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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A filosofia levinasiana numa experiência de cuidar em enfermagem: a humanização decorrente da alteridade]]></article-title>
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<article-title xml:lang="es"><![CDATA[La filosofía levinasiana en una experiencia de cuidado de enfermería: la humanización que deriva de la alteridad]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Background: the term humanization in the health area is related to the quality of the relationship that can be established between participants involved in the process of care. This is based on the assumption that otherness is essential for a relationship that is humanized by the need for unique assistance. This is a theoretical paper with the objective of articulating Emmanuel Lévinas’s philosophy of alterity within nursing knowledge. Data source: Emmanuel Lévinas’s text about the I-other relationship. This will then be situated within a concrete and fictional care situation. Discussion: in the Levinasian I-other relationship the other presents as a face, preventing their objectification. Implications for nursing: caring for the other involves conceiving them as otherness and realizing an infinite responsibility for the other who, with their subjectivity, can share their story and reveal their preferences about how to be cared for. Conclusion: in nursing care situations, the other, independent of the healthcare situation remains as an alterity impossible to objectify, categorize and conceptualize.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="es"><p><![CDATA[Marco: el término humanización en el ámbito sanitario se relaciona generalmente con la calidad de la relación que se establece entre los sujetos involucrados en el proceso de cuidado. Se parte del principio de que la alteridad es fundamental para una relación humanizada, puesto que requiere una asistencia singular. Se trata de un artículo teórico cuyo objetivo es combinar la filosofía de la alteridad de Emmanuel Lévinas con el saber de la enfermería. Fuente de datos: textos de Emmanuel Lévinas que tratan específicamente de la relación yo-otro. Después, esta filosofía se aplica a una situación concreta o ficticia de cuidado en enfermería. Discusión: en la relación yo-otro levinasiana, el otro se presenta como rostro, lo que impide su objetivación. Implicaciones para la enfermería: cuidar del otro, concibiéndolo como alteridad, es darse cuenta de la responsabilidad infinita ante otro que, con su subjetividad, puede compartir su historia y revelar sus preferencias en relación al modo de ser cuidado. Conclusión: en las situaciones de cuidado de enfermería, el otro, independiente de su situación de salud, permanece una alteridad, imposible de objetivar, clasificar y conceptualizar.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>A filosofia levinasiana numa experi&ecirc;ncia de cuidar em enfermagem: a humaniza&ccedil;&atilde;o decorrente da alteridade</b></p>     <p><b>Levinasian philosophy in an experience of nursing care: humanization arising from otherness</b></p>     <p><b>La filosof&iacute;a levinasiana en una experiencia de cuidado de enfermer&iacute;a: la humanizaci&oacute;n que deriva de la alteridad</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>D&eacute;bora Vieira de Almeida</b><a href="#a1">*</a><a name="topa1"></a></p>     <p><a href="#topa1">*</a><a name="a1"></a> Enfermeira. Doutora em Ci&ecirc;ncias pela Escola de Enfermagem da Universidade de S&atilde;o Paulo. Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem na Assist&ecirc;ncia Hospitalar da Universidade Federal do Tri&acirc;ngulo Mineiro [<a href="mailto:deboravalmeida@gmail.com">deboravalmeida@gmail.com</a>].</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Resumo</b></p>     <p>Enquadramento: o termo humaniza&ccedil;&atilde;o na &aacute;rea da sa&uacute;de geralmente relaciona-se com a qualidade da rela&ccedil;&atilde;o que se estabelece entre os sujeitos envolvidos no processo de cuidado. Parte-se do princ&iacute;pio que a alteridade &eacute; essencial para uma rela&ccedil;&atilde;o humanizada por exigir uma assist&ecirc;ncia singular. Trata-se de um artigo te&oacute;rico com o objetivo de articular a filosofia da alteridade de Emmanuel L&eacute;vinas com os saberes da enfermagem. Fonte de dados: textos de Emmanuel L&eacute;vinas que tratam especificamente da rela&ccedil;&atilde;o eu-outro. Em seguida, aplica-se tal filosofia a uma situa&ccedil;&atilde;o concreta e fict&iacute;cia de cuidado de enfermagem. Discuss&atilde;o: na rela&ccedil;&atilde;o eu-outro levinasiana, o outro apresenta-se como rosto, impedindo a sua objetiva&ccedil;&atilde;o. Implica&ccedil;&otilde;es para a enfermagem: cuidar do outro concebendo-o como alteridade &eacute; dar-se conta da responsabilidade infinita perante outrem que, com a sua subjetividade, pode compartilhar a sua hist&oacute;ria e revelar as suas prefer&ecirc;ncias em rela&ccedil;&atilde;o ao modo de ser cuidado. Conclus&atilde;o: nas situa&ccedil;&otilde;es de cuidado em enfermagem, o outro, independente da sua situa&ccedil;&atilde;o de sa&uacute;de, permanece uma alteridade, imposs&iacute;vel de objetivar, de categorizar e de conceituar.</p>     <p><b>Palavras-chave</b>: humaniza&ccedil;&atilde;o da assist&ecirc;ncia; enfermagem; &eacute;tica.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Abstract</b></p>     <p>Background: the term humanization in the health area is related to the quality of the relationship that can be established between participants involved in the process of care. This is based on the assumption that otherness is essential for a relationship that is humanized by the need for unique assistance. This is a theoretical paper with the objective of articulating Emmanuel L&eacute;vinas’s philosophy of alterity within nursing knowledge. Data source: Emmanuel L&eacute;vinas’s text about the I-other relationship. This will then be situated within a concrete and fictional care situation. Discussion: in the Levinasian I-other relationship the other presents as a face, preventing their objectification. Implications for nursing: caring for the other involves conceiving them as otherness and realizing an infinite responsibility for the other who, with their subjectivity, can share their story and reveal their preferences about how to be cared for. Conclusion: in nursing care situations, the other, independent of the healthcare situation remains as an alterity impossible to objectify, categorize and conceptualize. </p>     <p><b>Keywords</b>: humanization of assistance; nursing; ethics.