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<journal-title><![CDATA[Revista de Enfermagem Referência]]></journal-title>
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<publisher-name><![CDATA[Escola Superior de Enfermagem de Coimbra - Unidade de Investigação em Ciências da Saúde - Enfermagem]]></publisher-name>
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<article-id pub-id-type="doi">10.12707/RIII1145</article-id>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Funções e condições de trabalho de um enfermeiro no Hospital de S. José (meados do século XIX)]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Functions and working conditions of a nurse at the Hospital de S. José (mid-19th century)]]></article-title>
<article-title xml:lang="es"><![CDATA[Funciones y condiciones de trabajo de un enfermero en el Hospital de S. José (a mediados del siglo XIX)]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Portuguese nurses currently have several tools and ressouces that regulate their professional practice. Nevertheless, the consolidation of the identity process requires efforts to clarify the practices and contexts of the profession in earlier historical periods, namely during the constitutional monarchy. We intend to contribute to clarifying the professional and social status of the nurse stated in the Regulation of Hospital de S. José, of 21st January 1851. We consulted and analysed the Regulation and Colection of State Budgets (1836-1862), using the historical analysis method. We present aspects of the physical and economic environment of the hospital, the position of the nursing staff compared with the other employees, the daily organization in wards and the role of each employee. They were two groups of employees: employees with major functions and employees with minor functions, which included nurses. The nurse - central figure in the management and routines of the ward- had supervisory responsibilities over nursing assistants and ”moços”. Patient care was perfomed by nursing assistants. It would be useful to conduct further research on subsequent periods or carry out a comparative study with either the Hospital Termal das Caldas or another hospital run by the Misericórdias.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="es"><p><![CDATA[Los enfermeros portugueses disfrutan hoy diversos instrumentos y medios que regulan el ejercicio profesional. Sin embargo, la consolidación del proceso identitario obliga que se realice un esfuerzo de aclaración de las prácticas y de los contextos de la profesión en periodos históricos anteriores, en especial durante el periodo de la monarquía constitucional. Se pretende contribuir a la elucidación del estatuto profesional y social del enfermero contenido en el Reglamento del Hospital de S. José, del 21 de enero de 1851. Se procedió a la consulta y análisis del Reglamento y de la Colección de Presupuestos del Estado (1836-1862), según la metodología de análisis histórica. Se presentan aspectos del ambiente físico y económico del hospital, la posición del grupo de enfermeros respecto a los demás trabajadores, la organización del día a día en las enfermerías y las funciones de los diversos empleados. Existian dos grupos de empleados: los mayores y los menores donde estaban incluidos los enfermeros. El enfermero - figura central en las rutinas y gestión de la enfermería - tenía funciones de supervisión de los auxiliares de enfermería y ”moços”. Los auxiliares eran quienes realizaban los cuidados a los enfermos. Sería útil proseguir este estudio en periodos subsecuentes o realizar un estudio comparativo con el Hospital Termal de Caldas o un hospital bajo la tutela de las Misericordias.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[  <b>Fun&ccedil;&otilde;es e condi&ccedil;&otilde;es de trabalho de um enfermeiro no Hospital de S. Jos&eacute; (meados do s&eacute;culo XIX)</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>Carlos Lousada Subtil*</b>; <b>Margarida Vieira**</b></p>     <p> * Mestre em Ci&ecirc;ncias da Educa&ccedil;&atilde;o. Doutorando em Enfermagem (Especialidade de Filosofia e Hist&oacute;ria da Enfermagem). Instituto de Ci&ecirc;ncias da Sa&uacute;de | Porto - Universidade Cat&oacute;lica. Professor Coordenador. Escola Superior de Sa&uacute;de | Instituto Polit&eacute;cnico de Viana do Castelo [<a href="mailto:carloslousadasubtil@gmail.com">carloslousadasubtil@gmail.com</a>].</p>     <p> ** Doutora em Filosofia. Professora Associada. Instituto de Ci&ecirc;ncias da Sa&uacute;de | Porto - Universidade Cat&oacute;lica</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>Resumo</b></p>     <p> Os enfermeiros portugueses possuem hoje diversos instrumentos e meios que regulam o exerc&iacute;cio profissional. Todavia, a consolida&ccedil;&atilde;o do processo identit&aacute;rio obriga a um esfor&ccedil;o de clarifica&ccedil;&atilde;o das pr&aacute;ticas e dos contextos da profiss&atilde;o em per&iacute;odos hist&oacute;ricos anteriores, nomeadamente no per&iacute;odo da monarquia constitucional.</p>     <p> Pretende-se contribuir para o esclarecimento do estatuto profissional e social do enfermeiro contido no Regulamento do Hospital de S. Jos&eacute;, de 21 de janeiro de 1851.</p>     <p> Procedeu-se &agrave; consulta e an&aacute;lise daquele regulamento e da Cole&ccedil;&atilde;o de Or&ccedil;amentos de Estado (1836-1862), segundo a metodologia da an&aacute;lise hist&oacute;rica.