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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A liga republicana das mulheres portuguesas e a enfermagem no século xx: leituras na imprensa feminista]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[The “Liga Republicana das Mulheres Portuguesas” and nursing profession in the XXth century: readings in the feminist press]]></article-title>
<article-title xml:lang="es"><![CDATA[La “Liga Republicana das Mulheres Portuguesas” y la enfermería in el siglo XX: lecturas en los periódicos feministas]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Representations that society associates with nurses and nursing, some of them contradictory, persist in individual and collective imaginations. This is not consistent with the development of nursing in terms of professional practice, education and scholarship. Images we associate with nurses and nursing are engraved in the memory from the more or less remote past and may have historical, social and cultural justifications. Revealing how social representations associated with nurses and nursing have been formed in the past can help us today to re-create the construction of our professional identity and elucidate how we as a social group produce, use, share and take on images that define our own identity. Our aim is to reveal how Portuguese feminist movements at the beginning of XXth century, namely the Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (LRMP), has created a positive image of nursing, revealing a praiseworthy discourse attracting the interest of women in a “dignified profession” that could allow them economic independence in cases of abandonment or widowhood. We will use a set of newspaper articles published by the official press of LRMP - “A Mulher e a Criança”, and “A Madrugada” - since the printing press was an important way to reveal and spread feminist ideals.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="es"><p><![CDATA[Las representaciones que la sociedad asocia con la profesión de enfermería y a la enfermera, a menudo contradictorias, persisten en el imaginario individual y colectivo y tienen poco que ver con la evolución en el campo profesional, la educación y la academia. Las imágenes asociadas con la enfermera y la enfermería están registradas en la memoria de un pasado más o menos lejano y pueden tener una justificación histórica, cultural y social. Descubrir cómo las representaciones asociadas con la enfermería y la enfermera se constituyeron nos permitirá recrear el curso de nuestra identidad profesional y entender cómo el grupo social, produce, consume, comparte y recoge imágenes que definen nuestra identidad. Proponemos en este artículo conocer cómo “A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas”, en el siglo XX, creó una imagen positiva de la enfermería desarrollando un discurso positivo de profesión captando el interés de las mujeres acerca de una “profesión digna” que les permitiría su independencia económica en caso de abandono o viudez. Vamos a utilizar un conjunto de artículos publicados en la prensa oficial de la Liga: “A Mulher e a Criança” y “A Madrugada” ya que la prensa fue una importante forma de difusión y adoctrinamiento de ideas feministas.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>A liga republicana das mulheres portuguesas e a enfermagem no s&eacute;culo xx - leituras na imprensa feminista</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Ana Maria Barros Pires</b>*</p>     <p>* Mestre em Ci&ecirc;ncias de Enfermagem. Doutorando em Enfermagem na Universidade Cat&oacute;lica Portuguesa na &aacute;rea de Hist&oacute;ria de Enfermagem. Professor-adjunto na Escola Superior de Sa&uacute;de do Instituto Polit&eacute;cnico de Beja [<a href="mailto:ana.pires@ipbeja.pt">ana.pires@ipbeja.pt</a>].</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Resumo</b></p>     <p>As representa&ccedil;&otilde;es que a sociedade associa &agrave; profiss&atilde;o de enfermagem e &agrave; enfermeira, muitas vezes contradit&oacute;rias, persistem no imagin&aacute;rio individual e coletivo e pouco t&ecirc;m a ver com a evolu&ccedil;&atilde;o verificada no &acirc;mbito do exerc&iacute;cio profissional, do ensino e da academia. As imagens associadas &agrave; enfermeira e &agrave; enfermagem inscrevem-se na mem&oacute;ria dum passado mais ou menos long&iacute;nquo e poder&atilde;o ter uma justifica&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica, social e cultural.</p>     <p>Desvendar do modo como as representa&ccedil;&otilde;es sociais associadas &agrave; enfermeira e &agrave; enfermagem se constitu&iacute;ram no passado poder&aacute; permitir-nos recriar, no presente, o percurso da nossa identidade profissional e compreender como, enquanto grupo social, produzimos, consumimos, divulgamos e assumimos imagens que definem essa pr&oacute;pria identidade.</p>     <p>Propomo-nos neste artigo dar a conhecer como a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (LRMP), no in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, criou uma imagem positiva da enfermagem, desenvolvendo um discurso elogioso da profiss&atilde;o captando o interesse das mulheres para uma “profiss&atilde;o digna” que lhes possibilitaria a independ&ecirc;ncia econ&oacute;mica em caso de abandono ou viuvez.</p>     <p>Utilizaremos um conjunto de artigos publicados na imprensa oficial da Liga: A Mulher e A Crian&ccedil;a e A Madrugada dado que a imprensa foi uma importante forma de divulga&ccedil;&atilde;o e doutrina&ccedil;&atilde;o das ideias feministas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Palavras-chave</b>: feminismo; hist&oacute;ria de enfermagem.