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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RECENS&Otilde;ES</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><i>Ecos de Freire e o Pensamento Feminista: Di&aacute;logos e Esclarecimentos</i>, coordenado por Eunice Macedo. Porto: IPFP, CRPF e CIIE-FPCEUP, 2017, 239 pp. </b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Alexandra Carvalho</b> </p>     <p>Instituto Paulo Freire de Portugal &amp; CIIE-FPCEUP, Portugal </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Nas Primeiras Palavras inaugura-se um tempo em que ecoar&atilde;o vozes, que se encontram neste livro, a partir de diferentes contextos disciplinares, pol&iacute;ticos e socioculturais, da Argentina, Brasil, Canad&aacute;, Espanha, M&eacute;xico e Portugal. Este entretecer emerge de outros encontros em que algumas autoras participaram na Universidade Estadual Paulista, em Mar&iacute;lia, no Brasil, cruzando olhares sobre g&eacute;nero e direitos humanos. Foi a partir do <i>movimento</i> dessa diversidade de mulheres que este livro emergiu como a&ccedil;&atilde;o, que prolonga esse <i>movimento </i>em m&uacute;ltiplos <i>espa&ccedil;os</i>, <i>tempos</i>, com <i>for&ccedil;as </i>e <i>inten&ccedil;&otilde;es </i>congregadoras. Pode dizer-se, com Freire, que a leitura do mundo precedeu a leitura e a escrita das palavras desta obra – a&ccedil;&atilde;o em busca de mesclas entre pensamentos feministas e freiriano. </p>     <p>&Eacute; ao encarar este livro como a&ccedil;&atilde;o situada num <i>tempo</i>, desenvolvendo-se nas esferas do quotidiano de cada uma das pessoas que o escrevem, que retomo Daniel Stern. &Agrave; luz da proposta deste autor, a leitura revela-o como <i>evento din&acirc;mico</i>, gerado a partir de muitos outros eventos promovidos e vividos por cada uma das autoras e demais pessoas envolvidas na sua produ&ccedil;&atilde;o enquanto objeto. Importa referir que Stern fala de <i>formas din&acirc;micas </i>ou <i>formas de vitalidade<a name="top1" id="top1"></a></i><sup><a href="#1">1</a></sup> para designar <i>eventos din&acirc;micos</i> que constituem a a&ccedil;&atilde;o humana e, portanto, esta obra. Se, para o autor, uma das primazias das <i>formas de vitalidade </i>reside no facto de serem comunic&aacute;veis, partilh&aacute;veis e at&eacute; contagiosas, considera-se original e contagiante a coer&ecirc;ncia simb&oacute;lica comunicada na est&eacute;tica da capa deste livro, a qual tem autoria partilhada: as m&atilde;os da escultora das bonecas tridimensionais, o olhar do fot&oacute;grafo que as perspetiva e um segundo olhar, tamb&eacute;m bidimensional, da designer que projeta o objeto tridimensional livro, num cruzamento subjetivo que se estende ao seu interior.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Tendo acompanhado a constru&ccedil;&atilde;o da obra e lendo-a – a partir da introdu&ccedil;&atilde;o que precede as suas tr&ecirc;s partes – recebi como que um convite intencional para experienciar a diversidade de olhares, lan&ccedil;ando o meu pr&oacute;prio olhar &agrave;s tens&otilde;es epistemol&oacute;gicas em presen&ccedil;a, nos momentos em que argumento e contra- -argumento dialogam, procurando um constructo s&oacute;lido. Assim, o que se torna mais apelativo &eacute; o jogo entre afirma&ccedil;&atilde;o e contradit&oacute;rio que d&aacute; corpo a uma dialogia freiriana.</p>     <p> Neste quadro epistemol&oacute;gico, na minha leitura, identifico os cinco elementos das <i>formas de vitalidade </i>na Introdu&ccedil;&atilde;o de Sofia Marques da Silva, que alerta para a necess&aacute;ria reflex&atilde;o acerca do facto de a Ci&ecirc;ncia, produzindo conhecimento que &eacute; &laquo;legitimado, filtrado e vigiado&raquo;, constituir em si uma linguagem que contribui para a &laquo;reprodu&ccedil;&atilde;o de vis&otilde;es de mundo dominantes e imperativas e para o silenciamento de outras falas e propostas&raquo; (Silva 2017, 13). Ao desenhar a quest&atilde;o &laquo;Porque regressamos a determinados/as autores/as?