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Apresentam-se aspetos do ambiente f&iacute;sico e econ&oacute;mico do hospital, a posi&ccedil;&atilde;o do grupo dos enfermeiros em rela&ccedil;&atilde;o aos outros empregados, a organiza&ccedil;&atilde;o do dia-a-dia nas enfermarias e as fun&ccedil;&otilde;es dos diferentes empregados.</p>     <p> Os empregados formavam dois grupos: os empregados maiores e os empregados menores onde se inclu&iacute;am os enfermeiros.</p>     <p> O enfermeiro - figura central nas rotinas e gest&atilde;o da enfermaria, tinha fun&ccedil;&otilde;es de supervis&atilde;o dos ajudantes e mo&ccedil;os. Os ajudantes eram quem realizava os cuidados aos doentes.</p>     <p> Seria &uacute;til prosseguir este estudo em per&iacute;odos subsequentes ou fazer um estudo comparativo com o Hospital Termal das Caldas ou um hospital sob a tutela das Miseric&oacute;rdias.</p>     <p> <b>Palavras-chave:</b> hist&oacute;ria; s&eacute;culo XIX; hist&oacute;ria da enfermagem; pr&aacute;tica da enfermagem.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>Functions and working conditions of a nurse at the Hospital de S. Jos&eacute; (mid-19th century)</b></p>     <p> <b>Abstract</b></p>     <p> Portuguese nurses currently have several tools and ressouces that regulate their professional practice. Nevertheless, the consolidation of the identity process requires efforts to clarify the practices and contexts of the profession in earlier historical periods, namely during the constitutional monarchy.</p>     <p> We intend to contribute to clarifying the professional and social status of the nurse stated in the Regulation of Hospital de S. Jos&eacute;, of 21st January 1851.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> We consulted and analysed the Regulation and Colection of State Budgets (1836-1862), using the historical analysis method.</p>     <p> We present aspects of the physical and economic environment of the hospital, the position of the nursing staff compared with the other employees, the daily organization in wards and the role of each employee.</p>     <p> They were two groups of employees: employees with major functions and employees with minor functions, which included nurses.</p>     <p> The nurse – central figure in the management and routines of the ward– had supervisory responsibilities over nursing assistants and ”mo&ccedil;os”. Patient care was perfomed by nursing assistants.</p>     <p> It would be useful to conduct further research on subsequent periods or carry out a comparative study with either the Hospital Termal das Caldas or another hospital run by the Miseric&oacute;rdias.</p>     <p> <b>Keywords:</b> history; 19th Century; history of nursing; nursing practice.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>Funciones y condiciones de trabajo de un enfermero en el Hospital de S. Jos&eacute; (a mediados del siglo XIX)</b></p>     <p> <b>Resumen</b></p>     <p> Los enfermeros portugueses disfrutan hoy diversos instrumentos y medios que regulan el ejercicio profesional. Sin embargo, la consolidaci&oacute;n del proceso identitario obliga que se realice un esfuerzo de aclaraci&oacute;n de las pr&aacute;cticas y de los contextos de la profesi&oacute;n en periodos hist&oacute;ricos anteriores, en especial durante el periodo de la monarqu&iacute;a constitucional.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Se pretende contribuir a la elucidaci&oacute;n del estatuto profesional y social del enfermero contenido en el Reglamento del Hospital de S. Jos&eacute;, del 21 de enero de 1851.</p>     <p> Se procedi&oacute; a la consulta y an&aacute;lisis del Reglamento y de la Colecci&oacute;n de Presupuestos del Estado (1836-1862), seg&uacute;n la metodolog&iacute;a de an&aacute;lisis hist&oacute;rica.</p>     <p> Se presentan aspectos del ambiente f&iacute;sico y econ&oacute;mico del hospital, la posici&oacute;n del grupo de enfermeros respecto a los dem&aacute;s trabajadores, la organizaci&oacute;n del d&iacute;a a d&iacute;a en las enfermer&iacute;as y las funciones de los diversos empleados.</p>     <p> Existian dos grupos de empleados: los mayores y los menores donde estaban incluidos los enfermeros.</p>     <p> El enfermero - figura central en las rutinas y gesti&oacute;n de la enfermer&iacute;a - ten&iacute;a funciones de supervisi&oacute;n de los auxiliares de enfermer&iacute;a y ”mo&ccedil;os”. Los auxiliares eran quienes realizaban los cuidados a los enfermos.</p>     <p> Ser&iacute;a &uacute;til proseguir este estudio en periodos subsecuentes o realizar un estudio comparativo con el Hospital Termal de Caldas o un hospital bajo la tutela de las Misericordias.</p>     <p> <b>Palabras clave:</b> historia del siglo XIX; historia de la enfermer&iacute;a; enfermer&iacute;a en salud p&uacute;blica; inmunidad.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p> Sendo o Hospital de S. Jos&eacute; um hospital real, o mais importante do reino onde acorriam “enfermos de todos os pontos do Reino a procurarem alivio a seus males”, &eacute; nele que encontr&aacute;mos os primeiros modelos de regulamentos hospitalares do per&iacute;odo da monarquia constitucional, entre os quais o “Regulamento das Enfermarias do Hospital Nacional e Real de S. Jos&eacute; e seus anexos” a que se refere Salgueiro num artigo a prop&oacute;sito da hist&oacute;ria do vestu&aacute;rio do pessoal de Enfermagem (Salgueiro, 2000, pp. 79-87). &Eacute; este Regulamento que analisaremos em detalhe.