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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Questões metodológicas de uma revisitação etnográfica a territórios psicotrópicos do Porto]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The article is focused on a methodological discussion of an ethnographic revisitation of Aleixo, Pinheiro Torres and Pasteleira neighbourhoods, in the western area of Oporto. Ethnographic revisitations imply describing and understanding a previously analysed sociocultural context, looking for differences and similarities relative to the initial research. A brief review of some classical revisitations shows that they encompass a range of operationalization modes. The authors’ ongoing revisitation began in 2014, following one of the authors characterisation of these territories through ethnographic fieldwork (1990-1995). Current fieldwork, like the original one, is focused on the agents and territories involved in drug-related activities and interactions. The article is organised along three axes: (1) a brief review of the literature on the ethical, epistemological and methodological implications of ethnographic revisitations; (2) a description of the authors’ research method, highlighting the technical and relational components of the fieldwork; (3) the limitations, advantages and methodological challenges related with fieldwork, particularly with the different modes of “being in the field.” Finally, some of the themes that have so far emerged in the confrontation between the old and the new research data are approached.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[  <font face="Verdana" size="2">      <p align="right"><b>DOSSI&Ecirc;</b></p>     <p>&nbsp;</p> </font>     <p><font size="4" face="Verdana"><b>Questões metodológicas de   uma revisitação etnográfica a territórios psicotrópicos do Porto</b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>&nbsp;</p> </font><b><font size="3" face="Verdana">Methodological aspects of an ethnographic revisitation of psychotropic territories in Oporto</font></b><font face="Verdana" size="2">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Simão Mata<sup>I</sup>; Lu&iacute;s Fernandes<sup>II</sup></b></p> </font>     <p><font size="2" face="Verdana"><sup>I</sup> Centro de Ciências do Comportamento Desviante (CCCD), Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Universidade do Porto (FPCEUP), Portugal. E-mail: <a href="mailto:simaomata@fpce.up.pt">simaomata@fpce.up.pt    <br> </a><sup>II</sup> Centro de Ciências do Comportamento Desviante (CCCD), Faculdade de Psicologia   e de Ciências da Educação, Universidade do Porto (FPCEUP), Portugal. E-mail: <a href="mailto:jllf@fpce.up.pt">jllf@fpce.up.pt</a></font></p> <font face="Verdana" size="2">     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> </font> <hr noshade size="1"> <font face="Verdana" size="2">     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>Discute-se a metodologia de   uma revisitação etnográfica realizada nos bairros do Aleixo, Pinheiro Torres e   Pasteleira, na zona ocidental do Porto. As revisitações etnográficas   caracterizam-se pela descrição e compreensão de um contexto sociocultural   previamente estudado, procurando as aproximações e distâncias relativamente à   pesquisa inicial. Uma breve revisão de algumas revisitações clássicas mostra   como admitem várias modalidades. Aqueles territórios foram caracterizados   através do trabalho de campo etnográfico (1990-1995) de um dos autores. Os   atores e os territórios envolvidos nas atividades e sociabilidades em torno das   drogas constituem-se, na revisitação iniciada em 2014, tal como na investigação   inicial, no principal foco do trabalho de campo. O texto organiza-se a partir   de três eixos: (1)&nbsp;breve revisão da literatura sobre as revisitações   etnográficas, discutindo as suas implicações éticas, epistemológicas e   metodológicas; (2)&nbsp;descrição dos procedimentos metodológicos acionados   nesta pesquisa, salientando as dimensões técnicas e relacionais do trabalho de   campo; (3)&nbsp;as limitações, potencialidades e desafios metodológicos que se   relacionam com a pesquisa de terreno, em particular com as diferentes modalidades   de “estar no campo”. Por fim, são apresentadas algumas linhas temáticas   emergentes, ao confrontar os dados trazidos até agora pela revisitação com a investigação inicial.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> revisitação etnográfica, território, drogas, bairro social, trabalho de campo</p> </font> <hr noshade size="1">      <p><font size="2" face="Verdana"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">The article   is focused on a methodological discussion of an ethnographic revisitation of   Aleixo, Pinheiro Torres and Pasteleira neighbourhoods, in the western area of   Oporto. Ethnographic revisitations imply describing and understanding a   previously analysed sociocultural context, looking for differences and   similarities relative to the initial research. A brief review of some classical   revisitations shows that they encompass a range of operationalization modes.   The authors’ ongoing revisitation began in 2014, following one of the authors   characterisation of these territories through ethnographic fieldwork   (1990-1995). Current fieldwork, like the original one, is focused on the agents   and territories involved in drug-related activities and interactions. The   article is organised along three axes: (1)&nbsp;a brief review of the   literature on the ethical, epistemological and methodological implications of   ethnographic revisitations; (2)&nbsp;a description of the authors’ research   method, highlighting the technical and relational components of the fieldwork;   (3)&nbsp;the limitations, advantages and methodological challenges related with   fieldwork, particularly with the different modes of “being in the field.”   Finally, some of the themes that have so far emerged in the confrontation   between the old and the new research data are approached.</font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p><b>Keywords:</b> ethnographic revisitation, territory, drugs, council estate, fieldwork</p> </font> <hr noshade size="1">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>  <font face="Verdana" size="2">     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As revisitações   etnográficas são uma estratégia de investigação que, embora pouco usual, tem já   uma longa história na antropologia. As razões para a sua realização podem ser   encontradas a partir, pelo menos, de dois interesses: o do desenvolvimento de   teoria e do método em ciências sociais e humanas; o interesse pessoal do   investigador. Sobre o primeiro destes dois interesses falará o texto que agora   se apresenta, iniciando com a referência a revisitações etnográficas no campo   da antropologia, algumas delas a terrenos que se tornaram quase míticos,   constituindo uma espécie de património desta disciplina. Veremos como algumas   destas revisitações confrontaram tal património, mostrando como no jogo de   linguagem próprio da narrativa científica não há lugar para o imutável ou o   cristalizado – a esta luz as revisitações são, em certa medida,   dessacralizações.<a href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><sup>[1]</sup></a> Sobre o segundo dos interesses – o do investigador – falaremos brevemente a seguir.</p> </font>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Etnografia nos territórios psicotrópicos</b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>A investigação   etnográfica em territórios psicotrópicos da zona ocidental do Porto, que temos   em curso desde 2014, é a revisitação duma etnografia levada a cabo entre 1990 e   1995. Como veremos na secção seguinte, é próprio das revisitações serem   realizadas ou pelo mesmo investigador, que regressa assim ao “seu” terreno, ou   por um outro, que deliberadamente escolhe o terreno trabalhado pelo primeiro   investigador alguns anos antes. Pois bem: o caso que temos em mãos – valha a   metáfora, que fala ainda da etnografia como método quase artesanal… – é um   misto da primeira e da segunda modalidades. É que um de nós realizou a   investigação inicial, outro realiza agora a revisitação – mas fá-lo em estreita ligação com o primeiro.<a href="#_ftn2" name="_ftnref2" title=""><sup>[2]</sup></a></p>     <p>Não desenvolveremos aqui   o primeiro momento – o da investigação inicial. Falamos dele apenas para situar   a revisitação atualmente em curso e remetemos os interessados, tanto no   desenrolar desta primeira etnografia como no conceito que agora retomamos – o   de “território psicotrópico” –, para os textos elaborados por Fernandes (1995, 1997, 1998, 2002a).</p>     <p>A investigação inicial   prolongou-se por cinco anos. O tempo, ao longo dum trabalho de campo   etnográfico, não é contínuo nem homogéneo: tem uma fase exploratória, tem outra   intensiva, a saída não é decidida duma vez, muito menos com dia marcado. Entre   estas fases e no decorrer delas há idas e vindas entre a unidade de estudo e   outros contextos de vida do investigador, há momentos de grande imersão e momentos em que chega a parecer que o trabalho esmoreceu.</p>     <p>Na primeira investigação,   a fase exploratória decorreu entre meados de 1990 e finais de 1991 e o bairro   do Aleixo foi o núcleo da unidade de estudo (falaríamos agora, se isso não nos   desviasse do que queremos dizer nesta secção, da pouca nitidez dos limites   espaciais da unidade de estudo, da dificuldade em delimitar-lhe as fronteiras –   por isso falamos em “núcleo”); a fase intensiva, durante a qual residimos no   bairro Pinheiro Torres, decorreu entre outubro de 1992 e o verão do ano   seguinte, com a maior parte do trabalho de campo no bairro da Pasteleira e   frequente também no do Aleixo e no Pinheiro Torres; no final de 1993 e ao longo   de 1994 começámos a espaçar a presença no terreno e o ano seguinte foi o da saída.