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<article-id pub-id-type="doi">10.17575/rpsicol.v17i2.457</article-id>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Representações sociais vivas do descobrimento do Brasil: A memória social atualizada de brasileiros e portugueses]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Living social representations of the discovery of Brazil: updated socil memory of Portuguese and Brazilians]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In this paper we evidence important aspects of the process of updating Portuguese and Brazilian social memory concerning the discovery of Brazil. This social memory is described in terms of social representations, i. e., those active in the two populations on the occasion of the commemoration of the fifth centennial. Thus, we applied questionnaires of similar characteristics on several subjects related to the discovery and to the colonization of Brazil - historical, economical, political, and cultural - to 500 Portuguese subjects in Lisbon and to 789 Brazilian in seven different cities of the country, all adults of both sexes, with at least eight years of education. Some of the main results of this study were the following: (1) two thirds of the Brazilian subjects and a third of the Portuguese state the discovery of Brazil as one of the three most outstanding factors of the history of these countries; (2) most of the Portuguese attribute the discovery of Brazil to random factors, while most of the Brazilians represent it as a result of an intentional action; (3) for the Brazilian sample, a smaller proportion of the favourable characteristics of Brazil and a larger proportion of the unfavourable ones are due to the European influence, in comparison with the native and African influences; (4) the Brazilian culture is represented both by Brazilians and Portuguese as a fusion of European, indigenous and African cultures; (5) more than half of the Brazilian and Portuguese samples blame the reduction of the indigenous population to the slaughter commanded by the colonizers, as well as other important factors such as the wars among rival tribes, for the Portuguese, and the diseases brought by the Europeans, for the Brazilians; (6) as for the feelings associated to the memory of the events of five hundred years ago, the Portuguese feel mainly proud or, in smaller proportion, indifference, while the feelings of the Brazilians are distributed among revolt, shame, but also pride and indifference; (7) for the Portuguese, the main source of representations of the discovery is school learning, followed by television, that are also important sources for the Brazilians, but in smaller degree, because newspapers, magazines and recent book publications contribute equally to the updating of this social memory; (8) nevertheless, half of the Brazilian sample, as much as the Portuguese, does not see a lot of difference among what is spoken today about the discovery and what remembers to have read in school manuals; (9) among the ones that reject the term "discovery", most of the Portuguese would prefer to substitute it for "encounter among two civilisations", while, in a larger proportion, the Brazilians judge more appropriate to speak of "invasion" or "conquer"; (10) finally, almost the totality of the Portuguese and two thirds of the Brazilians are favourable to the commemoration of the discovery of Brazil in their respective countries. These comparative results are interpreted in terms of the reasons why the updated memories of a same remote event are similar, but also different and distant, in two linked populations by complex historical and cultural bonds.