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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Maria Veleda (1871-1955) - Uma professora feminista, republicana e livre-pensadora: Caminhos Trilhados pelo Direito de Cidadania]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>Monteiro, Natividade (2012), <i>Maria Veleda (1871-1955) – Uma professora feminista, republicana e livre-pensadora. Caminhos Trilhados pelo Direito de Cidadania</i>, Olh&atilde;o, Gente Singular Editora, 475 p&aacute;ginas.</b></p>     <p>&nbsp;</p>    <p><b>Jo&atilde;o Esteves</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Nesta obra de cariz biogr&aacute;fica, que corresponde &agrave; disserta&ccedil;&atilde;o de Mestrado em Estudos sobre as Mulheres da Universidade Aberta, sob orienta&ccedil;&atilde;o de Anne Cova, a professora, investigadora e historiadora Natividade Monteiro desvenda-nos uma mulher simples, comum e, simultaneamente, extraordin&aacute;ria que viveu e sofreu, intensa e freneticamente, a fam&iacute;lia, a profiss&atilde;o, a fraternidade pelos desprotegidos, o combate &agrave; Monarquia e o triunfo, consolida&ccedil;&atilde;o e desagrega&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica. De seu nome Maria Carolina Frederico Crispin, ficou, familiar e publicamente, somente conhecida por Maria Veleda, reportando-se, provavelmente, o pseud&oacute;nimo Veleda &agrave; sacerdotisa &laquo;insubmissa ao Imp&eacute;rio Romano e defensora das leis gaulesas que atribu&iacute;am poderes civis e pol&iacute;ticos &agrave;s mulheres&raquo; (p. 56).</p>     <p>Simples, porque a longa exist&ecirc;ncia foi pautada por id&ecirc;ntico estilo de vida, sem luxos, grandezas, privil&eacute;gios – n&atilde;o era, nem nunca foi uma privilegiada –, benef&iacute;cios ou prote&ccedil;&otilde;es. Comum, porque as viv&ecirc;ncias de meninice e os sonhos condiziam com os das outras raparigas at&eacute; que os percal&ccedil;os familiares a levaram a trabalhar para n&atilde;o sobrecarregar os seus, fez-se &laquo;professora por necessidade e por voca&ccedil;&atilde;o&raquo; (p. 429), defrontou-se com contratempos profissionais e financeiros, viveu em condi&ccedil;&otilde;es modestas, quando n&atilde;o resv&eacute;s com a mis&eacute;ria, e mereceu a solidariedade de amigas e correligion&aacute;rias. &laquo;Extraordin&aacute;ria&raquo;, como a caraterizou Teresa Pi&ccedil;arra Beleza no Pref&aacute;cio (pp. 15-17), &laquo;apenas&raquo; porque soube tra&ccedil;ar o pr&oacute;prio percurso, viver coerentemente as suas op&ccedil;&otilde;es – pessoais e pol&iacute;ticas – e assumir as consequ&ecirc;ncias, num tempo em que poucas mulheres evidenciavam determina&ccedil;&atilde;o e coragem de o fazer, ainda menos numa sociedade em que lhes era estranho o espa&ccedil;o p&uacute;blico ou a ousadia de romper com a domesticidade e a religiosidade. Extraordin&aacute;ria, porque soube fazer ouvir a sua voz e tomar partido pelos mais desfavorecidos, pelas mulheres, pelas crian&ccedil;as, pela Rep&uacute;blica, incorporando no ideal republicano os valores da Liberdade, Igualdade e Fraternidade da Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa, e assumiu-se como feminista e cidad&atilde; quando tal parecia uma utopia nos j&aacute; long&iacute;nquos anos da viragem do s&eacute;culo XIX para o XX.