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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O descobrimento do Brasil na imprensa Portuguesa: Uma vontade de futuro]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The present paper has two main aims. The first aim is to describe the image of the Commemoration of the 500 years of the discovery of Brasil transmitted through the Portuguese press between 1999 and 2000: contents, sources and subjects that were privileged in the texts published, in order to examine themes and main characters as well as those that remained in the shadow. The second aim was to examine the treatment given to the articles published, once it is possible to organise our narratives in very different ways. This second aim was accomplished through Moscovici's (1976) proposal that identifies three communicator modalities - diffusion, propagation and propaganda - a useful framework to study the different treatment given to the texts published by newspapers. The present paper presents the analyses run on every text published between January 1st 1999 and July 30th 2000 in four Portuguese newspapers concerning the discovery of Brasil and the Commemoration of its 500 years. Two of these newspapers are daily papers (Público and Correio da Manhã) and the other two are weekly newspapers (O Expresso and O Independente). The total number of articles published by these newspapers during this period was 528, and these texts were analysed with the same list of categories used in a Brazilian sample of newspaper articles.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Teoria das representações sociais]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[identidade social]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[modalidades comunicativas]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[memória social]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p><font face="Verdana" size="4"><b>O descobrimento do Brasil na imprensa Portuguesa: Uma vontade de futuro</b></font></p>          <p><font face="Verdana" size="2"><b>The discovery of Brasil in the Portuguese press: Looking at the future</b></font></p>              <p>&nbsp;</p>          <p><font face="Verdana" size="2"><b>Paula Castro<sup>1</sup></b></font></p>              <p><font face="Verdana" size="2"><sup>1</sup>Departamento de Psicologia Social e das Organiza&#231;&#245;es, ISCTE, Lisboa.</font></p>           <p>&nbsp;</p>     <hr size="1" noshade>          <p><font face="Verdana" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Este artigo tem dois objectivos principais. O primeiro &#233; descrever a imagem da comemora&#231;&#227;o dos 500 anos do descobrimento do Brasil que a imprensa portuguesa nos ofereceu durante os anos de 1999 e 2000, com os conte&#250;dos, fontes e sujeitos que privilegiou nas not&#237;cias que publicou, a fim de examinar quais os temas e os protagonistas que foram destacados, e quais os que ficaram na sombra. O segundo objectivo foi o de examinar o tratamento dado aos temas publicados. Pois &#233; poss&#237;vel organizar as nossas narrativas de formas muito diversas. Para enquadrar a concretiza&#231;&#227;o deste segundo objectivo, recorreu-se a uma proposta para a an&#225;lise dos diferentes tipos de tratamento que os mesmos assuntos podem receber na imprensa, com origem no trabalho de Moscovici (1976), que identifica tr&#234;s tipos de modalidade comunicativa &#8212; difus&#227;o, propaga&#231;&#227;o e propaganda.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Estes objectivos foram concretizados atrav&#233;s da an&#225;lise de todas as not&#237;cias relacionadas com o descobrimento do Brasil e a comemora&#231;&#227;o dos seus 500 anos que surgiram em quatro jornais portugueses entre 1 de Janeiro de 1999 e 30 de Junho de 2000. Dois destes jornais s&#227;o di&#225;rios <i>(P&#250;blico</i> e <i>Correio da Manh&#227;)</i> e os outros dois s&#227;o seman&#225;rios (O <i>Expresso</i> e O <i>Independente).</i> O total de not&#237;cias publicadas nestes org&#227;os de imprensa durante este per&#237;odo foi de 528, e estas foram analisadas com a grelha de cota&#231;&#227;o tamb&#233;m utilizada para cotar as not&#237;cias surgidas na imprensa brasileira.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2"><b>Palavras-chave</b> Teoria das representa&#231;&#245;es sociais, identidade social, modalidades comunicativas, mem&#243;ria social.</font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>           <p><font face="Verdana" size="2"><b>ABSTRACT</b></font></p>          <p><font face="Verdana" size="2"> The present paper has two main aims. The first aim is to describe the image of the Commemoration of the 500 years of the discovery of Brasil transmitted through the Portuguese press between 1999 and 2000: contents, sources and subjects that were privileged in the texts published, in order to examine themes and main characters as well as those that remained in the shadow. The second aim was to examine the treatment given to the articles published, once it is possible to organise our narratives in very different ways. This second aim was accomplished through Moscovici&#39;s (1976) proposal that identifies three communicator modalities - diffusion, propagation and propaganda - a useful framework to study the different treatment given to the texts published by newspapers. The present paper presents the analyses run on every text published between January 1st 1999 and July 30th 2000 in four Portuguese newspapers concerning the discovery of Brasil and the Commemoration of its 500 years. Two of these newspapers are daily papers (P&#250;blico and Correio da Manh&#227;) and the other two are weekly newspapers (O Expresso and O Independente). The total number of articles published by these newspapers during this period was 528, and these texts were analysed with the same list of categories used in a Brazilian sample of newspaper articles.</font></p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     	    <p><font face="Verdana" size="2"><b>Introdu&#231;&#227;o</b></font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">We ourselves are shaped by the past; but from our vantage point in the present we are continuously reshaping the past which shapes us (Christopher Hill, 1974, p. 284)</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Se em alguns dos textos deste n&#250;mero tem&#225;tico se trata de inquirir sobre as representa&#231;&#245;es sociais vivas, atrav&#233;s de question&#225;rios aos herdeiros dos acontecimentos do passado, e em outros o objectivo &#233; o de interrogar as representa&#231;&#245;es cristalizadas nos manuais por onde a hist&#243;ria &#233; ensinada, no presente artigo, como no precedente, as quest&#245;es s&#227;o as de examinar quais as representa&#231;&#245;es do passado que foram postas em circula&#231;&#227;o pela imprensa escrita e como se articulam estas com os projectos de presente e as identidades de cada pa&#237;s, e, em cada pa&#237;s com os diferentes sectores que os constituem.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Trata-se, portanto, de empreender uma an&#225;lise da imprensa que parte das ideias de que a experi&#234;ncia passada recordada, quer seja vivida directamente, quer n&#227;o, bem como as &#34;imagens partilhadas de um passado hist&#243;rico s&#227;o tipos de recorda&#231;&#245;es que t&#234;m particular import&#226;ncia para a constitui&#231;&#227;o de grupos sociais no presente&#34; (Fentress &#38; Wickham, 1992, p. 9).