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> &Agrave; sua publica&ccedil;&atilde;o, em 21 de janeiro de 1851, seguiram-se outros. No seu conjunto, estabeleciam as regras de governa&ccedil;&atilde;o do hospital relativamente a: fun&ccedil;&otilde;es dos v&aacute;rios empregados das enfermarias, admiss&atilde;o de doentes, regime de visitas, servi&ccedil;o e fiscaliza&ccedil;&atilde;o da dispensa e da cozinha, funcionamento e servi&ccedil;o da Botica e, finalmente, funcionamento do Hospital de Alienados de Rilhafoles, que se tinha constitu&iacute;do em 1842 como uma unidade espec&iacute;fica para o tratamento dos alienados que, at&eacute; ent&atilde;o, eram admitidos no Hospital de S. Jos&eacute;, em “casas” que, devido &agrave; sua estreiteza e insalubridade, as tornavam “absolutamente impr&oacute;prias para o curativo da aliena&ccedil;&atilde;o mental, servindo antes de tormento, que de al&iacute;vio &agrave;s infelizes vitimas daquela terr&iacute;vel enfermidade” (Silva,1842).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>Metodologia</b></p>     <p> A primeira metade do s&eacute;culo XIX &eacute; um per&iacute;odo da maior import&acirc;ncia para compreender o processo de desenvolvimento dos servi&ccedil;os de sa&uacute;de p&uacute;blica e hospitalares em Portugal.</p>     <p> Com o presente trabalho, pretende-se contribuir para o esclarecimento do estatuto profissional e social do enfermeiro e da sua posi&ccedil;&atilde;o relativamente a outros grupos de empregados que lhes eram hierarquicamente superiores e inferiores.</p>     <p> Para tanto, consult&aacute;mos o “Regulamento das Enfermarias do Hospital Nacional e Real de S. Jos&eacute;, e annexos”, de 21 de janeiro de 1851, e os or&ccedil;amentos de Estado apresentados &agrave;s Cortes no per&iacute;odo entre 1838 e 1851, dispon&iacute;veis na Biblioteca Digital do Minist&eacute;rio das Finan&ccedil;as e Administra&ccedil;&atilde;o P&uacute;blica, e submet&ecirc;mo-los a um processo de an&aacute;lise hist&oacute;rica inspirada na arqueologia e genealogia de M. Foucault.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>Resultados</b></p>     <p> Antes de apresentar as atividades dos enfermeiros e enfermeiras definidas no Regulamento, faremos a descri&ccedil;&atilde;o de alguns aspetos que ajudam a compreender o ambiente f&iacute;sico e econ&oacute;mico do hospital e a posi&ccedil;&atilde;o do grupo dos enfermeiros em rela&ccedil;&atilde;o aos outros empregados.</p> </p> <b>A estrutura f&iacute;sica</b></p>     <p> Compilando a informa&ccedil;&atilde;o dispon&iacute;vel neste Regulamento e no Or&ccedil;amento atribu&iacute;do ao hospital no ano de 1851, &eacute; poss&iacute;vel fazer uma aproxima&ccedil;&atilde;o &agrave; estrutura f&iacute;sica do hospital (figura 1). As enfermarias eram em n&uacute;mero de dezoito e designadas com nomes de santos, a avaliar pela descri&ccedil;&atilde;o que consta dum modelo de impresso para registo das sanguessugas distribu&iacute;das pelas v&aacute;rias enfermarias. Na 1&ordf;. Sec&ccedil;&atilde;o, as enfermarias de S. Jos&eacute;, S. Sebasti&atilde;o, S. Roque, S. Miguel, S. Catarina, Nossa Senhora do Carmo e Santa Ana, para al&eacute;m de quartos particulares para homens e mulheres; na 2&ordf;. Sec&ccedil;&atilde;o, as enfermarias de S. Ant&oacute;nio, S. Pedro, S. Onofre, S. Amaro, S. Francisco, S. Carlos, S. Jo&atilde;o Batista, S. Quit&eacute;ria, S. Margarida, S. B&aacute;rbara, S. Maria Madalena, para al&eacute;m do Banco.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p> <img src="/img/revistas/ref/vserIIIn5/IIIn5a19f1.jpg">     
<p>FIGURA 1 – Hospital Real de S. Jos&eacute;, em Lisboa. Gravura de C. Legrand, 1840.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> Havia ainda uma botica, a cozinha, despensa, dep&oacute;sito de roupas e utens&iacute;lios, arrecada&ccedil;&otilde;es, uma abegoaria e um terreno cont&iacute;guo ao hospital.</p>     <p> Os servi&ccedil;os administrativos eram compostos por uma tesouraria, uma casa dos assentos dos enfermos, uma contadoria, um cart&oacute;rio e um foro com um s&iacute;ndico e um solicitador.</p>     <p> A igreja tinha um cura, um tesoureiro e 6 capel&atilde;es, para al&eacute;m de 4 mo&ccedil;os da capela e um porteiro.</p>     <p> <b>O or&ccedil;amento do hospital e o vencimento dos seus empregados.</b></p>     <p>  No per&iacute;odo 1838-1851, a tend&ecirc;ncia geral das contas foi para o equil&iacute;brio entre as receitas e despesas, registando-se um d&eacute;fice nos anos 46-47 e um valor m&aacute;ximo de despesa em 1848, mais 57% da que tinha sido feita em 1837. Todavia, a partir desse ano, a despesa come&ccedil;ou a diminuir atingindo em 1851 um valor praticamente igual &agrave; de seis anos atr&aacute;s (Gr&aacute;fico 1).</p>     <p>&nbsp;</p> <img src="/img/revistas/ref/vserIIIn5/IIIn5a19g1.jpg">     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>GR&Aacute;FICO 1 - Evolu&ccedil;&atilde;o das receitas e despesas do H. S. Jos&eacute; (1838-1851)</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> As tr&ecirc;s principais estrat&eacute;gias de conten&ccedil;&atilde;o de despesas consistiram na elabora&ccedil;&atilde;o e cumprimento rigoroso dos or&ccedil;amentos (os or&ccedil;amentos eram bastante descriminados e inclu&iacute;am mapas comparativos com a s&eacute;rie dos cinco anos antecedentes), numa pol&iacute;tica de aquisi&ccedil;&atilde;o de bens por arremata&ccedil;&atilde;o em pra&ccedil;a e numa forte fiscaliza&ccedil;&atilde;o sobre a botica e todas as outras reparti&ccedil;&otilde;es.