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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Queer, mas não muito: género, sexualidade e identidade nas narrativas de vida de mulheres]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Queer, but not much: Gender, sexuality, and identity in women’s life-stories]]></article-title>
<article-title xml:lang="fr"><![CDATA[Queer, mais pas trop: Genre, sexualité et identité dans les récits de vie de femmes]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Based on an empirical research supported on the life-stories of women involved in homo-erotic relationships, this article discusses some proposals of queer theory, exploring the relevance of the concept of performativity and the theses of the fluidity of identity to research on identities. Especially, one examines the extent to which the interviewees share a vision of the relations between gender, desire, and identity as being fluid, incoherent, and unstable; how the vision they defend is linked to the sexual identity they claim; and how that identity is constructed through practices of body shaping and self-presentation. Results suggest the need to expand the analysis of the points of tension between gender and sexuality.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="fr"><p><![CDATA[En partant d’une recherche empirique basée sur des récits de vie de femmes engagées dans des relations homo-érotiques, nous discutons quelques propositions de la théorie queer, en explorant la pertinence de la notion de performativité et les thèses de la fluidité identitaire pour l´étude des identités. Spécifiquement, nous examinons jusqu’à quel point les interviewées partagent une vision des rapports entre genre, désir et identité comme étant fluides, incohérents et instables; comment cette vision se lie à l’identité sexuelle qu’elles réclament et comment cette identité est construite à travers des pratiques de façonnement et présentation du corps. Les résultats suggèrent la nécessité d’approfondir et épandre l’analyse des points de tension entre genre et sexualité.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[   	     <p><b><i>Queer</i>, mas n&atilde;o muito: g&eacute;nero, sexualidade e identidade    nas narrativas de vida de mulheres</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><b>Ana Maria Brandão</b></p>     <p align="right">Universidade do Minho</p>          <p>&nbsp;</p> 			     <p><b>Resumo</b></p>     <p>Partindo de uma investigação empírica baseada nas narrativas de vida de um    conjunto de mulheres envolvidas em relações homo-eróticas, pretende-se discutir    algumas propostas da teoria <i>queer</i>, explorando a aplicação do conceito    de performatividade e as teses da fluidez identitária ao estudo das identidades.    Em especial, examina-se até que ponto as entrevistadas partilham de uma visão    das relações entre género, desejo e identidade como sendo fluidas, incoerentes    e instáveis, como se relaciona a visão que defendem com a identidade sexual    que reclamam e de que modo é essa identidade construída através de práticas    de modelação e apresentação do corpo. Os resultados sugerem a necessidade de    aprofundar e expandir a análise dos pontos de tensão entre género e sexualidade.</p> 	    <p><b>Palavras-chave</b> Performatividade; teoria <i>queer</i>; identidade;  	homo-erotismo feminino.</p> 			    <p>&nbsp;</p>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Abstract</b></p>     <p> <b>Queer, but not much: Gender, sexuality, and identity in women&#8217;s life-stories</b></b></p>     <p> 	</b>Based on an empirical research supported on the life-stories of women  	involved in homo-erotic relationships, this article discusses some proposals  	of <i>queer</i> theory, exploring the relevance of the concept of  	performativity and the theses of the fluidity of identity to research on  	identities. Especially, one examines the extent to which the interviewees  	share a vision of the relations between gender, desire, and identity as  	being fluid, incoherent, and unstable; how the vision they defend is linked  	to the sexual identity they claim; and how that identity is constructed  	through practices of body shaping and self-presentation. Results suggest the  	need to expand the analysis of the points of tension between gender and  	sexuality.</p> 			    <p><b>Keywords</b> Performativity; <i>queer</i> theory; identity;  			female homo-eroticism.</p> 			    <p>&nbsp;</p> 			    <p><b>Résumé</b></b></p>    <p> 			<b><i>Queer</i>, mais pas trop: Genre, sexualité et identité dans  			les récits de vie de femmes</b></p>    <p> 			En partant d&#8217;une recherche empirique basée sur des récits de vie de  			femmes engagées dans des relations homo-érotiques, nous discutons  			quelques propositions de la théorie <i>queer</i>, en explorant la  			pertinence de la notion de performativité et les thèses de la  			fluidité identitaire pour l´étude des identités. Spécifiquement,  			nous examinons jusqu&#8217;à quel point les interviewées partagent une  			vision des rapports entre genre, désir et identité comme étant  			fluides, incohérents et instables; comment cette vision se lie à  			l&#8217;identité sexuelle qu&#8217;elles réclament et comment cette identité est  			construite à travers des pratiques de façonnement et présentation du  			corps. Les résultats suggèrent la nécessité d&#8217;approfondir et épandre  			l&#8217;analyse des points de tension entre genre et sexualité.</p> 			    <p><b>Mots-clés</b> Performativité; théorie <i>queer</i>; identité;  			homo-érotisme féminin.</p> 			    <p>&nbsp;</p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Introdução</b></p> 	    <p>A teoria <i>queer</i> pretende articular reflexão teórica e  	intervenção política, emergindo na sequência do debate entre abordagens  	essencialistas e construtivistas da identidade (Cascais, 2004; Santos,  	2006). Com epicentro nos estudos literários e influenciada pelo  	construtivismo, pelo pós-estruturalismo e pelo pós-modernismo, a abordagem  	surge na década de 1990, salientando as relações fluidas, incoerentes e  	instáveis entre corpo, sexo, género e desejo, questionando a existência de  	fronteiras estáveis entre «normalidade» e «desvio» e a hetero-normatividade  	(Dynes, s.d.; Jagose, 1996; Penn, 1995). No seu âmbito, o que define a  	identidade não é uma essência, mas um trabalho permanente de (re)construção  	discursiva através do qual se constitui o/a próprio/a sujeito/a.