<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0874-5560</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ex aequo]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Ex aequo]]></abbrev-journal-title>
<issn>0874-5560</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Associação Portuguesa de Estudos sobre as Mulheres - APEM]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0874-55602008000100008</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[E outras vozes se alevantam - Ana Paula Tavares responde a Luís de Camões]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Other voices rising - Ana Paula Tavares replies to Luis de Camões]]></article-title>
<article-title xml:lang="fr"><![CDATA[D&#8217;autres voix s&#8217;élèvent - Ana Paula Tavares répond à Luis de Camões]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Ribeiro]]></surname>
<given-names><![CDATA[Margarida Calafate]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
<xref ref-type="aff" rid="A02"/>
<xref ref-type="aff" rid="A03"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade de Coimbra Centro de Estudos Sociais ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="A02">
<institution><![CDATA[,Universidade de Bolonha  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="A03">
<institution><![CDATA[,A03  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2008</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2008</year>
</pub-date>
<numero>17</numero>
<fpage>119</fpage>
<lpage>129</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0874-55602008000100008&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0874-55602008000100008&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0874-55602008000100008&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[A partir da poesia de Ana Paula Tavares, procurarei mostrar neste artigo como a dupla premissa do poder e do conhecimento, sobre a qual se ergueu o colonialismo dos séculos XIX e XX, foi reapropriada, subvertida, desmultiplicada e antropofagizada, revelando outras identidades. Este processo inaugura assim um tempo pós-colonial de possibilidade de acesso e valorização de outros conhecimentos, de outros poderes, expressos noutras línguas, noutros sons, noutras escritas, e hoje transmitidos em língua portuguesa.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Reading the poetry of Ana Paula Tavares, I will argue that the binary of power and knowledge, basis of 19th and 20th century colonialism, has been reappropriated, subverted, multiplied and cannibalized, revealing other identities. This process thus initiates a postcolonial time of possible access and appreciation of other knowledges, other powers, expressed originally in other languages, sounds and writings, and nowadays transmitted through the Portuguese language.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="fr"><p><![CDATA[Suivant la poésie de Ana Paula Tavares, je cherche à montrer comme le couplage de pouvoir et connaissance, base du colonialisme des XIXème et XXème siècles, a été possédé, renversé, multiplié, cannibalisé, libérant d&#8217;autres identités. Ce procès initie un temps postcolonial de possibilité d&#8217;accès et valorisation d&#8217;autres connaissances, d&#8217;autres pouvoirs, exprimés en d&#8217;autres langages, d&#8217;autres écrites, mais aujourd&#8217;hui exprimés dans la langue portugaise.]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[poder]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[conhecimento]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[poesia]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[power]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[knowledge]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[poetry]]></kwd>
<kwd lng="fr"><![CDATA[pouvoir]]></kwd>
<kwd lng="fr"><![CDATA[sagesse]]></kwd>
<kwd lng="fr"><![CDATA[connaissance]]></kwd>
<kwd lng="fr"><![CDATA[poésie]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p><b>E outras vozes se alevantam &#8211; Ana Paula Tavares responde    a Lu&iacute;s de Cam&otilde;es</b></p>     <P align="center">&nbsp;</P>     <p align="right"><b>Margarida Calafate Ribeiro</b></p>     <P align="right">Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra</P>     <P align="right">&nbsp;</P>      <p><b>Resumo</b></p>       <p>A partir da poesia de Ana Paula Tavares, procurarei mostrar neste artigo   como a dupla premissa do poder e do conhecimento, sobre a qual se ergueu o colonialismo   dos s&eacute;culos XIX e XX, foi reapropriada, subvertida, desmultiplicada e    antropofagizada,   revelando outras identidades. Este processo inaugura assim um tempo p&oacute;s-colonial    de   possibilidade de acesso e valoriza&ccedil;&atilde;o de outros conhecimentos,    de outros poderes, expressos   noutras l&iacute;nguas, noutros sons, noutras escritas, e hoje transmitidos    em l&iacute;ngua portuguesa.    <p>           <p><b>Palavras-chave:</b> poder, conhecimento, poesia</p>      <P>&nbsp;</P>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Abstract</b></p>      <p><b>Other voices rising &#8211; Ana Paula Tavares replies to Luis de  Cam&otilde;es</b></p>      <p>Reading the poetry of Ana Paula Tavares, I will argue that the binary of power    and   knowledge, basis of 19th and 20th century colonialism, has been reappropriated,    subverted,   multiplied and cannibalized, revealing other identities. This process thus initiates    a postcolonial   time of possible access and appreciation of other knowledges, other powers,   expressed originally in other languages, sounds and writings, and nowadays transmitted   through the Portuguese language.</p>      <p><b>Key-words:</b> power, knowledge, poetry</p>      <P>&nbsp;</P>      <p><b>R&eacute;sum&eacute;</b></p>      <p><b>D&#8217;autres voix s&#8217;&eacute;l&egrave;vent &#8211; Ana Paula Tavares    r&eacute;pond &agrave; Luis de Cam&otilde;es</b></p>      <p>Suivant la po&eacute;sie de Ana Paula Tavares, je cherche &agrave; montrer comme    le couplage de   pouvoir et connaissance, base du colonialisme des XIX&egrave;me et XX&egrave;me    si&egrave;cles, a &eacute;t&eacute; poss&eacute;d&eacute;,   renvers&eacute;, multipli&eacute;, cannibalis&eacute;, lib&eacute;rant d&#8217;autres    identit&eacute;s. Ce proc&egrave;s initie un temps postcolonial   de possibilit&eacute; d&#8217;acc&egrave;s et valorisation d&#8217;autres connaissances,    d&#8217;autres pouvoirs,   exprim&eacute;s en d&#8217;autres langages, d&#8217;autres &eacute;crites, mais    aujourd&#8217;hui exprim&eacute;s dans la langue   portugaise.</p>      <p><b>Mots-cl&eacute;s:</B> pouvoir, sagesse, connaissance, po&eacute;sie </p>      <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><i>&Eacute; preciso que a palavra acolha esta mais-valia de tantos    anos de espera e sil&ecirc;ncio e se solte e proteste e renas&ccedil;a na planta&ccedil;&atilde;o    das consci&ecirc;ncias. </i></p>     <p align="right">Ana Paula Tavares </p>     <p align="right"><i>O sil&ecirc;ncio &eacute; fala.</i> </p>     <p align="right">Manuel Rui Monteiro </p>     <p><b>A abrir</b> </p>     <p>Gostaria de deixar claro desde o in&iacute;cio que n&atilde;o &eacute; como    especialista da cultura e da literatura angolana que escrevo, mas como estudiosa    da cultura portuguesa sempre impressionada com a pujan&ccedil;a das culturas    africanas face ao modelo colonial imposto, ao sufoco do neo-colonialismo e ao    tempo incerto do p&oacute;s-colonialismo, tantas vezes assombrado pelo seu inquilino    fantasm&aacute;tico, que &eacute; ainda o tempo colonial. </p>     <p>&Eacute; portanto como visitante cerimoniosa destas culturas antiqu&iacute;ssimas    e riqu&iacute;ssimas que me apresento com o atrevimento de escrever algo sobre    a bela poesia de Ana Paula Tavares, depois do ru&iacute;do cr&iacute;tico introduzido    em mim pelas leituras penetrantes de Laura Padilha, Rita Chaves ou Carmen Tind&oacute;    Secco e pelo desafio que para mim constituiu desde o in&iacute;cio a poesia    de Ana Paula Tavares, uma das vozes po&eacute;ticas com que aprendi que &eacute;    sempre poss&iacute;vel um dia de manh&atilde; levantar- -me e dizer &laquo;N&atilde;o    vou&raquo;. &Eacute; portanto a partir deste entre-lugar que vou falar desta    poesia que transforma, canibaliza e incorpora v&aacute;rias vozes emitidas a    partir de v&aacute;rios patrim&oacute;nios culturais e geogr&aacute;ficos, obrigando    a l&iacute;ngua portuguesa a dobragens e redobragens nem sempre imediatas, e    que assim a engrandecem. </p>     <p>Ana Paula Tavares &eacute; poeta, mas tamb&eacute;m historiadora e, como disse    numa entrevista &laquo;por vezes est&aacute; tudo misturado, transforma-se o    amador em coisa amada, e gera-se a grande confus&atilde;o&#8230;&raquo;. Publicou    v&aacute;rios livros de poesia &#8211; Ritos de Passagem (1985), O Lago da Lua    (1999), Dizes-me Coisas Amargas como os Frutos (2001), Ex- -Votos (2003), Manual    para os Amantes Desesperados (2007) e, em prosa, O Sangue da Buganv&iacute;lia    (1998) e A Cabe&ccedil;a de Salom&eacute; (2004). Recentemente escreveu um romance    com Manuel Jorge Marmelo, Os Olhos do Homem que Chorava no Rio (2005) e re-publicou,    em 2007, Ritos de Passagem, com o tra&ccedil;o de Luandino Vieira a ilustrar    cada poema. A poesia de Ana Paula Tavares tem sido objecto de reconhecimento    cr&iacute;tico em v&aacute;rios pa&iacute;ses e obteve j&aacute; o Pr&eacute;mio    M&aacute;rio Ant&oacute;nio da Funda&ccedil;&atilde;o Gulbenkian, 2004, e o    Pr&eacute;mio Nacional de Cultura e Artes (Literatura) de Angola, em 2007. </p>     <p>Mas qual &eacute; de facto a novidade desta voz po&eacute;tica vinda do Sul?  </p>     <p>O olhar feminino, que desde 1985, Ana Paula Tavares lan&ccedil;a sobre o seu    pa&iacute;s atrav&eacute;s da sua poesia &eacute; de facto outro. N&atilde;o    se trata mais de um sujeito po&eacute;tico feminino que se posicionava na pele    de algu&eacute;m que est&aacute; ao lado de quem masculinamente faz a guerra,    a revolu&ccedil;&atilde;o, a na&ccedil;&atilde;o; n&atilde;o se trata mais de    um poema a rimar, como ent&atilde;o, com revolu&ccedil;&atilde;o, alfabetiza&ccedil;&atilde;o,    povo ou na&ccedil;&atilde;o. O tema &eacute; outro, a posi&ccedil;&atilde;o    epistemol&oacute;gica do sujeito po&eacute;tico &eacute; outra, a fala &eacute;    outra. E, por isso, Laura Padilha coloca a voz de Ana Paula Tavares como uma    daquelas, que na Angola de hoje, pela diferen&ccedil;a interrogam o c&acirc;none,    n&atilde;o apenas o c&acirc;none de matriz ocidental, branco e europeu, mas    o poss&iacute;vel c&acirc;none africano &#8211; tamb&eacute;m ele masculino    &#8211; provavelmente africanamente reprodutor do c&acirc;none ocidental (Padilha,    2002: 163-169). </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Pela sua poesia Ana Paula Tavares exige uma outra nomea&ccedil;&atilde;o das    coisas, dos corpos, das pessoas e da terra; fala da mem&oacute;ria dos lugares,    do amor, dos nascimentos, das outras falas e saberes de Angola. Mas fala sobretudo    das mulheres e do sil&ecirc;ncio gritante que as habita, num pa&iacute;s feito    pelas mulheres como &eacute; Angola. Evoca as vozes de muitas vozes femininas    quase an&oacute;nimas &#8211; algumas das que Laura Padilha recolheu em Bordejando    a Margem (2007), retirando do sil&ecirc;ncio as vozes das mulheres que publicaram    literatura nos jornais de Angola &#8211;, de Alda Lara e de outras poetas, mas    sobretudo das mulheres comuns que na sua vida quotidiana recriam a outra terra    prometida, n&atilde;o a da a na&ccedil;&atilde;o, da revolu&ccedil;&atilde;o    ou da guerra que em nome dela se diz fazer, mas da terra prometida de todos    os dias, a terra que traz paz, sobreviv&ecirc;ncia, amor, vida. Mas de onde    lhe vem essa fala outra, esse olhar outro? Como revela numa entrevista: </p>     <p><i>Eu tinha nascido numa sociedade colonial fundada quando o colonialismo come&ccedil;ou    a s&eacute;rio, portanto depois da Confer&ecirc;ncia de Berlim, quando Portugal    foi obrigado a ocupar o territ&oacute;rio, e come&ccedil;ou com uma pol&iacute;tica    de povoamento branco para Angola. Para o Lubango, foram grupos de madeirenses    brancos, muito pobres, que andavam descal&ccedil;os, coisa que muitas pessoas    daquela sociedade j&aacute; n&atilde;o andavam. Havia tamb&eacute;m uma meia    d&uacute;zia de brancos, propriet&aacute;rios mais ricos, e comerciantes. E    ainda uma sociedade de pastores que parecia n&atilde;o fazer parte daquela sociedade.    Eram donos de gado, alguns tinham cabe&ccedil;as de gado para serem decretados:    &laquo;Ele &eacute; um homem rico&raquo;. Mas ningu&eacute;m via, e nem eles    pr&oacute;prios queriam que os brancos os considerassem ricos. Mas eles sabiam    que eram ricos, que o seu gado lhes dava estatuto. Era portanto uma sociedade    em muitas sociedades e eu cresci no meio dessa confus&atilde;o, sem perceber    bem o que &eacute; que se passava ali. (&#8230;) Tive portanto o privil&eacute;gio    de ter nascido ali, de ter uma av&oacute; negra do Kuanhama, e uma av&oacute;    branca de Castelo Branco, que me deu esta fala, a outra fala. Do que &eacute;    que aquelas duas mulheres &agrave; noite falavam? Havia um ru&iacute;do de fundo    de que eu fui &agrave; procura. E por grande sorte minha descobri que j&aacute;    no s&eacute;culo XIX, alguns mission&aacute;rios tinham perseguido esse ru&iacute;do.    Bem ou mal, tinham fixado formas desse ru&iacute;do em narrativas, em poemas,    mitos de funda&ccedil;&atilde;o, epopeias&#8230; E assim eu pude ler &#8211;    sabendo que havia ali uma trai&ccedil;&atilde;o &#8211; mas pude ler a mem&oacute;ria    daqueles povos. E pensei: Este &eacute; o meu caminho. Se eu conseguir fazer    alguma coisa, &eacute; por aqui que eu vou. N&atilde;o fa&ccedil;o poemas etnogr&aacute;ficos,    eu fa&ccedil;o fic&ccedil;&atilde;o. Eu n&atilde;o vejo a minha terra como Sembene    Ousmane, o grande realizador senegal&ecirc;s, dizia a Jean Rouch, o homem grande    do outro cinema: &laquo;Tu filmas os africanos como gafanhotos, e s&oacute;    ficamos em p&eacute; de igualdade quando um dia eu conseguir filmar os europeus    como gafanhotos&raquo;. Eu n&atilde;o vejo a minha terra, estas mulheres, estes    homens, estes pastores, como gafanhotos. Eu e a minha terra n&atilde;o nos separamos.</i></p>     <p><i>N&atilde;o uso todo este material a que felizmente tive acesso como uma    fonte, onde eu vou debicar aqui ou ali. Eu tento incorporar muito deste material    e saber como foi&#8230; Eu que n&atilde;o fui uma mulher que passei pela inicia&ccedil;&atilde;o,    eu que sou uma mulher que s&oacute; falo l&iacute;nguas imperiais... mas tenho    ouvido o som de outras l&iacute;nguas, e portanto, eu n&atilde;o fa&ccedil;o    c&oacute;pias: trabalho, canibalizo e devoro como muitos outros africanos fizeram.    Esse &eacute; o trabalho que tento fazer: a incorpora&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios    patrim&oacute;nios, e se o meu olhar para ver o mundo &eacute; aquela terra,    aquele espa&ccedil;o, eu tamb&eacute;m n&atilde;o estou cega ao resto do mundo.    