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>The “Liga Republicana das Mulheres Portuguesas” and nursing profession in the XXth century – readings in the feminist press</b></p>     <p><b>Abstract</b></p>     <p>Representations that society associates with nurses and nursing, some of them contradictory, persist in individual and collective imaginations. This is not consistent with the development of nursing in terms of professional practice, education and scholarship. Images we associate with nurses and nursing are engraved in the memory from the more or less remote past and may have historical, social and cultural justifications.</p>     <p>Revealing how social representations associated with nurses and nursing have been formed in the past can help us today to re-create the construction of our professional identity and elucidate how we as a social group produce, use, share and take on images that define our own identity.</p>     <p>Our aim is to reveal how Portuguese feminist movements at the beginning of XXth century, namely the Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (LRMP), has created a positive image of nursing, revealing a praiseworthy discourse attracting the interest of women in a “dignified profession” that could allow them economic independence in cases of abandonment or widowhood. We will use a set of newspaper articles published by the official press of LRMP - “A Mulher e a Crian&ccedil;a”, and “A Madrugada” - since the printing press was an important way to reveal and spread feminist ideals.</p>     <p><b>Keywords</b>: feminism; history of nursing.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>La “Liga Republicana das Mulheres Portuguesas” y la enfermer&iacute;a in el siglo XX – lecturas en los peri&oacute;dicos feministas</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Resumen</b></p>     <p>Las representaciones que la sociedad asocia con la profesi&oacute;n de enfermer&iacute;a y a la enfermera, a menudo contradictorias, persisten en el imaginario individual y colectivo y tienen poco que ver con la evoluci&oacute;n en el campo profesional, la educaci&oacute;n y la academia. Las im&aacute;genes asociadas con la enfermera y la enfermer&iacute;a est&aacute;n registradas en la memoria de un pasado m&aacute;s o menos lejano y pueden tener una justificaci&oacute;n hist&oacute;rica, cultural y social.</p>     <p>Descubrir c&oacute;mo las representaciones asociadas con la enfermer&iacute;a y la enfermera se constituyeron nos permitir&aacute; recrear el curso de nuestra identidad profesional y entender c&oacute;mo el grupo social, produce, consume, comparte y recoge im&aacute;genes que definen nuestra identidad.</p>     <p>Proponemos en este art&iacute;culo conocer c&oacute;mo “A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas”, en el siglo XX, cre&oacute; una imagen positiva de la enfermer&iacute;a desarrollando un discurso positivo de profesi&oacute;n captando el inter&eacute;s de las mujeres acerca de una “profesi&oacute;n digna” que les permitir&iacute;a su independencia econ&oacute;mica en caso de abandono o viudez.</p>     <p>Vamos a utilizar un conjunto de art&iacute;culos publicados en la prensa oficial de la Liga: “A Mulher e a Crian&ccedil;a” y “A Madrugada” ya que la prensa fue una importante forma de difusi&oacute;n y adoctrinamiento de ideas feministas.</p>     <p><b>Palabras clave</b>: feminismo; historia de la enfermer&iacute;a.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p> <a>As representa&ccedil;&otilde;es que, ao longo do tempo, a sociedade tem associado &agrave; profiss&atilde;o de enfermagem e &agrave; enfermeira, muitas vezes contradit&oacute;rias, persistem no imagin&aacute;rio individual e coletivo e, atualmente, pouco t&ecirc;m a ver com evolu&ccedil;&atilde;o verificada tanto no &acirc;mbito do exerc&iacute;cio profissional (onde se assiste a uma crescente complexidade dos cuidados) como no &acirc;mbito do ensino e da academia (onde, progressivamente, se foram atribuindo os graus de licenciado, mestre e doutor). Da enfermagem tem-se a ideia duma profiss&atilde;o necess&aacute;ria, de ajuda aos que sofrem, mas tamb&eacute;m subserviente e com pouco reconhecimento social. Das enfermeiras se diz serem compassivas, dedicadas, mas tamb&eacute;m insens&iacute;veis. Estas imagens inscrevem-se na mem&oacute;ria dum passado mais ou menos long&iacute;nquo e poder&atilde;o ter uma justifica&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica, social e cultural. Passado menos long&iacute;nquo, se tomarmos como refer&ecirc;ncia o s&eacute;culo XIX, altura em que podemos come&ccedil;ar a falar em profiss&atilde;o de enfermagem de uma forma organizada; mais long&iacute;nquo se pensarmos que as atividades de presta&ccedil;&atilde;o de cuidados ao Outro s&atilde;o t&atilde;o antigas como o Homem. Imagens que, inscritas no passado, continuam a influenciar o presente.</p>     <p>Como se constituem essas representa&ccedil;&otilde;es sociais? Como chegam at&eacute; n&oacute;s na forma de um imagin&aacute;rio individual e coletivo que influencia e distorce a nossa rela&ccedil;&atilde;o com a realidade? O desvendar do modo como as representa&ccedil;&otilde;es sociais associadas &agrave; enfermeira e &agrave; enfermagem se constitu&iacute;ram no passado poder&aacute; permitir-nos recriar, no presente, o percurso da nossa identidade profissional e compreender como, enquanto grupo social, produzimos, consumimos, divulgamos e assumimos imagens que definem essa pr&oacute;pria identidade.</p>     <p>Propomo-nos, neste artigo, dar a conhecer como os movimentos feministas em Portugal criaram uma imagem positiva da enfermagem.