</p> 	    <p>Com base nos resultados de uma investigação sobre a  	construção social da identidade, articulando género e sexualidade (Brandão,  	2007), pretende-se problematizar estes eixos analíticos. Os dados referem-se  	às narrativas de vida de mulheres residentes nos distritos do Porto e Braga,  	distribuídas por três gerações, de acordo com o período da sua adolescência  	e início da idade adulta: uma, anterior a Abril de 1974; outra, situada na  	fase de estabilização da democracia portuguesa; finalmente, uma geração cuja  	adolescência tem lugar a partir da década de 1990. As entrevistadas foram  	escolhidas com base num único critério: terem mantido pelo menos uma relação  	homo-erótica, independentemente das suas identidades sexuais<sup><b><a name="top1" href="#1">1</a></b></sup>.</p> 	    <p>Confrontando os argumentos <i>queer</i> com os resultados da  	investigação de actores/as concretos/as e da sua subjectividade, este artigo  	insere-se no debate acerca do modo como o conceito de performatividade e as  	teses da fluidez identitária podem ser aplicados ao estudo das identidades.  	Partindo da discussão das propostas <i>queer</i>, são abordadas duas  	dimensões de análise: a maneira como a relação entre género, desejo e  	sexualidade é perspectivada pelas entrevistadas em ligação com as  	identidades que reclamam e com a concepção de identidade que defendem; de  	que modo é essa identidade construída através de práticas de modelação e  	apresentação do corpo.</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p><b>1. O que há de <i>queer</i> na identidade?</b></p> 	    <p>Recuperando um termo com conotação injuriosa &#8211; <i>queer</i>  	é uma expressão possível do insulto homofóbico, significando «bicha» ou «maricas»  	&#8211;, a teoria <i>queer</i> pretende unir sob ele todas as formas de (des)identificação  	proscritas, «estranhas», «esquisitas», não conformes. <i>Queer</i> seria um  	termo aplicável a um conjunto de identificações engendradas <i>por exclusão</i>  	pelos discursos que produzem as categorias identitárias normativamente  	aceites (Butler, 1999b). Como a existência da norma implica traçar  	fronteiras que definem o que é «aceitável», «bom», «normal», os mecanismos  	da sua produção revelam e forjam o seu negativo, o «inaceitável», «mau»,  	«anormal».</p> 	    <p>Nas propostas <i>queer</i>, não está em causa a produção de  	identidades alternativas, mas a exploração de situações que, revelando os  	limites da norma, emergem como potencialmente destrutivas para esta. A  	abordagem assume-se como um projecto revolucionário de destruição das  	categorias identitárias, vistas como limites à expressão da  	multidimensionalidade e incoerência que caracterizam o ser humano (St-Hilaire,  	1999; Santos, 2006). A essência e congruência de qualquer identidade são  	questionadas, apostando-se na revelação e crítica dos mecanismos que, ao  	produzirem uma categoria identitária, geram novos espaços de marginalização. 	<i>Queer</i> é «uma categoria de identidade que não tem interesse em  	consolidar-se, ou mesmo em estabilizar-se», «é menos uma identidade do que  	uma <i>crítica</i> da identidade» (Jagose, 1996: 3).</p> 	    <p>Tal missão parece, todavia, comprometida, pois, ao propor-se  	uma designação, está-se a dar o primeiro passo para a sua objectivação.  	Enquanto sistema de classificação, a linguagem traduz maneiras de ver a  	realidade que atribuem existência real ao que é classificado pela  	actualização das categorias de pensamento nas disposições e práticas dos/as  	actores/as que lhes dão, assim, literalmente, corpo. Ela sustenta sistemas  	de nomeação que possuem um «poder performativo» (Bourdieu, 1987; Butler,  	1999a), que têm a capacidade de fazer existir na realidade aquilo que  	enunciam.</p> 	    <p>Judith Butler (1999a, 1999b) propôs a ideia de que o género  	é performativo, i.e., produzido através de repetições ritualizadas que o  	naturalizam enquanto corpo sexuado e fundamento primordial da  	heterossexualidade normativa. A realidade do género seria produzida através  	de discursos, entendidos como práticas que formam sistematicamente os  	objectos de que falam, constituídos por signos, mas não redutíveis a eles (Foucault,  	1969: 66-67). O género seria trazido à existência através de práticas,  	rituais e nomeações continuados, sendo a sua incorporação entendida como a  	produção continuada da sua inteligibilidade num contexto sociocultural  	particular.</p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A dimensão ritualizada da noção de performatividade  	apresenta similaridades com a noção de <i>habitus</i> de Pierre Bourdieu  	(cf. Butler, 1999a: 192, nota 8): ambas sublinham a produção diacrónica da  	identidade no decurso da qual o indivíduo se constitui como sujeito/a &#8211; e  	como sujeito/a de um tipo particular.</p> 	    <p>Este processo implica uma definição e «naturalização» de  	fronteiras, especialmente quando a identidade surge como fundamento de lutas  	políticas (Bourdieu, 1989, 1998; Butler, 1999b).</p> 	    <p>Ora, a disseminação e apropriação do termo <i>queer</i>  	parecem ter originado uma nova solidificação identitária (Jagose, 1996;  	Santos, 2006) mais do que uma representação destinada a simbolizar a  	contestação ao policiamento das condutas e o direito à expressão individual  	e individualizadora. Se noções como a de performatividade podem ser usadas  	para o questionamento subversivo das categorias identitárias e se a sua  	representação &#8211; também no sentido lúdico &#8211; pode reflectir a vontade de expor  	a sua dimensão construída, em muitos casos, a reclamação do <i>queer</i>  	tende para a reificação do não normativo, levantando a questão de saber se  	consegue deslocar a norma (Eves, 2004; Jagose, 1996; St-Hilaire, 1992). Este  	tipo de apropriação terá mesmo levado de Teresa de Lauretis, a quem é  	atribuída a cunhagem da expressão <i>queer theory</i><sup><b><a name="top2" href="#2">2</a></b></sup>,  	a abandoná-la (Dynes, s.d.; Jagose, 1996).</p> 	    <p>Com efeito, como defende Butler (1999b: 228),</p> 	    <blockquote> 		    <blockquote> 			    <p>Se o termo queer pretende ser um sítio de  			contestação colectiva, o ponto de partida para um conjunto de  			reflexões históricas e imaginários futuros, terá que permanecer o  			que é, no presente, nunca inteiramente apropriado, mas sempre e  			apenas redefinido, revolvido, a partir de um uso anterior e na  			direcção de propósitos políticos urgentes e em expansão.