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Resumen</b></p>     <p>Marco: el t&eacute;rmino humanizaci&oacute;n en el &aacute;mbito sanitario se relaciona generalmente con la calidad de la relaci&oacute;n que se establece entre los sujetos involucrados en el proceso de cuidado. Se parte del principio de que la alteridad es fundamental para una relaci&oacute;n humanizada, puesto que requiere una asistencia singular. Se trata de un art&iacute;culo te&oacute;rico cuyo objetivo es combinar la filosof&iacute;a de la alteridad de Emmanuel L&eacute;vinas con el saber de la enfermer&iacute;a. Fuente de datos: textos de Emmanuel L&eacute;vinas que tratan espec&iacute;ficamente de la relaci&oacute;n yo-otro. Despu&eacute;s, esta filosof&iacute;a se aplica a una situaci&oacute;n concreta o ficticia de cuidado en enfermer&iacute;a. Discusi&oacute;n: en la relaci&oacute;n yo-otro levinasiana, el otro se presenta como rostro, lo que impide su objetivaci&oacute;n. Implicaciones para la enfermer&iacute;a: cuidar del otro, concibi&eacute;ndolo como alteridad, es darse cuenta de la responsabilidad infinita ante otro que, con su subjetividad, puede compartir su historia y revelar sus preferencias en relaci&oacute;n al modo de ser cuidado. Conclusi&oacute;n: en las situaciones de cuidado de enfermer&iacute;a, el otro, independiente de su situaci&oacute;n de salud, permanece una alteridad, imposible de objetivar, clasificar y conceptualizar. </p>     <p><b>Palabras clave</b>: humanizaci&oacute;n de la asistencia; enfermer&iacute;a; &eacute;tica.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O termo humaniza&ccedil;&atilde;o tem sido frequente na pr&aacute;tica dos cuidados relacionados &agrave; sa&uacute;de, embora nem sempre sejam constatadas mudan&ccedil;as nas rela&ccedil;&otilde;es concretizadas nos ambientes de cuidado. Embora a tem&aacute;tica da humaniza&ccedil;&atilde;o tenha despertado interesse de diversos profissionais da &aacute;rea da sa&uacute;de (o que se evidencia pelo aumento da produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica relacionada ao tema), das pessoas que utilizam os servi&ccedil;os de sa&uacute;de (profissionais relatam que muitos pacientes exigem que sejam tratados como pessoas e n&atilde;o como doen&ccedil;as) e do governo (com a publica&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas conducentes), n&atilde;o h&aacute; justifica&ccedil;&otilde;es consistentes que revelem que a humaniza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se trata de um movimento ditado pela moda ou de um impulso relacionado a sensibilidade humana.</p>     <p>Apesar disso, parece n&atilde;o haver d&uacute;vida de que a ess&ecirc;ncia da humaniza&ccedil;&atilde;o reside na qualifica&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es que se produzem no contexto de cuidado.</p>     <p>Se a pretens&atilde;o &eacute; qualificar esta intera&ccedil;&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio ampliar a compreens&atilde;o, a fim de que o profissional possa compreender o significado de ser humano, percebendo e compreendendo a si mesmo e ao outro como sujeitos das suas pr&oacute;prias hist&oacute;rias.</p>     <p>Uma filosofia que fundamenta as rela&ccedil;&otilde;es humanas na alteridade poder&aacute; “instrumentalizar o trabalhador da sa&uacute;de para desenvolver o acolhimento, sem deixar de garantir sua pr&oacute;pria humaniza&ccedil;&atilde;o” (Scholze, Duarte Jr e Silva, 2009, p. 303). Tanto o sujeito cuidado como o sujeito que cuida encontram espa&ccedil;o para manifestar-se enquanto singularidade (Urizzi e Corr&ecirc;a, 2007).</p>     <p>Conceber o outro como alteridade exige respeito pelas diferen&ccedil;as. &Eacute; construir uma pr&aacute;tica do cuidado em que os sujeitos envolvidos s&atilde;o valorizados (Carvalho, Freire e Bosi, 2009), na qual o profissional da sa&uacute;de n&atilde;o v&ecirc; o outro como uma massa biol&oacute;gica sobre a qual aplicar&aacute; os seus conhecimentos t&eacute;cnicos e cient&iacute;ficos (Almeida, Chaves e Brito, 2009), mas sim um outro indiv&iacute;duo com todas as suas particularidades e potencialidades.</p>     <p>Diversos fil&oacute;sofos, tais como Sartre e Buber, abordam a quest&atilde;o da alteridade, mas &eacute; com L&eacute;vinas que ela &eacute; apresentada de modo que impede a objetiva&ccedil;&atilde;o, aquilo que ele denomina por alteridade radical (Almeida, 2010). Por esta raz&atilde;o elegemos a filosofia levinasiana para articular com os saberes da enfermagem.</p>     <p>Emmanuel L&eacute;vinas (1906 – 1995), fil&oacute;sofo lituano, inicia a sua filosofia a partir de uma rela&ccedil;&atilde;o eu-outro concreta, na qual o outro &eacute; uma alteridade e o eu uma subjetividade. &Eacute; da fenomenologia da rela&ccedil;&atilde;o eu-outro que s&atilde;o explicadas as categorias presentes nas rela&ccedil;&otilde;es humanas (justi&ccedil;a, linguagem, liberdade, autonomia, respeito, solidariedade, entre outras), de acordo com a filosofia levinasiana. Partindo de uma situa&ccedil;&atilde;o real e concreta, L&eacute;vinas encontra uma maneira de falar da alteridade (outro) sem que ele se entregue ao dom&iacute;nio das palavras. Isso &eacute; fundamental quando nos reportamos &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es de cuidado em que o outro que precisa de cuidado &eacute; um outro singular (Almeida, 2010). Apenas um esclarecimento: em v&aacute;rias passagens deste texto &eacute; utilizado o termo <i>eu enfermeiro</i>, o qual significa um profissional da sa&uacute;de concreto e singular, aquele que se est&aacute; diante de um outro que solicita o seu cuidado e n&atilde;o deste profissional enquanto um conceito ou um sujeito social.