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<journal-title><![CDATA[Revista de Enfermagem Referência]]></journal-title>
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<publisher-name><![CDATA[Escola Superior de Enfermagem de Coimbra - Unidade de Investigação em Ciências da Saúde - Enfermagem]]></publisher-name>
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<article-id>S0874-02832019000100016</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.12707/RIV18079</article-id>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Identidade da enfermeira: uma reflexão iluminada pela perspetiva de Dubar]]></article-title>
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<article-title xml:lang="es"><![CDATA[Identidad de la enfermera: una reflexión desde la perspectiva de Dubar]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade Federal do Rio de Janeiro Escola de Enfermagem Anna Nery ]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Background: Studies on professional identity constitute a challenge for research and instigates many considerations. Objective: To reflect on the process of construction of the professional identity of the female nurse according to Florence Nightingale, a precursor of modern nursing in the world. Key topics under analysis: Theoretical reflection which focuses on two seminal works written by Florence Nightingale: “Notes on Hospitals” (1859), and “Notes on Nursing: what it is and what it is not” (1860), based on the concepts of Claude Dubar about professional identity. Conclusion: The studies pointed out that the professional identity of the nightingalean nurse was shaped in the hospital, stemming from the knowledge and practice of the principles of care and administration, oriented by discipline, defined by Nightingale. They showed that, by implementing her education model, Nightingale caused a detachment from the identity legitimized by religious orders of that period, which may have contributed to the (re/de)construction of the professional identity of female nurses.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="es"><p><![CDATA[Marco contextual: Los estudios sobre la identidad profesional se configuran como un desafío de investigación y provocan muchas reflexiones. Objetivo: Reflexionar sobre el proceso de formación de la identidad profesional de la enfermera según Florence Nightingale, precursora de la enfermería moderna en el mundo. Principales temas en análisis: Reflexión teórica en torno a dos obras muy importantes escritas por Florence Nightingale: “Notes on Hospitals” (1859) y “Notes on Nursing: what it is, and what it is not” (1860), basada en los conceptos de Claude Dubar sobre la identidad profesional. Conclusión: Los estudios apuntaron a que la identidad profesional de la enfermera nightingaleana se constituyó en el espacio hospitalario, a partir del conocimiento y de la práctica de los principios de los cuidados y de la administración, mediados por la disciplina, definidos por Nightingale. Se observó que Nightingale, al implantar su modelo de enseñanza, provocó una ruptura de la identidad legitimada por las órdenes religiosas de la época, lo que puede haber contribuido a la (re/de)construcción de la identidad profesional de las enfermeras.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[história da enfermagem]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGO TEÓRICO/ENSAIO</b></p>     <p align="right"><b>THEORETICAL PAPER/ESSAY</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Identidade da enfermeira: uma reflexão iluminada pela perspetiva de Dubar</b></p>     <p><b>The identity of the female nurse: a reflection from the perspective of Dubar</b></p>     <p><b>Identidad de la enfermera: una reflexión desde la perspectiva de Dubar</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Marinagela Aparecida Gonçalves Figueiredo</b><a href="#a1">*</a><a name="topa1"></a>        <br>   <img src="http:/img/revistas/id_orcid.gif"> <a href="http://orcid.org/0000-0003-1382-7819">http://orcid.org/0000-0003-1382-7819</a></p>     <p><b>Maria Angélica de Almeida Peres</b><a href="#a2">**</a><a name="topa2"></a>        ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <img src="http:/img/revistas/id_orcid.gif"> <a href="http://orcid.org/0000-0002-6430-3540">http://orcid.org/0000-0002-6430-3540</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topa1">*</a><a name="a1"></a> Ph.D., Enfermeira, Hospital Universitário    da Universidade Federal de Juiz de Fora/MG/Brasil, 36000-300, Minas Gerais,    Brasil [<a href="mailto:mary.hujf@gmail.com">mary.hujf@gmail.com</a>]. Contribuição    no artigo: pesquisa bibliográfica; recolha e análise de dados e discussão, escrita    do artigo. Morada para correspondência: Rua Dr. Antônio Vieira Penna, nº 426-202,    São Mateus, 36000-300, Minas Gerais, Brasil.