</p> 		</blockquote> 	</blockquote> 	    <p>É difícil compreender a exequibilidade deste projecto,  	especialmente considerando que a identidade, e sobretudo o sentimento de se  	possuir uma identidade, estão ligados à ideia de uma certa constância e  	coerência ao longo do tempo, e que é face à alteridade que o Eu pode  	afirmar-se tanto pela identificação, como pela diferenciação (Dubar, 1997;  	Jenkins, 1996; Tap, s.d.).</p> 	    <p>Outro aspecto problemático nas propostas <i>queer</i> é a  	não explicitação do papel do/a actor/a nos processos analisados. Além dos  	discursos sobre o género e a sexualidade, dar conta dos processos de  	identificação implica perceber como é que os/as actores/as intervêm na  	produção, consolidação e subversão das categorias identitárias. A identidade  	é uma síntese em curso de um conjunto de (des)identificações, que exige um  	trabalho activo por parte de um/a sujeito/a (Tap, s.d.). É preciso dar conta  	do modo como essa produção ocorre, como este/a chega a uma certa  	identificação. Em especial, considerando que o género se define também pela  	sua íntima ligação à (hetero)sexualidade, o que acontece, ao nível da  	identidade de género, com aqueles/as que não se conformam às normas que  	regulam a sua coerência? Até que ponto a fuga à heterossexualidade  	hegemónica se traduz numa perda do sentido do lugar de género, como sugere  	Butler (1999a: xi)? Essa perda é tomada como demonstração da instabilidade  	intrínseca de qualquer identidade, ou está em causa a fabricação e  	consolidação de identidades alternativas que produzem novos espaços de  	exclusão?</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>2. Visões da identidade &#8211; fluxo ou fronteira?</b></p> 	    <p>A (re)produção do género normativo passa pela imposição da  	heterossexualidade (Almeida, 1995; Butler, 1999a; Cucchiari, 1994; Rich,  	1980; Rubin, 1997). Uma parte importante de ser mulher inclui o desejo por  	um homem, constituindo o desejo homo-erótico uma transgressão das fronteiras  	do género normativo, um «elemento anómalo» (Douglas, 1994). Além disso, as  	identidades sexuais e de género<sup><b><a name="top3" href="#3">3</a></b></sup>  	são geralmente apresentadas como categorias bipolares e discretas. O desejo  	homo-erótico tende a originar confusão, ou estranheza, porque se presume que  	o desejo sexual se deve dirigir a alguém do outro sexo e que existem  	fronteiras claras entre os «tipos» de pessoa que se pode ser. Isto mesmo é  	relatado por Alexandra quando descreve os seus pensamentos quando se  	apaixonou pela primeira vez por outra mulher:</p> 	    <blockquote> 		    <blockquote> 			    <p>«&#8220;Meu Deus! Como é que eu estou a fazer uma coisa  			destas?! // Eu não sou homossexual. Eu já namorei com rapazes. Eu  			gosto de rapazes. Eu sinto-me bem com os rapazes&#8221;&#8230;».</p>    <p> 			Alexandra, 37 anos</p> 		</blockquote> 	</blockquote> 	    <p>No discurso da maioria das entrevistadas, como no discurso  	socialmente dominante, é-se heterossexual <i>ou</i> homossexual. Raramente  	se equaciona a possibilidade do desejo sexual ser eminentemente fluido ou do  	objecto sexual não ser determinante na definição identitária. Isto é  	especialmente claro na visão corrente da bissexualidade como correspondendo  	à situação</p> 	    <blockquote> 		    <blockquote> 			    <p>«[&#8230;] [d]os &#8220;mal-definidos&#8221;&#8230; // Eu acho que, se há  			bissexuais, é porque ou são hetero que não conseguem encarar-se como  			hetero, ou são gays e lésbicas que não conseguem encarar-se!»</p>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p> 			Paula, 23 anos</p> 		</blockquote> 	</blockquote> 	    <p>Em termos psicológicos e sociológicos, adoptar uma  	identidade com fronteiras precisas, como a identidade lésbica, «permite  	algum tipo de estabilidade e continuidade na relação com os outros» (Markowe,  	1996: 33). Ela estabelece uma ordenação da realidade que, aparentemente, não  	se presta a confusões porque delimita cenários presentes e futuros de acção,  	facilitando a interacção.</p> 	    <p>A crença na existência de identidades sexuais estanques tem  	sido reforçada pela vulgarização da «história de saída do armário», a que  	Barbara Ponse (1978: 124-125) chamou a «trajectória <i>gay</i>», que se  	tornou no guião privilegiado da subcultura <i>gay</i> e lésbica, o seu  	princípio de construção identitária. A conformidade a esse guião tornou-se  	num critério de pertença à comunidade <i>gay</i> e lésbica e num instrumento  	de institucionalização da homossexualidade. No modelo proposto, está em  	causa não só um <i>descobrir-se</i>, <i>revelar-se</i> e <i>assumir-se</i>,  	mas um <i>tornar-se</i> (Stein, 1997: 67-69), que se converteu numa espécie  	de «confessional colectivo». O processo culmina, tipicamente, numa  	estabilização da identidade <i>gay</i> ou lésbica, afastando outras  	possibilidades de identificação (Jensen, 1999; Stein, 1997), mesmo quando,  	em privado, essa identidade é considerada menos permanente do que se  	apregoa. Apesar da presença da ideia de uma certa previsibilidade futura no  	sentido de as entrevistadas se continuarem a definir como «lésbicas», «gays»  	ou «homossexuais», esse sentido de permanência é percebido, essencialmente,  	em termos de probabilidade ou improbabilidade:</p> 	    <blockquote> 		    <blockquote> 			    <p>«Eu dizer que é impossível, não digo, até porque há  			homens que me continuam a dizer alguma coisa e a ser interessantes e  			a atrair-me, mas, geralmente, aquilo que eu sinto é que a  			probabilidade de acontecer é pequena. // Mas tenho mais dificuldade  			em imaginar uma relação muito continuada com um homem! // Eu acho  			que vou morrer com mulheres!»</p>    <p> 			Marisa, 37 anos</p> 			    <p>«Já fui capaz de me apaixonar por um homem. //  			Parece menos provável, muito menos. // Não quero dizer que não  			porque acho que não se pode ter a certeza, mas, neste momento, não».