</p>     <p> Em 1841-1842, o n&uacute;mero de doentes tinha sido de 1.343 e, para esse ano, tinham-se previsto 1400 admiss&otilde;es. Na apresenta&ccedil;&atilde;o do Or&ccedil;amento para 46- 47, a dire&ccedil;&atilde;o do Hospital receava que faltassem os meios necess&aacute;rios para custear as despesas com o tratamento dos doentes se a sua aflu&ecirc;ncia continuasse na progress&atilde;o que se tinha observado naqueles &uacute;ltimos tempos.</p>     <p> Nos or&ccedil;amentos da despesa prevista para este per&iacute;odo, verifica-se uma certa estabilidade e manuten&ccedil;&atilde;o no quadro do pessoal e nos vencimentos anuais, apenas com pequenos ajustes.</p>     <p>  Os vencimentos, &agrave; exce&ccedil;&atilde;o dos m&eacute;dicos, eram compostos pelo ordenado, comedorias, gratifica&ccedil;&otilde;es e propinas. Por exemplo, no ano 1844-45, o valor do vencimento anual dum enfermeiro (101$980), compunha-se do ordenado propriamente dito (57$600), de comedorias (43$800) e propinas ($580), correspondendo, respetivamente, a 56,5%, 43% e 0,5% daquele vencimento anual.</p>     <p> Os vencimentos mais elevados eram os dos empregados dos servi&ccedil;os administrativos do hospital. O contador tinha um ordenado de 1.000$000 e o chefe de reparti&ccedil;&atilde;o 500$000 bem como o tesoureiro; o s&iacute;ndico (bacharel em Direito) vencia 400$000.</p>     <p> Sem preju&iacute;zo duma an&aacute;lise mais detalhada, o vencimento dos empregados das enfermarias (Quadro 1) sugere a seguinte hierarquia em termos de estatuto socioprofissional: m&eacute;dicos, cirurgi&otilde;es, mestres de sangria, irm&atilde;o maior, enfermeiros(as) e parteiras, ajudantes, porteiros, mo&ccedil;os de enfermaria, cristaleiros, barbeiros e costureiras. O m&eacute;dico ocupava o topo da pir&acirc;mide com um ordenado de 320$000. Seguiam-se os irm&atilde;os maiores que n&atilde;o constitu&iacute;am propriamente um grupo “t&eacute;cnico”. Eram extens&otilde;es de controlo da dire&ccedil;&atilde;o nas enfermarias e outros servi&ccedil;os, como, por exemplo, na cozinha. O seu ordenado era inferior ao dos cirurgi&otilde;es mas como tinham suplementos constitu&iacute;dos por comedorias, gratifica&ccedil;&otilde;es e propinas, acabavam por ter um vencimento que lhes permitia ocupar o segundo lugar na hierarquia de vencimentos, a seguir aos m&eacute;dicos. O vencimento do cirurgi&atilde;o era pouco mais de 60% do m&eacute;dico.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> QUADRO 1 – Vencimento anual dos empregados das enfermarias nos anos 1844-45 e 1951-52</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <img src="/img/revistas/ref/vserIIIn5/IIIn5a19q1.jpg">     
<p>&nbsp;</p>      <p> Os enfermeiros, juntamente com os porteiros das enfermarias, eram os grupos imediatamente abaixo nesta escala. Em 1851, os enfermeiros tinham um ordenado que correspondia a cerca de 1/3 do ordenado do m&eacute;dico e o ordenado das enfermeiras era inferior em 10% ao dos enfermeiros.</p>     <p> O grupo dos porteiros foi sofrendo uma estratifica&ccedil;&atilde;o salarial acabando com tr&ecirc;s n&iacute;veis remunerat&oacute;rios embora a designa&ccedil;&atilde;o fosse sempre a mesma. No grupo dos ajudantes, a diferencia&ccedil;&atilde;o nos vencimentos refletia-se ou refletia a evolu&ccedil;&atilde;o para uma diferencia&ccedil;&atilde;o categorial: os de 1&ordf;, 2&ordf;, e 3&ordf; classe. Considerando o conjunto das tr&ecirc;s classes, em m&eacute;dia, o seu sal&aacute;rio era 60% do enfermeiro.</p>     <p> O(a) cristaleiro(a) e o barbeiro auferiam o mesmo sal&aacute;rio que o ajudante de 1&ordf; classe.</p>     <p> Em 1851-52, as parteiras tinham o mesmo sal&aacute;rio dos enfermeiros.</p>     <p> As lavadeiras e costureiras estavam ao n&iacute;vel do sal&aacute;rio dos porteiros, barbeiros, cristaleiros e ajudantes de 1&ordf; classe.</p>     <p> O sal&aacute;rio do mestre de sangria (79$800) estava ao n&iacute;vel do ajudante de 3&ordf; classe e dos porteiros de enfermaria.</p>     <p> O grupo dos mo&ccedil;os sempre existiu ao longo deste per&iacute;odo e, na escala de vencimentos, estavam acima dos ajudantes embora desempenhassem trabalhos menores.</p>     <p>  Em termos salariais, desenha-se assim uma rela&ccedil;&atilde;o de depend&ecirc;ncia hier&aacute;rquica dos ajudantes e mo&ccedil;os face aos enfermeiros e, destes aos cirurgi&otilde;es e m&eacute;dicos, como iremos constatar pelas fun&ccedil;&otilde;es de cada um.</p>  <b>A organiza&ccedil;&atilde;o do dia-a-dia e rotinas nas enfermarias</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> O dia decorria segundo a rotina descrita no Mapa 1, mediante um hor&aacute;rio que mudava com as esta&ccedil;&otilde;es do ano: o hor&aacute;rio de ver&atilde;o come&ccedil;ava em 1 de abril e o de inverno a 1 de outubro. Tomando por refer&ecirc;ncia o hor&aacute;rio de ver&atilde;o, a az&aacute;fama come&ccedil;ava &agrave;s 4 horas, com a presen&ccedil;a dos mo&ccedil;os nas enfermarias, a fazer a limpeza de boi&otilde;es. Os enfermeiros e ajudantes entravam &agrave;s 6 horas. Havia 3 momentos de distribui&ccedil;&atilde;o/administra&ccedil;&atilde;o de rem&eacute;dios e, em igual n&uacute;mero eram as refei&ccedil;&otilde;es: o almo&ccedil;o &agrave;s 7.30 horas, o jantar ao meio-dia e a ceia &agrave;s 19 horas.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> MAPA 1 – Rotina di&aacute;ria nas enfermarias do Hospital de S. Jos&eacute; segundo o Regulamento das Enfermarias de 1851</p>     <p> <img src="/img/revistas/ref/vserIIIn5/IIIn5a19m1.jpg">     