</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Por outras palavras, o que nos ocupar&#225; neste artigo ser&#225; o exame de como a imprensa portuguesa p&#244;de contribuir, nos anos de 1999 e 2000, e a prop&#243;sito das celebra&#231;&#245;es dos 500 anos do descobrimento do Brasil, para o constante labor que alimenta as &#34;imagined communities&#34; que, de acordo com Anderson (1983), s&#227;o os grupos sociais a que chamamos na&#231;&#245;es. Estas &#34;comunidades imaginadas&#34; dependem da exist&#234;ncia de uma no&#231;&#227;o do tempo como sendo sequencial e homog&#233;neo &#8212; precisamente aquela que caracteriza a modernidade (Giddens, 1995); necessitam tamb&#233;m de um meio que torne a linguagem escrita acess&#237;vel a toda a comunidade, que &#233; o que caracteriza a imprensa. Os la&#231;os que se entretecem entre estas &#34;comunidades imaginadas&#34; e a mem&#243;ria social ser&#227;o, ent&#227;o, neste artigo, buscados numa an&#225;lise da forma como a imprensa portuguesa reviveu a descoberta do Brasil.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Este projecto sup&#245;e, desde logo, uma concep&#231;&#227;o de mem&#243;ria com duas caracter&#237;sticas principais &#8212; uma mem&#243;ria que &#233; social, e uma mem&#243;ria que &#233; uma actividade de reconstru&#231;&#227;o com base em certas regras que s&#227;o da ordem do cultural. Ou seja, trata-se de uma concep&#231;&#227;o de mem&#243;ria que se afasta com clareza da &#34;copy version of the memory trace&#34; (Bruner, 1992, p. 780), com que a psicologia come&#231;ou os seus estudos sobre mem&#243;ria, e da qual os trabalhos de Ebbinghaus s&#227;o exemplo. E uma concep&#231;&#227;o de mem&#243;ria para a qual Bartlett (1932), como assinala Bruner (1992), teve, desde muito cedo, alternativas a propor.</font></p>          ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">No lugar desta <i>mem&#243;ria como c&#243;pia</i> mais ou menos (im)perfeita da realidade, prop&#244;s Bartlett uma no&#231;&#227;o de mem&#243;ria como processo transformativo operando sobre conte&#250;dos que, ao serem apropriados e comunicados por uma multiplicidade de indiv&#237;duos, emergem estabilizados em determinadas formas relativamente pouco numerosas (Bangerter, 2000). A estas formas relativamente est&#225;veis que conduzem o trabalho de reconstru&#231;&#227;o e permitem a comunica&#231;&#227;o entre indiv&#237;duos e grupos poderemos chamar representa&#231;&#245;es sociais (Moscovici, 1976). Nestas representa&#231;&#245;es sociais se articulam o individual e o social, apagando-se as fronteiras entre os dois dom&#237;nios (Moscovici, 1989) e permitindo o seu estudo a an&#225;lise da forma como determinadas representa&#231;&#245;es est&#227;o relacionadas com determinadas identidades e s&#227;o por elas moldadas (Moscovici, 1976; Vala, 2000; Castro &#38; Lima, 2001).</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Neste caso que nos ocupa, nenhum de n&#243;s experienciou directamente os acontecimentos iniciados h&#225; 500 anos, mas mantemos sobre eles uma mem&#243;ria que vai sendo actualizada, com perman&#234;ncias e com muta&#231;&#245;es a cada gera&#231;&#227;o. E esta mem&#243;ria est&#225; intrinsecamente relacionada com a nossa identidade. Ou seja, esta mem&#243;ria est&#225; na base da pr&#243;pria possibilidade de recorrermos ao emprego da palavra <i>n&#243;s</i> quando falamos destas quest&#245;es &#8212; o que constantemente fazemos. No entanto, conv&#233;m ainda precisar que este &#34;n&#243;s&#34;, que no caso se concretiza em um &#34;n&#243;s-portugueses&#34;, pode conter em si mais do que uma s&#243; identidade&#8212;nem todos nesta na&#231;&#227;o imaginamos da mesma maneira o nosso futuro ou recordamos da mesma forma o nosso passado. Por outras palavras, a identidade nacional cruza-se com muitas outras identidades &#8212; como as de g&#233;nero ou de gera&#231;&#227;o, por exemplo. Abre-se assim a possibilidade de haver diferentes formas de recordar e narrar o passado, ou seja, abre-se assim a possibilidade de coexistirem diferentes representa&#231;&#245;es deste passado, ligadas a diferentes pap&#233;is sociais e a diferentes lugares identit&#225;rios (Reicher &#38; Hopkins, 2001).</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">&#201; tamb&#233;m para este la&#231;o entre mem&#243;ria social e identidade que Fentress e Wickham chamam a aten&#231;&#227;o quando afirmam que as recorda&#231;&#245;es t&#234;m determinadas fun&#231;&#245;es e &#34;podem e devem ser analisadas de uma maneira funcionalista, como indicadores, concordantes ou contradit&#243;rios, da identidade social&#34; (1992, p. 112).</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">E assim, em suma, com estas ideias de que as recorda&#231;&#245;es desempenham determinadas fun&#231;&#245;es, de que estas est&#227;o relacionadas com as identidades sociais dos diferentes grupos que vivem numa na&#231;&#227;o e de que estes p&#245;em em circula&#231;&#227;o representa&#231;&#245;es sociais do passado que n&#227;o s&#227;o todas iguais, mas complexas e variadas, estamos com clareza posicionados num campo onde as palavras-chave s&#227;o identidade, fun&#231;&#227;o e diversidade. Pode ent&#227;o dizer-se que estas ser&#227;o as palavras-chave do estudo da mem&#243;ria social do descobrimento do Brasil empreendido neste artigo.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2"><b>Objectivos</b></font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Em face do que ficou dito, a busca da diversidade das mem&#243;rias sociais e das fun&#231;&#245;es identit&#225;rias que elas desempenham na manuten&#231;&#227;o das na&#231;&#245;es como &#34;comunidades imaginadas&#34;, pode ent&#227;o ser tomada como o rumo orientador deste trabalho.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Partindo destas ideias, este artigo ir&#225; ter dois objectivos principais.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">O primeiro implicar&#225; tentar descrever a imagem da comemora&#231;&#227;o que a imprensa portuguesa nos ofereceu, com os conte&#250;dos, fontes e sujeitos que privilegiou nas not&#237;cias que publicou. Teremos assim oportunidade de ver que temas e que protagonistas foram privilegiados, e que temas e que protagonistas ficaram na sombra.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Trata-se, portanto, de olhar para o que se discutiu e ver tamb&#233;m o que ficou esquecido, para neste jogo de luz e sombra procurarmos as fun&#231;&#245;es da mem&#243;ria. Pois como nos adverte M. Aug&#233; (2001), n&#227;o pode haver mem&#243;ria sem esquecimento. O esquecimento &#233; para Aug&#233; (2001) o operador que possibilita p&#244;r em narrativa a(s) hist&#243;ria(s) dos grupos e dos indiv&#237;duos, uma vez que n&#227;o &#233; nunca poss&#237;vel dizer/narrar tudo. Se queremos narrar, e dependemos das narrativas pessoais e sociais para construir identidades sociais e pessoais (Bruner, 1990; Harr&#233;, 1989), temos de abdicar de incont&#225;veis possibilidades de dizer para dizer apenas de uma certa maneira, com uma certa sequ&#234;ncia e uma certa escolha de palavras e de acontecimentos &#8212; ou seja, temos que esquecer. Daqui resulta que, nas not&#237;cias surgidas na imprensa portuguesa, os temas que foram esquecidos nos dizem tamb&#233;m muito sobre o tipo de comunidade que nos queremos imaginar a ser.