Leio a poesia do mundo e estou aberta a todas as experi&ecirc;ncias do mundo.    O que eu procuro &eacute; n&atilde;o confundir as coisas, nem confundir os n&iacute;veis,    e trabalhar com um legado que a sorte p&ocirc;s &agrave; minha disposi&ccedil;&atilde;o    </i>(Ribeiro, 2007)<sup><a href="#1">1</a></sup>. <a name="top1"></a></p>     <p><b>Ana Paula Tavares responde a Lu&iacute;s de Cam&otilde;es </b></p>     <p>Poder e conhecimento &eacute;, como &eacute; sabido, o bin&oacute;mio sobre    o qual repousou grande parte do ide&aacute;rio imperial e do acto colonial imposto    pelas pot&ecirc;ncias coloniais europeias no final do s&eacute;culo XIX e ao    longo de boa parte do s&eacute;culo XX. Esse poder e esse conhecimento, veiculado    numa certa l&iacute;ngua imperial, representou um poderoso elemento estruturador    e unificador dos territ&oacute;rios coloniais em si, entre si e com as suas    metr&oacute;poles. Basta remontar a Jo&atilde;o de Barros e &agrave; sua <i>Gram&aacute;tica</i>    para entender que, &#8211; como ele t&atilde;o premonitoriamente insinua na    introdu&ccedil;&atilde;o &#8211; os padr&otilde;es e as obras seriam levados    pelo tempo, mas que a l&iacute;ngua ficaria como testemunho do encontro; ou    basta recordar politicamente Herder para perceber que a l&iacute;ngua seria,    n&atilde;o apenas a express&atilde;o mais distintiva do esp&iacute;rito da na&ccedil;&atilde;o    imperial &#8211; composta de m&uacute;ltiplas na&ccedil;&otilde;es e de m&uacute;ltiplos    povos ignorados &#8211; mas tamb&eacute;m uma das formas atrav&eacute;s da qual    a na&ccedil;&atilde;o, sa&iacute;da das v&aacute;rias lutas pelas v&aacute;rias    emancipa&ccedil;&otilde;es, se poderia expressar. Esse foi o grande trabalho    do cultor da na&ccedil;&atilde;o e da l&iacute;ngua portuguesa que foi Cam&otilde;es,    que pelo seu trabalho po&eacute;tico afirmou a na&ccedil;&atilde;o portuguesa    face &agrave; potencial hegemonia castelhana e a sua preocupa&ccedil;&atilde;o    na sequ&ecirc;ncia da viagem narrada em Os Lus&iacute;adas, viagem essa que    traria as terras do imp&eacute;rio habitadas por outras gentes. O espanto e    a ang&uacute;stia ent&atilde;o vividos pelo poeta exprimem-se na quest&atilde;o    fundadora que enforma Os Lus&iacute;adas, aquando do encontro (ou talvez melhor    do encontr&atilde;o, para evocar as palavras de Eduardo Louren&ccedil;o) entre    os navegantes e essa &laquo;gente fera e estranha&raquo; (III, 103, 2003: 84)    &laquo;da cor da escura treva&raquo; (V, 30, 2003: 130). E o poeta, pela voz    dos navegantes, lan&ccedil;a a quest&atilde;o: </p>     <p><i>&laquo;Que gente ser&aacute; esta? (em si diziam)</i></p>     <p><i> Que costumes, que Lei, que Rei teriam?&raquo;</i> (I, 45, 2003: 12) </p>     <p>Por outras palavras, em que l&iacute;ngua se expressam estas gentes, que conhecimentos    possuem, que poder &eacute; que os conduz e que os move? O que representa esta    humanidade em rela&ccedil;&atilde;o a n&oacute;s, ou dito de outra maneira,    quem somos n&oacute;s afinal?, at&eacute; chegar &agrave; defini&ccedil;&atilde;o    estruturante da identidade portuguesa: &laquo;Os portugueses somos do Ocidente/    Imos em busca das terras do Oriente&raquo;. (I, 50, 2003: 13). De facto, a resposta    europeia a esta quest&atilde;o iria definir a Europa como centro de poder e    de conhecimento na ordem do mundo que a partir desta viagem se gera, e os portugueses    como um povo em demanda dessa nova ordem. </p>     <p>O &laquo;processo de coloniza&ccedil;&atilde;o, ou a colonialidade, pensada    como rela&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, que se instaura a partir desta viagem    mar&iacute;tima&raquo; (Padilha, 2006b), vai sendo, ao longo da hist&oacute;ria,    ilustrado por m&uacute;ltiplas narrativas escritas em l&iacute;ngua imperial    e emitidas a partir da na&ccedil;&atilde;o imperial, narrativas essas que edificaram,    rectificaram codificaram e finalmente reproduziram o pensamento colonial. Esta    hist&oacute;ria colonial escrita pelos ca&ccedil;adores, para recorrer &agrave;s    categorias definidas no c&eacute;lebre prov&eacute;rbio africano &#8211; &laquo;Tamb&eacute;m    o le&atilde;o dever&aacute; ter quem conte a sua hist&oacute;ria. As hist&oacute;rias    n&atilde;o podem glorificar apenas o ca&ccedil;ador&raquo; &#8211; converteu    esses outros em seres sem hist&oacute;ria e sem lei dessa hist&oacute;ria aparentemente    comum, causando um imenso vazio. Passar&atilde;o muitos anos, haver&aacute;    muitas lutas, correr&aacute; muito sangue para que se entenda o mundo colonial    em tens&atilde;o e fractura entre brancos, negros e mulatos como pioneiramente    nos mostrou Castro Soromenho na sua obra ficcional, ou No&eacute;mia de Sousa    na sua poesia. Mas como aponta Laura Padilha, na senda de Cornejo Polar, nas    margens dos discursos euroc&ecirc;ntricos, existiram sempre outras vozes, outras    nomea&ccedil;&otilde;es da terra e das coisas, senhoras de outras vers&otilde;es    nunca escutadas e, portanto, por vezes, nem sequer silenciadas, mas antes nunca    ouvidas (Padilha, 2006a).