</p>     <p>Importa deixar aqui   testemunhada a vontade que sempre tivemos de regressar um dia ao “nosso”   terreno. Onde inscrever esta vontade? Ficaria bem dizer que nos superiores   interesses da ciência. Cartografar mudanças sociais numa “periferia degradada”,   inventariar permanências e alterações numa zona que, em 20 anos, conheceu   vicissitudes como a construção de mais um bairro social, que é agora visto como   o novo foco problemático, a demolição ainda incompleta de um outro – o   mediático bairro do Aleixo – com o álibi da “guerra aos traficantes de droga”,   o início da intervenção comunitária sistemática com populações vulneráveis e   grupos estigmatizados, mas também na atenção às trajetórias de atores que   conhecemos na investigação inicial, caracterizando as etapas e consequências   das suas “carreiras nas drogas” – ou procurando o nexo à biografização, quer   dizer, à expressão nas existências individuais das condições ecossociais da vida nos territórios psicotrópicos.</p>     <p>Mas inscrevemos a vontade   do regresso também em algo mais pessoal. Sabem todos quantos fizeram trabalho   de campo prolongado e envolvido que não se sai dele igual ao que se era.   Trata-se duma experiência transformante, pelo modo como exige (adaptações) e   como confronta (as nossas grelhas prévias), como desafia (os nossos medos) e   como provoca (o nosso engenho). Voltar ao terreno, então, para reencontrar   sítios e pessoas, para relembrar momentos e sensações. Para nos reencontrarmos   – porque a permanente atualização da pessoa que somos se faz também no   reencontro com a memória das experiências fortes que vivemos. E, depois, esta   curiosidade que não nos deixa parar e que nos impele a saber o que se passou   com os “nossos” atores sociais e os sítios a que fomos também chamando “nossos”   – porque o trabalho de campo é sempre uma apropriação de algo que de longe era   estranho. Regressar, pois, aos lugares e atores, reencontrar familiaridades,   sinalizar mudanças, ser surpreendido pelo que é novo e nos provoca agora estranheza.</p>     <p>Tínhamos, desde o momento   da saída, a intenção de regressar um dia. Demorou mais de 20 anos. Mas, num dia   de dezembro de 2014, o RS respondia à nossa chamada e comparecia pontualmente   na sede da associação desportiva e recreativa do bairro. O informante   privilegiado principal da etnografia inicial servia assim à passagem de   testemunho, do primeiro investigador ao que agora chegava ao terreno, para realizar a revisitação. Retomaremos a figura do RS adiante.</p> </font>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Breve revisão bibliográfica sobre   revisitações etnográficas</b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>A primeira tarefa que se   mostrava necessária, ainda antes da ida para o terreno, era a de adquirir uma   visão panorâmica sobre o tema da revisitação etnográfica. A pesquisa   bibliográfica que realizámos a tal respeito permite-nos destacar dois grandes   conjuntos de trabalhos. Os primeiros correspondem a revisitações realizadas por   um etnógrafo diferente daquele que estudou inicialmente determinado contexto de   pesquisa. Estes estudos podem ser complementares à investigação inicial (<i>e</i>. <i>g</i>. Hutchinson 1996), atualizando os resultados ou os achados   etnográficos iniciais; podem também assumir uma dimensão crítica em relação ao estudo prévio (Lewis 1963 [1951]; Pagán 1980; Freeman 1983).</p>     <p>A segunda categoria de   revisitações diz respeito a trabalhos que foram realizados pelo mesmo   etnógrafo, estudando-se em dois ou mais períodos temporais a mesma realidade   sociocultural (Firth 1959; Colson 1960; Burawoy 1979; White 1993 [1943]; Cunha   2002). Daremos, já de seguida, destaque a cada uma das categorias a partir da   revisão bibliográfica que efetuamos. A sistematização teórica e conceptual   desenvolvida por Cunha (2014) sobre revisitações etnográficas serviu como bússola orientadora da pesquisa bibliográfica que realizámos.</p> </font>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Revisitações realizadas pelo mesmo   etnógrafo</b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>Pela leitura do apêndice   A de <i>Street Corner Society</i>, de   William White (1993 [1943]), intitulado “On the evolution of ‘street corner   society’<sup>&nbsp;</sup>”, em particular no capítulo&nbsp;14, “Cornerville   revisited”, é possível constatar que o autor revisitou várias vezes a sua unidade de estudo – Cornerville, em Boston.</p>     <p>White (1993 [1943])   refere nesse apêndice da sua obra um conjunto de transformações urbanas e   paisagísticas em Cornerville ao longo dos anos que refletem os processos de   gentrificação que se podem encontrar na sua zona de estudo. De acordo com White (1993 [1943]:   342): “It was still predominantly an Italian-American district, but   gentrification had set in.” Dessas   transformações destaca-se a demolição de estradas que permitiu a abertura para   uma frente marítima. Esta situação favoreceu a instalação e o crescimento de   atividades comerciais e de restauração na zona, bem como de novos parques   habitacionais que não existiam na altura da sua etnografia inicial, em finais dos anos&nbsp;30 do século&nbsp;XX.</p>     <p>A par dos processos de   transformação e renovação urbana, a sua revisitação permitiu também destacar um   conjunto de aspetos que permanecem semelhantes em relação à pesquisa inicial,   realizada entre 1937 e 1940. Uma das semelhanças está na permanência física do   local onde White ficou “instalado” durante a primeira investigação, perto do   antigo restaurante Capri da família Orlandi, restaurante esse, contudo, já inexistente.</p>     <p>É também possível   verificar que o encontro do investigador com Doc, o informante privilegiado da   investigação inicial, foi marcado por algum desinteresse por parte deste   relativamente a esse reencontro. White avança duas hipóteses para essa situação: “Perhaps Pecci had come   to feel that i had gained fame and fortune throught <i>Streer Corner Society</i>, and he, who had provided the principal keys   to that society, had not received his fair share of benefits” (White 1993   [1943]: 348). Mas outra explicação possível é também avançada: “Pecci had left   the street corner so far behind that he no longer had any interest in   connecting up with old times” (White 1993 [1943]: 348). Além disso, parece que o livro de White suscitou   em Doc uma reação de afastamento pela origem académica do mesmo, desencorajando   os restantes <i>cornerboys</i> da sua   leitura: “No, you woudn’t be interested, just a lot of big words. That’s for the professors” (Whyte 1993 [1943]:&nbsp;347).<a href="#_ftn3" name="_ftnref3" title=""><sup>[3]</sup></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Continuemos ainda com as   revisitações realizadas pelo mesmo etnógrafo. Mudemos, contudo, de espaço   geográfico, situando-nos agora no continente africano. Elisabeth Colson,   antropóloga norte-americana, revisita juntamente com uma colaboradora sua   (Thayer Scudder), nos anos&nbsp;70 do século&nbsp;XX, as comunidades de Gwembe   (os “Gwembe Tonga people”), situadas entre a atual Zâmbia e o Zimbabué.<a href="#_ftn4" name="_ftnref4" title=""><sup>[4]</sup></a> Esta comunidade foi inicialmente caracterizada   pela autora nos anos&nbsp;40 do século&nbsp;XX, procurando compreender o   impacto que as construções de larga escala na zona – nomeadamente a construção   da central hidroelétrica no rio Kariba – tiveram na organização social destas   comunidades.<a href="#_ftn5" name="_ftnref5" title=""><sup>[5]</sup></a> A autora destaca impactos ao nível da ansiedade e   do <i>stress</i> nestas comunidades, gerados   por essa mobilidade forçada. Segundo Colson: “When forcible removal involves also the destruction or   consequent inaccessibility of that refuge, people suffer immensely, even those   who left voluntarily but with the expectation that they could always return” (1989:&nbsp;13).</p>     <p>Centremo-nos agora noutro   continente, a Oceania. A revisitação do antropólogo neozelândês Raymond Firth   (1959) procurou compreender as mudanças e as permanências ocorridas numa das   comunidades da Polinésia – os tikópia – ao longo do tempo, nomeadamente ao   nível da sua organização social, da sua vida familiar e das relações de   parentesco. Esta comunidade foi inicialmente estudada pelo autor em 1928 e   1929, sendo revisitada em 1952 e depois ainda em 1966. Os resultados das   revisitações permitiram a Firth constatar que os tikópia se iam progressivamente   abrindo, não só a outras comunidades da Oceania, mas sobretudo aos valores e   costumes ocidentais – através daquilo a que o autor chamou “forças de   modernização”: no estudo inicial de Firth, os tikópia atribuíam particular   importância às atividades sociais e religiosas (Firth 1936), enquanto que na   revisitação Firth destacou o interesse pela tecnologia e pela arte decorativa nesta comunidade (Firth 1959).</p>     <p>Sztutman (1998), através   de uma análise crítica das revisitações de Firth aos tikópia, refere como foi o   confronto do autor após a sua segunda revisitação da comunidade estudada, tendo   havido um período de cerca de 14 anos sem qualquer contacto: “Em vez da imagem   edénica dos ‘povos seminus’, isolados em uma ilha da Polinésia, oferecida ao   leitor logo nas primeiras páginas de <i>Nós,     os Tikopia</i>, ele se deparava com um contexto de contato avançado com o   ‘mundo dos brancos’, caracterizando, entre outras coisas, pela instalação da Igreja Anglicana” (Sztutman 1998:&nbsp;245-246).</p>     <p>Até ao momento   apresentámos revisitações etnográficas que se foram consagrando na história da   antropologia em geral e da etnografia em particular num plano internacional.   Mas também no plano nacional encontramos revisitações realizadas pelo mesmo   investigador. A revisitação sociológica levada a cabo por José Madureira Pinto   e colaboradores em Fonte Arcada (concelho de Penafiel) em inícios do   século&nbsp;XXI permitiu destacar um conjunto de ­alterações significativas na   comunidade estudada. Esta comunidade rural, caracterizada inicialmente na década   de 70 do século&nbsp;XX, registava uma considerável ligação a diferentes instâncias socializadoras, tais como a família, a escola e a religião.</p>     <p>Estes temas foram   precisamente aqueles que a revisitação, 30 anos depois, procurou compreender. A   questão que orientou o trabalho da revisitação foi, por isso, a seguinte:   “Confirmar-se-ão ou não, aqui, conhecidas tendências de um investimento   crescente das famílias na escolarização dos mais jovens e de   desinstitucionalização na esfera religiosa, com erosão das formas tradicionais   de relação com o sagrado e com a Igreja?” (Pinto 2008: 12). A revisitação   permitiu perceber um considerável nível de diferenciação interna nesta   comunidade, algo que J.