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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A espiritualidade de pessoas com HIV/aids: um estudo de representações sociais]]></article-title>
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<article-title xml:lang="es"><![CDATA[La espiritualidad de personas con VIH/sida: un estudio de representaciones sociales]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The aim of this study was to analyze the spirituality of people who live with HIV/Aids. This was a qualitative, descriptive and exploratory study based on Social Representations Theory. The data were collected at the municipal public hospital in Rio de Janeiro through semi-structured interviews with 30 people, and were analyzed by content analysis. Five categories were established: From suffering to the difficulty of making sense of the diagnosis; Bouncing back: finding meaning; From difficulty in adhering to treatment to hope of cure; Transcendental relationships; and The presence of religiosity in living with HIV/Aids. It was concluded that discovery of the diagnosis for people who live with HIV/Aids is characterized by a set of feelings, attitudes and practices that reveal the suffering and difficulty of maintaining or rediscovering meaning in life. On the other hand, receiving the diagnosis contributed to reflections and questions which became a way of cultivating spirituality.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="es"><p><![CDATA[Este estudio tiene como objetivo analizar las expresiones de espiritualidad de personas con VIH/SIDA. Se trata de un estudio cualitativo, descriptivo y exploratorio, basado en la teoría de las representaciones sociales. Los datos fueron recolectados en un hospital público de Río de Janeiro, con 30 usuarios, a través de entrevistas semiestructuradas y analizados por el análisis de contenido. A partir de ellos, se establecieron cinco categorías: del sufrimiento a la dificultad de encontrar sentido en el diagnóstico; dando la vuelta por encima: el encuentro de sentidos; de la dificultad de adhesión al tratamiento a la esperanza de la curación; las relaciones trascendentales; y la presencia de la religión en el vivir con el VIH/SIDA. Se concluye que, para las personas con VIH/SIDA, el hecho de descubrirel diagnóstico está marcado por un conjunto de sentimientos, actitudes y prácticas que revelan el sufrimiento y la dificultad de mantener o redescubrir un sentido para la vida. Por otra parte, contribuyó a reflexiones y preguntas, que se convierten en un camino para cultivar la espiritualidad.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ 					     <p><b>A espiritualidade de pessoas com HIV/aids: um estudo de representa&ccedil;&otilde;es sociais</b></p>     <p><b>The spirituality of people with HIV/Aids: a study of social representations</b></p>     <p><b>La espiritualidad de personas con VIH/sida: un estudio de representaciones sociales</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Caren Camargo do Esp&iacute;rito Santo</b><a href="#a1">*</a><a name="topa1"></a>; <b>Antonio Marcos Tosoli Gomes</b><a href="#a2">**</a><a name="topa2"></a>; <b>Denize Cristina de Oliveira</b><a href="#a3">***</a><a name="topa3"></a></p>     <p><a href="#topa1">*</a><a name="a1"></a> Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Doutoranda pelo Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Professora substituta da Faculdade de Enfermagem do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ [<a href="mailto:carencamargo.enf@gmail.com">carencamargo.enf@gmail.com</a>].</p>     <p><a href="#topa2">**</a><a name="a2"></a> Enfermeiro, Professor Titular do Departamento de Enfermagem M&eacute;dico-Cir&uacute;rgica da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ [<a href="mailto:mtosoli@gmail.com">mtosoli@gmail.com</a>].</p>     <p><a href="#topa3">***</a><a name="a3"></a> Enfermeira. Professora Titular do Departamento de Fundamentos de Enfermagem da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ [<a href="mailto:dcouerj@gmail.com">dcouerj@gmail.com</a>].</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Resumo</b></p>	     <p>Este estudo pretende analisar as express&otilde;es da espiritualidade de pessoas que vivem com HIV. &Eacute; um estudo qualitativo, descritivo e explorat&oacute;rio, baseado na Teoria das Representa&ccedil;&otilde;es Sociais. Os dados foram coletados num hospital p&uacute;blico municipal do Rio de Janeiro, com 30 utentes, atrav&eacute;s de entrevistas semiestruturadas e analisados pela an&aacute;lise de conte&uacute;do. Originaram-se cinco categorias: Do sofrimento &agrave; dificuldade de encontrar sentido perante do diagn&oacute;stico; Dando a volta por cima; o encontro de sentidos; Da dificuldade de ades&atilde;o ao tratamento &agrave; esperan&ccedil;a de cura; Os relacionamentos transcendentais; e A presen&ccedil;a da religiosidade no viver com HIV. Conclui-se que a descoberta diagn&oacute;stica para a pessoa com HIV &eacute; marcada por um conjunto de sentimentos, atitudes e pr&aacute;ticas que revelam sofrimento e dificuldade em manter ou redescobrir um sentido para a vida. Por outro lado, contribuiu para reflex&otilde;es e questionamentos, os quais se tornam um caminho para cultivar a espiritualidade.</p>     <p><b>Palavras-chave</b>: espiritualidade; enfermeiros; cuidado de enfermagem.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Abstract</b></p>     <p>The aim of this study was to analyze the spirituality of people who live with HIV/Aids. This was a qualitative, descriptive and exploratory study based on Social Representations Theory. The data were collected at the municipal public hospital in Rio de Janeiro through semi-structured interviews with 30 people, and were analyzed by content analysis. Five categories were established: From suffering to the difficulty of making sense of the diagnosis; Bouncing back: finding meaning; From difficulty in adhering to treatment to hope of cure; Transcendental relationships; and The presence of religiosity in living with HIV/Aids. It was concluded that discovery of the diagnosis for people who live with HIV/Aids is characterized by a set of feelings, attitudes and practices that reveal the suffering and difficulty of maintaining or rediscovering meaning in life. On the other hand, receiving the diagnosis contributed to reflections and questions which became a way of cultivating spirituality.</p>     <p><b>Keywords</b>: spirituality; nurses; nursing care.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Resumen</b></p>	     <p>Este estudio tiene como objetivo analizar las expresiones de espiritualidad de personas con VIH/SIDA. Se trata de un estudio cualitativo, descriptivo y exploratorio, basado en la teor&iacute;a de las representaciones sociales. Los datos fueron recolectados en un hospital p&uacute;blico de R&iacute;o de Janeiro, con 30 usuarios, a trav&eacute;s de entrevistas semiestructuradas y analizados por el an&aacute;lisis de contenido. A partir de ellos, se establecieron cinco categor&iacute;as: del sufrimiento a la dificultad de encontrar sentido en el diagn&oacute;stico; dando la vuelta por encima: el encuentro de sentidos; de la dificultad de adhesi&oacute;n al tratamiento a la esperanza de la curaci&oacute;n; las relaciones trascendentales; y la presencia de la religi&oacute;n en el vivir con el VIH/SIDA. Se concluye que, para las personas con VIH/SIDA, el hecho de descubrirel diagn&oacute;stico est&aacute; marcado por un conjunto de sentimientos, actitudes y pr&aacute;cticas que revelan el sufrimiento y la dificultad de mantener o redescubrir un sentido para la vida. Por otra parte, contribuy&oacute; a reflexiones y preguntas, que se convierten en un camino para cultivar la espiritualidad.