</p>    <p> 			Célia, 37 anos</p> 		</blockquote> 	</blockquote> 	    <p>A questão da constância identitária é também interessante  	pela sua ligação a teorias etiológicas, «psicologias espontâneas» que  	explicam a existência e contribuem para a produção de tipos identitários (Berger  	e Luckmann, 1989: 178-180). As explicações essencialistas predominam entre  	as entrevistadas mais velhas e entre aquelas cujo meio privilegiado de  	sociabilidade é o meio <i>gay</i> e lésbico. Os seus contextos de  	socialização, em termos geracionais e de grupos de pares parecem contribuir  	para privilegiarem teses essencialistas mais ou menos moderadas, que  	entendem o lesbianismo como traduzindo um self autêntico a «descobrir», uma  	«verdade» interior que aguarda revelação (Stein, 1997; Ponse, 1978). O termo  	«descoberta» é recorrente nas narrativas destas mulheres:</p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote> 		    <blockquote> 			    <p>«Acho que nasceu comigo! Não houve nada, nenhuma  			situação, que me tivesse causado isso. // Nasceu, veio cá para fora&#8230;  			Podia nunca ter vindo! Podia nunca ter descoberto!»</p>    <p> 			Margarida, 33 anos</p> 		</blockquote> 	</blockquote> 	    <p>Embora nem sempre explicitem o que significa dizer que é  	algo que «nasce» com elas, os argumentos tendem a recair sobre factores  	genéticos. Mas este tipo de discurso tende a sublinhar, paralelamente, a  	presença de contextos facilitadores ou inibidores da actualização de uma  	espécie de «lesbianismo latente», patente na afirmação de Margarida que  	«podia nunca ter descoberto».</p> 	    <p>A pressão externa no sentido quer da conformidade à norma,  	quer ao «padrão desviante», é outro factor avançado por algumas  	entrevistadas para explicarem a adopção de uma identidade lésbica. Leonor  	refere-se à pressão sofrida quando a sua primeira ligação homo-erótica se  	tornou conhecida, defendendo que</p> 	    <blockquote> 		    <blockquote> 			    <p>«Se as pessoas me tivessem deixado, com o tempo,  			viver as coisas, contar aos meus pais na altura certa&#8230; // Foi tudo  			precipitado, precipitado demais, e eu própria me pergunto, agora já  			numa introspecção muito profunda, se o processo tivesse sido normal,  			até que ponto é que eu estava aqui como estou?&#8230; Se calhar, se  			tivesse encontrado as mesmas pessoas, nas mesmas alturas, tinha  			acontecido tudo igual!&#8230;Se calhar, não!»</p>    <p> 			Leonor, 35 anos, EE</p> 		</blockquote> 	</blockquote> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Sendo as identidades sexuais comummente apresentadas em  	termos mutuamente exclusivos, um envolvimento homo-erótico tende também a  	ser entendido pelos/as outros/as como manifestação de uma identidade  	lésbica. Ao ser conhecido, ele compromete e limita as possibilidades dessa  	imagem vir a modificar-se, mostrando que a estabilização identitária é  	produzida através de um jogo de expectativas e reclamações mútuas (Goffman,  	1989; Strauss, 2002). A maioria das entrevistadas acaba, assim, por reclamar  	uma identidade «lésbica», «homossexual», ou «<i>gay</i>», sendo minoritários  	os casos em que é visível a hesitação ou a recusa em adoptar uma identidade  	institucionalizada. Nestes casos, a identidade sexual é entendida como  	circunstancial e fluida, desprovida de centralidade particular:</p> 	    <blockquote> 		    <blockquote> 			    <p>«[&#8230;] não me assumo como lésbica, não me assumo como  			fufa, não me assumo como bissexual, ou assumo-me como essas coisas  			todas consoante os contextos, se isso for relevante. Agora, para  			mim, não é, de todo, importante!»</p>    <p> 			Bárbara, 31 anos</p> 			    <p>«A ambiguidade é uma coisa muito bonita! // Se  			calhar, a minha identidade também é assim&#8230; Não sou formatada,  			formatada! // Acho que a vida é muito mais rica, muito mais plural,  			muito mais livre! // As pessoas são todas bissexuais, são todas  			homossexuais&#8230; As pessoas são isso tudo se tiverem oportunidade de  			experimentar&#8230;».</p>    <p> 			Teresa, 52 anos</p> 		</blockquote> 	</blockquote> 	    <p>Estas entrevistadas aproximam-se de uma disposição <i>queer</i>,  	nomeadamente pela crença na não linearidade entre sexualidade, afectos e  	identidade e pelo questionamento da importância das categorias sexuais,  	patentes no discurso de Catarina, que argumenta que</p> 	    <blockquote> 		    <blockquote> 			    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>«[&#8230;] a pergunta nunca está muito bem formulada&#8230; Não  			é a tua pergunta, é a pergunta que o mundo se põe sobre&#8230; // [&#8230;] essa  			visão do tema já é uma visão que é uma linguagem contextual&#8230; Quer  			dizer, neste contexto, fala-se de orientação sexual o que, noutra  			cultura qualquer, noutro contexto qualquer, é ver o problema pelo  			lado errado! // Isso já é uma construção, já responde&#8230;».</p>    <p> 			Catarina, 35 anos</p> 		</blockquote> 	</blockquote> 	    <p>Para compreender a presença deste tipo de discurso, é  	fundamental considerar os efeitos de classe e trajectória destas  	entrevistadas. Além de serem todas originárias e pertencentes à fracção  	dominada da classe dominante (Bourdieu, 1979), têm formação superior, estão  	ligadas ao mundo das artes e/ou académico e o reconhecimento do desejo  	homo-erótico não levou à substituição dos grupos de pares originais pela  	comunidade <i>gay</i> e lésbica. Estas variáveis entrecruzam-se. Por um  	lado, a divulgação das teses <i>queer</i>, em Portugal, tem-se confinado a  	círculos relativamente restritos, precisamente o meio académico e o circuito  	das artes. Por outro lado, o mundo artístico caracteriza-se pela afirmação  	da individualidade, pela contestação dos discursos dominantes, pela  	tolerância à variação, à incongruência e à ambiguidade. Finalmente,  	histórica e sociologicamente, a fracção dominada da classe dominante tem  	recusado a assimilação do indivíduo ao grupo, marcando o seu direito à livre  	expressão como forma de realização pessoal. As características dos contextos  	sociais de apoio destas entrevistadas sugerem, pois, um menor grau de  	pressão grupal no sentido da conformidade a categorias identitárias  	estanques. Estes factores contribuem para explicar por que convivem mais  	facilmente com a incerteza e indefinição identitárias, elementos  	perturbadores, ao passo que «construir um sentido de espaço, formar uma  	comunidade e estabelecer fronteiras, por muito precárias que sejam, promove  	uma sensação de segurança» (Stein, 1997: 199).</p> 	    <p>Isto não significa que não ocorra uma delimitação de  	fronteiras que garanta alguma estabilidade. A própria recusa das  	classificações normativas constitui um traçar de limites que valoriza a  	heterodoxia. Estas entrevistadas não ignoram, nem recusam, a dimensão  	homo-erótica das suas identidades, porém, a linha divisória não coincide com  	a da rotulagem convencional, mas com a sua recusa e desvalorização. Elas não  	se definem por uma designação particular, mas por contraposição ao quadro  	normativo dominante, pretendendo situar-se «<i>entre</i>, mais do que <i> 	dentro</i> de categorias de identificação» (idem: 200).