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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O ensino da história em tempos pós-coloniais: Comentário às análises dos manuais de história portugueses e brasileiros]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The results of the survey on textbooks used in Portuguese and Brazilian schools are very revealing about the representation of the discovery of Brazil. In what Portugal is concerned, it is clear that the nowadays understanding of the discovery is still closely connected to the old Portuguese colonial imaginary. As for the Brazilian textbooks, they provide a more ambiguous representation of the discovery: colonization is often taken as a synonym of westernization. In addition, in the Brazilian textbooks the positive evaluation coexists with severe critics about the negative impact of the European arrival to South America. On the whole, the textbooks from both sides of the Atlantic show that nowadays it is still difficult to achieve an understanding of the discovery of Brazil outside the master-narrative about both countries' history. This situation is, in part, the outcome of the incapacity of historians from both countries to promote a critical discussion of the European presence in South American lands during the early-modern period. Without such a discussion, it will be difficult to achieve a knowledge less focused on Portugal and more sensible to cultural difference.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Descobrimento]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p><font face="Verdana" size="4"><b>O ensino da hist&#243;ria em tempos p&#243;s-coloniais: Coment&#225;rio &#224;s an&#225;lises dos manuais de hist&#243;ria portugueses e brasileiros</b></font></p>          <p><font face="Verdana" size="2"><b>The teaching of history in post-colonial times</b></font></p>              <p>&nbsp;</p>          <p><font face="Verdana" size="2"><b>Pedro Cardim<sup>1</sup></b></font></p>         <p><font face="Verdana" size="2"><sup>1</sup>Universidade Nova de Lisboa.</font></p>          <p>&nbsp;</p>     <hr size="1" noshade>          <p><font face="Verdana" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Os resultados da sondagem efectuada a manuais de hist&#243;ria usados em escolas de Portugal e do Brasil s&#227;o muito reveladores acerca da imagem do descobrimento do Brasil. No que respeita a Portugal, verifica-se que a representa&#231;&#227;o do descobrimento continua a ser estruturada por uma s&#233;rie de cren&#231;as que entroncam no antigo imagin&#225;rio colonial lusitano. Quanto aos manuais brasileiros, transmitem uma imagem mais amb&#237;gua do descobrimento, onde <i>coloniza&#231;&#227;o</i> se confunde com <i>ocidentaliza&#231;&#227;o,</i> e onde a avalia&#231;&#227;o positiva do &#34;adiamento&#34; do Brasil convive com severas cr&#237;ticas &#224; destrui&#231;&#227;o provocada pela chegada dos europeus &#224; Am&#233;rica do Sul. No seu conjunto, os manuais de ambos os lados do Atl&#226;ntico tornam bem patente que continua a ser dif&#237;cil olhar para o descobrimento fora das narrativas mestras sobre a hist&#243;ria dos dois pa&#237;ses. Tal dificuldade dever-se-&#225;, em parte, &#224; incapacidade dos historiadores para promoverem uma reflex&#227;o cr&#237;tica sobre as condi&#231;&#245;es de produ&#231;&#227;o do saber acerca dos contactos entre europeus e sul-americanos. Sem essa reflex&#227;o, ser&#225; dif&#237;cil construir um conhecimento menos luso-centrado e mais sens&#237;vel &#224; diferen&#231;a cultural.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2"><b>Palavras-chave</b> Descobrimento, coloniza&#231;&#227;o, p&#243;s-colonialismo, ocidentaliza&#231;&#227;o.</font></p>      <hr size="1" noshade>          <p><font face="Verdana" size="2"><b>ABSTRACT</b></font></p>          ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">The results of the survey on textbooks used in Portuguese and Brazilian schools are very revealing about the representation of the discovery of Brazil. In what Portugal is concerned, it is clear that the nowadays understanding of the discovery is still closely connected to the old Portuguese colonial imaginary. As for the Brazilian textbooks, they provide a more ambiguous representation of the discovery: <i>colonization</i> is often taken as a synonym of <i>westernization.</i> In addition, in the Brazilian textbooks the positive evaluation coexists with severe critics about the negative impact of the European arrival to South America. On the whole, the textbooks from both sides of the Atlantic show that nowadays it is still difficult to achieve an understanding of the discovery of Brazil outside the master-narrative about both countries&#39; history. This situation is, in part, the outcome of the incapacity of historians from both countries to promote a critical discussion of the European presence in South American lands during the early-modern period. Without such a discussion, it will be difficult to achieve a knowledge less focused on Portugal and more sensible to cultural difference.