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Representações sociais]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[descobrimento do Brasil]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[memória social]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p><font face="Verdana" size="4"><b>Representa&#231;&#245;es sociais vivas do descobrimento do Brasil: A mem&#243;ria social atualizada de brasileiros e portugueses<a href="#1"><sup>1</sup></a><a name="top1"></a></b></font></p>              <p><font face="Verdana" size="2"><b>Living social representations of the discovery of Brazil: updated socil memory of Portuguese and Brazilians</b></font></p>          <p>&nbsp;</p>          <p><font face="Verdana" size="2"><b>Renato Cesar M&#246;ller<sup>*</sup>; Celso Pereira de S&#225;<sup>**</sup>; Fernando Cesar de Castro Bezerra<sup>***</sup></b></font></p>           <p><font face="Verdana" size="2"><sup>*</sup>Coordenador geral de pesquisa de demandas sociais, PRODEMAN, Universidade do Estado do Rio de Janeiro</font></p>               <p><font face="Verdana" size="2"><sup>**</sup>Professor titular de psicologia social, Instituto de Psicologia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2"><sup>***</sup>Coordenador t&#233;cnico de pesquisa de demandas sociais, PRODEMAN, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.</font></p>        <p>&nbsp;</p>   <hr size="1" noshade>          <p><font face="Verdana" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>        <p><font face="Verdana" size="2">Neste artigo s&#227;o evidenciados aspectos comparativamente importantes da mem&#243;ria social actualizada de portugueses e brasileiros a prop&#243;sito do descobrimento do Brasil. Tal estado da mem&#243;ria &#233; descrito em termos das representa&#231;&#245;es sociais vivas, ou seja, aquelas actuantes nas duas popula&#231;&#245;es por ocasi&#227;o mesmo da comemora&#231;&#227;o do quinto centen&#225;rio. Para isso, foram aplicados question&#225;rios, de caracter&#237;sticas semelhantes, sobre diversas quest&#245;es relacionadas ao descobrimento e &#224; coloniza&#231;&#227;o do Brasil &#8212; hist&#243;ricas, econ&#243;micas, pol&#237;ticas, culturais &#8212; a 500 sujeitos portugueses em Lisboa e a 789 brasileiros, em sete diferentes cidades do pa&#237;s, todos adultos, de ambos os sexos, com no m&#237;nimo oito anos de escolariza&#231;&#227;o. Alguns dos principais resultados dessa investiga&#231;&#227;o s&#227;o os seguintes: (1) dois ter&#231;os dos sujeitos brasileiros e um ter&#231;o dos portugueses citam o descobrimento do Brasil como um dos tr&#234;s factos mais marcantes da hist&#243;ria dos seus pa&#237;ses; (2) a maioria dos portugueses atribui o descobrimento do Brasil ao acaso, enquanto a maioria dos brasileiros o representa como resultado de uma ac&#231;&#227;o intencional; (3) para a amostra brasileira, uma menor propor&#231;&#227;o das caracter&#237;sticas favor&#225;veis do Brasil e uma maior propor&#231;&#227;o das desfavor&#225;veis se devem &#224; influ&#234;ncia europeia, em compara&#231;&#227;o com as influ&#234;ncias ind&#237;gena e africana; (4) a cultura brasileira &#233; representada, tanto pelos brasileiros como pelos portugueses, como uma fus&#227;o das culturas europeia, ind&#237;gena e africana; (5) mais da metade das amostras brasileira e portuguesa remetem a reda&#231;&#227;o da popula&#231;&#227;o ind&#237;gena &#224; matan&#231;a pelos colonizadores, seguindo-se, como outros factores importantes, as guerras entre tribos rivais, para os portugueses, e as doen&#231;as trazidas pelos europeus, para os brasileiros; (6) quanto aos sentimentos associados &#224; mem&#243;ria dos acontecimentos de quinhentos anos atr&#225;s, os portugueses sentem-se principalmente orgulhosos ou, em menor propor&#231;&#227;o, indiferentes, enquanto os sentimentos dos brasileiros se distribuem entre a revolta, a vergonha, mas tamb&#233;m o orgulho e a indiferen&#231;a; (7) para os portugueses, a principal fonte de representa&#231;&#245;es do descobrimento &#233; o aprendizado na escola, seguido da televis&#227;o, que s&#227;o tamb&#233;m fontes importantes para os brasileiros, mas em menor grau, pois jornais, revistas e livros recentes contribuem igualmente para a actualiza&#231;&#227;o da sua mem&#243;ria; (8) n&#227;o obstante, metade da amostra brasileira, tanto quanto a