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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Contribuições dos Estudos de Género às Investigações que Enfocam a Masculinidade]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Gender studies contributions to research on masculinity]]></article-title>
<article-title xml:lang="fr"><![CDATA[Contributions des études de genre aux recherches sur la masculinité]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[What is masculinity? Can men be feminine? Masculine and feminine are constructed, so they involve several aspects, including feelings. This paper will analyze gender issues and their contributions to research and how gender and masculinity are constructed.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="fr"><p><![CDATA[Qu'est-ce que c’est la masculinité? Est-ce que l'homme peut être féminin? Le masculin et le féminin sont construits, donc ils comprennent plusieurs aspects, notamment les sentiments. Dans cet article, nous commencerons par analyser les questions de genre et les contributions de ces études pour les recherches et ensuite nous examinerons comment le genre et la masculinité sont construits.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <P><B>Contribuições dos Estudos de Género às Investigações que Enfocam a Masculinidade</B></P>     <P>&nbsp;</P>            <P><B>Amanda Oliveira Rabelo <SUP><U><a name="top0"></a><a href="#0">*</a></U></SUP></B></P>     <P>Universidade de Aveiro</P>           <P>&nbsp;</P>            <P><B>Resumo</B></P>     <P><B> </B>O que é masculinidade? O homem pode ser feminino? O masculino e o feminino    são construídos, por isso, envolvem vários aspectos, inclusive sentimentos.    Neste artigo, começaremos por analisar as questões de género e as contribuições    destes estudos para as investigações, analisando seguidamente como o género    e a masculinidade são construídos.</P>     <P><B>Palavras-chave</B> género, conceito, masculinidade,  investigação.</P>           <P>&nbsp;</P>            <P><B>Abstract</B></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><B>Gender studies contributions to research on masculinity</B></P>     <P>What is masculinity? Can men be feminine? Masculine and feminine are constructed,    so they involve several aspects, including feelings. This paper will analyze    gender issues and their contributions to research and how gender and masculinity    are constructed.</P>           <P><B>Keywords</B> gender, concept, masculinity, research.</P>           <P>&nbsp;</P>            <P><B>Résumé</B></P>     <P><B>Contributions des études de genre aux recherches sur la masculinité</B></P>     <P> Qu'est-ce que c’est la masculinité? Est-ce que l'homme peut être féminin?    Le masculin et le féminin sont construits, donc ils comprennent plusieurs aspects,    notamment les sentiments. Dans cet article, nous commencerons par analyser les    questions de genre et les contributions de ces études pour les recherches et    ensuite nous examinerons comment le genre et la masculinité sont construits.</P>           <P><B>Mots-clés</B> genre, concept, masculinité, recherche.</P>            <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>           ]]></body>
<body><![CDATA[<P><B>1. Género – conceptualizando e discutindo</B></P>           <P>A utilização do termo género desenvolve-se nas análises feministas a        partir de meados da década de 1970 (Scott, 1990; Almeida, 1998) onde é        definido como uma construção social de atributos diferentes a homens e        mulheres efectivada durante toda a vida, o que acaba por determinar as        relações entre os sexos em vários aspectos.</P>           <P>O uso deste termo visa, assim, sublinhar o carácter social das        distinções fundadas sobre o sexo e a rejeição do uso da palavra sexo que,        etimologicamente, se refere à condição orgânica que distingue o macho da        fêmea, enquanto que a palavra género se refere ao código de conduta que        rege a organização social das relações entre homens e mulheres. Ou seja, o        género é o modo como as culturas interpretam e organizam a diferença        sexual entre homens e mulheres (Yannoulas, 2001).</P>           <P>Jane Almeida argumenta que «sendo o sexo determinado antes do        nascimento por processos biológicos naturais, o género é um produto        cultural adquirido e transmitido nas estruturas sociais» (1998: 43).        Assim, os estudos de género consideram a diferença entre os sexos como uma        construção social. Diferença&nbsp; que não pode servir como desculpa para        desigualdades, mas como motivo para analisar as peculiaridades dos dois        sexos, o que implica um não-acatamento das diferenças assentes        simplesmente no aspecto biológico e uma rejeição dos enfoques        naturalistas.</P>           <P>Cabe destacar que Judith Butler (2003) considera arbitrária a distinção        sexo/género, pois como a natureza é uma construção, o próprio sexo não é        natural, mas discursivo e cultural como o género. Por isso, propõe a noção        de género como «efeito», no lugar de um sujeito centrado, ou seja, o        género é um «efeito», um sentido em si do sujeito. Guacira Louro (2000)        lembra-nos, ainda, que a sexualidade e o género podem estar ligados à        natureza, mas não podem ser a ela reduzidos, pois a própria natureza é uma        construção histórica e social: o «natural » acontece pela linguagem, pelas        representações e modifica-se historicamente.</P>           <P>Concordamos com tal argumento, ou seja, que tanto o sexo como o género        são construídos, mas para não existir confusão entre estes conceitos nas        investigações é preciso existir uma diferenciação entre eles. Nesta        diferenciação, como Joan Scott observa no seu artigo «Gênero: uma        categoria útil de análise histórica», o género passou a ser visto como um        modo de distinguir a «prática sexual dos papéis sexuais consignados a        homens e mulheres e enfatiza um sistema de relações que pode incluir o        sexo, mas ele não é directamente determinado por ele. Ele age mais sobre        os domínios que implicam as relações entre os sexos» (Scott, 1990:        7-8).</P>           <P>O género é uma categoria social imposta sobre um corpo sexuado, uma        construção social de ideias sobre papéis adequados a homens e mulheres.        Não devemos, pois, interligar, pura e simplesmente, o género e a biologia        (Scott, 1990). Robert Connell (1997) concorda com esse pensamento e diz        que o género é uma prática social que se refere aos corpos, mas não se        reduz a eles, pois o género existe na medida em que a biologia não        determina o social.</P>           <P>Utilizamos a definição de género de Joan Scott que se divide em duas        partes:</P>           <BLOCKQUOTE>                <P>1. «O género é um elemento constitutivo de relações sociais fundadas sobre      as diferenças percebidas entre os sexos».</P>       ]]></body>
