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<institution><![CDATA[,Universidade de São Paulo Faculdade de Saúde Pública Departamento de Saúde Materno Infantil]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="fr"><p><![CDATA[Le crack est une substance psychoactive dérivé de la pâte de coca. Il a un fort potentiel additif pour son combinaison particulière des effets pharmacologiques et socioculturels liés à son utilisation. Face à l’utilisation croissante de crack dans différentes villes du Brésil, cet article a comme but contribuer à une meilleure compréhension du quotidien des utilisateurs d’une région spécifique de la zone centrale de São Paulo connu comme Cracolândia. Les données présentées sont issues d’une recherche doctorale qui a employé la méthode ethnographique pour décrire le profil des utilisateurs, leurs modes de sociabilité et la relation entre la consommation de crack et le soins de soi même. Les données de travail sur le terrain a indiqué une relation étroite entre l’Etat et le contexte social des usagers et son mode de consommation de crack. La grande majorité étaient dans la rue et a montré un mode d’utilisation compulsive dans laquelle la fissure dans lequel les activités d’auto-soins ou d’autres ont été secundarizé devant le rythme effréné imposé par l’usage de drogues.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Crack is a psychoactive substance derived from cocaine paste. It has a very high potential of addiction due to the peculiar combination of pharmacological and sociocultural effects implied in its use. Facing the increase of the use of crack in Brazil, this article aims to contribute to the understanding of the daily life of crack users of downtown São Paulo known as Crackolandia. The data presented were part of a doctoral dissertation, which adopted an ethnographic description to describe the users’ profile, social patterns and the relationship between the drug use and self-care. The data analysis of the field diary suggested a strong relationship between the social context and use pattern of crack. The majority was homeless and presented a compulsive pattern of use putting as secondary self-care and other basic functions due to the frenetic consumption of the drug.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="es"><p><![CDATA[El crack es una substancia psicotrópica derivada de la pasta de coca. Tiene un gran potencial para crear efectos adictivos por su peculiar combinación de efectos farmacológicos y socioculturales. Ante el creciente uso de crack en diferentes ciudades de Brasil, este artículo tiene como objetivo contribuir a la comprensión del cotidiano de usuarios de una región específica del área central de São Paulo conocida por Cracolândia. Los datos presentados provienen de una investigación doctoral que empleó el método etnográfico para describir el perfil de los usuarios, sus patrones de sociabilidad y la relación entre el consumo de drogas y el autocuidado. El análisis de los datos de las notas de campo sugiere una estrecha relación entre el contexto social de los usuarios y su patrón de consumo de crack. La gran mayoría estaban en las calles y mostraron un patrón de consumo compulsivo en el cual las actividades de cuidado personal o de otro tipo pasan a segundo plano frente al consumo desenfrenado de drogas.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><B>Uso de crack na cidade de São Paulo / Brasil </B></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><b>Luciane Raupp<sup>1</sup>, Rubens de C. F. Adorno<sup>2</sup> </b></P>     <p><sup>1</sup>Psicóloga, doutoranda da Faculdade de Saúde Pública da Uni&shy;versidade    de São Paulo / Brasil</P>     <p><sup>2</sup>Sociólogo, Doutor em Saúde Pública. Professor Associado do Departamento    de Saúde Materno Infantil. Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São    Paulo. </p>     <p><a name="top0"></a><a href="#0">Endereço para correspondências</a></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><B>RESUMO </B></P>      <p><I>Crack  </I>é  uma substância psicoativa derivada da pasta de coca. Apresenta elevado potencial  aditivo pela peculiar combinação de efeitos farmacológicos e socioculturais  implicados em seu uso. Frente ao aumento do uso de <I>crack </I>em diferentes  cidades do Brasil, esse artigo visa contribuir para uma compreensão do cotidiano  de usuários de uma região específica da área central de São Paulo conhecida como  <I>Cracolândia</I>. Os dados apresentados são oriundos de uma pesquisa de  doutorado que empregou o método etnográfico para descrever o perfil dos  usuários, seus padrões de sociabilidade e a relação entre uso da droga e  auto-cuidado. A análise dos dados do diário de campo sugere uma estreita relação  entre a situação e o contexto social dos usuários e seu padrão de uso de  <I>crack</I>. A grande maioria estava em situação de rua e apresentava um padrão  de uso compulsivo no qual o auto-cuidado ou quaisquer outras atividades eram  secundarizadas frente ao consumo frenético da droga. </P>     <p><B>Palavras-chave: </B>Drogadição; Uso de Crack; Etnografia; Saúde Pública.  </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p><B>RÉSUMÉ </B></P>     <p>Le crack est une substance psychoactive dérivé de la pâte de coca. Il  a un fort potentiel additif pour son combinaison particulière des effets  pharmacologiques et socioculturels liés à son utilisation. Face à l’utilisation  croissante de crack dans différentes villes du Brésil, cet article a comme but  contribuer à une meilleure compréhension du quotidien des utilisateurs d’une  région spécifique de la zone centrale de São Paulo connu comme Cracolândia. Les  données présentées sont issues d’une recherche doctorale qui a employé la  méthode ethnographique pour décrire le profil des utilisateurs, leurs modes de  sociabilité et la relation entre la consommation de crack et le soins de soi  même. Les données de travail sur le terrain a indiqué une relation étroite entre  l’Etat et le contexte social des usagers et son mode de consommation de crack.  