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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[“Paizões”, “filhotes” e a “simbiose do amor”: regulações de gênero entre homens frequentadores da comunidade dos “ursos” no Recife (Brasil)]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[“Daddies”, “cubs” and the “symbiosis of love”: gender regulations among men frequenting the “bear” community in Recife (Brazil)]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The text examines styles of being a man in the “bear” community (burly and hairy homosexual men) in Recife. It identifies among the bears a gender system that, in the regulation of sexual and affective relationships, stigmatizes femininity and uses meanings of age/kinship (autonomy/dependence) and sexual practices (“top”/“bottom”), expressed in “daddies”/“top”/autonomous and “cubs”/“bottom”/dependent. However, in everyday life, the binarisms and alignments are blurred by misalignments, hybridizations and positionalities expressed, for example, in the “neutral behavior” and “versatile sexual posture” categories.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[  <font face="Verdana" size="2">       <p align="right"><b>ARTIGOS</b></p>     <p>&nbsp;</p> </font>     <p><font size="4" face="Verdana"><b>“Paizões”, “filhotes” e a   “simbiose do amor”: regulações de gênero entre homens frequentadores da   comunidade dos “ursos” no Recife (Brasil)</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>&ldquo;Daddies&rdquo;,   &ldquo;cubs&rdquo; and the &ldquo;symbiosis of love&rdquo;: gender regulations among men frequenting   the &ldquo;bear&rdquo; community in Recife (Brazil)</b> </font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Luís Felipe Rios<sup>I</sup></b></p> </font>     <p><font face="Verdana" size="2"><sup>I</sup> Laboratório de Estudos da Sexualidade Humana/LabESHU, Programa de Pós-Graduação   em Psicologia, Universidade Federal de Pernambuco, Brasil. E-mail: <a href="mailto:lfelipe.rios@gmail.com">lfelipe.rios@gmail.com</a> </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <font face="Verdana" size="2"></font> <hr noshade size="1"> <font face="Verdana" size="2">     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>O texto analisa estilos de   ser homem na comunidade dos “ursos” (homossexuais corpulentos e peludos) no   Recife. Identifica entre “ursos” um sistema de gênero que, na regulação das   relações afetivo-sexuais, estigmatiza a feminilidade e aciona significados de   idade/parentesco (autonomia/dependência) e das práticas sexuais (ativo/passivo),   expressos em “paizões”/“ativos”/autônomos e “filhotes”/“passivos”/dependentes.   No entanto, no cotidiano, os binarismos e alinhamentos são matizados por   desalinhamentos, hibridizações e posicionalidades expressos, por exemplo, nas   categorias “comportamento neutro” e “postura sexual versátil”.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> gênero, sexualidade, homossexualidade, homens</p> </font> <hr noshade size="1"> <font face="Verdana" size="2">     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>The text   examines styles of being a man in the “bear” community (burly and hairy   homosexual men) in Recife. It identifies among the bears a gender system that,   in the regulation of sexual and affective relationships, stigmatizes femininity   and uses meanings of age/kinship (autonomy/dependence) and sexual practices (“top”/“bottom”), expressed in “daddies”/“top”/autonomous and “cubs”/“bottom”/dependent. However, in everyday   life, the binarisms and alignments are blurred by misalignments, hybridizations   and positionalities expressed, for example, in the “neutral behavior” and “versatile sexual posture” categories.</p>     <p><b>Keywords:</b> gender, sexuality, homosexuality, men</p> </font> <hr noshade size="1"> <font face="Verdana" size="2">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> </font>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana"><b>Introdução</b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>Este trabalho analisa os   estilos corporais dos homens integrantes de uma das vertentes da comunidade   homossexual do Recife, os “ursos”, procurando compreender a operação do sistema de sexo-gênero (Rubin 1993) na regulação das relações afetivas e sexuais.<a href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><sup>[1]</sup></a></p>     <p>A discussão aqui apresentada   está embasada em pesquisa etnográfica que aconteceu entre maio de 2011 e abril   de 2014, no âmbito de um projeto mais amplo sobre homossexualidade e estigma na   comunidade <i>gay</i> do Recife (capital do   estado de Pernambuco, Nordeste do Brasil) e foi viabilizada por observação   participante em <i>sites</i> da Internet e   espaços de sociabilidade homossexual <i>off-line</i>   do centro do Recife, conversas informais <i>online</i>   e <i>off-line</i>, e 79 entrevistas de   várias modalidades. Neste artigo, foco o contexto dos “ursos” e apresento dados   oriundos de observação – coletados basicamente em dois estabelecimentos   comerciais, um bar, aqui denominado Toca, e um <i>site</i>, a que chamo aqui <i>Site     dos Ursos</i> – e de dez entrevistas temáticas com informantes-chave e três   entrevistas com foco biográfico. Uso pseudônimos para me referir às pessoas e   locais, de modo a guardar a confidencialidade quanto à identidade dos   interlocutores. O projeto que deu origem aos dados aqui analisados foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFPE.<a href="#_ftn2" name="_ftnref2" title=""><sup>[2]</sup></a></p>     <p>Na pesquisa, busquei dar   relevo ao contexto comunitário dos “ursos”, ocupando-me da tarefa de   compreender a cultura sexual (Parker 1991, 2002; ­Gagnon 2006), permitindo a   emergência de categorias êmicas, a interpretação que os “nativos” lhes dão e   como delas se utilizam, sem me furtar, entretanto, a oferecer minha própria   interpretação sobre o fenômeno objeto de investigação, à luz do referencial   teórico que enfatiza a construção sociocultural dos eventos sexuais (Rubin 1993, 1998; Butler 2003, 2010).</p>     <p>Investiguei as parcerias   e práticas afetivas e sexuais na perspectiva de apreender regimes de produção   de diferenças sociais (Brah 2006) nos corpos-subjetividades e chegar à   compreensão daquilo que Gayle Rubin (1993) denominou sistemas de sexo-gênero:   arranjos socioculturais que constituem os sujeitos afins a determinada cultura,   e operam instituindo, por um lado, o tabu da homossexualidade e, por outro,   diferenças, assimetrias e complementariedades entre os seres sexuados (nos   afetos, na sexualidade, na divisão do trabalho, na lida doméstica, na aparência   corpórea, etc.) de modo a garantir a multiplicação dos indivíduos e a   reprodução social. Ela observou que em muitas sociedades, mesmo quando o tabu   da homossexualidade é relaxado, haveria uma tendência para uma manutenção das   assimetrias de gênero, expressas, sobretudo, na formação de casais que, embora   sejam (biologicamente) do mesmo sexo, são estilisticamente compostos por alguém masculino e alguém feminino.</p>     <p>Querendo me aproximar dos   corpos como territórios das experiências subjetivas, estou utilizando a noção   de estilo corporal para operacionalizar a análise do processo de posicionamento   que os marcadores sociais, em intersecções (Brah 2006; Piscitelli 2008),   realizam. Os estilos são compreendidos como (com)posições sociais, resultados   estéticos e de expressividade do agenciamento (consciente ou inconsciente) de   elementos corporais, como constituição física, gestual, sotaque, vestuário,   adereços, emoções, sentimentos, etc., os quais possuem efeitos de enunciações   de identidade. Quando alguém é adscrito a um estilo, há a produção de sentidos   (significados, valores, sentimentos e direcionamentos) que medeiam a construção de si e a apreensão dos/pelos outros (Rios <i>et&nbsp;al</i>. 2017).</p>     <p>Vale também lembrar com   Judith Butler (2003, 2010) que o gênero opera performativamente. Nos atos de   significação são constituídos corpos generizados: inteligíveis, reguláveis e   passíveis de legitimação e normatização. No entanto, por efeito da   iterabilidade e citação, os atos de significação também produzem deslizamentos   e descontinuidades, permitindo o surgimento de novas inteligibilidades, regulações, legitimações e normatizações (cf. também Pinto 2013).</p>     <p>Situados os   enquadramentos teóricos e metodológicos da pesquisa, passarei à apresentação   dos resultados, que foram divididos em três partes. Na primeira, discuto a   organização das comunidades homossexuais e o lugar dos “ursos” nesse contexto   mais amplo. Em seguida, estabeleço uma primeira aproximação   analítico-descritiva dos “roteiros sexuais” (Gagnon 2006) atualizados em   estilos corporais “paizão” e “filhote”, que, na comunidade “ursina”, enredam a   formação de parcerias sexuais. Finalmente, adenso a interpretação sobre a   operação do sistema de sexo-gênero nas configurações e expressões de desejos e formação de parcerias sexuais.