</p>     <p> N&atilde;o se tratava portanto de defender a ideia, cara a alguns te&oacute;ricos    do p&oacute;s-colonialismo, de que os subalternos n&atilde;o falavam ou n&atilde;o    podiam falar, mas de, como defende Spivak, mostrar que o seu lugar de enuncia&ccedil;&atilde;o,    no seio da diferen&ccedil;a colonial, condenava o seu discurso &agrave; irrelev&acirc;ncia    por o oferecer a interpreta&ccedil;&otilde;es que o silenciavam (Spivak, 1988).    Como refere Laura Padilha, em sintonia com Spivak<sup><a href="#2">2</a><a name="top2"></a></sup>,    os subalternos, sejam eles mulheres ou homens, sempre falaram, nunca foram foi    ouvidos, o que &eacute; substancialmente diferente. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Mas lendo e sobretudo escutando um texto como o de Ana Paula Tavares em que    todas essas vozes-outras s&atilde;o convocadas, assistimos a um confronto do    olhar, que pode n&atilde;o ser necessariamente conflituoso, mas que nos revela    n&atilde;o s&oacute; os enganos dos olhares europeus, mas tamb&eacute;m a m&aacute;    fortuna dos seus olhares e o pouco amor ardente. Nestas vozes, outros sujeitos    hist&oacute;ricos e etno-culturais se revelam, mostrando assim outras formas    de estar e de sentir o mundo, de viver a vida e de organizar a cultura, a mem&oacute;ria    e a hist&oacute;ria, como as mulheres que amassam o p&atilde;o, como os homens    dos bois, senhores da transum&acirc;ncia do planalto de Hu&iacute;la, onde nasceu    Ana Paula Tavares.</p>     <p> <i>Vieram muitos    <br>   &agrave; procura de pasto    <br>   traziam olhos rasos da poeira e da sede    <br>   e o gado perdido. </i>     <p> <i>Vieram muitos    <br>   &agrave; promessa de pasto    <br>   de capim gordo    <br>   das tranquilas &aacute;guas do lago.    <br>   Vieram de m&atilde;os vazias     ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   mas olhos de sede     <br>   e sand&aacute;lias gastas     <br>   da procura de pasto.    <br>   (...)     <br>   Partiram com olhos rasos de pasto    <br>   limpos de poeira    <br>   levaram o gado gordo e as raparigas.</i>    <br>   (Tavares, 1999: 27-28)      <p>Quando esta narrativa do ent&atilde;o definido como o outro se tornou &laquo;enfrentamento    &raquo; feito em l&iacute;nguas imperiais, tomadas, para usar a express&atilde;o    de Jos&eacute; Luandino Vieira, como &laquo;um trof&eacute;u de guerra&raquo;,    nela se inscreveu a diferen&ccedil;a cultural que, a prazo, reivindicou e justificou    a luta que reclamava o acto pol&iacute;tico da independ&ecirc;ncia. </p>     <p>Vestindo outras peles, outros conhecimentos e imbu&iacute;da de outros poderes,    foi portanto nessa l&iacute;ngua imperial &#8211; que muitas outras rasurou    no processo colonial &#8211; que se come&ccedil;aram a preencher os espa&ccedil;os    em branco da hist&oacute;ria colonial (Padilha, 2006a: 29-49), ou, por outras    palavras, se come&ccedil;aram a colocar sob suspeita os monop&oacute;lios do    conhecimento e do poder que tinham sido fundamentais no erigir de uma ordem    social, pol&iacute;tica e cultural baseada na diferen&ccedil;a e na economia    do conhecimento que valoriza o &laquo;conhecimento autorizado&raquo; e socialmente    reconhecido, em detrimento (por rasura) de outros conhecimentos expressos muitas    vezes noutras l&iacute;nguas. Em Mo&ccedil;ambique, com Jos&eacute; Craveirinha    ou No&eacute;mia de Sousa, em Angola, com Luandino Vieira, Ant&oacute;nio Jacinto,    Viriato da Cruz e tantos outros, ou Am&iacute;lcar Cabral, em Cabo Verde e Guin&eacute;-Bissau,    revelaram-se as vozes que v&ecirc;m falar no que o poder colonial queria continuar    a ver como &laquo;dialectos &raquo; de um folcl&oacute;rico poder local. Nas    suas escritas, n&atilde;o mais assumidas como marginais, regista-se a semente    da diferen&ccedil;a, em tens&atilde;o com o modelo lingu&iacute;stico colonial.    Essa linguagem fundadora de um conhecimento outro, de um poder outro e, finalmente,    de uma l&iacute;ngua outra, veicula e narra, como bem observou Laura Padilha,    uma &laquo;outra viagem&raquo;, n&atilde;o mais mar abaixo rumo ao sul, como    a viagem camoniana em demanda das novas terras que o imp&eacute;rio traria,    mas para &laquo;dentro&raquo; e por &laquo;dentro&raquo; (Padilha, 2006b). A    viagem que o desejo de descoloniza&ccedil;&atilde;o iniciava, parecia procurar    e tentar recuperar os la&ccedil;os fracturados pelo poder colonial e desta forma    outros enunciados se elaboraram para as quest&otilde;es dos navegantes, usando    a mesma l&iacute;ngua, que era j&aacute; outra e ainda a mesma. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A poesia de Ana Paula Tavares &eacute; exemplar deste movimento de forma particularmente    subtil e politicamente comprometida. Nela se trazem os sujeitos etno-culturais    n&atilde;o valorizados pelo regime colonial &#8211; as mulheres e os homens    dos bois do planalto de Hu&iacute;la &#8211; mas important&iacute;ssimos na    outra ordem do mundo que o mundo colonial n&atilde;o atingia; nela se trazem    as l&iacute;nguas e a vozes de outros sujeitos, nomeadamente das mulheres, os    gestos e os actos e os sinais produzidos por esse mundo outro, senhor de outras    leis, de outros conhecimentos e de outros poderes que aparentemente o regime    colonial parecia n&atilde;o ter tocado. E assim vozes, nomes, territ&oacute;rios,    corpos s&atilde;o convocados em t&iacute;tulos de alguns dos poemas que v&atilde;o    desfilando &agrave; frente dos nossos olhos de leitores, como fotografias que    v&atilde;o dando rosto ao que antes s&oacute; tinha um nome. Poemas que projectam    o percurso da poeta ao longo de uma paisagem natural, social e humana que coloca    sob suspeita os conceitos ocidentais de poder e conhecimento a partir de uma    viv&ecirc;ncia m&uacute;ltipla de uma terra/territ&oacute;rio sentido como terra-m&atilde;e    que acolhe e integra os seus filhos, como uma casa-corpo que se torna o espa&ccedil;o    &iacute;ntimo do pronunciamento feminino capaz de revelar e de exercer um poder-outro,    por um conhecimento- -outro imanente da rela&ccedil;&atilde;o com a pr&oacute;pria    terra e com as pessoas que a habitam. </p>     <p><i>De onde eu venho    <br>   sou visitada pelas &aacute;guas ao meio-dia     <br>   quando o sil&ecirc;ncio se transforma    <br>   para as doces palavras do sal em flor    <br>   e das raparigas </i>     <p><i>Os muros s&atilde;o de pedra seca    <br>   e deixam escapar a luz por entre corredores    <br>   de ra&iacute;zes e vidro     <br>   lentas mulheres preparam a farinha    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   e cada gesto funda     <br>   o mundo todos os dias     <br>   h&aacute; velhas mulheres pousadas sobre a tarde    <br>   enquanto a palavra     <br>   salta o muro e volta com um sorriso t&iacute;mido    <br>   [de dentes e sol.</i>    <br>   (Tavares, 2007b: 19)      <p>Ou no quase auto-retrato:</p>     <p> <i>Modesta filha do planalto    <br>   combina, farinhenta    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   os v&aacute;rios sabores     <br>   do frio.</i>     <br>     <p><i>Cheia de sono    <br>   mima as flores     <br>   e esconde muito t&iacute;mida     <br>   cerne encantado.</i>    <br>   (Tavares, 2007a: 26)      <p>Por isso, o pronunciamento feminino contido na poesia de Ana Paula Tavares    &eacute; espa&ccedil;o de celebra&ccedil;&atilde;o da tradi&ccedil;&atilde;o    e dos trabalhos e dos dias de paz em que as mulheres se realizam, mas tamb&eacute;m    espa&ccedil;o de den&uacute;ncia da viol&ecirc;ncia da tradi&ccedil;&atilde;o    que perpetua o patriarcado, presente ora no acto da troca de mulheres por gado    (&laquo;Cresce comigo o boi com que me v&atilde;o trocar&raquo;, 2007a: 48),    ora nos rostos das mulheres e das crian&ccedil;as sobre as quais recai toda    a viol&ecirc;ncia da guerra (&laquo;November Whitout Water&raquo;, 1999: 36),    ora nas rela&ccedil;&otilde;es de poder que conduzem ao sil&ecirc;ncio (&laquo;Um    grito espeta-se faca/ na garganta da noite&raquo;, 1999: 33), mostrando assim    que o sangue da mulher n&atilde;o &eacute; s&oacute;, como deveria ser, mensal,    como o ritmo do ciclo das esta&ccedil;&otilde;es, que orienta os ciclos das    mulheres dos homens do gado. Ele escorre diariamente de corpos com feridas e    cicatrizes que t&ecirc;m a espessura de s&eacute;culos, sangue que ciclicamente    vai manchando a terra e a casa-corpo, e, por isso, o lago da lua (t&iacute;tulo    de livro) onde as mulheres lavam o seu primeiro sangue, n&atilde;o &eacute;    um lago simples que corra como um rio escorreitamente para o mar. O lago branco    da lua, primeiro poema do livro hom&oacute;nimo, &eacute; um lago bloqueado,    mas por isso tamb&eacute;m um arquivo de evas&atilde;o e de sobreviv&ecirc;ncia    onde o sujeito po&eacute;tico deposita os sonhos. </p>     <p><i>No lago branco da lua     ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   lavei meu primeiro sangue     <br>   Ao lago branco da lua     <br>   voltaria cada m&ecirc;s    <br>   para lavar    <br>   meu sangue eterno     <br>   a cada lua </i>      <p> <i>No lago branco da lua    <br>   misturei meu sangue e barro branco    <br>   e fiz a caneca    <br>   onde bebo     ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   a &aacute;gua amarga da minha sede sem fim     <br>   o mel dos dias claros.    <br>   Neste lago deposito     <br>   minha reserva de sonho    <br>   para tomar.