<p>&nbsp;</p> <b>As fun&ccedil;&otilde;es dos empregados das enfermarias</b></p>     <p> O hospital era gerido por uma comiss&atilde;o administrativa e tinha um quadro de pessoal administrativo e de outros servi&ccedil;os de apoio a que j&aacute; fizemos refer&ecirc;ncia. O Regulamento estabelecia o servi&ccedil;o dos v&aacute;rios grupos de empregados cuja composi&ccedil;&atilde;o num&eacute;rica e percentual est&aacute; representada no Quadro 2, elaborado a partir do or&ccedil;amento do hospital para o ano de 1851- 52. O grupo mais extenso &eacute; o dos ajudantes (47,6%), depois o dos mo&ccedil;os (25,4%) e o dos enfermeiros (11,1%).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> QUADRO 2 – Quadro do pessoal das enfermarias do Hospital de S. Jos&eacute; (1851)</p>     <p> <img src="/img/revistas/ref/vserIIIn5/IIIn5a19q2.jpg">     
<p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Os <i>facultativos e cirurgi&otilde;es</i>. Os facultativos eram respons&aacute;veis pela dire&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica e higi&eacute;nica das enfermarias e pela inspe&ccedil;&atilde;o e fiscaliza&ccedil;&atilde;o do servi&ccedil;o dos enfermeiros, ajudantes e mo&ccedil;os. Para al&eacute;m destas fun&ccedil;&otilde;es, deviam fazer a visita di&aacute;ria aos doentes, supervisar o cumprimento da prescri&ccedil;&atilde;o de dietas e medicamentos, requisitar o material necess&aacute;rio aos curativos e demais material necess&aacute;rio ao bom funcionamento do hospital, exercer a&ccedil;&atilde;o disciplinar sobre os demais empregados das enfermarias, distribuir, transferir, dar alta aos doentes e ordenar a remo&ccedil;&atilde;o de cad&aacute;veres, permitir visitas, inspecionar v&iacute;veres e g&eacute;neros, propor os melhoramentos necess&aacute;rios ao servi&ccedil;o m&eacute;dico e participar em j&uacute;ris de concursos para os lugares de cirurgi&otilde;es, entre outras. Para al&eacute;m dos facultativos, havia os cirurgi&otilde;es. De entre os facultativos e cirurgi&otilde;es, constitu&iacute;a-se uma junta consultiva parit&aacute;ria com 4 membros. Esta reunia-se &agrave;s quintas e domingos para examinar os doentes, receitar e indicar os meios adequados ao seu curativo.</p>      <p> O <i>irm&atilde;o-maior</i>. Era um elemento chave na estrutura do hospital. Em cada semana havia um irm&atilde;o-maior de servi&ccedil;o que era obrigado a permanecer no hospital durante esse per&iacute;odo. Eram pessoas de reconhecida probidade e zelo pelo bom servi&ccedil;o, com conhecimentos especiais do hospital, devendo saber ler, escrever e contar corretamente. Em caso de igualdade de circunst&acirc;ncias, no provimento do lugar, preferia-se o que fosse casado ao solteiro.</p>     <p> Exerciam fun&ccedil;&otilde;es de superintend&ecirc;ncia sobre os v&aacute;rios aspetos de gest&atilde;o do hospital e dos seus empregados; tinham a prerrogativa de castigar os seus subordinados e tomar decis&otilde;es sobre assuntos inesperados e n&atilde;o previstos no regulamento. Como uma esp&eacute;cie de administradores ou governantes, serviam de inst&acirc;ncia mediadora entre a comiss&atilde;o administrativa, os facultativos e os outros empregados. Nas enfermarias de mulheres, as fun&ccedil;&otilde;es do irm&atilde;o-maior eram desempenhadas pela regente.</p>     <p> Os <i>enfermeiros</i>. Para enfermeiro, eram admitidos aqueles que demonstrassem ter pr&aacute;tica do servi&ccedil;o no hospital, soubessem ler, escrever e contar e dessem provas de probidade e bons costumes.</p>     <p>  As fun&ccedil;&otilde;es dos enfermeiros(as) distribu&iacute;am-se, fundamentalmente, em duas &aacute;reas:</p>     <p> <b>Coordena&ccedil;&atilde;o e gest&atilde;o da presta&ccedil;&atilde;o de cuidados e assist&ecirc;ncia religiosa:</b></p>     <p> Distribui&ccedil;&atilde;o dos rem&eacute;dios (a serem administrados pelos ajudantes) de forma a evitar equ&iacute;vocos, trocas e desperd&iacute;cios, assegurando-se que o doente tomava a quantidade certa do medicamento prescrito. Para tanto, nenhum outro servi&ccedil;o podia ser executado sem que este estivesse conclu&iacute;do. O enfermeiro n&atilde;o podia retirar-se da enfermaria sem se certificar que todos os rem&eacute;dios tivessem sido administrados; supervis&atilde;o do servi&ccedil;o de camas feito pelos ajudantes; supervis&atilde;o dos cuidados de higiene (prestados pelos ajudantes) aos doentes que “pelos seus padecimentos graves, se tornarem immundes, ser&atilde;o lavados com agua morna, como for mais conveniente, ficando enxutos e bem accommodados, isto com o esmero que cumpre haver com elles, tanto por obriga&ccedil;&atilde;o, como pelo desempenho dos deveres de caridade christ&atilde;”, e aos admitidos a quem se dava banho total ou parcial e corte de cabelo e barba, sendo necess&aacute;rio; supervis&atilde;o da execu&ccedil;&atilde;o dos curativos pelos ajudantes; distribui&ccedil;&atilde;o do p&atilde;o aos doentes antes da chegada do tabuleiro &agrave; enfermaria, prova dos alimentos (temperatura e qualidade), e supervis&atilde;o da distribui&ccedil;&atilde;o das refei&ccedil;&otilde;es (pelos ajudantes) para que a comida n&atilde;o arrefecesse e o doente tomasse a dieta prescrita (tipo e quantidade); acompanhamento da visita do facultativo com todos os seus ajudantes para que estes prestassem os servi&ccedil;os que fossem necess&aacute;rios aos doentes; anota&ccedil;&atilde;o na sua pauta das prescri&ccedil;&otilde;es de rem&eacute;dios e dietas de forma clara para evitar equ&iacute;vocos e preju&iacute;zos ao doente; elabora&ccedil;&atilde;o do mapa di&aacute;rio com a rela&ccedil;&atilde;o dos medicamentos a administrar (tipo e hora) para entregar ao ajudante de piquete que faria o servi&ccedil;o sob a sua supervis&atilde;o (pontualidade e acerto); na aus&ecirc;ncia do facultativo, e em caso de reconhecida urg&ecirc;ncia e necessidade ou a pedido do doente, providenciar a administra&ccedil;&atilde;o dos sacramentos; segundo uma escala, acompanhar o Sagrado Vi&aacute;tico e, n&atilde;o podendo por imperativo do servi&ccedil;o, far-se-ia substituir pelo ajudante mais velho.