</p>     <p>O campo dos cuidado &eacute; relacional, exige a presen&ccedil;a de pelo menos um eu enfermeiro e uma pessoa que solicita cuidado (outro) (Almeida, 2010). Al&eacute;m desta interacionalidade inerente aos cuidados, a enfermagem &eacute; uma profiss&atilde;o que possui um corpo de conhecimentos cient&iacute;ficos e t&eacute;cnicos. &Eacute; pr&oacute;prio do conhecimento esfor&ccedil;ar-se para compreender, para transformar o diferente e desconhecido em familiar e conhecido. </p>     <p>Portanto, a enfermagem, enquanto uma profiss&atilde;o que cuida da pessoa, lida com duas dimens&otilde;es distintas na sua pr&aacute;tica: ontologia, dimens&atilde;o que conhece e se apossa do outro (conhecer uma patologia, as necessidades humanas, por exemplo), e alteridade que jamais ser&aacute; compreendida por estar al&eacute;m dos limites de compreens&atilde;o de um eu enfermeiro. Apesar de distintas, estas dimens&otilde;es s&atilde;o articul&aacute;veis, desde que a liberdade do eu enfermeiro seja sempre uma liberdade concreta, e esteja situada na responsabilidade que a precede (Almeida, 2012).</p>     <p>Diante da complexidade inerente ao campo do cuidado em sa&uacute;de: singular (rela&ccedil;&atilde;o eu-outro) e universal (conhecimento), surge um desafio: como cuidar do outro de modo que ele permane&ccedil;a uma alteridade, apesar de se relacionar com o profissional que muitas vezes procurar&aacute; compreend&ecirc;-lo (torn&aacute;-lo familiar)? Como cuidar daquele que ultrapassa o dom&iacute;nio t&eacute;cnico e cient&iacute;fico do enfermeiro?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O objetivo deste estudo &eacute; articular a filosofia da alteridade de Emmanuel L&eacute;vinas com os saberes da enfermagem. Para isso, apresenta-se a rela&ccedil;&atilde;o eu-outro levinasiana e, a seguir, aplica-se esta rela&ccedil;&atilde;o numa situa&ccedil;&atilde;o de cuidado, por meio de uma par&aacute;bola. A filosofia levinasiana &eacute; adequada para fundamentar a dimens&atilde;o humana inerente ao cuidado de enfermagem por permitir articula&ccedil;&atilde;o entre o universal e o singular de modo que o singular n&atilde;o se submete ao universal, e que este surja como uma demanda da pr&oacute;pria alteridade. Dessa forma, este estudo pretende contribuir com conte&uacute;dos te&oacute;rico-pr&aacute;ticos que possam subjazer as pr&aacute;ticas humanizadas, uma vez que as rela&ccedil;&otilde;es assistenciais humanizadas implicam, al&eacute;m da presen&ccedil;a de um cuidador e de uma pessoa que ser&aacute; cuidada, a exist&ecirc;ncia de conceitos e atitudes &eacute;ticos.</p>     <p><b>A rela&ccedil;&atilde;o eu-outro levinasiana</b></p>     <p>L&eacute;vinas (2004) apresenta a &eacute;tica como filosofia primeira, anterior &agrave; ontologia. Isso significa que a &eacute;tica existe antes da filosofia ontol&oacute;gica. Desse modo, o fil&oacute;sofo apresenta uma &eacute;tica da responsabilidade que n&atilde;o &eacute; escolhida pelo eu, mas &eacute; uma resposta &agrave; solicita&ccedil;&atilde;o do outro. Assim, a liberdade est&aacute; subordinada &agrave; responsabilidade; trata-se de uma liberdade finita por ser concreta, a liberdade de um eu perante um outro: o apelo de L&eacute;vinas “n&atilde;o &eacute; propriamente &agrave; revolu&ccedil;&atilde;o exterior, (…) n&atilde;o porque n&atilde;o veja necessidade de mudar, mas sim porque n&atilde;o v&ecirc; a solu&ccedil;&atilde;o alcan&ccedil;&aacute;vel pela mudan&ccedil;a exterior, mas s&oacute; pela interior” (Rico, 1991, p. 109). Com uma &eacute;tica do outro antes do eu, com o humanismo que vem do outro homem, a rela&ccedil;&atilde;o humana proposta por L&eacute;vinas privilegia a alteridade do pr&oacute;ximo, o que &eacute; de fundamental import&acirc;ncia quando a finalidade do enfermeiro &eacute; cuidar de um outro concreto e n&atilde;o do g&eacute;nero humano (Almeida, 2010).</p>     <p>Na rela&ccedil;&atilde;o humanizada levinasiana, o outro apresenta-se ao eu como rosto que, ao trazer o rasto do infinito, impede qualquer objetiva&ccedil;&atilde;o por parte do eu (L&eacute;vinas, 1980), impede a redu&ccedil;&atilde;o aos sinais e sintomas caracter&iacute;sticos de uma doen&ccedil;a, assim como a sua limita&ccedil;&atilde;o ao papel social “paciente” ou “doente”, por exemplo. Esta maneira de se apresentar requer comunica&ccedil;&atilde;o: “a exterioridade que o rosto apresenta n&atilde;o nega a possibilidade de contato, de comunica&ccedil;&atilde;o. Pelo contr&aacute;rio, a alteridade (...) na sua exterioridade, o rosto do Outro apresenta-se ao eu como um mandamento” (Brito, 2002, p. 45).</p>     <p>Na filosofia levinasiana existem dois discursos na linguagem. O primeiro &eacute; o discurso &eacute;tico, aquele em que o outro ao se apresentar na sua exterioridade como rosto (n&atilde;o &eacute; representado nem tematizado), expressa-se: “n&atilde;o matar&aacute;s”, “o seu logos &eacute;: n&atilde;o matar&aacute;s” (L&eacute;vinas, 1967a, p. 173).</p>     <p>Com a linguagem presente no rosto, o outro coloca em quest&atilde;o os poderes do eu tematiz&aacute;-lo, de n&atilde;o “enxerg&aacute;-lo” como alteridade radical que &eacute;. Nessa linguagem, o outro aparece diante do eu numa dimens&atilde;o de altura, de transcend&ecirc;ncia, de exterioridade pr&oacute;pria de um mestre, ou seja, ensina-o sobre os limites dos seus pr&oacute;prios poderes. A partir do primeiro discurso em que o outro inicia com o “n&atilde;o cometer&aacute;s assass&iacute;nio” e o eu responde “eis-me aqui” (L&eacute;vinas, 2006, p. 226), surge o segundo discurso, aquele em que h&aacute; troca de informa&ccedil;&otilde;es.</p>     <p>A linguagem permite uma rela&ccedil;&atilde;o entre o eu e o outro, de maneira que estes permane&ccedil;am absolutamente separados. A linguagem no primeiro discurso s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel perante um outro que se revela e um eu passivo pronto a ouvir seu mandamento. Esta revela&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se enquadra, em hip&oacute;tese alguma, no horizonte do eu, pois o outro transcende-o. O outro revela-se, porque aquilo que se revela tem como caracter&iacute;stica essencial o facto de permanecer separado. Linguagem &eacute; a rela&ccedil;&atilde;o por excel&ecirc;ncia, a rela&ccedil;&atilde;o-separa&ccedil;&atilde;o (Brito, 2002).</p>     <p>Sendo o outro uma alteridade radical, escapa a qualquer aproxima&ccedil;&atilde;o que tenda ao conhecimento. Essa alteridade radical &eacute; chamada infinito, pois a alteridade do infinito n&atilde;o se anula no pensamento que o pensa, o infinito &eacute; o radicalmente outro. Quando o eu pensa o infinito relativamente a si, n&atilde;o o pensa como um objeto por estar perante a transcend&ecirc;ncia, por isso “ao pensar o infinito – o eu imediatamente pensa mais do que pensa” (L&eacute;vinas, 1967a, p. 172).