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O estudo que realiz&aacute;mos, no &acirc;mbito da investiga&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica, teve por base um conjunto de artigos publicados na imprensa oficial da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas: “A Mulher e a Crian&ccedil;a”, revista mensal publicada entre 1909 e 1911, e “A Madrugada”, jornal publicado de 1911 a 1915.</p>     <p>A pesquisa foi realizada atrav&eacute;s da consulta dos microfilmes dos referidos peri&oacute;dicos existentes na Biblioteca Nacional. Fizemos a transcri&ccedil;&atilde;o dos excertos dos artigos usando a ortografia e sintaxe originais respeitando o sentido do discurso.</p>     <p>A imprensa foi uma importante forma de divulga&ccedil;&atilde;o e doutrina&ccedil;&atilde;o das ideias feministas. As v&aacute;rias associa&ccedil;&otilde;es existentes, al&eacute;m de terem os seus &oacute;rg&atilde;os oficiais, mantiveram uma presen&ccedil;a ass&iacute;dua na restante imprensa. Em muitos dos peri&oacute;dicos existentes publicaram-se as biografias de mulheres proeminentes na sociedade enaltecendo as suas qualidades e sublinhando que a sua posi&ccedil;&atilde;o social foi alcan&ccedil;ada pelo seu m&eacute;rito e trabalho. Na segunda metade do s&eacute;culo XIX a imprensa e a literatura surgem e s&atilde;o utilizadas como elementos organizadores da sociedade. A imprensa &eacute; uma refer&ecirc;ncia quotidiana, o espa&ccedil;o p&uacute;blico em que a sociedade e o Estado existem, onde as ideias circulam, os autores se manifestam, onde a opini&atilde;o p&uacute;blica se estabelece. A imprensa foi o instrumento do debate p&uacute;blico das ideias. Mesmo com uma elevada taxa de analfabetismo, os peri&oacute;dicos tinham uma grande circula&ccedil;&atilde;o no nosso pa&iacute;s,” sendo frequente a sua leitura em voz alta em pequenas vilas e aldeias perante assist&ecirc;ncias heterog&eacute;neas do povo analfabeto, que ouvia e comentava”. (Marques, 1991, p. 600).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Revis&atilde;o da literatura</b></p>     <p><b>A situa&ccedil;&atilde;o da mulher em Portugal na transi&ccedil;&atilde;o do s&eacute;culo XIX para o s&eacute;culo XX</b></p>     <p>Na viragem do s&eacute;culo a viv&ecirc;ncia feminina organiza-se em torno do modelo familiar. A fam&iacute;lia &eacute; o local de forma&ccedil;&atilde;o dos indiv&iacute;duos e, em especial, das raparigas. Estas aprendem os conhecimentos necess&aacute;rios &agrave; viv&ecirc;ncia adulta perpetuando, de gera&ccedil;&atilde;o em gera&ccedil;&atilde;o, o que deve ser a miss&atilde;o da mulher: a maternidade, a gest&atilde;o dom&eacute;stica e a fiel conjugalidade (Guinote, 1997). A fam&iacute;lia &eacute; conservadora, encabe&ccedil;ada por um chefe-de-fam&iacute;lia masculino, que deve ter a seu cargo o sustento econ&oacute;mico da fam&iacute;lia.</p>     <p>O universo feminino &eacute; analfabeto! O acesso ao ensino era limitado e, quando as raparigas frequentavam a escola, procurava-se sobretudo que a instru&ccedil;&atilde;o permitisse uma melhor prepara&ccedil;&atilde;o para o que a sociedade espera das mulheres: serem esposas e m&atilde;es. Mesmo quando alguns setores da sociedade portuguesa, nomeadamente os republicanos e feministas, reivindicam o acesso das mulheres &agrave; educa&ccedil;&atilde;o, essa reivindica&ccedil;&atilde;o sublinha o papel da mulher na forma&ccedil;&atilde;o dos futuros cidad&atilde;os base para a cria&ccedil;&atilde;o duma nova sociedade. O acesso ao ensino secund&aacute;rio e superior era escasso. Neste &uacute;ltimo caso, o total de raparigas nas institui&ccedil;&otilde;es de ensino superior de Lisboa, Porto e Coimbra, no princ&iacute;pio do s&eacute;culo, n&atilde;o excedia a dezena (Marques, 1991).</p>     <p>Apesar da vis&atilde;o tradicional do papel da mulher ser a da gest&atilde;o do espa&ccedil;o dom&eacute;stico, vis&atilde;o essa transversal a todas as classes sociais, as dificuldades econ&oacute;micas em que vivia a maior parte da popula&ccedil;&atilde;o portuguesa n&atilde;o permitiam dispensar nenhuma fonte de rendimento. &Eacute; assim que, &agrave; entrada do s&eacute;culo, as mulheres constituem j&aacute; uma parte importante da popula&ccedil;&atilde;o ativa: no mundo rural trabalhando lado a lado com os homens e nos centros urbanos como oper&aacute;ria ou integrando o conjunto de profiss&otilde;es que se tornaram um s&iacute;mbolo da mulher citadina de origem popular. De entre estas, as mais comuns eram: costureiras, modistas, empregadas de com&eacute;rcio, criadas de servir e amas (Guinote, 1997).</p>     <p>Mas a presen&ccedil;a da mulher no mercado de trabalho n&atilde;o se traduzia na sua autonomia ou emancipa&ccedil;&atilde;o na sociedade. Sem quaisquer direitos pol&iacute;ticos (n&atilde;o podiam votar nem ser eleitas) estavam sujeitas &agrave; tutela dos pais e dos maridos (n&atilde;o podiam dispor dos seus bens sem autoriza&ccedil;&atilde;o do marido) e eram remetidas para um plano de inferioridade perante a lei.