</p>     <p><a href="#topa2">**</a><a name="a2"></a> Ph.D., Enfermeira, Escola de Enfermagem    Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 20211-110, Rio de Janeiro,    Brasil [<a href="mailto:angelica.ufrj@uol.com.br">angelica.ufrj@uol.com.br</a>].    Contribuição no artigo: orientação na seleção de fontes bibliograficas, análise    de dados e discussão, escrita do artigo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p><b>Enquadramento</b>: Os estudos sobre a identidade profissional configuram-se    como um desafio de investigação e instigam muitas reflexões.</p>     <p><b>Objetivo</b>: Refletir sobre o processo de formação da identidade profissional    da enfermeira segundo Florence Nightingale, precursora da enfermagem moderna    no mundo.</p>     <p><b>Principais tópicos em análise</b>: Reflexão teórica que se debruça sobre    duas obras seminais escritas por Florence Nightingale: &ldquo;<i>Notes on Hospitals</i>&rdquo;    (1859), e &ldquo;<i>Notes on Nursing: what it is, and what it is not</i>&rdquo; (1860),    ancorada nos conceitos de Claude Dubar sobre a identidade profissional.</p>     <p><b>Conclusão</b>: Os estudos apontaram que a identidade profissional da enfermeira    nightingaleana se constituiu no espaço hospitalar, a partir do conhecimento    e da prática dos princípios de cuidados e de administração, mediados pela disciplina,    definidos por Nightingale. Evidenciaram que Nightingale, ao implantar o seu    modelo de ensino, provocou uma rutura da identidade legitimada pelas ordens    religiosas da época, o que pode ter contribuído para a (re/de)construção da    identidade profissional das enfermeiras.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Palavras-chave</b>: história da enfermagem; construção social da identidade;    educação em enfermagem; cuidado de enfermagem</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p><b>Background</b>: Studies on professional identity constitute a challenge    for research and instigates many considerations.</p>     <p><b>Objective</b>: To reflect on the process of construction of the professional    identity of the female nurse according to Florence Nightingale, a precursor    of modern nursing in the world.</p>     <p><b>Key topics under analysis</b>: Theoretical reflection which focuses on two    seminal works written by Florence Nightingale: &ldquo;<i>Notes on Hospitals</i>&rdquo; (1859),    and &ldquo;<i>Notes on Nursing: what it is and what it is not</i>&rdquo; (1860), based on    the concepts of Claude Dubar about professional identity.</p>     <p><b>Conclusion</b>: The studies pointed out that the professional identity of    the nightingalean nurse was shaped in the hospital, stemming from the knowledge    and practice of the principles of care and administration, oriented by discipline,    defined by Nightingale. They showed that, by implementing her education model,    Nightingale caused a detachment from the identity legitimized by religious orders    of that period, which may have contributed to the (re/de)construction of the    professional identity of female nurses.</p>     <p><b>Keywords</b>: history of nursing; social construction of identity; education    in nursing; nursing care</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMEN</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Marco contextual</b>: Los estudios sobre la identidad profesional se configuran    como un desafío de investigación y provocan muchas reflexiones.</p>     <p><b>Objetivo</b>: Reflexionar sobre el proceso de formación de la identidad    profesional de la enfermera según Florence Nightingale, precursora de la enfermería    moderna en el mundo.</p>     <p><b>Principales temas en análisis</b>: Reflexión teórica en torno a dos obras    muy importantes escritas por Florence Nightingale: &ldquo;<i>Notes on Hospitals</i>&rdquo;    (1859) y &ldquo;<i>Notes on Nursing: what it is, and what it is not</i>&rdquo; (1860), basada    en los conceptos de Claude Dubar sobre la identidad profesional.