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</front><body><![CDATA[ <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o. Para uma Compreens&atilde;o <i>Genderizada</i> do Processo de Envelhecimento</b></p>     <P>&nbsp;</P>     <p><b>Cristina C. Vieira e Helo&iacute;sa Perista</b></p>     <p>FPCE-U. Coimbra / CESIS, Portugal</p>     <P>&nbsp;</P>     <p>A organiza&ccedil;&atilde;o social persiste em pautar-se por hierarquias de estatuto e valor, que outorgam a mulheres e homens diferen&ccedil;as ao n&iacute;vel do poder real e simb&oacute;lico com que gerem as suas vidas. E se &eacute; um facto que as mulheres continuam a representar a face mais vis&iacute;vel das desigualdades de g&eacute;nero – por cifras alarmantes como as referentes &agrave; viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica, de que s&atilde;o alvo, ou &agrave; sua escassa participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, entre outros exemplos, – a verdade &eacute; que tais assimetrias tamb&eacute;m afetam os homens, em dom&iacute;nios talvez menos vis&iacute;veis, nomeadamente ao n&iacute;vel do espa&ccedil;o privado e familiar, mas igualmente penalizadores da respetiva capacidade de autodetermina&ccedil;&atilde;o individual.</p>     <p>Partindo destas constata&ccedil;&otilde;es, a an&aacute;lise do processo de envelhecimento e das suas implica&ccedil;&otilde;es pessoais e sociais para a vida de mulheres e homens, a envelhecer, n&atilde;o pode deixar de fazer-se atrav&eacute;s das <i>lentes de g&eacute;nero</i>. Na realidade, este parece ser um fen&oacute;meno profundamente <i>genderizado</i> e o cruzamento de diferentes formas de discrimina&ccedil;&atilde;o, como o idadismo (<i>ageism</i>) e o sexismo, entre outras, poder&aacute; acarretar consigo problem&aacute;ticas diferenciadas para cada um dos sexos nas etapas ulteriores do ciclo vital.</p>     <p>Na chamada idade adulta avan&ccedil;ada, sabe-se que a distribui&ccedil;&atilde;o tradicional dos pap&eacute;is de g&eacute;nero continua a estruturar as rela&ccedil;&otilde;es entre homens e mulheres, se bem que isso possa acontecer de forma menos pronunciada do que em faixas anteriores, em virtude de fatores como a perda de poder simb&oacute;lico em dom&iacute;nios como a reprodu&ccedil;&atilde;o ou o mercado de trabalho. As desigualdades de g&eacute;nero, vis&iacute;veis em idades mais jovens, tendem a manter-se, por isso, em idades mais avan&ccedil;adas, acentuando-se mesmo em alguns dom&iacute;nios, e acarretam consigo obst&aacute;culos reais para a vida de homens idosos e mulheres idosas.</p>     <p>A maior longevidade das mulheres associada &agrave; sua maior autonomia ao n&iacute;vel da domesticidade s&atilde;o fatores que lhes permitem viver sozinhas mais tempo, ap&oacute;s um div&oacute;rcio ou separa&ccedil;&atilde;o, e que ainda as tornam as principais cuidadoras informais na fam&iacute;lia, entrincheiradas entre as gera&ccedil;&otilde;es de filhos/as (e de netos/as) e as de progenitores/as idosos/as. Al&eacute;m disso, o seu tendencialmente mais baixo estatuto profissional durante a vida ativa f&aacute;-las agora receber uma pens&atilde;o de reforma muito inferior &agrave;s dos homens da mesma idade. Esta disparidade, em termos dos recursos monet&aacute;rios, coloca as mulheres idosas em maior risco de pobreza e costuma ser, inclusive, o mote para a manuten&ccedil;&atilde;o de rela&ccedil;&otilde;es de conjugalidade baseadas na suposta superioridade do poder masculino, fruto da mais elevada contribui&ccedil;&atilde;o do homem para o or&ccedil;amento familiar.