</p>     <p>A ideia do infinito que surge na rela&ccedil;&atilde;o eu-outro n&atilde;o &eacute; como outras ideias que ligam um conte&uacute;do a um determinado conceito. A ideia do infinito foi posta no eu: “o pensador que tem a ideia do infinito &eacute; mais do que ele pr&oacute;prio, e essa mais valia n&atilde;o vem de dentro” (L&eacute;vinas, 1967a, p. 172). Esta ideia &eacute; a que pensa mais do que pensa, &eacute; desejo.</p>     <p>L&eacute;vinas diferencia desejo de necessidade. O desejo vem de outrem e n&atilde;o &eacute; uma falta. A necessidade parte de uma falta, como se a “coisa” que faltava ao eu, fosse por ele possu&iacute;do. J&aacute; no desejo n&atilde;o h&aacute; satisfa&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o h&aacute; falta, est&aacute; para al&eacute;m das satisfa&ccedil;&otilde;es: “o Desejo &eacute; desejo do absolutamente Outro. (…). Desejo sem satisfa&ccedil;&atilde;o que (...) <i>entende</i> (...) a exterioridade do Outro” (L&eacute;vinas, 2008, p. 20). Caso o desejo fosse satisfeito, n&atilde;o haveria alteridade, o eu englob&aacute;-la-ia.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Apesar do desejo do eu pelo infinito, este n&atilde;o o det&eacute;m como uma for&ccedil;a, mas questiona os seus poderes e a sua espontaneidade, ou seja, chama o eu para a sua responsabilidade perante ele. Faz com que saia de sua “casa”, do seu mundo ego&iacute;sta e solit&aacute;rio, para assumir a sua posi&ccedil;&atilde;o de subjetividade: responsabilizar-se infinitamente pelo outro, responder-lhe. Nesta resposta &eacute; que o eu se constitui como identidade e subjetividade, pois apenas ele pode responder &agrave;quele outro que est&aacute; diante de si (Almeida, 2010). Poder-se-ia contra-argumentar e dizer que o eu pode n&atilde;o querer responder, mas a decis&atilde;o de n&atilde;o responder &eacute; j&aacute; uma resposta.</p>     <p>Uma rela&ccedil;&atilde;o &eacute;tica do eu com o outro &eacute; aquela em que h&aacute; o mist&eacute;rio da alteridade, uma rela&ccedil;&atilde;o de transcend&ecirc;ncia. Esta palavra &eacute; utilizada no sentido do eu sair da sua casa para responder ao outro. Neste sair da sua casa, o eu realiza um movimento inverso ao da consci&ecirc;ncia que tudo transforma em algo familiar: “retirar-se para algures, movimento oposto ao movimento da consci&ecirc;ncia. Mas que n&atilde;o &eacute;, por esse motivo, inconsciente ou subconsciente, e n&atilde;o vejo outra possibilidade sen&atilde;o chamar-lhe mist&eacute;rio (...). Ao p&ocirc;r a alteridade de outrem como mist&eacute;rio (…) n&atilde;o a ponho enquanto liberdade id&ecirc;ntica &agrave; minha, combatendo com a minha, n&atilde;o ponho um ser existindo diante de mim, ponho a alteridade” (L&eacute;vinas, 2005, p. 186).</p>     <p>Poderia surgir a seguinte quest&atilde;o: como se estabelece a transcend&ecirc;ncia? Esta &eacute; o primeiro gesto &eacute;tico por permitir o encontro entre o eu e o outro de maneira que o outro n&atilde;o seja tematizado, mas uma alteridade radical (outro). Este gesto &eacute;tico ocorre na linguagem.</p>     <p>A origem do sentido presente na linguagem no primeiro discurso &eacute; dado pelo outro que oferece um mundo ao eu, o seu mundo. Aqui h&aacute; tematiza&ccedil;&atilde;o, significa&ccedil;&atilde;o e ensino, mas estes sempre v&ecirc;m de outrem. Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; linguagem como troca de informa&ccedil;&otilde;es (segundo n&iacute;vel do discurso): a “possibilidade da linguagem depende da exterioridade daquele que a utiliza e esta exterioridade &eacute; que d&aacute; sentido ao discurso” (Brito, 2002, p. 68).</p>     <p>Em s&iacute;ntese, na linguagem reside a express&atilde;o do outro e do eu. O outro manifesta-se como apelo &agrave; responsabilidade do eu (responsabilidade infinita perante o outro). Esta &eacute; a express&atilde;o do eu, uma express&atilde;o que n&atilde;o parte de si, &eacute; resposta diante do rosto.</p>     <p>Na rela&ccedil;&atilde;o entre os sujeitos, o outro &eacute; transcendente ao eu. O outro observa o eu de um modo que reclama justi&ccedil;a, observa-o de uma posi&ccedil;&atilde;o de altura e ao mesmo tempo de mis&eacute;ria, evidenciando-se a assimetria da rela&ccedil;&atilde;o entre eles. Nessa revela&ccedil;&atilde;o, o outro lembra o eu das suas obriga&ccedil;&otilde;es, da responsabilidade infinita para com ele, lembra-o que a sua posi&ccedil;&atilde;o de eu &eacute; responder a sua mis&eacute;ria essencial. Diz-se que o outro &eacute; mis&eacute;ria porque diante do eu ele tem uma falta (uma falta de conceitos, por exemplo). Como essa falta nunca &eacute; suprida (&eacute; infinita), a responsabilidade do eu n&atilde;o tem limite, necessita responder infinitamente ao outro que est&aacute; numa posi&ccedil;&atilde;o de altura diante dele. Justi&ccedil;a &eacute; “reconhecer em outrem o meu mestre” (L&eacute;vinas, 2008, p. 61).</p>     <p>Esse desnivelamento metaf&iacute;sico entre o olhar com que o outro olha o eu e aquele com que o eu olha o outro impossibilita que o eu tenha uma imagem do outro (Brito, 2002). Essa assimetria produz a alteridade: “Outrem enquanto outrem n&atilde;o &eacute; somente um alter-ego; &eacute; aquilo que eu n&atilde;o sou (…) n&atilde;o em virtude do seu car&aacute;ter, fisionomia ou psicologia, mas gra&ccedil;as a sua pr&oacute;pria alteridade. (…) o espa&ccedil;o intersubjetivo n&atilde;o &eacute; sim&eacute;trico” (L&eacute;vinas, 2005, p. 184). Caso n&atilde;o houvesse essa assimetria, o eu estaria numa iman&ecirc;ncia que impossibilitaria a comunica&ccedil;&atilde;o &eacute;tica.</p>     <p>Em rela&ccedil;&atilde;o ao conhecimento, pode-se afirmar que o outro &eacute; invis&iacute;vel. Tal invisibilidade est&aacute; relacionada com uma inadequa&ccedil;&atilde;o, ou seja, ele &eacute; inadequado ao conhecimento, o eu n&atilde;o encontra termos que coincidiriam com ele, mas isso n&atilde;o resulta de uma incapacidade do conhecimento humano, sen&atilde;o de uma incapacidade do pr&oacute;prio conhecimento quando se est&aacute; diante do absolutamente outro: “rela&ccedil;&atilde;o com o In-vis&iacute;vel na qual a invisibilidade resulta (…) na inaptid&atilde;o do conhecimento como tal (…), do car&aacute;ter absurdo que possuiria aqui um conhecimento como a coincid&ecirc;ncia” (L&eacute;vinas, 2005, p. 156).