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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RECENSÕES</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Women&rsquo;s <i>Activisms in Africa</i>. Struggles for Rights and Representation,    editado por Balghis Badri e Aili Tripp, Londres: Edição Zed Books, 2017, 250    pp. </b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Sara Vidal</b></p>     <p> Mestre Estudos Africanos, ISCTE-IUL, Lisboa, Portugal </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>A obra <i>Ativismo de Mulheres em África (Women&rsquo;s Activism in Africa) </i>explora    a mobilização de mulheres no continente africano. Trata-se de uma edição conjunta    entre Balghis Badri – professora de Antropologia Social e diretora do Instituto    Regional de Género, Diversidade, Paz e Direitos na Universidade de Ahfad, no    Sudão, e de Aili Mari Tripp – professora de Ciência Política e estudos de género    e das mulheres, autora de diversas obras sobre os movimentos de mulheres em    África.</p>     <p> A obra divide-se em 10 capítulos, nos quais 11 mulheres investigadoras e ativistas    contextualizam e analisam o movimento de mulheres desde as regiões do Norte    de África à África Subsariana. Constitui uma importante exposição do ativismo    das mulheres africanas, tendo em consideração o seu papel desde as lutas anticoloniais    ao período pós-independência até à atualidade. Inclui a análise das várias formas    de ação coletiva à volta de questões dos direitos das mulheres (como o direito    à terra, à herança, à representação feminina política).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> No capítulo 1, Badri e Tripp conduzem-nos por uma contextualização acerca    das «Influências africanas nos direitos das mulheres globais». Aqui, é destacada    a Conferência da Mulher em Beijing (1995), devido à sua influência na agenda    política da maioria dos governos africanos. A ênfase é clara – os ‘direitos    humanos das mulheres são também direitos humanos&rsquo;. Daqui todo o discurso universal    neutro masculino e a subalternização histórica das mulheres do Sul começa a    ser contestado.</p>     <p> As autoras realçam que a violência contra as mulheres tem sido um dos alvos    das demandas dos movimentos de mulheres em África. Contudo, o objetivo nunca    foi mostrar as mulheres como meras vítimas, apesar dos <i>media</i> hegemónicos    internacionais, frequentemente, representarem as mulheres africanas como meras    vítimas de HIV/AIDS, Ébola, tráfico, fome, violência e guerra. De facto, o ativismo    das mulheres em África não tem sido adequadamente reconhecido. É raro ouvir-se    falar pelos meios de comunicação hegemónicos acerca de mulheres africanas que    têm desafiado as estruturas dominantes patriarcais onde estão subjacentes a    marginalização social e cultural. Destacam, por isso, diversos movimentos que    ganharam visibilidade – é o caso do Movimento do Cinturão Verde, fundado por    Wangani Maathai, que se tornou uma força de mudança política no Quénia em 1990;    o movimento de paz da Libéria, que reuniu centenas de mulheres contra o fim    da guerra de civil em 2003. Em Marrocos, na Tunísia e no Egipto, as mulheres    estiveram também na vanguarda dos movimentos sociais para a reforma social de    2011. </p>     <p>No capítulo 2, Nana Pratt analisa «A evolução do movimento de mulheres na Serra    Leoa». Elabora, particularmente, o ativismo de mulheres durante e após a guerra    civil (1991-2002) e o seu alcance coletivo no restabelecimento e construção    da paz e nos processos da democratização. Mais uma vez, temos um caso em que    «as mulheres começaram a falar abertamente» (p. 39), em consequência do colapso    da economia e do governo. Em demanda pelo fim da guerra e por novas eleições    democráticas, simultaneamente, consciencializavam a sociedade sobre a violência    contra as mulheres e crianças. O Fórum de Mulheres foi criado em 1994, resultando    numa plataforma de diversas organizações e grupos de mulheres da Serra Leoa    e de vários países africanos. Pratt aponta que o fórum tem sido uma «força na    advocacia feminina em todas as questões relacionadas com preocupações, necessidades    e interesses de mulheres» (p. 39). </p>     <p>No capítulo 3 são exploradas formas de ação coletiva relacionadas com a economia    informal. Akua Britwum e Angela Akorsu analisam as «Associações de mercados    de mulheres no Gana». As autoras contextualizam o seu surgimento na sua raiz    histórica. As mulheres recorreram a associações comerciais-comunitárias «que    incorporam sistemas de apoio e de regulação» (p. 49), devido à exclusão da economia    formal e da falta de sistemas de proteção social, de forma a orientar as suas    atividades económicas nos mercados urbanos. Atualmente, no Gana, as mulheres    perfazem um total de 91% da economia informal enquanto que a percentagem no    caso dos homens é de 81%. </p>     <p>De acordo com as autoras, a economia informal tem importantes implicações no    que diz respeito à promoção dos direitos de trabalho das mulheres e segurança.  </p>     <p>Lilia Labidi, por sua vez, no capítulo 4, remete-nos para uma análise antropológica    e histórica sobre «Literatura de denunciação das mulheres tunisianas». Ela mostra    o modo como este estilo de literatura serviu para mulheres darem testemunhos    pessoais e coletivos das várias formas de opressão que experimentavam – o patriarcado,    o colonialismo/imperialismo e a ditadura. Após e com a Primavera Árabe, «uma    nova literatura online tornou-se acessível para um público mais amplo» (p. 63).    