portuguesa, n&#227;o v&#234; muita diferen&#231;a entre o que se fala hoje sobre o descobrimento e o que se lembra de ter lido nos manuais escolares; (9) dentre os que rejeitam o termo &#34;descobrimento&#34;, a maioria dos portugueses preferiria substitu&#237;-lo por &#34;encontro entre dois povos&#34;, enquanto, em uma propor&#231;&#227;o maior, os brasileiros julgam mais adequado falar de &#34;invas&#227;o&#34; ou &#34;conquista&#34;; (10) finalmente, a quase totalidade dos portugueses e dois ter&#231;os dos brasileiros s&#227;o favor&#225;veis &#224; comemora&#231;&#227;o do descobrimento do Brasil nos respectivos pa&#237;ses. Estes resultados comparativos s&#227;o interpretados em termos das raz&#245;es pelas quais podem ser semelhantes, mas tamb&#233;m distintas e distantes, as mem&#243;rias actualizadas de um mesmo acontecimento remoto em duas popula&#231;&#245;es ligadas por complexos v&#237;nculos hist&#243;ricos e culturais.</font></p>          ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2"><b>Palavras-chave</b> Representa&#231;&#245;es sociais, descobrimento do Brasil, mem&#243;ria social.</font></p>    <hr size="1" noshade>          <p><font face="Verdana" size="2"><b>ABSTRACT</b></font></p>          <p><font face="Verdana" size="2"> In this paper we evidence important aspects of the process of updating Portuguese and Brazilian social memory concerning the discovery of Brazil. This social memory is described in terms of social representations, i. e., those active in the two populations on the occasion of the commemoration of the fifth centennial. Thus, we applied questionnaires of similar characteristics on several subjects related to the discovery and to the colonization of Brazil &#8212; historical, economical, political, and cultural &#8212; to 500 Portuguese subjects in Lisbon and to 789 Brazilian in seven different cities of the country, all adults of both sexes, with at least eight years of education. Some of the main results of this study were the following: (1) two thirds of the Brazilian subjects and a third of the Portuguese state the discovery of Brazil as one of the three most outstanding factors of the history of these countries; (2) most of the Portuguese attribute the discovery of Brazil to random factors, while most of the Brazilians represent it as a result of an intentional action; (3) for the Brazilian sample, a smaller proportion of the favourable characteristics of Brazil and a larger proportion of the unfavourable ones are due to the European influence, in comparison with the native and African influences; (4) the Brazilian culture is represented both by Brazilians and Portuguese as a fusion of European, indigenous and African cultures; (5) more than half of the Brazilian and Portuguese samples blame the reduction of the indigenous population to the slaughter commanded by the colonizers, as well as other important factors such as the wars among rival tribes, for the Portuguese, and the diseases brought by the Europeans, for the Brazilians; (6) as for the feelings associated to the memory of the events of five hundred years ago, the Portuguese feel mainly proud or, in smaller proportion, indifference, while the feelings of the Brazilians are distributed among revolt, shame, but also pride and indifference; (7) for the Portuguese, the main source of representations of the discovery is school learning, followed by television, that are also important sources for the Brazilians, but in smaller degree, because newspapers, magazines and recent book publications contribute equally to the updating of this social memory; (8) nevertheless, half of the Brazilian sample, as much as the Portuguese, does not see a lot of difference among what is spoken today about the discovery and what remembers to have read in school manuals; (9) among the ones that reject the term &#34;discovery&#34;, most of the Portuguese would prefer to substitute it for &#34;encounter among two civilisations&#34;, while, in a larger proportion, the Brazilians judge more appropriate to speak of &#34;invasion&#34; or &#34;conquer&#34;; (10) finally, almost the totality of the Portuguese and two thirds of the Brazilians are favourable to the commemoration of the discovery of Brazil in their respective countries. These comparative results are interpreted in terms of the reasons why the updated memories of a same remote event are similar, but also different and distant, in two linked populations by complex historical and cultural bonds.