">[2]</a>             Agradeço   a colaboração dos pareceristas anônimos da <i>Etnográfica</i> por haverem me chamado a atenção para este ponto.</p>     <p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3" title="">[3]</a>             Cf.   Fernandes (2015). Retomaremos esse ponto em nossa conclusão.</p>     <p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4" title="">[4]</a>             O   texto é assinado por Kátia Brasil, da Agência Folha, e está disponível em <a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2707200821.htm" target="_blank">http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2707200821.htm</a> (última consulta em outubro de 2017).</p>     <p><a href="#_ftnref5" name="_ftn5" title="">[5]</a>             Assinada   pela Agência Estado e disponível em <a href="http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2009/05/91533-ongs+denunciam+exploracao+sexual+de+jovens+indigenas+gays+e+travestis+em+roraima.html" target="_blank">http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2009/05/91533-ongs+denunciam+exploracao+sexual+de+jovens+indigenas+gays+e+travestis+em+roraima.html</a> (última consulta em outubro de 2017).</p>     <p><a href="#_ftnref6" name="_ftn6" title="">[6]</a>             Assinada   pela Redação do <i>Toda Forma de Amor</i>,   com informações do <i>24 Horas News</i> e reportagem de Raoni Ricci.</p> </font>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[DRISKILL]]></surname>
<given-names><![CDATA[Qwo-Li]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Doubleweaving: two-spirit critiques - building alliances between native and queer studies]]></article-title>
<source><![CDATA[GLQ: A Journal of Lesbian and Gay Studies]]></source>
<year>2010</year>
<volume>16</volume>
<numero>1-2</numero>
<issue>1-2</issue>
<page-range>69-92</page-range></nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[FANON]]></surname>
<given-names><![CDATA[Frantz]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Pele Negra, Máscaras Brancas]]></source>
<year>2008</year>
<publisher-loc><![CDATA[Salvador ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Edufba]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[FERNANDES]]></surname>
<given-names><![CDATA[Estevão R.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Decolonizando Sexualidades: Enquadramentos Coloniais e Homossexualidade Indígena no Brasil e nos Estados Unidos]]></source>
<year>2015</year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[FERNANDES]]></surname>
<given-names><![CDATA[Estevão R.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[ARISI]]></surname>
<given-names><![CDATA[Bárbara M.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Gay Indians in Brazil: Untold Stories of the Colonization of Indigenous Sexualities]]></source>
<year>2017</year>
<publisher-loc><![CDATA[Cham ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Springer]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[FOUCAULT]]></surname>
<given-names><![CDATA[Michel]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[História da Sexualidade I: A Vontade de Saber]]></source>
<year>1988</year>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Graal]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B6">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[JACOBS]]></surname>
<given-names><![CDATA[Sue Ellen]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[THOMAS]]></surname>
<given-names><![CDATA[Wesley]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[LANG]]></surname>
<given-names><![CDATA[Sabine]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Two-Spirit People: Native American Gender Identity, Sexuality, and Spirituality]]></source>
<year>1997</year>
<publisher-loc><![CDATA[Urbana ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[University of Illinois Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B7">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[McCALLUM]]></surname>
<given-names><![CDATA[Cecilia]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Nota sobre as categorias ‘gênero’ e ‘sexualidade’ e os povos indígenas]]></article-title>
<source><![CDATA[Cadernos Pagu]]></source>
<year>2013</year>
<volume>41</volume>
<page-range>53-61</page-range></nlm-citation>
</ref>
<ref id="B8">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[MOTT]]></surname>
<given-names><![CDATA[Luiz]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="es"><![CDATA[Etno-história de la homosexualidad en América Latina]]></article-title>
<source><![CDATA[Historia y Sociedad]]></source>
<year>1997</year>
<volume>4</volume>
<page-range>123-144</page-range></nlm-citation>
</ref>
<ref id="B9">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[OLIVEIRA]]></surname>
<given-names><![CDATA[Roberto Cardoso de]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A dupla interpretação da antropologia]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[Oliveira]]></surname>
<given-names><![CDATA[R. C. de]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[O Trabalho do Antropólogo: Olhar, Ouvir, Escrever]]></source>
<year>2000</year>
<edition>2</edition>
<page-range>95-106</page-range><publisher-loc><![CDATA[São PauloBrasília ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Editora da UnespParalelo 15]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B10">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[RAMOS]]></surname>
<given-names><![CDATA[Alcida R.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O índio hiper-real]]></article-title>
<source><![CDATA[Revista Brasileira de Ciências Sociais]]></source>
<year>1995</year>
<volume>28</volume>
<numero>10</numero>
<issue>10</issue>
<page-range>5-14</page-range></nlm-citation>
</ref>
<ref id="B11">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[ROSCOE]]></surname>
<given-names><![CDATA[Will]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Living the Spirit: A Gay American Indian Anthology]]></source>
<year>1988</year>
<publisher-loc><![CDATA[Nova Iorque ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[St. Martin’s Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B12">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[ROSCOE]]></surname>
<given-names><![CDATA[Will]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Changing Ones: Third and Fourth Genders in Native North America]]></source>
<year>1998</year>
<publisher-loc><![CDATA[Nova Iorque ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[St. Martin’s Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B13">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[STOLER]]></surname>
<given-names><![CDATA[Ann Laura]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Race and the Education of Desire: Foucault’s History of Sexuality and the Colonial Order of Things]]></source>
<year>1995</year>
<publisher-loc><![CDATA[Durham ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Duke University Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B14">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[STOLER]]></surname>
<given-names><![CDATA[Ann Laura]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Carnal Knowledge and Imperial Power: Race and the Intimate in Colonial Rule]]></source>
<year>2002</year>
<publisher-loc><![CDATA[Berkeley ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[University of California Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B15">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[WILLIAMS]]></surname>
<given-names><![CDATA[Walter L.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[The Spirit and the Flesh: Sexual Diversity in American Indian Culture]]></source>
<year>1992</year>
<edition>2</edition>
<publisher-loc><![CDATA[Boston^eMA MA]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Beacon Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B16">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[YOUNG]]></surname>
<given-names><![CDATA[Robert J. C.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Desejo Colonial]]></source>
<year>2005</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Perspectiva]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