</i>    <br>   (Tavares, 1999: 11)     <p>O pronunciamento feminino lan&ccedil;ado pelo sujeito po&eacute;tico &eacute;    sobretudo espa&ccedil;o de discuss&atilde;o do poder e das rela&ccedil;&otilde;es    de poder que o conhecimento e a diferen&ccedil;a sexual hierarquizam. Negar    e subverter esta hierarquiza&ccedil;&atilde;o, mostrando-a n&atilde;o apenas    como impossivelmente &uacute;nica, mas como parte de um todo que oprime, &eacute;    o caminho escolhido para percorrer o longo e sinuoso percurso que conduz &agrave;    transforma&ccedil;&atilde;o de uma l&oacute;gica feminina esperada como de submiss&atilde;o    e opress&atilde;o, numa l&oacute;gica de feminina de liberta&ccedil;&atilde;o    e emancipa&ccedil;&atilde;o. Esse &eacute; o caminho tr&aacute;gico, mas simultaneamente    glorioso, a tra&ccedil;ar. Da&iacute; o desafio lan&ccedil;ado a um s&oacute;    tempo ao poder da tradi&ccedil;&atilde;o e ao poder social patriarcal:</p>     <p> (&#8230;)    <br>   <i>Hoje levantei-me cedo    <br>   pintei de tacula e &aacute;gua fria    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   o corpo aceso    <br>   n&atilde;o bato a manteiga    <br>   n&atilde;o ponho o cinto    <br>   Vou     <br>   para o Sul saltar o cercado </i>    <br>   (Tavares, 2007a: 54)      <p>Ou ainda mais veementemente: </p>     <p><i>Devorei a carne do boi do fogo     <br>   tudo at&eacute; ao fim e o cora&ccedil;&atilde;o</i>    <br>   (Tavares, 2001: 34)      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A partir deste lugar de enuncia&ccedil;&atilde;o tel&uacute;rico e lingu&iacute;stico,    que emerge das vozes da terra e das mulheres da terra, da letra dos mission&aacute;rios    e historiadores que registaram a vida dos povos do Sul de Angola e que Ana Paula    estuda e traduz como historiadora, ergue-se a voz da poeta Ana Paula Tavares    revelando-nos outras l&iacute;nguas, guardi&atilde;s de outros arquivos culturais,    onde se regista o poder de outros reis e a validade de outros conhecimentos.    Tudo tecido a partir das margens do mundo: da voz da mulher amante que ferida    de amor espera o seu amado perante a solid&atilde;o do mundo; das vozes das    mulheres que t&ecirc;m filhos, amassam o p&atilde;o, tecem, amam, rasgam a noite    com os seus gritos surdos e inventam a vida; das vozes das mulheres que s&atilde;o    trocadas por bois, na sociedade dos homens do gado que circulavam &agrave; margem    da sociedade colonial. </p>     <p>Esta &eacute; assim uma forma-outra de responder &agrave; quest&atilde;o levantada    pelos navegantes da epopeia camoniana sobre que gente ser&aacute; esta, que    rei, que lei teriam, erigida e tecida a partir de um olhar-outro que o grande    poeta por certo n&atilde;o contemplava, nem poderia imaginar. Esta &eacute;    uma forma-outra de mostrar a mulher de outras paragens que Cam&otilde;es viu,    admirou e provavelmente amou na sua &laquo;pretid&atilde;o de amor&raquo; e    que cantou como algu&eacute;m estranho, mas &laquo;b&aacute;rbara n&atilde;o&raquo;<sup><a href="#3">3</a></sup>.<a name="top3"></a>    Mas esta &eacute;, sem d&uacute;vida, a forma de t&atilde;o camonianamente tudo    questionar, renomeando, e de assim transformar o amador na coisa amada. Ou seja,    de assim transformar a letra da historiadora na voz da poeta, a terra em casa-corpo,    a terra em territ&oacute;rio, a na&ccedil;&atilde;o adiada em terra prometida,    cujo mapa n&atilde;o mais se inscreve nem no imagin&aacute;rio dos navegantes    europeus, salpicado de ilhas imagin&aacute;rias plenas de amores, nem no imagin&aacute;rio    masculino dos guerrilheiros da liberta&ccedil;&atilde;o, mas no corpo tatuado    feminino, onde se escreve e reescreve a terra: </p>     <p><i>Meu corpo &eacute; um grande mapa muito antigo     <br>   percorrido de desertos, tatuado de acidentes     <br>   habitado por uma floresta inteira     <br>   um cora&ccedil;&atilde;o plantado    <br>   dentro de um jardim japon&ecirc;s    <br>   regado por veias finas    <br>   com um lugar vazio para a alma. </i>    <br>   (Tavares, 1999: 45)      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>A fechar </b></p>     <p>Cartografar o retrato deste corpo-mapa-na&ccedil;&atilde;o inscrito cicatricialmente    no feminino na poesia de Ana Paula Tavares exige uma leitura geogr&aacute;fica    e sexualmente deslocada, para assim entender como se vivem outros &laquo;costumes&raquo;    &#8211; nunca assumidos como relevantes &#8211; se adoptam outras &laquo;leis&raquo;    &#8211; apenas consuetudinariamente aplicadas &#8211; e se regista o poder de    outras &laquo;rainhas&raquo;, senhoras de outros &laquo;conhecimentos&raquo;.    Costumes, leis, reis, conhecimentos que sempre estiveram na margem, mas que    sempre estiveram presentes &#8211; evocando assim, para finalizar, o subt&iacute;tulo    da obra organizada por Laura Padilha e por Inoc&ecirc;ncia Mata, sobre A Mulher    em &Aacute;frica (2007) &#8211;, pois s&atilde;o eles que inventam e constroem    a vida que novas vidas gera, ao ritmo dos ciclos das esta&ccedil;&otilde;es.</p>     <P>&nbsp;</P>      <p><b>Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas</b></p>        <p>Cam&otilde;es, Lu&iacute;s de (2003), <i>&laquo;Os Lus&iacute;adas&raquo; de    Lu&iacute;s de Cam&otilde;es</i>. 5&ordf; edi&ccedil;&atilde;o. Lisboa, Instituto    Cam&otilde;es.</p>      <p>Macedo, Helder (1998), <i>Viagens do Olhar &#8211; Retrospec&ccedil;&atilde;o,    Vis&atilde;o e Profecia no Renascimento Portugu&ecirc;s.</i>   Porto, Campo das Letras, 1998 (com Fernando Gil).