</p>     <p>Dito de outra maneira: a apari&ccedil;&atilde;o do outro n&atilde;o &eacute; o aparecimento de uma forma na luz, o que seria sens&iacute;vel ao intelig&iacute;vel, mas o n&atilde;o lan&ccedil;ado aos poderes do eu. O que fundamentalmente caracteriza o outro &eacute; a alteridade radical, a qual s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel perante o eu. Qualquer tentativa de definir o outro seria uma redu&ccedil;&atilde;o, seria transformar o outro em algo pass&iacute;vel de posse: “a raz&atilde;o que reduz o outro &eacute; uma apropria&ccedil;&atilde;o e um poder” (L&eacute;vinas, 1997, p. 205). Al&eacute;m do mais, “ao falar-me, o Outro apresenta-se, mas, na sua palavra, ele n&atilde;o se me d&aacute;” (Brito, 2002, p. 74).</p>     <p>Em s&iacute;ntese, o eu percebe-se como um ser separado e com uma identidade. A separa&ccedil;&atilde;o d&aacute;-se na sua rela&ccedil;&atilde;o com o mundo (frui&ccedil;&atilde;o) e na sua rela&ccedil;&atilde;o com o outro. O processo de identidade, a constru&ccedil;&atilde;o da sua subjetividade, tem origem na presen&ccedil;a do outro. &Eacute; diante dele que o eu &eacute; insubstitu&iacute;vel na sua responsabilidade e n&atilde;o consegue tematiz&aacute;-lo, mas pode acolh&ecirc;-lo (Brito, 2002). Perante outrem, o eu &eacute; acolhimento e n&atilde;o mais frui&ccedil;&atilde;o; acolhe o infinito presente no rosto do outro. Diante do “n&atilde;o matar&aacute;s”, a frase seguinte &eacute; “eis-me aqui” (L&eacute;vinas, 2008).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>J&aacute; que o eu &eacute; infinitamente respons&aacute;vel pelo outro, onde estar&aacute; a sua liberdade? &Eacute; justamente na rela&ccedil;&atilde;o com o outro e n&atilde;o fora dela que poderemos compreender a liberdade. A primeira obriga&ccedil;&atilde;o do eu diante do outro &eacute; responsabilizar-se por ele. &Eacute; importante recordar que esta responsabilidade n&atilde;o &eacute; fruto da sua iniciativa, mas uma resposta perante a revela&ccedil;&atilde;o do rosto. Portanto, a liberdade est&aacute;, desde j&aacute;, subordinada &agrave; responsabilidade. &Eacute; a responsabilidade que leva &agrave; liberdade.</p>     <p>O outro coloca a liberdade do eu em quest&atilde;o porque n&atilde;o se trata de um objeto do qual ele possa apossar-se, “a vida da liberdade se descobre injusta, a vida da liberdade na heteronomia, consiste para a liberdade num movimento de questionamento infinito” (L&eacute;vinas, 1967a, p. 176). A liberdade do eu perante o outro &eacute; concreta. Ser infinitamente respons&aacute;vel pelo outro implica responder ao seu mandamento. A liberdade est&aacute; em criar respostas para viver essa responsabilidade pelo outro. Esta alteridade &eacute; vivenciada, no contexto do cuidado, no encontro face a face entre o eu enfermeiro e o outro que precisa de ajuda. </p>     <p><b>A originalidade do encontro face a face numa experi&ecirc;ncia de cuidado em enfermagem</b></p>     <p>A par&aacute;bola fict&iacute;cia sobre um encontro entre um enfermeiro e um paciente poder&aacute; ajudar a articular os saberes da enfermagem com a fundamenta&ccedil;&atilde;o da humaniza&ccedil;&atilde;o preconizada pela filosofia levinasiana. A par&aacute;bola &eacute; narrada na primeira pessoa do singular, tendo como narrador personagem uma enfermeira. No decorrer da narra&ccedil;&atilde;o h&aacute; cita&ccedil;&otilde;es literais dos textos levinasianos para fundamentar a experi&ecirc;ncia do narrador em quest&atilde;o. A par&aacute;bola:</p>     <p>Havia acabado de receber o plant&atilde;o do turno da noite quando fui informada de que chegaria uma paciente para internamento Sra. Margarida, 55 anos de idade, com diagn&oacute;stico de neoplasia maligna nos ov&aacute;rios, com met&aacute;stase pulmonar. Quando recebi essa informa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tive tempo de pensar como seria essa senhora, se costumava passar os domingos acompanhada da fam&iacute;lia, se apreciava um passeio entre as flores do jardim ou se preferia passear pelo centro da cidade. Pensei apenas que provavelmente seria uma pessoa triste por conta da sua doen&ccedil;a e que estaria muito debilitada pelo est&aacute;gio de evolu&ccedil;&atilde;o da neoplasia: “as quest&otilde;es pr&eacute;vias ou preliminares n&atilde;o s&atilde;o certamente as primeiras que se colocam” (L&eacute;vinas, 2006, p. 44).</p>     <p>Nesses poucos segundos em que elaborei essas suposi&ccedil;&otilde;es j&aacute; estava a verificarpara qual leito ela seria encaminhada quando chegasse &agrave; unidade: quarto 25, leito I. Pensava que antes da sua chegada teria tempo para verificar os prontu&aacute;rios dos demais pacientes, mas assim que me sentei ela entrou na unidade numa cadeira de rodas acompanhada pelo funcion&aacute;rio dos transportes, que a levou ao quarto 25.</p>     <p>Em seguida, dirigi-me ao seu quarto para realiza&ccedil;&atilde;o do hist&oacute;rico (entrevista e exame f&iacute;sico). Eu tenho o h&aacute;bito de dizer &acute;bom dia!` sempre que entro nos quartos, embora nem sempre obtenha resposta. Desta vez foi assim. O meu &acute;bom dia!` foi respondido pela Sra. Olga que estava no leito II e pelo funcion&aacute;rio. A Sra. Margarida, com muito esfor&ccedil;o, levantou-se da cadeira de rodas, sentou-se na cama e dirigiu-me o seu olhar. Este olhar fixou os meus olhos por breves segundos que pareciam horas. Confesso que com esse olhar senti-me completamente desprotegida e envergonhada, por ter pensado que ela seria uma pessoa triste e debilitada sem ao menos encontrar-me com ela: “&eacute; uma vergonha que a liberdade tem de si mesma, ao descobrir-se homicida e usurpadora no seu pr&oacute;prio exerc&iacute;cio” (L&eacute;vinas, 1967a, p. 176).</p>     <p>Diante daquele olhar eu n&atilde;o sabia o que fazer; era um olhar que n&atilde;o dizia nada, mas ao mesmo tempo dizia tudo; um olhar que parecia conter uma fragilidade e uma car&ecirc;ncia inerentes e, ao mesmo tempo, uma ordem: “o rosto imp&otilde;e-se a mim sem que eu possa permanecer surdo ao seu apelo, nem esquec&ecirc;-lo (...). A presen&ccedil;a do rosto significa assim uma ordem irrecus&aacute;vel - um mandamento - que det&eacute;m a disponibilidade da consci&ecirc;ncia” (L&eacute;vinas, 1972, p. 49).