&nbsp;Madureira Pinto (2008) relaciona com alterações   político-sociais ocorridas entre os dois períodos de investigação, nomeadamente   “[…] pelo efeito conjugado da democratização do sistema político e da   integração económica no espaço europeu, […] por força de impulsos inéditos ao   nível da escolarização das populações, da participação das mulheres nos   mercados de trabalho, da presença dos <i>media   </i>e das indústrias culturais no quotidiano da generalidade dos cidadãos” (Pinto 2008:&nbsp;15).</p>     <p>A revisitação etnográfica   de Manuela Ivone Cunha (2002) ao Estabelecimento Prisional de Tires é também um   exemplo de uma revisitação realizada no contexto português pela mesma   investigadora. Além da breve sistematização sobre as revisitações – e que   funcionou, tal como se disse anteriormente, como guião orientador da nossa   pesquisa bibliográfica –, Manuela Ivone Cunha explora ainda algumas questões   metodológicas que se relacionam com a sua própria revisitação ao contexto de   pesquisa – o Estabelecimento Prisional de Tires, estudado inicialmente em   finais dos anos&nbsp;80 e revisitado em finais dos anos&nbsp;90 do século&nbsp;XX.</p>     <p>Tal como outros autores   já salientaram a propósito das suas revisitações, as mudanças no seu contexto   de pesquisa relacionaram-se com aspetos de composição da própria população   revisitada. No caso da revisitação de Cunha (2002), foi saliente, no espaço de   dez anos, uma alteração considerável na estrutura da população prisional. Isto   teve como consequência uma abertura da sua pesquisa a novos contextos que não   apenas a prisão. Assim, se o Estabelecimento Prisional de Tires continuava a   ser o objeto de estudo, não se esgotava já nele a sua unidade de análise.<a href="#_ftn6" name="_ftnref6" title=""><sup>[6]</sup></a> As consequências metodológicas de tal conclusão   acarretaram uma descentração do contexto prisional enquanto unidade analítica e   a necessidade de abranger outros contextos de observação e pesquisa que se   encontram na interface com a realidade prisional. O principal contexto de   interface seria, de acordo com a autora, o bairro social periférico. Nas   palavras de Cunha, “Em vez de um estudo prisional, tratava-se agora de um <i>tricot</i> a duas agulhas: o bairro e a prisão” (2014:&nbsp;407).</p>     <p>Além das alterações no   próprio terreno etnografado, o trabalho de Cunha (2002, 2014) salienta a   importância dos fatores pessoais do etnógrafo que revisita o mesmo local de   pesquisa. De forma muito resumida, se o terreno etnografado se altera com o   tempo, o etnógrafo que o revisita apresenta também grelhas teóricas, pessoais e   científicas distintas daquelas que possuía quando o caracterizou a primeira   vez. Como refere Cunha, “É que uma investigação etnográfica é conduzida não   apenas numa conjuntura interpessoal específica e num dado panorama teórico, mas   também num momento do ciclo de vida do investigador e numa etapa da sua maturação intelectual e analítica” (2014:&nbsp;410).</p>     <p>Assim, para Cunha, a   questão da historicidade etnográfica deve ser sempre colocada quando se realiza   uma revisitação. Para a autora, a revisitação relaciona-se, sobretudo, com uma   tripla historicidade, relacionada com: as características e dinâmicas do   terreno etnografado; a subjetividade do investigador e as suas características   pessoais nos dois períodos de observação; e, finalmente, a evolução do próprio domínio teórico, conceptual e intelectual entre essas duas investigações.<a href="#_ftn7" name="_ftnref7" title=""><sup>[7]</sup></a></p>     <p>A modificação das grelhas   teóricas, pessoais e científicas do etnógrafo ao longo do tempo deve   relacionar-se, todavia, com o facto de a revisitação ser feita pelo mesmo   etnógrafo ou por investigadores distintos. Diz-nos Cunha: “A questão da   historicidade da pesquisa etnográfica não se coloca, de facto, da mesma maneira   consoante uma investigação num dado terreno seja conduzida em diferentes   momentos pelo mesmo investigador ou por etnógrafos diferentes (ver também, a   este propósito, Burawoy 2003)” (Cunha 2014: 404-405). É exatamente sobre as   revisitações realizadas por etnógrafos distintos que nos debruçaremos em seguida.</p> </font>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Revisitações realizadas por etnógrafos   distintos</b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>É neste tipo de   revisitações que nos situamos, embora com a singularidade curiosa já referida:   o investigador que realizou a pesquisa original participa na atual.<a href="#_ftn8" name="_ftnref8" title=""><sup>[8]</sup></a> Vejamos agora mais de perto algumas revisitações   etnográficas que, apesar de tratarem temáticas e objetos distintos dos nossos,   se pautam por desenhos e enfoques metodológicos próximos daqueles que temos vindo a realizar.</p>     <p>A investigação de Sharon   Hutchinson (1996) é um bom exemplo de uma revisitação que visa complementar   aspetos abordados na etnografia inicial. A autora estuda, nos anos&nbsp;90 do   século&nbsp;XX, os nuer do Sudão do Sul, cujos modos de vida foram   caracterizados por Evans-Pritchard na primeira metade do século&nbsp;XX. Hutchinson   vai tentar compreender como evoluíram esses modos de vida nesta comunidade   entre 1930 e 1990. Percebe um aumento das variações culturais nesta comunidade,   variações que diziam respeito à religião e ao género, entre outros aspetos,   contrariamente àquilo que Evans-Pritchard verificara, nomeadamente a sua singularidade e pouca variabilidade interna.<a href="#_ftn9" name="_ftnref9" title=""><sup>[9]</sup></a></p>     <p>Mudando a geografia agora   para os EUA, a fábrica Geer Company, em Chicago, estudada inicialmente por   Donald Roy entre 1944 e 1945, foi revisitada por Michael Burawoy entre 1974 e   1975. Burawoy (2003) salienta uma alteração significativa relativamente àquilo   que Roy constatou nesta fábrica 30 anos antes, particularmente a diminuição de   relações verticalizadas entre a direção (<i>management</i>)   e os empregados fabris, e o aumento de conflitos horizontais entre estes   últimos, constatando mesmo um certo enfraquecimento da solidariedade e   episódios de hostilidade entre os operários (Burawoy 1979). Ao tentar   compreender como é que os processos de autoridade nesta fábrica evoluíram   durante esse período de tempo, Burawoy parte das mesmas interrogações que o   investigador inicial, estando a sua revisitação marcada por uma atenção a   aspetos salientados por Donald Roy – aquilo que o autor apelida revisitação   focada. Nas suas palavras, esta técnica etnográfica ocorre “when an ethnographer returns to the site of a previous study” (Burawoy 2003:&nbsp;646).</p>     <p>Mas a análise   bibliográfica permite-nos constatar que nem sempre as revisitações realizadas   por diferentes etnógrafos assumem um caráter, diríamos, tão pacífico ou   complementar como aquelas que temos analisado até aqui. Algumas revisitações   são marcadas por uma forte crítica à etnografia inicial e, nalguns casos, mesmo   pela negação/rejeição das conclusões do primeiro estudo. O   trabalho de Derek Freeman (1983) é talvez o mais emblemático duma revisitação   extremamente crítica relativamente à pesquisa inicial. A rejeição das conclusões de Margaret Mead a   propósito dos rituais de passagem para a vida adulta nas jovens samoanesas leva   Freeman (1983) a referir: “We have seen that the ‘picture of the whole social   life of Samoa’ that Mead presented as an ethnographic background to her main   conclusion in <i>Coming of Age in Samoa </i>is,   in numerous respects, fundamentally in error”. Freeman vai revisitar Samoa, na região da Polinésia, fazendo trabalho de   campo no mesmo local onde ­Margaret Mead estudou os rituais de entrada na vida   adulta por parte das jovens samoanesas. Recorreu também a algumas informantes   de Mead que ainda se encontravam vivas. A crítica de Freeman a Mead diz   respeito sobretudo às conclusões a que a autora chegou a propósito desses   “rituais de passagem”. A sua revisitação vem chamar a atenção para o facto de   que todas as mulheres naquela comunidade se encontravam ao abrigo do sistema <i>taupou</i>, sistema esse que previa uma   “virgindade institucionalizada” para as jovens mulheres e não apenas para as   mulheres de alto estatuto social em Samoa, tal como defendia Mead. Além disso,   as entrevistas que Freeman realizou às informantes de Mead ainda vivas não   permitiram confirmar aquilo que estas tinham dito à autora; pelo contrário,   negaram, por exemplo, ter estado envolvidas em sexo ocasional quando eram jovens e declararam mesmo a Freeman ter mentido a Mead sobre esse assunto.</p>     <p>O trabalho de Annette   Weiner (1976) é também uma revisitação crítica de um trabalho etnográfico   clássico, neste caso aos trobriandeses estudados por Bronislaw Malinowski (1961   [1922]). A autora revisita, nos anos&nbsp;70 do século&nbsp;XX, o terreno   estudado inicialmente por Malinowski entre 1915 e 1918, mostrando o papel ativo   e a importância das mulheres das tribos trobriandesas na vida comunitária   local. Segundo Bashkow:   “Of the many critical reactions to Bronislaw Malinowski’s classic work on the   Trobriand Islands, one of the most ethnographically productive has been Annette   Weiner’s critique that Malinowski neglected the role of women in exchange”   (2011: 9). De salientar ainda que   também os etnógrafos que estudaram os trobriandeses além de Malinowski (<i>e</i>. <i>g</i>. Powell 1960) parecem ter omitido o papel ativo dos elementos do   sexo feminino destas comunidades. Para Weiner, esta situação evidencia um viés   de género no olhar etnográfico, tratando-se de uma “tendência androcêntrica”   que não se limita apenas a este caso concreto da investigação nas ilhas   Trobriand, mas à história da antropologia no seu todo; segundo Bashkow, Weiner   teria assim por objetivo “to counter what she saw as an androcentric tendency deeply rooted in the history of anthropology” (Bashkow 2011:&nbsp;9).</p>     <p>Voltemos agora novamente   ao continente americano, mas desta vez à América Central. Oscar Lewis (1963   [1951]) revisita Tepotzlán, uma comunidade mexicana, em dois períodos distintos   (1943-1950, tendo ali permanecido vários meses, e 1956-1957). Contudo, essa   comunidade tinha sido estudada em 1926-1927 por Robert Redfield.