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</front><body><![CDATA[ <p style="text-align: right;"><b>RECENSÕES</b></p>     <p><b>Ollagnier, Edmée (2014), Femmes et défis pour la formation des adultes. Un regard critique non-conformiste, Paris, L'Harmattan, 258 pp.</b></p>     <p><b>Teresa Pinto<sup>1</sup> </b></p>     <p>&nbsp;</p>      <p><sup>1</sup>CEMRI/ Universidade Aberta, Portugal</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Esta obra assinada por Edmée Ollagnier é o fruto de muitos anos de investigação e de experiência em formação de pessoas adultas e traduz uma  atitude não-conformista explícita no que respeita à igualdade de mulheres e homens, assumida pela autora no subtítulo. A autora aprofunda e  desenvolve neste livro a problemática que já tinha enunciado numa publicação de 2009 intitulada <i>Femmes et formation: tout change… et tout reste à  faire </i>(Cahiers de la Section des Sciences de l’Éducation, nº 123, Genève, Université de Genève). A obra organiza-se em sete capítulos,  apresentando cada um deles uma seleção de referências bibliográficas que se afiguram muito úteis para quem quiser aprofundar cada um dos respetivos  temas.</p>     <p>Nicole Mosconi, que prefacia a obra, sublinha a atitude crítica de Edmée Ollagnier quando esta se interroga se, no campo da educação de pessoas adultas, todas as pessoas e entidades que se declaram favoráveis à igualdade de mulheres e homens a querem verdadeiramente instaurar e se a forma como se organiza a formação de pessoas adultas persegue esse objetivo.</p>     <p>Confrontada, ao longo dos anos, por situações discriminatórias na formação de pessoas adultas, a autora decidiu denunciá-las nesta obra, beneficiando da liberdade de expressar livremente as suas posições sem constrangimentos académicos ou de carreira. Assumiu, assim, a utilização da primeira pessoa do singular, o «eu», usualmente evitada no campo da ciência, mas que permite tomar posição nas problemáticas em debate. Partilhando um capital de saberes e de experiências resultantes de leituras, investigações, situações de formação e de avaliação, encontros e trocas estimulantes em diversos meios e em diferentes países, a autora parte da convicção de que os conceitos, os instrumentos e as estratégias pedagógicas elaboradas para e com as mulheres são transferíveis para outras situações de formação.</p>     <p>Um outro objetivo desta obra prende-se com a dupla necessidade de, por um lado, despertar as e os especialistas nos estudos de género para as especificidades da formação de pessoas adultas e, por outro lado, incutir nas e nos profissionais da formação de pessoas adultas as lentes do género. O primeiro capítulo responde a esta segunda necessidade. Funcionando como um capítulo preliminar, percorre um conjunto de debates e de conhecimentos sobre as discriminações sobre as mulheres em contextos de formação de pessoas adultas, recobrindo os domínios, quer das desigualdades e das injustiças, quer das formas de organização, de resistência e de (re)ação.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A autora dedica o segundo capítulo, à partilha da produção teórica, sobretudo francófona e anglófona, sobre o género na formação de pessoas adultas, sublinhando a importância da crítica e da pedagogia feministas para a compreensão da presença das marcas do género nos modos de produção do conhecimento e na perceção da presença de relações de poder e de formas de opressão que refletem uma dominação androcêntrica.</p>     <p>O teor dos três capítulos seguintes apoia-se em investigações realizadas pela autora e nas suas próprias experiências em diversas partes do mundo. O terceiro capítulo é dedicado à relevância da formação de base para a inserção profissional das mulheres. No início, a autora pronuncia-se sobre a questão de saber se é preferível formar nas questões de género ou transversalizar o género na formação. Considerando que, numa perspetiva feminista em educação de pessoas adultas, o objetivo central será de «generizar a formação»<sup>1 </sup>(p.85), a autora considera que a formação centrada em conteúdos sobre o género é fundamental, não só pelos conhecimentos adquiridos, mas pelos efeitos que daí advêm na alteração da maneira de ser e de fazer das pessoas em formação. É de destacar a utilidade das referências e hiperligações para instituições que disponibilizam na internet maletas e ferramentas pedagógicas sobre género e formação (pp. 87-92). Seguidamente, a autora sustenta que a formação de base é essencial para a autonomia das mulheres, pois quebra o seu isolamento e permite-lhes aprender a aprender, sendo que a alfabetização é um requisito prévio à formação de base, «a base da formação de base» (p. 92). No entanto, a alfabetização facilita o acesso das mulheres aos recursos locais e capacita-as a gerir melhor as questões de educação das suas crianças e de saúde das suas famílias, bem como a melhor compreender os seus direitos conjugais e os seus direitos face a situações de violência doméstica.