</p>     <p> <b>Envolvimento na gest&atilde;o e administra&ccedil;&atilde;o das enfermarias e do hospital:</b></p>     <p> Mandar fazer a desinfe&ccedil;&atilde;o do dia e as demais que fossem precisas; depositar na arrecada&ccedil;&atilde;o da enfermaria a roupa dos doentes admitidos e, havendo haveres de valor, fazer a sua entrega na Tesouraria; mandar os mo&ccedil;os recolher a roupa e enxerg&otilde;es sujos, varrer e lavar as partes sujas da enfermaria e limpar escarradeiras e urin&oacute;is; comunicar verbalmente ao facultativo ou ao irm&atilde;o-maior qualquer defeito que encontrasse e, havendo reincid&ecirc;ncias, fazer a participa&ccedil;&atilde;o por escrito para seguir para a comiss&atilde;o administrativa; elaborar a rela&ccedil;&atilde;o de doentes transferidos; enviar as papeletas dos doentes com alta e falecidos para a Casa dos Assentos; fiscalizar o ajudante mais velho na limpeza e prontid&atilde;o no envio dos utens&iacute;lios de transporte de medicamentos para a botica; depois da ceia, deixar ficar ao ajudante de servi&ccedil;o a roupa para duas camas sobresselentes e o que demais fosse preciso para situa&ccedil;&otilde;es inesperadas (receitu&aacute;rio, sangrias, ventosas, etc.); assegurar-se que os doentes n&atilde;o se deitassem cal&ccedil;ados, n&atilde;o enxovalhassem as camas, n&atilde;o se deslocassem a outras enfermarias nem que na sua enfermaria houvesse doentes das outras; assegurar o sil&ecirc;ncio, a moralidade e boa ordem; supervisar a visita de meia hora aos doentes, autorizada pela Comiss&atilde;o ou facultativo; elaborar as escalas de piquete dos ajudantes e mo&ccedil;os de forma equitativa; responsabilizar-se pela arrecada&ccedil;&atilde;o da sua enfermaria, sendo punido em caso de faltas graves; responsabilizar-se por todos os objetos de invent&aacute;rio; requisitar o material necess&aacute;rio para o bom funcionamento do servi&ccedil;o; elaborar semestralmente um relat&oacute;rio para o irm&atilde;o-maior sobre o servi&ccedil;o prestado pelos ajudantes e mo&ccedil;os da sua enfermaria; ao enfermeiro de ronda competia fazer a vigil&acirc;ncia para que os ajudantes e mo&ccedil;os que estivessem de piquete permanecessem acordados, resolver ocorr&ecirc;ncias, providenciar sil&ecirc;ncio e n&atilde;o consentir que a limpeza da madrugada fosse feita por baldea&ccedil;&atilde;o.</p>     <p> Para ajudante - o grupo mais representativo - eram admitidos indiv&iacute;duos com idade entre 17 e 30 anos que soubessem ler, escrever e contar e que tivessem abona&ccedil;&atilde;o de bons costumes e vida regular.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Os ajudantes trabalhavam em dois piquetes: o primeiro, das 6 &frac12; - 20 horas e o segundo, das 20 &agrave;s 6 &frac12; horas. O Facultativo podia conceder trocas de piquete mas n&atilde;o era permitido fazerem dois piquetes seguidos.</p>     <p> Os ajudantes tinham como fun&ccedil;&otilde;es: administrar os rem&eacute;dios; perguntar aos doentes quais os que queriam receber o Sant&iacute;ssimo Sacramento; fazer as camas; lavar os doentes acamados; distribuir o almo&ccedil;o, jantar e ceia; assistir &agrave; visita do facultativo para prestar o servi&ccedil;o que fosse necess&aacute;rio aos doentes; fazer os curativos com a maior caridade e esmero poss&iacute;vel, tendo muito cuidado com o bem-estar dos doentes e a economia de panos e fios; ir com o mo&ccedil;o buscar o p&atilde;o &agrave; despensa e a comida &agrave; cozinha assegurando que se cumprissem as quantidades prescritas; acompanhar os mo&ccedil;os que levavam e traziam as vasilhas dos rem&eacute;dios &agrave; botica.</p>     <p> N&atilde;o se podiam ausentar da enfermaria sem serem substitu&iacute;dos por outro, deviam manter a enfermaria em sossego e, &agrave;s Ave-Marias, mandar deitar os doentes que andassem em p&eacute;. Nas enfermarias de mulheres tamb&eacute;m havia ajudantes, do sexo feminino.</p>     <p> Quando qualquer enfermeiro ou ajudante se julgasse lesado pelo servi&ccedil;o ou qualquer outra raz&atilde;o podiam queixar-se diretamente &agrave; Administra&ccedil;&atilde;o, com o devido respeito e “n&atilde;o tumultuariamente”, caso contr&aacute;rio seriam despedidos.</p>     <p> Para mo&ccedil;o, eram admitidos indiv&iacute;duos com reconhecida robustez, atestado de boa vida e costumes e “recomendados” por dois abonadores estabelecidos em Lisboa que respondessem por qualquer desvio que o afian&ccedil;ado fizesse da fazenda do Hospital.