</p> </font>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Comunidade dos “ursos”</b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Uma série de estudos têm   apontado para os modos como pessoas com práticas homossexuais se organizam   comunitariamente para enfrentar o estigma (Krieger 1998; Green 2002). No caso   do Brasil, sem marcações territoriais muito precisas em termos de moradia de   seus integrantes, as comunidades homossexuais se delineiam e emergem do fundo   social quando a vida urbana das grandes cidades do Brasil é objeto de   observação mais cuidadosa. Surge, então, uma profusão de lugares de sociabilidade homossexual, ainda que dispersos entre a hegemonia heterossexual.</p>     <p>Circulando por esses   lugares, é possível perceber redes de símbolos, práticas e significados   compartilhados pelas pessoas que os frequentam e que, a despeito de muitas   delas quererem se dizer <i>gays</i>,   homossexuais ou outro termo nativo correlato, as fazem se marcar como   “entendidas” (categoria nativa) no que resulta de suas práxis nesses lugares.   Ainda assim, os modos como a pessoas se posicionam nesse campo de poder e   desejo (Parker 2002) vão rumar para o corpo para configurar diferenciações (Brah 2006) nos estilos corporais.</p>     <p>Nessa linha, as várias   vertentes que compõem a comunidade homossexual se organizam em um campo que se   define e se faz, nas bordas, em relação à heteronormatividade hegemônica, e nos   centros, por estilos de ser homossexual. A literatura tem destacado algumas das   estilizações de homossexualidades, como a “bicha”, o “bofe”, o “<i>boy</i>”, a “pintosa”, a “<i>barbie</i>”, etc.<a href="#_ftn3" name="_ftnref3" title=""><sup>[3]</sup></a> (Fry 1982; Perlongher 2008; Green 2002; Parker   2002; Guimarães 2004; Simões, França e Macedo 2010; França 2013; Rios 2008;   Rios <i>et&nbsp;al</i>. 2017; entre outros).   Essas e outras personagens entram na composição da sociabilidade homossexual   mais ampla, da qual participam homens e mulheres de diferentes orientações   sexuais e posicionamentos de gênero, registradas nas páginas das etnografias das cenas homossexuais à brasileira.</p>     <p>Algumas das categorias   mencionadas conseguem constituir uma espécie de segunda rede de entendimento,   demarcando fronteiras com a comunidade homossexual englobante, desenvolvendo   coletivamente formas de sociabilidade muito próprias. Assim parece ser com os   “ursos”. Comunidade de homens com práticas homossexuais surgida nos EUA (Wright   1997) e que cresce em afins no Brasil (Trindade 2004), a comunidade “ursina”   tem alguns marcadores que a tornam singular se comparada com outras vertentes das comunidades <i>gay</i>.</p>     <p>Isadora França (2013),   analisando os sentidos sobre espaços de homossociabilidade da cena paulista,   elege como um dos lugares-chave de sua ­investigação a Ursound, uma das mais   importantes festas “ursinas” do Brasil. Conforme a autora, esta se configura   como uma cena alternativa dentro do universo <i>gay</i>, dialogando e se opondo ao que seria a sua porção mais   valorizada. Esta última, no contexto paulista, é atualizada pela boate The   Week, que tem como característica sua participação nos fluxos internacionais   que produzem os “consensos” sobre o que é ser um <i>gay</i> bem-sucedido. Sobre isso, França (2013) destaca a relação que   se estabelece entre aparência corpórea e capital sexual, com grande valorização do corpo modelado.</p>     <p>A Ursound é frequentada   por homens que não atenderiam ao estilo esperado na The Week, por apresentarem,   nas palavras da autora, um “tipo de masculinidade menos suave, às vezes   referida como normal”, ou seja, uma valorização de “um relativo desleixo nas   roupas, a camisa, os gestos mais comedidos, uma saliente barriga […] trazendo também algum grau de rejeição aos mais femininos e espalhafatosos” (França 2013: 155). França sublinha ainda:</p> </font>     <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2">“[…] os ursos e suas iniciativas ganhariam     alguma visibilidade por desafiar determinados ‘consensos’, por comunicarem-se     com referências internacionais e por demonstrarem algum nível de organização     enquanto ‘comunidade’, com discussões a respeito da categoria urso e da     demarcação de fronteiras e iniciativas para além do lazer noturno (com a     criação de revistas, sites, confecções e eventos voltados para esse público). Essa diversidade de ações, bem como a produção de     discursos em torno da categoria, faz com que os ursos sejam comumente     reconhecidos como um contraponto aos ‘consensos’ na cena gay” (2013:&nbsp;155).</font></p> </blockquote> <font face="Verdana" size="2">     <p>Daniel Santos e Mara Lago   (2013), que etnografaram um bar de “ursos” em Florianópolis, caracterizaram-no   por certo nomadismo identitário, agregando pessoas consideradas fora dos   padrões estéticos apreciados na comunidade <i>gay</i>   (em especial velhos, gordos, peludos). Nesses contextos, a figura do animal   urso é ícone do estilo corporal que se espera dos homens: corpulentos, peludos   e masculinos (Wright 1997). Não obstante, vários subtipos se inscrevem a partir   desse ideal corporal (“caçador”, “<i>musclebear</i>”,   “<i>cubby</i>”, e muitos outros), como   mostra José Ronaldo Trindade (2004) em relação à cena “ursina” paulista. Mas é   grande a distância entre o “urso” idealizado e os frequentadores da comunidade   dos “ursos” em Recife. O mais encontrado é o “homem comum”, de “meia-idade”,   que figuraria despercebido em termos de sua orientação sexual em qualquer contexto da sociedade brasileira.</p>     <p>Josemir Domingos (2010) sugere   que os “ursos” se contrapõem à estética <i>gay</i>   hegemônica por liberarem seus integrantes das árduas exigências da   ­transformação corporal diante de uma norma feminizante da cultura <i>gay</i>, iconificada pelas “<i>barbies</i>”. Eu duvido dessa liberação. Se,   para um olhar desavisado, qualquer homem “heterossexual” (leia-se   masculinizado) transitaria muito bem na comunidade “ursina”, vale lembrar que   há todo um investimento corporal para que os próprios homens heterossexuais   constituam os estilos de serem homens socialmente esperados (Almeida 1995; Miskolci 2006).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Assim, não basta ter   pelos e ser gordo, ser “urso” exige bem mais dos homens. Eles não devem se   vestir excessivamente <i>fashion</i>,<a href="#_ftn4" name="_ftnref4" title=""><sup>[4]</sup></a> mas também precisam ressaltar atributos   valorizados na comunidade “ursina”. Para ir à Toca, um estabelecimento   comercial que fica localizado no complexo de entretenimento homossexual do   centro do Recife, as camisas de botão, em geral quadriculadas, ou “camisetas   machão” são as favoritas dos homens, uma vez que deixam à mostra partes do   corpo (dorso e ombros) em que estão os tão valorizados pelos. Para compor o   visual, cintos largos e bonés, que acenam para as Forças Armadas ou torcidas de   futebol; calças surradas, aparentando desgastadas pelo tempo; bermudas   apontando para certo desleixo. Todos esses elementos acenam para uma   hipervalorização de atributos (de vestuário) de virilidade entre militares,   motoqueiros e trabalhadores braçais. Essa construção corporal não se dá apenas   pela imitação, mas também pelo constrangimento, perante comentários   depreciativos e (suposta indiferença dos) olhares dirigidos aos que, desavisada   ou intencionalmente, resolvem entrar <i>fashion</i> nos lugares<i> off-line</i> da comunidade.</p>     <p>A Toca é um estabelecimento que comporta,   conforme placa localizada na entrada, 200 pessoas. É composto de um espaço com   mesinhas, uma pista de dança, saleta para jogo de sinuca, banheiro e algumas   cabines para sexo. Nos dois primeiros espaços, há venda de bebida e comida. No   espaço de dança, há uma grande TV de plasma, exibindo, além de anúncios sobre a   casa e sua programação, fotos de homens peludos e/ou gordos   e/ou maduros, nus e/ou em interação sexual, além de   pequenos trechos de filmes pornô e clipes de <i>performances</i> caricatas. Em uma pequena sala, à meia-luz, está   posicionada uma mesa de sinuca, dois sofás e outra TV exibe filmes pornô, com   personagens de agrado dos “ursos”. Para os que quiserem, existem algumas   cabines disponíveis gratuitamente para contatos sexuais mais íntimos. Todo esse   aparato situa o clima de “libertinagem” sexual, que marca o lugar – muito   assemelhado com o descrito por Santos e Lago (2013) sobre o bar de “ursos” em Florianópolis.</p>     <p>As expectativas dos   homens que frequentam a Toca são variadas, ainda que permeadas pela eroticidade   que o próprio espaço ajuda a constituir. Há homens (indivíduos e casais) que   querem encontrar e fazer amigos, papear, jogar sinuca, escutar e dançar músicas   das décadas de 1970, 1980 e 1990. Há, e em grande maioria, os que, sem   dispensar todos os supracitados ­divertimentos, vão buscar parceiros para ter   sexo (o que, <i>a&nbsp;posteriori</i>, pode resultar em namoro, amizade ou nada mais que um encontro prazeroso fortuito).</p>     <p>Na Toca, os flertes e   “cantadas” são muito comuns. Se se está casado ou namorando e o parceiro é   muito ciumento, aquele não é o melhor lugar para ir. Os “ursos” são muito   “afoitos”, os interesses sexuais são mais facilmente explicitados do que em   outros bares e boates <i>gay</i> – onde o   jogo de sedução pelos olhares, antes de passar à conversa, é, em geral, mais demorado.