<body><![CDATA[<P>2. «O género é um primeiro modo de dar significado às relações de poder»      (Scott, 1990: 14-16).</P> </BLOCKQUOTE>           <P>É na segunda proposição que é apresentada a teorização de género de        Joan Scott que possibilita compreender a reciprocidade entre        género/sociedade e as maneiras particulares e situadas dentro de contextos        específicos, «pelas quais a política constrói o género, e o género        constrói a política» (Scott, 1990: 16-17). No entanto, a política é        somente um dos domínios nos quais o género pode ser utilizado para a        análise histórica. Por exemplo, as hierarquias fundamentam-se nas        percepções generalizadas da relação «natural» entre masculino e feminino,        as definições normativas de género reproduzem-se na cultura dos        trabalhadores e das trabalhadoras, entre outras.</P>            <P>Para proteger o poder e as hierarquias a referência às características masculinas    e femininas deve parecer certa, fixa e natural. «Desta maneira, a oposição binária    e o processo social tornam-se ambos partes do sentido do poder ele mesmo; pôr    em questão ou mudar um aspecto ameaça o sistema inteiro» (Scott, 1990: 18).    Como as significações de género e de poder se constroem reciprocamente, só é    possível que as coisas mudem de acordo com os processos políticos<a name="top1"></a><SUP><B><a href="#1">1</a></B></SUP>.</P>           <P>Jane Almeida (1998) acentua que os significados, as normatizações        valorativas, as práticas, os símbolos e as configurações de poder entre os        sexos variam de acordo com as culturas, a religião, a economia, as classes        sociais, as raças e os momentos históricos. Estes significados, práticas e        configurações de poder formam redes de significações que se edificam e se        relacionam integradamente. Assim, actuando em todos os âmbitos da vida        quotidiana e nas relações de poder da sociedade, tais relações acabam por        revelar os conflitos e as contradições existentes entre os sexos e as suas        práticas.</P>           <P>Para estudar o modelo de estrutura de género, Robert Connell (1997)        propõe a análise de três dimensões: entender as relações de poder (a        subordinação das mulheres e a dominação dos homens que persiste apesar das        resistências), as relações de produção (a divisão sexual do trabalho e as        suas consequências económicas), e também a cathexis (o vínculo emocional,        a heterossexualidade). Por isso, devemos ir além do próprio género para        entendê-lo, pois este é somente um dos componentes da estrutura  social.</P>           <P>Em resumo, para estudar o arcabouço das relações de género precisamos        enfatizar os seus vários aspectos, os quais passam pelas interacções entre        homens e mulheres, mas que vão muito além, sendo uma estrutura ampla que        abrange a política, a família, a sexualidade, as instituições, as normas,        a identidade e que tem uma dimensão local e internacional. A sua estrutura        é muito mais complexa do que as divulgadas dicotomias homem/mulher.</P>           <P>&nbsp;</P>           <P><I>1.1. Estudo de género não é sinónimo de estudo da mulher</I></P>           <P>Quando falamos sobre estudos de género, a primeira ideia que vem à        mente é, ainda, mulher, feminilidade ou feminismo. Inicialmente, as        investigações de género estiveram relacionadas com os estudos feministas        sobre as mulheres – que representaram uma transformação dos paradigmas        dentro das ciências e a obtenção do reconhecimento e legitimidade        institucional de uma nova categoria científica, novas metodologias e        campos de pesquisa que visam reexaminar premissas e critérios da        análise.</P>           <P>Recordemos que o termo género é comum aos dois sexos e deve ser        entendido como uma construção social, histórica e cultural, elaborada        sobre as diferenças sexuais. Conforme afirma Jane Almeida (1998: 40): «o        conceito de género não se refere especificamente a um ou outro sexo, mas        sobre as relações que são socialmente construídas entre eles». Joan Scott        também ressalta esta compreensão dizendo que o termo género também é        «utilizado para sugerir que a informação sobre o assunto «mulheres» é        necessariamente informação sobre os homens, que um implica o estudo do        outro» (1990: 7).</P>           ]]></body>
<body><![CDATA[<P>Assim, considerar os estudos de género como sinónimo de estudo das        mulheres é utilizar um sentido mais restrito e simplista, pois sua        conceptualização mais geral enfoca a construção social das relações entre        homens e mulheres (Scott, 1990).</P>           <P>Silvia Yannoulas <I>et al</I> salientam que é necessário «evitar a        tentação ginecocêntrica dos feminismos» (2000: 446), pois o foco deve        estar na elaboração de teorias que mostrem com a maior clareza possível as        actividades das mulheres enquanto actividades sociais, assim como as        relações sociais de género, como elemento importante para a compreensão da        história humana.</P>           <P>Por isso, os estudos de género são importantes, por exemplo, para a        análise dos homens em actividades sociais socialmente consideradas como        femininas. Deste modo, o seu trabalho ou tarefa entra em conflitualidade        com as expectativas e pode mostrar excepções aos padrões de género ou        tentativas de reafirmação. Enfim, os estudos de género entendidos de uma        forma ampla ajudam a compreender os conflitos, resistências, reafirmações,        satisfações e sucesso destes homens (e vice-versa).</P>           <P>&nbsp;</P>           <P><I>1.2. Características dos estudos de género</I></P>           <P>Para Silvia Yannoulas <I>et al.</I> os estudos de género podem ser        entendidos como: «um corpus de saberes científicos, que têm por objectivo        proporcionar categorias e metodologias para análise das representações e        condições de existência de homens e mulheres em sociedades passadas e        futuras» (2000: 426). Portanto, as principais características comuns que        resultam da adopção do enfoque de género são:</P>           <BLOCKQUOTE>                <P>• <B>Comparatividade</B> – é preciso destacar as diferenças, as semelhanças      e as relações entre as formas de representação e as condições de existência      de homens e de mulheres em vários aspectos (trabalho, educação, família...)      e com vários tipos de análise (como comparação social, cultural e temporal).</P>       <P>• <B>Transversalidade</B> – os Estudos de Género exigem uma abordagem multidisciplinar,      pois referem-se a problemas transversais que atravessam o conjunto de fenómenos      estudados pelas diferentes disciplinas, o seu sentido é multilateral e polimórfico.</P>       <P> • <B>Politicidade</B> – é preciso analisar as relações de poder e hierárquicas.</P>       ]]></body>
