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<publisher-name><![CDATA[Associação Portuguesa de Estudos sobre as Mulheres - APEM]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[É em comum que nós habitamos]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Faculdade de Letras de Lisboa  ]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The text consists of an attempt to release the question of habitation from the subjectobject and liberalism-communism opposites, drawing inspiration from Heidegger, Derrida and Nancy's thought. Emphasis is placed on the learning of tribe uses which changes each agent throughout life. It ends by considering the inspiring role of art in human inhabiting.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="fr"><p><![CDATA[Il s'agit d'essayer de sortir la question de l'habitation des oppositions entre sujet/objet et libéralisme/communisme, avec inspiration dansla pensée de Heidegger, Derrida et Nancy. L'accent est posé sur l'apprentissage des usages de la tribu, qui altère chaque agent tout au long de sa vie. Pour finir, le rôle inspirateur de l'art dans l'habiter des humains.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><strong>&Eacute; em comum que n&oacute;s habitamos</strong></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>Fernando Belo</B></p>     <p>Professor jubilado da Faculdade de Letras de Lisboa</p>     <P>&nbsp;</P>     <P><B>Resumo</B> </P>     <P>Trata-se de tentar sair a questão da habitação das oposições entre sujeito/    objecto e liberalismo/comunismo, inspirando-se no pensamento de Heidegger, de    Derrida e de Nancy. O acento é posto na aprendizagem dos usos da tribo que vai    alterando cada agente ao longo da vida. Termina acenando ao papel inspirador    da arte no habitar dos humanos.</P>     <P><B>Palavras-chave</B> Habitar, sociedade, usos sociais, aprendizagem, bem comum.</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><B>Abstract </B></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>    <br>   <b>It's in common that we inhabit</b> </P>     <P>The text consists of an attempt to release the question of habitation from    the subjectobject and liberalism-communism opposites, drawing inspiration from    Heidegger, Derrida and Nancy's thought. Emphasis is placed on the learning of    tribe uses which changes each agent throughout life. It ends by considering    the inspiring role of art in human inhabiting.</P>     <P><B>Keywords</B> Inhabit, society, social uses, learning, common good.</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><B>Résumé</B></P>     <P> <B>En commun nous habitons</B></P>     <P> Il s'agit d'essayer de sortir la question de l'habitation des oppositions    entre sujet/objet et lib&eacute;ralisme/communisme, avec inspiration dansla    pens&eacute;e de Heidegger, Derrida et Nancy. L'accent est pos&eacute; sur l'apprentissage    des usages de la tribu, qui alt&egrave;re chaque agent tout au long de sa vie.    Pour finir, le r&ocirc;le inspirateur de l'art dans l'habiter des humains.</P>     <P><B>Mots-clés</B> Habiter, soci&eacute;t&eacute;, usages sociaux, apprentissage,    bien commun.</P>     <P align=left>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote> «Estas são as casas. E se vamos morrer nós mesmos,    <br>   espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos    <br>   que não viram as torrentes infindáveis    <br>   das rosas, ou as águas permanentes,    <br>   ou um sinal de eternidade espalhado nos corações    <br>   rápidos.    <br>   &#8211; Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que    <br>   vagabundearam    <br>   pelos muitos sentidos dos meses,    <br>   dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra,    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   para que se faça uma ordem, uma duração,    <br>   uma beleza contra a força divina?    <br>   (&#8230;)    <br>   Falemos de casas como quem fala da sua alma,    <br>   entre um incêndio,    <br>   junto ao modelo das searas,    <br>   na aprendizagem da paciência de vê-las erguer    <br>   e morrer com um pouco, um pouco    <br>   de beleza».    <br>       ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote> Herberto Hélder, 2004, <i>OU O POEMA CONTÍNUO</i><SUP><a href="#1">1</a>      <a name="top1"></a> </SUP></blockquote> </blockquote>     <P>&nbsp;</P>     <P>&laquo;&hellip;o homem habita como poeta&hellip;&raquo;    <br> </P>     <p><b>1.</b> &laquo;A maneira como n&oacute;s, os humanos, <i>somos</i> na terra    &eacute; a habita&ccedil;&atilde;o. Ser humano quer dizer: ser na terra como    mortal, isto &eacute;: habitar&raquo;, escreveu Heidegger numa confer&ecirc;ncia    de 1951, <i>Construir habitar pensar</i> (Heidegger, 1958:173). O &laquo;<i>somos</i>&raquo;    sublinhado por ele &eacute; uma forma do verbo mais forte da filosofia, o verbo    &laquo;ser&raquo;, e a segunda frase &eacute; uma defini&ccedil;&atilde;o, a    opera&ccedil;&atilde;o por excel&ecirc;ncia do pensamento gnoseol&oacute;gico    greco-europeu. Em 1927, <i>Ser e Tempo</i>, o livro que abriu o chamado existencialismo    (que renegou), buscava ir mais al&eacute;m do que o seu mestre Husserl na tentativa    de conseguir escapar ao dualismo desse pensamento greco-europeu. O dualismo    joga entre oposi&ccedil;&otilde;es exclusivas: C&eacute;u/Terra antes de mais,    donde alma/corpo &ndash; ela imortal, quase divina, ele gerado e mortal &ndash;    em Plat&atilde;o, Agostinho, Lutero, Descartes, esta dependendo por sua vez    tamb&eacute;m duma outra mais insidiosa, pois que partilhada por quase todos    n&oacute;s, sem o sabermos porventura: a oposi&ccedil;&atilde;o dentro/fora,    trivialmente sujeito/objecto. Um sintoma de como esta oposi&ccedil;&atilde;o    sobrevive como armadilha filos&oacute;fica nas neurologias e psicologias como    nas ci&ecirc;ncias sociais e humanas, &eacute; o recurso &agrave; no&ccedil;&atilde;o    de <i>representa&ccedil;&atilde;o</i>, isto &eacute;, a presen&ccedil;a do objecto    <i>exterior</i> na <i>interioridade</i> do sujeito. Insidiosa, j&aacute; que    esta oposi&ccedil;&atilde;o dentro/fora &eacute; uma das nossas evid&ecirc;ncias    mais preciosas, e &eacute; por isso que n&atilde;o &eacute; nada f&aacute;cil    pensar sem dualismo: n&atilde;o basta quer&ecirc;-lo ou diz&ecirc;-lo, j&aacute;    que este est&aacute; em quase todos os conceitos do pensamento ocidental e sem    eles n&atilde;o sabemos pensar.</p>     <p><b>2.