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&Eacute; nesta conjuntura que, na transi&ccedil;&atilde;o do s&eacute;culo XIX para o XX, tomam forma os ideais feministas debatidos nos sal&otilde;es liter&aacute;rios onde uma elite intelectual, composta por escritoras, m&eacute;dicas e professoras se reunia procurando assumir um papel de interven&ccedil;&atilde;o na mudan&ccedil;a da sociedade (Esteves, 2001). Alice Pestana (sob o pseud&oacute;nimo de Caiel), Maria Am&aacute;lia Vaz de Carvalho, Carolina Micha&euml;lis de Vasconcelos, Anna de Castro Os&oacute;rio, Adelaide Cabete s&atilde;o algumas das vozes impulsionadoras e mais prestigiadas dum movimento que pretende chamar a aten&ccedil;&atilde;o para a situa&ccedil;&atilde;o de inferioridade das mulheres e para a necessidade de, atrav&eacute;s da educa&ccedil;&atilde;o e valoriza&ccedil;&atilde;o, a alterar definitivamente. &Agrave; medida que a propaganda republicana crescia j&aacute; nos primeiros anos do s&eacute;culo XX, crescia tamb&eacute;m a organiza&ccedil;&atilde;o de um movimento que congregava essas mulheres de prest&iacute;gio. A ades&atilde;o feminina aos ideais republicanos tornou vis&iacute;vel a luta pela altera&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es degradantes em que viviam as mulheres, que recusavam um papel meramente passivo numa sociedade que as menorizava. As mulheres invadiram o palco pol&iacute;tico, at&eacute; a&iacute; fechado para elas, conduzindo reuni&otilde;es, discursando em sess&otilde;es nos Centros Republicanos, secretariando com&iacute;cios (Esteves, 2001). Esta a&ccedil;&atilde;o foi particularmente vis&iacute;vel nas zonas urbanas onde crescia uma classe m&eacute;dia consciente do seu poder reivindicativo. A maioria das mulheres, analfabetas, trabalhando nos campos ou na ind&uacute;stria estava longe das aspira&ccedil;&otilde;es das feministas. Nesta luta foi particularmente ativa a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (Esteves, 2001).</p>     <p>Os movimentos feministas em Portugal seguiram um ide&aacute;rio que se desenvolveu ao longo do s&eacute;culo XIX, com grande vigor na Europa e nos Estados Unidos. Com um car&aacute;ter mais moderado, procuraram satisfazer as suas reivindica&ccedil;&otilde;es mais pelo uso da palavra do que pela for&ccedil;a das manifesta&ccedil;&otilde;es. &Eacute; neste per&iacute;odo que o feminismo nasceu, designando tanto mudan&ccedil;as estruturais, como por exemplo o trabalho assalariado e o direito &agrave; instru&ccedil;&atilde;o, como o aparecimento coletivo das mulheres na pol&iacute;tica (Fraisse e Perrot, 1991). A Europa e os Estados Unidos veem surgir uma realidade nova: as mulheres fundam associa&ccedil;&otilde;es, criam e dirigem jornais e revistas, debatem, reivindicam, realizam confer&ecirc;ncias onde exprimem as suas ideias. O esp&iacute;rito revolucion&aacute;rio e as novas ideias democr&aacute;ticas que atravessam todo o per&iacute;odo de transi&ccedil;&atilde;o do s&eacute;culo XIX para o s&eacute;culo XX favorecem a visibilidade das mulheres e a possibilidade de lutar por igualdade de direitos: na instru&ccedil;&atilde;o (como o acesso ao ensino superior); no trabalho (conquistando a independ&ecirc;ncia econ&oacute;mica) e no sufr&aacute;gio (sendo este ali&aacute;s um dos principais eixos da luta feminista). A troca de experi&ecirc;ncias conseguida atrav&eacute;s da imprensa, de visitas e da realiza&ccedil;&atilde;o de congressos internacionais far&aacute; com que, mesmo se em tempos diferentes, as ideias feministas se espalhem por todo o mundo ocidental (K&auml;ppeli, 1991).</p>     <p><b>A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas</b></p>     <p>A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (LRMP) foi fundada em 1908. O voto, o direito &agrave; instru&ccedil;&atilde;o, ao trabalho e &agrave; administra&ccedil;&atilde;o dos bens, o combate &agrave; prostitui&ccedil;&atilde;o e &agrave; mendicidade infantil constitu&iacute;ram-se como temas que nortearam a sua a&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Se a LRMP n&atilde;o foi o primeiro nem o &uacute;nico movimento que procurou divulgar os ideais feministas criando as bases para uma nova conce&ccedil;&atilde;o do papel da mulher na sociedade foi, no entanto, o que conseguiu as estruturas mais s&oacute;lidas que lhe permitiu ser um expressivo grupo de press&atilde;o junto do poder pol&iacute;tico, designadamente atrav&eacute;s: do n&uacute;mero de associadas que alcan&ccedil;ou; da quantidade de n&uacute;cleos locais que se constitu&iacute;ram; dos &oacute;rg&atilde;os de imprensa pr&oacute;pria que manteve; do acesso a outros peri&oacute;dicos onde publicavam artigos e noticias e da influ&ecirc;ncia junto dos &oacute;rg&atilde;os decisores republicanos (Esteves, 1991). O pr&oacute;prio Partido Republicano Portugu&ecirc;s apoiou a cria&ccedil;&atilde;o da Liga reconhecendo a import&acirc;ncia de congregar num &uacute;nico movimento todas as mulheres que, reconhecidas pelo seu prest&iacute;gio e valor intelectual, lutaram pelos ideais republicanos. Sofrendo a influ&ecirc;ncia das ideias iluministas e positivistas, o republicanismo apresenta-se como uma vis&atilde;o do mundo assente numa explica&ccedil;&atilde;o geral da natureza e da sociedade onde os interesses espec&iacute;ficos dos grupos sociais se dilu&iacute;am no interesse geral. A cren&ccedil;a na perfectibilidade do homem, conseguida atrav&eacute;s da educa&ccedil;&atilde;o e inocula&ccedil;&atilde;o dos princ&iacute;pios de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, justificaria a cren&ccedil;a ilimitada no progresso que conduziria a humanidade a uma forma de governo universal e &agrave; pac&iacute;fica conviv&ecirc;ncia entre os povos. O cidad&atilde;o republicano deveria ser um exemplo de patriotismo, no&ccedil;&atilde;o de dever, solidariedade e responsabilidade. Este aperfei&ccedil;oamento moral seria indissoci&aacute;vel do aperfei&ccedil;oamento do corpo. O homem republicano deveria conservar e melhorar a sua sa&uacute;de, sendo um cidad&atilde;o vigoroso e en&eacute;rgico, dedicado ao trabalho e ao estudo, com um forte sentimento patri&oacute;tico. Os ideais republicanos assentavam na cren&ccedil;a da perfectibilidade da ci&ecirc;ncia que tudo explica e que conduzir&aacute; o Homem no caminho da harmonia e do progresso.