</p>     <p><b>Conclusión</b>: Los estudios apuntaron a que la identidad profesional de    la enfermera nightingaleana se constituyó en el espacio hospitalario, a partir    del conocimiento y de la práctica de los principios de los cuidados y de la    administración, mediados por la disciplina, definidos por Nightingale. Se observó    que Nightingale, al implantar su modelo de enseñanza, provocó una ruptura de    la identidad legitimada por las órdenes religiosas de la época, lo que puede    haber contribuido a la (re/de)construcción de la identidad profesional de las    enfermeras.</p>     <p><b>Palabras clave</b>: historia de la enfermería; construcción social de la    identidad; educación en enfermería; atención de enfermería</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdução</b></p>     <p>Os estudos sobre a identidade profissional configuram-se como &ldquo;um exercício    de autoconhecimento das enfermeiras com consequente explicação de sua identidade    e da identidade da profissão&rdquo; (Padilha, 2006, p. 535). Estes estudos reafirmam    o papel da história &ldquo;no desenvolvimento contínuo de identidade – identidade    de indivíduos, grupos, nações ou gerações&rdquo; (Nelson, 2009, p. 782) e na reflexão    de que &ldquo;A história reflete e constitui identidade&rdquo; (Nelson & Wall, 2010, p.    01). Para Dubar (2012), as identidades constroem-se durante os processos de    socialização no trabalho e na educação, dentro das instituições.</p>     <p>Este artigo é uma reflexão teórica sobre o processo de formação da identidade    profissional da enfermeira na fase da enfermagem moderna, em duas obras seminais    escritas por Nightingale: &ldquo;<i>Notes on Hospitals</i>&rdquo; (Nightingale, 1859), e    &ldquo;<i>Notes on Nursing: what it is, and what it is not</i>&rdquo; (Nightingale, 1860).    Estas obras foram publicadas no idioma da autora (inglês), adquiridas na livraria    do Museu Florence Nightingale, localizada em Londres/Inglaterra. Esta reflexão    é baseada no referencial teórico de Claude Dubar. Florence Nightingale, &ldquo;uma    figura convincente no desenvolvimento da enfermagem, [sua] identidade, posição    pública e posição dentro das profissões de cuidados de saúde&rdquo; (Nelson & Rafferty,    2010, p. 06), personalidade mundialmente reconhecida como precursora da enfermagem    moderna, fase histórica em que a profissão vive atualmente.</p>     <p>A primeira obra apresenta o relatório das condições sanitárias do Hospital    de Renkioi (localizado na atual cidade de Istambul), no qual a autora atuou    durante a Guerra da Criméia (1854-1856), e uma descrição detalhada de como deveria    ser a construção e o funcionamento de hospitais para o cuidado aos doentes.    A segunda obra discorre sobre os princípios básicos dos cuidados de enfermagem    aos doentes e com ambiente hospitalar. Está redigido sobre a forma de manual,    com o intuito de ser um material de formação para as enfermeiras. Apresenta    um corpo de conhecimentos específicos diferente do conhecimento médico e detalha    as competências que as enfermeiras precisam de desenvolver. As competências    são explicadas ao longo de todo o livro, mas principalmente nos capítulos &ldquo;Gestão    básica das atividades&rdquo;, &ldquo;Criar falas expectativas e conselhos&rdquo; e &ldquo;Observação    do doente&rdquo;. O contributo de Nightingale é um marco histórico no que concerne    à profissionalização da enfermagem (Lopes, 2012, p. 05-06). A identidade, segundo    a conceção teórica deste estudo, é um processo &ldquo;simultaneamente estável e provisório,    individual e coletivo, subjetivo e objetivo, biográfico e estrutural, dos diversos    processos de socialização que, em conjunto, constroem os indivíduos e definem    as instituições&rdquo; (Dubar, 2005, p. 136). A identidade é construída por cada geração    com base em categorias e posições herdadas da geração precedente, mas também    por meio das estratégias identitárias nas instituições onde os indivíduos atuam    (Dubar, 1997, p. 118). Para tal, os indivíduos necessitam de referências identitárias    reconhecidas pelos demais na sua prática.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As aptidões, atribuições, características, competências e habilidades dos indivíduos    compõem a identidade profissional, que no caso da enfermagem foi constituída    pelas determinações que a envolveram: o saber da enfermagem – conhecimento,    arte e ética; a sua história – a sua prática, os seus atributos, as relações    de poder e a questão de género; e a formação da sua identidade consolidada no    espaço hospitalar.