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">O segundo objectivo deste trabalho ser&#225; examinar o tratamento que os temas publicados receberam. Pois &#233; poss&#237;vel tratar os mesmos assuntos de formas muito diferentes. Por outras palavras, &#233; poss&#237;vel, recorrendo ao vocabul&#225;rio de Auge, organizar as nossas narrativas de formas muito diferentes. A este prop&#243;sito Moscovici (1976), num dos componentes talvez mais negligenciados da sua teoria das representa&#231;&#245;es sociais (Moscovivi &#38; Markova, 2000), apresenta uma proposta para a an&#225;lise, precisamente, dos diferentes tipos de tratamento que os mesmos assuntos podem receber na imprensa. Os tr&#234;s tipos de modalidade comunicativa que ele identifica e descreve s&#227;o a difus&#227;o, a propaga&#231;&#227;o e a propaganda.</font></p>          ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Vejamos brevemente como &#233; que estes tr&#234;s g&#233;neros comunicativos s&#227;o caracterizados por Moscovici (1976). Na difus&#227;o, h&#225; distanciamento e diversidade no tratamento dado aos temas, com &#234;nfase na informa&#231;&#227;o, sem tomadas expl&#237;citas de posi&#231;&#227;o, por parte de quem escreve, que n&#227;o articula de forma expl&#237;cita posi&#231;&#245;es opostas, limitando-se a dar conhecimento da sua exist&#234;ncia. J&#225; a propaga&#231;&#227;o visa produzir uma normal geral, englobante e conciliadora de posi&#231;&#245;es potencialmente diferentes. Pretende articular estas posi&#231;&#245;es em fun&#231;&#227;o de uma leitura hierarquizante, advogando modera&#231;&#227;o e concilia&#231;&#227;o, e procurando organizar elementos divergentes de forma a torn&#225;-los compat&#237;veis com valores centrais e gerais dos grupos interessados nos assuntos abordados. Na propaganda, por sua vez, a forma de abordar os assuntos &#233; dicotomizada, procurando salientar que h&#225; apenas um caminho a seguir, rejeitando a concilia&#231;&#227;o e a modera&#231;&#227;o. Esta forma comunicativa desenrola-se em torno de dicotomias simplificadoras e redutoras da complexidade das posi&#231;&#245;es e ocorre quando h&#225; um conflito que amea&#231;a a identidade do grupo. Por isso separa um <i>n&#243;s</i> que estamos certos, de um <i>eles</i> que est&#227;o errados.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Nas palavras de Moscovici, quando sintetiza as caracter&#237;sticas de cada modalidade: &#34;A difus&#227;o tende a favorecer a eclos&#227;o de opini&#245;es sobre problemas espec&#237;ficos, a propaga&#231;&#227;o edifica atitudes suscept&#237;veis de marcar tanto as representa&#231;&#245;es como as condutas. (...) A propaganda &#233; mais concreta, n&#227;o se contenta em renovar o significado de um comportamento, tende antes a cri&#225;-lo ou a refor&#231;&#225;-lo&#34; (1976, pp. 401-402, tradu&#231;&#227;o minha).</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Estas propostas sobre os princ&#237;pios que organizam as formas comunicativas que podem surgir na imprensa foram, ent&#227;o, tidas em conta num segundo momento da an&#225;lise das noticias relacionadas com a comemora&#231;&#227;o do descobrimento do Brasil surgidas imprensa portuguesa. Elas foram tomadas como base para examinar a diversidade e multiplicidade de representa&#231;&#245;es que a imprensa p&#244;s em jogo, e religar esta diversidade &#224;s identidades sociais.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Esta an&#225;lise, e de acordo com as defini&#231;&#245;es anteriores, partiu-se das seguintes hip&#243;teses:</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">1) Esperava-se que em maior propor&#231;&#227;o as not&#237;cias surgidas na imprensa estivessem mais pr&#243;ximas da difus&#227;o, pois estavam em an&#225;lise jornais generalistas, e n&#227;o &#243;rg&#227;os informativos de grupos sociais espec&#237;ficos.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">2) Esperava-se que os jornais di&#225;rios apresentassem uma maior propor&#231;&#227;o de difus&#227;o do que os seman&#225;rios, pois estes t&#234;m espa&#231;os mais alargados para a cr&#243;nica e o coment&#225;rio mais personalizados.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">3) Esperava-se que as not&#237;cias classific&#225;veis como propaga&#231;&#227;o tivessem sobretudo como origem personalidades com responsabilidades p&#250;blicas oficiais, ocupando lugares sociais que implicam falar para o grupo dos portugueses como um todo, e em certas ocasi&#245;es mesmo para o grupo dos portugueses e dos brasileiros como um todo; neste sentido esperava-se que eles procurassem desenhar uma norma comum em que todos se pudessem rever (Moscovici, 1976).</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">4) Esperava-se que as not&#237;cias classific&#225;veis como propaganda, mais relacionadas com representa&#231;&#245;es pol&#233;micas das comemora&#231;&#245;es (Vala, 2000), surgissem quer de indiv&#237;duos que falam em nome individual, quer de representantes de grupos sociais que se op&#245;em &#224;s comemora&#231;&#245;es ou que contestam a legitimidade dos protestos relativos &#224;s comemora&#231;&#245;es e, neste sentido, falam de e para grupos espec&#237;ficos, e n&#227;o para um pa&#237;s.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2"><b>An&#225;lise do material da imprensa</b></font></p>          <p><font face="Verdana" size="2"><i>Procedimento</i></font></p>          ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Foram recolhidas todas as not&#237;cias relacionadas com o descobrimento do Brasil e a comemora&#231;&#227;o dos seus 500 anos que surgiram em quatro jornais portugueses entre 1 de Janeiro de 1999 e 30 de Junho de 2000. Dois destes jornais s&#227;o di&#225;rios <i>(P&#250;blico</i> e <i>Correio da Manh&#227;) e</i> os outros dois s&#227;o seman&#225;rios (O <i>Expresso</i> e O <i>Independente).</i></font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Estas not&#237;cias foram posteriormente analisadas com a grelha de cota&#231;&#227;o tamb&#233;m utilizada para cotar as not&#237;cias surgidas na imprensa brasileira. Em face de algumas especificidades que apresentavam as not&#237;cias portuguesas, algumas das categorias originais foram transformadas e outras foram acrescentadas. No entanto, de forma geral, as not&#237;cias surgidas em ambos os pa&#237;ses foram cotadas com recurso a um dicion&#225;rio muito semelhante.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2"><b>Resultados</b></font></p>          <p><font face="Verdana" size="2"><i>Caracteriza&#231;&#227;o geral</i></font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Do total de 528 not&#237;cias analisadas, 43,8% surgiram no <i>Correio da Manh&#227;</i>, 43,6% no <i>P&#250;blico</i>, 2,8% n&#39; O <i>Independente</i> e 9,8% n&#39; O <i>Expresso</i>.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Sempre deste total, 9,3% surgiram no primeiro semestre analisado (Janeiro a Junho de 1999), 13,1% surgiram no segundo semestre (Julho a Dezembro de 1999) e 77,7% aparecerem no terceiro semestre, aquele que coincidiu com a comemora&#231;&#227;o dos 500 anos &#8212; Janeiro a Junho de 2000.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2"><i>Caracteriza&#231;&#227;o das not&#237;cias</i></font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Quando se faz uma an&#225;lise das not&#237;cias m&#234;s a m&#234;s, &#233; muito not&#243;rio um grande pico de not&#237;cias em torno da data em que efectivamente se comemoravam os 500 anos do descobrimento &#8212; 22 de Abril de 2000.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">E justamente o que se pode observar na <a href="/img/revistas/psi/v17n2/17n2a08f1.jpg">figura 1</a>, na qual est&#225; indicada a frequ&#234;ncia por m&#234;s das not&#237;cias. Na mesma figura indica-se igualmente o tipo de not&#237;cias que foram publicadas &#8212; not&#237;cias focando exclusivamente assuntos relacionados com a comemora&#231;&#227;o ou descoberta (pertin&#234;ncia principal), tratando esses assuntos por estarem associados ao assunto principal do artigo (pertin&#234;ncia secund&#225;ria), ou aludindo apenas a esses assuntos (pertin&#234;ncia alusiva).</font></p>          