</b> Uma das grandes import&acirc;ncias do pensamento de Heidegger <a href="#2"><sup>2</sup></a><a name="top2"></a>    &eacute; justamente a de ter (quase) conseguido esse &laquo;salto&raquo; al&eacute;m    do dualismo. No texto de 1927, o humano &eacute; caracterizado como &laquo;ser-o-a&iacute;&raquo;    (<i>Da-sein</i>), como &laquo;ser-no-mundo&raquo;, como ex-, exterioridade do    ex-sistente (o tal do existencialismo). E tamb&eacute;m, em contraponto da imortalidade    da alma, como ser mortal,<i> finito</i>, cujo saber-se assim, &laquo;existencialmente&raquo;,    permite acesso &agrave; sua autenticidade (termo que esteve muito em voga nos    anos a seguir &agrave; guerra). Ora bem, na cita&ccedil;&atilde;o inicial do    texto de 1951, os termos &laquo;ser&raquo; e &laquo;mortal&raquo; sugerem que    definir o humano pela habita&ccedil;&atilde;o na terra &eacute; a maneira que    Heidegger teve, 25 anos mais tarde, de retomar as quest&otilde;es existenciais    de Ser e Tempo deslocando-as para a hist&oacute;ria ocidental do pensamento,    do ser. Tentarei seguir essa sugest&atilde;o por minha conta e risco <a href="#3"><sup>3</sup></a>.<a name="top3"></a></p>     <p><b>3.</b> Habitar n&atilde;o &eacute; estar sem fazer nada, quer em casa quer    no emprego fazemos como aprendemos que se faz, desde pequenos e ao longo de    toda a vida, segundo os<i> usos</i> da nossa tribo (no sentido dos que nos rodeiam,    nos ensinam a habitar). E &eacute; quase sempre fazer com os outros, e como    os outros fazem. Em comum, pois: comunidade, em casa como no emprego. E este    &laquo;em comum&raquo; repete-se muito parecido em todo o lado da mesma sociedade,    trata-se dum &laquo;em comum&raquo;4 muito mais geral donde todos aprendem:    &laquo;em comum&raquo;<sup> <a href="#4"><sup>4</sup></a></sup> <a name="top4"></a>&eacute;    o que nos <i>d&aacute;</i> a aprender o que fazemos quando habitamos.</p>     <p><b>4.</b> A dimens&atilde;o social dos humanos (vistos como almas, sujeitos)    &eacute; ignorada pela maior parte da filosofia europeia at&eacute; h&aacute;    pouco tempo; &eacute; certo que Heidegger n&atilde;o fala de &laquo;sociedade&raquo;,    mas &laquo;habitar na terra&raquo; reenvia para ela. Ora, o dualismo filos&oacute;fico,    no que ao social diz respeito na hist&oacute;ria europeia recente, pegou em    dois belos termos &ndash; &laquo;liberal&raquo;, meta da modernidade, e &laquo;(bem)    comum&raquo;, da tradi&ccedil;&atilde;o medieval &ndash; e crismou-os com o    sufixo &laquo;-ismo&raquo;, opondo-os irreductivelmente, como individualismo<sup><a href="#5">5</a><a name="top5" id="top5"></a></sup>/colectivismo,    cada um excluindo o outro. Pensar a habita&ccedil;&atilde;o pode ajudar-nos    a sair dessa oposi&ccedil;&atilde;o t&atilde;o tr&aacute;gica. O ser-no-mundo    (ser na sociedade, digamos) implica repensar o &laquo;sujeito&raquo;: em vez    de se partir da consci&ecirc;ncia do adulto, h&aacute; que p&ocirc;r a quest&atilde;o    da sua institui&ccedil;&atilde;o como humano da nossa tribo pela <i>aprendizagem    </i>dos seus usos, que s&atilde;o a maneira pr&oacute;pria dessa tribo habitar    na terra. Come&ccedil;ar por aprender significa que se come&ccedil;a por se    receber, por acolher, por m&uacute;ltiplas <i>doa&ccedil;&otilde;es</i> sociais    que de fora nos v&ecirc;m. Da mesma maneira que, em biologia, se come&ccedil;a    por um ovo recebido de dois progenitores e se seguem doa&ccedil;&otilde;es (alimentos    e oxig&eacute;nio) vindas de fora que permitem crescer; o crescimento &eacute;    o de quem (n&atilde;o ainda &laquo;algu&eacute;m&raquo;) aprendeu a saber, a    saber fazer, e da&iacute; a tornar-se &laquo;algu&eacute;m&raquo;, a poder dizer    &laquo;eu sei&raquo;, &laquo;eu quero&raquo;, &laquo;eu fa&ccedil;o&raquo;.    