</p>     <p>As mulheres viram nos ideais republicanos a possibilidade de modificarem o seu papel na sociedade e, por sua vez, os republicanos evidenciaram a import&acirc;ncia das mulheres como educadoras dos futuros cidad&atilde;os, ao veicular nos seus filhos a nova ideologia da Rep&uacute;blica, como ali&aacute;s &eacute; expresso nos Estatutos da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, quando estabelecem a finalidade de “Orientar, educar e instruir, nos princ&iacute;pios democr&aacute;ticos a mulher portuguesa, como m&atilde;e de fam&iacute;lia, esposa, filha educadora, tornando-a um individuo aut&oacute;nomo e consciente pois que s&oacute; um novo reg&iacute;men libertado de preconceitos poder&aacute; trazer &aacute; sociedade portuguesa a consci&ecirc;ncia e responsabilidade do povo livre e altivo” (Estatutos da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, 1909, p. 11).</p>     <p>A LRMP utilizou a palavra escrita como o ve&iacute;culo privilegiado de propaganda do seu ide&aacute;rio, seguindo o fen&oacute;meno de expans&atilde;o da imprensa peri&oacute;dica, sobretudo desde os finais do s&eacute;culo XIX. Deste modo, as principais ativistas da Liga n&atilde;o s&oacute; escreviam em jornais generalistas, mas principalmente na sua pr&oacute;pria imprensa peri&oacute;dica oficial, de distribui&ccedil;&atilde;o nacional: “A Mulher e a Crian&ccedil;a”, revista mensal publicada entre 1909 e 1911, e “A Madrugada”, jornal publicado entre 1911 e 1918.</p>     <p>A cria&ccedil;&atilde;o de condi&ccedil;&otilde;es que permitissem a independ&ecirc;ncia econ&oacute;mica da mulher em rela&ccedil;&atilde;o ao marido ou &agrave; fam&iacute;lia foi um dos campos privilegiados de atua&ccedil;&atilde;o da Liga. E essa s&oacute; seria conseguida atrav&eacute;s do exerc&iacute;cio duma atividade profissional. A Liga ser&aacute; particularmente ativa em fomentar “a instru&ccedil;&atilde;o da mulher atrav&eacute;s do ensino de certas profiss&otilde;es e do est&iacute;mulo pela aprendizagem de tem&aacute;ticas verdadeiramente &uacute;teis, que n&atilde;o meros conhecimentos te&oacute;ricos veiculados nas escolas, ou em casa, e que para pouco serviam, sobretudo em momentos de maior afli&ccedil;&atilde;o” (Esteves, 1991, p. 83).</p>     <p>A educa&ccedil;&atilde;o e instru&ccedil;&atilde;o da mulher e a independ&ecirc;ncia econ&oacute;mica s&atilde;o assim dois dos campos de interven&ccedil;&atilde;o mais expressivos desta associa&ccedil;&atilde;o. S&oacute; com educa&ccedil;&atilde;o e instru&ccedil;&atilde;o adequadas as mulheres poderiam evitar a mis&eacute;ria econ&oacute;mica e moral: “…&eacute; por haver t&atilde;o grande descuido na educa&ccedil;&atilde;o da mulher que existem tantos males na sociedade. A maior parte daquelles que nos educam, n&atilde;o pensam que, da educa&ccedil;&atilde;o que nos d&atilde;o, depende quasi sempre o futuro do paiz” (d’ Azevedo, 1909, p. 6 -7). Anna de Castro Os&oacute;rio, uma das principais e prestigiadas dirigentes da Liga, afirmava: “uma das nossas maiores vergonhas nacionaes &eacute;, por certo, o analfabetismo, mas o que agrava essa vergonha &eacute; que, no continente, &eacute; a grande maioria das mulheres que eleva pavorosamente a cifra dos analfabetos” (1905, p. 21). Assim, nas escolas oficiais e nos centros republicanos, a instru&ccedil;&atilde;o foi um dos campos de a&ccedil;&atilde;o mais significativos da Liga, uma vez que, s&oacute; instru&iacute;da, a mulher se poderia tornar uma cidad&atilde; reconhecida, com um novo posicionamento na sociedade. A instru&ccedil;&atilde;o n&atilde;o teria apenas como objetivo tornar a mulher uma pessoa culta. Pretendia, tamb&eacute;m, dot&aacute;-la de conhecimentos que lhe possibilitassem o exerc&iacute;cio de diferentes profiss&otilde;es, criando-se assim as condi&ccedil;&otilde;es que lhe permitissem a independ&ecirc;ncia econ&oacute;mica perante o marido e a fam&iacute;lia: “Educar a mulher dando-lhe meios de poder auferir com o seu trabalho o suficiente para a sua sustenta&ccedil;&atilde;o – quando &eacute; s&oacute; - de auxiliar o homem, esgotado pelo trabalho de sobre-posse que lhe exige a concorr&ecirc;ncia e a carestia da vida moderna, - quando casada, - parece-nos a maneira mais pratica de a tornar um ser livre, apta a escolher por motu-proprio o caminho a seguir direitamente na vida.” (Os&oacute;rio, 1905, p. 46).</p>     <p>A quest&atilde;o do exerc&iacute;cio duma profiss&atilde;o era uma quest&atilde;o premente para as feministas uma vez que, por viuvez ou abandono, muitas mulheres se viam sem qualquer meio de subsist&ecirc;ncia, caindo na mis&eacute;ria ou na prostitui&ccedil;&atilde;o. A dignifica&ccedil;&atilde;o do trabalho feminino e, por consequ&ecirc;ncia, da mulher &eacute; uma constante em artigos da imprensa da Liga. Sublinhando o valor do trabalho, “o trabalho fortifica a vontade, salubrisa o espirito” (Zuzarte, 1913, p. 3) utilizam-se por vezes os exemplos internacionais (estat&iacute;sticas sobre o numero de mulheres em diferentes profiss&otilde;es nos Estados Unidos, por exemplo) para mostrar o avan&ccedil;o civilizacional que representa o trabalho da mulher: “Recebida a princ&iacute;pio com risos e tro&ccedil;as, a mulher que vive do seu trabalho &eacute; hoje absolutamente respeitada e querida nos povos que marcham na vanguarda da civiliza&ccedil;&atilde;o” (Zuzarte, 1913, p. 3). Contesta-se tamb&eacute;m o casamento como um meio para alcan&ccedil;ar a independ&ecirc;ncia: “o seu futuro, a sua independ&ecirc;ncia, se n&atilde;o &eacute; rica, &eacute; ter um modo de vida, uma profiss&atilde;o” (Pereira, 1914, p. 3). Mas na Liga estas posi&ccedil;&otilde;es coexistiam com outras que s&oacute; defendiam o trabalho feminino se este n&atilde;o colidisse com as obriga&ccedil;&otilde;es dom&eacute;sticas da mulher. Assim, a revista “A Mulher e a Crian&ccedil;a” dedica muitos n&uacute;meros ao ensino da sericultura que, sendo uma ind&uacute;stria caseira, poderia ser um complemento ao or&ccedil;amento familiar sem retirar muito tempo aos afazeres dom&eacute;sticos.