</p>     <p>Também há os casais em   busca de terceiros parceiros para interações sexuais; há os homens que   partilham um relacionamento aberto, que podem estar na Toca sozinhos ou   acompanhados; há os que “pulam a cerca”; e há os que, saindo de relacionamentos fixos, voltam à Toca em busca de diversão.</p>     <p>Na Toca é possível beijar   várias bocas em uma única noite; e não é incomum ver beijos a três ou mais. Em   dias de muito movimento, com a casa lotada, o calor aumenta e os homens são   convocados a tirar a camisa. Há festas onde os que entram nus, ou de cueca, não pagam ingresso.</p>     <p>Mas o clima de   “libertinagem” sexual não impede a construção de amizades, tampouco a presença   e a concretização dos ideais de amor romântico e a possibilidade de se passar,   ou mesmo transitar, do “sexo livre” ao “par estável”. Os meus interlocutores   falavam do desejo de formar casal, mas apontavam as muitas desilusões ou o   gosto pela “sacanagem” como as reticências que os faziam titubear quando   conheciam alguém interessante, que gostariam de ter para mais que apenas uma   “curtição”. Muitos apontavam que gostariam de ter parceiros como aqueles dos   casais que frequentavam a Toca – que “curtem” relacionamento aberto, em que   sozinhos ou em dupla podem desfrutar de interações sexuais com outros homens.   Outros diziam que estavam dispostos a uma vida mais recatada, caso o parceiro   ideal chegasse e não gostasse dos <i>ménages</i>,   “surubas” ou relacionamentos abertos. Boa parte desejava mesmo a monogamia, a formação do casal.</p>     <p>No <i>Site dos Ursos</i> a busca por parceiros sexuais é ainda mais enfática.   Os perfis apresentam as características corporais, os modos de ser, as   preferências e os interesses sexuais e eróticos dos participantes. Em boa parte   dos perfis, fotos dos rostos e/ou dos corpos nus, ou parte deles,   desfilam na apresentação dos homens. Estes podem aparecer sozinhos ou em   interação sexual. No <i>site</i> há   ferramentas de apresentação e de busca que possibilitam a assunção de opções   subjetivas em conformidade com os ideais (internacionais) da comunidade dos   “ursos”, como constituição (gordão, gordinho, gordo, normal, musculoso, magro,   parrudo), pelos corporais (muitos, nenhum, normal, pouco), quantidade de cabelo   (calvo, careca, comprido, curto, ficando ralo), barba (barba curta, barba   longa, bigode, cavanhaque, sem barba), cor da barba (não se aplica, castanha,   grisalha, loira, preta, ruiva), comportamento (paizão, filhote, neutro) e tipo   ursino (caçador, gordo sem pelos, lontra, urso, urso gordo, urso musculoso, urso negro, urso parrudo, urso polar).<a href="#_ftn5" name="_ftnref5" title=""><sup>[5]</sup></a></p>     <p>No <i>site</i> também é possível ficar sabendo dos eventos “ursinos” que   acontecem em todo o Brasil, inclusive os da Toca. Em adição, era comum   reconhecer os homens que tinham fotos de rosto no perfil do <i>site</i> quando estavam na Toca. Nesse   âmbito, ao ofertar-se como lugar <i>online</i>   para a sociabilidade de homens que fazem sexo com homens (do Brasil e também de   outros países), cumpre o papel de trazer para o Recife categorias e modos de   pensar “ursinos”, e, em conjunto com a Toca, produzir o consenso, aludido por   França (2013), para que haja o reconhecimento dos seus participantes enquanto   parte de uma comunidade que consegue se diferenciar e se afirmar em sua singularidade na cena <i>gay</i> do Recife.</p>     <p>Nessa linha, mais que ser   corpulento e peludo, para participar da comunidade, o importante é a afinidade   com os ideais que a fazem existir. Dada a centralidade da fruição sexual nos   dois espaços investigados, é preciso que os participantes se apropriem dos   códigos e regras que regulam as interações e compartilhem dos roteiros que orientam a formação de parcerias. É sobre isso que passarei a descrever.</p> </font>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>A formação dos casais</b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>Analisando as   representações sobre parcerias homossexuais entre homens no Brasil, Peter Fry   (1982) apontou para a existência de um modo de lhes dar sentido, mais antigo e   associado às classes populares, que o autor qualificou como assimétrico, em que   posições sexuais (sexo anal insertivo e sexo anal receptivo) e identidades de   gênero são articuladas de modo que o homem feminino/“passivo”, comumente nomeado de “bicha” (ou “frango”, “veado”, “pintosa”), se relacionaria com o   masculino/“ativo”, “homem mesmo” (ou “bofe”, “cafuçu”) –   o último não concebido como homossexual<i>.</i>   Em adição, haveria um outro modelo, associado ao processo de modernização do   país, mais presente nas camadas médias, em que haveria uma lógica simétrica: as   parcerias independeriam de identidades de gênero e ambos os parceiros, a   despeito das posições sexuais, seriam concebidos como homossexuais (cf.&nbsp;também Parker 1991, 2002; Green 2002; Guimarães 2004).<a href="#_ftn6" name="_ftnref6" title=""><sup>[6]</sup></a></p>     <p>Os dois modelos foram   encontrados em pesquisas mais recentes sobre as comunidades <i>gay</i> das metrópoles brasileiras (Monteiro   <i>et&nbsp;al</i>. 2010; Simões, França e   Macedo 2010; França 2013). Não obstante, as posições se ampliaram do “ativo” e “passivo”, dando passagem para a   “versatilidade” (sexo anal receptivo e insertivo) (Rios <i>et&nbsp;al</i>. 2017). Embora haja referências, nas etnografias mais   antigas, a práticas receptivas e insertivas realizadas por uma mesma pessoa, o   termo “versátil” (e os híbridos “versátil mais passivo” e “versátil mais   ativo”) é de uso recente, parecendo acompanhar o advento dos <i>sites</i> brasileiros de busca de parceiros na Internet, versões de congêneres estrangeiros.</p>     <p>Como apontado, os   participantes da comunidade dos “ursos” do   Recife são pouco afeitos a gestos e maneirismos linguísticos que remetam à   feminilidade. Esse é um ideal de ser homem que gera tensões na própria   comunidade “ursina”. Para aprofundar a questão, transcreverei uma cena de meu   diário de campo. Era noite de sábado, em uma badalada festa na Toca. Estava   acompanhado por dois “ursos”, importantes    interlocutores ao longo do trabalho de campo: Fernando (branco, gordo   sem pelos, 45 anos, formação superior, solteiro) e Carlos (negro, gordo sem pelos, 26 anos, ensino fundamental, solteiro).</p> </font>     <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2">“Na Toca: Era uma festa,     das que, quando acontecem, chamam ursos e simpatizantes de outras cidades e     estados. Fernando fica com um cara de outro estado. A Toca esvaziava e eu me     divertia na pista de dança juntamente com Carlos. Fernando me oferece carona.     Aceitei. Na saída, ele chama o ficante e também oferece carona, ele estava     hospedado no mesmo bairro que o de minha residência.    <br>     No carro: Não me lembro, ao certo, por que caminho a conversa seguiu, mas o     fato é que em certo ponto da viagem o outro caronista pergunta sobre a minha     posição sexual (ativo/passivo). Na brincadeira, desconversei,     evitando a resposta. Mas logo ele sugere uma conclusão: diz que, por eu ser     pintosa, só posso ser passiva. Não se fazendo de rogado, começa a destituir     minha imagem a partir da ideia de afeminamento, sugerindo uma série de práticas     sexuais nas quais eu seria um expert, me tratando por categorias da comunidade <i>gay</i> que me remetiam à posição passiva/afeminada (bicha, frango, veado,     etc.). Mesmo já estando bastante irritado por estar sendo depreciado, mantive o     controle e busquei sondar de onde ele tirava a ideia de afeminamento. Eu não me     via assim. Ele aciona a minha performance na dança: ocupar o centro do <i>dancing</i> e buscar aparecer. Na interpretação dele, homem ativo se posicionaria nas     bordas e teria uma natural contenção na dança. Também elencou algo de minha     gestualidade e modo de falar” [diário de campo, setembro de 2011].</font></p> </blockquote> <font face="Verdana" size="2">     <p>Na comunidade “ursina”,   algumas das categorias para nomear homens homossexuais, como “bicha”, “frango”,   “veado”, são utilizadas no cotidiano de amigos “ursos” para se referirem   mutuamente, não dependendo da posição sexual da pessoa. Há um menor uso, na   relação face a face, dos termos no feminino, como “a senhora”, comuns em outros   contextos homossexuais. O que vale destacar na cena que vivi é que essas   categorias, quando utilizadas para nomear uma pessoa que não se conhece, na relação face a face ganham um grande tom ofensivo. Em especial o tratamento no feminino.</p>     <p>Não quero dizer que os   “ursos” não deem “pinta”; efetivamente, alguns deles dão. Inclusive há momentos   de licença para a “fechação” – quase   sempre quando se caricatura alguém, em especial nos momentos de maior   embriaguez.<a href="#_ftn7" name="_ftnref7" title=""><sup>[7]</sup></a> Mas o que a cena descrita demonstra é o valor   negativo implícito que o feminino tem e como ele emerge para destituir a imagem   de alguém (a minha), talvez na tentativa de diminuir supostos desejos de Fernando por mim, e/ou de afirmar-se mais masculino do que eu.