<p><font face="Verdana" size="2">&#201; igualmente vis&#237;vel nesta mesma figura o pequeno incremento no n&#250;mero de not&#237;cias que ocorre a partir do final do segundo semestre analisado (Julho a Dezembro de 1999). At&#233; ao m&#234;s de Outubro de 1999, o total das not&#237;cias nos quatro jornais n&#227;o ultrapassa nunca as 20 por m&#234;s. A partir de Novembro de 1999, inicia-se um aumento que ter&#225; o seu pico em Abril de 2000. A partir de Abril de 2000, o total cai abruptamente. Neste per&#237;odo que segue &#224; data da comemora&#231;&#227;o, &#233; sobretudo de notar que diminuem drasticamente as refer&#234;ncias directas, ou de pertin&#234;ncia principal, mantendo-se somente refer&#234;ncias secund&#225;rias ou alusivas. Ou seja, o eco que permanece na imprensa portuguesa depois da data oficial das comemora&#231;&#245;es &#233; sobretudo isso mesmo &#8212; um eco, ou um conjunto de not&#237;cias relacionadas com o descobrimento e a sua comemora&#231;&#227;o, mas apenas de forma indirecta ou alusiva.</font></p>          ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Tentemos agora estabelecer se, no seu conte&#250;do e na sua origem, as not&#237;cias dos tr&#234;s semestres em an&#225;lise s&#227;o diferentes. Vejamos primeiro as fontes destas not&#237;cias.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Como mostra a <a href="/img/revistas/psi/v17n2/17n2a08f2.jpg">figura 2</a>, durante os dois primeiros semestres &#8212; isto &#233;, durante o ano de 1999 &#8212; s&#227;o sobretudo os jornalistas e os representantes do poder p&#250;blico as fontes das not&#237;cias publicadas. J&#225; no terceiro semestre, surgem pela primeira vez com destaque os grupos organizados da sociedade civil e os representantes de grupos sociais como fontes de not&#237;cias, continuando embora a ter bastante peso, enquanto fontes de not&#237;cias, os representantes do poder p&#250;blico.</font></p>          
<p><font face="Verdana" size="2">Existe portanto no terceiro semestre, ao contr&#225;rio dos anteriores, o recurso a grupos sociais como fontes das not&#237;cias &#8212; o que nos deixa, evidentemente, pressupor que &#233; somente neste terceiro semestre que as not&#237;cias da imprensa portuguesa extravasam as fronteiras das comemora&#231;&#245;es oficiais e dos representantes oficiais, tomando um car&#225;cter mais alargado.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">&#201; exactamente o mesmo tipo de constata&#231;&#227;o que pode ser feita quando se analisam os dados referentes &#224;s institui&#231;&#245;es que as not&#237;cias mencionam.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Se no primeiro e segundo semestres as institui&#231;&#245;es mais mencionadas s&#227;o as culturais e as que se relacionam com o car&#225;cter oficial das comemora&#231;&#245;es &#8212; comiss&#245;es organizadoras e representativas dos poderes p&#250;blicos envolvidos, j&#225; no terceiro semestre o panorama &#233; bastante diferente, como mostra a <a href="/img/revistas/psi/v17n2/17n2a08f3.jpg">figura 3</a></font></p>          
<p><font face="Verdana" size="2">As institui&#231;&#245;es culturais continuam a predominar, e as comiss&#245;es organizadoras continuam ser frequentemente mencionadas. No entanto, os grupos sociais organizados, por um lado, e as associa&#231;&#245;es empresariais, por outro, surgem agora pela primeira vez de forma expressiva.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Trata-se de um conjunto de dados que podem ser lidos como apontando num sentido semelhante aos anteriores &#8212; ou seja, como indicadores de que somente neste terceiro semestre &#224;s comemora&#231;&#245;es oficiais em torno de eventos culturais se v&#234;m juntar discuss&#245;es e contribui&#231;&#245;es que atestam um maior envolvimento da sociedade civil.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Por fim, em rela&#231;&#227;o aos sujeitos que as not&#237;cias nos jornais portugueses analisados apresentam como protagonistas nos dois primeiros semestres, salienta-se com clareza o destaque dado aos navegadores, como &#233; mostrado na <a href="/img/revistas/psi/v17n2/17n2a08f4.jpg">figura 4</a>. Para a nossa imprensa, s&#227;o os navegadores os principais protagonistas desta rememora&#231;&#227;o, quando ela reenvia para o passado. Em muito menor grau surgem, como protagonistas hist&#243;ricos, os &#237;ndios e os reis e nobres. Religiosos e negros s&#227;o grupos raramente ou nunca mencionados, como a <a href="/img/revistas/psi/v17n2/17n2a08f4.jpg">figura 4</a> tamb&#233;m permite concluir.</font></p>          
<p><font face="Verdana" size="2">No entanto, &#233; tamb&#233;m de notar que s&#227;o muito poucas &#8212; em propor&#231;&#227;o &#8212; as not&#237;cias que apresentam estes sujeitos emergentes do passado (cerca de 15% do total). O que faz notar que no nosso pa&#237;s a rememora&#231;&#227;o se estrutura pouco em torno da apresenta&#231;&#227;o de grupos protagonistas de &#233;pocas passadas, para privilegiar uma centra&#231;&#227;o no presente &#8212; quer no presente das manifesta&#231;&#245;es art&#237;sticas, quer no passado que se faz presente da recupera&#231;&#227;o patrimonial e da rela&#231;&#227;o actual com o Brasil &#8212;, como foi poss&#237;vel observar em fun&#231;&#227;o dos dados apresentados na <a href="/img/revistas/psi/v17n2/17n2a08f3.jpg">figura 3</a></font></p>          
<p><font face="Verdana" size="2">E ainda de notar, a este prop&#243;sito, que as poucas not&#237;cias que fazem intervir protagonistas hist&#243;ricos surgem sobretudo durante os dois primeiros semestres. No terceiro semestre, a hist&#243;ria como passado hist&#243;rico est&#225; praticamente ausente, e sublinhadas parecem mesmo ser as suas componentes que se podem fazer presente.</font></p>          ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2"><b>Sum&#225;rio</b></font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Em suma, portanto, a imagem das comemora&#231;&#245;es que a imprensa portuguesa nos ofereceu nestes anos:</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">1) n&#227;o privilegiou a componente hist&#243;rica. Mas quando o fez, este passado hist&#243;rico esteve maioritariamente ancorado na figura dos navegadores portugueses e, menos, na dos &#237;ndios. Os outros grupos que poderiam ser poss&#237;veis protagonistas foram muito poucas vezes considerados suficientemente relevantes para protagonizarem not&#237;cias;</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">2) durante os anos de 1999 e 2000 o componente cultural foi a principal preocupa&#231;&#227;o da imprensa portuguesa &#8212; manifesta&#231;&#245;es art&#237;sticas e culturais e quest&#245;es relativas ao patrim&#243;nio foram os assuntos mais tratados;</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">3) no entanto, em 2000 juntam-se a estes temas os referentes &#224; economia e &#224; pol&#237;tica, &#224;s rela&#231;&#245;es entre os dois pa&#237;ses e &#224;s rela&#231;&#245;es entre