</p>      <p>Mata, Inoc&ecirc;ncia, Padilha, Laura (2007), <i>A Mulher em &Aacute;frica &#8211;    vozes de uma margem   sempre presente.</i> Lisboa, Edi&ccedil;&otilde;es Colibri.</p>      <p>Padilha, Laura (2002), <i>Novos Pactos, Outras Fic&ccedil;&otilde;es: ensaios sobre    literaturas afro-luso-brasileiras.</i> Porto Alegre, EDIPUCRS.</p>      <p>Padilha, Laura (2006a), &laquo;O espa&ccedil;o colonial e sua pagina&ccedil;&atilde;o    em branco na cartografia   ficcional de E&ccedil;a de Queiroz&raquo;, <i>in</i> Manuela Ribeiro Sanches (org.),    <i>Portugal n&atilde;o &eacute; um   pa&iacute;s pequeno &#8211; Contar o imp&eacute;rio na p&oacute;s-colonialidade</i>    . Lisboa, Cotovia, pp. 29-42.</p>      <!-- ref --><p>Padilha, Laura (2006b), &laquo;Protocolos de apresenta&ccedil;&atilde;o&raquo;.    <i>Metamorfoses</i>. (Revista da C&aacute;tedra   Jorge de Sena/UFRJ), v. 7, pp. 147-158.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000142&pid=S0874-5560200800010000800001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Padilha, Laura (org.) (2007), <i>Bordejando a Margem: poesia escrita por mulheres    (uma recolha do   Jornal de Angola, 1954-1961). Breve Antologia.</i> Luanda, Kilombelombe.</p>      <p>Padilha, Laura (2008), &laquo;Literatura Angolana: suas cartografias e seus    embates contra a   colonialidade&raquo;, <i>in</i> Margarida Calafate Ribeiro, Laura Padilha (orgs.),    <i>Lendo Angola</i>. Porto, Afrontamento.</p>      <p>Ribeiro, Margarida Calafate (2007), &laquo;A Heritage of One&#8217;s Own: a    conversation with Ana   Paula Tavares&raquo;, <i>Ellipsis &#8211; Journal of the American Portuguese Studies    Association</i>, vol. 5, pp. 147-152.</p>      <p>Spivak, Gayatri C. (1988), &laquo;Can the Subaltern Speak?&raquo;, <i>in</i> Cary Nelson,    Lawrence Grossberg   (eds.), <i>Marxism and the Interpretation of Culture</i>, Urbana, University of Illinois    Press.</p>      <p>Tavares, Paula (1999), <i>O Lago da Lua.</i> Lisboa, Caminho.</p>      <p>Tavares, Paula (2001), <i>Dizes-me Coisas Amargas como os Frutos.</i> Lisboa, Caminho.</p>      <p>Tavares, Paula (2007a), <i>Ritos de Passagem.</i> Lisboa, Caminho.</p>      <p>Tavares, Paula (2007b), <i>Manual para Amantes Desesperados.</i> Lisboa, Caminho.</p>      <p>Tavares, Paula (2007c), &laquo;Nascer no Para&iacute;so&raquo;, <i>Jornal de    Letras</i>, 7-20 de Novembro, p. 44.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Notas</b></p>     <p><sup><a href="#top1">1</a></sup> <a name="1"></a>Ver tamb&eacute;m o texto    publicado no Jornal de Letras, na sec&ccedil;&atilde;o &laquo;Autobiografia&raquo;    (Tavares, 2007c).</p>     <p><sup><a href="#top2">2</a></sup> <a name="2"></a>Interven&ccedil;&atilde;o    no curso de literatura angolana organizado no Centro de Estudos Sociais, Universidade    de Coimbra, em Junho de 2007 (Padilha, 2008).</p>     <p><sup><a href="#top3">3</a></sup> <a name="3"></a>Refiro-me ao poema de Lu&iacute;s    de Cam&otilde;es, &laquo;Endechas a B&aacute;rbara Escrava&raquo;. Sobre este    assunto ver Helder Macedo, 1998, pp. 388-389.</p>      <P>&nbsp;</P>      <p><b>Margarida Calafate Ribeiro</b> &eacute; investigadora no Centro de Estudos    Sociais, da Universidade de Coimbra, Respons&aacute;vel da c&aacute;tedra Eduardo    Louren&ccedil;o, na Universidade de Bolonha e Visiting Researcher Associate    do King&#8217;s College. Os seus actuais interesses de investiga&ccedil;&atilde;o    incluem estudos p&oacute;s-coloniais, literatura portuguesa e de pa&iacute;ses    de l&iacute;ngua portuguesa, e hist&oacute;ria do imp&eacute;rio portugu&ecirc;s,    em particular as guerras coloniais. Actualmente, coordena os projectos de investiga&ccedil;&atilde;o    &laquo;Poesia da Guerra Colonial: ontologia do &#8220;eu&#8220; despeda&ccedil;ado&raquo;    e &laquo;Os Filhos da Guerra Colonial: p&oacute;s-mem&oacute;ria e representa&ccedil;&otilde;es&raquo;    (financiados pela FCT). Das suas publica&ccedil;&otilde;es, destacam-se os livros    <i>&Aacute;frica no Feminino: as mulheres portuguesas e a Guerra Colonial</i>    (Afrontamento, 2007); <i>Uma Hist&oacute;ria de Regressos: Imp&eacute;rio, Guerra    Colonial e P&oacute;s-Colonialismo</i> (Afrontamento, 2004); <i>Fantasmas e    Fantasias Imperiais no Imagin&aacute;rio Portugu&ecirc;s Contempor&acirc;neo</i>    (com Ana Paula Ferreira) (Campo das Letras, 2003). </p>     <p>Endere&ccedil;o electr&oacute;nico: <a href="mailto:margaridacr@ces.uc.pt">margaridacr@ces.uc.pt</a></p>      <P>&nbsp;</P>      <p><i>Artigo recebido em Mar&ccedil;o de 2008 e aceite para publica&ccedil;&atilde;o    em Mar&ccedil;o de 2008.</i></p>            ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Padilha]]></surname>
<given-names><![CDATA[Laura]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Protocolos de apresentação]]></article-title>
<source><![CDATA[Metamorfoses]]></source>
<year>2006</year>
<month>b</month>
<volume>7</volume>
<page-range>147-158</page-range></nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