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em uma análise mais superficial poder-se-ia   pensar que a retirada do feminino/feminilidade da cena dos   “ursos” apontaria para relações mais igualitárias – o segundo modelo proposto   por Fry (1982). Não obstante, isso não ocorre. Em que pese o impedimento de   agências que configurem feminilidade, as parcerias sexuais e afetivas parecem   continuar obedecendo a certa regra de gênero, que sinaliza gostos nas posições   sexuais, em que o operador é remetido a um plano que se apropria de categorias   etárias e de parentesco para constituir estilos de ser homem. No lugar de tomar   o par masculinizado/feminilizado para dar sentido às relações   sexuais e/ou afetivas, como acontece nas idealizações sobre as   parcerias sexuais em outros cenários da comunidade homossexual   (“bofe”/“bicha”, “cafuçu”/“pintosa”), os “ursos” se utilizam de personagens “familiares”: “paizões” e “filhotes”.</p>     <p>Para aprofundar a   análise, vejamos uma conversa no MSN<a href="#_ftn8" name="_ftnref8" title=""><sup>[8]</sup></a> em que questiono Roberto (branco, 35 anos, “urso” gordo, poucos pelos, nível educacional superior incompleto, solteiro) sobre os sentidos de “pai” e “filhote”:</p> </font>     <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2">“F           […] tou fazendo uma enquete/inspirada no teu perfil novo<a href="#_ftn9" name="_ftnref9" title=""><sup>[9]</sup></a>/o que é um papai urso pra vc?/tou perguntando a     todos os meus amigos    <br>     R   nossa/emocionei    <br>     F    kkkkkk […]    <br>     R   uia/fácil/postura alfa (dominadora)/protetor    <br>     F    sei, e um filhote?    <br>     R   fácil de dominar/sensível/organizado    <br>     F    o papai é sempre ativo?    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>     R   S(im), papai sempre por cima/papai protege o     filhote e o filhote cuida dele/simbiose do amor”.<sup>&nbsp;</sup><a href="#_ftn10" name="_ftnref10" title=""><sup>[10]</sup></a></font></p> </blockquote> <font face="Verdana" size="2">     <p>Emergem do relato de   Roberto dois estilos de ser homem com práticas homossexuais: um “paizão” que   domina e protege um “filhote”, e um “filhote” que depende afetivamente e cuida   do “paizão”. Para ser discutido, o conjunto de elementos apresentados na   conversa transcrita exige três frentes de análise: (1)&nbsp;o jogo discursivo   que atualiza noções de parentesco e idade; (2)&nbsp;os gostos eróticos dos   homens, demonstrados, por exemplo, na expressão “papai sempre por cima”; e   (3)&nbsp;os modos como, nas tomadas de decisão nas interações sociais, em   especial entre parceiros afetivos, “paizões”/“alfas” e   “filhotes”/“fácil de dominar” demonstram, dissimulam e/ou subordinam suas opiniões e ações.</p> </font>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Sobre as idades</b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>Preciso destacar que, nos   variados contextos em que já pesquisei, além das posições de gênero   (masculinizados/feminilizados) e posições sexuais   (“ativo”/“passivo”), a diferença nas idades dos parceiros é   recorrente organizador das parcerias homossexuais. As biografias que me foram   narradas por homens jovens (19 a 26 anos) no Rio de Janeiro sugerem que o   roteiro sexual pautado pela diferença de idade é atuante desde a infância,   quando as crianças vão descobrindo os prazeres corporais em interações marcadas, comumente, por diferenças entre três e dez anos de idade (Rios 2013).</p>     <p>Da infância à juventude,   a diferença de idades persistia marcando as parcerias no contexto carioca.   Existia uma valorização erótica da juventude dos homens entre 15-25 anos. Entre   25-30 anos, o capital erótico, constituído pela juventude e inexperiência   sexual, paulatinamente dava lugar à estabilidade socioeconômica, conquistada ao   galgar uma carreira profissional. A partir dos 30 anos, o estabelecimento   financeiro, com porções de experiência de vida, gradativamente assumia o lugar de principal atrativo erótico (Rios 2013).<a href="#_ftn11" name="_ftnref11" title=""><sup>[11]</sup></a></p>     <p>No caso que estou   analisando, os homens que interagem na Toca   estão, em geral, acima dos 35 anos (não são mais tão jovens, de acordo com a   classificação da sociedade abrangente). A idade majoritária nos locais de   encontro é 45-50 anos.<a href="#_ftn12" name="_ftnref12" title=""><sup>[12]</sup></a> No que se refere às idades dos parceiros, há os   casais aparentando uma mesma idade, mas a grande maioria aparenta ter diferença   de aproximadamente dez anos. <i>Online</i>,   observei, utilizando as ferramentas do <i>Site     dos Ursos</i>, que há, entre os cadastrados como do Recife (495 pessoas), uma   maior presença de homens abaixo dos 29 anos (26,01% dos perfis), mas ainda assim a grande maioria deles está acima dos 30 anos (73,99% dos perfis).<a href="#_ftn13" name="_ftnref13" title=""><sup>[13]</sup></a></p>     <p>Fui levado a refletir   novamente sobre questões etárias, uma vez que as categorias “filhote” e “paizão”, utilizadas pelos “ursos” para   significar suas parcerias, carregam os sentidos de juventude (imaturidade, em   processo de aprendizado, dependência financeira e/ou afetiva) e   “adultez” (maturidade, saber, estabilidade profissional e financeira,   autonomia) para pautar suas interações amorosas, de forma muito semelhante ao   que enunciavam os jovens com quem conversei no Rio de Janeiro. Não obstante, de   modo diverso do contexto carioca, no qual observei homens biologicamente mais   novos interagindo com homens biologicamente mais velhos, entre os “ursos” nem   sempre há correspondência entre idades biológicas e o que se chama “paizão” e “filhote”.</p>     <p>Utilizei as ferramentas   do <i>site</i> para realizar uma contagem   das idades dos homens, na interface com as categorias “paizão” e “filhote”, o   que no <i>site</i> é descrito como   “comportamento”. Além das duas categorias, uma terceira, denominada “neutro”, é   oferecida aos homens para se apresentarem. Considerei apenas os perfis   individuais (há perfis de casais) e os cadastrados como residentes no Recife.   De um total de 495 perfis individuais cadastrados, 346 preencheram ambos os   descritores: idade e “comportamento”. A distribuição de homens “paizões”, “filhotes” e “neutros” por categorias de idades é apresentada no <a href="/img/revistas/etn/v22n2/22n2a03q1.jpg">quadro&nbsp;1</a>.<a href="#_ftn14" name="_ftnref14" title=""><sup>[14]</sup></a></p>     
<p>Observei que há uma forte   tendência dos homens para se dizerem “neutros” (52,9% dos perfis). No que se   refere aos que se descrevem como “paizões” (16,2% dos perfis) e “filhotes”   (30,9% dos perfis), embora haja uma tendência dos homens abaixo de 39 anos para   se dizerem “filhotes”, há 2,9% entre os de 20-24 anos, 12% entre os de 25-29   anos e 13,63% entre os de 30-34 que se dizem “paizões”. Acima dos 40 anos, há   considerável aumento do percentual de “paizões” por cada faixa de idade, à medida que os homens ficam mais velhos.   No entanto, ressalto que, a partir dos 40 anos, não deixam de existir os   “filhotes”, nas diferentes faixas de idade trabalhadas (exceção os acima de 65 anos), como mostra o <a href="/img/revistas/etn/v22n2/22n2a03q1.jpg">quadro&nbsp;1</a>.</p>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>Não é demais ressaltar   que, entre os “paizões” e “filhotes” da cena em análise, não há vínculos de   filiação por consanguinidade e/ou adoção. O que quero argumentar   com esses dados é que as categorias “paizão” e “filhote” estão como que   desalojadas dos referentes empíricos do parentesco e das idades biológicas e,   mais que descritivas, são performativas (Butler 2010), não importando o <i>status</i> anterior dos indivíduos no rol   das categorizações sociais (se mais velho ou mais novo, biologicamente   falando). De outro modo, as nomeações “paizão” e “filhote” não revelam uma   diferença intrínseca aos atributos corporais tomados para operar a classificação.   Mais que isso, elas propriamente constituem, nas relações entre homens “ursos”,   significados advindos das hierarquias próprias ao sistema de parentesco. E   porque os sistemas de parentesco operam relações de consanguinidade e afinidade   na interface com as idades dos indivíduos, a categorização dos “ursos” também   se refere ao sistema etário para significar as relações. Apagam-se, entretanto,   os interditos sexuais que a utilização de “filho”/“pai” poderia   carregar das nomeações – mais que isso, essas nomeações para o par sexual podem   estar a serviço de um incremento erótico que a fantasia de uma quebra de interdito poderia constituir na relação.</p>     <p>Considerando os casais   observados na cena <i>off-line</i>, posso   afirmar que, embora exista uma tendência para “filhotes” serem mais novos de   idade que os “pais”, as autoclassificações como “pai” ou “filho”, à semelhança   do que ocorre <i>online</i>, não estão   coladas às idades biológicas. Assim, a produção social da diferença (Brah 2006)   fica mais evidente nos muitos casos em que os “filhotes” são mais velhos de   idade biológica que seus “paizões”, ou em que ambos, “paizões” e “filhotes”,   têm a mesma idade. Mesmo quando os “paizões” são mais velhos de idade biológica   que os “filhotes”, na maior parte das vezes são dois homens que já estão na   “adultez”, mas que, ao serem apreendidos pelas categorias oferecidas entre os   “ursos” para a inteligibilidade de suas interações, (re)constituem uma   diferença que supostamente seria apagada por ambos já terem alcançado a “maturidade”.