<body><![CDATA[<P> • <B>Historicidade</B> – não é possível estudar qualquer problemática de      género sem observar sua variação na diacronia e na sincronia, pois o género      é um fenómeno temporalmente mutável.</P>       <P> • <B>Espacialidade</B> – as relações de género variam no espaço e as diferenças      de género comuns num lugar podem não ser comuns noutros.</P> </BLOCKQUOTE>            <P>É necessário perceber a forma de construção das desigualdades entre os sexos    que se efectivam em todas as instâncias da vida social pública e privada (no    trabalho, no casamento, na descendência, na sexualidade, nos media e até nas    ciências), assim como nos mecanismos de produção e de reprodução da discriminação<SUP><B><a name="top2"></a><a href="#2">2</a></B></SUP>.</P>           <P>As distinções, exclusões ou restrições baseadas no sexo que tenham por        objectivo prejudicar o exercício pela mulher dos direitos humanos e        liberdades fundamentais nos campos político, económico, social, cultural e        civil ou em qualquer outro campo são definidas pela ONU (citado por        Yannoulas, 2001) como discriminação contra as mulheres. Contudo, como as        mulheres não são o único alvo deste tipo de discriminação, sublinhamos a        necessidade de reformular esta definição para discriminação de género,        pois os homens também sofrem discriminações pautadas pelo género,        sobretudo quando fogem das «expectativas masculinas».</P>           <P>De acordo com Jane Almeida (1998), a conduta sexista consiste        geralmente em atribuir às diferenças anatómicas e fisiológicas de homens e        mulheres correspondentes diversificações ou aptidões para o exercício de        determinadas funções sociais e no mundo do trabalho, num pré-julgamento do        que é adequado para cada sexo. O processo de imputar a homens e mulheres        determinismos sexuais biologicamente herdados implica a existência de uma        ditadura de género para os dois sexos que leva à hierarquia do masculino        sobre o feminino, numa escala axiológica na qual as mulheres ficam a        perder, dado que as actividades masculinas são consideradas mais        importantes que as femininas. Essa dupla (des)valorização conduz a        diferentes implicações no mundo do trabalho, no espaço público/privado e        nas instâncias do poder.</P>           <P>Estas implicações não afectam só as mulheres, mas também os homens.        Enfim, os estudos de género visam superar as desigualdades e        discriminações, mas Jane Almeida (1998) destaca que isso não é fácil, pois        não basta que o considerado «inferior» obtenha os direitos e ocupe as        mesmas posições do «superior». As desigualdades só serão superadas se        forem abolidas as divisões sociais de género, assim como as de classe e        raça, numa sociedade assente sobre bases igualitárias; o que torna        necessária a apropriação de uma consciência crítica e política.</P>           <P>A necessidade de igualdade é uma visão reconhecidamente correcta e        revela-se como a única alternativa possível para a superação dos        desequilíbrios sociais. Contudo, existe um utopismo nessa premissa (apesar        das conquistas obtidas), pois as relações entre os sexos, as classes        sociais e as raças entrelaçam-se na vida diária. A superação simplesmente        no plano político ou económico não leva a mudanças substantivas na        situação das mulheres se não houver também mudanças na microestrutura que        perpassa quotidianamente as relações sociais e as representações        ideológicas acerca das diferenças (Almeida, 1998).</P>           <P>Deste modo, buscamos a superação das desigualdades de género, mas        sabemos que a igualdade é uma utopia que, apesar de difícil, precisa ser        procurada com a consciência de que a sua possibilidade está no        questionamento de todas as acções sexistas e de que «não se dá por        decreto», não se efectua de cima para baixo, nem de baixo para cima, mas        numa via dupla.</P>           <P>&nbsp;</P>           <P><I>1.3. A mudança de hábitos das investigações de género</I></P>           ]]></body>
<body><![CDATA[<P>Parafraseando Joan Scott, destacamos a mudança de alguns dos hábitos        académicos que os estudos de género implicam. Em primeiro lugar, rejeitar        o carácter fixo e permanente da oposição binária na história conferindo        uma atenção especial «às distinções entre nosso vocabulário de análise e o        material que queremos analisar» (1990: 13), buscando diversos meios de        análise (auto)crítica das categorias utilizadas, sem esquecer o contexto        onde a oposição binária opera, «derrubando e deslocando sua construção        hierárquica, em lugar de aceitá-la como real, como evidente por si ou como        sendo da natureza das coisas» (<I>ibidem</I>).</P>           <P>Além da rejeição das oposições binárias a revisão constante do        vocabulário utilizado, pois conforme destacam Graça Abranches e Eduarda        Carvalho (2000) a própria linguagem que utilizamos já nos insere nas        práticas sociais sexistas. O sistema de representação linguística dos        sexos não é universal. Em muitas línguas (gramaticalmente ou        semanticamente) o masculino é utilizado como positivo (com função        genérica, norma/ /ponto de referência/medida do humano) e o feminino como        negativo (como excepção à norma, incluída ou subsumida frente ao        masculino), mas existem línguas que não são tão marcadas por esse sexismo        e a forma como ele existe diferencia de língua para língua. Recorde-se que        há uma desvalorização de palavras associadas às mulheres pela pejoração e        aquisição de conotações sexuais negativas.</P>           <P>Por isso, é necessário reflectir sobre o carácter discriminatório da        linguagem, ter consciência de que os usos linguísticos estabelecem        relações de poder desiguais e injustas entre mulheres e homens, rejeitar        termos sexistas e, consequentemente, tentar substituí-los por outros. É        imperativo instigar o desaparecimento da quimera da neutralidade das        palavras, esfumar a ilusão de que há uma «linguagem comum» partilhada e        usada nos mesmos termos por todos e por todas.</P>           <P>Cabe ressaltar que concordamos com Abranches e Carvalho (2000) que        estas preocupações expostas não se restringem à área das línguas, nem        localizamos somente na linguagem todas as práticas de discriminação e        injustiça social, pois estas materializam-se das mais diversas maneiras. A        realidade de opressão não muda apenas com uma mudança da linguagem, no        entanto, não podemos ignorar que se utilizam recursos linguísticos e        metalinguísticas para oprimir pessoas ou grupos ou que a linguagem, a        opressão e a desvantagem estão intimamente relacionadas.