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Palabras clave</b>: espiritualidad; enfermeros; atenci&oacute;n de enfermer&iacute;a.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>Mesmo que atualmente existam movimentos e pol&iacute;ticas que contribuem para a realiza&ccedil;&atilde;o de um cuidado hol&iacute;stico, sabe-se que o modelo cl&iacute;nico-biom&eacute;dico e tencnocentrado ainda &eacute; hegem&oacute;nico, incorporado no dia a dia de trabalho dos profissionais de sa&uacute;de. Com isso, a espiritualidade dos utentes dos sistemas de sa&uacute;de ainda n&atilde;o tem espa&ccedil;o de discuss&atilde;o no meio acad&eacute;mico, ou tem sido incorporada de forma t&iacute;mida, fazendo com que os grupos ou institui&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas, como as religiosas, &eacute; que abarquem estas quest&otilde;es quase exclusivamente.</p>     <p>Apesar do crescimento de estudos referentes a essa tem&aacute;tica e suas interfaces com a sa&uacute;de, ainda n&atilde;o h&aacute; muitas pesquisas acerca da express&atilde;o da espiritualidade no viver de pessoas que convivem com o HIV. O que se pode observar nos estudos relacionados ao HIV &eacute; o aparecimento da espiritualidade perante os seus resultados, a qual se destaca, muitas vezes, como modo de enfrentamento da doen&ccedil;a. Sendo assim, partiu-se da seguinte pergunta: como a espiritualidade se expressa no viver de pessoas com HIV.</p>     <p>Em termos de defini&ccedil;&atilde;o, a espiritualidade parece n&atilde;o gozar de um conceito &uacute;nico, claro ou mesmo esclarecedor, n&atilde;o sendo identificado um conceito de espiritualidade que seja aceite por todos os pesquisadores. Cabe ressaltar que a espiritualidade &eacute; tema de pesquisas da antropologia, teologia, psicologia, sociologia e filosofia, contribuindo, assim, para a multiplicidade de conceitos.</p>     <p>O presente estudo adotou como conceito de espiritualidade uma quest&atilde;o pessoal relacionada com a busca de respostas para quest&otilde;es fundamentais sobre a vida e o seu significado, bem como sobre o relacionamento com o sagrado ou o transcendente, a qual pode ou n&atilde;o culminar no desenvolvimento de rituais religiosos e forma&ccedil;&atilde;o de comunidade (Koenig, Mccullough e Larson, 2001). O termo espiritualidade foi adotado por ser mais amplo, incluindo por&eacute;m a religiosidade. A religiosidade &eacute; entendida, neste contexto, como um dos caminhos para se cultivar a espiritualidade, sendo composta por um sistema organizado de cren&ccedil;as, pr&aacute;ticas, rituais e s&iacute;mbolos projetados para auxiliar a proximidade do indiv&iacute;duo com o sagrado e/ou transcendente (Saad, Masiero e Battistela, 2001).</p>     <p>Assim, a espiritualidade &eacute; uma dimens&atilde;o da pessoa humana, conferindo-lhe uma natureza interpretativa relativamente &agrave;s suas viv&ecirc;ncias. Seja qual for a forma como se caracteriza, o ser humano necessita encontrar um sentido para sua vida e respostas &agrave;s quest&otilde;es que v&atilde;o surgindo ao longo da vida, de forma mais ou menos s&uacute;bita (Caldeira, Gomes e Frederico, 2011).</p>     <p>Neste sentido, pretende-se obter as express&otilde;es da espiritualidade atrav&eacute;s da representa&ccedil;&atilde;o social e para os que vivem com HIV, pois a forma como representam a doen&ccedil;a &eacute; que lhe dar&aacute; significado. Ou seja, a viv&ecirc;ncia da doen&ccedil;a n&atilde;o &eacute; dada apenas pela pr&oacute;pria patologia em si, mas tamb&eacute;m pela representa&ccedil;&atilde;o da mesma para o sujeito. Assim, a partir desta representa&ccedil;&atilde;o e atrav&eacute;s dela &eacute; que as pessoas ir&atilde;o conferir significado &agrave; doen&ccedil;a e procurar&atilde;o um sentido para a vida. Quanto a isso, corrobora-se que a import&acirc;ncia de estudos no campo da representa&ccedil;&atilde;o social do HIV possibilita a apreens&atilde;o de processos e mecanismos pelos quais os sujeitos constroem o sentido deste fen&oacute;meno em suas realidades quotidianas (Barbar&aacute;, Sachetti e Crepaldi, 2005).</p>     <p>Compreendendo o efeito da espiritualidade sobre o viver com HIV atrav&eacute;s das representa&ccedil;&otilde;es sociais da doen&ccedil;a, as pr&aacute;ticas de cuidado da Enfermagem poder&atilde;o ser reorganizadas e reorientadas, levando-se em considera&ccedil;&atilde;o as subjetividades envolvidas na rela&ccedil;&atilde;o equipa de enfermagem-utente, colocando, como o centro do processo de promo&ccedil;&atilde;o, reabilita&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de, preven&ccedil;&atilde;o e tratamento da doen&ccedil;a, e o pr&oacute;prio sujeito.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ressalta-se que o cuidado de enfermagem &eacute; entendido como um conjunto de esfor&ccedil;os transpessoais de um ser humano para outro visando proteger, promover e preservar a humanidade, ajudando as pessoas a encontrarem significados na doen&ccedil;a, sofrimento e dor, bem como na exist&ecirc;ncia (Waldow, Lopes e Meyer, 1995).</p>     <p>Neste contexto, tra&ccedil;ou-se como objetivo geral analisar as express&otilde;es da espiritualidade de pessoas que vivem com HIV na sua interface com as constru&ccedil;&otilde;es representacionais acerca do HIV, de modo a oferecer subs&iacute;dios &agrave; pr&aacute;tica assistencial de Enfermagem. Como objetivos espec&iacute;ficos t&ecirc;m-se: identificar os elementos de espiritualidade presentes nas representa&ccedil;&otilde;es sociais da aids e descrever as manifesta&ccedil;&otilde;es da espiritualidade e da religiosidade no viver de pessoas com HIV.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Metodologia</b></p>     <p>Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, descritivo e de car&aacute;ter explorat&oacute;rio, baseado na abordagem processual da Teoria das Representa&ccedil;&otilde;es Sociais, na perspectiva da Psicologia Social. O cen&aacute;rio deste estudo foi um Hospital Municipal, localizado na cidade do Rio de Janeiro, especializado e referenciado para pessoas com HIV. Esta institui&ccedil;&atilde;o &eacute; considerada, pelo Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de, como um Servi&ccedil;o de Assist&ecirc;ncia Especializada (SAE) em HIV.</p>     <p>Foram selecionados 30 participantes para a realiza&ccedil;&atilde;o das entrevistas. Trata-se de utentes do SAE, maiores de 18 anos, de ambos os sexos, que fazem uso de antirretrovirais, possuem um tempo de diagn&oacute;stico maior de seis meses e fazem acompanhamento ambulatorial especializado para HIV. Os sujeitos foram abordados pela entrevistadora enquanto aguardavam a consulta m&eacute;dica numa sala de espera. Ap&oacute;s todos os esclarecimentos relativos &agrave; pesquisa e estes acordarem em conceder o seu depoimento, os mesmos foram encaminhados para um consult&oacute;rio disponibilizado pela institui&ccedil;&atilde;o, constituindo um ambiente tranquilo e favor&aacute;vel, de forma que se sentissem &agrave; vontade com o entrevistador.</p>     <p>Obteve-se uma homogeneidade da popula&ccedil;&atilde;o da pesquisa em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; vari&aacute;vel sexo, onde se pode notar uma pequena maioria dos participantes do sexo feminino, com 53,3%. Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; faixa et&aacute;ria, os participantes concentraram-se na faixa et&aacute;ria de 30 a 39 anos, com 46,7%, seguido da faixa de 40 a 49 anos, com 30%. Em rela&ccedil;&atilde;o ao tempo de diagn&oacute;stico, a grande maioria dos sujeitos do estudo convive com o HIV h&aacute; mais de sete anos. No que se refere ao tempo de utiliza&ccedil;&atilde;o de antirretrovirais, 33,3 % fazem uso das medica&ccedil;&otilde;es entre 4 e 6 anos, seguido de 30% que est&atilde;o entre 7 a 10 e outros 20% utilizam os ARV entre 11 e 14 anos. J&aacute; os que fazem uso das medica&ccedil;&otilde;es h&aacute; menos de 3 anos e entre 15 a 18 anos ambos representam 6,7%.</p>     <p>Os dados foram coletados atrav&eacute;s de um question&aacute;rio de caracteriza&ccedil;&atilde;o socioecon&oacute;mica e entrevistas semi-estruturadas em profundidade, orientadas por um roteiro tem&aacute;tico. Este &uacute;ltimo possu&iacute;a os seguintes t&oacute;picos: levantar os conceitos que os usu&aacute;rios possuem acerca da, procurando fazer uma compara&ccedil;&atilde;o antes e depois do diagn&oacute;stico; Identificar os sentimentos que os sujeitos possu&iacute;am com rela&ccedil;&atilde;o ao HIV antes do diagn&oacute;stico; Identificar os sentimentos surgidos durante o processo de descoberta diagn&oacute;stica e ao longo do tempo de estado seropositivo, desde ent&atilde;o; Expor as experi&ecirc;ncias que os sujeitos tiveram com o HIV antes e depois do diagn&oacute;stico; Levantar as atitudes que o sujeito possu&iacute;a com rela&ccedil;&atilde;o ao HIV antes do diagn&oacute;stico; Buscar tamb&eacute;m as atitudes que o seu grupo social possu&iacute;a e ainda possui frente ao s&iacute;ndroma; Levantar os mitos e as cren&ccedil;as que o sujeito e seu grupo social possuem; Levantar os motivos pelos quais as pessoas se contaminam pelo v&iacute;rus; Procurar como o sujeito entende a origem do HIV no mundo; Verificar as fontes de informa&ccedil;&atilde;o que o paciente possu&iacute;a antes de ser seropositivo e atualmente; Levantar o que significa ser seropositivo para o sujeito.</p>     <p>Para garantir uma maior fidedignidade, optou-se por gravar as entrevistas com um aparelho digital sendo que, posteriormente, foram transcritas. As entrevistas ocorreram nos meses de abril e maio de 2009 e o tempo de cada uma variou de 30 minutos a 1 hora e meia. Para analisar os dados obtidos utilizou-se a an&aacute;lise de conte&uacute;do tem&aacute;tica-categorial (Bardin, 2011; Oliveira, 2008). Destaca-se que o estudo foi desenvolvido &agrave; luz das normas e diretrizes de desenvolvimento de pesquisa na Resolu&ccedil;&atilde;o 196, de 1996, do Conselho Nacional de Sa&uacute;de. O projeto foi submetido ao comit&ecirc; de &eacute;tica da Prefeitura Municipal do munic&iacute;pio do Rio de Janeiro e aprovado sob o protocolo n&ordm; 200/2008, sendo tamb&eacute;m avaliado pela dire&ccedil;&atilde;o da institui&ccedil;&atilde;o, autorizou a sua realiza&ccedil;&atilde;o. A partir da autoriza&ccedil;&atilde;o institucional foi realizada a aproxima&ccedil;&atilde;o dos sujeitos, que formalizaram a sua participa&ccedil;&atilde;o e tomaram consci&ecirc;ncia dos aspectos &eacute;ticos mediante a explica&ccedil;&atilde;o e o conhecimento do projeto. Elaborou-se um termo de consentimento livre e esclarecido que explicitava, ainda, a liberdade do sujeito em se recusar a participar ou retirar o seu consentimento em qualquer fase da pesquisa, sem nenhum preju&iacute;zo para a sua pessoa e em rela&ccedil;&atilde;o ao seu atendimento. Foi assegurada, tamb&eacute;m, a garantia do sigilo que assegura a privacidade em rela&ccedil;&atilde;o aos dados confidenciais envolvidos no estudo. Desse modo, os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido do qual uma c&oacute;pia ficou com o entrevistado e outra com o pesquisador.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Resultados e discuss&atilde;o</b></p>     <p>O corpus abarcou 30 entrevistas, resultando em 556 unidades de registro (UR), distribu&iacute;das em 64 temas/unidades de significa&ccedil;&atilde;o. Originaram-se da segmenta&ccedil;&atilde;o do material discursivo 5 categorias, quais sejam: Do sofrimento &agrave; dificuldade de encontrar sentido perante do diagn&oacute;stico; Dando a volta por cima: o encontro de sentidos; Da dificuldade de ades&atilde;o ao tratamento &agrave; esperan&ccedil;a de cura; Os relacionamentos transcendentais; e A presen&ccedil;a da religiosidade no viver com HIV.</p>     <p><b>Do sofrimento &agrave; dificuldade de encontrar sentido perante do diagn&oacute;stico</b></p>     <p>Os participantes falam dos seus sentimentos, pr&aacute;ticas e atitudes no processo de descoberta diagn&oacute;stica, os quais revelam grande sofrimento. Referem, ainda, sentimentos negativos devido &agrave; representa&ccedil;&atilde;o da doen&ccedil;a ligada &agrave; morte. Assim, a maioria sente a proximidade acelerada da morte, decorrente da infe&ccedil;&atilde;o pelo HIV.</p>     <p><i>Eu achava que a HIV era igual &agrave; morte, era uma equa&ccedil;&atilde;o: HIV = morte (E 2)</i>.</p>     <p><i>Mas no in&iacute;cio foi um monstro, que eu pensava que ia-me matar, de imediato (E 8)</i>.</p>     <p>&Eacute; importante destacar que o medo da morte est&aacute; associado n&atilde;o s&oacute; &agrave; sua proximidade simb&oacute;lica, mas tamb&eacute;m ao abandono da fam&iacute;lia e dos filhos. Neste sentido, o foco desloca-se do processo de morrer e centra-se na fam&iacute;lia, que &eacute; um alvo que gera grande preocupa&ccedil;&atilde;o.</p>     <p><i>Foi de revolta, foi o medo de morrer e n&atilde;o poder criar meus filhos (E 5)</i>.</p>     <p>Um sentimento que indica uma dificuldade de encontrar o sentido da vida perante o sofrimento de ser seropositivo &eacute; a falta de esperan&ccedil;a, relacionada principalmente com a forte representa&ccedil;&atilde;o social do HIV ligada &agrave; morte. A ang&uacute;stia e a tristeza tamb&eacute;m foram sentimentos negativos muito referidos, aquando da descoberta diagn&oacute;stica. Estes sentimentos foram os primeiros a serem vivenciados pelos participantes, estando associados a situa&ccedil;&otilde;es vividas decorrentes do diagn&oacute;stico positivo, como a rejei&ccedil;&atilde;o, que pode estar ligada ao preconceito e &agrave; discrimina&ccedil;&atilde;o que acompanham a doen&ccedil;a.</p>     <p><i>Com a nossa sa&uacute;de com doen&ccedil;as desse tipo, a gente psicologicamente fica abalado, d&aacute; um desespero, uma falta de esperan&ccedil;a (E 3)</i>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Porque a pessoa fica muito triste. Fica com muita ang&uacute;stia, se acha rejeitada (E 4)</i>.</p>     <p> Num estudo realizado com mulheres que receberam o diagn&oacute;stico positivo para o HIV no momento da gesta&ccedil;&atilde;o, ficou constatado que, para al&eacute;m de sentimentos de tristeza, ang&uacute;stia, indigna&ccedil;&atilde;o e indiferen&ccedil;a, tamb&eacute;m existe o medo da morte, sentimentos tamb&eacute;m evidenciados no presente estudo (Ara&uacute;jo <i>et al</i>., 2008).</p>     <p>Outro sentimento que ocorre no in&iacute;cio do processo diagn&oacute;stico &eacute; o de n&atilde;o querer mais viver, sendo expresso principalmente por duas formas relativas ao suic&iacute;dio. A primeira forma &eacute; a tentativa de suic&iacute;dio concreto. A segunda &eacute; a vontade de suicidar, n&atilde;o levando a nenhuma tentativa, ficando apenas na esfera do pensamento e do desejo.