De passivo, tornar-se activo, um habitante da sua tribo. O que exige que progenitores    e mestres que ensinam, que doam l&iacute;ngua e saber, se retirem para o <i>deixar</i>    ser ele ou ela<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a>. Sem que se possa    dissociar o que se recebeu &laquo;passivamente&raquo; e o que se &eacute; &laquo;activamente&raquo;:    dizia o poeta Manuel Gusm&atilde;o que o poeta s&oacute; disp&otilde;e para    o seu poema das palavras dos outros. Como qualquer de n&oacute;s, para falar,    para pensar. &Eacute; ali&aacute;s o que nos leva frequentemente a conflitos,    a querer ter raz&atilde;o, ser o mais h&aacute;bil, e por a&iacute; fora: cada    um de n&oacute;s &eacute; indissoci&aacute;vel e inconciliavelmente individual    e social<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a>, por isso as sociedades    s&atilde;o din&acirc;micas. Seja, por exemplo, o sotaque da regi&atilde;o ou    da classe social numa voz que, ao telefone, &eacute; identific&aacute;vel pelos    seus conhecidos. Assim como o &eacute; pela habilidade ou falta de jeito em    tal ou tal uso social. O que &laquo;alma&raquo; e &laquo;sujeito&raquo; n&atilde;o    deixam ver &eacute; que s&oacute; &laquo;somos&raquo; pelo que crescemos e aprendemos,    a diferen&ccedil;a entre quem n&atilde;o sabe guiar um autom&oacute;vel e aquele    em que se torna ap&oacute;s ter aprendido: <i>a aprendizagem altera o sujeito</i>.</p>     <p><b>5.</b> Passivos &ndash; activos, &eacute; tamb&eacute;m o lugar do <i>enigma</i>    essencial de cada um: nunca os outros sabem o que ele vai dizer ou fazer em    resposta ao que se lhe disse ou fez. Enigma como &laquo;liberdade&raquo;, sem    recurso a alma ou esp&iacute;rito. Em resumo, cada humano recebe do &laquo;comum&raquo;    social aquilo que lhe d&aacute; liberdade, isto &eacute;, a possibilidade ou    capacidade de ser algu&eacute;m mais ou menos valorizado. Sendo que o &laquo;pr&oacute;prio    eu&raquo; &eacute; tamb&eacute;m doa&ccedil;&atilde;o <i>enigm&aacute;tica </i>que    se &laquo;apropria&raquo; esse &laquo;comum&raquo; que lhe &eacute; doado, para    se tornar &laquo;ele pr&oacute;prio&raquo;, habitante da sua sociedade na terra<sup><a href="#8">8</a></sup>.<a name="top8"></a></p>     <p><b>6.</b> Ora, &eacute; &oacute;bvio que n&atilde;o se habita na rua: uma sociedade    n&atilde;o &eacute;, como se cr&ecirc; muitas vezes, um conjunto de indiv&iacute;duos,    a popula&ccedil;&atilde;o dum territ&oacute;rio, mas a rede organizada de unidades    sociais de habita&ccedil;&atilde;o, o sistema complexo dos usos que nessa terra    se transmitem de gera&ccedil;&atilde;o em gera&ccedil;&atilde;o. &laquo;Terra&raquo;    ali&aacute;s &eacute; melhor do que &laquo;territ&oacute;rio&raquo;, porque    tem em conta a agricultura e o gado, tem em conta que ao n&iacute;vel biol&oacute;gico    tamb&eacute;m vimos de in&uacute;meras doa&ccedil;&otilde;es, e justamente a    refei&ccedil;&atilde;o &ndash; festas s&atilde;o almo&ccedil;os &ndash; &eacute;    um dos momentos fortes das unidades sociais de habita&ccedil;&atilde;o a que    chamamos fam&iacute;lia, em que os seus v&aacute;rios membros se encontram como    unidade social que se apropria do &laquo;comum&raquo;. Uma fam&iacute;lia &eacute;    uma unidade social em propriedade privada: &eacute; o &laquo;comum&raquo; que    &eacute; <i>privado</i> duma pot&ecirc;ncia sua para que a unidade social &ndash;    sistemas regrados de usos &ndash; se possa reproduzir. O que lhe d&aacute; unidade    &eacute; o pr&oacute;prio sistema dos usos quotidianos que encaixam uns nos    outros, em que todos fazem parte desse sistema de usos, dessa unidade social.    