</P>           <P>Ainda propondo mudanças nos hábitos académicos, Joan Scott adverte que        «devemos nos perguntar mais seguidamente como as coisas se passaram para        descobrir por que elas se passaram» (1990: 14), examinando os métodos de        análise e hipóteses para explicar como pensamos que a mudança tem lugar,        pois os processos são concebidos de forma interligada (não fazendo sentido        pesquisar origens únicas).</P>           <P>Os estudos com enfoque de género questionam e desafiam os contributos        teóricos clássicos, pois reconhecem a importância da vida quotidiana e dos        sentimentos humanos, buscando abordagens para desvendar o quotidiano e        recuperar categorias de análise que também privilegiem a dimensão        subjectiva. «Afinal, essa é uma dimensão essencial a todos os seres        humanos e negá-la é negar a própria humanidade de cada um» (Almeida, 1998:        44).</P>           <P>Helena Araújo (2000) lembra-nos que, sem agência, a sociologia        desumaniza-se. A subjectividade permite-nos falar não só da emoção e do        afecto, mas também do sentido particular que os indivíduos constroem a        partir da sua experiência e que varia do conteúdo para o contexto, sem        deixar de relacionar a singularidade do individual com a universalidade do        sistema; a análise da subjectividade precisa ser clarificada, pois é        central para perceber, por exemplo, a construção da profissão docente como        trabalho feminino; e destaca os métodos biográficos como modo importante        de captar as subjectividades.</P>           <P>Joan Scott explica que tanto o «sujeito» como a «organização social»        são igualmente importantes para compreender a construção do género e a        incidência de mudanças, pois a subjectividade forma-se em contextos        sociais e históricos. Para Scott isso significa que é preciso substituir a        noção de um poder social unificado pela de um poder mais próximo do        conceito foucaultiano, o qual deixa mais espaço para construir uma        identidade, uma vida, uma sociedade com certos limites e com uma        linguagem, que «põe limites e contém a possibilidade de negação, de        resistência, de reinterpretação, de jogo de invenção metafórica e de        imaginação» (1990: 14).</P>           <P>A agência humana é controlada pelos poderes presentes nas relações        sociais desiguais que limitam a possibilidade de resistência, mas isso não        significa que este limite não possa ser ultrapassado. Por isso é        imprescindível fazer uma história crítica das subjectividades, procurando        desconstruir o carácter essencialista e parcial dos estudos tradicionais        (que acolhem a superioridade do homem branco ocidental) e desnaturalizar        as diferenças construídas historicamente a respeito do masculino e do        feminino.</P>           <P>Os estudos de género associados à integração de aspectos objectivos e        subjectivos (principalmente no conhecimento histórico), foram importantes        e pioneiros na redescoberta de novas fontes. Algumas motivações para tal        redescoberta foram a falta de conservação das histórias e documentos de        autoria feminina, a sua escassez, causada por vezes pelo analfabetismo,        pela destruição de documentos e pela falta da instrução feminina.</P>           ]]></body>
<body><![CDATA[<P>Deste modo, a dificuldade de se escrever sobre mulheres levou a uma        redefinição do campo da historiografia que implicou criticar os        tradicionais contributos teóricos, metodológicos e de periodização (neste        caso rompendo com a linearidade da história). Jane Almeida (1998) destaca        que as investigações de género se direccionam para as abordagens        qualitativas, com ênfase no acto de lembrar e nas fontes orais,        entrevistas abertas, técnicas etnográficas, observação participativa,        literatura e escritos variados.</P>           <P>Neste contexto, as fontes antes relegadas para o esquecimento passam a        ser consideradas e emergem nas análises ressaltando vários aspectos da        vida privada e da sua relação com o espaço público. Assim, permitiram a        vários estudos de género dar voz às mulheres silenciadas, que tinham muito        a dizer sobre o seu passado e sobre as condições de género em que se        inseriam, desvendando uma história de resistência e submissão, aceitação e        negação dos papéis sexuais, pioneirismo e modernidade (Almeida, 1998).</P>           <P>Os estudos de género também questionam a neutralidade sexual, assumida        na produção académica quando as investigações não contemplam o género como        categoria de análise, pois consideram que o sujeito não é universal ou        assexuado e que não há categoria de análise que dê conta de toda a        complexidade da vida (Almeida, 1998).</P>           <P>Portanto, o estudo da história das mulheres foi pioneiro em desafiar a        pretensão da história de fazer um relato completo/perfeito e de colocar a        presença intrínseca do objecto da história como o homem universal, sendo        necessário questionar o «masculino generalizador» que se repercute na        ocultação da participação da mulher na história (Vasconcelos, 2005).</P>           <P>Silvia Yannoulas <I>et al.</I> (2000) também destacam que tanto as        pesquisas de género como a presença das mulheres nos meios académicos        contribuíram para a percepção das mulheres como sujeito e objecto de        pesquisa e para a transformação da ciência androcêntrica (supostamente        neutra e universal que privilegia o ponto de vista dos homens como eixo        articulador do saber, sem considerar ou desvalorizando o ponto de vista        das mulheres); tal androcentrismo, de acordo com Miguel Almeida (1995),        impediu que se ouvisse a voz das mulheres, mas também que se ouvisse a        diversidade das vozes masculinas.</P>            <P>Para Silvia Yannoulas<I> et al.</I> (2000), a objectividade dinâmica<SUP><B><a name="top3"></a><a href="#3">3</a></B></SUP>    permite: a não dicotomização dos conhecimentos, a união dos saberes, a transformação    dos sistemas de saber e das formas de ver. Admite-se, então, a interpretação    e a compreensão parcial, pois não há sujeito universal nem categorias de análise    que dêem conta de toda a complexidade da vida. O objecto de pesquisa precisa    ser «objecto» e «actor» ao mesmo tempo, pois é passível de transformação constante,    unindo a ética e a política como «pilares fundamentais para a objectividade    da ciência» (Keller, citado por Yannoulas, et al., 2000: 446).</P>           <P>Defendemos, então, essa objectividade dinâmica que interliga o sujeito        e as condições sociais que agem sobre eles; que relaciona as fontes        qualitativas (potencializadoras da emergência da subjectividade) com a        análise dos dados quantitativos mais gerais; que pressupõe a não dicotomia        dos conhecimentos, a não naturalização da masculinidade e feminilidade,        desconsiderando as análises universais, pois na verdade elas são        contextuais, ou seja, espaciotemporais.</P>           <P>&nbsp;</P>           <P><B>2. Género construído</B></P>           <P>A definição social do ser homem e do ser mulher e dos seus modos        próprios de ser em várias sociedades não se tem limitado a estabelecer uma        diferenciação binária entre estas categorias sociais. Para Lígia Amâncio        (1998) são estabelecidas diferenciações assimétricas entre elas, ou seja,        ao homem são conferidas competências que funcionam como referente        universal, enquanto que a mulher é referida como categoria específica        (conforme acontece na linguagem).</P>           ]]></body>