</p>     <p><i>Eu atravessei na frente de um carro, o carro me atropelou, quebrei um bra&ccedil;o e eu queria morrer para n&atilde;o passar pelo mesmo sofrimento que o meu parceiro passou. Foi quando eu perdi a no&ccedil;&atilde;o, trabalhava na enfermagem, os m&eacute;dicos estavam falando comigo e eu n&atilde;o ouvia na hora. Foi a&iacute; que eu tive que me afastar do meu trabalho e tive que fazer tratamento psiqui&aacute;trico (E 23)</i>.</p>     <p><i>Porque se n&atilde;o fosse atrav&eacute;s dele, n&atilde;o estaria aqui, acho que eu tinha me suicidado (E 6.)</i></p>     <p>O sentimento de depress&atilde;o foi um dos mais referidos pelos participantes da pesquisa decorrente da descoberta diagn&oacute;stica. Embora n&atilde;o tenham sido expostas pelos participantes, infere-se que estes sentimentos podem estar relacionados a diversas situa&ccedil;&otilde;es, tais como a falta de preven&ccedil;&atilde;o, algo que poderia ter sido evitado, ou at&eacute; endere&ccedil;ados &agrave; pessoa que causou o cont&aacute;gio. A solid&atilde;o tamb&eacute;m foi referida como um dos principais sentimentos.</p>     <p><i>Eu fiquei em depress&atilde;o como eu falei contigo. [...] Fiquei emocionada, fiquei isolada um pouquinho, entrei em depress&atilde;o (E 1)</i>.</p>     <p><i>N&atilde;o, a&iacute; eu comecei a sentir que eu queria ficar sozinha, sozinha, sozinha, sozinha, sozinha. Eu fiquei quase, foi quase um m&ecirc;s e meio sozinha, queria ficar sozinha (E 16)</i>.</p>     <p>O medo da morte, a dor e o desespero n&atilde;o s&atilde;o propriamente emo&ccedil;&otilde;es espirituais, e embora possam indicar uma dificuldade de encontrar um sentido para a vida, servem, muitas vezes, como precondi&ccedil;&otilde;es ou antecipa&ccedil;&otilde;es da espiritualidade (Solomon, 2003). Assim, a espiritualidade oferece um sentido para a vida, garantindo um espa&ccedil;o onde encontrar consolo e energia para enfrentar a incerteza e o medo, a discrimina&ccedil;&atilde;o e o preconceito, a solid&atilde;o, a dor e a proximidade da morte. O caminho da espiritualidade parece despontar como uma das trajet&oacute;rias principais para lidar com problemas de sa&uacute;de, incluindo-se o HIV (Meneghel <i>et al</i>., 2008).</p>     <p>Uma caracter&iacute;stica da dificuldade de encontrar sentido perante o diagn&oacute;stico &eacute; a nega&ccedil;&atilde;o, ou seja, a n&atilde;o aceita&ccedil;&atilde;o de estar infectado por uma doen&ccedil;a cuja representa&ccedil;&atilde;o &eacute; de morte e que ainda est&aacute; rodeada de tabus, preconceitos, discrimina&ccedil;&atilde;o e estigmas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>N&atilde;o queria aceitar (E 26)</i>.</p>     <p>Outro sentimento que prejudica a espiritualidade pessoal &eacute; a culpabiliza&ccedil;&atilde;o frente &agrave; infe&ccedil;&atilde;o pelo HIV. Neste caso, a culpa muitas vezes recai sobre si, bem como no outro caracterizado como respons&aacute;vel por sua contamina&ccedil;&atilde;o, e at&eacute; sobre o divino. Frequentemente, este sentimento vem associado &agrave; ideia de castigo ou penit&ecirc;ncia, dando-se a ideia de que algu&eacute;m cometeu um erro e agora precisa pagar por ele. Da mesma forma, a culpa pode recair sobre o outro como justificativa para sua infe&ccedil;&atilde;o, tirando de cima de si qualquer responsabilidade de ter adquirido o v&iacute;rus. Trata-se de uma tentativa de supera&ccedil;&atilde;o, colocando-se como v&iacute;tima diante da situa&ccedil;&atilde;o.</p>     <p><i>A gente tem que tomar cuidados com as nossas palavras e apar&ecirc;ncias, com as nossas atitudes, porque quando se h&aacute; esse diagn&oacute;stico n&oacute;s mesmos nos acusamos (E 3)</i>.</p>     <p><i>Eu n&atilde;o vou falar, ah Senhor &eacute; culpa do Senhor, n&atilde;o (E 16)</i>.</p>     <p><i>E muitas vezes a gente, para poder superar esse problema, procura outros artif&iacute;cios, outras pessoas para colocar a culpa (E 3)</i>.</p>     <p> Desta forma, a espiritualidade configura-se como uma fonte de conforto, bem-estar, seguran&ccedil;a, significado, ideal e for&ccedil;a. Quando um indiv&iacute;duo se sente incapaz de encontrar um significado para os eventos da vida, como a doen&ccedil;a, ele sofre pelo sentimento de vazio e desespero. Ent&atilde;o, a espiritualidade oferece um referencial positivo para o enfrentamento da doen&ccedil;a, e ajuda a suportar os sentimentos de culpa, raiva e ansiedade (Saad e Medeiros, 2008).</p>     <p><b>Dando a volta por cima: o encontro de sentidos</b></p>     <p>Os participantes revelam uma s&eacute;rie de sentimentos, pr&aacute;ticas e atitudes que expressam um encontro de sentido, mesmo que este sentido n&atilde;o tenha sido relatado. Uma das estrat&eacute;gias de enfrentamento da doen&ccedil;a referida pelos entrevistados &eacute; a de lutar pela vida, lutar para sobreviver e viver. Esta estrat&eacute;gia estende-se ao outro que est&aacute; sob a responsabilidade da pessoa com HIV.</p>     <p><i>Eu falei com ele que eu ia lutar por mim e pelo meu filho (E 1).</i></p>     <p>A pessoa com HIV apresenta-se com uma viv&ecirc;ncia de sofrimento, na qual, num primeiro momento, a vida parece ter chegado ao fim, podendo ser ressignificada, de modo a que haja uma transforma&ccedil;&atilde;o interior. Quando se percebe que a morte n&atilde;o &eacute; iminente, mas que se ter&aacute; de conviver com uma doen&ccedil;a incur&aacute;vel, a vida &eacute; ressignificada, de modo a ser-lhe atribu&iacute;do algum sentido que pode modificar os sentimentos e a&ccedil;&otilde;es da pessoa com HIV em rela&ccedil;&atilde;o a si pr&oacute;pria e ao outro.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Destaca-se, portanto, que a pessoa pode ter uma doen&ccedil;a incur&aacute;vel, como &eacute; o caso do HIV, mas continua vivo e realizado, pois n&atilde;o perde o foco que d&aacute; sentido &agrave; sua exist&ecirc;ncia. Dessa forma, o sofrimento ganha sentido a partir do sentido maior dado a esta exist&ecirc;ncia (Martins, 2009).</p>     <p>Neste sentido, o sentido da vida no contexto do HIV &eacute; encontrado, por muitos participantes, atrav&eacute;s dos filhos. O cuidado que deve ser dispensado ao filho seropositivo e a preocupa&ccedil;&atilde;o em morrer e deix&aacute;-lo sozinho fazem com que a pessoa sinta vontade de viver, muito mais pela crian&ccedil;a do que por si mesmo. Mesmo diante do impacto de um diagn&oacute;stico positivo para o HIV, com consequente vontade de morrer, esta &eacute; suprimida ao se pensar na vida da crian&ccedil;a. A pessoa com HIV tamb&eacute;m v&ecirc; no filho um motivo para continuar a viver, &agrave; medida que sente a necessidade de cuidar dele e acompanh&aacute;-lo no seu crescimento, constituindo-se, portanto, uma fonte de for&ccedil;a para viver.</p>     <p><i>Prefiro cuidar mais dele do que de mim. Eu j&aacute; tenho uma vida, ele &eacute; uma crian&ccedil;a. E a minha melhorou porque eu cuido bem dele e parei de trabalhar porque eu vivia s&oacute; por ele. Meu mundo &eacute; s&oacute; por ele. Eu volto a tomar porque se eu n&atilde;o tomar vou cair doente, at&eacute; morrer por causa da idade j&aacute;, n&atilde;o vou deixar um filho para os outros criarem, ent&atilde;o prefiro tomar o meu rem&eacute;dio, e dar a ele tamb&eacute;m (E 1)</i>.