</p> </font>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="3">Posições sexuais </font></b></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>Retomando a conversa no   MSN com Roberto, ele faz uma justaposição entre diferentes sentidos de   “atividade”/“passividade” (respectivamente:   “por cima”/  “por baixo”,<a href="#_ftn15" name="_ftnref15" title=""><sup>[15]</sup></a> protetor/protegido,   cuidado/cuidador) e afirma que todo “pai” é “ativo”. No entanto,   nem todos os meus interlocutores concordam com isso. Muitos asseguram que nem   todo “filhote” é sexualmente “passivo” e nem todo “paizão” é sexualmente “ativo”.</p>     <p>Seguindo na tentativa de   compreender os sentidos das posições sexuais de “pai” e “filhote”, aproveitei   mais uma vez as ferramentas classificatórias do <i>site</i> para investigar a inter-relação entre posições sexuais, ali denominadas “posturas sexuais”, e o   “comportamento”. De um total de 495 perfis individuais cadastrados como   residentes em Recife, 349 preencheram ambos os descritores. Desses, 108 se   diziam filhotes (31%), 184 neutros (52,7%), e 57 paizões (16,3%). O cruzamento entre as “posturas sexuais” e o “comportamento” é apresentado no <a href="/img/revistas/etn/v22n2/22n2a03q2.jpg">quadro&nbsp;2</a>.</p>     
<p>Observa-se, então, que nos perfis há mais pais   ativos (28,1%) ou versáteis mais para ativos (26,3%) que passivos (7%) ou   versáteis mais para passivos (7%); e mais filhotes passivos (34,3%) e versáteis   mais para passivos (13%) que ativos (8,3%) e versáteis mais para ativos (9,3%),   o que de certa forma aponta para o recorrente alinhamento discursivo entre as   posições no sexo e os estilos de ursos. Não obstante, ainda que em menores percentuais, há filhotes ativos (8,3%) e paizões passivos (7%).</p>     <p>Chama a atenção a quantidade de “versáteis”,   sobretudo quando se consideram os “versáteis mais para ativos” e “versáteis   mais para passivos”, sejam “pais” (63,1%), “neutros” (66,8%) ou “filhotes”   (56,6%), ainda que exista uma maior concentração de “pais versáteis mais para   ativos” (26,3%) e de “filhotes versáteis mais para passivos” (13%). Nas   conversas na Toca, a categoria “versátil”, que fala de uma não exclusividade   das posições sexuais/partes erógenas do corpo para a obtenção de prazer sexual, também é bastante recorrente e valorizada.</p>     <p>Também é preciso ser destacada a quantidade   dos que se dizem “neutros”: 52,7% do total de perfis. Estes se distribuem com   uma leve tendência para “ativos” (19,6%)   e “versáteis mais para ativos” (21,7%)   em relação aos “passivos” (10,9%) e   “versáteis mais para passivos” (13%),   com maior concentração entre “versáteis” (32,1%).   A categoria “neutro” não aparece na Toca. Nunca ouvi ninguém se dizendo   “neutro” (já ouvi vários se dizendo “versáteis”). No uso cotidiano das   categorias para falar das pessoas, era muito comum ouvir comentários como “que   paizão gostoso!”, ou “olha aquele ursinho [no sentido de ‘filhote’]…”, mas   nunca ouvi ninguém usar “neutro” para designar pessoas, fossem elas desejáveis   ou não. A oferta e, sobretudo, o grande uso da categoria no espaço <i>online</i> talvez remetam a certa   posicionalidade das categorias “paizão” e “filhote”. Para os que se classificam   como “neutros”, só se é “filhote” ou “pai” em uma relação, e essas posições   podem mudar. Também pode ser uma tentativa de escapar da relação de   subordinação a que os termos “pai” e “filhote” remetem, em prol de uma relação   mais igualitária. Não cheguei a explorar tais questões em conversas informais e entrevistas, mas esse é um assunto que merece ser aprofundado.</p>     <p>Nas interações <i>off-line</i>, mesmo que sem ser interpretada como feminilidade, a   demonstração de que se é “filhote” ou “paizão” é corporal: a compleição física   (idealmente o “pai” é mais corpulento, mais alto e mais peludo que o “filho”),   o modo como o carinho é trocado (quem alisa quem; como o alisado é realizado;   como os corpos se posicionam no beijo, etc.), o modo de posicionar o corpo em   relação ao parceiro (quando parados, o “pai” atrás do “filho”; quando em   movimento, em lugar com pouca aglomeração, o “pai” leva o “filho” pela mão; em   situações de aglomeração, o “pai” vai atrás do “filho” – em todos esses   contextos, em minha interpretação, sinais de que o “pai” protege e direciona o   “filho”). Vale sublinhar a importância do posicionamento dos corpos nas   interações sociais que, em detrimento de outros sinais corporais (como idade   biológica, estatura física e quantidade de pelos), muitas vezes assume destaque   como sinalizador de quem é quem nas cenas afetivas e/ou sexuais   que se estabelecem. Supostamente quem está atrás, e encosta o pênis nas nádegas   do parceiro, teria mais chances de ser o “ativo” da relação, e, portanto, seria o “paizão”.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os dados do <i>site</i>, as conversas informais e observações na Toca sugerem que,   entre os “ursos”<i>,</i> o “comportamento”   (“pai”/“filhote”/“neutro”) e “o que se faz entre   quatro paredes” (“ativo”/“passivo”/“versátil”) são   elementos distintos, mas que se articulam no momento em que alguém pensa sobre   possibilidades (prazerosas) de formar parcerias com outro alguém. Na cena <i>off-line</i>, as pessoas tentam inferir a   segunda dimensão classificatória da primeira, e tendem a associar homens   “filhotes” à preferência em serem penetrados analmente durante as interações   sexuais, e “paizões” à preferência de serem “ativos” nas interações sexuais. Na   cena <i>online</i>, as duas dimensões mais   explicitamente mostram nem sempre convergir e são comumente desveladas nos   perfis, de modo, inclusive, a evitar equívocos no momento da passagem do <i>online</i> para o <i>off-line</i>, quando as trocas de mensagens dão passagem às transações sexuais e afetivas de maior proximidade corporal.</p>     <p>Explorada a dimensão sexual das noções de   “paizão” e “filhote”, quero, para finalizar minha descrição, abordar como esses   marcadores de diferença regulam a vida afetiva dos “ursos”, ajudando a compor   aquilo que no <i>site</i> é descrito como “comportamento”.</p> </font>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="3">O afeto e a tomada de decisões </font></b></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>A distinção entre os “paizões”/“alfas”   e os “filhotes”/“fácil de dominar”, sugerida por Roberto, remete   ao modo como as opiniões e decisões entre a díade/casal são   demonstradas, dissimuladas e/ou subordinadas. Rita Segato (1995)   já havia chamado a atenção para a importância das disposições nas tomadas de   decisão na marcação das categorias de gênero quando investigou o processo de   adscrição dos orixás aos adeptos do xangô (uma modalidade de religião   afro-brasileira) do Recife. Os próprios orixás (divindades) figurariam como categorias   de gênero, na medida em que o rol deles oferece uma gramática para dar sentido   para as pessoas e as interações a partir de ideias de masculinidade e   feminilidade. Mais amplo que a polaridade masculino/feminino da   sociedade abrangente, constitui-se em um leque de possibilidades de ser   masculino (Ogum, Xangô, Oxalá) e feminino (Oxum, Iansã, Iemanjá). Ela observou   que a primeira etapa do processo de adscrição, antes mesmo de chegar aos orixás   de cabeça, seria identificar se a pessoa pertence a um orixá masculino ou   feminino – sublinhando que homens e mulheres podem ter orixás de cabeça masculinos e femininos, e que isso independe de suas orientações sexuais.</p>     <p>Para a identificação, é observado, além de uma   variedade de atributos corporais, o modo como as pessoas reagem diante das   tomadas de decisão: enquanto as pessoas de “santo homem” são autônomas, as de   “santo mulher” são dependentes. A autora exemplifica os sentidos de autonomia e   de dependência para os adeptos com o relato de uma mulher que tinha dois santos femininos, Oxum e Iansã, e um terceiro masculino, Xangô:<a href="#_ftn16" name="_ftnref16" title=""><sup>[16]</sup></a></p> </font>     <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2">“Eu me sentiria muito mais segura se eu tivesse     Xangô [seu terceiro santo] em segundo lugar e não Iansã, assim eu teria um     homem a quem recorrer: um [santo] homem é sempre um braço forte para     sustentar-se. […] Então, quando eu quero resolver um problema difícil, fixo     meus pensamentos no meu terceiro santo, Xangô, e parece que eu estou com ele,     que atuo com ele. Xangô é masculino, e quem é masculino é sempre mais autônomo,     mais capaz de tomar uma decisão rápida e se virar sozinho em qualquer situação”     (Segato 1995: 15-16).