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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RECENSÕES</b></p>     <p><b>Karamessini, Maria; Rubery, Jill (org.) (2014), Women and Austerity: The Economic Crisis and the Future for Gender Equality, New York, Routledge, 358 pp.</b></p>     <p><b>Carina Jordão<sup>1</sup> </b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><sup>1</sup>Doutoranda em Relações de Trabalho, Desigualdades Sociais e Sindicalismo na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>O presente livro, organizado por Maria Karamessini e Jill Rubery, resulta do trabalho científico apresentado em dois colóquios internacionais intitulados «Women, Gender Equality and Economic Crisis» que tiveram lugar em Atenas, no final de 2011, e em Reykjavik, no início de 2012. Esta obra é uma iniciativa que, em resposta à austeridade, vem demonstrar de forma inexorável como a crise económica e financeira de 2008 afetou as mulheres, sobretudo nos países sujeitos aos maiores desafios em termos de ajustamento. Além disso, de certo modo, constitui-se também como uma atualização do clássico «Women and Recession», publicado pela Routledge em 1988 e reeditado em 2010.</p>     <p>Dividido em três partes, o livro reúne contributos de conceituados<i>/</i>as investigadores<i>/</i>as da Europa e dos Estados Unidos. A primeira parte é composta por três capítulos. No capítulo introdutório são apresentados os objetivos e a estrutura do livro e é feito um enquadramento genérico (Karamessini). O seguinte fornece um quadro analítico para estudar a situação das mulheres em contextos de austeridade (Rubery) e o terceiro dá conta das transformações operadas no contrato de género ao longo do tempo (O’Reilly e Nazio). A segunda parte abre com um capítulo que, grosso modo, analisa o impacto da crise de 2008 na igualdade no mercado de trabalho dos países da Europa, comparando a posição das mulheres e dos homens (Bettio e Verashchagina). De seguida, são apresentados os estudos de caso de nove países. Cada país é analisado num capítulo independente. Além dos Estados Unidos (Albelda), onde teve início a referida crise, são objeto de análise a Islândia (Thorsdottir), o Reino Unido (Rubery e Rafferty), a Hungria (Frey), a Grécia (Karamessini), a Irlanda (Barry e Conroy), Portugal (Ferreira), a Espanha (Gago e Kirzner) e a Itália (Verashchagina e Capparucci). A terceira e última parte é constituída por mais três capítulos. Enquanto o primeiro analisa como se tem processado a evolução da igualdade de género no seio da política de emprego da União Europeia (Villa e Smith), o segundo explora modelos de desenvolvimento alternativos ao neoliberalismo, mais inclusivos e equitativos, e passíveis de efetivamente integrarem uma perspetiva de género (Perrons e Plomien). O último capítulo reúne as conclusões (Karamessini e Rubery).</p>     <p>Esta coletânea de artigos, apresentada numa estrutura particularmente apelativa, proporciona uma viagem epistemológica empolgante por uma área do saber extremamente atual. Partindo de um conjunto de premissas que justificam cabalmente a escolha dos nove países objeto de estudo, é construído todo um argumento que, no seu conjunto, é revelador não só do impacto da austeridade na posição das mulheres no mercado de trabalho, mas também das suas implicações nos estados de bem-estar e nas políticas públicas relacionadas com a igualdade de género. Tal exercício, ao consubstanciar-se na análise comparativa de algumas das economias mais avançadas do mundo, torna esta obra um contributo científico extraordinário.</p>     <p>Uma das principais conclusões do livro é que a redução da desigualdade entre mulheres e homens no emprego, medida em termos de <i>gap</i>, foi uma das consequências mais imediatas da crise económica e financeira de 2008. Considerando indicadores como a taxa de desemprego, a taxa de emprego, a inatividade, o gap salarial não ajustado ou a taxa de risco de pobreza, constata-se que efetivamente os <i>gaps </i>diminuíram. Todavia, os dados compilados pelas<i>/</i>os várias<i>/</i>os autoras<i>/</i>es demonstram inequivocamente que essa redução se operou sobretudo pelo agravamento e deterioração da situação laboral dos homens e não pela melhoria da situação das mulheres, levando Karamessini e Rubery a concluir que «gender inequalities in employment and incidence of part-time and temporary work have narrowed because of greater job loss and spread of flexible forms of employment among men» (Karamessini e Rubery, p. 346). Efetivamente, numa primeira fase, a crise atingiu sobretudo os homens, que perderam muitos postos de trabalho, enquanto as mulheres – protegidas inicialmente pela segregação sectorial – acabaram por ser