</p>     <p><i>Mas eu penso em viver muito, cuidar do meu filho.Trabalhar normalmente, e assim a gente vai vivendo. Saio, me divirto e assim a gente vai vivendo (E 22)</i>.</p>     <p>Este mesmo resultado pode ser encontrado num outro estudo com mulheres gr&aacute;vidas portadoras de HIV positivo, que revela que existe o desencadeamento de um esfor&ccedil;o sobre-humano para lutar pela vida, para viver e poder criar os filhos. Dessa forma, apesar do sofrimento, da dor e da desilus&atilde;o, essas mulheres expressam um grande desejo de viver (Ara&uacute;jo <i>et al</i>., 2008).</p>     <p>Outra caracter&iacute;stica da espiritualidade em pessoas com HIV &eacute; o encontro de for&ccedil;as para continuar vivendo. Tendo for&ccedil;a de vontade, a pessoa consegue seguir a sua vida profissional, manter a qualidade de vida e acreditar no melhor para a mesma. A for&ccedil;a destacada associa-se a uma for&ccedil;a espiritual, essencial para o fortalecimento do corpo e da mente, revelando uma liga&ccedil;&atilde;o corpo-esp&iacute;rito.</p>     <p><i>For&ccedil;a de vontade. Para continuar o servi&ccedil;o, que eu era dom&eacute;stica (E 1)</i>.</p>     <p><i>Cren&ccedil;a &eacute; acreditar em alguma coisa, ter for&ccedil;a espiritual, tem que buscar for&ccedil;a espiritual para dar for&ccedil;a para a nossa carne tamb&eacute;m (E 27)</i>.</p>     <p>Uma caracter&iacute;stica resultante da ressignifica&ccedil;&atilde;o do processo de adoecimento e, portanto, de uma nova espiritualidade, manifesta-se em sentir alegria e felicidade mesmo perante a doen&ccedil;a. Estes sentimentos foram vividos mais intensamente ap&oacute;s o diagn&oacute;stico positivo do HIV, ou seja, sentem-se mais alegres e felizes vivendo com o v&iacute;rus do que antes, quando n&atilde;o o possu&iacute;am.</p>     <p><i>Desde ent&atilde;o, eu estou sobrevivendo, agora eu posso dizer que eu sou uma pessoa feliz. Que antes eu n&atilde;o era feliz, pelo contr&aacute;rio, eu n&atilde;o tinha HIV, mas n&atilde;o era feliz, depois que eu fiquei seropositivo que eu me separei, e procuro continuar minha vida. [...] e agora eu procuro a minha felicidade. Ent&atilde;o, agora, eu me acho mais feliz, depois que eu fiquei doente (E 5)</i>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Um sentido encontrado para o viver com o HIV tamb&eacute;m foi caracterizado pelos entrevistados como uma sensa&ccedil;&atilde;o de crescimento pessoal e espiritual, uma condi&ccedil;&atilde;o de aprimoramento.</p>     <p><i>S&oacute; me fez crescer realmente, nunca me atrapalhou em nada. [...] Mas eu cresci muito depois [...] Aprimoramento, aperfei&ccedil;oamento. Para mim &eacute; tudo. Dali ele vai come&ccedil;ar a crescer espiritualmente tamb&eacute;m (E 13)</i>.</p>     <p>Concorda-se, portanto que a espiritualidade constitui-se como um recurso poderoso de resist&ecirc;ncia e enfrentamento &agrave; doen&ccedil;a, abrindo-se para a aceita&ccedil;&atilde;o do doente, para a escuta n&atilde;o julgadora e para a possibilidade do perd&atilde;o, permitindo, principalmente, dar outro sentido para a experi&ecirc;ncia da doen&ccedil;a (Meneghel <i>et al</i>., 2008).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Da dificuldade de ades&atilde;o ao tratamento &agrave; esperan&ccedil;a de cura</b></p>     <p>     <p>Os participantes que fazem tratamento medicamentoso comentam sobre as suas dificuldades em aderir &agrave; terapia antirretroviral. Mesmo n&atilde;o querendo tomar as medica&ccedil;&otilde;es, sabem que as suas vidas dependem da sua utiliza&ccedil;&atilde;o. Assim, caracterizam-na como uma luta, levando a sentimentos de tristeza. Atribuem import&acirc;ncia &agrave; perseveran&ccedil;a, principalmente no in&iacute;cio da terapia, que se trata de algo dif&iacute;cil.</p>     <p><i>Cada medica&ccedil;&atilde;o que eu tomava, que eu tinha que mudar, pra mim era uma luta, eu chorava, porque eu sabia que aquele rem&eacute;dio, eu ia tomar, eu tinha que fazer uma escolha: ou viver ou parar o rem&eacute;dio e ficar com um corpo bonito e morrer (E 5)</i>.</p>     <p>Para Cardoso e Arruda (2004), o in&iacute;cio do tratamento equivale a um segundo diagn&oacute;stico de morte anunciada, devido &agrave;s dificuldades enfrentadas no quotidiano com o uso dos antirretrovirais.</p>     <p>Quando falam do outro, a dificuldade de ades&atilde;o e o abandono do tratamento s&atilde;o caracterizados pela falta de amor &agrave; vida ou amor-pr&oacute;prio. Associados a isso est&atilde;o os efeitos adversos das medica&ccedil;&otilde;es, tais como a mudan&ccedil;a corporal, al&eacute;m da vergonha de que os outros descubram a sua situa&ccedil;&atilde;o sorol&oacute;gica e a depress&atilde;o, causada pela doen&ccedil;a.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Porque aqui eu conhe&ccedil;o muitas meninas, aqui, que elas fazem tratamento, e o rem&eacute;dio est&aacute; fazendo mal, est&aacute; mudando o corpo, elas param, elas n&atilde;o continuam. E al&eacute;m de n&atilde;o continuar, elas n&atilde;o t&ecirc;m um pingo de amor &agrave; vida delas (E 5)</i>.</p>     <p>Outra caracter&iacute;stica de quem abandona o tratamento citada pelos entrevistados &eacute; a vontade de morrer, ou seja, n&atilde;o ter mais sentido de viver. Sendo assim, os participantes caracterizam as pessoas que abandonam o tratamento como irrespons&aacute;veis e depressivas.</p>     <p><i>Olha na minha cabe&ccedil;a &eacute; irresponsabilidade ou n&atilde;o quer viver. [...] Agora se voc&ecirc; deixa de tomar ou voc&ecirc; est&aacute; com muita depress&atilde;o, n&atilde;o quer viver, irresponsabilidade com a pr&oacute;pria vida dela, eu que n&atilde;o sou respons&aacute;vel (E 8)</i>.</p>     <p>Apesar da falta de ades&atilde;o &agrave; terapia ser caracterizada como uma dificuldade de vivenciar e cultivar a espiritualidade, no que se refere ao n&atilde;o querer mais viver, por outro lado, o exerc&iacute;cio da espiritualidade pode trazer consequ&ecirc;ncias negativas associadas a essa ades&atilde;o. Um exemplo disso &eacute; o abandono do tratamento, associada &agrave; cren&ccedil;a numa poss&iacute;vel cura espiritual, divina. Os participantes referem que conhecem pessoas que j&aacute; passaram por esta situa&ccedil;&atilde;o e condenam esta pr&aacute;tica, parecendo estar conscientes da import&acirc;ncia da ades&atilde;o &agrave; terapia.</p>     <p><i>Outras acham que Deus vai curar, voc&ecirc; cansa de ver, de ouvir isso aqui. &Agrave;s vezes abandona o tratamento por conta dessa poss&iacute;vel cura divina. Voc&ecirc; n&atilde;o pode abandonar e achar que Deus vai descer na terra e vai te curar se n&atilde;o voc&ecirc; s&oacute; vai morrer (E 2)</i>.</p>     <p>Ainda assim, muitos participantes t&ecirc;m esperan&ccedil;a na cura divina, atrav&eacute;s do poder sobrenatural. Por ser uma doen&ccedil;a incur&aacute;vel, acreditam que s&oacute; o divino as poder&aacute; curar. Neste sentido, a cren&ccedil;a na cura d&aacute;-se atrav&eacute;s de dois processos, a saber: diretamente, ou seja, o divino curando o indiv&iacute;duo espiritualmente, e indiretamente, dando intelig&ecirc;ncia ao homem para que descubra, atrav&eacute;s de pesquisas, a cura. Perante isso, pr&aacute;ticas como fazer votos para receber a cura divina passam a ser desenvolvidas.</p>     <p><i>[eu creio] Na cura Divina (E 11)</i>.</p>     <p><i>Uns falam que Deus pode curar tudo, fazemos o nosso voto porque n&atilde;o somos bobos, mas &eacute; dif&iacute;cil. [...] eu acredito em Deus que se voc&ecirc; realmente merecer pode at&eacute; ser curado, mas Deus deu intelig&ecirc;ncia ao homem para estudar e descobrir (E 24)</i>.