</p>     <p>As transformações ocorridas ao longo dos anos, no campo da saúde e da educação,    embora tenham elevado a enfermagem mundial à condição de profissão, requerem    ainda de maiores estudos sobre as suas origens, especialmente no que concerne    às suas heranças históricas, o que justifica este estudo e contribui para o    pensamento crítico sobre a história, a cientificidade, a profissionalização    e a formação da identidade da enfermeira. Refletir sobre o processo de formação    da identidade profissional da enfermeira nightingaleana, ancorado nos conceitos    de Claude Dubar, constituiu o objetivo deste estudo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Desenvolvimento</b></p>     <p>Após tradução das obras de Nightingale, foram realizadas leituras que viabilizaram    a reflexão sobre os aspetos referentes à identidade profissional da enfermeira,    que contribuíram para a construção dessa identidade a partir das relações sociais,    profissionais e o contexto hospitalar, ao longo do tempo, descritas pela autora.    Estes aspetos, apresentados na <a href="#f1">Figura 1</a>, possibilitaram uma    melhor visualização e aplicação dos conceitos de Dubar, referencial teórico    deste estudo.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"></a> <img src="/img/revistas/ref/vserIVn20/IVn20a16f1.jpg">      
<p>&nbsp;</p>     <p>No século XIX, várias transformações ocorreram em todos os campos sociais,    incluindo na saúde, o que leva ao avanço da medicina e favorece a reorganização    dos hospitais. Além de ser um espaço de cura, o hospital incorpora o desenvolvimento    técnico-científico, transformando-se num lugar de formação, não só dos futuros    médicos como também dos demais profissionais que se encontravam neste mesmo    espaço. Nightingale (1860) idealizou a criação da <i>Nightingale Training School    for Nurses at Saint Thomas Hospital</i>, considerando o hospital como um ambiente    onde as enfermeiras eram preparadas para os cuidados de enfermagem. É neste    cenário que a enfermagem moderna se desenvolveu. Nightingale foi uma figura    mítica no seu tempo, a <i>Dama da lâmpada</i>, reconhecida como a fundadora    da profissão moderna de enfermagem, visionária de uma abordagem mais ampla da    saúde, na qual a doença era um processo natural e, desta forma, os cuidados    e tratamentos deveriam ser simples, seguros, pautados nos cuidados com o ambiente    (McDonald, 2010). Nightingale tinha muitos conhecimentos sobre a organização    dos hospitais e o cuidado aos doentes, acumulados ao longo das suas viagens    para conhecer e aprender os cuidados de enfermagem, além da sua atuação como    voluntária no Hospital de Scutari e como superintendente em hospitais de Londres,    que a inspiraram a escrever as obras selecionadas. Além do seu reconhecimento    como a primeira teórica na área da enfermagem, a teoria ambientalista, na sua    segunda obra, deu &ldquo;a base explicativa de uma profissão&rdquo; (Carvalho, 2009, p.    641). Acerca do hospital como lócus de formação da identidade profissional,    Dubar (2005, p. XXI) refere que:</p>     <p>     <blockquote>Todas as identidades são denominações relativas a uma época histórica    e de um tempo de contexto social. Assim, todas as identidades são construções    sociais e de linguagem que são acompanhadas em maior ou menor grau, por racionalizações    e reinterpretações que, às vezes, as fazem passar por essências intemporais.</blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p></p>     <p>É a partir das sucessivas socializações que ocorrem com os indivíduos, no seu    processo de trabalho, e ou de educação, que as identidades se formam no contexto    das instituições (Dubar, 2012).</p>     <p>Nightingale é considerada uma reformadora social devido à sua visão de um sistema    global de cuidados de saúde. Antes da criação da escola de formação, Nightingale    atuava na reforma de hospitais em Londres. Com base em estudos matemáticos,    comprovou a relação entre a diminuição dos índices de mortalidade e o cuidado    prestado no Hospital de Scutari, tornando-se a primeira mulher a publicar um    trabalho estatístico e a ser aceite como membro da <i>Royal Statistical Society</i>    e membro honorário da <i>American Statistical Association</i> (McDonald, 2010).    