grupos;</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">4) ci&#234;ncia, religi&#227;o, natureza, educa&#231;&#227;o s&#227;o temas que a imprensa portuguesa n&#227;o considerou grandemente relevantes em momento algum;</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">5) a compara&#231;&#227;o entre as not&#237;cias surgidas em 1999 e as surgidas em 2000 permite ainda afirmar que &#233; sobretudo em 1999 que as comemora&#231;&#245;es e rememora&#231;&#245;es surgem com um cariz mais cultural e institucional. As not&#237;cias de 2000 reflectem alguma import&#226;ncia dada a temas menos institucionais ou institucionalizados (como s&#227;o os culturais), para apresentar como fontes de not&#237;cias e como sujeitos delas diversos grupos da sociedade civil;</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">6) como muitas das not&#237;cias relativas a estes grupos da sociedade civil t&#234;m uma &#243;bvia origem nas contesta&#231;&#245;es e protestos relativamente &#224;s comemora&#231;&#245;es, ou seja, t&#234;m origem no Brasil, podemos talvez dizer que a comemora&#231;&#227;o portuguesa em si foi muito cultural e institucional e virada para o presente e o futuro e a sua outra face surge como reflexo das discuss&#245;es que estavam a ter lugar al&#233;m-mar.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Para ilustrar o que &#233; afirmado no ponto 6, &#233; poss&#237;vel fazer notar que, do total de 31 not&#237;cias que referem <i>grupos sociais organizados</i> (nas institui&#231;&#245;es citadas), 26 t&#234;m origem no Brasil e apenas 5 em Portugal. Do mesmo modo, do total de 29 men&#231;&#245;es &#224;s <i>rela&#231;&#245;es intergrupais</i> (das esferas privilegiadas), 20 t&#234;m origem no Brasil e apenas 9 em Portugal.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">O tratamento dado &#224;s noticias</font></p>          ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Recorde-se que a an&#225;lise do tratamento recebido pelas not&#237;cias na imprensa portuguesa foi orientada por um conjunto de predi&#231;&#245;es derivadas das caracter&#237;sticas que Moscovici (1976) identifica para as tr&#234;s modalidades comunicativas da difus&#227;o, propaga&#231;&#227;o e propaganda.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">No sentido previsto, e para o conjunto dos tr&#234;s semestres, as not&#237;cias cotadas como difus&#227;o somam 80,9% do total, as classificadas como propaga&#231;&#227;o s&#227;o 13,3% e as not&#237;cias cotadas como propaganda chegam apenas aos 5,8% do total.</font></p>           <p><font face="Verdana" size="2">Tamb&#233;m no sentido das predi&#231;&#245;es feitas anteriormente, e como se pode ver na <a href="/img/revistas/psi/v17n2/17n2a08f5.jpg">figura 5</a>, a difus&#227;o surge mais frequentemente na imprensa di&#225;ria <i>(Correio da Manh&#227; </i>e <i>P&#250;blico</i>) do que nos seman&#225;rios (O <i>Expresso</i> e <i>O Independente),</i> onde &#233; maior o espa&#231;o concedido &#224; propaga&#231;&#227;o e &#224; propaganda.</font></p>          
<p><font face="Verdana" size="2">Por sua vez, a <a href="/img/revistas/psi/v17n2/17n2a08f6.jpg">figura 6</a> mostra como s&#227;o sobretudo os intelectuais que escrevem em nome pr&#243;prio, normalmente colunas de opini&#227;o, aqueles que distribuem as suas interven&#231;&#245;es pelas tr&#234;s modalidades comunicativas. Os representantes do poder p&#250;blico recorrem, como esperado, sobretudo &#224; modalidade da propaga&#231;&#227;o, e os jornalistas, tamb&#233;m como esperado, &#224; difus&#227;o.</font></p>          
<p><font face="Verdana" size="2">As modalidades comunicativas na pr&#225;tica</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Vejamos agora, para terminar o exame dos tipos de tratamento que a comemora&#231;&#227;o dos 500 anos recebeu na imprensa portuguesa, alguns exemplos concretos de textos publicados. Ir&#227;o ser ser apresentados extractos de textos que podem ilustrar dois tipos diferentes de modalidades comunicativas &#8212; a propaga&#231;&#227;o e a propaganda &#8212; a fim de tentar analisar como estas duas modalidades p&#245;em a circular representa&#231;&#245;es diferentes desta comemora&#231;&#227;o, e de examinar como &#233; que estas diferentes representa&#231;&#245;es se relacionam com diferentes lugares identit&#225;rios.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Haveria v&#225;rios exemplos interessantes de cr&#243;nicas que se poderiam utilizar. No entanto, os cinco textos intitulados &#34;Di&#225;rios de viagem&#34;, da responsabilidade do Presidente da Rep&#250;blica Portuguesa, publicados no jornal <i>P&#250;blico</i> nos dias 21, 22, 23, 24 e 25 de Abril de 2000, pareceram absolutamente incontorn&#225;veis.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Estes textos s&#227;o escritos no Brasil, aonde o presidente se deslocou aquando da data da comemora&#231;&#227;o, e pareciam candidatos &#243;bvios para uma an&#225;lise da propaga&#231;&#227;o, ao proporem uma comunica&#231;&#227;o de origem institucional e hierarquizante.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Por for&#231;a dos protestos ocorridos na altura mesma da comemora&#231;&#227;o, as quest&#245;es das v&#225;rias dimens&#245;es temporais &#8212; o passado, o presente e o futuro &#8212; envolvidas nesta actualiza&#231;&#227;o da mem&#243;ria que s&#227;o as comemora&#231;&#245;es tiveram que ser tratadas nestes &#34;di&#225;rios&#34;. E este facto &#233; um factor adicional de interesse nestes textos, que assim nos permitem ir directamente a uma das quest&#245;es centrais da mem&#243;ria social &#8212; a da forma como os momentos temporais s&#227;o articulados uns com os outros (Aug&#233;, 2001).</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Tentarei ent&#227;o analisar como &#233; que estas rela&#231;&#245;es entre passado, presente e futuro s&#227;o articuladas nestes textos. A audi&#234;ncia destes textos &#233;, evidentemente, por for&#231;a do cargo, Portugal inteiro, mas &#233; tamb&#233;m o Brasil, pois &#233; de l&#225;, sob os holofotes das rela&#231;&#245;es bilateriais, que Jorge Sampaio escreve. Assim, ser&#225; de esperar que a comunica&#231;&#227;o seja hier&#225;rquica, inclusiva, e tenha em considera&#231;&#227;o que as rela&#231;&#245;es sociais dentro de cada pa&#237;s e entre os dois pa&#237;ses s&#227;o complexas e englobam grupos diferentes. Ao mesmo tempo ser&#225; de esperar um posicionamento que abra espa&#231;o para a comemora&#231;&#227;o e para o refor&#231;o dos valores nacionais. Ser&#225; de esperar, portanto, que as quest&#245;es emirjam, no discurso do presidente, com alguma complexidade, mas &#233; tamb&#233;m de esperar que seja dada uma grelha de leitura para essa complexidade, por forma a resolver de forma expl&#237;cita os dilemas que ela coloca.</font></p>          ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Estes objectivos parecem ter sido buscados justamente atrav&#233;s da uma gest&#227;o expl&#237;cita das rela&#231;&#245;es entre os momentos temporais. Vejamos como ela &#233; feita no primeiro destes textos do presidente da rep&#250;blica.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Tenho acompanhado a pol&#233;mica que envolve as comemora&#231;&#245;es no Brasil. Compreendo o sentido dessa contesta&#231;&#227;o. Como n&#227;o compreender? Os tr&#234;s s&#233;culos de coloniza&#231;&#227;o portuguesa e os quase dois s&#233;culos de independ&#234;ncia brasileira est&#227;o tamb&#233;m marcados por tr&#225;gicos epis&#243;dios.