</font></p> </blockquote> <font face="Verdana" size="2">     <p>No xangô, não há preferências ou   desvalorização por ter como orixá de cabeça santo homem ou mulher; os adeptos inclusive reconhecem as vantagens e desvantagens de cada caso:</p> </font>     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">“Embora a autonomia, entendida como a     capacidade de tomar decisões e resolver problemas sem necessidade de orientação     ou estímulo externo, seja vista como um traço vantajoso, diz-se que ela faz as     personalidades masculinas muito inflexíveis e refratárias às críticas. Por     outro lado, os filhos e filhas de santos femininos têm a franqueza de depender     da aprovação ou da direção dos outros e, em muitos casos, essa aprovação     constitui o ­objetivo mesmo das suas ações, mas se diz que isto não só lhes     permite procurar ajuda e conselho, como também cooperar e engajar-se em     empresas por outros lideradas” (Segato 1995:&nbsp;15).</font></p> </blockquote> <font face="Verdana" size="2">     <p>Considero pertinente a proposta de Segato   (1995), em que a disposição para a tomada de decisão é importante definidor   para as categorizações de gênero no xangô, para compreender processos   correlatos em outros contextos, como o dos “ursos”. Retomando a conversa com   Roberto à luz da análise da autora, parece-me que o cerne da questão na tomada   de decisão entre os homens “ursos” está na regulação dos afetos, na produção de   assimetria e reciprocidade entre os parceiros, de modo a criar a “simbiose do   amor”: o “filhote” “dá” para o “paizão”. O “paizão”, “sempre por cima”, protege   o “filhote”. O “filhote” cuida do “paizão”. O “filhote” se deixa “dominar” pelo   “paizão”, delegando-lhe, ou inferindo o que ele aprovaria em termos de alguma   decisão a ser tomada, de modo a garantir as trocas afetivas e prazerosas entre o casal.</p>     <p>Em minha interpretação, “paizão” e “filhote”   falam simultaneamente de gostos eróticos e de disposições nas tomadas de   decisão diante do parceiro afetivo, ou seja, “atividade”/autonomia   e “passividade”/dependência na relação entre dois homens “ursos”;   homens, do ponto de vista da sociedade abrangente, masculinos. Ainda que   estilizadas por personagens “familiares” advindas das categorias de parentesco   e com forte acento em sentidos de idade (mas apagando as interdições sexuais   que a nomeação poderia conferir à classificação), “paizão” e “filhote” são categorias de gênero.</p> </font>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Dando sentido ao que está fora de lugar: gênero, intersecções   e citações</b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>O fenômeno em análise neste artigo aponta, em   parte, para uma modificação nos arranjos de sexo-gênero (Rubin 1993) na   comunidade dos “ursos”<i>, </i>quando   comparado a outros contextos de homossociabilidade e à sociedade mais ampla. Em   um primeiro olhar, o par “paizão”<i>/</i>“filhote”   rompe com o tabu da homossexualidade (Rubin 1993), ou com a matriz   heterossexual (Butler 2003), tanto nos seus aspectos de sexualidade como nos de   gênero. São transações sexuais entre dois homens masculinizados, consideradas,   na sociedade abrangente, e em muitos contextos homossexuais, esteticamente “fora de lugar”.</p>     <p>Como apontei, a comunidade dos “ursos”, em sua   porção <i>off-line,</i> é formada   majoritariamente por homens adultos e idosos, que se relacionam sexualmente   entre si. Ainda que não haja relações de filiação por consanguinidade e/ou   adoção entre os homens, eles utilizam o par “paizão”<i>/</i>“filhote” para significar a si mesmos e as relações   sexuais e afetivas que estabelecem – um arranjo que, para ser analisado e   compreendido, exige considerar o que resulta das intersecções (Brah 2006;   Piscitelli 2008) entre categorias sociais associadas aos sistemas de sexo-gênero, de sexualidade, etário e de parentesco da sociedade abrangente.</p>     <p>Segato (1995) propõe as assimetrias de poder,   expressas nas ideias de autonomia e dependência, como chave para a configuração   de categorias de gênero. Não obstante, é importante lembrar que assimetrias   também estão presentes nos outros sistemas (Saffioti 1997) que se   interseccionam nas categorias “paizão” e “filhote”. Nessa linha, as   (com)posições que resultam do agenciamento de elementos corporais variados,   citados (Butler 2010) pelos homens na constituição de si mesmos e de suas   parcerias sexuais e/ou afetivas, quando são interpretadas como   configurando os estilos “paizão” e “filhote”, atualizam as assimetrias que   caracterizam essas categorias no sistema etário e no de parentesco da sociedade abrangente.</p>     <p>Em parte as categorias citadas são reiteradas   em seus valores “originais” (diferenciam e hierarquizam os homens) e em parte   se ressignificam por estarem sendo utilizadas “fora de lugar” (produzem   deslocamentos). Me parece que o principal deslocamento é o de apagar o   interdito sexual entre “pais” e “filhos” e hiperinvestir no efeito erótico que   a diferença, assim nomeada, produz em termos de prazeres sexuais e afetivos. Em   adição, o alinhamento entre “paizão”/“filhote” com,   respectivamente, as posições sexuais “ativo”/“passivo”, possui   endereçamento certo nas significações que os sistemas de gênero e sexualidade   (da sociedade abrangente) se imputam mutuamente, que podem ser resumidas na   ideia de que o “ativo” é superior (“por cima”) ao “passivo” (“por baixo”) (Parker 1991).</p>     <p>Na minha interpretação, é porque idade,   parentesco, sexualidade e gênero constituem sentidos de   autonomia/dependência (“papai sempre por   cima&nbsp;/ papai protege o filhote e o filhote cuida dele”) que   o deslizamento das categorias entre os sistemas se torna possível, que as   citações se tornam inteligíveis. Em adição, o que me faz localizar o arranjo   como um sistema de sexo-gênero singular (ainda que em interlocução com o   sistema de gênero da sociedade abrangente) é a sua capacidade de engendrar   diferentes estilos de ser homem, imbuídos de assimetria e complementaridade   erótica, produzindo desejos, encontros e prazeres sexuais e/ou afetivos, necessários para a emergência e manutenção da “simbiose do amor”.<a href="#_ftn17" name="_ftnref17" title=""><sup>[17]</sup></a></p> </font>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Considerações finais</b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>Na perspectiva de caracterizar de forma   sintética a comunidade que estudei, posso dizer que ela se organiza a partir de   três marcadores de diferença, que funcionam como estigmas na sociedade   abrangente: a homossexualidade, os corpos velhos, gordos e peludos (estética   socialmente desvalorizada, inclusive na própria comunidade <i>gay</i> mais ampla) e a feminilidade quando agenciada por homens. Os   homens que dela participam invertem o valor dos dois primeiros marcadores,   positivando-os, e reforçam a terceira linha de estigmatização, desvalorizando os homens femininos.</p>     <p>Como mostrei acima, na comunidade dos “ursos”   apaga-se o feminino dos gestos e sotaques e, do lugar vago, emerge um novo   ordenamento estilístico de gênero. Um olhar mais estrutural, e considerando   apenas o campo das representações, irá assinalar, entretanto, que o novo   arranjo reitera a hierarquia inerente à formação de casais da sociedade   abrangente, em um primeiro olhar desfeita com o apagamento da feminilidade do   estilo de ser. Essa hierarquia situa o   “paizão”/masculino/autônomo/“ativo”   como superior ao “filhote”/(feminino)masculino/dependente/“passivo”<i>.</i></p>     <p>Por outro lado, observando um espaço no qual os   homens precisam tornar o mais explícito possível seus estilos e gostos, o <i>Site dos Ursos</i>, foi possível perceber,   por um lado, uma tendência para os homens “passivos” se dizerem “filhotes” e de   os homens “ativos” se dizerem “paizões” (o que ajuda a reiterar a   plausibilidade das categorias), mas também é possível afirmar que, no que se   refere aos gostos sobre as posições sexuais, há um predomínio da “versatilidade”.</p>     <p>O binarismo aparece apenas como uma espécie de   artifício para início de conversa. Por ser pouco potente para descrever e   orientar os gostos, a vida sexual e afetiva logo dá passagem a uma profusão de   categorias e posições de sujeito. Isso é bem ilustrado pelos desalinhamentos   entre “comportamento” (“paizões” e “filhotes”) e “posturas sexuais” (“ativos” e   “passivos”), além de uma gama de possibilidades de cruzamentos – porque as   categorizações vão se enriquecendo (“versátil” e “neutro”) e se hibridizando   (“versátil-ativo” e “versátil-passivo”) – para dar conta da realidade social mais singular aos sujeitos.</p>     <p>Nessa linha, sublinho o caráter contextual que   o jogo das diferenciações assume no correr das interações, em que são comuns   deslizamentos de um mesmo sujeito da posição de “paizão” para “filhote”, e   vice-versa; e mesmo para fora do que é esperado para os “ursos”. Se “paizão” e   “filhote” funcionam como espécies de descritores-chave, uma gama de devires   “urso” se abre a partir deles.<a href="#_ftn18" name="_ftnref18" title=""><sup>[18]</sup></a> Na   operação que realiza, o sistema de sexo-gênero intersecciona conformações   corporais, posições sexuais, sentidos de idade e parentesco (com implicações de   poder), entre outros marcadores, para permitir que os sujeitos se constituam e reconheçam a partir de estilos de ser homem e se tornem “ursos”.