<body><![CDATA[<P>Lígia Amâncio considera que a discriminação tem a sua origem nesta        «forma de pensamento social que diferencia valorativamente os modelos de        pessoa masculina e feminina e as funções sociais dos dois sexos na        sociedade» (1998: 15, 28-29). Por isso, importa analisar não as diferenças        entre homens e mulheres, mas o «pensamento social» sobre a diferenciação        do masculino e do feminino, ou seja, a epistemologia do senso comum sobre        os sexos, a ideologia e as relações intergrupos.</P>           <P>Para a autora os estereótipos sexuais não têm a mesma funcionalidade        para homens e mulheres: o estereótipo feminino normatiza os        comportamentos, caracteriza as mulheres e serve para os homens        identificarem as mulheres, enquanto que para as mulheres a universalização        de tais estereótipos ou a valorização positiva dos mesmos seria mais        pertinente para não perderem a sua especificidade; já o estereotipo        masculino além de orientar os comportamentos, distingue os indivíduos mais        pela sua autonomia do que pela sua categoria de pertença. Desta forma, os        estereótipos ajudam na dominação masculina e são prejudiciais às mulheres,        pois a norma é masculina e a excepção é feminina. As mulheres        paraserem «dominantes» acabam por ter que assumir características que        são consideradas «masculinas», assim a sua feminilidade fica comprometida        e isto tem consequências nas suas vidas (Amâncio, 1998).</P>           <P>Os padrões de comportamento de homens e mulheres «constituem a parte        mais visível de um fenómeno que o senso comum designa por diferenças entre        os sexos, mas por detrás desta evidência observável esconde-se a        determinação de uma ideologia que é partilhada por ambos os sexos»        (Amâncio, 1998: 177). Uma ideologia de estereótipos que, para a autora,        tem implicado consequências mais fortes para as mulheres, pois para elas é        mais fácil obter sucesso numa actividade feminina e o seu sucesso numa        tarefa masculina suscita impressões mais negativas do que o seu        fracasso.</P>           <P>O que a autora verifica é que o senso comum procura simplesmente        confirmar a hipótese da estratificação social e justificar aquilo que é        incongruente com ela. O «diferente» tem maior visibilidade: um único        comportamento serve para explicar e comprovar uma hipótese previamente        existente do estereótipo. Essa é a base menos visível da discriminação das        mulheres. E destaca que não é o homem enquanto «sexo dominante» que impõe        o seu pensamento sobre a mulher, os dois sexos partilham/reproduzem        determinados valores, as discriminações de género não são atribuídas nem        só às mulheres nem só aos homens (Amâncio, 1998).</P>           <P>Enfim, ambos os sexos assumem modelos de comportamento que lhes são        socialmente impostos como se fossem naturais, partilhando pressupostos e        contribuindo para acentuar a diferença entre homens e mulheres. A        masculinidade e a feminilidade são construídas na interacção entre os        sexos, não pelos seus pares nem por um só sexo. Se ambos partilham os        estereótipos e contribuem para a desigualdade, tanto reprimindo, quanto        construindo modos de ser, é possível questionar as regras que tentam fixar        o masculino e o feminino a partir desta construçãodo ser e questionar        as relações de poder que os formulam.</P>           <P>&nbsp;</P>           <P><I>2.1. A masculinidade não cai do céu, ela nasce do chão</I></P>           <P>Elisabeth Badinter lembra-nos que geneticamente «é o homem que gera o        homem» (1996: 99) (pois o sexo masculino – cromossomo Y – é transmitido        pelo pai) e para ela o homem tem papel importante na construção da        identidade masculina, um processo que é adquirido com o preço de grandes        dificuldades, pois a masculinidade tem sido definida pelo «não ser»: não        ser feminino, não ser homossexual, não ser dócil, não ser efeminado na        aparência física ou nas maneiras…</P>           <P>Cabe destacar que para a maioria das pessoas ser homem é basicamente:        não ser mulher e ter um corpo que apresenta órgãos genitais masculinos.        Miguel Almeida explica que a complexidade encontra-se precisamente na        ingenuidade de remeter para caracteres físicos do corpo uma questão de        identidade pessoal e social, pois «ser homem» nunca se reduz aos        caracteres sexuais, mas «a um conjunto de atributos morais de        comportamento, socialmente sancionadas e constantemente reavaliados,        negociados, relembrados. Em suma, em constante processo de construção»        (1995: 127-128).</P>           <P>É necessário fazer uma análise de como são formadas as masculinidades        para compreender as atitudes dos homens, as resistências ou confirmações        que eles representam. Sobre estas questões Robert Connell continua a ser        um autor de referência.</P>           ]]></body>
<body><![CDATA[<P>No seu livro «Masculinities» (2005) Connell teoriza a masculinidade        interligada com a conceptualização de género considerando os contributos        dos estudos feministas. O género é algo tão presente que parece natural,        mas envolve, na realidade, um enorme esforço social (inclusive em        normatizações) para orientar o comportamento das pessoas em determinado        sentido.</P>           <P>Para Robert Connell (1995) há uma narrativa convencional sobre o modo        como as masculinidades são construídas, como qualquer cultura tem uma        definição da conduta e dos sentimentos apropriados para os homens e        pressiona os rapazes de várias maneiras a agir/sentir dessa forma (e a se        distanciar do comportamento feminino). A maior parte dos rapazes        interioriza essa norma social e adopta maneiras e interesses masculinos, à        custa, frequentemente, da repressão dos seus sentimentos. Mas mesmo        existindo um registo cultural de género, o conceito de masculinidade é        recente.