</p>     <p>Outro estudo tamb&eacute;m revelou que as pessoas com HIV apresentam, tamb&eacute;m, expetativa para a cura ainda n&atilde;o poss&iacute;vel no plano humano. Dessa forma, o indiv&iacute;duo com HIV positivo encontra sentido e for&ccedil;as para superar a doen&ccedil;a, ate que “um poss&iacute;vel milagre” aconte&ccedil;a (Galv&atilde;o e Paiva, 2011).</p>     <p>H&aacute; ainda participantes que possuem esperan&ccedil;a de cura, mesmo que n&atilde;o dependa do divino. Apenas acreditam que a cura existir&aacute; no futuro atrav&eacute;s das pesquisas, e esta f&eacute; f&aacute;-los pensar que a cura do HIV n&atilde;o &eacute; imposs&iacute;vel.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Eu acredito que por mais que n&atilde;o tenha cura hoje, possa at&eacute; morrer, mas vai existir uma cura (E 8)</i>.</p>     <p>E at&eacute; mesmo penso que um dia v&atilde;o descobrir a cura dessa doen&ccedil;a (E 11).</p>     <p>A cren&ccedil;a na cura do HIV tamb&eacute;m &eacute; discutida por Cardoso e Arruda (2004), que constataram que, mesmo sabendo-se que a cura ainda n&atilde;o existe, as pessoas infectadas vislumbram sempre a cura no futuro. Acreditam que enquanto a cura n&atilde;o chega existiria uma “cura paliativa”, devido ao uso do medicamento associado a uma vida regrada e saud&aacute;vel.</p>     <p><b>Os relacionamentos transcendentais</b></p>     <p>Esta categoria refere-se ao relacionamento que os participantes t&ecirc;m consigo pr&oacute;prios, com os outros e com o divino. No que se refere ao relacionamento consigo pr&oacute;prios, o sentimento de amor apareceu como amar a si mesmo, a “ amar-se mais” ap&oacute;s o diagn&oacute;stico positivo para o HIV. Al&eacute;m disso, a pr&oacute;pria vida em si significa amor.</p>     <p><i>Comigo isso n&atilde;o acontece n&atilde;o, nunca aconteceu [abandonar o tratamento], acho que eu passei a me amar mais (E 10)</i>.</p>     <p>Quanto ao cuidar de si, os participantes tamb&eacute;m expressam a sua rela&ccedil;&atilde;o consigo pr&oacute;prios atrav&eacute;s do estabelecimento do cuidado. Esse cuidado expressa-se principalmente na mudan&ccedil;a de h&aacute;bitos e de atividades di&aacute;rias para proporcionar a si mesmos um bem-estar f&iacute;sico, embora o aspecto emocional tamb&eacute;m n&atilde;o seja descartado.</p>     <p><i>Porque eu, depois que descobri, comecei a ter um cuidado maior comigo. Depois que ela me explicou tudinho, me orientou, me ensinou, eu procurei ter mais cuidado comigo. Hoje &eacute; me cuidar melhor, ter um pouco mais de preocupa&ccedil;&atilde;o comigo, com a minha sa&uacute;de, com a minha alimenta&ccedil;&atilde;o, com o meu estilo de vida, n&atilde;o ser sedent&aacute;ria. Tanto f&iacute;sica, emocionalmente, estou sempre cuidando (E 15)</i>.</p>     <p>Da mesma forma, no estudo de Coelho (2006), existe o discurso sobre uma nova conduta de vida e, na maioria das vezes, defende-se a ideia de que, vivendo feliz, se vive melhor. Apesar de o sentimento de condena&ccedil;&atilde;o persistir, a preocupa&ccedil;&atilde;o inicial de morte iminente diminui e como existe a vontade de viver, h&aacute; uma busca por uma maior qualidade de vida.</p>     <p>Em refer&ecirc;ncia ao relacionamento com o outro, aparecem sentimentos como amor, respeito e perd&atilde;o. O amor ao pr&oacute;ximo &eacute; visto como o ant&iacute;doto para o combate &agrave; solid&atilde;o e &agrave; depress&atilde;o. O amor pelo outro tamb&eacute;m est&aacute; associado ao desenvolvimento de sentimentos de bondade e altru&iacute;smo, oferecendo-lhes o desejo de ajudar o pr&oacute;ximo. A fam&iacute;lia tamb&eacute;m faz parte deste relacionamento com o outro sendo, muitas vezes, sin&oacute;nimo de apoio. Outra caracter&iacute;stica &eacute; pensar no outro primeiro, antes de pensar em si e cuidar da fam&iacute;lia, auxiliando na ades&atilde;o &agrave; terapia medicamentosa.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Tem que haver at&eacute; o respeito, o amor, o perd&atilde;o, a compreens&atilde;o (E 13)</i>.</p>     <p><i>Hoje eu posso dizer que se tiver um homem com fome na rua e eu sentir que ele est&aacute; com vontade de comer, ele vai comer, nem que eu divida com ele. E as pessoas t&ecirc;m que aprender que tem que ser dessa forma, voc&ecirc; tem que ter amor pelas pessoas (E 24)</i>.</p>     <p>Meu esposo e meus filhos [que me ajudaram a voltar ao tratamento] (E 4).</p>     <p>Observa-se a presen&ccedil;a do profissional auxiliar de enfermagem no desenvolvimento de uma rela&ccedil;&atilde;o que transcende o tratamento medicamentoso, alcan&ccedil;ando a parte emocional do paciente. O profissional enfermeiro tamb&eacute;m aparece na ajuda &agrave; ades&atilde;o &agrave; terapia antirretroviral, fazendo com que a pessoa com HIV reflita sobre sua vida e fam&iacute;lia.</p>     <p><i>Dar for&ccedil;a para o paciente sair da pior [o papel do auxiliar de enfermagem]. Por que a fun&ccedil;&atilde;o do t&eacute;cnico &eacute; s&oacute; a medica&ccedil;&atilde;o, mas &eacute; o auxiliar que vai conseguir mexer com o interior do paciente (E 3)</i>.</p>     <p><i>A enfermeira [que tamb&eacute;m me ajudou a voltar ao tratamento]. Falou que em primeiro lugar eu tenho que pensar em meus filhos. Ter amor a meus filhos (E 4)</i>.</p>     <p>Mediante uma rela&ccedil;&atilde;o de confian&ccedil;a e cumplicidade, o HIV positivo espera de quem o atende a compreens&atilde;o da complexidade que &eacute; conviver com a doen&ccedil;a. Os profissionais de sa&uacute;de lidam quotidianamente com pessoas ansiosas por partilhar as suas dores, ang&uacute;stias, d&uacute;vidas e medos. Assim, a pessoa que vive com HIV encontra no profissional a figura de algu&eacute;m em quem pode confiar (Galv&atilde;o e Paiva, 2011).</p>     <p>Em rela&ccedil;&atilde;o ao relacionamento com o divino, os entrevistados n&atilde;o expressaram a sua religi&atilde;o, mas citam figuras divinas, como Deus, Jesus e os orix&aacute;s, entre outros, aos quais foi atribu&iacute;da uma s&eacute;rie de acontecimentos e situa&ccedil;&otilde;es da vida quotidiana. A refer&ecirc;ncia ao divino expressa-se, frequentemente, atrav&eacute;s da express&atilde;o “gra&ccedil;as a Deus”, que possui um sentido de gratid&atilde;o e de responsabilizar o divino por diversos acontecimentos.</p>     <p>Desse modo, atribuem ao divino o fato da n&atilde;o contamina&ccedil;&atilde;o do filho pelo HIV proveniente da m&atilde;e, a manuten&ccedil;&atilde;o de boas condi&ccedil;&otilde;es de sa&uacute;de, o dia de amanh&atilde; chegar e o estar infectado com o HIV e nunca ter sido internado, entre outros. Os participantes tamb&eacute;m expressam uma atribui&ccedil;&atilde;o divina quando se referem &agrave; unidade em que recebem atendimento m&eacute;dico. Assim, falam do tratamento adequado que os profissionais de sa&uacute;de oferecem, da localiza&ccedil;&atilde;o da unidade, relatam que a institui&ccedil;&atilde;o possui tudo o que precisam, tendo recursos suficientes, principalmente quando se referem aos medicamentos. Portanto, parecem estar satisfeitos com a institui&ccedil;&atilde;o de atendimento e a associam ao car&aacute;ter divino de d&aacute;diva, doa&ccedil;&atilde;o, e gratuidade.