A palavra habita&ccedil;&atilde;o usa-se correntemente para a fam&iacute;lia,    mas as unidades sociais de tipo econ&oacute;mico, em que se trabalha 8 horas    por dia, s&atilde;o igualmente apropria&ccedil;&otilde;es do &laquo;comum&raquo;,    recebido dos antepassados (e dos contempor&acirc;neos), tamb&eacute;m aqui &eacute;    o &laquo;comum&raquo; que &eacute; assim &laquo;privado&raquo;, apropriado:    com efeito, tudo &ndash; capital, m&aacute;quinas, mat&eacute;rias primas, saber    t&eacute;cnico do pessoal &ndash; vem de &laquo;doa&ccedil;&otilde;es&raquo;    do comum (de antepassados e contempor&acirc;neos).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>7.</b> Mas &eacute; claro que tudo isto s&oacute; funciona se as doa&ccedil;&otilde;es    m&uacute;ltiplas, incessantes, forem &laquo;esquecidas&raquo;, ignoradas enquanto    tais, pelos &laquo;pr&oacute;prios&raquo;<sup><a href="#9">9</a></sup><a name="top9"></a>.    Para eu dizer o que quero dizer, n&atilde;o posso lembrar-me da voz daqueles    com quem aprendi as palavras que digo (se as ouvisse, seria alucinado, louco).    Numa f&aacute;brica &laquo;privada&raquo;, &eacute; necess&aacute;rio que se    pense em &laquo;propriedade&raquo;, mas, aqu&eacute;m do car&aacute;cter jur&iacute;dico    do capital, o ponto essencial &eacute; a comunidade privada dos que trabalham,    os seus usos sociais competentes coordenados uns aos outros; &laquo;privado&raquo;    significa tamb&eacute;m que quem &eacute; &laquo;estranho&raquo; ao fabrico,    a multid&atilde;o dos que passam, tem que estar fora da f&aacute;brica para    que ela possa funcionar. Por exemplo, nas lojas h&aacute; sempre uma zona &laquo;privada&raquo;,    interdita a estranhos, como nas nossas casas h&aacute; zonas mais &laquo;privadas&raquo;    do que outras, sempre a defenderem-se do colectivo.</p>     <p><b>8.</b> &Eacute; &agrave;s doa&ccedil;&otilde;es apropriadas por priva&ccedil;&atilde;o    do &laquo;comum&raquo; que correspondem, n&atilde;o s&oacute; os impostos, como    a chamada &laquo;fun&ccedil;&atilde;o social&raquo; das empresas (e fam&iacute;lias).    H&aacute; uma &eacute;tica da habita&ccedil;&atilde;o ligada ao seu car&aacute;cter    &laquo;comunit&aacute;rio&raquo;, para a qual chamava a aten&ccedil;&atilde;o    um antigo jornalista do <i>P&uacute;blico</i>, Joaquim Fidalgo: a <i>confian&ccedil;a</i>    imensa que nos &eacute; pedida constantemente na qualidade do trabalho dos outros,    an&oacute;nimos, desconhecidos, cujos produtos usamos e consumimos quotidianamente.    Se nos dermos conta de como, em rela&ccedil;&atilde;o a familiares, amigos e    colegas, estamos constantemente na oscila&ccedil;&atilde;o de sabermos se podemos,    e at&eacute; que ponto, fiarmo-nos neles, percebe-se que no &laquo;con-&raquo;    deste confiarmos em quem n&atilde;o conhecemos, quantas vezes estrangeiros,    percebe-se mais claramente como a habita&ccedil;&atilde;o nos &eacute; &laquo;comum&raquo;.    