</p>     <p>No caso dos homens idosos, a sua menor autonomia ao n&iacute;vel das quest&otilde;es da domesticidade compele-os a optarem mais do que as mulheres pela institucionaliza&ccedil;&atilde;o, no caso de ficarem sozinhos, ainda que do ponto de vista f&iacute;sico e mental possam estar perfeitamente funcionais. Pode ainda mencionar-se que a problem&aacute;tica da solid&atilde;o talvez seja mais gravosa para eles do que para elas, n&atilde;o s&oacute; pela raz&atilde;o atr&aacute;s mencionada, mas tamb&eacute;m pelo facto de os homens se inclinarem a fomentar ao longo da vida uma rede social de rela&ccedil;&otilde;es mais restrita, que funciona por isso como um suporte social mais fr&aacute;gil, em situa&ccedil;&otilde;es de div&oacute;rcio, viuvez ou neglig&ecirc;ncia familiar, votando-os com maior probabilidade a isolamento social na velhice.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O dossier tem&aacute;tico, intitulado <i>G&eacute;nero e envelhecimento: indicadores, problem&aacute;ticas e desafios para a interven&ccedil;&atilde;o</i>, que integra este n&uacute;mero da Revista <i>ex aequo</i> e comporta sete artigos de autoras e autores nacionais e estrangeiras/os, pretende trazer para a discuss&atilde;o estas e outras tem&aacute;ticas com import&acirc;ncia fulcral para a compreens&atilde;o do envelhecimento, que, quando analisado sob a &oacute;ptica do g&eacute;nero, tende a apresentar um duplo padr&atilde;o: um para mulheres e outro para homens.</p>     <p>O primeiro artigo, de Fernanda Daniel, Teresa Sim&otilde;es e Rosa Monteiro, analisa as representa&ccedil;&otilde;es sociais sobre o envelhecimento no masculino e no feminino. Atrav&eacute;s da T&eacute;cnica de Associa&ccedil;&atilde;o Livre de Palavras, as autoras confirmam a preval&ecirc;ncia de estereotipia idadista negativa e destacam alguma diferen&ccedil;a na classifica&ccedil;&atilde;o do envelhecer no masculino e no feminino: o primeiro ancorado na proemin&ecirc;ncia posicional da depend&ecirc;ncia e da perda, enquanto no envelhecer no feminino emergiram atributos associados aos pap&eacute;is sexuais e designadamente ao cuidar, bem como &agrave; dimens&atilde;o est&eacute;tica/f&iacute;sica.</p>     <p>Segue-se o artigo de Sally Bould e Sara Falc&atilde;o Casaca. Este texto parte da an&aacute;lise de alguns dados sobre o emprego de mulheres com idades compreendidas entre os 55-64 anos no contexto da UE15. As pol&iacute;ticas atuais em torno do &laquo;envelhecimento ativo&raquo; e da idade de reforma s&atilde;o discutidas pelas autoras, por n&atilde;o integrarem uma perspetiva de g&eacute;nero, descurando o trabalho n&atilde;o pago e a presta&ccedil;&atilde;o de cuidados. S&atilde;o ainda exploradas quest&otilde;es, que se colocam de forma particularmente evidente no atual contexto de prolongamento tendencial do ciclo de vida ativa das mulheres, relativamente a quem assegura a presta&ccedil;&atilde;o de cuidados familiares; e ao risco (cada vez maior) subjacente &agrave; situa&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica presente e futura das mulheres mais velhas.</p>     <p>O artigo de Fernando Pocahy, sobre as quest&otilde;es do desejo e do (homo)erotismo em homens idosos, traz para a ribalta um assunto praticamente esquecido da agenda de prioridades de quem estuda o envelhecimento, como se existisse um muro de sil&ecirc;ncio – n&atilde;o s&oacute; em termos sociais, mas tamb&eacute;m na investiga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica – em torno das quest&otilde;es da sexualidade das pessoas idosas. Em resultado de um estudo emp&iacute;rico de cariz qualitativo, e movido por um paradigma cr&iacute;tico de an&aacute;lise da realidade, este autor brasileiro d&aacute;-nos conta de uma certa performatividade do processo de envelhecer, neste dom&iacute;nio particular do sentir e do vivenciar experi&ecirc;ncias er&oacute;ticas, as quais, nos homens idosos que observou e  entrevistou, pouco ou nada se mostraram perme&aacute;veis a fatores como a idade ou a (falta de) juventude do corpo.