<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0874-5560</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ex aequo]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Ex aequo]]></abbrev-journal-title>
<issn>0874-5560</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Associação Portuguesa de Estudos sobre as Mulheres - APEM]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0874-55602012000200018</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Andar na Vida: Prostituição de Rua e Reacção Social]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Ribeiro]]></surname>
<given-names><![CDATA[Fernando Bessa]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
<xref ref-type="aff" rid="A02"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="A02">
<institution><![CDATA[,Universidade do Minho Centro de Investigação em Ciências Sociais ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2012</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2012</year>
</pub-date>
<numero>26</numero>
<fpage>169</fpage>
<lpage>172</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0874-55602012000200018&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0874-55602012000200018&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0874-55602012000200018&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p><b>Oliveira, Alexandra (2011), Andar na Vida: Prostitui&ccedil;&atilde;o de Rua e Reac&ccedil;&atilde;o Social, Coimbra, Almedina, 272 p&aacute;ginas.</b></p>     <P>&nbsp;</P>     <p><b>Fernando Bessa Ribeiro</b></p>     <p>Universidade de Tr&aacute;s-os-Montes e Alto Douro e Centro de Investiga&ccedil;&atilde;o em Ci&ecirc;ncias Sociais – Universidade do Minho</p>     <P>&nbsp;</P>     <p>Psic&oacute;loga de forma&ccedil;&atilde;o, Alexandra Oliveira leva mais de dez anos de trabalho nas ruas do Porto, observando e sobretudo participando nos quotidianos de vida das mulheres, homens e transg&eacute;neros que vivem do com&eacute;rcio do sexo. Este envolvimento exprime uma orienta&ccedil;&atilde;o metodol&oacute;gica pela etnografia, certamente em confronto com as abordagens mais <i>mainstream</i> da psicologia. Ainda que n&atilde;o recuse outros m&eacute;todos e t&eacute;cnicas de investiga&ccedil;&atilde;o, cabe &agrave; observa&ccedil;&atilde;o participante o lugar central no seu trabalho de campo.</p>     <p>Logo a abrir o seu livro A. Oliveira explicita o que pretende: &laquo;contrariar preconceitos e estere&oacute;tipos dando a conhecer o mundo da prostitui&ccedil;&atilde;o de rua e dos actores que o <i>habitam</i>, em particular das mulheres prostitutas, mas tamb&eacute;m de transexuais, &#91;fazendo um pouco mais &agrave; frente a defesa&#93; do envolvimento e comprometimento de muitos dos seus investigadores quando colocam o seu saber ao servi&ccedil;o da sociedade&raquo; (p. 7). Por outras palavras, A. Oliveira tenta combinar o proposto por Bourdieu em &laquo;Um saber comprometido&raquo; &#91;<i>Le Monde Diplomatique – edi&ccedil;&atilde;o portuguesa</i>, ano 3 (35), p. 3, 2002, tamb&eacute;m citado no seu livro&#93;: o <i>scholarship</i> com o <i>commitment</i>, isto &eacute;, um saber engajado, socialmente comprometido, que rompe com a separa&ccedil;&atilde;o entre o conhecimento cient&iacute;fico e a interven&ccedil;&atilde;o no mundo exterior &agrave; academia.