E a &eacute;tica essencial dos humanos em sociedades t&atilde;o interdependentes    &eacute; a da <i>resposta </i>a essa confian&ccedil;a an&oacute;nima, da responsabilidade    no que fazemos em rela&ccedil;&atilde;o ao comum que nos faz doa&ccedil;&atilde;o,    resposta a pedir confian&ccedil;a por sua vez. Fazer bem o seu trabalho, no    emprego como em casa, &eacute; o primeiro imperativo &eacute;tico.</p>     <p><b>9.</b> Termino regressando a Heidegger, &agrave; sua medita&ccedil;&atilde;o    do verso de Holderlin citado em ep&iacute;grafe, em &laquo;&hellip;l'homme habite    en po&egrave;te&hellip;&raquo; (Heidegger, 1958). &laquo;Cheio de m&eacute;ritos,    mas como poeta, o humano habita nesta terra&raquo;. Quando a sua vida &eacute;    penosa, ele olha acima de si e diz: &laquo;tamb&eacute;m eu, &eacute; assim    que eu quero ser&raquo;. Esse &laquo;olhar acima de si&raquo; &eacute; o olhar    do poeta, para quem o sol e o azul da luz do dia, a lua e as estrelas recortadas    na escurid&atilde;o da noite, s&atilde;o o que apela ao habitar, poeta que escuta    o apelo da l&iacute;ngua culta &ndash; passivo e activo por excel&ecirc;ncia,    lembre-se o tema rom&acirc;ntico da &laquo;inspira&ccedil;&atilde;o&raquo; &ndash;;    a poesia mede o humano acima do que ele pode e abre a habita&ccedil;&atilde;o    a ir mais al&eacute;m do que, na grande literatura, nos foi doado pelos antepassados.    Como outrora os mitos do divino, Heideggeer convida-nos a entender que &laquo;a    poesia &eacute; o habitar inicial&raquo;, o que &laquo;edifica o ser da habita&ccedil;&atilde;o&raquo;.    Como quem ama e sonha a futura morada, como o arquitecto enquanto artista, diria    eu correndo o risco de psicologizar, &laquo;a poesia &eacute; a pot&ecirc;ncia    fundamental da habita&ccedil;&atilde;o humana&raquo;. &laquo;Cheios de m&eacute;ritos&raquo;:    catedrais g&oacute;ticas e pal&aacute;cios reais de outrora, a Il&iacute;ada,    a B&iacute;blia e a Divina Com&eacute;dia, &eacute; este passado altivo com    suas obscuridades e claridades, fonte de grande espanto, que, &laquo;em primeiro    lugar, faz da habita&ccedil;&atilde;o uma habita&ccedil;&atilde;o; a poesia    &eacute; o verdadeiro &quot;fazer habitar&quot;&raquo;. N&oacute;s, altivos    e mortais, em comum.</p>     <P>&nbsp;</P>     <P><B>Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas</B></P>     <P>Belo, Fernando (2009), <i>La Philosophie avec Sciences au XXe Siècle</i>, L'Harmattan,    Paris, pp. 236.</P>     <P>Belo, Fernando (2007), <i>Le Jeu des Sciences avec Heidegger et Derrida</i>,    vol. 1, <i>Scène, retraits et régulation de l'aléatoire</i>, vol. 2. <i>La Phénoménologie    reformulée, en vérité</i>, L'Harmattan, Paris, pp. 467 e 664.</P>     <!-- ref --><P>Heidegger, Martin (1958), <i>Essais et Conférences</i>, trad. A., Préau, Gallimard,    Paris&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000060&pid=S0874-5560201000020000400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><P>Heidegger, Martin (1985) [1927], <i>Être et Temps</i>, trad. E. Martineau,    Paris, ed. hors commerce.</P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><B>Notas</B></P>     <P><a href="#top1">1</a> <a name="1"></a>Epígrafe da responsabilidade da Coordenação    do Dossier.</P>     <p><a href="#top2">2</a><a name="2"></a> Apesar do seu nazismo nos anos 30! O    que nos obriga a ter cuidado com os efeitos éticos que os nossos discursos podem    ter em política.