</p>     <p>&Agrave;s vezes fico em d&uacute;vida se era bem isso o que se passava, pois por mais que eu pensasse coisas sobre aquele olhar, n&atilde;o conseguia encontrar palavras que se encaixassem nele; ele escapava, resistia aos adjetivos que eu tentava aplicar-lhe: “o Outro metaf&iacute;sico &eacute; outro de uma alteridade que n&atilde;o &eacute; formal, de uma alteridade que n&atilde;o &eacute; um simples inverso da identidade, (...), mas de uma alteridade anterior a toda a iniciativa, (…) a todo o imperialismo do Mesmo. Outro de uma alteridade constituindo o pr&oacute;prio conte&uacute;do do Outro” (L&eacute;vinas, 1980, p. 9).</p>     <p>Era uma resist&ecirc;ncia “esquisita” porque era como se fosse uma ordem. Cheguei a perguntar-me: “que ordem seria?” N&atilde;o sou capaz de descrev&ecirc;-la exatamente. A &uacute;nica coisa que consigo dizer &eacute; que n&atilde;o era uma ordem como aquelas vindas de um ditador, ou seja, uma ordem que n&atilde;o precisaria ter sentido para aquele que a cumpre, embora devesse cumpri-la. A ordem que vinha daquele olhar, embora parecesse vir de outro mundo, uma vez que eu n&atilde;o conseguia dar um significado a ela, era uma ordem da qual eu n&atilde;o conseguiria escapar: “a ordem pessoal a que nos obriga o rosto est&aacute; al&eacute;m do ser. (...) &eacute; uma Terceira Pessoa (...). Esta terceira pessoa que, no rosto, j&aacute; se retirou de toda a revela&ccedil;&atilde;o e toda dissimula&ccedil;&atilde;o (...) &eacute; toda a enormidade, (...), todo o Infinito do absolutamente Outro, escapando da ontologia” (L&eacute;vinas 1972, p. 59-60).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Digo isso com convic&ccedil;&atilde;o, pois quando me imaginei saindo correndo do quarto, tinha a sensa&ccedil;&atilde;o de que aquela ordem me perseguiria exigindo que fosse cumprida: “o pr&oacute;ximo obriga-me, a obsess&atilde;o &eacute; uma responsabilidade sem escolha, uma comunica&ccedil;&atilde;o sem frases nem palavras” (L&eacute;vinas, 1967b, p. 229). Dessa ordem que veio n&atilde;o sei de onde, eu n&atilde;o tinha como escapar.</p>     <p>Era como se eu estivesse ref&eacute;m desse outro mundo que desconhecia e que me mostrava que os meus conhecimentos jamais o compreenderiam. Era como se os meus l&aacute;bios quisessem dizer “estou aqui e ofere&ccedil;o-lhe tudo o que tenho”: “Eis-me aqui” como testemunho do Infinito, mas como testemunho que n&atilde;o tematiza aquilo que testemunha e cuja verdade n&atilde;o &eacute; verdade de representa&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o &eacute; evid&ecirc;ncia” (L&eacute;vinas, 2006, p. 299). A frase que pronunciei, a seguir ao “bom dia!” n&atilde;o foi exatamente essa: “farei tudo o que puder para que se sinta bem aqui”.</p>     <p>Eu sei que como enfermeira a minha responsabilidade &eacute; cuidar da sa&uacute;de das pessoas, mas diante daquele olhar da Sra. Margarida, olhar que me mostrou um mundo indescrit&iacute;vel por ser completamente transcendente &agrave;quela forma pl&aacute;stica que se entregava a minha objetiva&ccedil;&atilde;o, descobri-me mais uma vez respons&aacute;vel. Esta responsabilidade que surgiu quando estava diante da Sra. Margarida parecia completamente diferente da primeira.</p>     <p>Enquanto a responsabilidade que me levou ao quarto 25 era a minha responsabilidade como enfermeira (precisava realizar o hist&oacute;rico), responsabilidade que coube a mim escolher o momento de cumpri-la. A responsabilidade que se produziu quando me deparei com aquele olhar que se produzia como fragilidade e, ao mesmo tempo, parecia que trazia em si uma ordem, era uma responsabilidade que eu n&atilde;o tinha escolhido, mas da qual n&atilde;o conseguia esquivar-me. Era como se eu tivesse sido capturada, como se eu fosse sua ref&eacute;m: “o si mesmo em sua plenitude &eacute; ref&eacute;m, mais antigo que o Eu, antes dos princ&iacute;pios” (L&eacute;vinas, 2006, p. 186). Ref&eacute;m de algo completamente transcendente, ref&eacute;m de uma alteridade. Como se o facto de eu me encontrar nessa posi&ccedil;&atilde;o fosse a garantia de que a alteridade permanecesse sempre alteridade, ou seja, que n&atilde;o fosse dominada e compreendida como eu fazia quando observava a presen&ccedil;a de edemas, a diminui&ccedil;&atilde;o do volume urin&aacute;rio e a icter&iacute;cia e buscava compreender esse fen&oacute;meno.</p>     <p>O que mais me espantou foi que aquela responsabilidade que me levou ao quarto da Sra. Margarida s&oacute; ganhou sentido quando eu me deparei com a responsabilidade exigida pela sua alteridade: “aquele que me fala e que, atrav&eacute;s das palavras, prop&otilde;e-se a mim conserva a estranheza fundamental de outrem que me julga; nossas rela&ccedil;&otilde;es nunca s&atilde;o revers&iacute;veis” (L&eacute;vinas, 1980, p. 74).</p>     <p>Quando me dirigi ao quarto 25 n&atilde;o sabia que iria me deparar com algo que transcendesse a minha capacidade de objetiva&ccedil;&atilde;o e que me faria ref&eacute;m. Isso n&atilde;o estava nos meus planos. O que eu planeava fazer era buscar sinais e sintomas que a Sra. Margarida apresentava e que me possibilitassem propor cuidados que julgasse eficientes, baseando-me nos conhecimentos sobre a sua doen&ccedil;a e sobre o bem-estar humano.</p>     <p>Pensando bem, mesmo depois que fui afetada pela alteridade, continuei a fazer isso. Ao descobrir-me respons&aacute;vel pela Sra. Margarida continuei anotando no seu prontu&aacute;rio que os seus edemas e a icter&iacute;cia, assim como a prostra&ccedil;&atilde;o, intensificavam-se a cada dia. Entretanto, eu tinha em conta que a Sra. Margarida n&atilde;o se resumia ao somat&oacute;rio dos edemas, icter&iacute;cia e prostra&ccedil;&atilde;o: “Outrem &eacute; desejado na minha vergonha” (L&eacute;vinas, 1980, p. 56).</p>     <p>Por um lado eu sabia que a busca de sinais que demonstravam anormalidades era violenta, no sentido em que tratava a Sra. Margarida como um objeto; por outro lado, se eu n&atilde;o fizesse isso, n&atilde;o conseguiria propor nenhum cuidado de enfermagem e nem avaliar se os cuidados que havia prescrito estavam sendo efetivos: “a viol&ecirc;ncia s&oacute; incide sobre um ser ao mesmo tempo capt&aacute;vel e que escapa a toda a apreens&atilde;o. Sem esta contradi&ccedil;&atilde;o viva, no ser que sofre a viol&ecirc;ncia, o desenvolvimento da for&ccedil;a violenta reduzir-se-ia a um trabalho” (L&eacute;vinas, 1980, p. 198). Al&eacute;m disso, eu, como enfermeira e, portanto, praticante da ci&ecirc;ncia que &eacute; a enfermagem, n&atilde;o lhe poderia oferecer outra coisa a n&atilde;o ser os meus conhecimentos cient&iacute;ficos e t&eacute;cnicos. Essa era a forma que eu poderia responder ao seu apelo, a sua ordem.