</p>     <p>N&atilde;o se est&aacute; perante um exagero, vis&atilde;o anacr&oacute;nica ou mitifica&ccedil;&atilde;o de um nome, embora haja &laquo;empatia intelectual&raquo; e identifica&ccedil;&atilde;o entre biografada e bi&oacute;grafa, devidamente acauteladas na &laquo;Metodologia da investiga&ccedil;&atilde;o&raquo; (pp. 35-42). Remontando &agrave;s origens, em Faro, onde nasceu em 1871, e at&eacute; 1955, quando faleceu, em Lisboa, com 84 anos de idade, Natividade Monteiro reconstr&oacute;i com novos dados e reinterpreta&ccedil;&otilde;es, mediante recurso a um leque diversificado de fontes, algumas in&eacute;ditas por integrarem o esp&oacute;lio familiar, o percurso afetivo, familiar, liter&aacute;rio, jornal&iacute;stico, profissional, associativo e pol&iacute;tico de uma professora que aspirava a ser escritora e, apesar da sua educa&ccedil;&atilde;o &laquo;convencionalmente religiosa&raquo;, se tornou feminista, livre-pensadora, ma&ccedil;on e republicana, sendo que &laquo;a constru&ccedil;&atilde;o de uma identidade t&atilde;o rica e complexa n&atilde;o esteve isenta de sofrimento interior&raquo; (p. 439), nem de ruturas.</p>     <p>Est&aacute;-se perante um trabalho &aacute;rduo e rigoroso que procurou reconstruir uma vida intensamente vivida e plenamente dedicada aos outros, repartida entre o privado e o p&uacute;blico, entrela&ccedil;ados na constru&ccedil;&atilde;o de uma cidadania que abarcasse raparigas e rapazes, mulheres e homens. E esta op&ccedil;&atilde;o revelou-se acertada, com ganhos para o leitor e investigador, j&aacute; que Maria Veleda n&atilde;o &eacute; pass&iacute;vel de ser fragmentada, reencontrando-se sempre a mesma identidade em cada uma das suas facetas. Tal como evidencia Natividade Monteiro nas quase 500 p&aacute;ginas, a trajet&oacute;ria – da prov&iacute;ncia &agrave; capital, de professora a educadora, de escritora a jornalista, de mulher a feminista, de feminista a republicana, de espetadora a oradora, de militante a l&iacute;der, de crente a livre-pensadora, de filha a m&atilde;e e av&oacute; – n&atilde;o foi  f&aacute;cil, nem linear, passando por sobressaltos pessoais, familiares, profissionais, econ&oacute;micos e pol&iacute;ticos, sobressaindo uma pessoa humilde, batalhadora, convicta e coerente, extraordinariamente coerente, em que vida particular e p&uacute;blica, discursos e pr&aacute;ticas, se conjugam e harmonizam como indissoci&aacute;veis.</p>     <p>Nesta obra, estruturada em quatro cap&iacute;tulos – <i>A paix&atilde;o da escrita e a dedica&ccedil;&atilde;o ao ensino</i> (pp. 53-95), <i>O combate &agrave; Monarquia atrav&eacute;s da propaganda republicana e feminista</i> (pp. 96-204), <i>Sob a &eacute;gide da Rep&uacute;blica</i> (pp. 205-363), <i>No labirinto esot&eacute;rico, espiritualista e m&iacute;stico</i> (pp. 364-427) –, rematados por uma <i>Conclus&atilde;o</i> (pp. 429-459) que revisita o essencial de Maria Veleda, a autora percorre os <i>Caminhos trilhados pelo Direito de Cidadania</i> e faz sobressair, a par da sua natureza intrinsecamente feminista, a aten&ccedil;&atilde;o que constantemente lhe mereceram as crian&ccedil;as, s&oacute; poss&iacute;vel de compreender pelo amor que nutria por elas enquanto seres desprotegidos e merecedores de outra educa&ccedil;&atilde;o que ela se empenhava por lhes dar enquanto docente, segundo o preceito de &laquo;conhecer bem a crian&ccedil;a para a poder educar em conformidade&raquo; (p. 430). Este entendimento fraterno com as crian&ccedil;as, com todas elas, &eacute; patente na ado&ccedil;&atilde;o de uma, a quem tratou como filho (Lu&iacute;s), na cria&ccedil;&atilde;o de outros enquanto m&atilde;e solteira (C&acirc;ndido) e av&oacute;, na den&uacute;ncia do submundo dos pequenos lisboetas abandonados &agrave; sorte e infort&uacute;nio, na funda&ccedil;&atilde;o da Obra Maternal, em 1909, no trabalho desenvolvido no &acirc;mbito da Tutoria Central de Inf&acirc;ncia e na preocupa&ccedil;&atilde;o em transportar os seus ideais educativos para dentro das aulas que lecionava ou das organiza&ccedil;&otilde;es