</p>     <p>&nbsp;</p> </font><font size="3" face="Verdana"><b>BIBLIOGRAFIA</b></font><font face="Verdana" size="2">     <!-- ref --><p>ALMEIDA, Miguel Vale de, 1995, <i>Senhores   de Si: Uma Interpretação Antropológica da Masculinidade</i>. Lisboa, Fim de Século.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207782&pid=S0873-6561201800020000300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>BRAH, Avtar, 2006, “Diferença, diversidade, diferenciação”, <i>Cadernos Pagu</i>, 26: 329-376.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207784&pid=S0873-6561201800020000300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>BUTLER, Judith, 2003, <i>Problemas de   Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade</i>. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207786&pid=S0873-6561201800020000300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>BUTLER, Judith, 2010, <i>Cuerpos que   Importan: Sobre los Límites Materiales y Discursivos del “Sexo”</i>. Buenos Aires, Paidós.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207788&pid=S0873-6561201800020000300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>DANGERFIELD, Derek, et&nbsp;al., 2017, “Sexual positioning among men who have sex   with men: a narrative review”, <i>Archives of Sexual Behavior</i>, 46&nbsp;(4): 869-884.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207790&pid=S0873-6561201800020000300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>DOMINGOS, Josemir, 2010, <i>O Discurso dos   Ursos: Outros Modos de Ser da Homoafetividade</i>. João Pessoa, Marca de Fantasia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207792&pid=S0873-6561201800020000300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>FRANÇA, Isadora, 2013, “Espaço, lugar e sentidos: homossexualidade, consumo e   produção de subjetividades na cidade de São Paulo”, <i>Revista Latino-Americana de Geografia e Gênero</i>, 4&nbsp;(2): 148-163.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207794&pid=S0873-6561201800020000300007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>FRY, Peter, 1982, <i>Para Inglês Ver: Identidade e Política na Cultura Brasileira</i>. Rio de Janeiro, Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207796&pid=S0873-6561201800020000300008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>GAGNON, John, 2006, <i>Uma Interpretação do Desejo</i>. Rio de Janeiro, Garamond.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207798&pid=S0873-6561201800020000300009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>GREEN, James, 2002, <i>Além do Carnaval: A Homossexualidade Masculina no Brasil do século&nbsp;XX</i>. São Paulo, Unesp.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207800&pid=S0873-6561201800020000300010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>GUIMARÃES, Carmem, 2004, <i>O Homossexual Visto por Entendidos</i>. Rio de Janeiro, Garamond.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207802&pid=S0873-6561201800020000300011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>KRIEGER, Susan, 1998, “An identity community”, em P.&nbsp;Nardi e   B.&nbsp;Schneider (orgs.), <i>Social     Perspectives in Lesbian and Gay Studies: A Reader</i>. Londres, Routledge, 215-219.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207804&pid=S0873-6561201800020000300012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>MENG, Xiaojun, et&nbsp;al., 2015, “Relative risk for HIV infection among men who have   sex with men engaging in different roles in anal sex: a systematic review and meta-analysis on global data”, <i>AIDS and Behavior</i>, 19&nbsp;(5): 882-889.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207806&pid=S0873-6561201800020000300013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>MISKOLCI, Richard, 2006, “Corpos elétricos: do assujeitamento à estética da   existência”, <i>Revista Estudos Feministas</i>, 14&nbsp;(3): 681-693.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207808&pid=S0873-6561201800020000300014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>MONTEIRO, Simone, et&nbsp;al., 2010, “Identidades, trânsitos e diversidade sexual em contextos de sociabilidade juvenil no Rio de Janeiro (Brasil)”, <i>Cadernos Pagu</i>, 35: 79-109.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207810&pid=S0873-6561201800020000300015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>PARKER, Richard, 1991, <i>Corpos, Prazeres e Paixões: Cultura Sexual no Brasil Contemporâneo</i>. São Paulo, Best Seller.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207812&pid=S0873-6561201800020000300016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>PARKER, Richard, 2002, <i>Abaixo do Equador</i>. Rio de Janeiro, Record.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207814&pid=S0873-6561201800020000300017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>PERLONGHER, Nestor, 2008, <i>O Negócio do Michê</i>. São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207816&pid=S0873-6561201800020000300018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>PINTO, Joana Plaza, 2013, “O percurso da performatividade”, <i>Revista Cult</i>, 185: 35-36.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207818&pid=S0873-6561201800020000300019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>PISCITELLI, Adriana, 2008, “Interseccionalidades, categorias de articulação e   experiências de migrantes brasileiras”, <i>Sociedade e Cultura</i>, 11&nbsp;(2): 263-274.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207820&pid=S0873-6561201800020000300020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>POCAHY, Fernando, 2012, “Entre vapores &amp; vídeos pornôs: dissidências   homo/eróticas na trama discursiva do envelhecimento masculino”, <i>Revista Estudos Feministas</i>, 20&nbsp;(2): 357--376.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207822&pid=S0873-6561201800020000300021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>RIOS, Luís Felipe, 2008, “Corpos e prazeres nos circuitos de homossociabilidade masculina do centro do Rio de Janeiro”, <i>Revista Ciência e Saúde Coletiva</i>, 13: 465-475.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207824&pid=S0873-6561201800020000300022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>RIOS, Luís Felipe, 2013, “Homossexualidade, juventude e vulnerabilidade ao HIV/Aids no   Candomblé fluminense”, <i>Temas e Psicologia</i>, 21&nbsp;(3): 1051-1066.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207826&pid=S0873-6561201800020000300023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>RIOS, Luís Felipe, et&nbsp;al., 2017, “Posições sexuais, estilos corporais   e risco para o HIV entre homens que fazem sexo com homens no Recife (Brasil)”, <i>Ciência &amp; Saúde Coletiva</i>, em <a href="http://www.cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/posicoes-sexuais-estilos-corporais-e-risco-para-o-hiv-entre-homens-que-fazem-sexo-com-homens-no-recife-brasil/16142?id=16142" target="_blank">http://www.cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/posicoes-sexuais-estilos-corporais-e-risco-para-o-hiv-entre-homens-que-fazem-sexo-com-homens-no-recife-brasil/16142?id=16142</a> (última consulta em junho de 2018).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207828&pid=S0873-6561201800020000300024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>RUBIN, Gayle, 1993, <i>O Tráfico de Mulheres: Notas sobre a “Economia Política” do Sexo</i>. Recife, SOS Corpo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207830&pid=S0873-6561201800020000300025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>RUBIN, Gayle S., 1998, “Thinking sex: notes for a radical theory of the   politics of sexuality”, em P.&nbsp;Nardir e B.&nbsp;Schneider (orgs.), <i>Social Perspectives in Lesbian and Gay Studies: A Reader</i>. Londres, Routledge, 143-178.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207832&pid=S0873-6561201800020000300026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>SAFFIOTI, Heleieth, 1997, “Violência doméstica ou a lógica do galinheiro”, em   M.&nbsp;Kupstas (org.), <i>Violência em Debate</i>. São Paulo, Editora Moderna, 39-57.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207834&pid=S0873-6561201800020000300027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>SANTOS, Daniel dos, e Mara Coelho de Souza LAGO, 2013, “Estilísticas e   este&#769;ticas do homoerotismo na velhice: narrativas de si”, <i>Sexualidad, Salud y Sociedad: Revista Latinoamericana</i>, 15: 113-147.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207836&pid=S0873-6561201800020000300028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>SEGATO, Rita, 1995, <i>Santos e Daimones</i>. Brasília, UnB.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207838&pid=S0873-6561201800020000300029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>SIMÕES, Júlio Assis, 2004, “Homossexualidade masculina e curso da vida:   pensando idades e identidades sexuais”, em A.&nbsp;Piscitelli, M.&nbsp;Gregori   e S.