</p>     <p>A Sra. Margarida ficou na unidade de interna&ccedil;&atilde;o durante quarenta dias. Nesse per&iacute;odo, todos os dias eu entrei no seu quarto. &Agrave; medida que os dias iam passando ela demonstrava estar mais debilitada. Passadas duas semanas, n&atilde;o conseguia levantar-se da cama nem sentar-se sem aux&iacute;lio. No trig&eacute;simo dia de interna&ccedil;&atilde;o deixou de falar e dois dias depois, raramente abriu os olhos, al&eacute;m de respirar cada vez com mais dificuldade.</p>     <p>Mesmo encontrando-se nesse estado de fragilidade evidente, a ordem que vinha daquele “mais al&eacute;m” paralisava a minha capacidade de objetiva&ccedil;&atilde;o, ou seja, mesmo eu estando em contato com a Sra. Margarida por esses quarenta dias, n&atilde;o conseguia dizer quem era ela e, simultaneamente, sentia-me por ela respons&aacute;vel, como se eu tivesse que ser para ela: “o ser que se exprime imp&otilde;e-se, mas precisamente apelando para mim da sua mis&eacute;ria e da sua nudez (…) sem que eu possa ser surdo ao seu apelo. (…) o ser que se imp&otilde;e n&atilde;o limita, mas promove a minha liberdade, suscitando a minha bondade” (L&eacute;vinas, 1980, p. 175).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No quadrag&eacute;simo dia de interna&ccedil;&atilde;o, a sua dificuldade de respira&ccedil;&atilde;o intensificou-se, o que exigiu que fosse colocada uma m&aacute;scara de oxig&eacute;nio. Passados alguns minutos, ela deixou de responder a qualquer est&iacute;mulo. Mesmo com os olhos fechados e como que num outro mundo, ela continuava completamente transcendente e exigindo a minha responsabilidade: “responsabilidade sem compromisso pr&eacute;vio (...) <i>infinita</i> do um para o outro, o qual me &eacute; abandonado sem que algu&eacute;m possa ocupar o meu lugar de respons&aacute;vel – n&atilde;o me confere uma nova identidade como o &uacute;nico eleito?” (L&eacute;vinas, 2006, p. 239-240).</p>     <p>Neste dia pensei que a &uacute;nica coisa que eu poderia fazer era estar ao seu lado por mais tempo. &Eacute; claro que como uma das enfermeiras de toda aquela unidade, havia mais pessoas que exigiam cuidados, mas o fato da Sra. Margarida estar mais debilitada que as demais, exigia que eu estivesse mais tempo ao seu lado: “o facto de que o outro, meu pr&oacute;ximo, &eacute; tamb&eacute;m terceiro em rela&ccedil;&atilde;o a um outro, pr&oacute;ximo tamb&eacute;m este, &eacute; o nascimento do pensamento, da consci&ecirc;ncia e da justi&ccedil;a e da filosofia” (L&eacute;vinas, 2006, p. 204).</p>     <p>A quest&atilde;o da morte costumava provocar-me certa estranheza. N&atilde;o saberia dizer se tinha medo, ang&uacute;stia ou se procurava neg&aacute;-la. Ao mesmo tempo sabia que dela n&atilde;o conseguiria fugir, n&atilde;o porque um dia eu iria morrer, mas especialmente porque algumas pessoas que eu cuidava acabariam morrendo no meu plant&atilde;o: “a morte amea&ccedil;a-me do mais al&eacute;m. Desconhecido que faz medo, sil&ecirc;ncio dos espa&ccedil;os infinitos que assusta, vem do Outro e essa alteridade, precisamente como absoluta, atinge-me (…) num julgamento de justi&ccedil;a” (L&eacute;vinas, 1980, p. 210).</p>     <p>Com a Sra. Margarida acabou acontecendo isso. Numa das vezes em que entrei no seu quarto naquela manh&atilde;, aproximei-me do seu leito, toquei a sua m&atilde;o: “a car&iacute;cia &eacute; a unidade da aproxima&ccedil;&atilde;o e da proximidade. Nela, a proximidade &eacute; sempre tamb&eacute;m aus&ecirc;ncia” (L&eacute;vinas, 1967b, p. 230). Olhei para o seu rosto que tinha os olhos fechados e parecia n&atilde;o demonstrar nenhuma emo&ccedil;&atilde;o e, uma vez mais, fui surpreendida: do seu olho direito escorreu uma l&aacute;grima; ela inspirou profundamente e jamais expirou.</p>     <p>O que posso dizer &eacute; que o fato da Sra. Margarida ter morrido n&atilde;o significa que ela se tenha entregado aos meus poderes de objetiva&ccedil;&atilde;o. A morte n&atilde;o parecia anular a resist&ecirc;ncia que vinha do seu rosto. A alteridade permanecia al&eacute;m do campo cognosc&iacute;vel, permanecia alteridade: “aquilo que &eacute; importante na aproxima&ccedil;&atilde;o da morte &eacute; o facto de, num determinado momento, n&atilde;o podermos mais poder; &eacute; justamente nisto que o sujeito perde o seu pr&oacute;prio dom&iacute;nio de sujeito” (L&eacute;vinas, 1979, p. 62). Foi com essa convic&ccedil;&atilde;o, associada a uma responsabilidade infinita por ela que prepar&aacute;mos o seu corpo. Posso afirmar que a Sra. Margarida morreu sem que tivesse sido conhecida, mas deixou um ensinamento que jamais esquecerei. Ensinou-me o sentido do cuidado (ou o cuidado humano): “o ensino n&atilde;o &eacute; uma esp&eacute;cie de um g&eacute;nero chamado domina&ccedil;&atilde;o, uma hegemonia que se joga no seio de uma totalidade, mas a presen&ccedil;a do infinito que faz saltar o c&iacute;rculo fechado da totalidade” (L&eacute;vinas, 1980, p. 146). Ensinou-me que os conhecimentos que eu tenho sobre patologia, fisiologia, farmacologia, psicologia, antropologia, semiologia e semiot&eacute;cnica s&atilde;o important&iacute;ssimos, mas que s&oacute; t&ecirc;m sentido quando estou diante de um outro concreto que, por ser alteridade, os exige: “a compreens&atilde;o do ser exprime-se j&aacute; no ente que ressurge por detr&aacute;s do tema em que ele se oferece. (...) esta rela&ccedil;&atilde;o com Outrem como interlocutor (...) precede toda a ontologia” (L&eacute;vinas, 1980, p. 18).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>Os conte&uacute;dos filos&oacute;ficos, embora muitas vezes distantes da realidade dos profissionais da sa&uacute;de, s&atilde;o fundamentais para a reflex&atilde;o sobre as pr&aacute;ticas profissionais de modo que se possa cuidar do outro sem reduzi-lo a um objeto ou a uma soma de dimens&otilde;es que podem apresentar algum desequil&iacute;brio.</p>     <p>A filosofia de Emmanuel L&eacute;vinas faz uma an&aacute;lise da rela&ccedil;&atilde;o eu-outro partindo da concretude da vida quotidiana e atinge a dimens&atilde;o transcendental. Mostra que, atrav&eacute;s da linguagem, &eacute; poss&iacute;vel relacionar-se com o outro sem que se tenha que reduzi-lo a doen&ccedil;as ou a dimens&otilde;es biol&oacute;gicas, psicol&oacute;gicas, sociais e espirituais.