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">(...) N&#243;s somos respons&#225;veis pelo nosso tempo. O <i>passado</i> herd&#225;mo-lo. Devemos entend&#234;-lo para transformar o <i>presente,</i> n&#227;o rejeit&#225;-lo com tardias culpabiliza&#231;&#245;es. (21.04)</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Logo no primeiro texto as quest&#245;es s&#227;o colocadas como complexas, e mesmo como tr&#225;gicas. Mas &#233; tamb&#233;m proposta uma chave de leitura para essa complexidade. Por um lado, est&#225; impl&#237;cito que os epis&#243;dios tr&#225;gicos s&#227;o para dividir quase meio a meio com a coloniza&#231;&#227;o portuguesa e a independ&#234;ncia brasileira &#8212; n&#227;o deixa de ser logo salientado que, havendo tr&#234;s s&#233;culos de uma, h&#225; tamb&#233;m dois da outra... Por outro lado, o passado, por mais tr&#225;gico que seja, pode, por um esfor&#231;o da vontade, ser transmutado na esperan&#231;a de um futuro melhor.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">A mesma l&#243;gica &#233; repetida no texto do dia seguinte:</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">A hist&#243;ria n&#227;o se evita. Ela est&#225; vivida e escrita. &#201; irrevers&#237;vel no que teve de bom e de mau. O <i>presente &#233;</i> a hist&#243;ria que nos &#233; dado escrever. S&#243; esta depende de n&#243;s. E de n&#243;s depende, no que ao Brasil diz respeito, reafirmar o nosso empenho n <i>o futuro</i> desta rela&#231;&#227;o de cinco s&#233;culos. (22.04)</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Uma vez mais se repete, ent&#227;o, que &#233; no futuro, um futuro que come&#231;a no presente, que poderemos resolver as complexidades e dificuldades do passado. E a ideia de que este futuro come&#231;a no presente &#233; de novo refor&#231;ada no dia seguinte (23.04.00). E &#233;-lhe acrescentada uma nova chave de entendimento. Os problemas complexos das rela&#231;&#245;es intergrupais s&#227;o problemas do Brasil. S&#227;o problemas que se colocam <i>l&#225;,</i> e obrigar&#227;o este pa&#237;s (n&#227;o Portugal) a reflectir, e a confrontar-se com a <i>sua</i> hist&#243;ria. Ou seja, depois de estabelecida uma chave de leitura temporal, a ela ir&#225; agregar-se uma chave de leitura espacial.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Ao folhear os jornais, &#233; evidente a dimens&#227;o da pol&#233;mica gerada no Brasil por estas comemora&#231;&#245;es. (...) Apercebo-me como pol&#237;tico da dimens&#227;o e <i>complexidade</i> das quest&#245;es que <i>aqui</i> se colocam e de que esta comemora&#231;&#227;o &#233; <i>apenas</i> um catalizador. E intuo que alguns deles marcar&#227;o profundamente <i>o Brasil,</i> que em certo sentido tamb&#233;m se confronta <i>aqui</i> com a <i>sua</i> hist&#243;ria.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Mas Portugal e o Brasil quiseram marcar este dia em que viemos ao encontro do <i>passado</i> com um acto pol&#237;tico que refor&#231;a no <i>presente</i> as nossas rela&#231;&#245;es bilateriais: um novo tratado luso-brasileiro. Este &#233;, sem d&#250;vida, o acto que marcar&#225;, <i>no futuro,</i> este dia inesquec&#237;vel. (23.04)</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Torna-se novamente claro que esta chave de leitura espacial somada &#224; temporal equaciona a complexidade das quest&#245;es de uma forma que torna inequ&#237;voco que os problemas/o passado s&#227;o quest&#245;es exclusivamente brasileiras. J&#225; o presente e o futuro s&#227;o quest&#245;es portuguesas e s&#227;o quest&#245;es bilaterais. Esta mesma linha divis&#243;ria entre os dois pa&#237;ses ser&#225; acentuada no dia seguinte:</font></p>          ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Soube ontem que na Coroa Vermelha, em Cabr&#225;lia, ocorreram incidentes violentos entre manifestantes e a pol&#237;cia. Esta ser&#225; sempre uma sombra na mem&#243;ria que guardarei destas comemora&#231;&#245;es. S&#227;o todavia problemas <i>internos</i> brasileiros sobre os quais n&#227;o me devo sequer pronunciar.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Contrastemos agora esta coloca&#231;&#227;o &#8212; exemplificativa da propaga&#231;&#227;o &#8212; com uma outra cotada como propaganda. Esta surgiu j&#225; em 29 de Abril, no rescaldo quer das comemora&#231;&#245;es quer dos protestos face a elas, a que tamb&#233;m o presidente da rep&#250;blica se referiu.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Comentando, numa coluna de opini&#227;o intitulada &#34;&#192; direita&#34;, o teor da comemora&#231;&#227;o no Brasil em 22 de Abril, e referindo-se concretamente aos protestos que a acompanharam, Maria Jos&#233; Nogueira Pinto pronuncia-se assim:</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Comemorar o qu&#234;? Perguntam alguns. Retirando os que est&#227;o de m&#225; f&#233; numa manobra de mero aproveitamento pol&#237;tico, e os que utilizam os &#237;ndios para fins menos confess&#225;veis, a resposta &#233; para todos evidente. Comemorar o passado, porque ele &#233; uma dimens&#227;o permanente da consci&#234;ncia humana.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">E se daqui para a frente, num absurdo paroxismo nost&#225;lgico, os brasileiros se quisessem transformar numa na&#231;&#227;o ind&#237;gena, numa gigantesca reserva &#237;ndia, de h&#225;bitos antrop&#243;fagos e cristalizada na idade da pedra lascada, esse seria um problema deles e s&#243; deles.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Para n&#243;s portugueses, &#34;da obra ousada &#233; nossa a parte feita&#34;.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Vejamos primeiro que motivos nos podem autorizar a classificar esta comunica&#231;&#227;o como do tipo propaganda. O primeiro par&#225;grafo &#233; elucidativo a esse respeito. A paisagem social que, em duas frases, desenha para o Brasil &#233; simples e &#233; dicot&#244;mica &#8212; de um lado encontram-se os que est&#227;o &#34;de m&#225; f&#233; numa manobra de aproveitamento pol&#237;tico e os que utilizam os &#237;ndios para fins menos confess&#225;veis. &#34; Do outro lado, enfileiram todos os outros. E estes s&#227;o, est&#225; implicado, aqueles que estar&#227;o de boa f&#233;, e que ter&#227;o fins inteiramente confess&#225;veis. Trata-se de uma forma simplificada &#8212; dicotomizada &#8212; de abordar os assuntos, caracter&#237;stica da propaganda (Mosco vici, 1976).</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">No par&#225;grafo seguinte encontramos uma proposta igualmente simples e dicot&#244;mica, agora para descrever a paisagem social luso-brasileira. O que ele nos diz &#233; que se, por absurdo, o Brasil quiser, do seu lado, congelar na idade da pedra e em h&#225;bitos antrop&#243;fagos &#8212; n&#243;s, do outro lado, n&#227;o queremos. Nem temos nada com isso. N&#243;s queremos, sim, comemorar o que ous&#225;mos e fiz&#233;mos &#8212; ficando impl&#237;cito e inquestion&#225;vel que a obra feita s&#243; pode ser boa, pois como poderia ser mau termos avan&#231;ado para al&#233;m dos h&#225;bitos antrop&#243;fagos e da idade da pedra lascada?