</font></p>    <hr size="1" noshade>       <p>&nbsp;</p>          <p><font face="Verdana" size="2">Neste artigo s&#227;o evidenciados os aspectos comparativamente importantes da mem&#243;ria social actualizada de portugueses e brasileiros a prop&#243;sito do descobrimento do Brasil. Tal estado da mem&#243;ria &#233; descrito em termos de &#34;representa&#231;&#245;es sociais vivas&#34;, ou seja, aquelas actuantes nas duas popula&#231;&#245;es por ocasi&#227;o mesmo da comemora&#231;&#227;o do quinto centen&#225;rio (ver tamb&#233;m o texto de S&#225;, Oliveira &#38; Prado, neste volume). Para tanto foram extra&#237;das do vasto n&#250;mero de quest&#245;es propostas pelo inqu&#233;rito que deu origem a este relato apenas aquelas capazes de descrever de modo mais imediato o contexto ampliado onde se articulam representa&#231;&#245;es sobre os acontecimentos hist&#243;ricos relacionados &#224; comemora&#231;&#227;o.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Tanto em Portugal quanto no Brasil, a colheita de dados consistiu na aplica&#231;&#227;o assistida de question&#225;rios de conte&#250;do semelhante, contendo quest&#245;es abertas e fechadas, dirigidos a uma amostra de sujeitos com idade igual ou superior a 18 anos e com grau de escolaridade m&#237;nimo equivalente ao 9<sup>o</sup> ano completo em Portugal e ao ensino fundamental completo no Brasil. Os question&#225;rios foram aplicados a 500 portugueses residentes em Lisboa e a 789 brasileiros residentes em sete diferentes capitais brasileiras (Rio de Janeiro, S&#227;o Paulo, Salvador, Bel&#233;m, Natal, Cuiab&#225; e Florian&#243;polis), representando as cinco grandes regi&#245;es geogr&#225;ficas do pa&#237;s. A selec&#231;&#227;o da amostra obedeceu aos crit&#233;rios de distribui&#231;&#227;o proporcional por sexo, faixa et&#225;ria e grau de escolaridade em rela&#231;&#227;o &#224; popula&#231;&#227;o-alvo nas cidades mencionadas. Em ambos os pa&#237;ses os question&#225;rios foram aplicados nos meses subsequentes ao de Abril de 2000, quando as comemora&#231;&#245;es tornaram-se mais intensas.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Para balizar o exame dos resultados alcan&#231;ados conviria, inicialmente, destacar os graus diferenciados de import&#226;ncia atribu&#237;dos por sujeitos brasileiros e portugueses ao facto hist&#243;rico do descobrimento do Brasil. Quando solicitados a indicar os tr&#234;s factos mais marcantes da hist&#243;ria de Portugal, 30,6% dos sujeitos portugueses citaram espontaneamente o descobrimento do Brasil. J&#225; entre os brasileiros, como seria de esperar, os resultados do estudo revelam que o percentual dos que situam o descobrimento do Brasil no conjunto dos tr&#234;s factos mais marcantes da hist&#243;ria de seu pa&#237;s foi expressivamente maior, chegando a 61,7%.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Al&#233;m disso, quando solicitados a escolher desse conjunto aquele facto hist&#243;rico que lhes parecia o mais importante, tamb&#233;m, entre os brasileiros, o descobrimento do Brasil predominou sobre os outros factos hist&#243;ricos, respondendo por nada menos que 31,7% das escolhas, sobrepondo-se mesmo a outros factos de relev&#226;ncia inquestion&#225;vel na hist&#243;ria de ex-col&#243;nias, como, por exemplo, a conquista da independ&#234;ncia em rela&#231;&#227;o ao pa&#237;s colonizador, que na amostra brasileira situa-se num distante 3.&#176; lugar, com 13,9% das escolhas, antecedido pela aboli&#231;&#227;o da escravatura, esta com 25,2% das escolhas. A <a href="/img/revistas/psi/v17n2/17n2a11f1.jpg">figura 1</a> exibe, comparativamente, a opini&#227;o de portugueses e brasileiros sobre o facto considerado como o mais importante na hist&#243;ria de seus pa&#237;ses de origem.</font></p>          