</p>     <p><i>A boa parte, gra&ccedil;as a Deus, a boa parte dos profissionais [d&atilde;o um tratamento adequado]. [...] Mas aqui, gra&ccedil;as a Deus, por ser um hospital de refer&ecirc;ncia e ter recursos para o meu problema eles tiveram o cuidado necess&aacute;rio e providenciaram os rem&eacute;dios. [...] Mas gra&ccedil;as a Deus, eu quando venho aqui no hospital n&atilde;o tenho nem vontade de trocar de unidade (E 3)</i>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Outra forma de relacionamento com o divino &eacute; ganhando for&ccedil;a atrav&eacute;s dessa rela&ccedil;&atilde;o, a partir do diagn&oacute;stico positivo para o HIV. O divino tamb&eacute;m foi a primeira fonte de apoio no processo de descoberta diagn&oacute;stica, sendo comum o seu apego neste momento e durante a vida. Assim, mesmo sabendo que a doen&ccedil;a n&atilde;o tem cura, a for&ccedil;a de vida muitas vezes &eacute; sentida atrav&eacute;s do relacionamento com o divino. Esta for&ccedil;a ajuda-os a continuar o tratamento, mesmo perante a tristeza de ser seropositivo e de n&atilde;o haver cura.</p>     <p><i>Primeiro [me apeguei] em Deus (E 12)</i>.</p>     <p><i>Me apeguei aos deuses, aos meus orix&aacute;s e tentei levar como estou levando at&eacute; hoje, tomando as medica&ccedil;&otilde;es, me cuidando e eu nunca tive nada (E 28)</i>.</p>     <p>Portanto, a reconstru&ccedil;&atilde;o da vida passa a ser um processo apoiado na normaliza&ccedil;&atilde;o do quotidiano, tornando-o o mais normal poss&iacute;vel, incluindo cuidar de si, manter rela&ccedil;&otilde;es com outras pessoas e com poderes divinos e transcender &agrave; doen&ccedil;a.</p>     <p><b>A presen&ccedil;a da religiosidade no viver com HIV</b></p>     <p>Os participantes falam das suas ora&ccedil;&otilde;es para diversos aspetos das suas vidas e da religi&atilde;o no modo de entender a doen&ccedil;a e de conviver com ela. A pr&aacute;tica de ora&ccedil;&atilde;o referida pelos entrevistados possui diversas finalidades, estando presente desde o momento do diagn&oacute;stico at&eacute; o tratamento medicamentoso e expectativas para o futuro. &Agrave; ora&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m &eacute; atribu&iacute;da o motivo de uma pessoa com HIV sobreviver, mesmo depois de muito tempo de conv&iacute;vio com a doen&ccedil;a. Al&eacute;m da sobreviv&ecirc;ncia, a ora&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m participa na vida dos entrevistados como uma fonte de for&ccedil;a para viver com HIV.</p>     <p><i>Mas eu pedia a Deus que desse negativo (E 16)</i>.</p>     <p><i>Ah, foi muita reza no cora&ccedil;&atilde;o, de sobreviver dez anos com esse problema (E 1)</i>.</p>     <p><i>Pedi a Cristo mais for&ccedil;a porque eu acho que se leva para o lado ruim ia ser pior (E 19)</i>.</p>     <p>Outro estudo tamb&eacute;m refere que a f&eacute; e a ora&ccedil;&atilde;o s&atilde;o tidas como grandes facilitadores &agrave; ades&atilde;o ao tratamento, sugerindo-se que sejam fatores a serem considerados durante a assist&ecirc;ncia a ser desenvolvida neste aspecto (Konkle-Parker, Erlen e Dubbert, 2008).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Outros aspectos religiosos citados pelos participantes est&atilde;o relacionados principalmente com a sua comunidade religiosa e com o entendimento do que &eacute; a doen&ccedil;a. Primeiramente, a religi&atilde;o aparece com uma fun&ccedil;&atilde;o importante logo no in&iacute;cio da descoberta diagn&oacute;stica, oferecendo um apoio como forma de enfrentamento da doen&ccedil;a.</p>     <p><i>Mas logo depois, eu acho que nesse momento foi importante, &eacute; importante ter uma religi&atilde;o, voc&ecirc; acreditar em alguma coisa, e consegui numa boa (E 2)</i>.</p>     <p>Uma pesquisa desenvolvida por Siegel e Schrimshaw (2002) investigou os benef&iacute;cios percebidos na utiliza&ccedil;&atilde;o do enfrentamento religioso por pessoas que vivem com HIV. Os principais a serem destacados foram: favorecimento de emo&ccedil;&otilde;es e sentimentos de conforto, sensa&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a, poder e controlo, disponibilidade de suporte social e sensa&ccedil;&atilde;o de perten&ccedil;a, facilita&ccedil;&atilde;o da aceita&ccedil;&atilde;o da doen&ccedil;a, al&iacute;vio do medo e da incerteza perante a morte.</p>     <p>Simultaneamente, a religi&atilde;o crist&atilde; aparece como um elemento de ancoragem, ou seja, apresenta-se como uma teoria explicativa do seu surgimento no mundo. &Eacute; importante destacar que, na falta de uma explica&ccedil;&atilde;o para esta origem, alguns entrevistados citam a referida religi&atilde;o, embora n&atilde;o seja aquela professada, para justific&aacute;-la. No entanto, outros entrevistados fazem essa associa&ccedil;&atilde;o com a sua cren&ccedil;a religiosa. Neste sentido, aparecem as palavras “peste” e “praga” para caracterizar o HIV de acordo com o livro em que se baseia a religi&atilde;o adotada, o que os entrevistados chamam de “palavra”, fazendo alus&atilde;o &agrave; B&iacute;blia dos crist&atilde;os. A explica&ccedil;&atilde;o &eacute; dada relacionando-se ao fim do mundo.</p>     <p><i>Bom, os crentes dizem que &eacute; o fim do mundo, que iriam aparecer essas doen&ccedil;as (E 5)</i>.</p>     <p><i>Ah, ouvimos falar, para quem &eacute; crist&atilde;o... Eles falam: “ah, isso &eacute; o final dos tempos, est&aacute; escrito na B&iacute;blia que no final dos tempos vai aparecer v&aacute;rios tipos de doen&ccedil;as incur&aacute;veis” (E 14)</i>.</p>     <p> Esta mesma conclus&atilde;o pode ser encontrada noutro estudo, que revela que a religi&atilde;o tamb&eacute;m &eacute; utilizada como estrat&eacute;gia para compreender o motivo da infe&ccedil;&atilde;o, ligada principalmente ao plano divino (Galv&atilde;o e Paiva, 2011).</p>     <p>A religi&atilde;o, na estrutura de igreja, tamb&eacute;m serve de apoio atrav&eacute;s da palavra ouvida pelas pessoas que fazem parte da institui&ccedil;&atilde;o religiosa. A igreja, juntamente com a f&eacute; e a confiss&atilde;o, faz parte da vida quotidiana, alimentando o esp&iacute;rito.</p>     <p><i>&Eacute; tipo Igreja tamb&eacute;m, eu ou&ccedil;o a palavra e sei o que eu tenho que fazer [...] &Eacute; f&eacute;, confiss&atilde;o, &eacute; igreja. Toda a minha vida &eacute; essa. Isso alimenta muito o nosso esp&iacute;rito (E 13)</i>.</p>     <p> Estas conclus&otilde;es est&atilde;o de acordo com outro estudo que, ao investigar estrat&eacute;gias de enfrentamento de pessoas com HIV, verificou que a procura de pr&aacute;ticas religiosas &eacute; uma das mais utilizadas (Faria e Seidl, 2006). Tamb&eacute;m ficou constatado noutro estudo que um fator de prote&ccedil;&atilde;o aos indiv&iacute;duos portadores de HIV pode ser a religiosidade, a qual tem se mostrado como um aspeto que pode ser intensificado a partir da viv&ecirc;ncia da seropositividade. Como fonte de interpreta&ccedil;&atilde;o para os acontecimentos da vida, a religiosidade pode representar apoio para o enfrentamento das dificuldades e para a mudan&ccedil;a de atitudes (Carvalho <i>et al</i>., 2007).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>Conclui-se que a descoberta diagn&oacute;stica para a pessoa com HIV &eacute; marcada por um conjunto de sentimentos, atitudes e pr&aacute;ticas que revelam sofrimento e dificuldade de ressignificar a vida e o sofrimento, caracterizada principalmente pela tentativa de suic&iacute;dio, sentimentos de culpabiliza&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o aceita&ccedil;&atilde;o da doen&ccedil;a. Por outro lado, este sofrimento tamb&eacute;m contribuiu para reflex&otilde;es e questionamentos, que se tornam num caminho para o encontro de sentido e, consequentemente, o cultivo da espiritualidade, demonstrando que a dificuldade de encontr&aacute;-lo &eacute; moment&acirc;nea. Desse modo, sentimentos como amor, esperan&ccedil;a, for&ccedil;a de vontade de viver, alegria e felicidade e f&eacute; na cura s&atilde;o express&otilde;es da espiritualidade de pessoas com HIV. Destaca-se, tamb&eacute;m, a import&acirc;ncia dos filhos como fonte geradora de sentido, dando-lhes motivo para querer viver.