</font></p>      <hr size="1" noshade>         <p>&nbsp;</p>          <p><font face="Verdana" size="2">Os resultados desta sondagem a manuais escolares de hist&#243;ria produzidos em Portugal e no Brasil s&#227;o merecedores de uma reflex&#227;o aprofundada e muito mais detalhada do que aquela que aqui propomos. De facto, nas linhas que se seguem limitamo-nos a comentar, de uma forma muito abreviada, o modo como a tem&#225;tica do descobrimento e da coloniza&#231;&#227;o do Brasil surge representada nos textos did&#225;cticos em uso nas escolas dos dois lados do Atl&#226;ntico. Come&#231;amos por indicar os resultados que nos parecem mais salientes, e de seguida articulamos esses resultados com o que a historiografia, tanto de Portugal como do Brasil, transmite acerca do tema do descobrimento. Nesse percurso, lidamos, fundamentalmente, com a mem&#243;ria do descobrimento e da coloniza&#231;&#227;o lusitana em terras bras&#237;licas, mas tamb&#233;m com a imagem que portugueses e brasileiros t&#234;m do seu passado e da hist&#243;ria das rela&#231;&#245;es entre ambos.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Entre os interessantes resultados apresentados pelas duas equipas de investiga&#231;&#227;o, existem alguns aspectos que se destacam. Antes de mais, e no que toca &#224; selec&#231;&#227;o tem&#225;tica, refira-se desde j&#225; que os manuais brasileiros concedem uma consider&#225;vel import&#226;ncia ao tema do descobrimento e da coloniza&#231;&#227;o, um evento representado como gerador de desenvolvimento econ&#243;mico e de avan&#231;o tecnol&#243;gico. Os dados relativos aos &#34;sujeitos hist&#243;ricos&#34; presentes nos manuais brasileiros possuem igualmente um grande interesse, j&#225; que nesses manuais foi poss&#237;vel identificar, fundamentalmente, tr&#234;s principais personagens, a saber: os colonizadores, os &#237;ndios e os europeus. Importa notar que a cada um deles &#233; concedido um espa&#231;o sensivelmente id&#234;ntico, embora a quest&#227;o ind&#237;gena pare&#231;a ser um dos temas mais candentes. No tocante aos africanos, eles tamb&#233;m comparecem, se bem que de um modo mais residual e quase sempre associados &#224; tem&#225;tica da escravid&#227;o. Comparativamente, os ind&#237;genas ocupam um espa&#231;o muito maior, representando cerca de 35% das p&#225;ginas dedicadas &#224; tem&#225;tica geral. Quanto &#224; escravatura, ela est&#225; presente, mas com um menor peso, facto que n&#227;o deixa de ser significativo.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Em face dos dados apresentados, podemos tamb&#233;m dizer que nos manuais brasileiros o colono aparece como o sujeito verdadeiramente actuante da hist&#243;ria colonial, embora surjam igualmente refer&#234;ncias &#224; actua&#231;&#227;o dos ind&#237;genas. Ali&#225;s, &#233; interessante verificar que at&#233; os ind&#237;genas s&#227;o retratados de um modo muito mais participativo do que os escravos africanos, j&#225; que estes comparecem sempre de forma algo acess&#243;ria. A par deste importante aspecto, os livros did&#225;cticos brasileiros distinguem-se tamb&#233;m por dedicarem um espa&#231;o consider&#225;vel &#224; hist&#243;ria sul-americana anterior &#224; chegada dos europeus &#8212; ao contr&#225;rio do que sucede nos manuais utilizados nas escolas portuguesas.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">No que concerne especificamente ao descobrimento, vimos que esse evento come&#231;a por ser relatado de uma forma neutra. Os autores deste estudo afirmam que os manuais brasileiros, no seu conjunto, se caracterizam por uma narrativa factual e em geral pouco comentada dos eventos, privilegiando uma vis&#227;o pol&#237;tico-econ&#244;mica em detrimento da dimens&#227;o sociocultural. Por&#233;m, aquilo que realmente distingue os manuais brasileiros &#233; o facto de sublinharem o car&#225;cter negativo da coloniza&#231;&#227;o, surgindo, aqui e ali, cr&#237;ticas aos colonizadores pela sua conduta violenta face aos &#237;ndios, criticando-se igualmente a explora&#231;&#227;o econ&#243;mica e a imposi&#231;&#227;o de modelos culturais europeus em terras americanas.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">A imagem do descobrimento do Brasil proporcionada pelos manuais escolares usados em Portugal &#233; bem diferente daquela que acabou de ser evocada, e essa diferen&#231;a &#233; not&#243;ria logo na escolha dos protagonistas desse evento. Na verdade, nesses livros did&#225;cticos os sujeitos mais vis&#237;veis s&#227;o, sem d&#250;vida, os reis e os nobres lusos, ou seja, as figuras europeias surgem claramente como o p&#243;lo activo e empreendedor de toda a trama colonizadora. Quanto aos ind&#237;genas e aos africanos, encontram-se muito mais ausentes da narrativa, e nas ocasi&#245;es em que comparecem s&#227;o muitas vezes remetidos para um lugar subalterno. Os ind&#237;genas acabam por ser representados como um p&#243;lo passivo, ora como objecto da coloniza&#231;&#227;o europeia, ora como obst&#225;culo impotente a uma coloniza&#231;&#227;o que se pretendia que fosse por diante.