</p> 	    <p>No trabalho de (re)construção identitária estão, pois, em  	causa variáveis que as entrevistadas não controlam e que se situam para lá  	do discurso. São os casos da classe, da pertença geracional ou da presença  	dos/as outros/as com quem têm que interagir, que impõem limites às suas  	possibilidades de escolha e que sustentam e explicam diferentes visões da  	identidade.</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p><b>3. Qual é o género lésbico?</b></p> 	    <p>Constituindo a atracção homo-erótica uma violação do  	princípio que faz do género o sinal externo e visível da identidade sexual,  	quando confrontadas com ela, as entrevistadas procuram enquadrar a nova  	experiência. Na busca de coerência entre passado e presente, sustentáculo  	crucial da identidade, socorrem-se de dois instrumentos: crenças e teorias  	espontâneas que apresentam a lésbica como uma mulher masculina, estereótipo  	reforçado pela noção psiquiátrica de «inversão sexual» (Katz, 1996; Weeks,  	1995); e a «história de saída do armário», que impele à procura de «sinais»  	anteriores de um lesbianismo «latente».</p> 	    <p>A maioria das entrevistadas, evocando a adolescência,  	sublinha a sua não conformidade às «normas de comportamento e aparência  	estereotipadamente ligadas a cada género» (Appleby e Anastas, 1998: 52),  	encarada como sinal de «diferença» face às outras raparigas, que passa pelo  	vestuário (a recusa de saias e vestidos), pela (ausência de) maquilhagem,  	pelo cabelo (curto), pelos (poucos) cuidados com o corpo, pelas atitudes,  	pelas predilecção por brincadeiras ou actividades tradicionalmente conotadas  	com o outro sexo. A recorrência da temática leva Raquel a declarar que tem</p> 	    <blockquote> 		    ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote> 			    <p>«[&#8230;] sempre a sensação de que quase todas as  			mulheres homossexuais devem dizer isto quando falam da infância, que  			é &#8220;Eu era muito Maria-rapaz!&#8221;»</p>    <p> 			Raquel, 31 anos</p> 		</blockquote> 	</blockquote> 	    <p>A não conformidade de género é avançada como elemento  	explicativo predominantemente por entrevistadas originárias das fracções de  	classe mais baixas e está ausente dos discursos das mais jovens. O argumento  	deve ser interpretado, sobretudo, como oferecendo pistas para uma  	interpretação retrospectiva da identidade (Plummer, 1996: 71), garantindo o  	sentimento de continuidade. O facto de não se encontrar tais relatos entre  	as mulheres mais jovens está provavelmente ligado a mudanças sociais que têm  	esbatido as diferenças de género e alterado visões do homo-erotismo como  	equivalente de uma espécie de «inversão». Isto também explicaria a sua  	preponderância entre as mulheres originárias de fracções de classe onde o  	dimorfismo de género é mais acentuado (cf. Bourdieu, 1979).</p> 	    <p>Mas em nenhum caso está em causa a identidade de género.  	Quase todas apontam a «feminilidade» e o «mundo feminino» como factores  	centrais de atracção amorosa, sustentando-se num imaginário próximo da noção  	de <i>woman-identified-woman</i> (Newton, 1984). É recorrente a referência a  	aspectos alegadamente característicos do relacionamento lésbico que  	enaltecem os afectos e as emoções em detrimento da dimensão sexual/genital:</p> 	    <blockquote> 		    <blockquote> 			    <p>«Eu acho que é o ser mulher&#8230; // Um homem pensa como  			um homem. É diferente, tem um pensar diferente&#8230; É muito mais  			sexuado, mais físico, para já não falar na parte machista&#8230; A mulher  			é um ninho de carinho, de complementaridade, que eu não encontro num  			homem, embora tenha tido uma experiência. É o lado feminino da  			mulher que me atrai. Que nem por isso é o lado físico, obviamente,  			mas é o eu feminino».</p>    <p> 			Margarida, 33 anos</p> 		</blockquote> 	</blockquote> 	    <p>O rompimento com a heterossexualidade hegemónica não conduz  	obrigatoriamente à recusa da identificação como mulheres, mas à sua  	reelaboração em moldes que mantêm uma ligação com o género normativo. É a  	ruptura com este que emerge como problemática, algo particularmente visível  	nas manifestações generalizadas de resistência à «lésbica máscula»,  	consagrada na figura da «camionista»<sup><b><a name="top4" href="#4">4</a></b></sup>.  	A não identificação com esta é apreendida por uma divergência estética  	ligada às dimensões visíveis da apresentação, como o vestuário ou o corte de  	cabelo, classificados como «masculinos». Mas o aspecto estético é menos  	salientado do que a hexis corporal, ou uma atitude mais agressiva,  	nomeadamente no que respeita aos rituais de sedução:</p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote> 		    <blockquote> 			    <p>«Pela maneira de se sentar&#8230; Senta-se em frente da  			outra&#8230; A maneira de olhar, de cima a baixo, parece que a está a  			comer com os olhos&#8230; // Como um homem olha uma mulher. Se essa mulher  			lhe interessa, já está a despi-la com os olhos, parece que a está a  			comer&#8230;».</p>    <p> 			Carolina, 43 anos</p> 		</blockquote> 	</blockquote> 	    <p>A camionista é a «mítica lésbica máscula», a «verdadeira  	invertida» (Newton, 1984), durante muito tempo considerada o expoente do  	lesbianismo, e definida pelas entrevistadas em termos similares aos dos  	primeiros sexólogos:</p> 	    <blockquote> 		    <blockquote> 			    <p>«Provavelmente, é uma mente masculina num corpo  			feminino».</p>    <p> 			Carolina, 43 anos</p> 		</blockquote> 	</blockquote> 	    <p>Comum a esta imagética é a suspeita de uma «disforia de  	género»<sup><b><a name="top5" href="#5">5</a></b></sup>. Apesar da lésbica  	que se confunde com um homem poder ser encarada como uma representação ou  	incorporação problemática do género e não como mera imitação da  	masculinidade masculina, representando, «simultaneamente, a masculinidade  	feminina e uma rejeição da feminilidade anatómica imposta» (Halberstam,  	1998: 126), para as entrevistadas, ela é a manifestação de algo «errado» na  	relação entre género e sexo. A rejeição que provoca resulta da dificuldade  	das entrevistadas lidarem com uma infracção de género incompatível com as  	suas autodefinições como mulheres (Markowe, 1996; Jenness, 1993).