</P>           <P>Algumas definições passaram a marcar a masculinidade. Robert Connell        (1997) cita as definições: «essencialistas» (definem um núcleo do        masculino universal, geralmente arbitrário), «positivistas» (querem        definir ‘o que os homens realmente são’, usam estatísticas, mas acabam por        se basear nas tipificações), «normativas» (definem o que os homens        deveriam ser) e «semióticas» (contrastam a masculinidade e a feminilidade,        a masculinidade é a autoridade simbólica, a feminilidade é definida pela        carência). Mas para o autor estas correntes de investigação não conseguem        produzir uma «ciência» sobre a masculinidade, pois a masculinidade não é        um objecto coerente para produzir uma ciência generalizadora, não é um        objecto fechado, mas um aspecto de uma estrutura maior.</P>           <P>Assim, o autor diz que as masculinidades surgem em sistemas de relações        de género, por isso é preciso centrar as investigações sobre a        masculinidade nos processos e relações pelo qual os homens e as mulheres        levam vidas imbuídas de género. Connell resume a masculinidade como,        concomitantemente, a posição nas relações de género, as práticas pelas        quais homens e mulheres se comprometem com esta posição de género e os        efeitos destas práticas na experiencia corporal, na personalidade e na        cultura (Connell, 1997).</P>           <P>Não existe uma masculinidade fixa, pois qualquer forma de masculinidade        é internamente complexa e contraditória, depende do posicionamento nas        relações de género, das consequentes práticas de acordo com estas posições        e os efeitos dessas práticas. Portanto, a masculinidade é uma configuração        de práticas em torno da posição dos homens na estrutura das relações de        género, mas Robert Connell (1997) afirma que estas estruturas podem seguir        diferentes trajectórias históricas. Por conseguinte, a masculinidade        associa-se constantemente a contradições internas e a rupturas        históricas.</P>           <P>Ao assumir que há várias masculinidades, o autor cria o conceito da        masculinidade hegemónica que representa a forma de masculinidade que em        cada tempo-espaço tem destaque em relação a outras. Na nossa sociedade        ocidental, a masculinidade hegemónica apresenta-se como a configuração da        prática genérica que encarna a resposta ao problema da legitimidade do        patriarcado e garante (ou tenta garantir) a posição dominante dos homens e        a subordinação das mulheres (Connell, 1997).</P>           <P>Algumas críticas efectuadas ao seu conceito de masculinidade hegemónica        (Cf. Alves, 2005) consideram que o conceito seria desnecessário quando já        existe um conceito de patriarcado que dá conta das masculinidades        dominantes e que o conceito de hegemonia acrescentaria muito pouco, sendo        necessária uma perspectiva que dê conta das variadas dinâmicas existentes        ou que «destradicionalize» as masculinidades.</P>           <P>Contudo, Robert Connell (1990) analisa a teoria do patriarcado e        verifica que esse conceito está longe de ser um sistema lógico bem        estruturado, pois apresenta-se como uma rede de argumentos a respeito de        relações entre várias coisas (como a subordinação das mulheres, as        práticas culturais que a sustentam, a divisão sexual do trabalho, as        estratégias dos movimentos de resistências, entre outras).</P>           <P>A unidade no patriarcado não é uma unidade lógica, de definição, é        historicamente produzida e faz parte de uma luta para impor vários tipos        de ordem e de unidade nas relações sociais. A dinâmica do patriarcado deve        ser entendida como uma dinâmica composta, na qual interagem a resistência        ao poder, as contradições na formação da pessoa, as transformações da        produção, entre outras relações (Connell, 1990).</P>           <P>Como o autor afirma, o termo masculinidade hegemónica não é fixo e visa        ir além da reprodução cultural, enfatizando o dinamismo da luta social        pela liderança na mudança social, pois a masculinidade que ocupa a posição        hegemónica em dado contexto é uma posição sempre disputável. Enfim, a        «guerra dos sexos» é o resultado de grandes desigualdades, desta forma, o        estudo da masculinidade precisa associar assuntos de justiça social        (Connell, 1997).</P>           ]]></body>
<body><![CDATA[<P>O conceito de masculinidade hegemónica não pressupõe que os portadores        mais visíveis desta masculinidade sejam as pessoas que detêm o poder e,        apesar de ser correntemente aceite na sociedade, a maioria dos homens não        cumpre/pratica na realidade os modelos normativos (respeitam as mulheres,        não usam violência, etc.), ainda que a maioria dos homens deseje        hegemonia, pois beneficia das consequências do sistema patriarcal (obtém        vantagens em termos materiais, de honra, prestígio, direito a mandar,        direito às melhores posições sociais). Ou seja, a maioria dos homens tem        uma cumplicidade com o projecto hegemónico, isto é, uma masculinidade        cúmplice (Connell, 1997).</P>           <P>Em síntese, o género está imbricado em relações de poder. Os homens,        enquanto grupo dominante, estão interessados na conservação do poder e as        mulheres estão interessadas na mudança. Não sendo a única forma de        masculinidade, a masculinidade hegemónica recorre à autoridade e à        violência, que também sustenta a autoridade, mostrando a imperfeição desse        modelo. Uma hierarquia completamente legítima teria menos necessidade de        intimidar (Connell, 1997).</P>           <P>Enfim, «a masculinidade não cai dos céus; ela é construída por práticas        masculinizantes, que estão sujeitas a provocar resistência [...] que são        sempre incertas quanto a seu resultado. É por isso, afinal, que se tem que        pôr tanto esforço nelas» (Connell, 1990: 90. Sublinhados nossos).</P>           <P>Miguel Almeida demonstra que o efeito principal deste sistema é o        controlo social, que se exerce sobre os homens quanto mais eles se        afastaram do modelo hegemónico, o que implica um autocontrolo ou        vigilância «que se aplica a todos os domínios da experiência humana em        interacção: o modo de falar, o que se diz, o modo de usar o corpo, a        roupa, as atitudes a tomar perante situações de tensão, conflito,        emotividade» (1995: 242).</P>           <P>Ou seja, a resistência não está presente somente na feminilidade.        Dentro da dominação da masculinidade há relações de dominação e        subordinação, até mesmo entre grupos de homens, como o dos homens        heterossexuais sobre o dos homossexuais (pela estigmatização, exclusão        política e cultural, abuso cultural, violência, discriminação económica e        boicotes pessoais), mas esta parece ser a masculinidade subordinada mais        evidente e mais «associada à feminilidade».