O zaja; forma poética que usa expressões informais árabes para expressar não    só uma visão do «eu» e do mundo, mas também para demonstrar a situação política    e cultural na Tunísia. </p>     <p>No capítulo 5 é analisado o «Movimento feminista em Marrocos». Fatima Sadiqi    descreve os 70 anos do movimento feminista em Marrocos, que é caracterizado    «pela mudança e continuidade, resiliência e capacidade de adaptação aos para    doxos da tradição e da modernidade, bem como da vida urbana e rural» (p. 98).    A autora frisa que o movimento nasceu no calor da luta anticolonial contra a    colonização francesa (1912-56), sofreu sob a construção do Estado e ganhou maturidade    com a globalização e a política islã, emergindo em 2011 com a Primavera Árabe    como central na «elaboração de políticas» (p. 98). Os maiores desafios que encontram    são as políticas tumultuosas, a crise económica e a falta persistente de oportunidades    femininas e a pobreza. </p>     <p>No capítulo 6, «Direitos das mulheres e movimento de mulheres no Sudão (1952-2014)»,    Nagar e Tønnessen analisam criticamente a história do movimento de mulheres    sudanesas. Refletem que, «desde a independência, o movimento de mulheres foi    fragmentado em diferentes grupos» (p. 121), devido a ruturas geracionais, à    centralização urbana, diferenças de classes e divisão islã-secular. </p>     <p>Todavia, as autoras demonstram que na última década várias ONG de mulheres    têm lutado pela reforma de leis discriminatórias contra as mulheres. É evidente,    na agenda política das organizações de mulheres, o uso de discursos feministas    que desafiam as leis islâmicas sudanesas. </p>     <p>Acerca do «Movimento de mulheres na Tanzânia», no capítulo 7, Aili Tripp ressalta    o facto da sociedade tanzaniana ser culturalmente pluralista. Desde o movimento    de independência, mulheres muçulmanas e cristãs têm trabalhado conjuntamente,    demonstrando um papel importante na sensibilização da discriminação e violência    contra as mulheres. Todavia, a autora sublinha que o movimento de mulheres na    Tanzânia tem enfrentado diversos desafios. No pós-independência houve uma tendência    política de unir as mulheres em prol dos interesses nacionalistas e políticos    do partido no poder. No entanto, com o processo de democratização e aumento    das liberdades civis, sentiu-se a necessidade de se criarem organizações autónomas,    apartidárias e feministas. Estas tinham assim o objetivo de pressionar e influenciar    o governo tanzaniano para mudanças legislativas e constitucionais.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> De forma geral, os movimentos de mulheres revelam as lutas e as resistências    face a um estado patriarcal e às práticas culturais e sociais sexistas. Este    é também o caso do «Movimento de mulheres no Quénia», descrito por Regina Mwatha    no capítulo 8. A sua base é formada em comunidades tradicionais, onde as mulheres    se ajudam mutuamente nos mais diversos sectores, nomeadamente económico, social,    cultural e político. </p>     <p>No capítulo 9, «Mulheres se organizando pela libertação na África do Sul»,    é demonstrado como o fim do apartheid e a ascensão do governo democrático simbolizaram    o confronto com o Estado e, em simultâneo, o engajamento de organizações de    mulheres no processo de criação de uma nova constituição, para que a igualdade    de género se integrasse nas políticas. A autora descreve como estão atualmente    a emergir novos tipos de alianças sociais na África do Sul (p.e. o movimento    estudantil; em 2015 houve uma revolta e mobilização de estudantes pela descolonização    do currículo académico e pelo fim da dominação ocidental na Academia).</p>     <p>Badri contribui no capítulo 10 com a análise «Mulheres africanas ativistas:    contribuições e desafios em frente». Segundo a mesma, as ativistas e, principalmente,    as que se autodeclaram como feministas enfrentam desafios multifacetados: 1)    o patriarcado subjacente em todas as estruturas e instituições; 2) as divisões    ideológicas e políticas no ato de criar alianças; 3) as preocupações socioeconómicas    e pobreza permanente; (4) os constrangimentos políticos, o fundamentalismo e    a falta de liberdades civis; e 5) a capacidade das organizações de mulheres    de efetuarem mudanças efetivas. </p>     <p>Na verdade, como afirma a autora, o patriarcado não é único no continente africano    – é parte de um sintoma global. Contudo, é preciso ter em consideração as suas    especificidades contextuais. Torna-se necessário refletir que as relações de    poder continuam severamente não-desconstruídas e que o privilégio masculino    continua a ser beneficiado. No entanto, a autora conclui positivamente que o    futuro das mulheres africanas ativistas será mais brilhante devido ao uso das    redes sociais, principalmente com o movimento de jovens feministas. </p>     <p>Por fim, e claramente, esta obra desafia a ideia de que as ativistas africanas    foram simplesmente influenciadas por agendas externas ocidentais e inclusive    pelo feminismo ocidental branco. Ao longo de cada caso de estudo, entende-se    como as mulheres se organizaram e forjaram criativamente e de maneira ativa    os seus movimentos através das suas próprias preocupações, conceptualizações    e agendas políticas.</p>      ]]></body>
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