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">A coloniza&#231;&#227;o &#233; fundamentalmente representada como um processo pautado por iniciativas arrojadas por parte dos colonizadores e por um esfor&#231;o de desenvolvimento socioecon&#243;mico. Em rela&#231;&#227;o aos ind&#237;genas, as poucas p&#225;ginas em que estes se tornam mais vis&#237;veis dizem respeito &#224; ac&#231;&#227;o dos padres da Companhia de Jesus. De facto, os &#237;ndios s&#227;o convocados sempre que se evoca a ac&#231;&#227;o jesu&#237;tica em prol das condi&#231;&#245;es de vida dos desfavorecidos. Um outro dado que chama a aten&#231;&#227;o nos resultados deste estudo &#233; o facto de a hist&#243;ria sul-americana anterior &#224; chegada dos europeus ser apresentada de um modo abreviado e muito simplificado. Significativamente, os factos e os processos subsequentes ao descobrimento ocupam muito mais espa&#231;o nos manuais de Portugal, se bem que o Brasil, a partir do momento em que se torna independente, praticamente desapare&#231;a dos livros escolares portugueses.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">No que toca &#224; hist&#243;ria luso-brasileira, o processo de coloniza&#231;&#227;o &#233; a tem&#225;tica mais amplamente retratada pelos livros did&#225;cticos portugueses, em textos que, no seu conjunto &#8212; e segundo os autores deste estudo &#8212; concedem bastante destaque ao empreendimento colonial levado a cabo por Portugal em terras sul-americanas. Nas p&#225;ginas dedicadas aos eventos subsequentes ao descobrimento, os diversos manuais portugueses colocam sobretudo em evid&#234;ncia o esp&#237;rito empreendedor dos colonizadores, concedendo tamb&#233;m um evidente destaque &#224; ac&#231;&#227;o jesu&#237;tica no plano evangelizador. De um modo geral, o retrato da coloniza&#231;&#227;o que &#233; apresentado &#233; inserido num contexto hist&#243;rico mundial onde Portugal se afirma como um dos protagonistas, sendo o Brasil remetido para uma condi&#231;&#227;o de figura de fundo, um ponto discreto dos acontecimentos ligados &#224; hist&#243;ria portuguesa.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Uma &#250;ltima nota sobre os resultados deste estudo respeitantes &#224;s principais personagens do processo colonizador do Brasil: como vimos, entre os v&#225;rios colonizadores europeus s&#227;o os portugueses quem surge em destaque, caracterizados como aqueles que melhor se adaptaram &#224;s condi&#231;&#245;es naturais dos tr&#243;picos, demonstrando possuir um esp&#237;rito fortemente empreendedor, plasmado numa ac&#231;&#227;o que se pautou pela neutralidade e pela baixa conflitualidade com os povos colonizados. Quanto aos ind&#237;genas, eles s&#227;o referidos pelos manuais portugueses, mas &#8212; como dissemos &#8212; sempre num lugar subalterno na economia do texto. J&#225; os africanos marcam uma presen&#231;a mais discreta, surgindo, fundamentalmente, nas p&#225;ginas dedicadas ao tr&#225;fico de escravos, e tamb&#233;m no cap&#237;tulo alusivo ao sincretismo religioso em terras brasileiras.</font></p>          ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Que significado devemos atribuir a este conjunto de imagens? Como explicar esta disson&#226;ncia entre os livros did&#225;cticos portugueses e brasileiros? Em que medida &#233; que os manuais escolares dos dois pa&#237;ses reflectem um desacordo de fundo sobre o passado que &#233; comum aos dois povos?</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Afim de dar resposta a estas quest&#245;es &#8212; sem d&#250;vida merecedoras de uma reflex&#227;o muito mais detalhada do que aquela que &#233; aqui apresentada &#8212;, comecemos por considerar os livros escolares produzidos em Portugal. &#192; luz dos dados apresentados, parece evidente que os manuais portugueses possuem uma forte liga&#231;&#227;o &#224;quela que &#233; a &#34;narrativa dominante&#34; do descobrimento e da coloniza&#231;&#227;o do Brasil, narrativa essa que ainda hoje continua a marcar a historiografia portuguesa. Nos manuais escolares &#233; poss&#237;vel surpreender uma s&#233;rie de pr&#233;-compreens&#245;es sobre o dom&#237;nio colonial implementado pelos portugueses n&#227;o s&#243; na Am&#233;rica meridional, mas tamb&#233;m no conjunto do imp&#233;rio.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Em primeiro lugar, nota-se que o tema do descobrimento e da coloniza&#231;&#227;o constitui um evento avaliado como positivo. Esse car&#225;cter positivo da coloniza&#231;&#227;o parece ser um dado adquirido, e, salvo excep&#231;&#245;es pontuais, n&#227;o se vislumbra uma preocupa&#231;&#227;o vincada por levar os alunos a uma avalia&#231;&#227;o cr&#237;tica da natureza, das implica&#231;&#245;es ou das consequ&#234;ncias desse processo. Em vez disso, os manuais portugueses real&#231;am a componente de aventura, de aud&#225;cia e de pioneirismo inerente &#224;s viagens e &#224; ocupa&#231;&#227;o de novas terras, assim como todo o desenvolvimento econ&#243;mico e tecnol&#243;gico trazido pela coloniza&#231;&#227;o.