</P>            <P>A forma como a masculinidade hegemónica na sociedade actual tenta manter o    seu domínio relaciona-se com o heterocentrismo<SUP><B><a name="top4"></a><a href="#4">4</a></B></SUP>,    o qual coloca a heterossexualidade como o normal, impondo a dualidade homem/mulher    e a dominância do homem sobre a mulher. Neste sentido, como explica Elisabeth    Badinter (1996) a homofobia acaba por servir a classificação social, a regulação    e o controle da identidade masculina e, além disso, também está ligada a outros    medos, como o da igualdade dos sexos.</P>            <P>Como explica Welzer-Lang (2001: 465-468), o heterocentrismo opõe homo/hetero,    homem/mulher e faz com que estes pares só adquiram sentido quando tomados juntos.    O surgimento da scientia sexualis (Foucault, 1988) contribuiu para impor nos    homens um quadro heterossexual apresentado como uma forma natural de sexualidade<SUP><B><a name="top5"></a><a href="#5">5</a></B></SUP>.</P>           <P>Miguel Almeida (1995) refere que uma das características centrais da        masculinidade hegemónica, para além da «inferioridade» das mulheres, é a        homofobia. Como «a masculinidade é frágil», a forma de agressão mais comum        sobre a homossexualidade faz-se na linguagem, agredindo o homem ao        associá-lo com o feminino, recurso que é utilizado em todas as relações        competitivas e conflituosas entre homens (no trabalho, nos negócios, no        jogo, entre outras). No entanto, o autor constata que no quotidiano as        coisas não são tão rígidas, pois um homem pode até ter certos        comportamentos, emoções ou actividades «femininas» e vice-versa. Não pode        é possuí-las ou exercê-las exclusivamente, o que o excluiria da        masculinidade.</P>           <P>Além disso, outra forma de masculinidade subordinada pode estar        associada à raça (que Connell denomina de masculinidade marginalizada),        pois a masculinidade está inserida em contextos sociais mais amplos, em        que a classe e a raça também estão presentes. Neste sentido, as        masculinidades negras jogam papéis simbólicos para a construção branca do        género. Mas nestas dinâmicas podem existir excepções, até porque as        dinâmicas se modificam.</P>           <P>Por isso Robert Connell (1997) esclarece que não há um carácter fixo na        sua definição, somente configurações de práticas geradas de situações        particulares, numa estrutura cambiante de relações. Toda a teoria da        masculinidade deve dar conta deste processo de transformação. Não adianta        reconhecer apenas que há múltiplas masculinidades, temos que examinar as        relações entre elas, inclusive as de classe e raça, e também temos que        reconhecer que o género é, ao mesmo tempo, um produto e um produtor da        história. Isto não significa que as relações de género sejam débeis e        triviais, mas que, inseridas na acção social, se formam e transformam no        tempo. Enfim, a masculinidade hegemónica é uma estratégia correntemente        aceita na sociedade actual. Quando as condições de resistência do        patriarcado mudarem, as bases para o domínio de uma masculinidade        particular estarão corroídas (Connell, 1997).</P>           ]]></body>
<body><![CDATA[<P>Por conseguinte, as masculinidades são fluídas como as relações de        género, a resistência pode ser exercida por novos grupos de homens e/ou de        mulheres. A hegemonia patriarcal não é eterna, é historicamente mutável,        mas temos que estar atentos/as, pois, como vimos nas análises de Joan        Scott, as modificações podem não significar igualdade. Lígia Amâncio        indica que:</P>           <BLOCKQUOTE>             <P>«Romper com a masculinidade cúmplice, contestando a masculinidade,          como parte integrante de uma estrutura global de poder, e as diferenças          entre sexos e sexualidades que lhe dão sentido, é uma condição          indispensável para uma sociedade mais justa, onde homens e mulheres          possam viver, em liberdade, a sua diversidade» (Amâncio, 2004:        27).</P></BLOCKQUOTE>            <P>Robert Connel (1997) destaca ainda que, conforme muitos autores exaltam, estamos    diante de uma actual tendência de crise de paradigmas, dos padrões de género,    entre outros, mas não diante de uma crise de masculinidade, pois crise pressupõe    um sistema coerente e a masculinidade não é um sistema nesse sentido, é uma    configuração de prática dentro de um sistema de relações de género. Falar de    crise de masculinidade abrange uma tentativa de restaurar uma masculinidade    dominante (Connell, 1997). Amâncio (2004) descreve alguns estudos que assumem    esta perspectiva de restaurar uma masculinidade dominante. Só podemos falar    de crise relativamente ao sistema de género como um todo, onde tanto   as «relações de poder» mostrem tendências de crises<SUP><B><a name="top6"></a><a href="#6">6</a></B></SUP>,    como as «relações de produção»<a name="top7"></a><SUP><B><a href="#7">7</a></B></SUP>    e as «relações de cathexis»<a name="top8"></a><SUP><B><a href="#8">8</a></B></SUP>.</P>           <P>As transformações ocorridas nas relações de género afectam todos/as na        sociedade, pois todas/os estão envolvidas/os na sua construção. Apesar de        estarmos envolvidos/as nos modelos que herdamos, podemos realizar opções        que levem a novas relações de género, mas não podemos esquecer os        contextos a que estamos ligados/as. Num outro artigo, Robert Connell        (1995) afirma que a posição dominante dos homens na ordem do género tem um        custo material e que não podemos subestimar a dimensão desse custo, pois        não é fácil para os homens (nem para as mulheres) romper seus papéis        sexuais rígidos.</P>           <P>Guacira Louro lembra que os homens e meninos são vigiados        constantemente e passam por um processo de masculinização (não pode        chorar, não se pode aproximar fisicamente de outros homens, não pode        trocar confidencias, não pode ter afecto), assim «pouco importa sob quais        bases foi fundada esta representação; o que importa é que ela teve e ainda        tem efeitos na produção de sujeitos masculinos e femininos» (2000:  53).</P>           <P>Neste sentido, Robert Connell explica que «as construções sociais        complexas, tais como a masculinidade hegemónica, estão literalmente        corporificadas no processo de formação pessoal [...]. As pessoas realmente        sentem de forma diferente» (1990: 91).</P>           <P>Enfim, a masculinidade não cai dos céus. Queremos complementar esta        frase metafórica de Robert Connell (1990) dizendo que a masculinidade        nasce do chão, que significa o contexto social, biológico, cultural e        histórico onde os homens se inserem, contexto no qual algumas instituições        têm sido fundamentais na formação do género, nomeadamente a família, a        escola e o trabalho.</P>           <P>&nbsp;</P>            <P><B>Referências Bibliográficas</B></P>           ]]></body>