La grande majorité étaient dans la rue et a montré un mode d’utilisation  compulsive dans laquelle la fissure dans lequel les activités d’auto-soins ou  d’autres ont été secundarizé devant le rythme effréné imposé par l’usage de  drogues. </P>     <p><B>Mots-clé: </B>Addiction; Use de Crack; Ethnographie; Salut Public.  </P>     <p><B>&nbsp;</B></P>     <p><B>ABSTRACT </B></P>     <p><I>Crack </I>is a psychoactive substance derived from cocaine paste. It has a very  high potential of addiction due to the peculiar combination of pharmacological  and sociocultural effects implied in its use. Facing the increase of the use of  <I>crack </I>in Brazil, this article aims to contribute to the understanding of  the daily life of <I>crack </I>users of downtown São Paulo known as  <I>Crackolandia</I>. The data presented were part of a doctoral dissertation,  which adopted an ethnographic description to describe the users’ profile, social  patterns and the relationship between the drug use and self-care. The data  analysis of the field diary suggested a strong relationship between the social  context and use pattern of <I>crack. </I>The majority was homeless and presented  a compulsive pattern of use putting as secondary self-care and other basic  functions due to the frenetic consumption of the drug. </P>     <p><B>Key Words: </B>Addiction; Use of Crack; Ethnography; Public Health. </P>     <p>&nbsp; </P>     <p><B>RESUMEN </B></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>El <I>crack </I>es una substancia psicotrópica derivada de la pasta  de coca. Tiene un gran potencial para crear efectos adictivos por su peculiar  combinación de efectos farmacológicos y socioculturales. Ante el creciente uso  de <I>crack </I>en diferentes ciudades de Brasil, este artículo tiene como  objetivo contribuir a la comprensión del cotidiano de usuarios de una región  específica del área central de São Paulo conocida por <I>Cracolândia</I>. Los  datos presentados provienen de una investigación doctoral que empleó el método  etnográfico para describir el perfil de los usuarios, sus patrones de  sociabilidad y la relación entre el consumo de drogas y el autocuidado. El  análisis de los datos de las notas de campo sugiere una estrecha relación entre  el contexto social de los usuarios y su patrón de consumo de <I>crack</I>. La  gran mayoría estaban en las calles y mostraron un patrón de consumo compulsivo  en el cual las actividades de cuidado personal o de otro tipo pasan a segundo  plano frente al consumo desenfrenado de drogas. </P>     <p><B>Palabras Clave: </B>Adicción; Uso de Crack; Etnografía; Salud Pública.  </P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <p><B>1  – Introdução </B></P>     <p>São Paulo é a maior cidade brasileira. Localizada na região sudeste do país,    é considerada o principal cen&shy;tro financeiro, corporativo e mercantil da    América do Sul (Prefeitura municipal de São Paulo, 2009). Com uma população    em torno dos 11 milhões de habitantes (IBGE, 2009) e a maior movimentação financeira    do país, possui uma dinâmica urbana e social complexa a qual torna especialmente    visível em seu cotidiano os elevados níveis de desigualdade social que persistem    historicamente no Brasil. </p>     <p>Como na maioria das megalópoles, o crescimento urbano acelerado e caótico traz    conseqüências que afetam diretamente a qualidade de vida da população, especialmente    entre as camadas de baixa renda. Essa questão mostra sua face tanto nos bairros    pobres, afastados da região central e desprovidos de sua infra-estrutura, quanto    em áreas da região central onde pessoas de baixa renda habitam moradias pre&shy;cárias,    chamadas popularmente de cortiços, residem irregularmente em prédios invadidos,    em abrigos para a população em situação de rua ou sobrevivem na rua sob a intempérie.  </p>     <p>Esse trabalho tomou a área da região central de São Paulo conhecida como <I>Cracolândia    </I>(pela grande concentração de usuários de <I>crack </I>na via pública) como    foco de pesquisa. Compreende-se a existência da <I>Cracolândia </I>como articulada    a um fenômeno maior, reflexo de políticas públicas as quais, objetivando a periferização    da pobreza, obtiveram como resposta tardia, em um movimento de contra-fluxo,    a formação de um grande contingente de pessoas habitando ou circulando pelas    ruas centrais em busca de alternativas para a precariedade da vida nas periferias    e zonas rurais. De acordo com Bursztyn (2003), após décadas de políticas de    “<I>segregação espacial da miséria</I>” (p. 50), a pobreza voltou aos centros    das cidades, agora sob a forma de miséria extrema. </p>     <p>A região central da cidade de São Paulo concentra grande parte do setor bancário,    de serviços e comércio da cidade, além de instituições históricas e culturais.    De área de lazer e negócios das elites nas primeiras décadas do século passado,    é considerada atualmen&shy;te uma área degradada. Espaço predominantemente comercial,    possui a maior concentração de domicílios vazios da cidade e de imóveis invadidos    por pessoas de baixa renda, além de diversas habitações populares denominadas    de cortiços (Sampaio e Pereira, 2003). A existência de pequenos hotéis, surgidos    nas pro&shy;ximidades de uma antiga rodoviária, colabora para a alta rotatividade    de profissionais do sexo, traficantes e usuários de drogas nas ruas da região,    as quais ficam esvaziadas após o horário comercial, constituindo um agravante    às condições locais de segurança. </p>     <p>A apropriação do espaço público por vendedores e usuários de drogas constitui    um dos maiores problemas da área. Sua “revitalização” é uma das principais metas    da atual gestão municipal. Através de um pro&shy;jeto iniciado em 2005 (Projeto    Nova Luz) ações de desapropriação de imóveis e fechamento de hotéis conjugam-se    à repressão aos usuários de drogas e moradores de rua (Raupp e Adorno, 2009).  </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p><B>2  – Objetivos e metodologia </B></P>     <p>Visando contribuir ao entendimento do uso de <I>crack </I>sob a perspectiva    da pesquisa social no campo da saúde, esse estudo abordou o cotidiano de usuários    dessa substância de forma articulada à compreensão de seu contexto. Utilizou-se    o método etnográfico pa&shy;ra descrever o perfil dos usuários, seus padrões    de sociabilidade e a relação entre uso de crack, autocuidado e estilo de vida.    O trabalho de campo ocorreu através da inserção dos pesquisadores em uma organização    não-governamental (ONG) de redução de danos relacionados ao uso de drogas, conjugado    a idas independentes a campo, possibilitando uma aproximação aos usuários em    momentos de socialização e/ou uso de drogas. O trabalho de campo ocorreu durante    seis meses. </p>     <p>Consistiu na realização de observações participantes e conversas informais    registradas em diário de campo. A análise dos dados baseou-se na compreensão,    ela&shy;boração e sistematização dos registros do diário de campo. Ao longo    desse artigo serão transcritos trechos do diário de campo. </p>     <p>&nbsp;</P>     <p><B>3  – Resultados </B></P>     <p><b>3.1 – Usuários e sociabilidades </b></P>     <p>Dadas  as dificuldades inerentes à pesquisa em ter&shy;ritórios psicotrópicos  (Fernandéz e Pinto, 2008), esta&shy;belecemos contato apenas durante o dia com  os usuários de <I>crack</I>. Provavelmente devido à situação de grande exposição  de tal contexto, no qual estão facil&shy;mente acessíveis a repressões policiais  e ao reconhe&shy;cimento por parte de transeuntes, não foram acessadas pessoas  de melhor poder aquisitivo. Nas raras vezes em que foram avistados, pareciam  estar sozinhos e com pressa: </P>     <blockquote>        <p><I>Estamos em uma das ruas de maior movimento de usuários. Nos chama a atenção      um jovem com aparência de classe média circulando sozinho entre os usuários.      Parece estar querendo comprar ou usar crack. A equipe tenta abordá-lo para      distribuir insumos<a name="top1"></a><SUP><a href="#1">1</a></SUP>, mas ele      não responde nem aceita nada, se esquivando. Parece não ser freqüentador assíduo      da área por seu jeito assustado e pouco à vontade. </I></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Informações  fornecidas por frequentadores deram indicações sobre as dinâmicas dos usuários  não con&shy;tatados. Por exemplo, em uma conversa com um ex-usuário é feita  referência a pessoas de melhor poder aquisitivo que vão às ruas da  <I>Cracolândia </I>comprar <I>crack</I>, consumindo a droga nos hotéis da  região: </P>     <blockquote>       <p><I>-Você já foi na Cracolândia de noite? </I></p>       <p><I>-Não. </I></p>       <p><I>-Tem que ir! É uma loucura, muita gente! Tem os caras que param de carro      ali para comprar e vão fumar nos hotéis. </I></p> </blockquote>     <p>No  exemplo abaixo um morador de rua relata uma situação comum<I>, </I>a união de  uma pessoa de maior poder aquisitivo a um usuário local para a compra e consumo  de <I>crack</I>: </P>     <blockquote>       <p><I>T. conta o que fez na noite anterior com um tom orgulhoso. Diz que gastou      200,00: comprou 10 pedras, pagou o hotel e a propina para o dono do hotel.      Explica que o dinheiro era de um ‘playboyzinho’ que lhe deixava fumar junto      com ele se T. comprasse a droga e conseguisse um local para usá-la. </I></p> </blockquote>     <p>Devido ao fato de a maioria dos usuários com melhor poder aquisitivo consumir    a droga em locais discretos e seguros, a quase totalidade das pessoas observadas    usando <I>crack </I>eram moradores de rua ou pessoas de baixa renda que iam    ao Centro comprar e usar a droga, permanecendo ali por vários dias. </P>     <p>Segundo Adorno (1997/1998, p. 12), ao invés de mora&shy;dores de rua, a expressão    “pessoas em trânsito pela rua” seria mais adequada para a caracterização desse    público por ressaltar o caráter de transitoriedade do estar na rua. Isto é particularmente    verdade no caso do uso de <I>crack</I>, pois nas trajetórias perpetradas pelos    usuários a passagem para morador de rua pode ser precedida de um período de    idas e vindas entre sua comunidade e as ruas do Centro, com a tendência a permanecer    períodos cada vez maiores na rua na medida em que aprofundam sua relação com    a droga. Experiência transitória ou não, o trânsito pela rua é marcante, causando    marcas que não deixam incólume quem passa por essa experiência. O trecho a seguir    traz a história de um usuário: </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>       <p><I>Z. conta que fazia faculdade de Jornalismo e já fumava crack, mas conseguia      levar as duas coisas ao mesmo tempo, até chegar a um ponto - há uns oito meses      - em que largou tudo e foi parar na rua porque sua mãe não admitia que usasse      drogas. Tem vontade de parar porque quer voltar a estudar. Sobrevive vendendo      cachimbos confeccionados a partir de antenas usadas que encontra na rua. </I></p> </blockquote>     <p>Em  outro momento do trabalho de campo observamos um casal que anteriormente  tínhamos visto de passa&shy;gem, comprando <I>crack, </I>e agora parecia estar  morando na rua: </P>     <blockquote>       <p><I>Observo um casal jovem, aparentando uns 20 anos de idade, o qual eu vira      há uns dias pelas ruas da Cracolândia e me chamara a atenção pela boa apa&shy;rência,      especialmente da menina, bonita e bem arrumada. Hoje (um dia de inverno, frio)      estavam deitados na grama da Praça Princesa Isabel sobre um cobertor acinzentado,      semelhante aos que são distribuídos por entidades assistenciais. </I></p> </blockquote>     <p>Os usuários que encontramos nos circuitos pesquisados agrupavam-se de forma    heterogênea: eram pessoas de ambos os sexos e das mais diferentes idades. Sentados    no chão ou recostados em paredes, compartilhavam cachimbos, cigarros e bebidas    alcoólicas.