Lopes e Santos, (2010, p. 185) relatam que em 1885 um grupo de cidadãos de Londres    que apoiavam Nightingale, angariaram fundos com o objetivo de &ldquo;Florence levar    a cabo reformas dos hospitais civis e estabelecer um Instituto para formação    de Enfermeiras&rdquo;. Desta forma, em 1860, em Londres, foi implantado um sistema    de ensino, idealizado por Nightingale, que visava a profissionalização da enfermagem,    até então mantida na sua fase pré-profissional, sob a condução de religiosos    ou qualquer pessoa que se dedicasse ao cuidado de pessoas doentes, tivessem,    ou não, formação (Padilha, Nelson, & Borestein, 2011). Neste sistema, Nightingale    definiu os pontos essenciais para o funcionamento da escola: direção a cargo    de uma enfermeira; ensino sistematizado; seleção de candidatos do ponto de vista    físico, moral, intelectual e aptidão profissional; estreita associação das escolas    de formação com os hospitais, mantendo a sua independência financeira e administrativa;    residência à disposição das estudantes durante o período de formação, próximo    ao hospital. Nightingale, na formação das enfermeiras, visava a aquisição de    habilidades e comportamentos, atributos pessoais e profissionais como uma forma    de melhoria do <i>status</i> social e o reconhecimento como pessoas competentes;    para atingir este objetivo, determinou o modelo do vestuário, as relações, a    moral e a ética como requisitos para a seleção das candidatas. Para Carvalho    (2013), as atribuições da enfermeira, segundo as proposições de Nightingale,    &ldquo;conformam a arte peculiar de cuidar em enfermagem e a específica identidade    profissional&rdquo;; &ldquo;a identidade profissional emerge definida nas proposições nightingaleanas,    a partir de 1860, na concepção magistral de ‘Notas sobre Enfermagem - o que    é e o que não é&rdquo; (p. 27). A criação da escola fundada por Florence Nightingale    levou a uma rutura da prática empírica, exercida por leigos, pela emergência    de uma prática sistematizada e racional, alicerçada em conhecimento científico    (Teodósio, 2014). A mesma pode ainda ser responsável pela formação de uma nova    identidade profissional a partir da consolidação da enfermagem como uma profissão,    no <i>cruzamento do seu saber com a ideologia</i>, o qual assume o significado    de <i>abnegação, obediência, dedicação</i>, marcando profundamente a profissão    de enfermagem até aos dias atuais. Para Teodósio (2014, p. 23), essa conceção    confirma-se no livro &ldquo;<i>Notes on Nursing: what it is, and what it is not</i>&rdquo;    (1860), no qual Nightingale ressalta a vocação, a religiosidade e a devoção    como perfil de enfermeiros. Goodrick e Reay (2010) evidenciam que o discurso    em livros de enfermagem é um veículo de comunicação que procura legitimar as    identidades profissionais.</p>     <p>Sobre os deveres das enfermeiras, Nightingale descreveu os atributos inerentes    à prática da enfermeira: vocação genuína e amor pelo trabalho; dever e consciência;    conhecimento e experiência; observação diária e vigilância constante dos doentes;    preparação formal e sistemática das enfermeiras.</p>     <p>     <blockquote>O processo de construção da identidade profissional da enfermeira    decorre de seus saberes, sua história, sua inserção nas diversas instâncias    políticas bem como das relações que estabelece com os demais profissionais da    área e com pessoas a quem presta cuidados. (Queirós, 2015, p. 49)</blockquote>     <p></p>     <p>Para Dubar (2005, p. 328): &ldquo;os *saberes profissionais* que implicam articulações    entre saberes práticos e saberes técnicos estão no centro da identidade estruturada    pelo ofício&rdquo;. A identidade profissional da enfermeira foi construída, baseada    nos &ldquo;atributos profissionais&rdquo; (Carvalho, 2009, p. 27), idealizados por Nightingale,    tendo como base os princípios de cuidados, administração, disciplina e a formação    da enfermeira no espaço hospitalar. Pela incorporação da forma de pensar e agir    de um grupo ocorre a socialização, a base da identidade profissional que se    constrói em sucessivas socializações. Ao socializarem-se, os indivíduos apreendem    os valores e as normas do grupo que passa a ser referência nas suas atitudes,    condutas e comportamentos (Dubar, 2005).</p>     <p>Quanto à disciplina, Nightingale percebeu a importância das normas durante    a formação e as experiências vivenciadas em hospitais de Londres e, principalmente,    em Scutari, quando encontrou diversas dificuldades para a sua administração.    