<a href="#_ftn10" name="_ftnref10" title=""><sup>[10]</sup></a> Por que assume a revisitação de Lewis uma postura   crítica face às conclusões de Redfield? De acordo com Lewis, o primeiro   investigador estudou esta comunidade mexicana com os referenciais ocidentais e   sobretudo norte-americanos, não procurando aceder às representações,   nomeadamente sobre a pobreza, a partir da lógica intrínseca aos habitantes de   Tepotzlán. Hernández, a propósito da postura crítica de Lewis sobre a etnografia de Redfield, refere:</p> </font>     <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2">“Lewis     consideró que el trabajo etnográfico de Redfield sobre Tepoztlán no arrojaba     una mirada objetiva de la población, no abarcaba los problemas sociales,     políticos y económicos de los habitantes y no proporcionaba el tema de la     pobreza como a Lewis le interesaba: a través de lo que representa para el     mexicano” (Hernández 2010:&nbsp;50).</font></p> </blockquote> <font face="Verdana" size="2">     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Desloquemo-nos agora para   a Península Ibérica. Se recuarmos até a década de 70 do século&nbsp;XX,   verificamos que Pagán (1980), antropólogo e nativo de Grazalema,<a href="#_ftn11" name="_ftnref11" title=""><sup>[11]</sup></a> vai estudar entre 1974 e 1979 a sua própria   comunidade, situada em Cádis, na Andaluzia, com recurso ao método etnográfico.   O estudo de Pagán vai permitir rejeitar as conclusões de Pitt-Rivers (1971   [1954]) a propósito de Grazalema, apesar de o trabalho do antropólogo britânico   ser considerado por muitos como o primeiro estudo de antropologia social   realizado em Espanha (Pagán 1980). Apesar do caráter pioneiro, destacam-se algumas fragilidades e falta de rigor metodológico na obra de Pitt-Rivers. Nas palavras de Pagán,</p> </font>     <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2">“<i>The     People of the Sierra </i>está muy lejos de ser un modelo que sirva para     analizar la realidad social española; es, pelo contrario, citando las palabras     de un grazalemeño que leyó la edición española, ‘un libro superficial que ha     prejudicado a la cultura y a la historia del Pueblo’. El libro há presentado     una imagen falsa de Andalucía y ha influído negativamente en estúdios     históricos y antropológicos que se han realizado después” (Pagán     1980:&nbsp;82).</font></p> </blockquote> <font face="Verdana" size="2">     <p>Além de o livro de Pitt-Rivers   espelhar uma “imagem falsa da Andaluzia”, Pagán critica também a primeira   investigação pela ausência de indicadores históricos sobre essa comunidade,   afirmando a impossibilidade de compreensão de uma dada realidade sociocultural sem o recurso a esses dados.</p>     <p>Depois de feita esta   breve revisão bibliográfica sobre os diferentes tipos e modalidades de   revisitações etnográficas existentes, trataremos agora de tecer alguns   considerandos metodológicos acerca da nossa revisitação aos territórios psicotrópicos da zona ocidental do Porto.</p> </font>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Algumas considerações metodológicas   acerca da nossa revisitação</b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>Para Caria, a etnografia   é um lugar de fronteira que consiste em “estar dentro e estar fora dos   contextos em análise e, simultaneamente, convocar os autóctones para se   posicionarem do mesmo modo”; diz-nos ainda o autor que o etnógrafo “está dentro   para compreender mas ao mesmo tempo tem que estar fora para racionalizar a   experiência e poder construir um objeto científico legítimo” (Caria 2002: 13).   É no quadro da “reflexividade etnográfica” (Caria 2002), enquanto processo de   racionalização da experiência etnográfica, que salientamos alguns aspetos   técnicos e relacionais que têm marcado o trabalho de campo desta revisitação,   realizado por Simão Mata. Os primeiros correspondem às técnicas que temos de   colocar em marcha para que a investigação se desenrole. Já os aspetos   relacionais dizem respeito aos modos interativos, incluindo o envolvimento   afetivo, entre nativos e etnógrafo. Os aspetos relacionais são, para Pina-Cabral (2000), a marca de qualquer pesquisa etnográfica.</p> </font>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Aspetos técnicos</b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A leitura do diário de   campo da investigação inicial realizada por Luís ­Fernandes tem permitido   identificar alguns núcleos temáticos da pesquisa inicial, que servem como   orientadores das nossas incursões etnográficas. Essa leitura tem permitido   também a identificação de alguns atores sociais que protagonizavam, no início   dos anos&nbsp;90, o fenómeno da droga nos territórios que agora revisitamos.   Assim, a primeira etapa de pesquisa passou pela localização atual desses   atores, nomeadamente o informante-chave da investigação inicial – o RS.<a href="#_ftn12" name="_ftnref12" title=""><sup>[12]</sup></a> Através dele, e de outros com quem nos temos   relacionado, acedemos a outros atores sociais identificados a partir da leitura   do diário da investigação inicial. Estes contactos têm aberto várias   possibilidades: (1)&nbsp;conhecer a sua trajetória nos últimos 20 anos,   possibilitando a recolha de dados sobre a evolução dos seus percursos como   utilizadores de drogas e a evolução da relação com a matriz ecossocial em que   decorrem as suas vidas; (2)&nbsp;aceder a representações e significados sobre o   fenómeno da droga no âmbito da nossa unidade de estudo; (3)&nbsp;alargar o   nosso quadro de relações dentro dessa unidade, possibilitando-nos o acesso a   outros indivíduos, que permitirão por sua vez o acesso a novos grupos, sociabilidades e territorialidades.</p>     <p>O trabalho de campo   iniciou-se em dezembro de 2014 e tem sido ­realizado em períodos de duas ou   três tardes por semana, bem como noutros períodos de um modo menos sistemático.   Importa destacar uma experiência inicial e ­exploratória de Simão Mata,   realizada entre outubro de 2009 e dezembro de 2013, enquanto técnico de redução   de riscos e minimização de danos numa equipa multidisciplinar que faz trabalho   de rua nalguns bairros que agora revisitamos – em particular o do Aleixo e o   Pinheiro Torres.<a href="#_ftn13" name="_ftnref13" title=""><sup>[13]</sup></a> Essa experiência exploratória permitiu um   primeiro conhecimento, quer sobre alguns aspetos que se relacionam com o   fenómeno da droga nos territórios considerados, quer sobre alguns dos seus principais protagonistas (Mata e Fernandes 2016).</p>     <p>As secções do diário de   campo do segundo investigador seguem de perto as que foram elaboradas pelo   investigador inicial.<a href="#_ftn14" name="_ftnref14" title=""><sup>[14]</sup></a> Contudo, o caráter único, irrepetível e   marcadamente subjetivo do trabalho etnográfico (Pina-Cabral 2000) fez com que o   segundo investigador tivesse necessidade de acrescentar novas secções ao seu   diário de campo: “atividade onírica”, “secção pessoal”, “conversas com   informantes”, “conversas com o Mister” e “notas diário Mister”.<a href="#_ftn15" name="_ftnref15" title=""><sup>[15]</sup></a> Estas duas últimas secções marcam o caráter da   investigação agora em curso enquanto revisitação, procurando estabelecer uma   ligação metodológica com a pesquisa inicial. Além disso, as secções   acrescentadas no diário do segundo investigador denunciam a sua matriz disciplinar   de base – a psicologia –, procurando que contribuam para evidenciar e   compreender algumas das suas dimensões psicológicas enquanto realiza o seu trabalho de campo.<a href="#_ftn16" name="_ftnref16" title=""><sup>[16]</sup></a></p>     <p>Quanto às técnicas   mobilizadas ao longo da pesquisa de terreno, a observação, quer na modalidade   participante quer na não participante, tem-se destacado como a técnica   privilegiada de recolha de dados. O caráter progressivo dos relacionamentos no   interior da unidade de estudo vai influenciando e marcando o estatuto do   investigador nos contextos de pesquisa, variando entre momentos em que a sua   identidade é referida (estatuto <i>overt</i>)   até momentos em que é encoberta (estatuto <i>covert</i>)   (Adler 1990). Temos também realizado entrevistas etnográficas (Spradley 1979) a   alguns atores sociais, quer com os informantes-chave quer com outros elementos   que o trabalho de campo tem mostrado ou venha a mostrar como relevantes, tendo   como centro temático aspetos que se relacionam com o fenómeno da droga nos territórios psicotrópicos.</p>     <p>Desde o início da pesquisa   do segundo investigador, a técnica do “<i>go-along</i>”   (Kusenbach 2003) pelos territórios com os informantes-chave tem-se revelado de   grande utilidade. Tem sido realizada quer na modalidade de “<i>walk-alongs</i>”, quando a realizamos a pé   na companhia de algum(ns) nativo(s), quer na de “<i>ride-alongs</i>”, quando a realizamos através do automóvel (neste caso, “<i>car-alongs</i>”). Para Kusenbach:</p> </font>     <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2">“When     conducting go-alongs, fieldworkers accompany individual informants on their     ‘natural’ outings, and – through asking questions, listening and observing –     actively explore their subjects’ stream of experiences and practices as they     move through, and interact with, their physical and social environment”     (2003:&nbsp;463).</font></p> </blockquote> <font face="Verdana" size="2">     <p>Esta técnica, ao permitir   a circulação por diferentes zonas de uma realidade sociocultural, permite   diversificar as formas de se “estar no terreno”, contribuindo para que a   pesquisa não se fixe apenas num ou em poucos ponto(s) concreto(s) e “se   desloque/mova” a partir das orientações dos informantes. Recorrendo novamente às palavras de   Kusenbach, usamos o “&nbsp;‘go-along’ as an ethnographic research tool that   brings to the foreground some of the transcendent aspects of lived experience as grounded in place” (2003:&nbsp;456).</p>     <p>Além da técnica do “<i>go-along</i>”, temos ainda ensaiado incursões   nos territórios sem a companhia de qualquer ator social. Chamámos-lhes, a dado   momento no nosso diário de campo, “<i>go-alone</i>”,   uma vez que a incursão é feita a sós. O principal objetivo desta técnica é o   (re)conhecimento dos limites dos territórios e dos atores à nossa presença,   percebendo com isso os nossos próprios limites enquanto realizamos o trabalho   de campo. Permite-nos perceber ainda até que ponto é que estamos ou não   inseridos na nossa unidade de pesquisa e em que medida nos sentimos confortáveis quando nos deslocamos sozinhos pelos territórios.