</p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Se a «lésbica máscula» é um tropo problemático, o mesmo  	acontece com a «lésbica feminina». Ao contrário da primeira, a feminilidade  	da segunda geralmente exclui suspeitas de lesbianismo. Precisamente por  	isso, tende a ser vista como uma lésbica «não assumida», que oculta o seu  	lesbianismo, podendo passar por heterossexual (Ponse, 1978; Stein, 1997),  	insinuação presente nas declarações de Leonor, que as define como</p> 	    <blockquote> 		    <blockquote> 			    <p>«[&#8230;] extremamente femininas, que ninguém diria que  			são lésbicas, e que são extremamente discretas, não sei se assumidas  			ou não &#8211; isso já é outra questão &#8211;, mas que são mulheres «normais»,  			passam na rua e ninguém imagina, sequer!»</p>    <p> 			Leonor, 35 anos</p> 		</blockquote> 	</blockquote> 	    <p>A visão que algumas entrevistadas partilham do significado  	deste arquétipo revela um quadro normativo subcultural que não só questiona,  	como menospreza &#8211; pela insinuação de frivolidade e passividade &#8211; uma  	feminilidade da qual fazem questão de se distinguir. Na óptica de Leonor,</p> 	    <blockquote> 		    <blockquote> 			    <p>«[&#8230;] de uma maneira geral, os homossexuais &#8211; as  			mulheres &#8211;, normalmente, são práticas, não se preocupam muito com a  			beleza, não se pintam, a maneira de vestir é, normalmente, mais  			prática, não é necessariamente masculina, cabelo mais para o curto&#8230;  			// E, normalmente, as mulheres que, por coincidência, até são menos  			inteligentes, pintam-se imenso, cuidam imenso da imagem e, se  			calhar, isso é um escape para não pensarem, porque não lhes  			interessa pensar, nem viver mais nada&#8230;».</p>    <p> 			Leonor, 35 anos</p> 		</blockquote> 	</blockquote> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Estes comentários reenviam para três dimensões de análise:  	revelam a institucionalização da identidade lésbica e da identidade  	heterossexual feminina, traduzida na existência de «fachadas» próprias (Goffman,  	1989); mostram que a reclamação de pertença a uma categoria pressupõe a  	adopção da fachada correspondente; indiciam a presença, no âmbito da  	subcultura lésbica, de uma fachada «adequada» da lésbica, assente numa  	estética andrógina, uma mistura de géneros raramente equivalente à  	ambiguidade total (Halberstam, 1998: 57). É aqui que a noção de  	performatividade se torna particularmente elucidativa, permitindo  	compreender como o género &#8211; no caso, uma forma particular de fazer o género  	&#8211; se constrói no âmbito de discursos culturais e subculturais que fornecem  	os instrumentos necessários à sua incorporação. Mas o género &#8211; apreendido e  	manifestado através da estética corporal &#8211; é entendido pelas entrevistadas  	não só como uma forma de enunciação do que <i>são</i>, mas também do que <i> 	querem ser</i>, resultando de uma modelação específica e pelo menos  	parcialmente voluntária no contexto de uma comunidade que estabelece normas  	de pertença. A possibilidade de reconhecimento dessa pertença é, aliás,  	valorizada por algumas entrevistadas:</p> 	    <blockquote> 		    <blockquote> 			    <p>«Obviamente que há uma construção [da imagem], mas  			eu sinto-me bem com essa construção precisamente porque não me sinto  			bem com a outra&#8230; // Hoje em dia, faço algum gosto, também, em manter  			uma imagem que continua a condizer com aquilo em que me sinto bem,  			mas gosto que, principalmente nos meios [<i>gays</i> e lésbicos], as  			pessoas percebam que eu sou homossexual».</p>    <p> 			Raquel, 31 anos</p> 		</blockquote> 	</blockquote> 	    <p>O apelo à transgressão das fronteiras de género, incluindo o  	elogio da estética andrógina, está ausente das narrativas das mulheres mais  	jovens, indicando diferenças geracionais de socialização. As apreciações das  	entrevistadas mais velhas apontam para uma mudança nas representações do  	homo-erotismo feminino que se traduziu na multiplicação das suas formas de  	expressão e na perda de relevância da masculinização como parte de um código  	de identificação recíproca:</p> 	    <blockquote> 		    <blockquote> 			    <p>«Era um sinal importante nos anos sessenta (e antes  			disso) uma certa masculinização, certos sinais para que se pudesse  			dar o contacto, o que mostra o quanto era difícil e hoje talvez não  			seja assim tão difícil, visto que esses sinais estão bastante  			diluídos».</p>    <p> 			Emília, 54 anos</p> 		</blockquote> 	</blockquote> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A masculinização é um critério fundamental de identificação,  	sobretudo em momentos e/ou espaços em que o homo-erotismo feminino se  	caracteriza pelo secretismo e pela invisibilidade (Faderman, 1992; Eves,  	2004; Ponse, 1976), razão pela qual terá sido mais relevante para as  	mulheres mais velhas. Adicionalmente, o facto das entrevistadas mais jovens  	evidenciarem menor ligação à comunidade <i>gay</i> e lésbica pode também  	explicar a ausência da apologia de uma estética particular nos seus  	discursos, pois estão menos sujeitas à coacção da conduta que resulta da  	existência dessa «idealização» (Goffman, 1989; Strauss, 2002).</p> 	    <p>As entrevistas mostram que a identidade resulta de um  	trabalho levado a cabo no contexto de comunidades e discursos particulares  	sobre o que significa ser determinado tipo de pessoa (Stein, 1997; Ponse,  	1978), evidenciando a interpenetração de discursos sobre a sexualidade e  	género, produzidos e veiculados no âmbito das comunidades a que se pertence.  	Precisamente porque esses discursos nem sempre são consensuais, o trabalho  	de (re)construção identitária exige um/a sujeito/a dotado/a de uma certa  	reflexividade, que deve efectuar escolhas, ainda que dentro de certos  	limites.</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p><b>Conclusão</b></p> 	    <p>A identidade é dotada de plasticidade, mas, contrariamente  	ao que pretendem as teses queer, a análise empírica dos processos de (re)construção  	identitária mostra que ela se caracteriza por e carece de uma constância  	relativa (Jenkins, 1996; Tap, s.d.). Possuir uma identidade corresponde a um  	fechamento de possibilidades, à estabilização e encerramento provisórios do  	Eu em torno de uns certos predicados que excluem a actualização de outros.  	Não impedindo a mudança e a inclusão de novos elementos na identidade, esse  	encerramento parece essencial para a remoção do elemento da escolha ansiosa  	(McIntosh, 1992; Markowe, 1996).