</P>     <p> Ocasionalmente registrou-se a presença de grupos formados majoritariamente    por crianças as quais, deitadas em colchões no chão, fumavam <I>crack </I>juntas.    Conversavam, riam e entravam seguidamente em conflito. Em geral havia também    a presença de um jovem mais velho com a função de liderar o grupo e lhe dar    proteção. No trecho a seguir é descrito um agrupamento típico da região: </P>     <blockquote>        <p><I>Saímos do Parque da Luz e avistamos um grupo de cinco jovens (entre 13      e 20 anos) fumando crack, sentados junto à grade. Eles nos olham sérios e      desconfiados, quase não falam conosco. aceitam insumos e brigam entre si por      mais. Um rouba a piteira de um menino mais novo, o qual está fumando. Este      pede outra piteira. Está muito agitado, sem conseguir compreender o que falamos      ou conversar. Peço que se acalmem para que possamos terminar de distribuir      os insumos e folhetos. Todos aceitam e alguns lêem. reparo em uma menina que      fuma sob um cobertor, junto com um amigo. Um fica com a cabeça para fora do      cobertor, enquanto o outro fuma. Conversamos com a menina e, quando é sua      vez de fumar, ela diz ‘Com licença. Desculpa!’ e desaparece sob o cobertor.      </I></p> </blockquote>     <p>O consumo de drogas na rua é também considerado um fator de sociabilidade,    elemento da criação pontual de grupos e objeto de solidariedade, tanto quanto    de disputas e conflitos. No entanto, diferentemente da ‘roda de cachaça’ na    qual através do compartilhamento de pouco dinheiro compra-se uma garrafa a ser    consumida durante horas, no uso de <I>crack </I>a necessidade financeira é maior,    alterando a dinâmica do compartilhamento grupal. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Silva (2000, p. 76), em um estudo etnográfico sobre profissionais do sexo,    usuárias de <I>crack</I>, refere o uso da droga como algo que “<I>faz parte</I>”    da vivência nas ruas, pois está ligado a uma identidade pertencente a esse espaço    no qual juntamente com os comportamentos violentos compõe formas de expressão    e de construção de uma identidade de exclusão. </p>     <p>Apesar da presença da violência, episódios observados relativizaram a associação    direta entre uso de <I>crack </I>e comportamento violento e egoísta, ressaltando    os riscos da generalização de comportamentos unicamente pelos efeitos químicos    de uma substância utilizada. Relatamos a seguir alguns exemplos. </p>     <blockquote>        <p><I>Converso com um homem que parece ter ingerido álcool. Estamos ao lado      de um grupo de jovens fumando crack. Ele olha para o grupo e diz que eles      são todos “gente boa”, embora “quem olha não diz”. Refere que todos se ajudam      mutuamente. Conta que de uma vez passou mal e foi ajudado por uns jovens usuários,      os quais “fizeram de tudo” para lhe auxiliar, buscando comidas, remédios.      Conta isso chorando e diz que, no outro dia, quando estava melhor, comprou      comida e compartilhou com eles, a fim de retribuir sua ajuda. </I></p> </blockquote>     <p>Um episódio registrado numa tarde de um dia de semana na <I>Cracolândia </I>descreve    um episódio de desinteressada solidariedade entre usuários: </p>     <blockquote>       <p><I>Avistamos dois jovens sentados, um rapaz e uma jovem. Ela está comendo      uma fruta e chorando, toda suja. Perguntamos o que aconteceu. Ela responde      estar com dor nas pernas, pois tem artrite reumatóide há 10 anos. Diz querer      voltar para casa para tomar seus remédios, mas não poder ir até que uma mulher      que está lhe devendo um dinheiro a pague. Ela caminha apoiada no jovem que      a acompanha. Tentamos convencê-la a voltar para casa, dado seu estado. Seu      amigo faz o mesmo, mas diz que ela não vai porque é “cabeça dura”. Chorando,      a jovem diz morar sozinha e não ter nada em casa e que por isso não agüenta      ficar lá, pois não tem o quê fazer. Um tempo depois, o rapaz sai por uns instantes      e retorna com um lanche para ela: pão, frios e suco (o qual prepara pegando      uma garrafa da rua e pedindo água em um bar ao lado). Notamos que, apesar      de sua solicitude, ele não sabe sequer o nome da jovem e não parece ter nenhum      envolvimento com ela. Um tempo depois, tenta ainda pedir o dinheiro da menina      para a traficante que supostamente estava lhe devendo. Volta com r$ 3,50 para      ela pagar o ônibus para casa, deixando-a ainda mais revoltada. O rapaz se      oferece para acompanhá-la, pede que a levemos, a coloquemos no metrô, mas      ela se recusa a tudo, não quer ir embora.</I></p> </blockquote>     <p>Outro  fator relevante nesse episódio liga-se ao fato de a jovem ter casa e se recusar  a voltar, provavelmente depois de ter passado vários dias na rua. Além dos  fatores objetivos aludidos, a fala sobre suas condições de vida revela um  contexto de solidão e desamparo. Segundo Escorel (2006), possuir uma casa não  signi&shy;fica necessariamente ter um “lar”, no sentido do espa&shy;ço da  domesticidade, intimidade e privacidade, tais sentimentos podem estar tão  ausentes na rua quanto em casa, ou ainda mais ausentes nesta, pela presença de  relações familiares violentas, conturbadas ou dis&shy;tantes. Em vários momentos  da pesquisa, usuários se referiram à solidão como o motivo para o abuso de  drogas, revelando a presença de um imaginário comum, sempre acessado para a  justificação desse consumo. Seja essa solidão real ou imaginária, ela é  igualmente marcante e presente. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>4 – Contextos de uso e autocuidado </B></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A  qualidade de “desolados” utilizada por um ex-usuário como referência aos  freqüentadores da <I>Cracolândia </I>pode ser usada para descrever o contexto  estudado. Um trecho do diário de campo ilustra uma cena comum:  </P>     <blockquote>       <p><I>Passando pela Helvétia, atravessamos a rua para dar insumos a jovens sentadas      no chão em uma esquina, em meio a sacos de lixo exalando um odor muito forte.      Elas fumam sentadas junto ao lixo, parecendo não se importar com isso. Penso      porque não atravessam a rua para, pelo menos, se afastar um pouco da sujeira.      Aparentam estar muito drogadas. Não interagem conosco. </I></p> </blockquote>     <p>Devido  à total absorção pelo uso da droga, e conseqüente descuido pessoal, doenças são  muito freqüentes: </P>     <blockquote>       <p><I>Abordamos um grupo de moradores de rua que fumam crack recostados em uma      grade que divide a calçada de uma praça. Conversamos com duas mulheres. Uma      delas nos mostra a cicatriz de uma cirurgia recente no abdômen, ainda com      pontos que parecem infeccionados. Cospe sangue e diz sentir dor. Apesar de      seu estado físico, se recusa a ser conduzida a um posto de saúde ou hospital.      a outra mulher se diz impotente para ajudar, pois “não adianta”. Depois de      falar conosco, fumam crack em um cachimbo que lhes é oferecido por pessoas      que fumam ao seu lado. </I></p> </blockquote>     <p>O  consumo de algumas drogas é considerado impor&shy;tante fator de risco para a  transmissão de doenças (Galperim, 2000; Motta, 2003). Embora no uso do <I>crack  </I>a transmissão não seja direta, seu consumo diminui as defesas imunitárias e  expõe o usuário a contextos e comportamentos de risco. Pesquisas demonstram que  esse público desenvolve mais problemas sociais e de saúde se comparado a  consumidores de outras drogas (Ferri, 1999); tem tendência a morrer vítima de  homicídio ou acometido pela AIDS e apresenta taxa de mortalidade maior que a  população brasileira geral (Ribeiro <I>et al.</I>, 2006). </P>     <blockquote>       <p><I>Um homem de mais ou menos 30 anos vem conversar com a equipe, querendo      saber o que estão distribuindo. ao lhe ser explicado o trabalho de redução      de danos, pede uma piteira. Diz achar importante esse tipo de ação porque,      há um ano atrás, pegou tuberculose fumando crack na rua. Pergunto se já se      curou e ele responde que sim, pois o levaram embora de São Paulo. Nesse momento      penso que agora ele já estava ali de novo. </I></p> </blockquote>     <p>O  exemplo a seguir descreve um quadro comum entre usuários. Devido ao padrão  predominante de uso de <I>crack </I>ser de tipo binge, dadas as características  psicofarmacológicas da substância (Reinarman <I>et al.</I>, 1997), são  freqüentes relatos de mal estar, exaustão, tremores, vômitos, tonturas e  convulsões. Esse padrão leva com freqüência à negligência de necessidades  básicas (comer, dormir, etc.) durante os episódios de uso, comprometendo a saúde  com perda acentuada de peso e do interesse por outras atividades (Iniciardi,  1992). Dores nas costas e tosses contínuas são sin&shy;tomas comuns:  </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>       <p><I>Voltando de uma ida a campo conversamos com um jovem enrolado em um cobertor.      Ele diz ter 14 anos e precisar de ajuda. Tosse muito e está com febre. Sente-se      fraco e não come nem dorme há dois dias. a equipe conversa com ele e lhe convence      a buscar um abrigo para passar uns dias. </I></p> </blockquote>     <p>Passados  alguns dias, encontramos novamente esse jovem. Seu estado físico estava ainda  pior que da última vez: </P>     <blockquote>       <p><I>Dias depois, reencontramos o mesmo jovem. Conta ter ficado dois dias no      abrigo e não querer mais vol&shy;tar para lá. Parece pior que da última vez,      está mais magro e sujo. </I></p> </blockquote>     <p>No  trecho a seguir, é descrita a abordagem a uma jovem no terceiro trimestre de  gestação. Sublinha-se a falta de cuidados básicos como alimentação regular ou  acompanhamento médico pré-natal: </P>     <blockquote>       <p><I>Praça Princesa Isabel. Abordamos uma senhora que está ao lado de uma jovem      deitada na grama, sob um cobertor. Esta diz estar grávida de sete meses e      precisar de roupas para o bebê. Mostra sua pequena barriga (está bem magra).      Diz ainda não ter ido ao posto de saúde porque pretende ir ao hospital apenas      para o parto. Pergunto se está conseguindo comer pelo menos duas vezes ao      dia e ela responde: “mais ou menos”. Logo se aproximam dois homens e a jovem      não nos dá mais atenção. </I></p> </blockquote>     <p>Outro  fator de destaque entre os usuários regulares é o desinteresse por qualquer  outra atividade. De forma ge&shy;ral, os usuários que encontrávamos passavam a  maior parte do tempo consumindo a droga ou em busca de dinheiro para obtê-la:  </P>     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><I>Praça Júlio Prestes. Quando a viatura da polícia se afasta, os usuários      retornam. Entre eles vemos o menino que havíamos encaminhado para um abrigo      há algumas semanas. Muito magro e sujo, não quer conversar, parece estar na      função de conseguir crack e