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Um outro aspecto que impressiona, e ao qual j&#225; fizemos alus&#227;o, &#233; a omiss&#227;o de quase toda a hist&#243;ria americana pr&#233;via ao descobrimento. A paisagem f&#237;sica e humana do continente sul-americano surge grandemente simplificada, e a impress&#227;o com que ficamos &#233; que, &#224; chegada dos portugueses, o Brasil era um territ&#243;rio simples e homog&#233;neo. Quanto ao conjunto das popula&#231;&#245;es colonizadas, ele &#233; apresentado como um &#34;povo&#34;, sem grandes distin&#231;&#245;es no seu seio e com uma hist&#243;ria incipiente. Esquecendo-se de que a Am&#233;rica era um territ&#243;rio onde proliferavam as diferen&#231;as, onde imperavam os particularismos, e onde era flagrante a diversidade de identidades baseadas na cultura, nas tradi&#231;&#245;es, na l&#237;ngua e na religi&#227;o, alguns dos manuais chegam ao ponto de impor uma narrativa comum a comunidades que, na verdade, eram extremamente dissemelhantes.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Acresce que tamb&#233;m n&#227;o se problematiza o processo de constru&#231;&#227;o territorial do Brasil. O seu desenho fronteiri&#231;o aparece como algo de <i>a priori</i> concebido pelos portugueses, um desenho fronteiri&#231;o que teve continuidade nas delimita&#231;&#245;es do Brasil p&#243;s-independ&#234;ncia &#8212; o que confere aos portugueses uma certa condi&#231;&#227;o de &#34;autores&#34;, de &#34;criadores&#34; daquele pa&#237;s. Os manuais portugueses tamb&#233;m denotam alguma insensibilidade aos fortes contrastes que, desde muito cedo, caracterizaram os territ&#243;rios sul-americanos dominados pelos portugueses. Hoje sabemos que existiam diversas categorias de colonos: os de Pernambuco, os de S&#227;o Paulo, os da Ba&#237;a, os do Para&#237;ba, os do Rio de Janeiro ou os do Maranh&#227;o. Cada um destes grupos criou as suas pr&#243;prias formas de organiza&#231;&#227;o, desenvolvendo tamb&#233;m identidades culturais muito espec&#237;ficas. Contudo, nos manuais portugueses esta diversidade mal se vislumbra.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Por outro lado, nos manuais usados em Portugal a prioridade dos portugueses na ocupa&#231;&#227;o do solo brasileiro &#233; criteriosamente sublinhada, sendo os ind&#237;genas americanos relegados para uma posi&#231;&#227;o subalterna, passiva e quase sem hist&#243;ria pr&#233;via ou posterior &#224; chegada dos europeus. Ali&#225;s, a partir dos dados recolhidos no &#226;mbito desta sondagem, fica-se com a impress&#227;o de que os manuais portugueses apresentam a <i>presen&#231;a</i> lusa como algo de inevit&#225;vel e de irrevers&#237;vel a partir do momento em que foram os primeiros europeus a desembarcar na costa americana. A prioridade do desembarque lusitano resolve as d&#250;vidas sobre a legitimidade da ocupa&#231;&#227;o daqueles territ&#243;rios, e s&#227;o poucos os momentos em que, nesses livros did&#225;cticos, se questiona at&#233; que ponto era leg&#237;tima a apropria&#231;&#227;o das terras sul-americanas por parte dos portugueses. A escolha das palavras tamb&#233;m est&#225; longe de ser inocente: fala-se, sobretudo, em <i>presen&#231;a</i> portuguesa, e n&#227;o em <i>ocupa&#231;&#227;o</i> ou em <i>domina&#231;&#227;o</i>, uma op&#231;&#227;o que claramente matiza e eufemiza a componente dominadora e opressiva da actua&#231;&#227;o dos lusos naquelas paragens.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Um outro aspecto significativo diz respeito ao modo como a ac&#231;&#227;o dos colonizadores &#233; retratada nos manuais produzidos em Portugal. Como acab&#225;mos de referir, n&#227;o s&#227;o muitos os momentos em que se incita a um questionamento cr&#237;tico do conjunto de eventos ligados ao descobrimento e &#224; coloniza&#231;&#227;o, at&#233; porque o modo como essa actua&#231;&#227;o &#233; apresentada acaba por reproduzir &#8212; de forma subtil, &#233; certo &#8212; os lugares-comuns de alguma da historiografia dos s&#233;culos XIX e XX, como se sabe muito marcada por uma ideologia legitimadora do empreendimento colonial . Vejamos alguns exemplos: no relato dos acontecimentos emerge, aqui e ali, o registo her&#243;ico; os descobridores s&#227;o frequentemente enaltecidos; os primeiros colonos s&#227;o elogiados pela sua ac&#231;&#227;o civilizadora; os bandeirantes s&#227;o retratados como her&#243;is da coloniza&#231;&#227;o do interior do continente. Quanto aos ind&#237;genas, a sua atitude &#233; quase sempre representada como passiva, surgindo, por vezes, refer&#234;ncias &#224; oposi&#231;&#227;o que moveram contra o avan&#231;o do empreendimento colonizador. A imposi&#231;&#227;o do modelo europeu, na sua vers&#227;o portuguesa, &#233; frequentemente apresentada como uma inevitabilidade e como algo que, no fundo, acabou por ser positivo para os povos que habitavam aquelas regi&#245;es &#8212; ali&#225;s, a express&#227;o &#34;ac&#231;&#227;o civilizadora&#34; encontra-se presente em alguns desses livros did&#225;cticos.