</p>     <p>Temos ainda utilizado   técnicas que são complementares destas, nomeadamente a recolha de documentos   sobre os atores e os territórios (por exemplo, textos escritos pelos “nativos”,   artefactos que produzam…), bem como de notícias/peças   jornalísticas acerca dos atores e territórios. Temo-nos socorrido, também, da   fotografia como técnica de recolha de dados, captando imagens sobre a zona de   estudo. Esta utilização da imagem fotográfica tem sido complementar da dimensão   verbal utilizada pelos atores sobre esses espaços e do nosso próprio registo escrito sobre os mesmos.<a href="#_ftn17" name="_ftnref17" title=""><sup>[17]</sup></a></p> </font>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Aspetos relacionais</b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>Paralelamente aos aspetos   técnicos referidos na secção acima, surgem também no nosso trabalho de campo   alguns aspetos relacionais que importa destacar. Esses aspetos relacionam-se   com o envolvimento pessoal do etnógrafo com os nativos e com os territórios de estudo. Segundo Pina-Cabral:</p> </font>     <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2">“Whether this is done [ethnography] through     some form of ‘participant observation’ or by any other of the many qualitative     methods that have since then been tried out, I believe that it is only useful     to call a research ethnographic if the researcher is somehow personally     involved in the field” (2000:&nbsp;343).</font></p> </blockquote> <font face="Verdana" size="2">     <p>Este envolvimento tem-se revelado na nossa   pesquisa uma fonte de enormes contradições e complexidades. Os contextos em   análise, marcados pelo sofrimento social, pela invisibilidade e pela   hiperestigmatização (Fernández González 2014), convocam-nos ao longo do   trabalho de campo dilemas, confrontos e exigências pessoais que importa   problematizar. Se esses confrontos e exigências podem, por um lado, potenciar o   interesse e a curiosidade do etnógrafo no conhecimento das dinâmicas locais da   unidade de estudo, podem também, se não forem devidamente enquadradas e racionalizadas, dificultar o trabalho de campo.<a href="#_ftn18" name="_ftnref18" title=""><sup>[18]</sup></a></p>     <p>A relação entre etnógrafo e “nativos”   apresenta, como aliás qualquer relação humana, um caráter progressivo ao nível   do interconhecimento dos intervenientes. Mas essa relação comporta regras e   limites que convém conhecer e respeitar, para que não se comprometa a presença   do investigador no <i>setting </i>e se   potenciem os relacionamentos com os “nativos”. Alguns desses requisitos são a   confiança, a transparência e a autenticidade. A propósito da autenticidade   entre nós e os atores sociais, o nosso informante privilegiado principal   (relembremos que é RS, o mesmo da investigação inicial) disse-nos algo que   traduz a sua importância. Conversávamos sobre como iríamos “ter acesso” e   desenvolver relacionamentos numa zona de venda de drogas. Ele disse-nos   simplesmente: “Seres mais tu para seres um deles” [diário de campo, secção   “anotações metodológicas”, 4 de abril de 2015]. Apontava também para o caráter   progressivo que deveria assumir a nossa inserção nestes espaços. Disse-nos   ainda que a nossa presença deveria ser marcada, numa fase inicial, por uma   “interação presencial” nestes contextos que, com o passar do tempo, daria lugar   a uma “interação comunicativa” com os atores.<a href="#_ftn19" name="_ftnref19" title=""><sup>[19]</sup></a> O objetivo principal desta   interação passa pelo “ser visto ali”, como disse o RS, procurando que os   “nativos” nos vejam naquele contexto como alguém que não coloca em causa o normal curso das atividades e das interações sociais.<a href="#_ftn20" name="_ftnref20" title=""><sup>[20]</sup></a></p>     <p>Em suma, estas duas modalidades interativas,   crescentes em intensidade relacional, correspondem a formas de “estar no   terreno” que exigem diferentes posturas por parte do etnógrafo. Na “interação   presencial” procura-se uma postura passiva, de contactos mínimos ou   superficiais. O etnógrafo observa sobretudo aquilo que o(s) informante(s)   faz(em) com os outros “nativos”, assiste de forma passiva às conversas que ali   são estabelecidas, recolhe as primeiras representações da comunidade, espera   que o(s) informante(s) o apresente(m) aos elementos da comunidade, fazendo-se   com isso presente nos contextos. Já na “interação comunicativa” procura-se uma   postura ativa, ganhando-se, com o tempo, alguma autonomização ao nível das   interações no terreno. O etnógrafo integra-se progressivamente com os atores em copresença e vai sendo capaz de interagir de forma mais envolvida.</p>     <p>Com o passar do tempo e a respetiva maior   facilidade em criar momentos de “interação comunicativa”, conceptualizamos   aquilo que no nosso diário de campo designamos como “entradas não planeadas”.   Queremos com isto dizer que, se numa fase inicial de aproximação a estes   espaços e atores planeávamos com rigor as nossas entradas nestes espaços, com o   adquirir de autonomia – desde logo em relação ao(s) informantes(s) –, optamos   por não planear a altura ou o dia em que nos deslocamos aos mesmos. Além disso,   o facto de irmos para o terreno sem planeamentos prévios tem contribuído para   diluir a nossa presença nos territórios considerados, diminuindo com isso a   sensação de “corpo estranho” ou os “efeitos de contraste” entre nós e os “nativos”. Escrevíamos assim no diário, após uma deslocação não planeada:</p> </font>     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">“Vou ter com eles sem dizer nada que ia. Fui     levar a S. às Antas e aproveitei para passar por lá pela Pasteleira, para fazer     um bocado de conversa com o pessoal. Não foi algo que estivesse previamente     planeado, nem para eles nem para mim. Reparei que este ‘efeito surpresa’ teve     um efeito positivo neles, principalmente quando lhes expliquei o caráter de ter     ido ali. Isso permitiu-lhes perceber que: 1.&nbsp;Eu os encaro como fazendo     parte do meu quotidiano normal, encontrando-se inscritos na minha vida,     tentando não separar o meu quotidiano do deles. É como se a minha vida privada     fosse uma continuidade do quotidiano deles e vice-versa, não os fazendo     perceber tanto a descontinuidade e a barreira que em todo o caso e para todos     os efeitos existe entre mim e eles. 2.&nbsp;Deu-lhes uma sensação de     recetividade da minha parte, revelando-me menos passivo na busca do     conhecimento e mais ativo na procura deles, na entrada nos seus contextos de     interação sem ter ‘planeamentos’ prévios. Notei isso fundamentalmente no RS,     que ao me ver ali ficou simultaneamente admirado e, posso dizer com a     subjetividade que a palavra implica, de certa forma feliz em me ver de forma     inesperada” [diário de campo, secção de “anotações metodológicas”, 24 de março     de 2015].</font></p> </blockquote> <font face="Verdana" size="2">     <p>Por outro lado, este ganho de autonomia   relacional deve ainda pautar-se pela incorporação na nossa linguagem dos termos   ou expressões linguísticas que marcam as interações entre os atores locais. Consiste,   segundo Fernandes, Neves e Chaves, na “familiarização com a gíria local”, dando   uma “&nbsp;‘impressão de realidade’ no interlocutor, procurando, com isso,   gerar um sentimento de confiança relativamente a si” (2001: 191).<a href="#_ftn21" name="_ftnref21" title=""><sup>[21]</sup></a> No   mesmo sentido, Firmino da Costa refere: “Se [o investigador] não conhecer a   língua, ou as regras de trânsito, ou se não se vestir duma das maneiras ali   habituais – para só mencionar alguns dos mais óbvios duma multidão de   requisitos – o […] impacto arrisca-se a ser muito maior” (Costa 1986:&nbsp;135).</p>     <p>A passagem da “interação presencial” à   “comunicativa” teve no RS um elemento decisivo – como foi também decisivo   enquanto elo de continuidade entre a primeira investigação e a revisitação   atual, já que se trata do mesmo ator que também com o primeiro etnógrafo   desempenhou o papel de informante privilegiado principal. O RS era, nessa   altura, um morador do bairro em que se situava um dos principais territórios   onde foi desenvolvido trabalho de campo. Chegámos ao seu conhecimento através   de um amigo que vivia no bairro desde o seu início (em 1960) e que nos disse   “conhecer a pessoa certa” para nos aproximar dos atores e territórios   psicotrópicos. O RS tinha na altura 32 anos – tem agora 59 – e tinha saído   poucos meses antes do estabelecimento prisional onde cumprira uma pena de   quatro anos por tráfico de drogas. Tinha também um longo percurso como   utilizador de várias drogas e uma interação fácil com muitos atores locais envolvidos nas atividades psicotrópicas.<a href="#_ftn22" name="_ftnref22" title=""><sup>[22]</sup></a></p>     <p>Luís Fernandes contactou agora de novo o RS,   inquirindo da sua disponibilidade para ajudar o etnógrafo que faria a   revisitação. O RS continua a viver no mesmo bairro, mas noutro bloco de   habitação, e a ter inserção nas redes de sociabilidade locais, embora já   afastado dos consumos de drogas e com distância social em relação à geração   mais jovem envolvida nas cenas psicotrópicas de rua. Mesmo assim, o seu papel   voltou agora a ser decisivo na inserção inicial do investigador, acelerando o   conhecimento dos atores e atividades do contexto que permitiria   progressivamente evoluir no trabalho de campo já sem a intermediação do&nbsp;RS.</p> </font>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Primeiros resultados e novas pistas da revisitação</b></font></p> <font face="Verdana" size="2">     <p>Como já referimos na secção anterior, a   segunda investigação teve uma fase exploratória que decorreu entre 2009 e 2013   no bairro do Aleixo e no Pinheiro Torres. Não havia nessa altura ainda a ideia   explícita da revisitação, que só viria a ser claramente intencionalizada a   partir de 2014, altura em que se iniciou a fase intensiva agora em curso. É   prematuro portanto estar a avançar resultados, tanto do terreno atual como os resultantes do exercício de comparação com a investigação inicial.