logo se afasta. Havia ficado de retornar à ONG      mas não o fez. </I></p> </blockquote>     <p>No  relato a seguir um jovem se diz “acomodado” em sua rotina de usar <I>crack </I>e  conseguir o básico para so&shy;breviver através das entidades assistenciais  atuantes na área: </P>     <blockquote>       <p><I>Na Praça Júlio Prestes conversamos com um usuário que diz não buscar trabalho      porque tem onde dormir, comer e gosta de usar pedra. Admite-se acomodado nessa      vida. Quando lhe são oferecidos preservativos, diz não querer: - Não tenho      mais vontade de fazer sexo, só de fumar pedra! </I></p> </blockquote>     <p>Em  um estudo realizado por Reinarman <I>et al. </I>(1997), a perda do interesse por  outras atividades relacionava-se ao intenso prazer, aumento de autoconfiança e  euforia gerados pelo <I>crack</I>. Estas sensações conduziriam a um estado de  consciência alterada no qual o foco fica apenas na droga. Segundo os autores, os  aspectos negativos do uso não passam despercebidos pelos usuários, os quais  mostravam-se conscientes de ser justamente o intenso prazer obtido o maior  causador dos riscos associados a essa prática<I>.  </I></p>     <p>&nbsp;</P>     <p><B>5  – Os <I>Nóia </I></B></P>     <p>Em  São Paulo, os usuários de <I>crack </I>são chamados de <I>Nóias</I>, termo local  usado como referência à paranóia, um dos efeitos mais perceptíveis da  substância, con&shy;seqüente a um uso intenso no qual a inalação de grandes  quantidades induz a sensações de irritabili&shy;dade, tremores e atitudes  bizarras. Manifesta-se como uma inquietação constante, geralmente acompanhada de  uma sensação de medo nos usuários, os quais passam a vigiar o local onde estão  usando a droga, apresentando grande desconfiança uns dos outros e em relação às  pessoas que estão nas proximidades. </P>     <blockquote>       <p><I>No começo é muito bom, mas depois é depressão e paranóia. Eu já tava ficando      paranóico, ficava fumando e olhando pra janela pra ver se não vinha ninguém...      </I></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Durante  a pesquisa constatamos ser essa sensação muito presente, responsável pela  maioria dos conflitos presenciados. De acordo com as observações e  con&shy;versas estabelecidas com os usuários durante o trabalho de campo  constatou-se que este sintoma aparece em quase todos e é responsável pela  maioria das brigas nas cenas grupais de uso, nas quais amizades de longa data  podem ser terminadas em função da droga. No trecho a seguir, é descrita uma das  muitas brigas presenciadas em uma das ruas da <I>Cracolândia</I>:  </P>     <blockquote>       <p><I>Dobramos a rua e nos deparamos com uma briga em uma esquina onde se concentram      muitos usuários de crack. O conflito envolve dois jovens, um dos quais está      sem camisa e bastante alterado. Exibe um pedaço de madeira na mão com o qual      ameaça seu oponente. Quem está por perto assiste e não se mete. </I></p> </blockquote>     <p>Identificar-se como <I>Nóia </I>é algo que pode ou não ser assumido pelos usuários,    aludindo a distintas repre&shy;sentações ligadas ao termo. Por exemplo, durante    o trabalho de campo conversamos com um homem sentado no chão junto a pessoas    usando <I>crack </I>o qual dizia que, apesar de também fumá-lo, não era <I>Nóia</I>.  </P>     <p>Por outro lado, outros se autodenominavam <I>Nóia</I>s, aludindo a um sentimento    de pertencimento grupal, como demonstrado em um episódio no qual uma jovem pergunta    como poderia fazer para garantir os “direitos dos <I>Nóia</I>”. Se levado em    conta o desprezo social em relação a essas pessoas, desconsideradas enquanto    sujeitos morais e cidadãos (Jaenisch, 2007), pode-se inferir o quanto o pertencimento    a um grupo, mesmo que estigmatizado, seja preferível à invi&shy;sibilidade total.    Gomes e Adorno (2010) destacam a existência de uma hierarquia interna ao grupo    estuda&shy;do na qual usar <I>crack </I>e ter um mínimo de organização estrutural    e ética é um fator demarcador da condição de ser ou não ser um <I>nóia</I>.    Nesse sentido: “<I>O nóia é aquele que está no nível mais baixo, carregando    um gran&shy;de estigma de alguém sem controle e sem limites em sua busca de    uso do crack, não sendo confiável nem para os outros usuários</I>” (Gomes e    Adorno, 2010, p. 13). Os autores destacam que a identificação com a identidade    <I>nóia </I>pode ser a única alternativa frente à inexistên&shy;cia de outras    possibilidades de integração social, pela grande restrição de possibilidades    de suas vidas.</P>     <p> Os <I>Nóia </I>são vistos de forma pejorativa pela sociedade, a qual os relaciona    a ameaças à segurança pública e clama por ações repressivas. A seguir são transcritos    trechos de conversas estabelecidas entre ex-usuários e usuários atuais de <I>crack    </I>e/ou outras drogas fre&shy;qüentadores da ONG. Note-se que mesmo entre esse    público o <I>nóia </I>é discriminado: </P>     <blockquote>       <p><I>– Os Nóia que tão ali (na Cracolândia) é porque aprontaram tanto nos bairros      deles que tiveram que vir pro Centro... Eles não têm mais jeito! . </I></p>       <p><I>– Tinha que colocar os militares lá. Sumir com eles ou construir um muro      e deixar eles trancados lá, como se fosse outra cidade. </I></p> </blockquote>     <p>Na imprensa brasileira, a grande maioria das matérias abordando essa questão    representa os usuários como violentos e degradados, disseminando repúdio e medo    entre a população, reproduzindo o ocorrido em outros países (Hartman &amp; Gollub,    1999; Reinarman e Levine, 1997). Domanico (2006) usa o conceito de Pânico Moral    para descrever a relação estabelecida pela sociedade brasileira com os usuários    de <I>crack. </I></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p><B>6  – Considerações finais </B></P>     <p>Os dados apresentados nesse trabalho estão estrei&shy;tamente relacionados    ao contexto estudado o qual agregava pessoas em situação de desfiliação social    com perda total ou parcial de vínculos econômicos e afetivos, muitas das quais    entraram em contato com o <I>crack </I>quando já estavam em situação de rua.    