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>A Enfermagem na imprensa da Liga</b></p>     <p>Em Portugal, na transi&ccedil;&atilde;o do s&eacute;culo XIX para o s&eacute;culo XX assiste-se a um debate aceso entre os defensores da enfermagem religiosa e os da enfermagem laica &agrave; semelhan&ccedil;a do que ocorria noutros pa&iacute;ses da Europa, como, por exemplo, em Fran&ccedil;a.</p>     <p>Embora as ordens religiosas tivessem sido extintas legalmente em 1834, o que conduziu a uma degrada&ccedil;&atilde;o da enfermagem em Portugal (Pedrosa, 2004), elas voltaram a instalar-se no pa&iacute;s a partir de 1901, depois duma lei que autorizava o seu regresso desde que dedicadas a atividades educacionais ou caritativas (Marques, 1991). Na altura da proclama&ccedil;&atilde;o da rep&uacute;blica existiam no pa&iacute;s 31 congrega&ccedil;&otilde;es ou associa&ccedil;&otilde;es religiosas que dirigiam centenas de hospitais, sanat&oacute;rios, asilos e escolas (Marques, 1991). Contudo, nos hospitais mais importantes do pa&iacute;s (Hospitais da Universidade de Coimbra, Hospital Real de S. Jos&eacute;, Hospital Geral de Santo Ant&oacute;nio da Santa Casa da Miseric&oacute;rdia do Porto), locais de aprendizagem m&eacute;dica, a enfermagem era laica, exercida por homens e mulheres, e foi neles que se criaram as primeiras escolas de enfermagem (Soares, 1997). A necessidade da forma&ccedil;&atilde;o de enfermeiros era de h&aacute; muito sentida pelos m&eacute;dicos, decorrente da crescente complexidade dos cuidados de sa&uacute;de, mas na transi&ccedil;&atilde;o do s&eacute;culo os enfermeiros que trabalhavam nos principais hospitais aprendiam as bases do seu trabalho na pr&aacute;tica, informalmente ensinados pelos m&eacute;dicos.</p>     <p>O final do s&eacute;culo XIX &eacute; um momento de grande desenvolvimento da ci&ecirc;ncia e de importantes descobertas que, no campo da medicina, introduzem novos processos diagn&oacute;sticos e terap&ecirc;uticos. Os trabalhos de Pasteur e a descoberta dos agentes bacterianos espec&iacute;ficos na etiologia das doen&ccedil;as infecciosas obrigam a rever as teorias at&eacute; a&iacute; existentes sobre o cont&aacute;gio e, em consequ&ecirc;ncia, conduzem a novas formas de organiza&ccedil;&atilde;o do trabalho nos hospitais.</p>     <p>&Eacute; neste contexto que decorre a discuss&atilde;o sobre a enfermagem laica versus enfermagem religiosa. Os que defendem a enfermagem laica, e sobretudo a necessidade de uma prepara&ccedil;&atilde;o mais cient&iacute;fica das enfermeiras, argumentam com o desinteresse das religiosas pelo trabalho t&eacute;cnico e pela desobedi&ecirc;ncia a regras e ordens necess&aacute;rias ao bom funcionamento das enfermarias.</p>     <p>Em 1900, respondendo aos defensores do trabalho das religiosas, Miguel Bombarda, m&eacute;dico psiquiatra e empenhado republicano (foi chefe civil do comit&eacute; revolucion&aacute;rio que implantou a Rep&uacute;blica em 5 de Outubro de 1910) resume em 15 os requisitos necess&aacute;rios para que “a assist&ecirc;ncia congreganista fosse acceitavel para um medico”(Bombarda,1910, p. 35) como, por exemplo: inscri&ccedil;&atilde;o em cursos de enfermagem, no&ccedil;&otilde;es de asseio, vestu&aacute;rio adequado ao trabalho com os doentes, completa subordina&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica aos m&eacute;dicos, obedi&ecirc;ncia &agrave;s prescri&ccedil;&otilde;es cl&iacute;nicas, obriga&ccedil;&atilde;o de imparcialidade no socorro aos doentes, subordina&ccedil;&atilde;o dos deveres religiosos ao servi&ccedil;o dos doentes. Reconhece o valor das enfermeiras laicas afirmando: “os hospitaes de Lisboa est&atilde;o servidos por larga popula&ccedil;&atilde;o de enfermeiras, &aacute;s quaes nada mais se p&oacute;de exigir al&eacute;m do que j&aacute; d&atilde;o em zelo, dedica&ccedil;&atilde;o e n&iacute;tida comprehens&atilde;o dos seus deveres” (Bombarda, 1910, p. 5). E acrescenta que a instru&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica que as enfermeiras t&ecirc;m s&oacute; poderia melhorar “se entre n&oacute;s se estabelecessem as escolas de enfermagem, como as que em Paris funcionam com grande proveito dos doentes e at&eacute; da fazenda hospitalar” (Bombarda, 1910, p. 6). Nos seus artigos, Miguel Bombarda utiliza sempre a palavra enfermeira, seguindo j&aacute; a tend&ecirc;ncia que se desenvolvia em pa&iacute;ses como a Fran&ccedil;a e a Gr&atilde;-Bretanha, onde se considerava a enfermagem como uma profiss&atilde;o &agrave; qual se adequavam as caracter&iacute;sticas femininas. E &eacute; particularmente elogioso referindo que “a dedica&ccedil;&atilde;o das enfermeiras dos nossos hospitaes tem chegado a traduzir-se por verdadeiros actos de hero&iacute;smo, que se arriscam em nome do dever e f&oacute;ra de preoccupa&ccedil;&otilde;es mysticas, que est&atilde;o longe de reflectir-se por modo innocente na pratica de enfermagem” (Bombarda, 1910, p. 6).