</p> 	    <p>Como o género normativo está ligado à heterossexualidade  	hegemónica, o desejo homo-erótico desencadeia um processo de (re)construção  	identitária que tende a desembocar na reclamação de uma identidade  	«lésbica», «homossexual» ou «<i>gay</i>», ligada à produção de outros  	espaços de proscrição, como a bissexualidade, equacionada com a indefinição  	e a inconstância. Parte do que significa «ser lésbica» parece incluir um  	afastamento face à feminilidade hegemónica, apoiando a tese de que certas  	práticas sexuais possuem a capacidade de desestabilizar o género (Butler,  	1999a; Rich, 1980; Rubin, 1997; Wittig, 1993).</p> 	    <p>A identificação como lésbica, uma identidade  	institucionalizada, implica uma reelaboração da identidade de género que  	inclui uma remodelação dos modos de apresentação do corpo (Faderman, 1992;  	Holliday, 1999; Markowe, 1996; Ponse, 1978; Stein, 1997). Noções como a de  	performatividade são aqui particularmente heurísticas, desvendando a  	dimensão construída da identidade. Apesar da maioria das entrevistadas  	salientar o facto de ser lésbica, as narrativas revelam um trabalho que visa 	<i>tornarem-se</i> lésbicas, porém, garantindo uma certa coerência entre  	identidades passadas e actuais. Este trabalho exige a presença activa de  	um/a sujeito/a que se (re)constrói como ser coeso e inteiro, sob a  	influência de discursos e condições estruturais e contextuais que não domina  	inteiramente e que interferem no resultado final.</p> 	    <p>Quando os contextos de socialização favorecem a expressão do  	homo-erotismo, encarando a relação entre identidade e prática sexual como  	fluida, plural e/ou ambígua, a tendência para aglutinar ambas reduz-se. Uma  	visão da identidade próxima da concepção <i>queer</i> está mais presente  	entre mulheres com acesso a recursos discursivos alternativos que acentuam o  	carácter construído da identidade. É, todavia, excepcional no conjunto das  	entrevistas, surgindo ligada aos efeitos cruzados da classe com contextos de  	socialização e trajectórias de vida específicos, todos concorrentes para uma  	menor propensão à conformação a categorias identitárias discretas. A maioria  	das entrevistadas encara a identidade lésbica como preexistente e  	relativamente estável. Esta concepção mais essencialista não impede,  	todavia, a tensão entre o apelo ao genético e a invocação de explicações  	mais construtivistas, sugerindo uma certa consciência da instabilidade  	constitutiva da identidade.</p> 	    <p>Os resultados obtidos sugerem a necessidade de aprofundar e  	expandir a análise dos pontos de tensão entre género e sexualidade. Apesar  	da presença de identidades sexuais e de género institucionalizadas, as  	narrativas mostram deslocações diversas face às suas normas definidoras. Um  	aspecto particularmente interessante diz respeito à bissexualidade pelas  	dificuldades de apropriação e institucionalização que levanta no âmbito da  	subcultura lésbica (Ponse, 1978; Stein, 1997) e da cultura dominante (Weinberg,  	Pryor e Williams, 1994). O aprofundamento destas questões pode constituir um  	contributo relevante para o desenvolvimento das teses <i>queer</i> e para o  	seu projecto político.</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> 	    <p><b>Referências Bibliográficas</b></p> 			    <p>Almeida, Miguel Vale de (1995), <i>Senhores de si: Uma  			interpretação antropológica da masculinidade</i>, Lisboa, Fim de  			Século.</p> 	    <p>Appleby, George Alan, Anastas, Jeane W. (1998), «Gay, Lesbian, and  	Bisexual Identities: Definitions and dilemmas», in George Alan Appleby e  	Jeane W. Anastas (org.), <i>Not Just a Passing Phase: Social work with gay,  	lesbian, and bisexual people</i>, N.Y., Columbia University Press, 45-75.</p> 	    <p>Berger, Peter, Luckmann, Thomas (1989), <i>The social construction of  	reality: A treatise in the sociology of knowledge</i>, N.Y., Anchor Books.</p> 	    <p>Bourdieu, Pierre (1998), <i>O Que Falar Quer Dizer</i>, Algés, Difel.</p> 	    <p>Bourdieu, Pierre (1989), <i>O Poder Simbólico</i>, Lisboa, Difel.</p> 	    <p>Bourdieu, Pierre (1987), <i>Choses Dites</i>, Paris, Les Editions de  	Minuit.</p> 	    <p>Bourdieu, Pierre (1979), <i>La Distinction: Critique sociale du jugement</i>,  	Paris, Les Editions de Minuit.</p> 	    <p>Brandão, Ana Maria (2007), <i>«E se tu fosses um rapaz?»: Homo-erotismo  	feminino e construção social da identidade</i>, Dissertação de doutoramento,  	Braga, Universidade do Minho.</p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Brooten, Bernadette J. (1996), <i>Love Between Women: Early Christian  	responses to female homoeroticism</i>, Chicago, University of Chicago Press.</p> 	    <p>Butler, Judith (1999a), <i>Gender Trouble: Feminism and the subversion of  	identity</i>, New York, Routledge.</p> 	    <p>Butler, Judith (1999b), <i>Bodies that Matter: On the discursive limits  	of «sex»</i>, N.Y., Routledge.</p> 	    <p>Cascais, António Fernando (2004), «<i>Um nome que seja seu</i>: Dos  	estudos <i>gays</i> e lésbicos à teoria <i>queer</i>», in António Fernando  	Cascais (org.), <i>Indisciplinar a teoria: Estudos gays, lésbicos e queer</i>,  	Lisboa, Fenda, 21-89.</p> 	    <p>Cucchiari, Salvatore (1994), «The Gender Revolution and the Transition  	from Bisexual Horde to Patrilocal Band» in Sherry B. Ortner e Harriet  	Whitehead (eds.), <i>Sexual Meanings: The cultural construction of gender  	and sexuality</i>, USA, Cambridge University Press, 31-79.</p> 	    <p>Douglas, Mary (1994), <i>Purity and Danger: An analysis of the concepts  	of pollution and taboo</i>, London, Routledge.</p> 	    <p>Dubar, Claude (1997), <i>A Socialização: Construção das identidades  	sociais e profissionais</i>, Porto, Porto Editora.</p> 	     <p>Dynes, Wayne R. (s.d.), «Queer Studies: In search of a discipline» [em linha],    disponível em <a href="http://www.fc.net/arathus/other/queer_studies_in_search_of_a_discipline.txt" target="_blank">http://www.fc.net/arathus/other/queer_studies_in_search_of_a_discipline.txt</a>    [1999, 27 de Junho].</p> 	    <p>Eves, Alison (2004), «Queer Theory, Butch/Femme: Identities and lesbian  	space», <i>Sexualities</i>, vol. 7, n.º 4, 480-496.</p> 	    <p>Faderman, Lilian (1992), <i>Odd Girls and Twilight Lovers: A history of  	lesbian life in twentiethcentury America</i>, s.l., Penguin Books.</p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Foucault, Michel (1969), <i>L&#8217;Archéologie du Savoir</i>, s.l., Gallimard.