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">&#201; certo que em certos passos dos manuais surgem refer&#234;ncias ao car&#225;cter destruidor e violento de todo este processo. Todavia, estas alus&#245;es &#224; faceta menos positiva do descobrimento e da coloniza&#231;&#227;o s&#227;o &#34;compensadas&#34; por duas estrat&#233;gias argumentativas. Antes de mais, por uma linha discursiva que cultiva a ret&#243;rica do chamado &#34;encontro de culturas&#34;, no quadro do qual o contacto entre portugueses e sul-americanos &#233; retratado como uma troca pac&#237;fica, igualit&#225;ria e harmoniosa, onde os portugueses se destacaram pela sua adaptabilidade, pela sua essencial propens&#227;o para a miscigena&#231;&#227;o, e pela sua peculiar capacidade para se integrarem num ambiente tropical e para incorporarem caracter&#237;sticas dos outros povos.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Um segundo recurso estil&#237;stico que &#34;neutraliza&#34; a face negativa do descobrimento: o cap&#237;tulo dedicado &#224; ac&#231;&#227;o desenvolvida pela coroa portuguesa e pelos mission&#225;rios a favor dos ind&#237;genas. A destrui&#231;&#227;o das civiliza&#231;&#245;es ind&#237;genas &#233; contrabalan&#231;ada por estas refer&#234;ncias &#224; alegada precocidade dos lusos na defesa dos direitos desses povos. O presum&#237;vel car&#225;cter &#34;humanista&#34; da coloniza&#231;&#227;o portuguesa, epitomizado pela muito celebrada figura do jesu&#237;ta Ant&#243;nio Vieira, &#233; uma constante desses textos, sendo tamb&#233;m poss&#237;vel detectar uma preocupa&#231;&#227;o por desculpabilizar, de um modo subtil, a ac&#231;&#227;o da igreja cat&#243;lica no processo de destrui&#231;&#227;o das civiliza&#231;&#245;es sul-americanas. Se a isto juntarmos o reduzido peso apresentado pela escravatura de ind&#237;genas e de africanos nos manuais portugueses que foram analisados, podemos ent&#227;o concluir que estamos perante o prolongamento de alguns dos elementos mais marcantes do imagin&#225;rio luso-tropicalista e do seu entendimento da hist&#243;ria da coloniza&#231;&#227;o portuguesa.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Como se pode verificar, o modo como o descobrimento e a coloniza&#231;&#227;o do Brasil surgem retratados nos textos did&#225;cticos produzidos em Portugal remete para aquela que continua a ser a representa&#231;&#227;o dominante, entre os portugueses, do seu passado imperial. Tal &#233; not&#243;rio nos eventos e nos temas que acabaram de ser mencionados, mas torna-se expl&#237;cito, tamb&#233;m, no tratamento concedido a outras quest&#245;es, como &#233; o caso da explora&#231;&#227;o do ouro no Brasil setecentista. Importa sublinhar que, nos manuais portugueses, essa explora&#231;&#227;o mineira jamais &#233; retratada como uma expolia&#231;&#227;o de recursos naturais ao Brasil. Pelo contr&#225;rio, esse empreendimento &#233; visto como o comportamento normal de um pa&#237;s que exerce um dom&#237;nio colonial, e jamais se questiona o facto de essa riqueza ter sido transferida para a Europa, em vez de ser integralmente investida naqueles territ&#243;rios meridionais.</font></p>          ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">No fundo, nos manuais produzidos em Portugal a &#34;narrativa dominante&#34; insiste no car&#225;cter harmonioso e simbi&#243;tico da liga&#231;&#227;o entre os lusos e a sua col&#243;nia brasileira, liga&#231;&#227;o essa alegadamente caracterizada pela fraca conflitualidade entre colonizador e colonizado. Associado a este tema encontra-se o t&#243;pico da compara&#231;&#227;o entre a coloniza&#231;&#227;o portuguesa e a coloniza&#231;&#227;o espanhola, esta &#250;ltima sempre apresentada como muito mais intolerante e muito mais destruidora das civiliza&#231;&#245;es n&#227;o europeias. De acordo com os manuais escolares, Portugal sempre exerceu uma domina&#231;&#227;o mais humanista e descentralizada, concedendo muito mais espa&#231;o &#224; autonomia das suas col&#243;nias, chegando mesmo a instaurar uma situa&#231;&#227;o de &#34;quase-paridade&#34; entre a metr&#243;pole e a sua col&#243;nia sul-americana. Isso mesmo se torna vis&#237;vel no modo como &#233; retratado o processo de independ&#234;ncia do Brasil, uma &#34;emancipa&#231;&#227;o&#34; por vezes apresentada como pac&#237;fica e consentida pelo pa&#237;s colonizador, uma esp&#233;cie de emancipa&#231;&#227;o do &#34;filho&#34; j&#225; adulto, depois de devidamente criado pelo seu &#34;pai&#34; colonizador.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">A pr&#243;pria selec&#231;&#227;o dos eventos respeitantes &#224; hist&#243;ria do Brasil-col&#243;nia obedece &#224; mesma preocupa&#231;&#227;o por vincar o car&#225;cter n&#227;o violento e n&#227;o impositivo da rela&#231;&#227;o entre a metr&#243;pole lusitana e a sua col&#243;nia. Os manuais portugueses dedicam pouco espa&#231;o aos fortes interesses bras&#237;licos que se desenvolveram naquele territ&#243;rio, n&#227;o falando nem dos numerosos motins nem das revoltas que, desde muito cedo, contestaram os representantes da coroa portuguesa. Raras s&#227;o as alus&#245;es &#224; oposi&#231;&#227;o ao dom&#237;nio colonial, e as poucas refer&#234;ncias &#224; contesta&#231;&#227;o da autoridade portuguesa relacionam-se com a resist&#234;ncia ind&#237;gena contra o avan&#231;o da col&#243;nia para o interior do continente. Por &#250;ltimo, est&#227;o tamb&#233;m completamente ausentes as alus&#245;es aos muitos focos de resist&#234;ncia e de oposi&#231;&#227;o por parte das popula&#231;&#245;es africanas trazidas, em regime for&#231;ado, para a Am&#233;rica &#8212; n&#227;o h&#225; uma palavra sobre os quilombos, nem sequer sobre Palmares. Este silenciamento est&#225; sem d&#250;vida relacionado com o enfoque euroc&#234;ntrico que, claramente, domina toda a narrativa. Parafraseando Boaventura de Sousa Santos (2001), o eurocentrismo produz um saber unidimensional, reduzindo culturas ao sil&#234;ncio e produzindo um conhecimento monocultural, hegem&#243;nico e pouco sens&#237;vel &#224; diferen&#231;a.