<a href="#_ftn23" name="_ftnref23" title=""><sup>[23]</sup></a></p>     <p>Mesmo assim, apresentam-se em seguida alguns   dados que constituirão grandes temas em análise na monografia final, começando   no contexto mais geral, passando pelos territórios psicotrópicos e chegando até aos atores sociais.</p>     <p>Que permanências e alterações podemos   assinalar no espaço ecossocial em que se insere a nossa unidade de estudo?   Dizia-se na primeira investigação tratar-se duma zona da cidade marcada por   grandes assimetrias sociais, gerando uma forte visibilidade do contraste entre   “bairros degradados”, de que o ícone mediático era o do Aleixo, e zonas   residenciais de alto estatuto. Esta assimetria parece ter-se acentuado nestes   últimos 20-25 anos, com a construção de condomínios fechados na vizinhança de   alguns dos sete bairros camarários da zona e com a finalização e povoamento de   um novo bairro social, que estava em construção na altura da primeira   investigação e que adquiriu em pouco tempo já o estatuto de “problemático”.   Este bairro, tal como os da Pasteleira e o Pinheiro Torres, está encostado aos   muros da Quinta de Serralves, que alberga o Museu de Serralves e, desde a   investigação inicial até agora, reforçou o seu estatuto de ícone cultural e turístico do Porto.</p>     <p>Entretanto, continuaram a encerrar as poucas   unidades fabris que persistiam, tendo-se transformado uma delas, que fecha o   bairro Pinheiro Torres pelo lado sul, num território psicotrópico com   alojamento permanente no seu interior em ruínas. Este território permitiu   observar em ação duas políticas de cidade de sinal contrário: a da redução de   riscos e minimização de danos, protagonizada pelos técnicos que diariamente   paravam a carrinha defronte da fábrica; e a securitária, protagonizada pelas   intervenções policiais, culminando numa ação higienista decidida pelo poder   municipal e que entaipou a fábrica, impedindo temporariamente o acesso ao seu interior por parte dos toxicodependentes.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Se estruturas abandonadas deste tipo proporcionaram   o suporte espacial para os novos territórios psicotrópicos, os que conhecemos   de há duas décadas mantêm o seu funcionamento, por vezes com pequenas   deslocações, respondendo a pressões do “combate à droga”. A mobilidade que os   caracteriza e de que Luís Fernandes deu conta há 20 anos vai deslocando os seus   “<i>hotspots</i>” de um bloco habitacional   para outro, de uma esquina ou de um terreno baldio para outro, mas mantendo-os   sempre dentro de um mesmo perímetro, que tem nos três bairros referidos os seus   vértices. O novo bairro, entretanto construído, veio reforçar esta atividade   psicotrópica, tendo hoje ao nível das instituições de controle e da comunicação social o estatuto de novo foco problemático.<a href="#_ftn24" name="_ftnref24" title=""><sup>[24]</sup></a></p>     <p>Por outro lado, a decisão da autarquia   portuense de demolir o bairro do Aleixo, implodindo a primeira das cinco torres   em dezembro de 2011, não se cumpriu integralmente. Há ainda duas torres   habitadas, uma vazia à espera da implosão e duas já demolidas. O Aleixo está   agora com o seu espaço como que esventrado, com terrenos ocos no lugar das   antigas torres, tendo precarizado ainda mais um <i>habitat</i> já etiquetado pela cidade com adjetivações negativas. O   argumento político que legitimou a decisão de banir este bairro do mapa da   cidade girou em torno da sua irremediabilidade, pois apresentava um conjunto de   problemas entre os quais avultariam as atividades criminais em torno das drogas   – um “bairro de tráfico”, com toda a delinquência conexa a esta economia   ilegal. Pois bem: a demolição começou no lado oposto ao do principal ponto de   comércio das drogas, que continua a funcionar sensivelmente com as mesmas   características e movimento que tinha antes do início da operação urbanística,   com vendedores, angariadores de clientes (“capeadores”), vigias, compradores,   compradores-consumidores no local, visitas diárias dos técnicos de redução de riscos e visitas frequentes das forças policiais.</p>     <p>Uma diferença importante em relação à   investigação inicial diz respeito à presença de equipas de redução de riscos e   minimização de danos em territórios psicotrópicos em dois dos três bairros onde   decorreu no passado e decorre agora o nosso trabalho de campo. Trata-se do   resultado prático de “diagnósticos territoriais” efetuados pelo Instituto da   Droga e da Toxicodependência no início deste milénio, que decidiu desse modo   prioridades no financiamento de equipas de rua multidisciplinares que deveriam   atuar nas zonas onde o “problema da droga” mostrava maiores consequências para a saúde pública e a (des)ordem urbana.<a href="#_ftn25" name="_ftnref25" title=""><sup>[25]</sup></a></p>     <p>A chegada destas equipas ao “nosso” terreno   foi, digamos, a confirmação oficial do estatuto destas zonas como as mais   emblemáticas do “problema da droga”, reiterando, se necessário fosse, a   pertinência da nossa unidade de estudo em relação ao objeto que queríamos   investigar. Por outro lado, tal chegada lançou também novas pistas de   investigação, que por agora resumimos em duas questões: (1)&nbsp;Como falam os   nossos sujeitos desta presença de técnicos no “seu” território? Como se   relacionam com eles? Que utilidade (ou falta dela) lhes detetam? (2)&nbsp;A   diminuição do consumo de heroína, sobretudo através da forma injetada (dado   recorrente nos últimos anos, reportado pelo relatório anual elaborado pelo   Instituto da Droga e da Toxicodependência), tem relação com o trabalho de   proximidade realizado pelos técnicos de redução de riscos? Ou trata-se de um   efeito de autolimitação, espécie de curva “natural” da evolução de uma droga, como alguma literatura refere?</p>     <p>Finalmente, centremo-nos no plano dos atores,   registando também a este nível permanências e mudanças. A permanência mais   notória é, desde logo, a do informante-chave principal da primeira investigação   – agora inevitavelmente com mais 20 anos – e, circunstância que ainda não   descortinámos noutra revisitação por agora, o facto de estar a desempenhar esse   mesmo papel no atual trabalho de campo. Para além dele, foi já possível   localizar e recolher testemunhos de outros atores sociais que vêm desse tempo.   Outra permanência é a do assistente social da Junta de Freguesia que serve estes bairros, cujo testemunho importará também recolher.</p>     <p>Um dado que, tanto como o das permanências,   abre uma importante pista de investigação é o das ausências. Com efeito, vários   dos atores do início dos anos&nbsp;90 faleceram, tendo um dos óbitos ocorrido   já depois de iniciada a revisitação. Porque morreram indivíduos que estariam   agora na casa dos 50 anos, um ou outro já na dos 60? Importa saber como foi a   trajetória destes utilizadores de drogas e como se relaciona com estas mortes   prematuras; importa saber o que revelam, para além do plano individual, do   contexto ecossocial em que decorreram as suas vidas. Lançam assim, com o seu   desaparecimento precoce, uma nova pista de investigação: a desigualdade em   relação ao centro reflete-se também na saúde? O periférico é uma condição   limitadora do acesso aos recursos, desde logo aos da saúde? Como opera no   concreto das vidas dos indivíduos periferizados esta limitação em tal acesso?   Lembram-nos estas questões o “suffering   body of the city”, expressão com a qual Le Marcis (2004) propõe a cidade como   corpo enquanto metáfora espacial dos próprios corpos dos indivíduos, também eles distribuídos segundo uma relação desigual centro-periferia.</p>     <p>A investigação atualmente em curso seguirá   assim os núcleos temáticos sugeridos pela leitura do diário do investigador   inicial, mas abre também novas direções, como as que fomos exemplificando ao   longo desta secção. Porque, no trabalho de campo etnográfico, o terreno é   generativo e a investigação deve ter a capacidade de se renovar por dentro – mesmo quando aparentemente “só” foi revisitar.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> </font><font size="3" face="Verdana"><b>BIBLIOGRAFIA</b></font><font face="Verdana" size="2">     <!-- ref --><p>ADLER, Patricia, 1990, “Ethnographic   research on hidden populations: penetrating the drug world”, em Elizabeth   Y.&nbsp;Lambert (org.), <i>The Collection     and Interpretation of Data from Hidden Populations</i>. Rockville, MD, National Institute on Drug Abuse, 96-112.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208112&pid=S0873-6561201800020000500001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>BASHKOW, Ira, 2011, “Old light on a new controversy: Alex Rentoul’s account of the Trobriand women’s <i>sagali</i>”, <i>History of Anthropology Newsletter</i>, 38&nbsp;(2): 9-18.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208114&pid=S0873-6561201800020000500002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>BONI, Paulo, e Bruna MORESCHI, 2007, “Fotoetnografia: a importância da fotografia para o resgate etnográfico”, <i>Doc On-line</i>, 3: 137-157.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208116&pid=S0873-6561201800020000500003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>BURAWOY, Michael, 1979, <i>Manufacturing Consent</i>. Chicago, The University of Chicago Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208118&pid=S0873-6561201800020000500004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>BURAWOY, Michael, 2003, “Revisits: and outline of a theory of reflexive ethnography”, <i>American Sociological Review</i>, 68&nbsp;(5): 645-679.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208120&pid=S0873-6561201800020000500005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>CARIA, Telmo, 2002, “A construção   etnográfica do conhecimento em ciências sociais: reflexividade e fronteiras”,   em T.&nbsp;Caria (org.), <i>Experiência Etnográfica em Ciências Sociais</i>. Porto, Afrontamento, 9-20.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208122&pid=S0873-6561201800020000500006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>COLSON, Elisabeth, 1960, <i>Social Organization of the Gwembe Tonga</i>. Manchester, Manchester University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208124&pid=S0873-6561201800020000500007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>COLSON, Elisabeth, 1989, “Overview”, <i>Annual Review of Anthropology</i>, 18: 1-16.