</p>     <p>  Os mo&ccedil;os deviam permanecer nas enfermarias e: limpar os boi&otilde;es; transportar enxergas, roupas e &aacute;guas, resultante do asseio das camas e higiene dos doentes; varrer as enfermarias e lav&aacute;-las; amortalhar os cad&aacute;veres com dec&ecirc;ncia e conduzi-los &agrave; Casa dos Mortos; trazer a &aacute;gua necess&aacute;ria para as enfermarias; transportar os tabuleiros da comida; lavar, limpar, levar e trazer a lou&ccedil;a da cozinha, e o mesmo com as vasilhas da botica; dar de beber aos doentes a n&atilde;o ser que houvesse contraindica&ccedil;&atilde;o do facultativo; fazer a limpeza geral (trimestral) e especial (semanal) dos utens&iacute;lios de estanho das enfermarias, e a limpeza geral das enfermarias.</p>     <p> Era-lhes proibido trazer comida ou bebidas de fora do hospital, sendo o suficiente para serem despedidos. Os mo&ccedil;os das enfermarias das mulheres, designavam-se criadas. Todo o mo&ccedil;o podia queixar-se diretamente &agrave; Administra&ccedil;&atilde;o desde que o fizesse com o devido respeito; caso contr&aacute;rio, seria imediatamente despedido.</p>     <p> As parteiras tinham por fun&ccedil;&atilde;o prestar &agrave;s parturientes os servi&ccedil;os e socorros da sua arte, levar os rec&eacute;m-nascidos &agrave; pia batismal e levar &agrave; Santa Casa da Miseric&oacute;rdia os rec&eacute;m-nascidos “que n&atilde;o poderem alcan&ccedil;ar melhor destino”. O primeiro servi&ccedil;o alternava com os dois &uacute;ltimos e eram desempenhados pelas duas parteiras, semanalmente. A que assistia aos partos permanecia dia e noite no hospital.</p>     <p> As parteiras deviam ter habilita&ccedil;&atilde;o legal e serem abonadas de vida e costumes regulares.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b>Discuss&atilde;o</b></p>     <p> Apesar das dificuldades que assolavam o reino, o Hospital de S. Jos&eacute; tinha uma estrutura bem diferenciada (espa&ccedil;os, servi&ccedil;os e recursos humanos) e um or&ccedil;amento consolidado para satisfazer as exig&ecirc;ncias e necessidade de tratamento dos doentes, segundo os c&acirc;nones e o conhecimento dispon&iacute;vel na altura.</p>     <p> Para al&eacute;m das enfermarias e do banco, havia um setor administrativo que assegurava a gest&atilde;o do hospital e os servi&ccedil;os de apoio indispens&aacute;veis &agrave; atividade nas enfermarias: botica, cozinha, igreja, despensa e abegoaria. Contudo, seriam condi&ccedil;&otilde;es que estavam aqu&eacute;m das preconizadas por Costa Sim&otilde;es em 1866 para os hospitais da Universidade de Coimbra e que s&atilde;o referidas no ap&ecirc;ndice aos Relat&oacute;rios das visitas que efetuou em v&aacute;rios hospitais e universidades da Europa (Sim&otilde;es, 1866).</p>     <p> Em termos or&ccedil;amentais, constata-se um esfor&ccedil;o de conten&ccedil;&atilde;o que, &agrave; exce&ccedil;&atilde;o dum curto per&iacute;odo de tempo em que o or&ccedil;amento foi deficit&aacute;rio devido &agrave;s convuls&otilde;es geradas pela Revolta da Maria da Fonte e a Guerra da Patuleia (Bonif&aacute;cio, 2009), se gastou em fun&ccedil;&atilde;o dos recursos financeiros dispon&iacute;veis. Face ao teor dos relat&oacute;rios or&ccedil;amentais e ao estilo rigoroso em que &eacute; elaborado o pr&oacute;prio regulamento, &eacute; razo&aacute;vel supor que este resultado ter&aacute; sido conseguido mais &agrave; custa duma gest&atilde;o cuidadosa do que da degrada&ccedil;&atilde;o dos cuidados aos doentes.</p>     <p> O n&uacute;mero de empregados foi-se mantendo est&aacute;vel ao longo dos anos. O mesmo n&atilde;o se poder&aacute; dizer do n&uacute;mero de doentes que devia ter aumentado progressivamente, com reflexos na capacidade de resposta do hospital ou na carga de trabalho dos seus empregados. N&atilde;o possuindo dados acerca doutras vari&aacute;veis (v.g., o tempo m&eacute;dio de internamento), n&atilde;o podemos ir mais longe nesta an&aacute;lise.</p>     <p> A estrutura dos empregados &eacute; fortemente diferenciada e hierarquizada e isso est&aacute; expresso no Regulamento mas, sobretudo, nas propostas de or&ccedil;amento que refletem uma realidade a cumprir e uma diferencia&ccedil;&atilde;o com base no crit&eacute;rio objetivo do vencimento, para al&eacute;m de outros sinais de car&aacute;ter mais simb&oacute;lico como seriam as ins&iacute;gnias e as bra&ccedil;adeiras que viriam a ser usadas num per&iacute;odo posterior (Salgueiro, 2000, p. 85). Os atores s&atilde;o v&aacute;rios e os seus vencimentos mantiveram-se est&aacute;veis durante este per&iacute;odo em estudo.</p>     <p> O processo de laiciza&ccedil;&atilde;o do designado irm&atilde;o maior, dos enfermeiros e dos ajudantes est&aacute; patente em v&aacute;rias passagens do regulamento onde n&atilde;o s&atilde;o feitas refer&ecirc;ncias a religiosos cujas Ordens j&aacute; tinham sido extintas em maio de 1834, por Decreto do Ministro Joaquim Augusto de Aguiar (Salgueiro, 2000, p. 80).</p>     <p> Os enfermeiros - um por enfermaria - tinham, sobretudo, fun&ccedil;&otilde;es de supervis&atilde;o dos ajudantes e dos mo&ccedil;os, e eram uma figura central nas rotinas e na gest&atilde;o da enfermaria, sob a supervis&atilde;o do irm&atilde;o-maior, para al&eacute;m de desempenharem um papel pr&oacute;prio na assist&ecirc;ncia religiosa dos enfermos (administra&ccedil;&atilde;o dos sacramentos e prociss&atilde;o do Sagrado Vi&aacute;tico). Tinham fun&ccedil;&otilde;es importantes para a qualidade dos cuidados tais como a de verificar a qualidade das refei&ccedil;&otilde;es dos doentes.