</p>     <p>Ao longo do livro quem o l&ecirc; &eacute; confrontado/a com elementos etnogr&aacute;ficos e argumentos que nos permitem conhecer, muito para al&eacute;m das fachadas pessoais e dos preconceitos, mulheres e transg&eacute;neros no com&eacute;rcio do sexo. Para as trazer at&eacute; n&oacute;s, a autora viveu, entre Outubro de 2002 e Novembro de 2007, nas ruas, nas pens&otilde;es e nas casas das mulheres observadas, descrevendo-nos com min&uacute;cia os terrenos de ac&ccedil;&atilde;o, os problemas, os medos, os desejos, os trajectos e os seus projectos de vida. Foi t&atilde;o bem sucedida neste processo de incorpora&ccedil;&atilde;o no meio social observado que chegou ao ponto de ser tomada como mais uma &laquo;mulher da vida&raquo;: &laquo;tive novamente a evid&ecirc;ncia de que, para algumas pessoas, nomeadamente para alguns homens, eu tenho o r&oacute;tulo de <i>puta</i> naquela zona. A maneira como os homens olham para mim leva-me a pensar isso. A forma como o empregado da farm&aacute;cia lida comigo tamb&eacute;m: com extrema simpatia, tentando o contacto ocular, emitindo olhares galantes, fazendo afirma&ccedil;&otilde;es intencionalmente agrad&aacute;veis e mesmo procurando afinidades&raquo; (di&aacute;rio de campo, p. 219).</p>     <p>Esta op&ccedil;&atilde;o metodol&oacute;gica, trabalhosa, desgastante, at&eacute; perigosa – veja-se a agress&atilde;o que sofreu com um saco de &oacute;leo queimado arremessado por dois indiv&iacute;duos circulando de moto (p. 232) –, permite ao leitor um olhar por dentro deste complexo e multifacetado campo social. Conhecedora e praticante experiente deste m&eacute;todo, cujos resultados foram vertidos para as p&aacute;ginas do livro – tanto os testemunhos como os registos no di&aacute;rio de campo denunciam a sua etnografia de rua e de ac&ccedil;&atilde;o, oferecendo-nos estes algumas das mais estimulantes passagens do seu texto –, esta op&ccedil;&atilde;o facilitou a aproxima&ccedil;&atilde;o &agrave;quilo que Bourdieu &#91;&laquo;Compreende &raquo; <i>in La mis&egrave;re du monde</i>, 1993, pp. 1388-1447&#93;, na esteira de Weber &#91;<i>Econom&iacute;a y sociedad: esbozo de sociolog&iacute;a comprensiva</i>, 1993 (1922)&#93;, nos prop&otilde;e: &laquo;l’oubli de soi&raquo;, isto &eacute;, proceder ao deslocamento do nosso olhar de forma a colocarmo-nos, em pensamento, no lugar dos outros observados.</p>     <p>Olhando mais de perto o livro, este come&ccedil;a por uma longa e bem fundamentada introdu&ccedil;&atilde;o, onde discute o objecto, os objectivos e o m&eacute;todo, &agrave; qual se seguem quatro cap&iacute;tulos: (i) o mundo social da prostitui&ccedil;&atilde;o; (ii) o mundo familiar da prostituta; (iii) ser-se prostituta; (iv) reac&ccedil;&atilde;o social: estigma, exclus&atilde;o, viol&ecirc;ncias; encerra com uma proposta de ac&ccedil;&atilde;o, a que deu o t&iacute;tulo &laquo;Da compreens&atilde;o &agrave; interven&ccedil;&atilde;o&raquo;. Ao longo de quase tr&ecirc;s centenas de p&aacute;ginas, A. Oliveira descreve- -nos os contextos de ac&ccedil;&atilde;o, as din&acirc;micas da prostitui&ccedil;&atilde;o de rua, os quotidianos de trabalho; fala-nos dos clientes, mostrando que, ao contr&aacute;rio do comummente aceite pelo senso comum (e n&atilde;o s&oacute;), as rela&ccedil;&otilde;es entre estes e as mulheres s&atilde;o intensas e multifacetadas, n&atilde;o se circunscrevendo ao acto sexual, podendo envolver tamb&eacute;m amizade, afecto e at&eacute; amor, ali&aacute;s na esteira do por n&oacute;s observado &#91;M. Ribeiro <i>et al, Vidas na raia: Prostitui&ccedil;&atilde;o feminina em regi&otilde;es de fronteira</i>, 2007&#93;; ocupa- -se