&nbsp;Carrara (orgs.), <i>Sexualidade e Saberes: Convenções e Fronteiras</i>. Rio de Janeiro, Garamond, 415-447.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207840&pid=S0873-6561201800020000300030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>SIMÕES, Júlio, Isadora FRANÇA, e Márcio MACEDO, 2010, “Jeitos de corpo: cor/raça, gênero, sexualidade e sociabilidade juvenil no centro de São Paulo”, <i>Cadernos Pagu</i>, 35: 37-78.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207842&pid=S0873-6561201800020000300031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>TRINDADE, José Ronaldo, 2004, “Construções de identidades homossexuais na era   da Aids”, em A.&nbsp;Uziel, L.&nbsp;Rios e R.&nbsp;Parker (orgs.), <i>Construções da Sexualidade</i>. Rio de Janeiro, Pallas/IMS/Abia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207844&pid=S0873-6561201800020000300032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>WRIGHT, Les, 1997, “A concise history of self-identifying bears”, em   L.&nbsp;Wright (org.), <i>The Bear Book:     Readings in the History and Evolution of a Gay Male Subculture</i>. Nova Iorque, The Haworth Press, 21-40.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=207846&pid=S0873-6561201800020000300033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Receção da versão original | Original   version 2017/01/29    <br>   Receção da versão revista | Revised version 2017/05/22    <br>   Aceitação | Accepted 2017/12/14</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> </font><font size="3" face="Verdana"><b>NOTAS</b></font><font face="Verdana" size="2">     <p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1" title="">[1]</a>             De forma muito   simplória, e para início de conversa, pode-se dizer que os “ursos” são homens   com práticas homossexuais, corpulentos e peludos, e que se negam a incorporar   atributos (de indumentária, gestual, sotaque, etc.) usualmente considerados femininos.</p>     <p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2" title="">[2]</a>             Agradecemos ao   Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, ­Brasil)   pelos apoios financeiros ao projeto (processos 303056/2011-8,   405259/2012-3, 470088/2013-3 e 305136/2014-3).</p>     <p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3" title="">[3]</a>             “Bicha” é um dos   termos mais utilizados na gíria brasileira para referir homossexuais. Em muitos   contextos remete a imagem do homem feminino e “passivo” (realiza sexo anal   recetivo). “Frango” e “pintosa” são   termos equivalentes e muito utilizados no Recife. Vale situar que “bicha” e   seus correlatos podem assumir ou não o tom ofensivo a depender do contexto (se   utilizado entre amigos ou por estranhos, e modulados pelo tom da voz). Nos dias   atuais, a sua utilização entre amigos homossexualmente identificados pode deixar de significar “passividade” e   feminilidade e ter o sentido mais amplo de <i>gay   – </i>uma identidade positivada. “Bofe”, “cafuçu” e “<i>boy</i>” são termos utilizados para se referir a homens que fazem sexo   com homens, masculinizados. Os dois primeiros referem-se a sujeitos que, muitas   vezes, não se percebem e/ou são percebidos como homossexuais pela   configuração de masculinidade que performam e, porque, no nível das representações,   seriam sexualmente “ativos” (realizam   sexo anal insertivo). “<i>Barbie</i>”   (alusão a uma boneca muito apreciada pelas classes mais abastadas) é utilizado   para se referir a homens fisiculturistas, e em algumas circunstâncias de uso agrega sentidos de feminilidade.</p>     <p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4" title="">[4]</a>             “<i>Fashion</i>” no sentido de seguir as tendências da moda do “mercado   cor-de-rosa”, que, aos olhos dos “ursos”, remete à feminilidade.</p>     <p><a href="#_ftnref5" name="_ftn5" title="">[5]</a>             Há também outros   descritores, comumente encontrados em <i>sites</i>   de relacionamento para homens com práticas homossexuais, como local, idade,   altura, peso, cor da pele, cor dos olhos, cor do cabelo, orientação sexual   (bissexual, curioso, homossexual, heterossexual, transexual), postura sexual   (ativo, versátil mais para ativo, versátil, versátil mais para passivo, passivo, sem penetração), estado civil, se fuma e se bebe.</p>     <p><a href="#_ftnref6" name="_ftn6" title="">[6]</a>             As relações que se   estabelecem entre posições nas cenas sexuais, sentidos de gênero, produção de   desejos e parcerias sexuais não são fenômenos exclusivos das comunidades   homossexuais brasileiras ou latinas (Dangerfield <i>et&nbsp;al</i>. 2017), e ganham especial relevância para o campo da   saúde coletiva, uma vez que há diferenças nos riscos de infeção pelo HIV, em função da posição sexual assumida (Meng <i>et&nbsp;al</i>. 2015).</p>     <p><a href="#_ftnref7" name="_ftn7" title="">[7]</a>             “Pinta” se refere a   gestos e sotaques que remetem ao feminino, geralmente percebidos como   involuntários; “fechação” indica um comportamento feminino exagerado, com fins de, intencionalmente, chamar a atenção.</p>     <p><a href="#_ftnref8" name="_ftn8" title="">[8]</a>             MSN ou Messenger é um   programa para a realização de conversas em tempo real na Internet.</p>     <p><a href="#_ftnref9" name="_ftn9" title="">[9]</a>             Dias antes, numa conversa   na Internet, Roberto havia me convidado para visitar o seu perfil novo no <i>Site dos</i> <i>Ursos</i>. No título do perfil constava: “Papai_urso – Onde andará o   meu filhote?” Na apresentação, meu interlocutor escreveu: “Discreto, simples e   simpático, descobrindo o mundo ursino pernambucano no site, assim busco fazer   amizades com pessoas interessantes. Apenas ursos gordos ou gordinhos”. Roberto   diz que em poucas horas já havia recebido mais de 30 mensagens, todas de homens   querendo tomar o lugar do filhote, o qual “Papai_urso” tão enfaticamente dizia   procurar. Vendo meu interesse no que estava acontecendo, ele copiou algumas das   mensagens para o MSN: “Papai urso?? Me coloca no colo e me faz dormir… se bem   que dormir é a última coisa que quero fazer com vc…rsrs Tesão!!!”; “bem, não   sei se me enquadro no curriculum p/filho, só sei que preciso de um   papai!!!”; “Qlqr coisa tô na fila dos filhotes rsrs. Abraço”. Alguns meses   depois de ter criado o perfil, Roberto iniciou uma parceria fixa e desfez o perfil.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#_ftnref10" name="_ftn10" title="">[10]</a>           Tento reproduzir a   própria dinâmica do MSN, no qual as palavras são escritas, na maior parte das   vezes, em minúsculas, e a pontuação vai se fazendo pelo envio das sentenças, em minha transcrição sinalizadas pelo sinal barra ( / ).</p>     <p><a href="#_ftnref11" name="_ftn11" title="">[11]</a>           Não havia, entretanto,   superposição necessária e direta entre a hierarquia etária (mais   velho/mais jovem), a hierarquia das posições sexuais   (ativo/passivo) e as hierarquias de gênero   (masculino/feminino). Sinergicamente, e caso a caso, as   inter-relações entre as categorias compunham diferentes relações de poder entre os envolvidos nas parcerias afetivas.</p>     <p><a href="#_ftnref12" name="_ftn12" title="">[12]</a>           Para uma discussão   sobre o envelhecimento e homossexualidade, cf.&nbsp;Júlio Simões (2004), ­Fernando Pocahy (2012) e Santos e Lago (2013).</p>     <p><a href="#_ftnref13" name="_ftn13" title="">[13]</a>           Nas conversas com os   jovens do <i>site</i>, muitos relatam que se   sentem alvo de preconceitos, porque os homens mais velhos (objeto de seus desejos) não lhes dão muita atenção, dizendo preferir homens “maduros”.</p>     <p><a href="#_ftnref14" name="_ftn14" title="">[14]</a>           Os dados quantitativos   não foram submetidos a nenhum tratamento estatístico mais sofisticado do que o   mero cálculo percentual. Em meu entendimento, é um recurso suficiente para a descrição proposta.</p>     <p><a href="#_ftnref15" name="_ftn15" title="">[15]</a>           Na gramática sexual   brasileira usualmente se concebe que, no ato sexual, quem está “por cima” penetra quem está “por baixo” (Parker 1991).</p>     <p><a href="#_ftnref16" name="_ftn16" title="">[16]</a>           Se há um orixá dono da   cabeça, também há segundos e terceiros deuses com os quais cada fiel é relacionado miticamente.</p>     <p><a href="#_ftnref17" name="_ftn17" title="">[17]</a>           Talvez tenha sido meu   olhar focado na libertinagem que impediu de aparecerem outras dimensões que a   regulação de gênero promove. De todo modo, vale dizer que os frequentadores da   Toca, em geral, têm emprego e renda suficiente para se manterem sozinhos. Ainda   assim, é muito comum os “paizões” pagarem as noitadas, ainda que os “filhotes” demonstrem ter condições de pagar sua parte pela diversão.</p>     <p><a href="#_ftnref18" name="_ftn18" title="">[18]</a>           Por exemplo, tomando   outra categorização do <i>site,</i> que não   teve chance de ser analisada neste texto, temos os “tipos de urso”: caçador,   gordo sem pelos, lontra, urso, urso gordo, urso musculoso, urso negro, urso parrudo, urso polar.</p> </font>      ]]></body><back>
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