</p>     <p><a href="#top3">3</a> <a name="3"></a>Tendo em conta o pensamento de J. Derrida,    pós-husserliano e pós-heideggeriano, muito mais voltado do que qualquer dos    seus mestres para as questões das ciências sociais.</p>     <P><a href="#top4">4</a> <a name="4"></a>Inspiro-me neste motivo do filósofo Jean-Luc    Nancy, em várias das suas obras. A «doação» inspira-se por sua vez em Heidegger,    a «aprendizagem» e os «usos» na <i>iterabilidade</i> de Derrida. Para mais ampla    informação, Belo 2009, ou mesmo Belo 2007.</P>     <P><a href="#top5">5</a> <a name="5"></a>Na crise actual (2009-10), o individualismo    manifesta-se na maneira como um «patrão» se julga dono do que é seu, podendo    fazer como quer. Velha tradição do direito romano: poder usar e abusar da sua    propriedade, sem a menor atenção aos outros.</P>     <P><a href="#top6">6</a> <a name="6"></a>Em terminologia heideggeriana: doação    que <i>faz</i> vir à presença, retiro, dissimulação dessa doação, que <i>deixa</i>    vir à presença. E tudo se faz a pouco e pouco, crescer como aprender a conta    gotas, preservando-se a pequenez do que cresce diante do adulto gigante que    dá e deixa, sem que este o esmague. Estamos todos muito habituados, mas é algo    de fabuloso!</P>     <P><a href="#top7">7</a><a name="7"></a> É o que o dualismo separa e opõe, sensível    à conflictualidade. Em todo o lado onde há oposições, há que buscar o indissociável    que é esquecido por elas.</P>     <P><a href="#top8">8</a> <a name="8"></a>Este «comum» vale por «sociedade» que,    na dimensão da habitação, é o equivalente de «espécie biológica» e de «língua»    nas dimensões da vida e da linguagem. Com algum rigor: é o sistema de usos doados    numa dada terra de antepassados em descendentes, o qual sistema é potente, isto    é capaz de<i> doar</i> e <i>deixar ser</i> a reprodução de cada unidade social    na sua relação às outras, <i>em comum</i> com elas.</P>     <p><a href="#top9">9</a><a name="9"></a> Apenas em sonhos temos vislumbres delas,    quando antepassados estranhos se manifestam aquém da nossa própria intimidade    e consciência própria. O motivo psicanalítico do inconsciente é das raras descobertas    científicas no que diz respeito a estas questões filosóficas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P>     <P><B>Fernando Belo</B> tem licenciatura em engenharia civil (1956, I. S. T.)    e em teologia (1968, I. C. Paris), doutoramento na Faculdade de Letras de Lisboa    (1989), onde foi docente de Filosofia da Linguagem de 1975-2003. Além de vários    livros em português: 1974 <i>Lecture matérialiste de l'évangile de Marc, récit,    pratique, idéologie</i>, Cerf, [tr. espanhola alemã e americana]; 2007 <i>Le    Jeu des Sciences avec Heidegger et Derrida</i>, vol. 1. <i>Scène, retraits et    régulation de l'aléatoire</i>, vol. 2. <i>La Phénoménologie reformulée, en vérité</i>,    L'Harmattan; 2009 <i>La Philosophie avec Sciences au XXe siècle</i>, L'Harmattan.    <a href="mailto:fernando_belo@hotmail.com">fernando_belo@hotmail.com</a></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><i>Artigo recebido em 24 Fevereiro de 2010 e aceite para publica&ccedil;&atilde;o    em 15 de Agosto de 2010.</i></P>      ]]></body><back>
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<surname><![CDATA[Heidegger]]></surname>
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<year>1958</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
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