</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Opera-se aqui, neste efeito de contraste, todo um apagamento quer da possibilidade da autonomia dos grupos de &#237;ndios, quer de qualquer legitimidade das suas reivindica&#231;&#245;es, quer do seu pr&#243;prio passado como v&#225;lido. O &#250;nico passado v&#225;lido que aqui encontra espa&#231;o &#233; o dos portugueses. &#201; o &#250;nico passado que h&#225; para comemorar. O outro passado &#8212; aquele que j&#225; existia naquelas terras antes das caravelas portuguesas l&#225; aportarem &#8212; n&#227;o s&#243; n&#227;o tinha valor naquela altura, como n&#227;o tem valor hoje, como &#233;, ainda, o &#250;nico presente que estes grupos t&#234;m e podem reivindicar. Passado e presente, para os &#237;ndios, s&#227;o iguais, &#233; o que resulta da elis&#227;o aqui operada &#8212; pois se, por absurdo, as reivindica&#231;&#245;es dos &#237;ndios fossem avante, seria ao passado que o Brasil voltaria. Os &#237;ndios s&#227;o assim expeditamente constru&#237;dos como actores de um passado antrop&#243;fago e de um presente em que s&#227;o manipulados, num efeito de total apagamento quer destes grupos quer de toda e qualquer complexidade que estas quest&#245;es possam apresentar.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">&#201; um tipo de comunica&#231;&#227;o onde a complexidade, a d&#250;vida, o aspecto multifacetado das quest&#245;es e das rela&#231;&#245;es sociais est&#225; absolutamente ausente. E onde, justamente por isso, se pretende tornar evidente qual o caminho correcto, e &#250;nico, a trilhar. Por isso se pode aproximar &#224; propaganda, tal como Moscovici a descreveu.</font></p>          ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Vinda do outro lado do Atl&#226;ntico, cerca de um m&#234;s depois, h&#225; ainda n&#39; O <i>Expresso</i> uma resposta a esta opini&#227;o de M. J. Nogueira Pinto. Paulo Francheti (da</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Universidade Estadual de Campinas) comenta aquela, para concluir: <i>&#34;As</i> comemora&#231;&#245;es das Descobertas s&#227;o uma festa portuguesa. Que os portugueses as realizem, pois, &#224; vontade. N&#227;o faz sentido, por&#233;m, exigir que os brasileiros tenham pela data o mesmo sentimentalismo, ou que sintam que a festa &#233; tamb&#233;m uma festa brasileira.&#34;</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2"><b>Conclus&#245;es</b></font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Tentemos, nas conclus&#245;es, come&#231;ar no lugar que Paulo Francheti nos prop&#245;e, reunindo-o com as ideias de que partimos, ou seja, as ideias de que a mem&#243;ria desempenha determinadas fun&#231;&#245;es na constru&#231;&#227;o de uma identidade social.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Prop&#245;e-nos Francheti, em suma, que a celebra&#231;&#227;o de uma <i>identidade social positiva</i> por via desta oportunidade de mem&#243;ria que as celebra&#231;&#245;es nos ofereceram, &#233; uma possibilidade s&#243; nossa. Que s&#243; para n&#243;s essa celebra&#231;&#227;o pode desempenhar fun&#231;&#245;es <i>exclusivamente</i> positivas e ser equacionada de forma n&#227;o problem&#225;tica como festa. Para o Brasil o panorama &#233; mais complexo &#8212; celebrar o la&#231;o com Portugal suscita simultaneamente val&#234;ncias negativas e positivas da identidade.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Deixemos talvez de lado, pelo menos para j&#225;, a tenta&#231;&#227;o de concordar ou de discordar desta ideia. Vejamos, ao inv&#233;s, se &#233; ou n&#227;o ela o que ressalta da imagem e do tratamento dado a estas comemora&#231;&#245;es na imprensa portuguesa.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Por muito diferentes que sejam as comunica&#231;&#245;es mais detalhadamente aqui abordadas &#8212; do presidente da rep&#250;blica e de cronista em nome individual &#8212;, e elas s&#227;o de facto muito diferentes, creio ser poss&#237;vel afirmar que de ambas decorre uma positiva&#231;&#227;o da nossa identidade social. Ambas prop&#245;em leituras das quais os portugueses emergem como protagonistas positivos.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Nas mensagens do presidente da rep&#250;blica essa positividade &#233;-nos oferecida ao encerrar no passado as complexidades e resultantes trag&#233;dias. E ao abrir o presente apenas ao futuro e nunca ao passado. E ainda ao encerrar no territ&#243;rio brasileiro os problemas do presente. Ao encerrar no passado as potencialidades negativas da nossa rela&#231;&#227;o com o Brasil &#233; poss&#237;vel a estes textos operarem um efeito de positividade que legitima uma festa sem sombra, ou uma comemora&#231;&#227;o como festa n&#227;o ensombrada. Assim, nestes textos o que se prop&#245;e como tra&#231;o a permanecer na mem&#243;ria social dos portugueses &#233; um momento de celebra&#231;&#227;o exclusivamente positiva, mas que n&#227;o afronta nem desvaloriza outros grupos nela envolvidos.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">J&#225; na mensagem de MJNP a positividade da nossa identidade &#233;-nos proposta, pelo contr&#225;rio, gra&#231;as ao apagamento, para o caso dos &#237;ndios, de qualquer distin&#231;&#227;o entre o passado e o presente. Isto &#233;, no caso desta cronista em nome individual, de assumida posi&#231;&#227;o ideol&#243;gica &#224; direita, a positividade da nossa identidade nacional &#233; constru&#237;da desvalorizando acentuadamente outros grupos tamb&#233;m envolvidos na hist&#243;ria que se come&#231;ou a escrever h&#225; 500 anos. Esta desvaloriza&#231;&#227;o abre-lhe a possibilidade de celebrar o progresso que o presente significa para todos e de transformar Portugal no mentor de um progresso (que se apresenta como) inquestion&#225;vel. Mas esta positividade &#233; tamb&#233;m constru&#237;da, como nos outros textos, gra&#231;as ao sublinhar da diferen&#231;a entre passado e presente, para n&#243;s.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Tamb&#233;m no seu conjunto as not&#237;cias surgidas nestes anos na imprensa n&#227;o desmentem esta vontade de positividade e de futuro. Celebra-se sobretudo o presente dos interc&#226;mbios culturais &#8212; musicais, liter&#225;rios, art&#237;sticos &#8212; e o que eles representam de primeiras pedras para o futuro. Ou o presente do patrim&#243;nio reabilitado, e portanto tamb&#233;m aberto a futuros usos e usufrutos. Ou, ainda, o presente dos acordos econ&#243;micos para futuras trocas comerciais. Do passado quase nada se publica. E quando se publica sobre o passado &#233; do menos problem&#225;tico gesto fundador da navega&#231;&#227;o, do estado de gra&#231;a que Caminha nos prop&#245;e, e n&#227;o do mais problem&#225;tico gesto mantenedor da coloniza&#231;&#227;o que se fala. Dos escravos e do papel de Portugal na escraviza&#231;&#227;o praticamente n&#227;o fal&#225;mos. A corte mudada para o Rio n&#227;o foi discutida. A variedade cultural dos in&#250;meros grupos ind&#237;genas presentes no territ&#243;rio praticamente n&#227;o foi relembrada.</font></p>          ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Este presente escancarado ao futuro, e apenas ligeiramente entreaberto ao passado, poderia ent&#227;o ser considerado uma das pedras de toque da constru&#231;&#227;o da positividade da identidade social dos portugueses a prop&#243;sito destas comemora&#231;&#245;es.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Esta positividade &#233; posta a circular por muitas vias. Em algumas delas o passado &#233; complexo e tr&#225;gico, e os caminhos que o trouxeram at&#233; ao presente t&#234;m protagonistas variados, com os quais ainda hoje &#233; necess&#225;rio contar. N&#227;o para falar por eles, ou contra eles, mas para desenhar uma chave de leitura que n&#227;o hostilize abertamente nenhum, e com a qual se possa propor um m&#237;nimo denominador comum.