</p>     <p>&Eacute; neste ambiente de argumenta&ccedil;&atilde;o que na imprensa da Liga surgem refer&ecirc;ncias &agrave; enfermagem. Primeiro referida como trabalho dom&eacute;stico, depois como profiss&atilde;o que a mulher portuguesa “h&aacute;-de em breve procurar” (Enfermagem, 1910, p. 6). A pluralidade de opini&otilde;es existente no seio da Liga permite compreender esta diferen&ccedil;a de opini&otilde;es. Logo no primeiro n&uacute;mero da revista A Mulher e a Crian&ccedil;a inicia-se uma sec&ccedil;&atilde;o intitulada Escola Dom&eacute;stica, onde se considera: “&Eacute; da maior conveni&ecirc;ncia para todas as m&atilde;es de familia saberem prestar os primeiros socorros a qualquer doente, num caso de desastre ou de doen&ccedil;a repentina, e por isso, abrindo a sec&ccedil;&atilde;o Escola domestica na nossa revista n&atilde;o poder&iacute;amos deixar no esquecimento o mister de enfermeira, em que a mulher sempre se tem distinguido pela per&iacute;cia, bondade e abnega&ccedil;&atilde;o com que acerca da cabeceira dos enfermos. E assim hoje come&ccedil;aremos por uma das coisas que mais necess&aacute;rias s&atilde;o a uma boa enfermeira, a de saber fazer ligaduras com solidez e perfei&ccedil;&atilde;o” (Escola dom&eacute;stica, 1909, p. 9). N&atilde;o s&oacute; a enfermagem &eacute; associada &agrave;s compet&ecirc;ncias de uma boa m&atilde;e de fam&iacute;lia, como &eacute; referida como mister ou seja um of&iacute;cio onde se evidenciam caracter&iacute;sticas pr&oacute;prias duma mulher: per&iacute;cia, bondade, abnega&ccedil;&atilde;o. A enfermagem &eacute; referida como mais uma das tarefas &aacute;rduas do complexo trabalho dom&eacute;stico que abrange tudo. Nesta sec&ccedil;&atilde;o ensina-se a fazer ligaduras, a tratar contus&otilde;es, como atuar perante fraturas e entorses.</p>     <p>Em dezembro de 1909, na revista “A Mulher e a Crian&ccedil;a” e em resposta &agrave;s perguntas colocadas pelas leitoras, surge pela primeira vez a refer&ecirc;ncia &agrave; enfermagem como profiss&atilde;o na publicita&ccedil;&atilde;o do curso oficial de enfermeiras ministrado no Hospital de S. Jos&eacute; (a escola Profissional de Enfermeiros do Hospital Real de S. Jos&eacute; iniciou o curso de enfermagem em 1901, aberto tamb&eacute;m a alunos exteriores ao hospital), “para o qual &eacute; bom que se dirija a aten&ccedil;&atilde;o das mulheres” (Curso de enfermeiras, 1909, p. 8). A&iacute; se refere que o curso &eacute; frequentado por 18 alunas, empregadas do hospital, o que “&Eacute; pouco, &eacute; muito pouco mesmo, mas o futuro nos trar&aacute; muitas, quando a mulher bem compreender o seu dever e deliberadamente caminhar para uma exist&ecirc;ncia mais enobrecida pelo trabalho que d&aacute; a independ&ecirc;ncia e a nobre altivez.” (Curso de enfermeiras, 1909, Bombarda, 1910, p. 8). O texto refere as condi&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias para admiss&atilde;o no curso: idade igual ou superior a 18 anos e inferior a 24, saber ler, escrever e contar, robustez f&iacute;sica (“necess&aacute;ria para os perigosos encargos do mister a que se prop&otilde;e e de ter sido vaccinado e de n&atilde;o sofrer de mol&eacute;stia contagiosa”), e ter bom comportamento, atestado pelo p&aacute;roco, pelo regedor e por registo criminal. O artigo termina com a refer&ecirc;ncia &agrave; necessidade de qualifica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o s&oacute; t&eacute;cnica como moral para o exerc&iacute;cio da enfermagem e a necessidade de qualificar a profiss&atilde;o eliminando o pessoal n&atilde;o qualificado para o seu exerc&iacute;cio: “&Eacute; urgente que se eleve o n&uacute;mero das enfermeiras diplomadas para termos autoridade de impedir que exer&ccedil;am o mister aquellas que de conhecimentos technicos, como de higiene material e moral tem a mais absurda e inferior das no&ccedil;&otilde;es.” (Curso de enfermeiras, 1909, p. 8). Nos n&uacute;meros seguintes, a sec&ccedil;&atilde;o “Escola Dom&eacute;stica” passa a ter como subt&iacute;tulo “Enfermagem” e a&iacute; continua o elogio da profiss&atilde;o considerando a grandeza da sua miss&atilde;o e um modo de vida que trar&aacute; respeitabilidade e independ&ecirc;ncia &agrave; mulher: “&eacute;, sem duvida, uma das profiss&otilde;es que a mulher portugu&ecirc;saha-de em breve procurar exercer conscientemente, n&atilde;o s&oacute; porque &eacute; um modo de vida que a torna &uacute;til, independente e respeitada por todos que saibam encarar a grandeza da sua miss&atilde;o, como tamb&eacute;m porque ela representa para a mulher na familia uma das suas mais necess&aacute;rias aptid&otilde;es” (Enfermagem, 1910, p. 6).</p>     <p>No n&uacute;mero de outubro de 1910, na sec&ccedil;&atilde;o “Expediente da Liga”, faz-se o relato duma assembleia-geral ocorrida no dia 19 desse m&ecirc;s onde Anna de Castro Os&oacute;rio, presidente da Liga, apresentou &agrave; assembleia v&aacute;rias propostas para discuss&atilde;o, entre as quais “A Liga deve interessar-se pela propaganda da escola de enfermeiras, levantando uma classe que t&atilde;o necess&aacute;ria se torna ao nosso pais e agora mais que nunca, visto a expuls&atilde;o das congreganistas que desempenhavam esses logares em quasi todos os hospitaes do pais” (Expediente da Liga, 1910, p. 11). Este apelo foi aprovado por unanimidade.</p>     <p>A revista “A Mulher e a Crian&ccedil;a” terminou em maio de 1911 por raz&otilde;es econ&oacute;micas e foi substitu&iacute;da por um jornal, tamb&eacute;m mensal, “A Madrugada”, que pretendia ser mais acess&iacute;vel. A sua publica&ccedil;&atilde;o inicia-se em agosto de 1911 e termina em 1915. Apesar de nos n&uacute;meros existentes em arquivo n&atilde;o haver mais refer&ecirc;ncias &agrave; enfermagem, julgamos poder inferir que o trabalho de propaganda da Liga continuou uma vez que, sempre que a Rep&uacute;blica precisou, conseguiu reunir um grupo de enfermeiras, como se refere no jornal de 31 de julho de 1912 (A derrota de Couceiro, 1912) quando se elogia a prontid&atilde;o com que se conseguiu reunir um grupo de enfermeiras dispostas a atuar na luta contra o general Paiva Couceiro.