<body><![CDATA[<P>Abranches, Graça; Carvalho, Eduarda (2000), <I>Linguagem, Poder,        Educação: O Sexo dos B, A, Bas</I>, Lisboa, Editora Comissão para a        Igualdade e para os Direitos das Mulheres, Cadernos Coeducação.</P>           <P>Almeida, Jane (1998), <I>Mulher e educação: a paixão pelo possível</I>,        São Paulo, UNESP.</P>           <P>Almeida, Miguel Vale de (1995), <I>Senhores de Si. Uma Interpretação        Antropológica da Masculinidade</I>, Lisboa, Fim de século.</P>            <P>Alves, Maria de Fátima (2005), «Masculinidade/s: considerações a partir da    leitura crítica de alguns textos que focalizam homens», Revista Ártemis, v.    3, pp. 1-13, [em linha] disponível em <a href="http://www.prodema.ufpb.br/revistaartemis/numero3/arquivos/artigos/artigo_08.pdf" target="_blank">http://www.prodema.ufpb.br/revistaartemis/numero3/arquivos/artigos/artigo_08.pdf</a>    [consultado em 22/07/2009].</P>           <P>Amâncio, Lígia (2004), <I>Aprendendo a Ser Homem: Construindo        Masculinidades</I>, Lisboa, Livros Horizontes.</P>           <P>Amâncio, Lígia (1998), <I>Masculino e feminino a construção social da        diferença</I>, Lisboa, Edições Afrontamento.</P>           <P>Araújo, Helena (2000), <I>Pioneiras na Educação: As Professoras        Primárias na Viragem do Século: Contextos, Percursos e Experiências,        1870-1933</I>, Lisboa, Instituto de Inovação Educacional.</P>           <P>Badinter, Elisabeth (1996), <I>X Y: A Identidade Masculina</I> (2.ª        ed.), Lisboa, Editora Asa.</P>           <P>Butler, Judith (2003), <I>Problemas de gênero: feminismo e subversão da        identidade</I>, Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira.</P>           <!-- ref --><P>Connell, Robert (1990), «Como teorizar o patriarcado», <I>Educação e        Realidade</I>, v. 16, n. 2, pp. 85-93.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000132&pid=S0874-5560201000010001200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><P>Connell, Robert (1995), «Políticas da Masculinidade», <I>Educação e        Realidade</I>, v. 20, n. 2, pp. 185-206.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000133&pid=S0874-5560201000010001200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><P>Connell, Robert (1997), «La organización social de la masculinidad», in        Teresa Valdes, José Olivarría (org.), <I>Masculinidad/es: poder y        crisis</I>, Santiago de Chile, Isis y Flacso-Chile, n. 24, pp. 31-48.</P>           <P>Connell, Robert (2005), <I>Masculinities</I>, California,        University.</P>           <P>Foucault, Michel (1988), <I>História da sexualidade 1: a vontade de        saber</I> (7.ª ed.), Rio de Janeiro, Graal.</P>           <P>Louro, Guacira (2000), <I>Currículo, Género e Sexualidade</I>, Porto,        Porto Editora.</P>           <!-- ref --><P>Scott, Joan (1990), «Gênero: uma categoria útil de análise histórica»,        <I>Educação e Realidade</I>, v. 16, n. 2, pp. 5-22.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000138&pid=S0874-5560201000010001200003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><P>Welzer-Lang, Daniel (2001), «A construção do masculino: dominação das        mulheres e homofobia», <I>Estudos Feministas</I>, n. 2, pp. 460-482&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000139&pid=S0874-5560201000010001200004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><P>Yannoulas, Silvia (2001), «Notas para a integração do enfoque de género        na educação profissional», in Arno Vogel, <I>Trabalhando com a diversidade        do PLANFOR: raça/cor, género e pessoas portadoras de necessidades        especiais</I>, São Paulo, Unesp, pp. 78-91.</P>           <!-- ref --><P>Yannoulas, Silvia, <I>et al</I>. (2000), «Feminismo e academia»,        <I>Revista brasileira de Estudos pedagógicos</I>, v. 81, n. 199, pp.        425-451.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000141&pid=S0874-5560201000010001200005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><P>&nbsp;</P>           ]]></body>
<body><![CDATA[<P><B>Notas</B></P>            <P><a name="1"></a><a href="#top1">1</a> A autora utiliza político no sentido    de que diversas significações conflituam para assegurar o controle (Scott: 1990).</P>     <P><a name="2"></a><a href="#top2">2</a> Yannoulas (2001) define discriminação    como a conduta (acção ou omissão) que viola os direitos das pessoas com base    em critérios injustificados e injustos, tais como raça, sexo, idade, opção religiosa    e outros. Ainda de acordo com a autora, há várias formas da discriminação se    manifestar: a directa ou manifesta (a exclusão explícita), a encoberta ou indirecta    (as ideias e práticas admitidas informalmente, influenciando um comportamento    «usual» e «válido» para cada grupo social) e a autodiscriminação (que é uma    espécie de vigilância interiorizada para assegurar que agimos de acordo com    os parâmetros delimitados pela manifestação encoberta ou indirecta), que causa    efeitos mais imperceptíveis que modelam desejos, expectativas, anseios e motivações.</P>     <P><a name="3"></a><a href="#top3">3</a> Que é utilizada nos estudos de género    e usa a experiência subjectiva em prol de uma objectividade mais efectiva.</P>     <P><a name="4"></a><a href="#top4">4</a> O heterocentrismo está presente tanto    no senso comum como nas análises das ciências sociais, algumas vezes como um    «heterocentrismo diferencialista»: uma tolerância opressiva, «que aceita o fato    de que existam seres diferentes, os/as homossexuais, e, por consequência, é    normal, progressista, lhes dar alguns direitos» (Welzer-Lang, 2001).</P>            <P><a name="5"></a><a href="#top5">5</a> A categoria «homossexual», não a sua    prática, é recente, proveniente da designação de uma categoria desviante pelas    ciências médicas, que criou também a heterossexualidade.</P>            <P><a name="6"></a><a href="#top6">6</a> Com a emancipação das mulheres.</P>     <P><a name="7"></a><a href="#top7">7</a> Com uma participação maior das mulheres    no mercado de trabalho.</P>     <P><a name="8"></a><a href="#top8">8</a> Como o homossexualismo e a ampla procura    das mulheres pelo prazer/controle sobre seus corpos. Estas «liberdades sexuais»    têm afectado tanto a prática heterossexual como a homossexual.</P>            <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>Texto recebido em Novembro de 2008 e aceite para publicação em Março de 2010</P>     <P>&nbsp;</P>            <P><B><a name="0"></a><a href="#top0">*</a> Amanda Oliveira Rabelo</B> é doutorada    em Ciências da Educação pela Universidade de Aveiro, com projecto de pós-doutoramento    financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). Contactos: Rua    Manuel Barbuda e Vasconcelos, n.º 19, 3.º AE, 3810-498, Aveiro, Portugal. Telefone:    (00351) 234 482 087, <a href="mailto:amandaorabelo@hotmail.com">amandaorabelo@hotmail.com</a>.</P>            ]]></body><back>
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