em que militou ou liderou, nomeadamente a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. O mesmo olhar fraterno era estendido &agrave;s mulheres desfavorecidas, expressa na tocante defini&ccedil;&atilde;o que, em 1909, faz do feminismo: &laquo;Ser feminista &eacute; ser, principalmente, protetora da mulher: – da mulher que sofre, da oper&aacute;ria, da desonrada, da mendiga… &Eacute; esquecer-se de si pr&oacute;pria, numa abnega&ccedil;&atilde;o de ap&oacute;stolo, e levar a luz aos antros das trevas, levar a instru&ccedil;&atilde;o &agrave;s oficinas, levar palavras de amor e de conforto &agrave;s v&iacute;timas da sedu&ccedil;&atilde;o, levar conselhos e perd&atilde;o &agrave;s cadeias, levar clar&otilde;es de piedade aos albergues e aos hospitais! Desejamos que ela aprenda? Queremos o seu resgate? Pois bem: fraternizemos com ela!&raquo; (p. 15). Maria Veleda n&atilde;o foi, como Natividade Monteiro demonstra, uma mulher igual &agrave;s contempor&acirc;neas que militaram no associativismo feminista, republicano e ma&ccedil;&oacute;nico.</p>     <p>Na exaustiva pesquisa, a autora aclara o abandono de algumas das cren&ccedil;as provenientes da forma&ccedil;&atilde;o religiosa e como se tornou, primeiro, anticlerical e, ulteriormente, ao retornar &agrave; f&eacute;, esp&iacute;rita e m&iacute;stica. &Eacute; que ela n&atilde;o nasceu anticlerical, tornou-se, disso dando testemunho atrav&eacute;s de v&aacute;rios escritos na imprensa agora repescados e explorados por Natividade Monteiro. Assim como n&atilde;o nasceu feminista, tornou-se, sendo as condi&ccedil;&otilde;es de desigualdade e maus-tratos em que as mulheres viviam que a levaram a abra&ccedil;ar o feminismo. E tamb&eacute;m n&atilde;o germinou republicana, tornou-se pelo que j&aacute; sofrera e com a progressiva consciencializa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica proporcionada pela desloca&ccedil;&atilde;o para a capital, poucos anos antes de eclodir a revolu&ccedil;&atilde;o de 5 de outubro. Atrav&eacute;s de Maria Veleda, Natividade Monteiro exemplifica como uma revolu&ccedil;&atilde;o p&ocirc;de ser, simultaneamente,  uma aspira&ccedil;&atilde;o tornada realidade e, ao n&atilde;o satisfazer as promessas, resvalar para o desencanto, ocupando a desilus&atilde;o e a descren&ccedil;a o lugar do sonho.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Mediante esta biografia apaixonada sobre uma figura apaixonante, cujos pressupostos e op&ccedil;&otilde;es s&atilde;o explicitados na <i>Introdu&ccedil;&atilde;o</i> (pp. 19-52), o leitor consegue recuperar o conv&iacute;vio com Maria Veleda, n&atilde;o raras vezes atrav&eacute;s de palavras e pensamentos preservados nos textos da imprensa e <i>Mem&oacute;rias</i>, e reconstruir as redes de sociabilidade, podendo – e devendo – esta obra funcionar, tamb&eacute;m, como espelho de muitas outras contempor&acirc;neas que abra&ccedil;aram os mesmos ideais e que n&atilde;o tiveram o ensejo de verem reconhecidos e preservados os respetivos legados.</p>     <p>Natividade Monteiro partilha, assim, com o leitor, uma vida de cidadania plena de afetos, de humanismo e de ideais &agrave; procura da felicidade pessoal e, simultaneamente, coletiva, sendo que, nas palavras de Anne Cova, autora da Apresenta&ccedil;&atilde;o (pp. 11-14) da obra, &laquo;esta excelente biografia de Maria Veleda vem preencher uma lacuna na historiografia e reveste-se de grande atualidade&raquo;. Que se leia e releia, pois, Maria Veleda (1871-1955) – <i>Uma professora feminista, republicana e livre-pensadora. Caminhos trilhados pelo direito de cidadania.</i></p>      ]]></body>
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