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">A imagem proporcionada pelos manuais brasileiros &#233;, em certo sentido, oposta &#224;quela que acab&#225;mos de analisar. Vimos atr&#225;s que, nesses livros, a coloniza&#231;&#227;o suscita alguns coment&#225;rios positivos, sobretudo por ser apresentada como um processo gerador de um certo desenvolvimento econ&#243;mico e tecnol&#243;gico em terras sul-americanas. Nessas p&#225;ginas, a chegada do modelo &#34;ocidental&#34; de desenvolvimento n&#227;o deixa de ser saudada, e as vantagens decorrentes desse modelo s&#227;o at&#233; enumeradas de forma circunstanciada. Contudo, a par deste registo mais ou menos positivo, os manuais brasileiros caracterizam de forma claramente negativa a presen&#231;a europeia nos tr&#243;picos, retratando-a como uma invas&#227;o, como domina&#231;&#227;o e como expolia&#231;&#227;o. O colonialismo &#233; antes de mais associado &#224; explora&#231;&#227;o dos recursos naturais americanos &#8212; com destaque para o a&#231;&#250;car e o ouro &#8212;, um processo retratado como uma esp&#233;cie de saque, e do qual as popula&#231;&#245;es da Am&#233;rica meridional alegadamente pouco ou nada aproveitaram.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Como assinal&#225;mos, os manuais brasileiros concedem um espa&#231;o consider&#225;vel &#224; destrui&#231;&#227;o dos povos ind&#237;genas, mas &#233; muito significativo que, de um modo geral, a principal responsabilidade por essa destrui&#231;&#227;o seja atribu&#237;da, quase em exclusivo, ao colonizador europeu. Algo de semelhante se passa com o tr&#225;fico de escravos africanos, em regra atribu&#237;do aos mercadores portugueses &#8212; omitindo-se, desde logo, a forte participa&#231;&#227;o que as popula&#231;&#245;es luso-brasileiras tiveram neste com&#233;rcio, pelo menos a partir dos primeiros anos do s&#233;culo XVII. Hoje sabemos que, desde muito cedo, as elites locais do Rio de Janeiro, da Ba&#237;a ou de Pernambuco, protagonizaram uma florescente actividade econ&#243;mica, acalentando interesses pr&#243;prios e controlando, em situa&#231;&#227;o de plena autonomia face a Lisboa, muitas das mais lucrativas rotas comerciais. Gra&#231;as aos trabalhos recentes da historiografia brasileira, sabemos, tamb&#233;m, que muitas das principais iniciativas repressivas contra &#237;ndios e africanos foram levadas a cabo por esses descendentes dos primeiros colonizadores, ou seja, fam&#237;lias estabelecidas h&#225; v&#225;rias gera&#231;&#245;es em terras sul-americanas &#8212;&#166; os muito celebrados bandeirantes s&#227;o, decerto, um dos melhores exemplos do que acab&#225;mos de dizer. No entanto, os manuais brasileiros concedem pouco destaque ao papel desempenhado pelas elites da Am&#233;rica meridional na face obscura da coloniza&#231;&#227;o. Silenciando, de uma forma subtil, os efeitos negativos da actua&#231;&#227;o desses grupos influentes, os livros escolares brasileiros atribuem a principal responsabilidade da destrui&#231;&#227;o ao colonizador europeu.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Assim, pode dizer-se que os manuais usados em escolas brasileiras transmitem uma imagem algo amb&#237;gua da coloniza&#231;&#227;o, pois ao mesmo tempo que sublinham o desenvolvimento inerente &#224; coloniza&#231;&#227;o europeia, criticam a ac&#231;&#227;o dos colonos oriundos do Velho Continente. Na verdade, a avalia&#231;&#227;o negativa acaba por ter uma presen&#231;a bastante forte, sobretudo quando se compara esses manuais com os seus cong&#233;neres portugueses. Por&#233;m, e como acab&#225;mos de referir, os visados por essa condena&#231;&#227;o s&#227;o, sobretudo, os colonizadores europeus, responsabilizados pela sua conduta face aos &#237;ndios e face aos africanos, mas tamb&#233;m devido &#224; explora&#231;&#227;o econ&#243;mica e &#224; imposi&#231;&#227;o cultural que levaram a cabo.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">&#201; bem sabido que esta vis&#227;o negativa da coloniza&#231;&#227;o tem uma &#243;bvia rela&#231;&#227;o com a mem&#243;ria dos tempos coloniais acalentada por muitas gera&#231;&#245;es de brasileiros, praticamente desde o &#250;ltimo quartel do s&#233;culo XIX. A este respeito, importa recordar o forte contraste que existe entre os estudiosos origin&#225;rios da Am&#233;rica do Sul e os seus cong&#233;neres norte-americanos. Enquanto estes retratam o seu passado colonial com cores optimistas, vendo nele os elementos que deram origem &#224;s liberdades democr&#225;ticas e ao sucesso econ&#243;mico, j&#225; a historiografia sul-americana, e brasileira em particular, encontra no tempo colonial as prefigura&#231;&#245;es da corrup&#231;&#227;o, da desigualdade social e da depend&#234;ncia econ&#243;mica que ainda hoje se vive naquela regi&#227;o do globo.