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Em outras vias, esta positividade &#233; posta a circular com um formato de <i>eles</i> e <i>n&#243;s.</i> Eles que eram e permanecem b&#225;rbaros &#8212; <i>ind&#237;genas de h&#225;bitos antrop&#243;fagos.</i> N&#243;s, que ous&#225;mos arranc&#225;-los &#225; barb&#225;rie, e s&#243; temos por isso raz&#245;es para celebrar. Trata-se j&#225; de uma comunica&#231;&#227;o que n&#227;o considera como sua audi&#234;ncia toda uma na&#231;&#227;o, ou mesmo as duas na&#231;&#245;es aqui implicadas, para fornecer uma chave de leitura que possa ser minimamente englobante de grupos diversos. Trata-se tamb&#233;m, possivelmente, outros trabalhos podem mostr&#225;-lo, de uma posi&#231;&#227;o minorit&#225;ria.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Mas em ambas as formas de comunicar, e em todo o panorama que a imprensa nos ofereceu nestes anos, o que se oferece como principal contribui&#231;&#227;o da imprensa portuguesa para o labor de &#34;imaginar comunidades&#34; &#233; uma <i>vontade de futuro.</i></font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">E no seu conjunto a an&#225;lise da imprensa corrobora e acentua, tamb&#233;m, as componentes que parecem ser o cora&#231;&#227;o hegem&#243;nico das representa&#231;&#245;es sociais do descobrimento do Brasil e que em outros textos deste n&#250;mero tem&#225;tico s&#227;o bem claras &#8212; uma representa&#231;&#227;o do descobrimento que tem por her&#243;is os navegadores portugueses, por cen&#225;rio um id&#237;lio intergrupal entre rios de &#225;gua fresca e por guionista Pero Vaz de Caminha. Uma representa&#231;&#227;o que atesta bem a justeza das palavras de Tabucchi, quando este afirma que &#34;o Ocidente n&#227;o tem fim, antes continua a deslocar-se connosco&#34;.<a href="#1"><sup>1</sup></a><a name="top1"></font></p>              <p>&nbsp;</p>         <p><font face="Verdana" size="2"><b>Refer&#234;ncias</b></font></p>          <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Anderson, B. (1983). <i>Imagined Communities: Reflections on the origins and spread of nationalism</i>. Londres: Verso.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=480343&pid=S0874-2049200300020000800001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>          <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Aug&#233;, M. (2001). <i>As formas do esquecimento.</i> Almada: Iman Edi&#231;&#245;es.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=480345&pid=S0874-2049200300020000800002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>          <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Bangerter, A. (2000). Transformation between scientific and social representation of conception: The method of serial reproduction. <i>British Journal of Social Psychology, 39,</i>521-535.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=480347&pid=S0874-2049200300020000800003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>          <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Bartlett, F. C. (1932/1995). <i>Remembering: A study in experimental and social psychology.</i> Cambridge: Cambridge University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=480349&pid=S0874-2049200300020000800004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Bruner, J. (1990). <i>Acts of meaning.</i> Cambridge, MA: Harvard University Press.</font></p>          <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Bruner, J. (1992). Another look at New Look 1. <i>American Psychologist, 47,</i> 780-783.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=480352&pid=S0874-2049200300020000800006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>          <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Castro, P, &#38; Lima, L. (2001). Old and new ideas about the environment and science: An exploratory study. <i>Environment and Behavior, 33,</i>400-423.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=480354&pid=S0874-2049200300020000800007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>          ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Fentress, J., &#38; Wickham, C. (1992). <i>Mem&#243;ria social.</i> Lisboa: Teorema.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=480356&pid=S0874-2049200300020000800008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>          <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Giddens, A. (1995). <i>As consequ&#234;ncias da modernidade.</i> Oeiras: Celta.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=480358&pid=S0874-2049200300020000800009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>          <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Harr&#233;, R. (1989). Language, games, and the texts of identity. In J. Shotter &#38; K. J. Gergen (Eds.), <i>Texts of identity</i> (pp. 20-35). Londres: Sage Publications.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=480360&pid=S0874-2049200300020000800010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>          <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Hill, C. (1974). <i>Change and continuity in</i> 17<sup>th</sup> century England. Londres: Weidenfeld &#38; Nicolson.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=480362&pid=S0874-2049200300020000800011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>          <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Moscovici, S. (1976). <i>La psychanalyse, son image et son public.</i> Paris: PUF.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=480364&pid=S0874-2049200300020000800012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>          ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Moscovici, S. (1989). Preconditions for explanation in social psychology. <i>European Journal of Social Psychology, 19,</i>407-430.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=480366&pid=S0874-2049200300020000800013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>          <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Moscovici, S., &#38; Markova, I. (2000). Ideas and their development: A dialogue between Serge Moscovici and Ivana Markova. In S. Moscovici (G. Duveen, Ed.), <i>Social representations: Explorations in social psychology</i> (pp. 224-286). Cambridge, UK: Polity Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=480368&pid=S0874-2049200300020000800014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>          <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Reicher, S. &#38; Hopkins, N. (2001). <i>Self and nation.</i> Londres: Sage Publications.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=480370&pid=S0874-2049200300020000800015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>          <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Vala, J. (2000). Representa&#231;&#245;es sociais e psicologia social do conhecimento quotidiano. In J. Vala &#38; M. B. Monteiro (Eds.), <i>Psicologia social</i> (3.<sup>a</sup> ed.). Lisboa: Funda&#231;&#227;o Calouste Gulbenkian.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=480372&pid=S0874-2049200300020000800016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>         <p>&nbsp;</p>         <p><font face="Verdana" size="2"><b>Notas</b></font></p>          ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2"><a href="#top1"><sup>1</sup></a><a name="1"></a>A. Tabucchi, <i>A mulher de Porto Pim,</i> Lisboa: Difel, p. 11.</font></p>         ]]></body><back>
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