<p><font face="Verdana" size="2">Uma outra quest&#227;o abordada pelo estudo diz respeito ao modo pelo qual o Brasil teria sido descoberto. Os resultados, mostrados na <a href="/img/revistas/psi/v17n2/17n2a11f2.jpg">figura 2</a>, revelam que a tese do acaso do descobrimento predominava em Portugal, enquanto que no Brasil a tese da intencionalidade parecia ter maior aceita&#231;&#227;o.</font></p>          
<p><font face="Verdana" size="2">A hist&#243;ria regista que foi s&#243; a partir da segunda metade do s&#233;culo XVI que come&#231;aria a surgir em Lisboa, por obra de cronistas oficiais da corte, a tese de que o Brasil fora descoberto por acaso. Interpreta&#231;&#245;es mais recentes associam o surgimento da tese da casualidade do descobrimento ao desprezo e pouca import&#226;ncia que a coroa reservava ao Brasil da &#233;poca.</font></p>          ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Por outro lado, a defesa da tese da intencionalidade surge, no Brasil, no auge do segundo reinado, um per&#237;odo repleto de gl&#243;rias em que o Brasil parece preocupar-se com a valoriza&#231;&#227;o da sua hist&#243;ria. &#201; o pr&#243;prio imperador do Brasil que estimula estudos sobre o tema. Embora bem sustentada do ponto de vista hist&#243;rico, a defesa da teoria da intencionalidade pode ser interpretada como uma demonstra&#231;&#227;o do orgulho que a na&#231;&#227;o passa a sentir de si mesma.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">Se a hist&#243;ria parece indicar a conexidade entre o grau de import&#226;ncia atribu&#237;do ao descobrimento do Brasil e a op&#231;&#227;o por uma das duas teses apresentadas (casualidade e intencionalidade), os resultados do presente estudo parecem mostrar que esta conexidade persiste nos tempos actuais, uma vez que a tese da ac&#231;&#227;o intencional tem maior aceita&#231;&#227;o no pa&#237;s que confere maior import&#226;ncia ao descobrimento e que faz desse facto hist&#243;rico uma alegoria de seu nascimento como na&#231;&#227;o, com a for&#231;a simb&#243;lica que nenhum outro facto remoto foi capaz de imprimir, nem mesmo os relacionados &#224; independ&#234;ncia do pa&#237;s.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">O car&#225;ter ideol&#243;gico que parece presidir &#224; op&#231;&#227;o pelas teses da casualidade ou da intencionalidade fica mais evidente quando se observa que nenhum dos tr&#234;s &#250;nicos documentos originais referentes &#224; viagem de descobrimento &#8212; as cartas de Pero Vaz de Caminha, do Mestre Jo&#227;o e do &#34;piloto an&#243;nimo&#34; &#8212; constituem provas suficientes em favor de qualquer uma destas teses.</font></p>          <p><font face="Verdana" size="2">O estudo interessou-se tamb&#233;m em saber em que medida as influ&#234;ncias europeia, ind&#237;gena e africana s&#227;o creditadas pelos brasileiros a algumas caracter&#237;sticas comummente atribu&#237;das ao Brasil de hoje. Foram apresentadas &#224; amostra brasileira algumas destas caracter&#237;sticas, tanto favor&#225;veis quanto desfavor&#225;veis. O <a href="/img/revistas/psi/v17n2/17n2a11q1.jpg">quadro 1</a> apresenta este conjunto de caracter&#237;sticas.</font></p>          
<p><font face="Verdana" size="2">Por meio de um sistema de pontua&#231;&#227;o que creditava um ponto a cada grupo &#8212; europeu, ind&#237;gena ou africano &#8212; toda vez que este era responsabilizado por uma caracter&#237;stica, o estudo constatou, como mostra a <a href="/img/revistas/psi/v17n2/17n2a11f3.jpg">figura 3</a>, que o grupo europeu foi considerado como o que mais exerceu influ&#234;ncia sobre as caracter&#237;sticas desfavor&#225;veis atribu&#237;das ao Brasil de hoje.</font></p>          
