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<institution><![CDATA[,Universidade de Coimbra Centro de Estudos Sociais ]]></institution>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RECENSÕES</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>   <b><i>Rethinking Gender in Revolutions and Resistance. Lessons from the Arab World, </i>edited by Maha El Said, Lena Meari, &amp; Nicola Pratt. London: Zed Books, 2015, 262 pp.</b></p>     <p><b>Verónica Ferreira</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Portugal</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>«Rethinking Gender in Revolutions and Resistance», editado por Maha El Said, Lena Meari e Nicola Pratt, foi o resultado do <i>Workshop</i> homónimo que marcou o fim de um projeto de três anos desenvolvido e financiado pela <i>British Academy, </i><i>Centre for the Study of Women and Gender</i>, Universidade de Warwick, Reino Unido, e Institute of Women&#8217;s Studies, Universidade de Birzeit, Palestina. </p>     <p> O livro recolhe contributos de investigadoras provenientes de universidades do Reino Unido (RU), Egito, Emirados Árabes Unidos (EAU) e Palestina. Os artigos dividem&#8209;se em três partes temáticas. A primeira, «The Malleability of Gender and Sexuality in Revolutions and Resistance», tem como ponto central as identidades e subjetividades de género que emergem em momentos de transição, i.e., a forma como mulheres e homens desafiam, subvertem e conferem novos significados às normas de género existentes com o objetivo de resistir ao autoritarismo e colonialismo.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> No primeiro capítulo, «Reconstructing Gender in Post&#8209;Revolution Egypt», Shereen Abouelnaga (Universidade do Cairo, Egito) analisa a forma como a confrontação discursiva com as normas de género hegemónicas permite gerar novos processos de transformação dessas normas (p. 52). De acordo com Abouelnaga, ao criarem uma subjetividade feminina «apropriada» &#8211; modesta, privada etc. &#8211; e combaterem, ao mesmo tempo, as formas de subjetividade subversivas através da violência de género, as forças e instituições políticas egípcias pós&#8209;revolução permitiram a denúncia dessa mesma subjetividade como construção forçada (pp. 39&#8209;40). A resistência discursiva das mulheres no rescaldo de episódios públicos de violência levou ao processo de subversão da imagem da vítima, substituindo&#8209;a pela da guerreira (pp. 49&#8209;52).</p>     <p> Lena Meari (Universidade de Birzeit, Palestina), no capítulo «Resignifying &#8216;Sexual&#8217; Colonial Power Techniques», explora a forma como os soldados israelitas tentam subjugar as mulheres palestinianas por meio de perceções <i>pre&#8209;conceituosas </i>da sua identidade, normas de género e sexualidade. Recorrendo a entrevistas a mulheres alvo de tortura em interrogatórios israelitas, a autora mostra&#8209;nos como o <i>sumud </i>&#8211; «steadfastness under interrogation» (p. 60) &#8211;, enquanto <i>praxis </i>revolucionária, abre possibilidades de conferir novos significados a estas técnicas e transforma as normas de género/sexualidade instrumentalizadas por soldados israelitas (e.g. modéstia e honra) em formas de resistência e em novas subjetividades. Ou seja, levam à re&#8209;significação das normas de género e sexualidade por parte das mulheres e homens palestinianos.</p>     <p> A última contribuição, «A Strategic Use of Culture», de Hala G. Sami (Universidade do Cairo), tem como ponto de partida a afirmação das mulheres no espaço público egípcio no período pós&#8209;revolução. Num período marcado pelos debates sobre o papel da mulher no espaço público, a autora argumenta que, fazendo uso da intertextualidade cultural nas suas produções artísticas, as mulheres conseguem reclamar o espaço público através da apropriação de uma história nacional feminina egípcia (pp. 101&#8209;103).</p>     <p> A segunda parte desenvolve o tema «Body and Resistance». O corpo é aqui estudado como ferramenta nas estratégias de resistência empregues pelas mulheres na criação de novas formas hegemónicas de comportamento corporal. Por meio destas estratégias, subvertem a ideia do corpo como espaço de controlo durante as transformações sociais e políticas desde o fim de 2010.</p>     <p> O texto «She Resists» de Maha El Said (Universidade do Cairo) tem como âmbito de análise as estratégias de resistência de Aliaa Magda Elmahdy, conhecida como a <i>blogger </i>nudista, e Sama El&#8209;Masry, a dançarina do ventre <i>youtuber</i>, no período pós&#8209;revolução egípcia. No entanto, de acordo com a autora, as diferentes reações às suas formas de luta devem&#8209;se à conjugação, ou não, de elementos culturais na utilização instrumental do corpo. Para a autora «[&#8230;] effective agency has to be in accordance with national and cultural identity» (p. 129). Se, por um lado, Elmahdy faz uso do corpo nu como forma de luta ao estilo <i>Femen</i>, abalando o quadro conceptual e normativo tradicional e levando a uma associação à subjetividade ocidental; por outro, El&#8209;Masry, apesar de não se associar à agenda feminista, é encarada como a encarnação da agência subalterna que nasce da cultura popular contra a hegemonia de uma elite de políticos e religiosos (p. 129). Ao fazer uso de elementos culturais nas suas performances é bem recebida pelos revolucionários egípcios.