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208126&pid=S0873-6561201800020000500008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>COSTA, António Firmino da, 1986, “A   pesquisa de terreno em sociologia”, em A. S. Silva e J. M. Pinto   (orgs.), <i>Metodologia das Ciências Sociais</i>. Porto, Afrontamento.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208128&pid=S0873-6561201800020000500009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>CUNHA, Manuela Ivone, 2002, <i>Entre o Bairro e a Prisão: Tráfico e Trajectos</i>. Lisboa, Fim de Século.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208130&pid=S0873-6561201800020000500010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>CUNHA, Manuela Ivone, 2014, “Linhas de   redefinição de um objeto: entre transformações no terreno e transformações na   antropologia”, <i>Etnográfica</i>, 18&nbsp;(2): 403-413.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208132&pid=S0873-6561201800020000500011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>FERNANDES, Luís, 1995, “O sítio das drogas: etnografia urbana dos territórios psicotrópicos”, <i>Toxicodependências</i>, 2: 22-32.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208134&pid=S0873-6561201800020000500012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>FERNANDES, Luís, 1997, <i>Actores e Territórios Psicotrópicos:   Etnografia das Drogas Numa Periferia Urbana.</i> Porto, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, tese de doutoramento.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208136&pid=S0873-6561201800020000500013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>FERNANDES, Luís, 1998, <i>O Sítio das Drogas</i>. Lisboa, Editorial Notícias.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208138&pid=S0873-6561201800020000500014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>FERNANDES, Luís, 2002a, “Acteurs et   territoires ‘psichotropiques’: ethnographie des drogues dans une périphérie   urbaine”, <i>Déviance et Societé</i>, 26&nbsp;(4): 427-441.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208140&pid=S0873-6561201800020000500015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>FERNANDES, Luís, 2002b, “Um diário de   campo nos territórios psicotrópicos”, em T.&nbsp;Caria (org.), <i>Experiência Etnográfica em Ciências Sociais</i>. Porto, Afrontamento, 23-40.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208142&pid=S0873-6561201800020000500016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>FERNANDES, Luís, Tiago NEVES, e Miguel   CHAVES, 2001, “Investigação etnográfica em territórios psicotrópicos: notas de   terreno e comentário”, <i>Educação, Sociedade e Culturas</i>, 16: 171-201.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208144&pid=S0873-6561201800020000500017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>FERNANDES, Luís, e Alexandra RAMOS, 2010,   “Exclusão social e violências quotidianas em ‘bairros degradados’: etnografia   das drogas numa periferia urbana”, <i>Toxicodependências</i>, 16&nbsp;(2): 15-29.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208146&pid=S0873-6561201800020000500018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>FERNÁNDEZ GONZÁLEZ, Miquel, 2014, <i>Matar al “Chino”: Entre la Revolución Urbanística   y el Asedio Urbano en el Barrio del Raval de Barcelona</i>. Barcelona, Universitat de Barcelona, tese de doutoramento.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208148&pid=S0873-6561201800020000500019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>FIRTH, Raymond, 1936, <i>We, the Tikopia</i>. Londres, George Allen and Unwin.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208150&pid=S0873-6561201800020000500020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>FIRTH, Raymond, 1959, <i>Social Change in Tikopia</i>. Londres, George Allen and Unwin.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208152&pid=S0873-6561201800020000500021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>FREEMAN, Derek, 1983, <i>Margaret Mead and Samoa: The Making and the Unmaking of an Anthropological Myth</i>. Cambridge, MA, Harvard University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208154&pid=S0873-6561201800020000500022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>HERNÁNDEZ, Alicia, 2010, <i>Oscar Lewis, Una Historia Cultural: Análisis   Historiográfico de Los Hijos de Sánchez. </i>México, DF, Universidad Autónoma Metropolitana, dissertação de doutoramento.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208156&pid=S0873-6561201800020000500023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>HUTCHINSON, Sharon, 1996, <i>Nuer Dillemas: Coping with Money, War, and the State</i>. Berkeley, University of California Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208158&pid=S0873-6561201800020000500024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>KUSENBACH, Margarethe, 2003, “Street phenomenology: the go-along as ethnographic research tool”, <i>Ethnography</i>, 4&nbsp;(3): 455-485.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208160&pid=S0873-6561201800020000500025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>LE MARCIS, Frédéric, 2004, “The suffering   body of the city”, <i>Public Culture</i>, 16&nbsp;(3): 453-477.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208162&pid=S0873-6561201800020000500026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>LEWIS, Oscar, 1963 [1951], <i>Life in a Mexican Village: Tepotzlán Restudied</i>. Urbana, University of Illinois Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208164&pid=S0873-6561201800020000500027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>LYOTARD, Jean-François, 1979, <i>La condition post-moderne</i>. Paris, Les Editions de Minuit.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208166&pid=S0873-6561201800020000500028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>MALINOWSKI, Bronislaw, 1961 [1922], <i>Argonauts of the Western Pacific</i>. Nova Iorque, E. P. Dutton.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208168&pid=S0873-6561201800020000500029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>MATA, Simão, e Luís FERNANDES, 2016, “A   construção duma política pública no campo das drogas: normalização sanitária, pacificação territorial e psicologia de baixo limiar”, <i>Global Journal of Community Psychology Practice</i>, 7&nbsp;(1S): 1-25.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208170&pid=S0873-6561201800020000500030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>PAGÁN, Ginés, 1980, “La fábula de Alcalá y   la realidad histórica en Grazalema: replanteamiento del primer estudio de   antropología social en España”, <i>Revista Española de Investigaciones Sociológicas</i>, 9: 81-115.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208172&pid=S0873-6561201800020000500031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>PINA-CABRAL, João de, 2000, “The   ethnographic present revisited”, <i>Social Anthropology</i>, 8&nbsp;(3): 341-348.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208174&pid=S0873-6561201800020000500032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>PINTO, José Madureira, 2008, “Ir e voltar   a Fonte Arcada: considerações sobre a prática da razão sociológica”, em José   Madureira Pinto (org.), <i>Ir e Voltar:     Sociologia de Uma Colectividade Local do Noroeste Português (1977-2007)</i>,   Porto, Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto,   relatório final de projeto, 8-17, disponível em <a href="https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/9192/2/irevoltarrelatriofinal000064517.pdf" target="_blank">https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/9192/2/irevoltarrelatriofinal000064517.pdf</a> (última consulta em junho de 2018).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208176&pid=S0873-6561201800020000500033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>PITT-RIVERS, Julian 1971 [1954], <i>The People of the Sierra</i>. Chicago, The University of Chicago Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208178&pid=S0873-6561201800020000500034&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>POWELL, H. A., 1960, “Competitive   leadership in Trobriand political organization”, <i>The</i> <i>Journal of the Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland</i>, 90: 118-145.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208180&pid=S0873-6561201800020000500035&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>SPRADLEY, James, 1979, <i>The Etnographic Interview</i>. Belmont, Wadsworh Group.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208182&pid=S0873-6561201800020000500036&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>SZTUTMAN, Renato, 1998, “Nós, os tikopias:   um estudo sociológico do parentesco na Polinésia primitiva”, <i>Revista de Antropologia</i>, 41&nbsp;(2): 245-252.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208184&pid=S0873-6561201800020000500037&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>TOBÓN, Marco, 2015, “Los sueños como   instrumentos etnográficos”, <i>Revista de Antropología Iberoamericana</i>, 10&nbsp;(3): 331-353.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208186&pid=S0873-6561201800020000500038&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>WEINER, Annette, 1976, <i>Women of Value, Men of Renown: New Perspectives in Trobriand Exchange</i>. Austin, The University of Texas Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208188&pid=S0873-6561201800020000500039&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>WHITE, William, 1993 [1943], <i>Street Corner Society: The Social Structure of an Italian Slum</i>. Chicago, The University of Chicago Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208190&pid=S0873-6561201800020000500040&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>YARLYKAPOV, Akhmet, 2007, “Dreams of an ethnographer (an attempt at autoethnographic analysis)”, <i>Anthropology &amp; Archeology of Eurasia</i>, 46&nbsp;(2): 34-41.