<p><font face="Verdana" size="2">A <a href="/img/revistas/psi/v17n2/17n2a11f4.jpg">figura 4</a> ilustra, a t&#237;tulo de exemplo, a influ&#234;ncia atribu&#237;da a cada um destes tr&#234;s grupos sobre uma caracter&#237;stica desfavor&#225;vel espec&#237;fica, qual seja, &#34;o subdesenvolvimento econ&#243;mico&#34;.</font></p>          
<p><font face="Verdana" size="2">Mas, como evidencia a <a href="/img/revistas/psi/v17n2/17n2a11f5.jpg">figura 5</a>, os brasileiros tamb&#233;m foram capazes de reconhecer m&#233;ritos decorrentes do processo de coloniza&#231;&#227;o europeu, como, por exemplo, &#34;a integra&#231;&#227;o racial na sociedade&#34;.</font></p>          
<p><font face="Verdana" size="2">Estes resultados mostram ter consist&#234;ncia quando confrontados com as respostas dos sujeitos da pesquisa &#224; indaga&#231;&#227;o sobre o que teria ocorrido com as tr&#234;s culturas que conviveram no Brasil durante a sua coloniza&#231;&#227;o. A <a href="/img/revistas/psi/v17n2/17n2a11f6.jpg">figura 6</a> mostra que a cultura brasileira foi representada, tanto pelos brasileiros quanto pelos portugueses, como a fus&#227;o das culturas europeias ind&#237;gena e africana.</font></p>          
<p><font face="Verdana" size="2">Muito embora os resultados apontem para o reconhecimento &#8212; por parte de portugueses e brasileiros &#8212; do car&#225;cter integrativo do processo de coloniza&#231;&#227;o do Brasil, os sujeitos da pesquisa pareciam n&#227;o acreditar que esta integra&#231;&#227;o tenha se dado de modo pac&#237;fico. Como demonstra a <a href="/img/revistas/psi/v17n2/17n2a11f7.jpg">figura 7</a>, metade dos portugueses e brasileiros consideraram &#34;a matan&#231;a dos &#237;ndios pelos colonizadores&#34; como a principal causa apontada para explicar a redu&#231;&#227;o da popula&#231;&#227;o ind&#237;gena. Quanto aos outros motivos apontados para explicar tal redu&#231;&#227;o, os portugueses &#8212; comparativamente aos brasileiros&#8212;pareceram ter pouca simpatia por explica&#231;&#245;es que aumentassem sua responsabilidade neste processo, como &#34;doen&#231;as trazidas pelo colonizador&#34;, preferindo explica&#231;&#245;es que transferissem a responsabilidade pelo exterm&#237;nio &#224;s pr&#243;prias v&#237;timas, como a &#34;guerra entre tribos rivais&#34; ou a &#34;n&#227;o procria&#231;&#227;o intencional dos &#237;ndios&#34;.</font></p>          
<p><font face="Verdana" size="2">Os resultados precedentes parecem explicar porque os brasileiros &#8212; mais do que os portugueses &#8212; experimentavam sentimentos de revolta ou vergonha quando pensavam nos factos ocorridos h&#225; 500 anos no Brasil. De facto, enquanto os portugueses sentiam-se principalmente orgulhosos ou, em menor propor&#231;&#227;o, indiferentes em rela&#231;&#227;o a esses acontecimentos remotos, os brasileiros, de acordo com <a href="/img/revistas/psi/v17n2/17n2a11f8.jpg">figura 8</a>, se distribu&#237;am entre a revolta e a vergonha, al&#233;m do orgulho e da indiferen&#231;a.</font></p>          
]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Conforme a <a href="/img/revistas/psi/v17n2/17n2a11f9.jpg">figura 9</a> revela, para os portugueses a principal fonte de representa&#231;&#245;es do descobrimento foi o aprendizado na escola, seguido da televis&#227;o, que foram tamb&#233;m fontes importantes para os brasileiros, mas em menor grau, pois jornais, revistas e livros recentes contribu&#237;ram igualmente para a actualiza&#231;&#227;o da sua mem&#243;ria.</font></p>          
<p><font face="Verdana" size="2">Embora o conhecimento sobre o descobrimento do Brasil tenha sido obtido pelos brasileiros por meio do acesso a diferentes fontes, as quais adoptam modos inteiramente diversificados de tratamento da informa&#231;&#227;o, o estudo revelou, como consubstanciado na <a href="/img/revistas/psi/v17n2/17n2a11f10.jpg">figura 10</a>, que metade da amostra brasileira, tanto quanto da portuguesa, n&#227;o percebia muita diferen&#231;a entre o que se falava ent&#227;o sobre o descobrimento e o que se lembrava de ter lido nos manuais escolares.</font></p>          