</p>     <p> Com os elementos dispon&iacute;veis, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel definir o regime e o hor&aacute;rio de trabalho dos enfermeiros e dos ajudantes nem t&atilde;o-pouco o seu n&uacute;mero ao longo do dia. Sabe-se apenas que o enfermeiro estava encarregue de elaborar as escalas de piquete dos ajudantes, que trabalhavam em dois turnos, o de dia com a dura&ccedil;&atilde;o de 13,5 horas e o da noite, com 10,5 horas. Havia a figura do enfermeiro de vela que s&oacute; viria a ser extinta nos anos oitenta do s&eacute;culo passado. Os ajudantes eram o grupo mais diferenciado, dividindo-se em tr&ecirc;s categorias com vencimentos diferentes, n&atilde;o porque tivessem fun&ccedil;&otilde;es diferentes mas, talvez, por antiguidade de servi&ccedil;o, crit&eacute;rio que ter&aacute; dado, mais tarde, origem ao regime de diuturnidades que subsistiu at&eacute; h&aacute; pouco tempo. Eram os ajudantes que, por excel&ecirc;ncia, realizavam os cuidados aos doentes: dar de comer, lavar, administrar os rem&eacute;dios e assistir na morte, para al&eacute;m doutros trabalhos menores relacionados com a higiene da enfermaria.</p>     <p>  Uma nota final acerca da forma como eram descritos, no Regulamento, alguns pormenores dos cuidados a prestar pelos ajudantes, que se foram mantendo at&eacute; aos nossos dias como aspetos essenciais da pr&aacute;tica de cuidados de enfermagem.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p> <b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p> N&atilde;o estando no &acirc;mbito deste trabalho fazer a an&aacute;lise da evolu&ccedil;&atilde;o da carreira de Enfermagem, n&atilde;o podemos deixar, contudo, de fazer algumas refer&ecirc;ncias para real&ccedil;ar os movimentos de diferencia&ccedil;&atilde;o/ indiferencia&ccedil;&atilde;o que se verificaram depois deste momento marcante e fundador na organiza&ccedil;&atilde;o dessa mesma carreira.</p>     <p> &Eacute; no grupo dos enfermeiros e dos ajudantes que se fundam os desenvolvimentos verificados j&aacute; no s&eacute;culo XX. Na d&eacute;cada de setenta, foi abolido o grupo dos auxiliares, os herdeiros dos ajudantes que aqui estud&aacute;mos. Criou-se um &uacute;nico grupo com uma crescente diferencia&ccedil;&atilde;o que atingiu o seu m&aacute;ximo na carreira institu&iacute;da em 1991, com quatro n&iacute;veis e seis categorias, as de enfermeiro e enfermeiro graduado, enfermeiro especialista e chefe, supervisor e assessor t&eacute;cnico regional e, no topo, assessor t&eacute;cnico de enfermagem (Decreto-Lei n&ordm;. 437, 1991). O movimento em sentido contr&aacute;rio est&aacute; atualmente presente num figurino em que se contempla apenas o enfermeiro e o enfermeiro principal com onze e cinco posi&ccedil;&otilde;es remunerat&oacute;rias, respetivamente, subsistindo, embora, as categorias de enfermeiro-chefe e enfermeiro supervisor que tinham sido estabelecidas pela carreira anterior (Decreto-Lei n&ordm;. 122, 2010).</p>     <p> Na sequ&ecirc;ncia deste trabalho, seria &uacute;til recorrer a outras fontes que permitissem reconstruir de forma mais detalhada as condi&ccedil;&otilde;es de trabalho dos enfermeiros neste per&iacute;odo, proceder-se a outros estudos para o per&iacute;odo subsequente e fazer um estudo comparativo com o Hospital Nacional da Vila das Caldas da Rainha, tamb&eacute;m r&eacute;gio, e com hospitais sob a tutela das Miseric&oacute;rdias.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas</b></p>     <p> BONIF&Aacute;CIO, M. F. (2009) - Uma hist&oacute;ria de viol&ecirc;ncia pol&iacute;tica. Portugal de 1834 a 1851. Lisboa: Tribuna da Hist&oacute;ria.</p>     <p> DECRETO-LEI n&ordm;. 122. D. R. I S&eacute;rie. 219 (10-11-11) 5099-5101.</p>     <p> DECRETO-LEI n&ordm;. 437. D. R. I S&eacute;rie-A. 257 (91-11-08) 5723-5741.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> PORTUGAL. Biblioteca Nacional (2009) - Hospital Real de S. Jos&eacute;, em Lisboa [Em linha]. Lisboa: Biblioteca Nacional de Portugal. [Consult. 22 Abr. 2011]. Dispon&iacute;vel em WWW: <a href="http://purl.pt/12542" target="_blank">http://purl.pt/12542</a>.</p>     <p> PORTUGAL. Minist&eacute;rio das Finan&ccedil;as (2011) - Or&ccedil;amento do Estado: or&ccedil;amento apresentado &agrave;s Cortes [Em linha]. Lisboa : Minist&eacute;rio das Finan&ccedil;as e da Administra&ccedil;&atilde;o P&uacute;blica. [Consult. 22 Abr. 2011]. Dispon&iacute;vel em WWW: <a href="http://213.58.155/bibliotecadigital/Orcamento1821_1863.htm" target="_blank">http://213.58.155/bibliotecadigital/Orcamento1821_1863.htm</a>.</p>     <p> SALGUEIRO, N. (2000) - O vestu&aacute;rio do pessoal de enfermagem (I): do negro ao branco imaculado. Refer&ecirc;ncia. S&eacute;rie I, N&ordm; 4, p. 79-87.</p>     <p> SILVA, Antonio Delgado (1842) - Collec&ccedil;&atilde;o Official de Legisla&ccedil;&atilde;o Portugueza. Lisboa : Imprensa Nacional.</p>     <p> SIM&Otilde;ES, A. A. (1866) – Relat&oacute;rio de uma viagem scientifica. Coimbra : Imprensa da Universidade.</p>     <p> VASCONCELOS, Jos&eacute; Maximino de Castro e Neto Leite (1852) - Collec&ccedil;&atilde;o Official da Legisla&ccedil;&atilde;o Portugueza. Lisboa : Imprensa Nacional.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> Recebido para publica&ccedil;&atilde;o em: 26.04.11</p>     <p> Aceite para publica&ccedil;&atilde;o em: 19.08.11</p>     <p>     ]]></body>
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<surname><![CDATA[BONIFÁCIO]]></surname>
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<source><![CDATA[Uma história de violência política: Portugal de 1834 a 1851]]></source>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[DECRETO-LEI nº. 122]]></article-title>
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