</p>     <p>No capítulo «Framing the Female Body», Abeer Al&#8209;Naijar e Anoud Abusalim (Universidade Americana de Sharjah, EAU) refletem sobre as formas como os <i>media </i>nacionais recebem as estratégias de luta de Elmahdy e da tunisina Amina boui, ao usarem os corpos «[&#8230;] to make political statements, in defiance of the authorities but also patriarchy» (p. 150). A condenação, através do questionamento patológico e moralista do seu comportamento, segundo as autoras, «[&#8230;] was a product of the non&#8209;conventional combination of the message and the medium, in that political and social messages were communicated through uncovering the human body» (p. 151).</p>     <p>O tema é encerrado por «Women&#8217;s Bodies in Post&#8209;Revolution Libya» de Sahar Mediha Alnaas e Nicola Pratt (Universidade de Exeter e Universidade de Warwick, respetivamente, RU), onde se relaciona o processo de transição política da Líbia com a afirmação de um projeto islâmico nacional, no qual os corpos das mulheres são a marca mais visível na distinção entre o passado e o presente a construir. Para compreender as formas de resistência que as mulheres adotaram na Líbia é necessário mover o foco da análise para além das instituições formais e explorar as suas ações quotidianas.</p>     <p> Por último, «Gender and the Construction of the Secular/Islamic Binary» traz&#8209;nos artigos que desconstroem o paradigma binário que opõe secular/moderno/progressivo ao religioso/pré&#8209;moderno/tradicional. Ao ler a última parte do livro, compreendemos como as análises europeias e anglo&#8209;saxónicas observaram os períodos de sublevação económica e social de forma descontextualizada (p. 20), baseando&#8209;se num quadro conceptual orientalista. O resultado deste referencial binário levou à interligação entre os movimentos das mulheres e o discurso de modernização nacional dos regimes, dificultando a sua independência em relação aos regimes e levando à escolha, por parte das mulheres muçulmanas de esquerda, entre discursos seculares coloniais e discursos islâmicos locais (<i>idem</i>).</p>     <p> Omaina Abou&#8209;Bakr (Universidade do Cairo), no capítulo «Islamic Feminism and the Equivocation of Political Engagement», analisa a complexidade desta relação ao criticar o feminismo estatal/secular pela sua associação ao regime corrupto de Mubarak. Associação que se repetiu com a deposição de Morsi e subida ao poder do General El&#8209;Sisi (pp. 181&#8209;204). Na Tunísia, Aitemad Muhanna (London School of Economics, RU) chama a atenção, no capítulo «Islamic and Secular Women&#8217;s Activism and Discourses in Post&#8209;Uprising Tunisia», para a partilha de objetivos comuns &#8211; acesso à educação, emprego, participação política e violência contra as mulheres (p. 23; pp. 222&#8209;227) &#8211;, bem como a aprendizagem mútua através da troca de experiências entre autodenominadas ativistas seculares e islâmicas.</p>     <p> Num período em que se abordam questões relativas à autonomia e subjetividade das mulheres, identificadas genericamente como muçulmanas, contributos como o destas investigadoras são de grande importância, na medida em que se esforçam por analisar e compreender as continuidades e ruturas nos papéis, normas e relações de género resultantes dos momentos de sublevação política, a partir das experiências da Primavera Árabe, segundo uma perspetiva crítica feminista. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Pretendem captar a constituição complexa das subjetividades e agências femininas face a estruturas de poder múltiplas e cruzadas, dentro de um contexto de apropriação e instrumentalização do corpo feminino como marcador entre o passado e o presente por forças seculares e islamitas nos processos de mudança ou transição sociopolítica pós&#8209;revolução. Os seus corpos são simultaneamente territórios de luta e ferramentas de resistência. </p>     <p> Porém, o livro falha pela falta de análise das condicionantes de classe. Ao analisarem os casos de estudo não têm em consideração formas de resistência de mulheres pobres e/ou de zonas rurais. Paralelamente, não é questionado o conceito de género, nem é pensado em profundidade o conceito de masculinidade ou tida em consideração a questão da orientação sexual como identidade articulada. O foco é exclusivamente nas ações das mulheres e movimentos com mais visibilidade pública, sendo eles das elites, da classe média ou habitantes das zonas urbanas/capitais. Esta falha é tida em conta pelas editoras ao afirmarem, no capítulo final referente à conclusão, «we should ask whether the politics of resignification and subversion of gender norms [&#8230;] operate to accommodate neo&#8209;liberal politics and to marginalize socio&#8209;economic concerns of poverty, employment, housing and education or to ignore the plight of non&#8209;nationals, including [&#8230;] millions of refugees [&#8230;]» (p. 239).</p>     <p> Da mesma forma, seria interessante explorar a participação feminina na guerra civil e as estratégias de luta e resistência que as mulheres assumiram durante o período de protesto e resistência ao regime de Bashar Al&#8209;Assad na Síria, i. e., a subversão dos papéis, normas e relações de género socialmente aceites. Este caso acabou por ficar fora do espoco do livro. </p>     <p>Não obstante, o livro contribui para melhorar a nossa compreensão da articulação entre género, cultura, nação e contexto pós&#8209;colonial enquanto formadores das experiências das mulheres, em especial em conjunturas de sublevação e transição sociopolítica, movendo a análise essencialista da identidade para as práticas polimorfas de significação (Butler, 1999, pp. 183&#8209;84 <i>apud </i>p. 236).</p>      ]]></body>
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