com o campo dom&eacute;stico das mulheres observadas, mostrando-nos como estamos perante pessoas comuns da classe popular, com os seus problemas, dificuldades, conflitos, sonhos e projectos, desconstruindo a tese velha e gasta da prostituta atada a uma vida familiar desestruturada, marcada por uma rela&ccedil;&atilde;o de opress&atilde;o por parte de um proxeneta travestido de companheiro, cujo &uacute;nico interesse &eacute; tirar dela proveito econ&oacute;mico e sexual; analisa os trajectos de vida, esquadrinhando as raz&otilde;es que levaram as mulheres e os transg&eacute;neros inquiridos a entrar, permanecer e sair da prostitui&ccedil;&atilde;o; uma preocupa&ccedil;&atilde;o muito n&iacute;tida para as quest&otilde;es que se prendem com o estigma, as exclus&otilde;es e as m&uacute;ltiplas viol&ecirc;ncias que atingem estas mulheres e, com redobrada intensidade, as mulheres masculinas, havendo aqui que destacar as que s&atilde;o produzidas pelas institui&ccedil;&otilde;es estatais e seus agentes; contesta as pol&iacute;ticas de imigra&ccedil;&atilde;o e de luta contra o tr&aacute;fico e a explora&ccedil;&atilde;o sexual que, aparentemente escudadas em boas inten&ccedil;&otilde;es, mais n&atilde;o fazem do que aprofundar a marginaliza&ccedil;&atilde;o, a estigmatiza&ccedil;&atilde;o e a viol&ecirc;ncia sobre quem vive do trabalho sexual.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O livro fecha com uma demorada reflex&atilde;o sobre a interven&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e social. Em linha com as posi&ccedil;&otilde;es assumidas em estudos recentes &#91;<i>v.g.</i>, M.E. Handman e J. Mossuz-Lavau (dir), <i>La prostitution &agrave; Paris</i>, 2005 e M. Ribeiro <i>et al</i>, <i>Vidas na raia: Prostitui&ccedil;&atilde;o feminina em regi&otilde;es de fronteira</i>, 2007&#93;, A. Oliveira assume uma posi&ccedil;&atilde;o contr&aacute;ria &agrave;s teses abolicionistas e proibicionistas, tecendo diversas cr&iacute;ticas, das quais destaco a que se prende com a quest&atilde;o da vitimiza&ccedil;&atilde;o das  mulheres: &#91;…&#93; &laquo;os empres&aacute;rios da moral, os defensores das teses abolicionistas, aparecem como causadores daquilo contra o qual dizem lutar, pois ao defenderem a perspectiva vitimizante das pessoas que se prostituem est&atilde;o a prolongar essa imagem negativa que h&aacute;-de contribuir para que quem faz trabalho sexual n&atilde;o se sinta bem consigo mesmo e se sinta descapacitada&raquo; (p. 252). Bem conhecida e explicitada de modo categ&oacute;rico em trabalhos anteriores, mormente em <i>As vendedoras de ilus&otilde;es: estudo sobre prostitui&ccedil;&atilde;o, alterne e striptease</i>, 2004, e em tomadas de posi&ccedil;&atilde;o p&uacute;blicas &#91;entre outras, &laquo;Por uma nova pol&iacute;tica para o trabalho sexual&raquo;, <i>P&uacute;blico</i>, ano XVIII, n.&ordm; 6194, 47 de 15 de Mar&ccedil;o de 2007, tamb&eacute;m por mim subscrita&#93;, este ponto de vista denuncia que A. Oliveira n&atilde;o se escuda numa confort&aacute;vel, ainda que aparente e sempre inexistente, neutralidade te&oacute;rica e pol&iacute;tica. N&atilde;o se trata aqui de obliterar as viol&ecirc;ncias, opress&otilde;es e situa&ccedil;&otilde;es de exclus&atilde;o e de estigmatiza&ccedil;&atilde;o que atingem, &agrave;s vezes com especial intensidade, todas as pessoas que se dedicam &agrave; venda de servi&ccedil;os sexuais mas t&atilde;o-somente de responder, na esteira do proposto por Handman e Mossuz-Lavau &#91;<i>La prostitution &agrave; Paris,</i> p. 397, 2005&#93; &agrave; quest&atilde;o acerca do enquadramento, nomeadamente pol&iacute;tico-legal e social, da prostitui&ccedil;&atilde;o. Comprometida com o alargamento da liberdade e da amplia&ccedil;&atilde;o das capacidades de ag&ecirc;ncia das mulheres, transg&eacute;neros e homens que vivem do trabalho sexual, A. Oliveira defende a livre determina&ccedil;&atilde;o dos indiv&iacute;duos na defini&ccedil;&atilde;o dos modos de vida e de trabalho, sem ignorar que os constrangimentos econ&oacute;micos e outros, como acontece com a escolha de qualquer outra profiss&atilde;o, est&atilde;o presentes e n&atilde;o podem ser descartados. Trata-se aqui de fazer a defesa radical do direito dos seres humanos ao <i>self-ownership</i> sobre o seu corpo, incluindo o que envolve a sexualidade, conforme nos &eacute; proposto por fil&oacute;sofos libert&aacute;rios como van Parijs &#91;v. C. Arnsperger e P. van Parijs, <i>&Eacute;tica econ&oacute;mica e social</i>, 2003&#93; e Vallentyne e Steiner &#91;<i>Left libertarianism and its critics: the contemporary debate,</i> 2000&#93;.</p>     <p>Em vez dos discursos ora regenerador, ora censurador, uns e outros profundamente moralizantes, o livro de A. Oliveira &eacute; atravessado pela cr&iacute;tica &agrave;s posi&ccedil;&otilde;es que v&ecirc;em na prostitui&ccedil;&atilde;o uma forma severa de domina&ccedil;&atilde;o masculina e uma aus&ecirc;ncia praticamente total de capacidade de ag&ecirc;ncia por parte das mulheres. Mais, em linha com o defendido por Gil &#91;&laquo;Sexualit&eacute; et prostitution&raquo;, <i>in</i> M. E. Handman e J. Mossuz-Lavau (dir.), <i>La prostitution &agrave; Paris</i>, p. 345-376, 2005&#93;, quem l&ecirc; este livro &eacute; confrontado/a com a tese da &laquo;venda do corpo&raquo;, t&atilde;o cara aos e &agrave;s abolicionistas. N&atilde;o s&oacute; esta &eacute; desmentida pelas pr&aacute;ticas fixadas no seu livro, como percebemos tamb&eacute;m que estamos perante uma forma insidiosa de desclassifica&ccedil;&atilde;o dos indiv&iacute;duos que vivem do com&eacute;rcio do sexo, ao desaposs&aacute;-los da sua integridade f&iacute;sica e do seu direito &agrave; utiliza&ccedil;&atilde;o social do corpo. Deste modo, o debate sobre a prostitui&ccedil;&atilde;o transborda os campos estritos do g&eacute;nero e da moral, abrindo-o nomeadamente ao campo do trabalho, como faz Bourdieu em <i>A Domina&ccedil;&atilde;o Masculina</i>, 1999.</p>     <p>Em suma, este livro proporciona a quem o l&ecirc; uma an&aacute;lise compreensiva da prostitui&ccedil;&atilde;o de rua na cidade do Porto e dos actores sociais nela envolvida, em  especial no que se relaciona com as mulheres que oferecem servi&ccedil;os sexuais a homens. Respondendo cabalmente aos objectivos fixados, &eacute; um livro que vai muito para al&eacute;m das fronteiras da academia, das suas e dos seus profissionais que trabalham sobre este campo social, interessando a todos os cidad&atilde;os e a todas as cidad&atilde;s, sobretudo a quem, inquieta/o com as viol&ecirc;ncias, injusti&ccedil;as e sofrimento que atingem muitas das mulheres, homens e transg&eacute;neros que vivem do com&eacute;rcio do sexo, procura outras respostas que possam contribuir para a constru&ccedil;&atilde;o de uma agenda pol&iacute;tica e social emancipat&oacute;ria equipada tamb&eacute;m duma pol&iacute;tica inclusiva para o trabalho sexual e para os actores sociais nele envolvidos.</p>      ]]></body>
</article>