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Uma vez mais estamos perante uma mem&#243;ria com um forte cunho ideol&#243;gico, forjada por gera&#231;&#245;es de intelectuais brasileiros empenhados em afirmar sentimentos nacionalistas atrav&#233;s da atribui&#231;&#227;o ao sistema colonial de todas as responsabilidades pelos problemas que t&#234;m afectado o Brasil desde a sua independ&#234;ncia. Num texto recente, Ant&#243;nio Hespanha (2001) recordou que a projec&#231;&#227;o, para o per&#237;odo colonial, das patologias que afectam a sociedade actual, constitui uma forma h&#225;bil de as elites nacionalistas sul-americanas branquearem a sua actua&#231;&#227;o, transferindo para &#34;estrangeiros&#34; e para &#34;interesses alheios&#34; a responsabilidade da destrui&#231;&#227;o, da explora&#231;&#227;o e da desigualdade que ainda hoje se faz sentir naquele continente, patologias para as quais nem a independ&#234;ncia nem a moderniza&#231;&#227;o dos s&#233;culos XIX e XX conseguiram dar resposta, antes criando novos problemas.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Todas estas reflex&#245;es acabam por remeter para um outro dado que nos parece central: portugueses e brasileiros ainda n&#227;o efectuaram uma reflex&#227;o s&#233;ria, tolerante e multicultural, sobre o passado colonial que liga estes dois povos, e essa aus&#234;ncia de reflex&#227;o projecta-se nos manuais escolares dos dois pa&#237;ses. Para os portugueses, continua a ser manifestamente dif&#237;cil lidar com o trauma da perda das col&#243;nias, algo que se torna not&#243;rio no modo como os seus livros did&#225;cticos abordam o tema do descobrimento do Brasil. A mem&#243;ria de um passado glorioso em que Portugal foi momentaneamente o centro de um grande imp&#233;rio articula-se mal com um presente em que os portugueses se confrontam com a realidade de serem os mais pobres da Europa desenvolvida, e muito menos poderosos do que a sua antiga col&#243;nia sul-americana. Do lado brasileiro o inc&#243;modo n&#227;o &#233; menor. Em face do <i>sui generis</i> complexo de superioridade de Portugal &#8212; esse antigo colonizador semiperif&#233;rico, que, como lembrou Boaventura de Sousa Santos (1994), foi simultaneamente colonizador e colonizado, desprezando os povos por ele colonizados e sendo desprezado pelos norte-europeus &#8212;, muitos brasileiros revelam um not&#243;rio mal-estar sempre que se confrontam com o seu passado lusitano, o qual, apesar de j&#225; ter sido motivo de orgulho, parece suscitar, cada vez mais, reac&#231;&#245;es de lamento e de cr&#237;tica.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Os manuais que foram analisados espelham estas e outras tens&#245;es, pois, de uma maneira ou de outra, assumem o ponto de vista daqueles que lideraram o processo de &#34;ocidentaliza&#231;&#227;o&#34; do continente sul-americano. De resto, e como assinal&#225;mos, nos livros escolares de ambos os lados do Atl&#226;ntico &#233; ainda poss&#237;vel escutar alguns ecos da ideologia luso-tropicalista. Ainda hoje, nas duas margens do Atl&#226;ntico, muitos s&#227;o os que continuam a sustentar que os portugueses se caracterizam por uma singular capacidade de assimila&#231;&#227;o de outros povos e de outras culturas, e que os brasileiros herdaram esta caracter&#237;stica. De resto, e no que toca ao Brasil, durante muito tempo este pa&#237;s foi imaginado como um lugar onde todos cabiam, dotado de uma cultura assimilacionista proveniente precisamente da matriz lusitana. Em pleno s&#233;culo XIX muitos eram aqueles que pensavam o Brasil como um lugar onde todos cabiam, mas onde cada um devia conhecer o seu lugar &#8212; integrados todos, mas hierarquicamente. Chegou mesmo a imaginar-se que as minorias &#233;tnicas, por acultura&#231;&#227;o, iriam perdendo os seus tra&#231;os identit&#225;rios at&#233; serem assimiladas &#8212; algo que, como &#233; &#243;bvio, n&#227;o aconteceu, bem pelo contr&#225;rio, j&#225; que os membros de muitos desses grupos, ao inv&#233;s de se deixarem aculturar, acabaram mesmo por refor&#231;ar os seus tra&#231;os identit&#225;rios.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Como se pode verificar, nem a independ&#234;ncia nem a descoloniza&#231;&#227;o conduziram, de forma imediata, &#224; liberta&#231;&#227;o do discurso colonial. De facto, este peso do colonialismo manteve-se, e durante o s&#233;culo XIX tanto os antigos colonizadores lusos como os rec&#233;m emancipados brasileiros continuaram a olhar para o Ocidente como o ber&#231;o exclusivo do conhecimento racional e das mais perfeitas formas de organiza&#231;&#227;o pol&#237;tica, social, econ&#243;mica e cultural. J&#225; no s&#233;culo XX, os regimes ditatoriais vigentes nos dois pa&#237;ses tiraram partido &#8212; de um modo diverso, &#233; certo &#8212; do imagin&#225;rio luso-tropical; mais recentemente, as quase tr&#234;s d&#233;cadas de democracia ainda n&#227;o foram suficientes para anular esse imagin&#225;rio colonial. Como recentemente notou