Nesses casos, a droga não pode ser apontada como a causa da ida à rua, embora    isso seja verdade para uma parte significativa das pessoas observadas. </P>     <p>Devido às características do campo de pesquisa, a grande maioria dos usuários    pesquisados reafirmavam as representações sociais quanto ao único padrão possível    de uso de <I>crack </I>ser o de tipo <I>hard </I>ou compulsivo. Também confirmou    o perfil apresentado em outros estudos brasileiros (Nappo, 1996; Oliveira, 2007)    nos quais o usuário é predominantemente homem (embora tenham sido observadas    várias usuárias), de baixa renda e poliusuário de drogas o qual, ao experimentar    <I>crack</I>, torna-se dependente, empregando poucas estratégias de autocuidado    e/ou autocontrole. De acordo com Iniciardi (1992), é a combinação de efei&shy;tos    farmacológicos e socioculturais implicados no uso de <I>crack </I>o que coloca    o usuário em risco. Segundo o autor, o fato de a droga provocar um estado de    êxtase com duração muito curta seria a principal causa de seu alto risco de    causar dependência. O uso rapidamente se torna uso compulsivo. A inter-relação    de efeitos potentes e de curta duração com a necessidade con&shy;tínua de aquisição    de dinheiro para a compra da droga, conjugada com a ilegalidade dessa prática,    articulam-se para o predomínio da carreira “<I>hard</I>” entre esse público.  </P>     <p>De acordo com Domanico e MacRae (2006), o sucesso da disseminação dessa substância    no Brasil, assim como ocorrido anteriormente nos EUA, foi facilitado pelas condições    de exclusão de importantes setores jovens da população. Segundo os autores,    isto não significa a não existência de usuários de classes mais favorecidas,    no entanto, estes tendem a utilizar suas condições de classe para garantir maior    discrição e um abrandamento das conseqüências negativas dessa prática. Ou seja,    conforme demonstraram estudos clássicos conduzidos por Zinberg (1984), as conseqüências    do uso de drogas estão estreitamente relacionadas ao fator psicológico do consumidor    e ao seu contexto sociocultural. </P>     <p>Nesse sentido, consideramos importante compreender o cenário estudado com foco    nas características do cotidiano dos usuários e não apenas nas propriedades    farmacológicas da substância que consomem. Ressaltando essa questão, Bourgois    (1997) alude à noção de “Opressão Conjugada” <I>-</I>uma dinâmica ideológica    formadora de um processo opressivo esmagador - para explicar porque hordas de    <I>nóias </I>buscam no <I>crack </I>alívio para um cotidiano atravessado por    diferentes formas de opressão e poucas perspectivas de mudança. Nessa perspectiva,    a violência, o crime, o tráfico e abuso de drogas presentes nas comunidades    carentes são compreendidos como manifestações de uma “Cultura da Resistência”,    caracterizada por um posicionamento ativo contra os valores sociais hegemônicos.    Nesse contexto, o abuso de <I>crack </I>é compreendido como um artifício capaz    de transformar uma vida marcada pela falta, discriminação e ausência de perspectivas    em uma busca constante por prazer, focada no presente, a qual preenche a existência    com um objetivo concreto e factível: obter mais e mais <I>crack. </I></P>     <p>As conseqüências negativas dessa escolha são facilmente captáveis por uma rápida    visita ao local estudado, o qual não difere substancialmente de outros semelhantes.    Testemunha o quanto, conforme aludido por Bourgois (1997), a maioria das formas    de resistência empregadas contra o preconceito e como alternativa aos lugares    sociais destinados aos pobres têm resultado em uma ainda maior opressão e autodestruição,    entre as quais o <I>crack </I>se tornou emblemático. </P>     <p><B>&nbsp;</B></P>     <p><B>NOTA:  </B></P>     <p><a name="1"></a><a href="#top1">1</a> – No Brasil, as equipas de Redução    de Danos usam os termos “insumos” ou “insumos para o uso de drogas” como sinónimos    de “materiais para uso seguro de drogas”, os quais são distribuídos em <I>kits    </I>que podem conter agulhas e seringas descartáveis, piteiras para colocação    em cachimbos de <I>crack</I>, preservativos, entre outros. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p><B>Referências  bibliográficas </B></P>     <p>Adorno,  R. C. F. (1997/1998). “Os imponderáveis circuitos dos vulne&shy;ráveis cidadãos:  trajetórias de crianças e jovens nas classes popu&shy;lares”. In: Lerner, J.  (Ed.). <I>Cidadania, verso e reverso</I>. São Paulo: Imprensa oficial do estado.  </P>     <p>Bourgois, P. (1997). “In search of Horatio Alger”. In Reinarman, C.  &amp; Levine, H.G. (Eds). <I>Crack in america: demon drugs and social  justice</I>. London:  University of California Press. </P>     <p>Bursztyn,  M. (2003). “No meio da rua: nômades, excluídos e vira&shy;dores”. In Bursztyn,  M. (Ed.) <I>No meio da rua: nômades, excluídos e viradores</I>. Rio de Janeiro,  Brasil: Editora Garamond. </P>     <p>Domanico,  A. &amp; MacRrae, E. (2006). “Estratégias de Redução de Danos entre Usuários de  Crack”. In Silveira, D. X. &amp; Moreira, F. G. <I>Panorama atual de Drogas e  Dependências</I>. São Paulo: Atheneu. </P>     <p>Domanico,  A. (2006). <I>Craqueiros e cracados – bem vindo ao mundo dos nóias</I>. Tese de  Doutorado em Ciências Sociais. Salvador: Faculdade de Filosofia e Ciências  Humanas, Universidade Federal da Bahia, Salvador. </P>     <!