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208192&pid=S0873-6561201800020000500041&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>ZALUAR, Alba, 1985, <i>A Máquina e </i>a <i>Revolta: As   Organizações Populares e o Significado da Pobreza</i>. São Paulo, Editora Brasiliense.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208194&pid=S0873-6561201800020000500042&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>ZIVKOVIC, Marko, 2006, “Sueños   dentro-fuera: algunos usos del sueño en la teoria social y la investigación   etnográfica”, <i>Revista de Antropologia Social</i>, 15: 139-171.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=208196&pid=S0873-6561201800020000500043&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Receção da versão original | Original   version 2016/12/11    <br>   Receção da versão revista | Revised version 2017/07/04    <br>   Aceitação | Accepted 2018/05/15</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> </font><font size="3" face="Verdana"><b>NOTAS</b></font><font face="Verdana" size="2">     <p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1" title="">[1]</a>             Inspiramo-nos em   Lyotard quando, apoiando-se no conceito de jogo de linguagem de ­Wittgenstein,   refere a ciência como uma das grandes narrativas da modernidade, constituída a partir dum jogo de linguagem específico (Lyotard 1979).</p>     <p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2" title="">[2]</a>             Esta ligação é desde   logo institucional: decorre do facto de ser o primeiro o orientador do segundo   na realização do seu doutoramento, cujo objeto é precisamente a revisitação a territórios psicotrópicos da zona ocidental do Porto.</p>     <p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3" title="">[3]</a>             Contudo, o autor não   deixa de destacar o impacto que o seu livro <i>Street     Corner Society</i> teve ao nível das estratégias interventivas locais,   nomeadamente no plano da mobilização das populações caracterizadas e por a obra   ter dado uma certa legitimidade académica a uma tendência não paternalista da intervenção (White 1993 [1943]).</p>     <p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4" title="">[4]</a>             De referir, contudo,   que após a sua investigação inicial nos anos&nbsp;40 do século&nbsp;XX, a   autora revisitou várias vezes esta comunidade, sendo realizada a primeira revisitação em 1956 (Colson 1960).</p>     <p><a href="#_ftnref5" name="_ftn5" title="">[5]</a>             Esta barragem foi   construída entre 1955 e 1959.</p>     <p><a href="#_ftnref6" name="_ftn6" title="">[6]</a>             A revisitação de J.   Madureira Pinto (2008) a Fonte Arcada, a que fizemos atrás alusão, salienta   também uma considerável mutação, não só no contexto estudado na primeira   investigação, como também nas transformações sociológicas e científicas   ocorridas no período que separa as duas pesquisas e que mudam “substancialmente   o horizonte dos problemas a estudar e o conjunto de conceitos disponíveis para   os enfrentar”. Daí que, para o autor, “ficar agarrado exclusivamente a   problemáticas que a anterior pesquisa suscitara constituiria uma inaceitável fuga à realidade” (Pinto 2008:&nbsp;10).</p>     <p><a href="#_ftnref7" name="_ftn7" title="">[7]</a>             A esta tripla   historicidade das revisitações etnográficas referida por Cunha (2014), Burawoy   (2003) acrescenta uma outra dimensão: “pressão externa que é exercida sobre o terreno de pesquisa” (Burawoy 2003:&nbsp;645).</p>     <p><a href="#_ftnref8" name="_ftn8" title="">[8]</a>             A sua participação   dá-se, não no papel de etnógrafo, mas no de orientador dos trabalhos de doutoramento nos quais a presente investigação se inscreve.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#_ftnref9" name="_ftn9" title="">[9]</a>             Esta “mudança” na   composição interna dos nuer no Sudão do Sul, constatada por Hutchinson e que   difere na “unicidade” e “singularidade” verificada cerca de 60 anos antes por Evans-Pritchard,   relaciona-se com uma das dimensões da historicidade das revisitações   etnográficas que já mencionámos na secção anterior: as características e dinâmicas do próprio terreno etnografado (ver Cunha 2014).</p>     <p><a href="#_ftnref10" name="_ftn10" title="">[10]</a>           Este trabalho levou a   que o autor obtivesse o seu doutoramento em Antropologia Sociocultural na Universidade de Chicago, publicando em 1930 a respetiva obra.</p>     <p><a href="#_ftnref11" name="_ftn11" title="">[11]</a>           Trata-se de uma   comunidade com cerca de dois mil habitantes. </p>     <p><a href="#_ftnref12" name="_ftn12" title="">[12]</a>           Mantemos o nome   fictício com que o ator surge na investigação inicial. Como referido, o nosso   primeiro contacto com ele foi realizado em dezembro de 2014, através do   investigador que o conhecera anteriormente e que procedeu assim à “passagem de   testemunho” – ou, mais literalmente, à passagem do informante privilegiado, que aceitou de imediato reassumir o papel na investigação presente.</p>     <p><a href="#_ftnref13" name="_ftn13" title="">[13]</a>           Trata-se da equipa de   rua Rotas com Vida, da associação Norte Vida – Associação para a Promoção da Saúde.</p>     <p><a href="#_ftnref14" name="_ftn14" title="">[14]</a>           Para a organização do   diário do investigador inicial, ver Fernandes (2002b). O diário era então   dividido nas secções “observações”, “notas de terreno”, “notas metodológicas”, “fragmentos discursivos” e “fichas dos atores”.</p>     <p><a href="#_ftnref15" name="_ftn15" title="">[15]</a>           “Mister” foi o nome que   o investigador deu no seu diário de campo ao primeiro etnógrafo.</p>     <p><a href="#_ftnref16" name="_ftn16" title="">[16]</a>           A secção “atividade onírica”   tem sido particularmente importante na revelação de situações e dilemas que o   trabalho de campo tem trazido ao investigador, que, desde o seu início, aí tem   registado um conjunto de sonhos sobre os atores sociais, sobre os territórios   considerados e sobre o objeto de estudo. Encontra-se em alguns trabalhos esta   utilização dos sonhos como “ferramentas/instrumentos” de análise   etnográfica, sejam os do próprio investigador (Yarlykapov 2007) sejam os dos nativos de determinada realidade sociocultural (Tobón 2015; Zivkovic 2006).</p>     <p><a href="#_ftnref17" name="_ftn17" title="">[17]</a>           As leituras que temos   realizado sobre a utilização da imagem fotográfica na etnografia têm-nos   permitido constatar a complementaridade e o diálogo que a fotografia pode   estabelecer com outras técnicas de recolha de dados empíricos. Boni e Moreschi   (2007), a propósito da utilização da fotografia por parte de Bronislaw   Malinowski nos <i>Argonautas do Pacífico     Ocidental</i>, refere que “fica patente que, para Malinowski, o verbal e o   pictórico (desenhos, esquemas e fotografias) são cúmplices necessários para a   elaboração de uma antropologia descritiva aprofundada. […] O texto não basta   por si só. A fotografia, também não. Acoplados, inter-relacionados   constantemente, então sim, ambos proporcionarão o sentido e a significação” (Boni e Moreschi 2007:&nbsp;143).</p>     <p><a href="#_ftnref18" name="_ftn18" title="">[18]</a>           Ver, a este respeito,   “O antropólogo e os pobres: introdução metodológica e afetiva”, introdução à   obra <i>A Máquina e a Revolta</i>, em que   Alba Zaluar (1985) reflete sobre o modo como o olhar do antropólogo pode ser   afetado pelas imagens construídas mediaticamente sobre um conjunto urbano estigmatizado e habitado por “gente perigosa”.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#_ftnref19" name="_ftn19" title="">[19]</a>           “Interação presencial”   e “interação participativa” são os termos do próprio ator social referidos no nosso diário de campo em 12/03/2015.</p>     <p><a href="#_ftnref20" name="_ftn20" title="">[20]</a>           A “interação   presencial” de que demos conta não se afasta daquilo que temos lido nas   reflexões metodológicas de outras etnografias no que diz respeito à inserção   nos contextos de pesquisa. William White (1993 [1943]), por exemplo, destaca que,   na altura em que se inseria num ambiente de jogo no seu contexto de pesquisa,   foi levado inicialmente e apresentado pelo seu informante privilegiado, Doc,   como “my friend Billy”; diria White que nesta altura apenas escutava com   interesse as interações entre os jogadores e o seu informante privilegiado,   tinha uma atitude de escuta passiva ainda que tentasse agir também de forma amigável e com interesse.</p>     <p><a href="#_ftnref21" name="_ftn21" title="">[21]</a>           Os autores chamam a   atenção para o efeito indesejável dessa situação: “É importante, no entanto,   acrescentar que se o investigador não incorporar suficientemente algumas   ‘formas de apresentação’ e ‘estilos’ específicos da população estudada, fazendo   com que a ‘representação’ surja pouco credível e grotesca aos olhos desses   observados que o observam e que com ele interagem, mais valerá que não   desenvolva estes esforços miméticos, pois poderá, inversamente, colher efeitos contraproducentes” (Fernandes, Neves e Chaves 2001:&nbsp;191).</p>     <p><a href="#_ftnref22" name="_ftn22" title="">[22]</a>           Em <i>O Sítio das Drogas</i> (Fernandes 1998), o seu papel na primeira   etnografia encontra-se amplamente ilustrado.</p>     <p><a href="#_ftnref23" name="_ftn23" title="">[23]</a>           Remetemos para Mata e   Fernandes (2016), onde são já referidos alguns resultados da atual investigação.</p>     <p><a href="#_ftnref24" name="_ftn24" title="">[24]</a>           Este bairro recebeu uma   parte dos habitantes realojados devido à demolição dum outro conjunto de   habitação social, o São João de Deus, ocorrida entre 2002 e 2006 e para a qual   o argumento legitimador por parte do poder autárquico foi “o tráfico e intenso   consumo de droga”. Para a caracterização do impacto dessa operação urbana, ver Fernandes e Ramos (2010).</p>     <p><a href="#_ftnref25" name="_ftn25" title="">[25]</a>           Foi precisamente numa   destas equipas, tal como já referimos, que o atual investigador teve os   primeiros contactos com estes territórios, iniciando aí registos observacionais que deram corpo à fase exploratória da revisitação.</p> </font>      ]]></body><back>
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