Miguel Vale de Almeida (2000), nos nossos dias o luso-tropicalismo permanece como uma linha discursiva que emerge nas reflex&#245;es sobre a identidade, sobre a especificidade e a excepcionalidade da coloniza&#231;&#227;o portuguesa, subsistindo aquilo que o mesmo Vale de Almeida qualificou de &#39;luso-tropicalismo gen&#233;rico&#34;, uma inclina&#231;&#227;o de senso comum que, por vezes, assume o estatuto de representa&#231;&#227;o oficial. E tal sucede a despeito do esfor&#231;o desenvolvido no quadro das comemora&#231;&#245;es dos descobrimentos portugueses. Em rela&#231;&#227;o a Portugal, a comiss&#227;o respons&#225;vel pelas comemora&#231;&#245;es (CNCDP) deu um contributo decisivo para o relan&#231;amento dos contactos entre investigadores dos dois lados do Atl&#226;ntico, instaurando um di&#225;logo muito mais liberto dos preconceitos luso-tropicalistas. No Brasil, a comemora&#231;&#227;o dos 500 anos do descobrimento levou as minorias a encarar esse acontecimento como uma rara oportunidade para dar visibilidade &#224; sua subalternidade. Para al&#233;m de exigirem que &#237;ndios e negros fizessem parte de uma hist&#243;ria que quase sempre os esquecera, sublinharam a exist&#234;ncia de v&#225;rios &#34;Brasis&#34;, afirmando diferen&#231;as e fissuras sociais.</font></p>          ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Seria importante que esta revis&#227;o do passado colonial fosse plenamente assumida pelos autores dos livros did&#225;cticos usados em escolas portuguesas e brasileiras.</font></p>          <p>&nbsp;</p>         <p><font face="Verdana" size="2"><b>Refer&#234;ncias</b></font></p>          <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Almeida, M. V. de (2000). <i>Um mar cor da terra: Ra&#231;a</i>, <i>cultura e pol&#237;tica da identidade.</i> Oeiras: Celta.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=480095&pid=S0874-2049200300020000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>          <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Bastos, C., Almeida, M. V. de,, &#38; Feldman-Bianco, B. (Coords.). <i>Tr&#226;nsitos coloniais: Di&#225;logos cr&#237;ticos luso-brasileiros.</i> Lisboa: Imprensa de Ci&#234;ncias Sociais.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=480097&pid=S0874-2049200300020000600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>          <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Herschmann, M., &#38; Pereira, C. A. M. (2000). &#34;E la Nave Va...&#34; As celebra&#231;&#245;es dos 500 anos no Brasil: Afirma&#231;&#245;es e disputas no espa&#231;o simb&#243;lico. <i>Estudos Hist&#243;ricos</i>, <i>14 </i>(26), 203-215.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=480099&pid=S0874-2049200300020000600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>          <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Hespanha, A. M. (2001). A constitui&#231;&#227;o do Imp&#233;rio portugu&#234;s: Revis&#227;o de alguns enviesamentos correntes. In J. Fragoso, M. F. Bicalho &#38; M. F. Gouv&#234;a (Orgs.), O <i>antigo regime nos tr&#243;picos:</i> A <i>din&#226;mica imperial portuguesa (s&#233;culos XVI-XVIII)</i> (pp. 165-188). Rio de Janeiro: Civiliza&#231;&#227;o Brasileira.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=480101&pid=S0874-2049200300020000600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>          <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Louren&#231;o, E. (1999). <i>A nau de &#237;caro</i>, <i>seguido de imagem e miragem da lusofonia.</i> Lisboa: Gradiva.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=480103&pid=S0874-2049200300020000600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>          <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Santos, B. de S (Org.) (1993). Descobrimentos / encobrimentos. <i>Revista Cr&#237;tica de Ci&#234;ncias Sociais</i>, <i>38</i> (n&#250;mero tem&#225;tico).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=480105&pid=S0874-2049200300020000600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>          <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Santos, B. de S. (1994). <i>Pela m&#227;o de Alice: O social e o pol&#237;tico na p&#243;s-modernidade.</i> Porto: Afrontamento.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=480107&pid=S0874-2049200300020000600007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>          <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Santos, B. de S. (2001). Porque &#233; t&#227;o dif&#237;cil construir uma teoria cr&#237;tica? In B. de S. Santos, A. Cohn, &#38; A. Camargo (Orgs.), <i>Brasil</i> &#8212; <i>Portugal Entre o passado e o presente</i> (pp. 17-36). 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Tend&#234;ncias na historiografia da expans&#227;o portuguesa: Reflex&#245;es sobre os destinos da hist&#243;ria social. <i>Pen&#233;lope. Revista de Hist&#243;ria e Ci&#234;ncias Sociais</i>, 22, 141-179.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=480113&pid=S0874-2049200300020000600010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>         ]]></body><back>
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