</p> 	    <p>Goffman, Erving (1989), <i>A Representação do Eu na Vida Quotidiana</i>,  	Petrópolis, Vozes.</p> 	    <p>Halberstam, Judith (1998), <i>Female Masculinity</i>, Durham, Duke  	University Press.</p> 	    <p>Holliday, Ruth (1999), «The Comfort of Identity», <i>Sexualities</i>, vol.  	2, n.º 4, 475-491.</p> 	     <p>Jagose, Annamarie (1996), Queer Theory [em linha], disponível em <a href="http://www.lib.latrobe.edu.au/AHR/archive/Issue-Dec-1996/jagose.html" target="_blank">http://www.lib.latrobe.edu.au/AHR/archive/Issue-Dec-1996/jagose.html</a>    [1999, 22 de Julho].</p> 	    <p>Jenkins, Richard (1996), <i>Social Identity</i>, London, Routledge.</p> 	    <p>Jenness, Valerie (1993), «Coming out: Lesbian identities and the  	categorization problem» in Ken Plummer (org.), <i>Modern Homosexualities:  	Fragments of lesbian and gay experience</i>, London, Routledge, 65-74.</p> 	    <p>Jensen, Karol L. (1999), <i>Lesbian Epiphanies: Women coming out in later  	life</i>, N.Y., Harrington Park Press.</p> 	    <p>Katz, Jonathan Ned (1996), <i>The invention of heterosexuality</i>, USA,  	Plume/Penguin.</p> 	    <p>Lauretis, Teresa de (1991), «Queer Theory, Lesbian and Gay Studies: An  	Introduction», <i>Differences: A Journal of Feminist Cultural Studies</i>,  	vol. 3, n.º 2, iii-xviii.</p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Markowe, Laura A. (1996), <i>Redefining the Self: Coming out as lesbian</i>,  	s.l., Polity Press.</p> 	    <p>McIntosh, Mary ([1968] 1992), «The Homosexual Role», in Edward Stein  	(ed.), <i>Forms of desire: Sexual orientation and the social constructionist  	controversy</i>, N.Y., Routledge, 25-42.</p> 	    <p>Newton, Esther (1984), «The Mythic Mannish Lesbian: Radclyffe Hall and  	the New Woman», <i>Signs: Journal of Women in Culture and Society</i>, vol.  	9, n.º 4, 557-575.</p> 	    <p>Penn, Donna (1995), «Queer: Theorizing politics and history», <i>Radical  	History Review</i>, n.º 62, 24-42.</p> 	    <p>Plummer, Ken (1996), «Symbolic Interactionism and the Forms of  	Homosexuality», in Steve Seidman (org.), <i>Queer Theory/Sociology</i>,  	Cornwall, Blackwell, 64-82.</p> 	    <p>Ponse, Barbara (1978), <i>Identities in the Lesbian World: The social  	construction of self</i>, Westport, Greenwood Press.</p> 	    <p>Rich, Adrienne (1980), «Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence», 	<i>Signs: Journal of Women in Culture and Society</i>, vol. 5, n.º 4,  	631-660.</p> 	    <p>Rubin, Gayle (1997), «The traffic in women: Notes on the political  	economy of sex», in Linda Nicholson (ed.), <i>The Second Wave: A reader in  	feminist theory</i>, London, Routledge, 27-62.</p> 	    <!-- ref --><p>Santos, Ana Cristina (2006), «Estudos Queer: Identidades, contextos e  	acção colectiva», <i>Revista Crítica de Ciências Sociais</i>, n.º 76, 3-15.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000181&pid=S0874-5560200900020000800001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Stein, Arlene (1997), <i>Sex and Sensibility: Stories of a lesbian  	generation</i>, Berkeley, University of California Press.</p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>St-Hilaire, Colette (1992), «Le paradoxe de l&#8217;identité et le devenir-<i>queer</i>  	du sujet: de nouveaux enjeux pour la sociologie des rapports sociaux de sexe», 	<i>Recherches Sociologiques</i>, n.º 3, 23-42.</p> 	    <p>Strauss, Anselm L. (2002), Mirrors and Masks: The search for identity,  	New Brunswick, Transaction Publishers.</p> 	    <p>Tap, Pierre (s.d.), <i>Identité, Identification et Représentations de  	Sexe: Approches pour une étude de la personnalisation de l&#8217;acteur social</i>,  	Dissertation de doctorat, Université de Paris/Nanterre.</p> 	    <p>Weeks, Jeffrey (1995), <i>Sexuality</i>, London, Routledge.</p> 	    <p>Weinberg, Martin S., Pryor, Douglas, Williams, Colin (1994), <i>Dupla  	Atracção: A bissexualidade na época da Sida</i>, Lisboa, Bertrand.</p> 	    <p>Wittig, Monique (1993), «One is not born a woman» in Henry Abelove,  	Michèle Aina Barale e David M. Halperin (eds.), <i>The lesbian and gay  	studies reader</i>, N.Y., Routledge, 103-109.</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	    <p>&nbsp;</p> 			    <p><b>Notas</b></p> 			    <p><a name="1" href="#top1">1</a> A noção de homo-erotismo é tomada  			de Bernadette Brooten (1996) para designar um acto, desejo ou  			preferência erótico(a) entre/por indivíduos do mesmo sexo,  			respectivamente, exclusivamente ou não, abarcando subcategorias e  			contingentes populacionais diversos e independentemente das  			identidades reclamadas e/ou atribuídas pelos/aos indivíduos em  			causa.</p> 	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="2" href="#top2">2</a> Usada, pela primeira vez, pela autora, num  	número da revista <i>Differences</i> coordenado por si, para propor «um  	outro horizonte discursivo, uma outra forma de pensar o sexual» (de Lauretis,  	1991: iv).</p> 	    <p><a name="3" href="#top3">3</a> A «identidade de género» designa o  	«sentido subjectivo do self de um indivíduo como sendo masculino ou  	feminino» (Appleby e Anastas, 1998: 52-53). A «identidade sexual» refere-se  	à auto-rotulagem como heterossexual, lésbica, gay ou bissexual (Reiter in  	Appleby e Anastas, 1998: 49).</p> 	    <p><a name="4" href="#top4">4</a> A palavra camionista pode ser considerada  	sinónimo do inglês butch.</p> 	    <p><a name="5" href="#top5">5</a> A expressão refere-se, em sentido lato, a  	«uma série de dificuldades em estabelecer uma identificação de género  	convencional» (Newton, 1984: 574).</p> 	    <p>&nbsp;</p> 	     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Ana Maria Brandão</b> é Socióloga, Professora Auxiliar do Departamento de    Sociologia do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho.</p> 			    <p><b>Correio electrónico</b>: <a href="mailto:anabrandao@ics.uminho.pt">anabrandao@ics.uminho.pt</a></p> 	    <p>&nbsp;</p> 			     <p>&nbsp;</p> 	     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Artigo recebido em 01 de Maio de 2009 e aceite para publicação em 28 de    Outubro de 2009.</i></p>            ]]></body><back>
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<surname><![CDATA[Santos]]></surname>
<given-names><![CDATA[Ana Cristina]]></given-names>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Estudos Queer: Identidades, contextos e acção colectiva]]></article-title>
<source><![CDATA[Revista Crítica de Ciências Sociais]]></source>
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