No hospital, a falta de recursos, condições de higiene, resistência do corpo    médico, grande número de feridos da guerra e o despreparo das voluntárias que    a seguiram, desafiaram Nightingale a imprimir uma disciplina que impactou o    trabalho da enfermagem e o seu cuidado. A partir das experiências, ao retornar    a Londres, criou um sistema de ensino para formação das enfermeiras com foco    na formação, na vocação e na disciplina (Lopes & Santos, 2010). Em &ldquo;Notes on    Hospital&rdquo; de Florence Nightingale (1858), a apropriação das normas e condutas    equivaliam a comportamentos profissionais desejados, os quais deviam ser postos    em prática no hospital, constituindo parte da realidade do mundo do trabalho    à época, o que denota a identidade profissional construída no e pelo trabalho.    Na construção da identidade ocorrem várias identificações no sistema relacional    dos sujeitos, positivas ou negativas, que se integram &ldquo;através da coerência    de uma linguagem, isto é, através da estruturação dos signos e dos símbolos&rdquo;(Dubar,    1997, p. 32), o que pode ser observado em ‘<i>Notes on Nursing: what it is and    what it is not</i>’ (1860).</p>     <p>As duas obras escolhidas para este estudo permitiram refletir sobre a formação    da identidade profissional da enfermeira no contexto da sua prática e do saber/poder    da enfermagem à época.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A reflexão teórica sobre a construção da identidade da enfermeira a partir    das produções de Nightingale possibilitou pensar um outro modo de contextualizar    a enfermagem enquanto profissão, considerando os fragmentos que constituíram    a sua história. As obras estudadas apresentam os elementos que constituiram    o campo da educação em enfermagem em todo o mundo e os aspetos que legitimaram    o seu saber sobre o ambiente, o cuidado, a prática e a identidade profissional.    Assim, este estudo contribui para o pensamento crítico sobre a cientificidade    da profissão e traz à tona as ideias da personalidade que permitiram que a enfermagem    caminhasse enquanto profissão. As reflexões sobre o passado da profissão permitem    refletir sobre a sua história como indispensável para entender o presente e    o futuro. A reflexão sobre a história da enfermagem é um ponto de partida para    entender as <i>nuances</i> do desenvolvimento da enfermagem, e não apenas uma    referência em cima da historiografia ou dos livros que já foram escritos, mobilizando    profissionais, professores e estudantes para a importância desta, contribuindo    para reduzir as insuficiências neste campo de saber, estabelecendo a ponte entre    passado e presente, para construção do futuro.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclusão</b></p>     <p>Estudar as duas obras de Nightingale que apontam aspetos relevantes para a    criação e o desenvolvimento de um sistema de ensino tão importante, que levou    a profissão de enfermagem para outra fase histórica, foi relevante.</p>     <p>A reflexão proposta contribui para o pensamento crítico sobre a construção    da identidade profissional da enfermeira moderna por Nightingale e suscita novas    reflexões sobre esta identidade ao longo do processo de evolução da profissão,    até aos dias atuais.</p>     <p>Este estudo aponta várias evidências de que Nightingale, por meio da elaboração    de relatórios sanitários, propostas e projetos de construção de hospitais, do    seu funcionamento, e dos princípios de cuidados aos doentes e para com o ambiente,    contribuiu para a formação da identidade profissional da enfermeira. Esta afirmação    apoia-se nos conceitos de Dubar apresentados e discutidos neste artigo.</p>     <p>O modelo nightingaleano, difundido mundialmente a partir do século XIX, trouxe    a abordagem de como deveria ser um hospital restaurador da saúde, propício ao    cuidado das enfermeiras, e o que é, e o que não é enfermagem, e o que identifica    a enfermeira nightingaleana.</p>     <p>Há evidências de que Nightingale, ao criar e implantar o modelo de ensino,    levou a uma rutura com a identidade legitimada pelas ordens religiosas, por    meio dos seus conceitos, o que pode ter contribuído para a (re/des)construção    da identidade profissional das enfermeiras.</p>     <p>Tornam-se necessários novos estudos nos países onde o modelo nightingaleano    foi implantado, para o confronto científico das conceções no campo da história    da enfermagem. A questão da identidade profissional envolve múltiplos fatores    na sua formação, oriundos da história da enfermagem sobre a construção do saber    e da profissionalização.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Referências bibliográficas</b></p>     <!