fortemente afetadas numa fase posterior, no seguimento da implementação das medidas de austeridade e de consolidação orçamental. Neste sentido, o congelamento e corte de salários, o aumento da idade da reforma, a retração do emprego ou a deterioração das condições de trabalho no setor público (que é o maior empregador feminino), comuns à generalidade dos países analisados, dão força ao argumento de que o aumento da igualdade laboral ocorre num quadro marcado pela regressão social, onde a intensificação e a desvalorização do trabalho conduzem à degradação das condições de emprego, quer dos homens, quer das mulheres. De qualquer modo, é importante reiterar que as desigualdades não desapareceram: elas persistem e tendencialmente em desfavor das mulheres.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Outra questão que julgo pertinente prende-se com as transformações desencadeadas e potenciadas pelas políticas austeritárias que, ao colocarem em causa os avanços conseguidos nos últimos anos, legitimam o (re)aparecimento de preocupações antigas, nomeadamente no que concerne à suposta irreversibilidade do espaço laboral conquistado pelas mulheres nas ditas economias desenvolvidas. Por um lado, constata-se que os níveis de emprego das mulheres estagnaram ou regrediram – na Grécia, por exemplo, a queda na taxa de emprego feminina em 2010 foi tão dramática que reverteu o progresso contínuo das últimas décadas no país – e, por outro lado, a reestruturação de empresas em sectores tradicionalmente masculinos, como a construção civil, deixou um maior número de mulheres como único ganha-pão da família, não raras vezes compelidas a conciliar o trabalho remunerado com o trabalho não pago, em casa. Simultaneamente, muitas mulheres vêm-se também a braços com as dificuldades adicionais resultantes dos cortes na educação e nos serviços relacionados com a prestação de cuidados às crianças. De facto, as consequência da crise e das políticas de austeridade no papel do Estado na promoção da igualdade são alarmantes e em Portugal, por exemplo, «Women are once again thrust back into the black box of the family, reducing them to their past status of dependants» (Ferreira, p. 225).</p>     <p>As questões acabadas de referir estão intrinsecamente relacionadas com uma notável queda do compromisso político – a nível nacional e supranacional – com as políticas e instituições promotoras da igualdade de género. Por um lado, paulatinamente e de forma subtil, a igualdade entre mulheres e homens tem vindo a perder visibilidade enquanto objetivo político no seio da União Europeia e o carácter prioritário que detinha tem vindo a dissipar-se. Esta situação é peculiarmente notória em alguns dos documentos estratégicos mais importantes, nomeadamente na Estratégia Europeia de Emprego e na estratégia Europa 2020, como bem demonstram Villa e Smith. Além disso, a par deste desinvestimento nas políticas públicas, a austeridade desencadeou igualmente o desmantelamento de (infra)estruturas essenciais à promoção da igualdade entre mulheres e homens por via de reestruturações, fusões, cortes orçamentais e encerramentos.</p>     <p>A austeridade, enquanto antídoto usado no combate à crise, parece portanto ter espoletado um conjunto de efeitos secundários capazes de aniquilar o progresso alcançado pelas mulheres nas últimas décadas. Afigura-se por isso necessário acautelar esta situação, o que implica repensar o conceito e a forma de medição da igualdade de género em termos laborais, (re)colocando-a no âmago da agenda política europeia como um objetivo central e prioritário capaz de sustentar modelos de desenvolvimento melhores e alternativos ao neoliberalismo. Karamessini e Rubery reforçam precisamente esta ideia ao afirmarem: «The per-suit of gender equality needs to be considered part of the solution to the current endemic crisis and not treated as a luxury policy to be pursued only once growth has returned» (Karamessini e Rubery, p. 349).</p>     <p>É sobretudo destas matérias que trata o livro. Mas, paralelamente, somos brindados com outros assuntos não menos importantes – como o papel da negociação coletiva, as transformações operadas nos regimes de género, as desigualdades intra-género ou o papel das mulheres trabalhadoras enquanto ‘<i>buffers</i>’– que, indubitavelmente, tornam a sua leitura ainda mais aliciante. A magnitude desta obra, que em muito extravasa o conteúdo do presente texto, reveste-a por isso de carácter obrigatório para todos<i>/</i>as quantos<i>/</i>as procuram de forma profícua conhecer e<i>/</i>ou estudar a problemática da igualdade entre mulheres e homens, especialmente na esfera laboral.</p>      ]]></body>
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