</p>     <p>Nas situa&ccedil;&otilde;es de cuidado frequentemente encontra-se com um indiv&iacute;duo fragilizado que, apesar desta situa&ccedil;&atilde;o, permanece uma alteridade que resiste a qualquer tentativa de objetiva&ccedil;&atilde;o e, enquanto tal, apresenta o seu mundo ao eu, pode ensinar o que lhe agrada, o que sente, o que deseja.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Cuidar do outro concebendo-o como uma alteridade, uma pessoa singular, &eacute; dar-se conta da responsabilidade infinita perante outrem. A responsabilidade &eacute; resposta ao mandamento do outro, uma liberdade na responsabilidade.</p>     <p>Articular a filosofia levinasiana com os saberes da enfermagem permite pensar o cuidado de enfermagem de maneira diferente: o eu enfermeiro passa a ser um sujeito passivo (responde ao mandamento de outrem) e o outro &eacute; quem inicia o discurso (n&atilde;o matar&aacute;s), al&eacute;m da liberdade do eu ser finita (sempre relacionada a determinado contexto). L&eacute;vinas exp&otilde;e um encontro que acontece antes da consci&ecirc;ncia (primeiro discurso). Ter consci&ecirc;ncia disso aumenta a responsabilidade perante outrem, responsabilidade que n&atilde;o adv&eacute;m de um contrato de cuidado entre um enfermeiro e um paciente, pois &eacute; anterior aos pap&eacute;is sociais. &Eacute; a responsabilidade de um eu insubstitu&iacute;vel na sua pr&oacute;pria responsabilidade de &uacute;nico eleito para responder &agrave;s exig&ecirc;ncias de outrem. Dessa forma, qualquer interven&ccedil;&atilde;o realizada pelo eu enfermeiro &eacute; uma tentativa de responder &agrave; ordem apelativa do rosto, de aliviar o sofrimento de outrem justamente. Haver&aacute; mandamento mais imediato que o imperativo moral advindo do sofrimento humano de um outro de carne e osso?</p>     <p>Este humanismo que vem do outro e exige responsabilidade infinita possibilita a liberdade e a justi&ccedil;a. A liberdade e a justi&ccedil;a assentadas na responsabilidade garantem que as compet&ecirc;ncias e habilidades necess&aacute;rias para o cuidado de enfermagem (incluindo a pr&aacute;tica assistencial, seu ensino e as pesquisas) definam-se a partir da responsabilidade para com outrem. Assim, a justi&ccedil;a traz de modo intr&iacute;nseco o sentido &eacute;tico e humano. Ao deparar-se com outrem e descobrir-se por ele capturado, o eu enfermeiro vivencia a responsabilidade no seu sentido pleno. Articular a filosofia levinasiana com os saberes de enfermagem atrav&eacute;s da par&aacute;bola evidencia que a igual dignidade humana de profissionais e pacientes &eacute; a base para a constru&ccedil;&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica entre pessoas que s&atilde;o id&ecirc;nticas no plano conceitual, e estranhas no real. O cuidado concretizado com tais conceitos e atitudes recupera o seu car&aacute;ter humano, dispensando a necessidade de um adjetivo que indique a sua qualifica&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas</b></p>     <p>ALMEIDA, D. V. (2010) - A filosofia de Emmanuel L&eacute;vinas como fundamento para a teoria e a pr&aacute;tica do cuidado humanizado do enfermeiro. S&atilde;o Paulo : Escola de Enfermagem da Universidade de S&atilde;o Paulo. Tese de doutoramento.</p>     <p>ALMEIDA, D. V. (2012) - A humaniza&ccedil;&atilde;o dos cuidados em sa&uacute;de: uma proposta conceitual. Goi&acirc;nia : AB Editora.</p>     <p>ALMEIDA, D. V. ; CHAVES, E. C. ; BRITO, J. H. S. (2009) - Humaniza&ccedil;&atilde;o dos cuidados de sa&uacute;de: uma interpreta&ccedil;&atilde;o a partir da filosofia de Emmanuel L&eacute;vinas. Revista de Enfermagem Refer&ecirc;ncia. S&eacute;rie 2, no 10, p. 89-96.</p>     <p>BRITO, J. H. S. (2002) - De Atenas &agrave; Jerusal&eacute;m: a subjetividade passiva em L&eacute;vinas. Lisboa : Universidade Cat&oacute;lica Editora.</p>     <p>CARVALHO, L. B. ; FREIRE, J. C. ; BOSI, M. L. (2009) - Alteridade radical: implica&ccedil;&otilde;es para o cuidado em sa&uacute;de. Physis. Vol. 19, no 3, p. 849-865.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>L&Eacute;VINAS, E. (1967a) - La philosophie et l`id&eacute;e de I`infini. In L&Eacute;VINAS, E. - En d&eacute;couvrant l`existence avec Husserl et Heidegger. Paris : Librairie Philosophique J. VRIN. p. 165-178.</p>     <p>L&Eacute;VINAS, E. (1967b) - Langage et proximit&eacute;. In L&Eacute;VINAS, E. - En d&eacute;couvrant l`existence avec Husserl et Heidegger. Paris : Librairie philosophique J. VRIN. p. 218-236.</p>     <p>L&Eacute;VINAS, E. (1972) - Humanisme de l`autre homme. Montpellier : Fata Morgana.</p>     <p>L&Eacute;VINAS, E. (1979) - Le temps et l`autre. Paris : Fata Morgana.</p>     <p>L&Eacute;VINAS, E. (1980) - Totalit&eacute; et infini. 4a ed. La Haye : Martinus Nijhoff Publishers.</p>     <p>L&Eacute;VINAS, E. (1997) - A filosofia e a id&eacute;ia de infinito. In L&Eacute;VINAS, E. - Descobrindo a exist&ecirc;ncia com Husserl e Heidegger. Lisboa : Instituto Piaget. p. 201-216.</p>     <p>L&Eacute;VINAS, E. (2004) - Entre n&oacute;s: ensaios sobre a alteridade. Petr&oacute;polis : Vozes.</p>     <p>L&Eacute;VINAS, E. (2005) - O tempo e o outro. Revista Phainomenon. N&ordm; 11, p. 149-190.</p>     <p>L&Eacute;VINAS, E. (2006) - Autrement qu`&ecirc;tre ou au-del&agrave; de l`essence. 5a ed. Paris : Kluwer Academic.</p>     <p>L&Eacute;VINAS, E. (2008) - Totalit&eacute; et infini – essai sur l`ext&eacute;riorit&eacute;. Paris : Kluwer Academic.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>RICO, H. (1991) - A sociedade do outro homem. Revista Portuguesa de Filosofia. Vol. 47, no 1, p. 97-117.</p>     <p>SCHOLZE, A. S. ; DUARTE JR., C. F. ; SILVA, Y. F. (2009) - Trabalho em sa&uacute;de e a implanta&ccedil;&atilde;o do acolhimento na aten&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria &agrave; sa&uacute;de: afeto, empatia ou alteridade? Interface - Comunica&ccedil;&atilde;o, Sa&uacute;de, Educa&ccedil;&atilde;o. Vol. 13, no 31, p. 303-314.</p>     <p>URIZZI, F. ; CORR&Ecirc;A, A. K. (2007) - Viv&ecirc;ncias de familiares em terapia intensiva: o outro lado da interna&ccedil;&atilde;o. Revista Latino-Americana de Enfermagem. Vol. 15, no 4, p. 598-604.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Recebido para publica&ccedil;&atilde;o em: 01.03.12</p>     <p>Aceite para publica&ccedil;&atilde;o em: 12.11.12</p>      ]]></body><back>
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