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>“Sa&uacute;de e Fraternidade” era uma das express&otilde;es de sauda&ccedil;&atilde;o entre os republicanos. Adotada por decreto (Di&aacute;rio do Governo n&ordm; 4 / 10) para aplica&ccedil;&atilde;o na correspond&ecirc;ncia oficial passou tamb&eacute;m a ser usada como uma forma de sauda&ccedil;&atilde;o popular. Ela exprime uma das principais ideias do republicanismo, que considerava que a democracia s&oacute; se alcan&ccedil;aria com cidad&atilde;os saud&aacute;veis, instru&iacute;dos e educados. </p>     <p>Se estes ideais, no campo pol&iacute;tico, se traduziram no combate a um regime considerado decadente, no campo da sa&uacute;de traduziram-se por uma luta contra as condi&ccedil;&otilde;es degradantes existentes nos hospitais do pa&iacute;s. Alguns dos mais conhecidos m&eacute;dicos como Miguel Bombarda ou Curry Cabral, com prest&iacute;gio internacional, bateram-se pela cria&ccedil;&atilde;o dum corpo de enfermeiras cientificamente preparado, que pudesse trabalhar ao lado do m&eacute;dico, com compet&ecirc;ncia. Esta ideia da enfermeira laica, cientificamente preparada e competente sobrepunha-se &agrave; da enfermeira religiosa sem conhecimentos cient&iacute;ficos e apenas cumpridora dos seus deveres religiosos, tal como no ide&aacute;rio republicano a ci&ecirc;ncia se opunha &agrave; religi&atilde;o, considerada uma o caminho do progresso da humanidade e a outra o caminho do obscurantismo. Deste modo, podemos compreender que as feministas da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, ao aderirem ao ide&aacute;rio republicano e ao defenderem o trabalho como uma forma de alcan&ccedil;ar a autonomia feminina e a independ&ecirc;ncia econ&oacute;mica em caso de abandono ou viuvez, inclu&iacute;ssem a enfermagem na lista das suas reivindica&ccedil;&otilde;es transmitindo uma imagem de profiss&atilde;o digna e honrosa, necess&aacute;ria no aux&iacute;lio aos que sofrem. Sendo uma profiss&atilde;o desde sempre associada a caracter&iacute;sticas femininas, no nosso pa&iacute;s a sua dignifica&ccedil;&atilde;o surge, nomeadamente atrav&eacute;s da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, n&atilde;o s&oacute; com o sublinhar dessas mesmas caracter&iacute;sticas, como a abnega&ccedil;&atilde;o, a dedica&ccedil;&atilde;o, a no&ccedil;&atilde;o do dever e da responsabilidade, caracter&iacute;sticas estas n&atilde;o reconhecidas nas religiosas, mas tamb&eacute;m com a &ecirc;nfase na prepara&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, agora imprescind&iacute;vel para o seu exerc&iacute;cio, tornando as enfermeiras competentes para trabalhar &agrave; luz dos novos conhecimentos cient&iacute;ficos na &aacute;rea da medicina. E surge ligada &agrave; divulga&ccedil;&atilde;o e consolida&ccedil;&atilde;o dos ideais republicanos no nosso pa&iacute;s.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias Bibliogr&aacute;ficas</b></p>     <p>A DERROTA DE COUCEIRO (1912) - A Madrugada (31 Jul.).</p>     <p>BOMBARDA, Miguel (1910) - A enfermagem religiosa. Lisboa : Junta Liberal</p>     <p>CURSO DE ENFERMEIRAS (1909) - A Mulher e a Crian&ccedil;a. N&ordm; 9, p. 8. </p>     <p>d’ AZEVEDO, Maria (1909) – A educa&ccedil;&atilde;o da mulher. A Mulher e a Crian&ccedil;a. N&ordm; 1, p. 6-7. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>DECRETO. Di&aacute;rio do Governo. N&ordm;4 (1910-10-10).</p>     <p>ENFERMAGEM (1910) - A Mulher e a Crian&ccedil;a. N&ordm; 11, p. 6.</p>     <p>ESCOLA DOM&Eacute;STICA (1909) - A Mulher e a Crian&ccedil;a. N&ordm; 1, p. 9.</p>     <p>ESTATUTOS DA LIGA REPUBLICANA DAS MULHERES PORTUGUESAS (1909) - A Mulher e a Crian&ccedil;a. N&ordm; 1, p. 11.</p>     <p>ESTEVES, Jo&atilde;o (1991) - A Liga Portuguesa das Mulheres Republicanas – uma organiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e feminista – (1909-1019).Lisboa : Comiss&atilde;o para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres.</p>     <p>ESTEVES, Jo&atilde;o (2001) - Os prim&oacute;rdios do feminismo em Portugal: a 1&ordf; d&eacute;cada do s&eacute;culo XX. Pen&eacute;lope. N&ordm; 25, p. 87-112.</p>     <p>EXPEDIENTE DA LIGA (1910) - A Mulher e a crian&ccedil;a. N&ordm; 17, p. 11. </p>     <p>FRAISSE, Genevi&egrave;ve ; PERROT, Michelle (1991) - Introdu&ccedil;&atilde;o. InDUBY, Georges; PERROT, Michelle, org. - Hist&oacute;ria das mulheres. O s&eacute;culo XIX. Lisboa : C&iacute;rculo de Leitores. Vol. 4, p. 9-15.</p>     <p>GUINOTE, Paulo (1997) - Quotidianos femininos (1900-1933). Lisboa : Organiza&ccedil;&otilde;es N&atilde;o Governamentais do Conselho Consultivo da Comiss&atilde;o para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres.</p>     <p>K&Auml;PPELI, Anne-Marie (1991) - Cenasfeministas. In DUBY, Georges ; PERROT, Michelle, org. - Hist&oacute;ria das mulheres. O s&eacute;culo XIX. Lisboa : C&iacute;rculo de Leitores. Vol. 4, p. 539-577.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>MARQUES, Ant&oacute;nio H. Oliveira (1991) - Portugal - da monarquia para a rep&uacute;blica. In SERR&Atilde;O, Joel ; MARQUES, Ant&oacute;nio H. Oliveira, dir. - Nova hist&oacute;ria de Portugal. Lisboa : Presen&ccedil;a. Vol. 11.</p>     <p>OS&Oacute;RIO, Anna de Castro (1905) - &Aacute;s mulheres portuguesas. Lisboa : Livraria Editora Viuva Tavares Cardoso.</p>     <p>PEDROSA, Aliete (2004) – A enfermagem portuguesa – refer&ecirc;ncias hist&oacute;ricas. Revista de Enfermagem Refer&ecirc;ncia. N&ordm; 11, p. 69-78.</p>     <p>PEREIRA, Avelina (1914) – A mulher independente.A Madrugada.</p>     <p>SOARES, Maria Isabel (1997) - Da blusa de brim &agrave; touca branca. Lisboa : Educa.</p>     <p>ZUZARTE, Eurico (1913) – A mulher e o trabalho. A Madrugada.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Recebido para publica&ccedil;&atilde;o em: 02.03.12</p>     <p>Aceite para publica&ccedil;&atilde;o em: 25.09.12</p>      ]]></body><back>
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