</p>     <p>O quarto capítulo aborda o papel da formação para o envolvimento no desenvolvimento local, o que implica sair da esfera privada para a esfera pública, assumir responsabilidades reconhecidas pela coletividade, o que pode ser facilitador da inserção socioprofissional. Apetrechar as mulheres de saberes e competências que as convertam em agentes do seu quotidiano e lhes permitam desempenhar um papel económico para si e para os outros constitui um dos desafios da formação de pessoas adultas. Neste sentido, a formação em tecnologias da informação e comunicação (TIC) é fundamental e deverá adequar-se aos instrumentos mais usados no território em causa. A autora defende que, em determinadas situações, designadamente quando as mulheres estão pouco afeitas a relações com pessoas exteriores à sua família ou comunidade de vizinhança, por exemplo população de origem estrangeira, a formação não-mista, ou seja, desagregada por sexo, poderá ser uma mais-valia para a sua aprendizagem. O capítulo termina com um apontamento crítico: estando a formação das mulheres dependente das políticas públicas e estando estas dependentes, por sua vez, de orientações estratégicas de cariz político e económico, o discurso da domesticidade e o desinvestimento na formação das mulheres ressurge em períodos de crise.</p>     <p>No capítulo seguinte, a autora introduz-nos no mundo do trabalho e das empresas, aquele que ela afirma conhecer melhor e aquele, também, sobre o qual existe produção escrita mais abundante sobre as desigualdades entre mulheres e homens. Fazendo um breve percurso pelas zonas de desigualdade, desde a viragem do século XIX para o XX até ao presente, a autora destaca a relação entre a formação e as condições e exigências no espaço e no tempo e aborda as lógicas de organização da formação em função dos setores de atividade, das profissões e dos empregos. O otimismo é o tom de encerramento deste capítulo, pois, apesar de denunciar os limites dos diplomas de formação inicial e contínua na justa afirmação das mulheres nas empresas, a autora considera que os exemplos apresentados ao longo do capítulo demonstram que as iniciativas de formação contribuem para a igualdade salarial entre mulheres e homens e para melhorar as condições de trabalho. Para que tal suceda torna-se necessário que as entidades empregadoras e as autoridades políticas assumam a relevância da igualdade.</p>     <p>O sexto capítulo inicia-se com uma abordagem crítica da contradição entre o que as leis e medidas propõem para as mulheres, designadamente os utensílios internacionais, e o que as mulheres devem desenvolver para alcançar o reconhecimento das suas competências. Num segundo momento, a autora, reafirmando que as mulheres, qualquer que seja o seu contexto de inserção, têm sempre de demonstrar que estão à altura das expetativas do sistema económico, sustenta que a naturalização das competências atribuídas às mulheres as leva a desenvolver estratégias de defesa para alcançar o seu lugar, sendo que a formação é uma forma de conferir visibilidade e reconhecimento a todas as aprendizagens adquiridas, ao longo do tempo, na experiência profissional ou na esfera privada. Todavia, o acesso à formação terciária permanece mais difícil para as mulheres e, para as mulheres adultas ainda mais, num meio onde, segundo a autora, os homens representam as mulheres como «adoravelmente inferiores, tendo necessidade de ser protegidas e supervisionadas» (p. 217). Distintamente das mulheres jovens, as adultas têm mais dificuldade em estabelecer redes de apoio e têm menos tempo para as alimentar. As entidades e agentes de formação podem desempenhar um papel crucial, mas a autora interroga-se sobre se as e os profissionais da formação estão cientes e têm suficiente preparação para aproximar mais as intenções políticas das necessidades das mulheres.</p>     <p>O último capítulo interpela, precisamente, as formadoras e os formadores como agentes centrais nas questões que envolvem as mulheres e a formação de públicos adultos. Convocando abordagens e instrumentos, provenientes de reflexões feministas, para ajudar as e os profissionais da formação a melhor integrar as questões relativas ao género na sua atividade, a autora lembra que, independentemente do público destinatário e da situação e conteúdo da formação, cada formadora ou formador tem de ultrapassar os seus próprios medos se quiser conduzir o seu público a «uma tomada de consciência e a alterações de atitudes em matéria de relações sociais de sexo» (p. 221). A autora sublinha a importância de «uma abordagem de género em formação» (p. 222) de modo a ter sempre presentes as realidades das mulheres e as suas necessidades, a fim de melhor «concretizar a igualdade de acesso ao saber, numa perspetiva de acesso às oportunidades da vida» (p. 223).</p>     <p>Fruto de reflexões e de experiências amadurecidas ao longo de anos como formadora e formadora de formadores e formadoras, na universidade e fora dela, este livro de Edmée Ollagnier oferece-nos uma leitura cativante e dela poderão beneficiar, quer profissionais de formação de pessoas adultas, quer especialistas nas questões de género, que são também, na sua maioria, profissionais de formação de pessoas adultas.</p>      ]]></body>
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