</p>     <p>Quanto &agrave; dificuldade de ades&atilde;o medicamentosa, percebe-se a procura de for&ccedil;a no divino para continuar a terapia antirretroviral. No entanto, a rela&ccedil;&atilde;o entre a religiosidade e a ades&atilde;o &agrave; terapia medicamentosa muitas vezes pode ser prejudicial para a manuten&ccedil;&atilde;o desta terapia. Outra caracter&iacute;stica da espiritualidade que se pode constatar neste estudo &eacute; o relacionamento transcendental consigo, com o outro e com o divino, fazendo com que as pessoas passem a amar-se mais, a cuidar-se mais, a preocuparem-se com o outro e procurar ajud&aacute;-lo, al&eacute;m de desenvolverem a&ccedil;&otilde;es de bondade e altru&iacute;smo. O relacionamento com o divino &eacute; expresso, principalmente, na atribui&ccedil;&atilde;o divina pelos acontecimentos do viver com HIV, concedendo for&ccedil;a aos sujeitos. A religiosidade enquanto express&atilde;o da espiritualidade &eacute; vivenciada, de modo especial, pela pr&aacute;tica de ora&ccedil;&otilde;es.</p>     <p>Perante isso, destaca-se a import&acirc;ncia da inclus&atilde;o da dimens&atilde;o espiritual dos sujeitos no processo de cuidar em Enfermagem, visto que a espiritualidade possui rela&ccedil;&atilde;o direta com o lidar com a doen&ccedil;a, com a sa&uacute;de e com a vida. Utilizando-se da for&ccedil;a e vontade de viver, bem como da esperan&ccedil;a como caminhos de compreens&atilde;o da totalidade do ser humano, a equipa de enfermagem poder&aacute; compreender, da mesma forma, o processo de enfrentamento e aceita&ccedil;&atilde;o da doen&ccedil;a, bem como o de recupera&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de. Infere-se, igualmente, que a espiritualidade constitui-se como um caminho para o desenvolvimento de pr&aacute;ticas profissionais de enfermagem visando a ades&atilde;o &agrave; terapia antirretroviral. Desse modo, o enfermeiro poder&aacute; auxiliar na manuten&ccedil;&atilde;o de pr&aacute;ticas espirituais e religiosas que promovam a sa&uacute;de, fortalecendo os mecanismos de enfrentamento e contribuindo para a melhora na qualidade de vida.</p>     <p>Portanto, abarcar a espiritualidade, juntamente com sua dimens&atilde;o religiosa, no cuidado &agrave; pessoa com HIV configura-se, assim, como uma inova&ccedil;&atilde;o nas pr&aacute;ticas de cuidado de Enfermagem. Desse modo, a equipa de Enfermagem constitui-se como uma chave para que a pessoa que vive com HIV encontre sentido para a sua exist&ecirc;ncia e para a sua doen&ccedil;a, de modo a cuidar de si e do outro, contribuindo para o desenvolvimento da sua responsabilidade e autonomia.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias Bibliogr&aacute;ficas</b></p>     <p>ARA&Uacute;JO, Maria Alix Leite [et al.] (2008) - Gestantes portadoras do HIV: enfrentamento e percep&ccedil;&atilde;o de uma nova realidade. Ci&ecirc;ncia, Cuidado e Sa&uacute;de. Vol. 7, n&ordm; 2, p. 216-223.</p>     <p>BARBAR&Aacute;, Andr&eacute;a ; SACHETTI, Virg&iacute;nia A. R. ; CREPALDI, Maria A. (2005) - Contribui&ccedil;&otilde;es das representa&ccedil;&otilde;es sociais ao estudo da Aids. Intera&ccedil;&atilde;o em Psicologia. Vol. 9, n&ordm; 2, p. 331-339.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>BARDIN, Laurence (2011) - An&aacute;lise de conte&uacute;do. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70.</p>     <p>CALDEIRA, S&iacute;lvia ; GOMES, Ana C. ; FREDERICO, Manuela (2011) – De um novo paradigma na gest&atilde;o dos enfermeiros: a espiritualidade no local de trabalho. Revista de Enfermagem Refer&ecirc;ncia. S&eacute;rie 3, n&ordm; 3, p. 25-35.</p>     <p>CARDOSO, Gisele P. ; ARRUDA, Angela (2004) - As representa&ccedil;&otilde;es sociais da soropositividade e sua rela&ccedil;&atilde;o com a observ&acirc;ncia terap&ecirc;utica. Ci&ecirc;ncia &amp; Sa&uacute;de Coletiva. Vol. 10, n&ordm; 1, p. 151-162.</p>     <p>CARVALHO, Fernanda Torres [et al.] (2007) - Fatores de prote&ccedil;&atilde;o relacionados &agrave; promo&ccedil;&atilde;o de resili&ecirc;ncia em pessoas que vivem com HIV/AIDS. Cadernos de Sa&uacute;de P&uacute;blica. Vol. 23, n&ordm; 9, p. 2023-2033.</p>     <p>COELHO, Aglaya Barros (2006) - Representa&ccedil;&otilde;es sociais de homens infectados pelo HIV acerca da Aids. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais. Disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado.</p>     <p>FARIA, Juliana B. ; SEIDL, Eliane M. F. (2006) - Religiosidade, enfrentamento e bem-estar subjetivo em pessoas vivendo com HIV/Aids. Psicologia em Estudo. Vol. 11, n&ordm; 1, p. 155-164.</p>     <p>GALV&Atilde;O, Marli T. G. ; PAIVA, Simone S. (2011) - Viv&ecirc;ncias para o enfrentamento do HIV entre mulheres infectadas pelo v&iacute;rus. Revista Brasileira de Enfermagem. Vol. 64, n&ordm; 6, p. 1022-1027.</p>     <p>KOENIG, Harold G. ; MCCULLOUGH, Michael E. ; LARSON David B. (2001) - Handbook of religion and health: a century of research reviewed. New York: Oxford University Press.</p>     <p>KONKLE-PARKER, Deborah J. ; ERLEN, Judith A. ; DUBBERT, Patricia M. (2008) - Barriers and facilitators to medication adherence in a southern minority population with HIV disease. Journal of the Association of Nurses in AIDS Care. Vol. 19, n&ordm; 2, p. 98-104.</p>     <p>MARTINS, Alexandre Andrade (2009) - Antropologia integral e hol&iacute;stica: cuidar do ser e a busca de sentido. Bioethikos. Vol. 3, n&ordm; 1, p. 87-99.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>MENEGHEL, Stela Nazareth [et al.] (2008) - Hist&oacute;rias de dor e de vida: oficinas de contadores de hist&oacute;rias. Sa&uacute;de e Sociedade. Vol. 17, n&ordm; 2, p. 220-228.</p>     <p>OLIVEIRA, Denize Cristina de (2008) - An&aacute;lise de conte&uacute;do tem&aacute;tico-categorial: uma proposta de sistematiza&ccedil;&atilde;o. Revista Enfermagem UERJ. Vol. 16, n&ordm; 4, p. 569-576.</p>     <p>SAAD, Marcelo ; MASIERO, Danilo ; BATTISTELA, Linamara R. (2001) - Espiritualidade baseada em evid&ecirc;ncias. Acta Fisi&aacute;trica. Vol. 8, n&ordm; 3, p. 107-112.</p>     <p>SAAD, Marcelo ; MEDEIROS, Roberta de (2008) - Espiritualidade e sa&uacute;de. Einstein. Vol. 6, n&ordm; 3, p. 135-136.</p>     <p>SIEGEL, Karolynn ; SCHRIMSHAW, Erik W. (2002) - The perceived benefits of religious and spiritual coping among older adults living with HIV/AIDS. Journal of the Scientific Study of Religion. Vol. 41, n&ordm; 1, p. 91-102.</p>     <p>SOLOMON, Robert C. (2003) - Espiritualidade para c&eacute;ticos: paix&atilde;o, verdade c&oacute;smica e racionalidade no s&eacute;culo XXI. Rio de Janeiro: Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira.</p>     <p>WALDOW, Vera R. ; LOPES, Marta J. M. ; MEYER, Dagmar E. (1998) - Maneiras de cuidar, maneiras de ensinar. Porto Alegre: Artes M&eacute;dicas.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Recebido para publica&ccedil;&atilde;o em: 30.08.12</p>     <p>Aceite para publica&ccedil;&atilde;o em: 07.03.13</p>     ]]></body>
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