-- ref --><p>Carvalho, V. (2013). Sobre a identidade profissional na enfermagem: Reconsiderações    pontuais em visão filosófica. Revista Brasileira de Enfermagem, 66(esp), 24-32.    doi:10.1590/S0034-71672013000700003&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1060719&pid=S0874-0283201900010001600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Carvalho, V. (2009). Da enfermagem hospitalar: Um ponto de vista. Escola Anna    Nery, 13(3), 640-644. doi:10.1590/S1414-81452009000300026&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1060720&pid=S0874-0283201900010001600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Dubar, C. (1997). A socialização: Construção das identidades sociais e profissionais.    Porto, Portugal: Porto Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1060721&pid=S0874-0283201900010001600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Dubar, C. (2005). A socialização: Construção das identidades sociais e profissionais    (3 ed.). São Paulo, Brasil: Martins Fontes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1060723&pid=S0874-0283201900010001600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Dubar, C. (2012). A construção de si pela atividade de trabalho: A socialização    profissional. Cadernos de Pesquisa, 42(146), 351-367. doi:10.1590/S0100-15742012000200003&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1060725&pid=S0874-0283201900010001600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Goodrick, E., & Reay, T. (2010). Florence Nightingale endures: Legitimizing    a new professional role identity. Journal of Management Studies, 47(1). doi:10.1111/j.1467-6486.2009.00860.x&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1060726&pid=S0874-0283201900010001600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Lopes, M. (2012). Florence Nightingale: Algumas reflexões. In Enfermagem: De    Nightingale aos dias de hoje 100 anos (pp. 9-18). Coimbra, Portugal: Unidade    de Investigação em Ciencias da Saúde/ Escola Superior de Enfermagem de Coimbra.    Recuperado de <a href="https://web.esenfc.pt/v02/pa/conteudos/downloadArtigo.php?id_ficheiro=475"target="_blank">https://web.esenfc.pt/v02/pa/conteudos/downloadArtigo.php?id_ficheiro=475</a>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1060727&pid=S0874-0283201900010001600007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Lopes, l., & Santos, S. (2010). Florence Nightingale: Apontamentos sobre a    fundadora da enfermagem moderna. Revista de Enfermagem Referência, 3(2),181-    189. Recuperado de <a href="http://www.index-f.com/referencia/2010pdf/32-181.pdf"target="_blank">http://www.index-f.com/referencia/2010pdf/32-181.pdf</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1060729&pid=S0874-0283201900010001600008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>McDonald, L. (2010). Florence Nightingale a hundred years on: Who she was and    what she was not. Women’s History Review, 19(5), 721-740. doi:10.1080/09612025.2010.509934&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1060730&pid=S0874-0283201900010001600009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Nightingale, F. (1859). Notes on hospitals (3ª ed.). London, England: Harvard    College Library.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1060731&pid=S0874-0283201900010001600010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Nightingale, F. (1860). Notes on nursing: What it is, and what it is not. New    York, NY: Dover Publications.</p>     <!-- ref --><p>Nelson, S. (2009). Historical amnesia and its consequences: The need to build    histories of practice. 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Recuperado de <a href="https://www.researchgate.net/publication/286869862"target="_blank">https://www.researchgate.net/publication/286869862</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1060739&pid=S0874-0283201900010001600017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Teodósio, S. S. (2014). Formação e processos identitários de enfermeiro no    Rio Grand do Norte: Memória de egressos (anos de 1970). Recuperado de <a href="https://repositorio.ufsc.br/xmlui/handle/123456789/132943"target="_blank">https://repositorio.ufsc.br/xmlui/handle/123456789/132943</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1060740&pid=S0874-0283201900010001600018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>Recebido para publicação em: 26.10.18</p>     <p>Aceite para publicação em: 02.02.19</p>      ]]></body><back>
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