-- ref --><p>Escorel,  S. (2006). <I>Vidas ao léu: trajetórias de exclusão social</I>. Rio de Janeiro,  Brasil: Editora FIOCRUZ. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000130&pid=S0874-4890201000020000400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Fernandes L. &amp; Pinto, M. (2006). “El espacio urbano como dispositivo de    control social: territorios psicotrópicos y políticas de la ciudad”. <I>Monografías    Humanitas </I>[periódico na Internet]. Acesso em Jul, 2008. Disponível em: <a href="http://www.fundacionmhm.org/pdf/Mono5/Articulos/articulo10.pdf" target="_blank">http://www.fundacionmhm.org/pdf/Mono5/Articulos/articulo10.pdf</a>.  </P>     <p>Ferri,  C. P. (1999). <I>Cocaína: padrões de consumo e fatores associados à procura de  tratamento</I>. Tese de doutorado. São Paulo: Universidade Federal de São Paulo.  </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Galperim,  B. (2000). <I>Prevalência da infecção pelo vírus da hepatite C em pacientes  internados em unidade de dependência química</I>. Dissertação de Mestrado em  Medicina. Porto Alegre: Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto  Alegre. </P>     <p>Gomes,  B. R. &amp; Adorno, R. C. F. (2009). “Tornar-se “Nóia”: trajetória e sofrimento  social nos usos de crack”. Trabalho encaminhado para publicação nas <I>actas do  IV Congresso da aPa (associação Portuguesa de antropologia)</I>.  </P>     <p>Hartman, D. M e Golub, A. (1999). “The social construction of the  crack epidemic in the print media”. <I>Journal of Psychoactive Drugs vol.</I>31  (4), pp. 423-33. </P>     <p>Iniciardi, J. (1992). <I>Crack/Cocaine in the americas.  </I>São  Paulo: Brasil – United States Binational Symposium. </P>     <p>Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. <I>São Paulo</I>. Disponível    em: <a href="http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1" target="_blank">http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1</a>.    Acesso em nov. de 2009. </P>     <p>Jaenisch,  S. T. (2007).” Vozes de uma gente invisível: o jornal Boca de Rua como espaço de  mediação”. In Fleischer, S.; Schuch, P. &amp; Fonseca, C. (Eds.).  <I>antropólogos em ação: experimentos de pesquisa em direitos humanos</I>. Porto  Alegre: Editora da UFRGS. </P>     <p>Motta,  T. Q. R. (2003). <I>Co-infecção HIV/VHC: estudo da prevalência e da evolução  clínica e mortalidade em pacientes co-infectados atendidos em Vitória-ES</I>.  Dissertação de Mestrado em Medicina. Vitória: Univer&shy;sidade Federal do  Espírito Santo. </P>     <p>Nappo,  S. A. (1996). <I>Baqueiros e Craqueiros: um estudo etnográfico sobre consumo de  cocaína na cidade de São Paulo</I>. Tese de Doutorado em Medicina. São Paulo:  Universidade Federal de São Paulo. </P>     <p>Oliveira,  L. G. (2007). <I>avaliação da cultura do uso de crack após uma década de  introdução da droga na cidade de São Paulo. </I>Tese de Doutorado em  Psicobiologia. São Paulo: Universidade Federal de São Paulo.  </P>     <p>Prefeitura municipal de São Paulo (2009). <I>Cidade do Mundo. </I>Disponível    em <a href="http://portal.prefeitura.sp.gov.br/secretarias/relacoes_internacionais/0030" target="_blank">http://portal.prefeitura.sp.gov.br/secretarias/relacoes_internacionais/0030</a>.    Acesso em nov. 2009. </P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Raupp, L. M. &amp; Adorno, R. C. F. (2009). “Circuitos de uso de crack na região    central da cidade de São Paulo”. <I>Ciência &amp; Saúde Coletiva </I>(periódico    na internet). Disponível em <a href="http://www.abrasco.org.br/cienciaesaudecoletiva/artigos/artigo_int.php?id_artigo=2668" target="_blank">http://www.abrasco.org.br/cienciaesaudecoletiva/artigos/artigo_int.php?id_artigo=2668</a>.    Acesso em out. 2009. </P>     <p>Reinarman, C. &amp; Levine, H. G. (1997). “The crack attack: politics  and media in the crack scare. In Reinarman, C. e Levine, H. G. (Eds). <I>Crack  in america: demon drugs and social justice</I>. London: University of California  Press. . </P>     <p>Reinarman, C; Waldorf, D.; Murphy, S. B. &amp; Levine, H. G. (1997).  “The contingent call of the pipe: bingeing and addiction among heavy cocaine  smokers”. In Reinarman, C. &amp; Levine, H. G. (Eds). <I>Crack in america: demon  drugs and social justice</I>. London: University of California Press.  </P>     <p>Ribeiro, M., Dunn, J., Sesso, R., Dias &amp; A. C., Laranjeira, R.  (2006). “Causes of death among crack cocaine users”. <I>revista Brasileira de  Psiquiatria</I>, vol. 28 (3), pp: 196-202. </P>     <p>Sampaio,  M. R. A. &amp; Pereira, P. C. X. (2003). “Habitação em São Paulo”. <I>Estudos  avançados, </I>vol. 17 (48), pp. 167-183. </P>     <p>Silva,  S. L. (2000). Mulheres da Luz: uma etnografia dos usos e preservação no uso do  crack. 2000, p. 107. Dissertação de Mestrado em Saúde Pública. São Paulo:  Universidade de São Paulo. </P>     <p>Zinberg N. (1984). <I>Drug, set and setting: the basis for controlled intoxicant    use</I>. New Haven: YUP. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B><a name="0"></a><a href="#top0">Endereço para correspondências</a>:</B></p>     <p>Rua Passo da Pátria 32/02. Porto Alegre. Rio Grande do Sul / Brasil. CEP 90460-060.    Telefone: 5551 3276.2404</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p>Artigo recebido em 18/05/10; versão final aceite em 18/06/10.</P>      ]]></body><back>
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<surname><![CDATA[Escorel]]></surname>
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<source><![CDATA[Vidas ao léu: trajetórias de exclusão social]]></source>
<year>2006</year>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Editora FIOCRUZ]]></publisher-name>
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