<p><font face="Verdana" size="2">A <a href="/img/revistas/psi/v17n2/17n2a11f11.jpg">figura 11</a> resulta da tentativa de testar a hip&#243;tese de que alguns sentimentos experimentados pelos brasileiros quanto aos factos relacionados ao descobrimento pudessem ser explicados pela prefer&#234;ncia por um meio espec&#237;fico de informa&#231;&#227;o, atrav&#233;s do qual recebessem predominantemente as informa&#231;&#245;es sobre o descobrimento. Como se observa, os jornais e revistas e, sobretudo, os livros recentes sobre hist&#243;ria estariam disseminando conte&#250;dos mais cr&#237;ticos em rela&#231;&#227;o aos factos do descobrimento, uma vez que aqueles que os apontaram como principal fonte de conhecimento foram precisamente os que afirmaram experimentar, em maior grau, sentimentos de revolta e vergonha.</font></p>          
<p><font face="Verdana" size="2">O estudo tamb&#233;m sugere, atrav&#233;s da <a href="/img/revistas/psi/v17n2/17n2a11f12.jpg">figura 12</a>, que &#233; entre os mais jovens que prevalecia o sentimento de revolta, acompanhando talvez a maior ades&#227;o desta faixa et&#225;ria &#224;s chamadas &#34;cr&#237;ticas recentes&#34; &#224; interven&#231;&#227;o europeia no &#34;novo mundo&#34;, que teriam emergido no contexto das comemora&#231;&#245;es do quinto centen&#225;rio do descobrimento da Am&#233;rica, conforme resultados relatados por S&#225;, Oliveira e Prado neste volume.</font></p>          
<p><font face="Verdana" size="2">N&#227;o parece ser por outro motivo que o termo considerado o mais adequado para designar a chegada dos navegadores portugueses ao Brasil tenha sido, segundo a amostra brasileira, &#34;invas&#227;o ou conquista&#34;, contrariamente aos sujeitos portugueses, cuja prefer&#234;ncia recaiu sobre o termo &#34;encontro entre dois povos&#34;, como mostra a <a href="/img/revistas/psi/v17n2/17n2a11f13.jpg">figura 13</a>.</font></p>          
<p><font face="Verdana" size="2">Embora tenham destacado aspectos negativos relacionados ao descobrimento, brasileiros e portugueses consideraram que o evento deveria ser comemorado. A <a href="/img/revistas/psi/v17n2/17n2a11f14.jpg">figura 14</a> revela que a quase totalidade dos portugueses e dois ter&#231;os dos brasileiros mostraram-se favor&#225;veis &#224; comemora&#231;&#227;o do descobrimento do Brasil nos respectivos pa&#237;ses.</font></p>          
<p><font face="Verdana" size="2">Finalmente, a <a href="/img/revistas/psi/v17n2/17n2a11f15.jpg">figura 15</a> mostra em que grau brasileiros e portugueses consideraram que os objectivos de recorda&#231;&#227;o do passado foram importantes nas comemora&#231;&#245;es do quinto centen&#225;rio do descobrimento do Brasil.</font></p>          
<p><font face="Verdana" size="2">O exame desses resultados indica que a &#234;nfase dada aos aspectos negativos trazidos pela comemora&#231;&#227;o do quinto centen&#225;rio do descobrimento n&#227;o implicou a prefer&#234;ncia por objectivos que representassem inten&#231;&#245;es revanchistas ou correctivas em rela&#231;&#227;o ao passado. De facto, o que se observa &#233; que o objectivo de &#34;melhorar as rela&#231;&#245;es entre os dois pa&#237;ses&#34;, inclu&#237;do como alternativa de escolha exclusivamente no question&#225;rio portugu&#234;s, e o &#34;preparar o pa&#237;s para o futuro&#34;, inclu&#237;do como alternativa de escolha exclusivamente no question&#225;rio brasileiro, foram os objectivos considerados os mais importantes, revelando uma fun&#231;&#227;o prospectiva das mem&#243;rias actualizadas do descobrimento, qual seja, a de buscar no futuro um maior estreitamento das rela&#231;&#245;es entre duas popula&#231;&#245;es j&#225; t&#227;o ligadas por complexos v&#237;nculos hist&#243;ricos e culturais.</font></p>          <p>&nbsp;</p>         <p><font face="Verdana" size="2"><b>Notas</b></font></p>          ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2"><a href="#top1"><sup>1</sup></a><a name="1"></a>Projecto financiados pelos FAPERJ, CNPq, FAP/UERJ.</font></p>         ]]></body>
</article>