</p>     <p>O quarto artigo a integrar este <i>dossier</i> tem&aacute;tico &eacute; das autoras austr&iacute;acas Helga Amesberger e Birgitt Haller. Este artigo sintetiza os principais resultados de uma pesquisa sobre viol&ecirc;ncia contra mulheres idosas em rela&ccedil;&otilde;es de intimidade na &Aacute;ustria. Dando voz &agrave;s pr&oacute;prias mulheres idosas sobre as suas experi&ecirc;ncias e perspetivas sobre a viol&ecirc;ncia, as autoras p&otilde;em em evid&ecirc;ncia a import&acirc;ncia de uma abordagem integrada da idade e do g&eacute;nero. O artigo reflete ainda sobre as respostas institucionais &agrave;s necessidades de mulheres idosas v&iacute;timas de viol&ecirc;ncia em rela&ccedil;&otilde;es de intimidade.</p>     <p>As viv&ecirc;ncias do processo de institucionaliza&ccedil;&atilde;o de mulheres idosas s&atilde;o o objeto de an&aacute;lise do artigo de um conjunto de seis pessoas autoras: Inayara Santana, Maria da Penha Coutinho, Nat&aacute;lia Ramos, Deraci Santos, Gilc&iacute;nila Lemos e Paloma Silva. Neste trabalho s&atilde;o analisados aspetos psicossociais do processo de institucionaliza&ccedil;&atilde;o de mulheres idosas. Com base numa pesquisa qualitativa, desenvolvida numa institui&ccedil;&atilde;o de longa perman&ecirc;ncia para pessoas idosas na cidade de Santo Ant&ocirc;nio de Jesus-Bahia-Brasil, as autoras concluem que a maioria das mulheres entrevistadas considera boa a vida que t&ecirc;m na institui&ccedil;&atilde;o. Os resultados confirmam, por outro lado, a insufici&ecirc;ncia de programas de apoio &agrave; popula&ccedil;&atilde;o idosa no Brasil.</p>     <p>A problem&aacute;tica do envelhecimento da gera&ccedil;&atilde;o das mulheres cuidadoras &eacute; debatida no artigo de Alda Britto da Motta, que nos leva a refletir, de uma forma muito clarividente, sobre as implica&ccedil;&otilde;es que as mudan&ccedil;as sociais que afetam as fam&iacute;lias de hoje – nomeadamente, a coexist&ecirc;ncia de v&aacute;rias gera&ccedil;&otilde;es vivas e o adiamento do momento da sa&iacute;da dos/as jovens de casa, – t&ecirc;m para as mulheres, tamb&eacute;m elas a envelhecer, as quais se v&ecirc;em obrigadas a assumir a penosa fun&ccedil;&atilde;o de ‘cuidadoras em s&eacute;rie’, quer dos/as mais velhos/as, quer dos/as mais novos/as.</p>     <p>As autoras Laise Jardim e Juliana Perucchi dividem a autoria do artigo que encerra este <i>dossier</i> tem&aacute;tico, o qual chama a nossa aten&ccedil;&atilde;o para o conte&uacute;do estereotipado e eivado por hierarquias de g&eacute;nero de campanhas brasileiras, destinadas &agrave; popula&ccedil;&atilde;o idosa, cujo objetivo &eacute; alertar para a necessidade de preven&ccedil;&atilde;o do VIH/SIDA. A desconstru&ccedil;&atilde;o dos discursos oficiais produzidos nestas campanhas, diferentes para homens e para mulheres, mostra-nos de que forma as entidades com responsabilidades no dom&iacute;nio p&uacute;blico, neste caso na &aacute;rea da sa&uacute;de, podem – ainda que implicitamente – contribuir para a manuten&ccedil;&atilde;o da <i>ordem social de g&eacute;nero</i> que est&aacute; na base das desigualdades penalizadoras para ambos os sexos.</p>     <p>Na certeza de que este dossier tem&aacute;tico poder&aacute; contribuir para uma melhor compreens&atilde;o do envelhecimento, quer pela reflex&atilde;o cr&iacute;tica despertada pelas tem&aacute;ticas abordadas, quer pelas implica&ccedil;&otilde;es destes trabalhos para a melhoria das pr&aacute;ticas junto das pessoas idosas, estamos convictas de que continuam em aberto muitas avenidas para a investiga&ccedil;&atilde;o futura, se o objetivo for a promo&ccedil;&atilde;o de um efetivo envelhecimento ativo tanto de mulheres como de homens.</p>      ]]></body>
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