&raquo;, e em di&aacute;logo com os textos que comp&otilde;em o livro, a autora reconhece que, se realizada numa &laquo;saud&aacute;vel negocia&ccedil;&atilde;o de sentidos te&oacute;ricos e metodol&oacute;gicos&raquo;, a interpreta&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica de quest&otilde;es sociais e educacionais, com Freire, pode contribuir para &laquo;processos de descoloniza&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica e metodol&oacute;gica&raquo; (Silva cit. in Silva 2017, 13). Num vaiv&eacute;m reflexivo entre educadora e investigadora, afirma que a valoriza&ccedil;&atilde;o da experi&ecirc;ncia nas Ci&ecirc;ncias Sociais e Humanas e da Educa&ccedil;&atilde;o reclama altera&ccedil;&otilde;es quer de paradigma quer de m&eacute;todo. Desafia-nos a pensar a investiga&ccedil;&atilde;o como pr&aacute;tica inserida num campo de for&ccedil;as invis&iacute;veis, com uma linguagem e cultura dominantes. No debate da n&atilde;o neutralidade da Ci&ecirc;ncia, por refer&ecirc;ncia a autores como Sandra Harding, Pierre Bourdieu, Ana Altamirano e Edward Soja, assume que &laquo;produzimos conhecimento situado&raquo;, nesse sentido, num quadro de injusti&ccedil;a, &laquo;o pensamento de Paulo Freire, tem sido silenciado&raquo; (Altamirano, 2016 cit. in Silva 2017, 18). Entendo, pois, com Stern, que o espa&ccedil;o e o tempo em que se constr&oacute;i o conhecimento n&atilde;o &eacute; isento de for&ccedil;as e inten&ccedil;&otilde;es vis&iacute;veis e/ou latentes. </p>     <p>Interpelada por um texto introdut&oacute;rio recheado de praxis, segui para uma primeira parte repleta de releituras e escritas que n&atilde;o silenciam a tens&atilde;o entre os pensamentos feministas e freireano, como <i>formas de vitalidade</i>, que espelham <i>espa&ccedil;os</i> e <i>tempos </i>particulares com <i>for&ccedil;as</i> e <i>inten&ccedil;&otilde;es </i>que corporizam &laquo;tradi&ccedil;&otilde;es emancipat&oacute;rias da voz&raquo; (Arnot, 2007 cit. in Macedo 2017, 47). N&atilde;o s&oacute; n&atilde;o a silenciam como parecem procurar de forma rizom&aacute;tica, portanto numa <i>din&acirc;mica </i>de horizontalidade, redescobrir sentidos em Freire plenos de atualidade.</p>     <p> Nas palavras destas autoras feministas que leram, reescreveram e recriaram, a partir da sua pr&oacute;pria voz, descubro formas <i>outras </i>de experi&ecirc;ncia, afirma&ccedil;&atilde;o e interpreta&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria, leituras e expectativas de mundo em <i>movimento</i>. Identifico uma arqueologia do pensamento feminista, na sua pluralidade de vozes, &laquo;num vaiv&eacute;m entre reconhecimento e rep&uacute;dio&raquo; (Macedo 2017, 23) pelo trabalho de Freire. D&atilde;o particular conta disto, os textos de Macedo e de Moreira e Brabo pela explicita&ccedil;&atilde;o dos di&aacute;logos entre Freire e feministas do seu <i>tempo</i>. Tendo em conta cr&iacute;ticas pelo uso de linguagem sexista na Pedagogia do Oprimido, torna-se clara a mudan&ccedil;a discursiva de Freire na introdu&ccedil;&atilde;o, a partir da Pedagogia da Esperan&ccedil;a, duma linguagem <i>amiga de g&eacute;nero</i>. As &laquo;rela&ccedil;&otilde;es entre a linguagem e as quest&otilde;es da invisibilidade e opress&atilde;o das mulheres&raquo; (Moreira e Brabo 2017, 59) s&atilde;o apresentadas pelas autoras, quer como cr&iacute;tica a Freire quer como sinal de converg&ecirc;ncia entre <i>tradi&ccedil;&otilde;es emancipat&oacute;rias</i>, que se reconhece no contributo deste para desocultar a rela&ccedil;&atilde;o entre linguagem e poder. A linguagem &eacute; discutida por Moreira e Brabo, &agrave; luz de Freire, como constitutiva das e dos sujeitos e duma transforma&ccedil;&atilde;o social humanizante, que requer envolvimento das pessoas nos <i>movimentos </i>feministas independentemente do g&eacute;nero.</p>     <p> Ainda nesta parte encontro pontes entre textos que parecem revelar um movimento intencional de busca de sentidos na organiza&ccedil;&atilde;o do livro, apesar de ser uma colet&acirc;nea. Exemplo disso &eacute; o argumento, iniciado por Macedo, que complexifica o conceito de <i>voz</i>, na sua <i>diversidade </i>e <i>heterogeneidade</i>, constituindo a voz uma din&acirc;mica entre cultura, linguagem, modos de fazer e saberes experienciais. Estas dimens&otilde;es de voz permitem explorar o texto de Ribeiro, Mariano e Ferro desconstruindo a hegemonia de vozes na educa&ccedil;&atilde;o que a instrumentalizam como controlo ideol&oacute;gico para a manuten&ccedil;&atilde;o do poder e de privil&eacute;gios dos grupos dominantes. Argumentam, assim, que os movimentos sociais representam um espa&ccedil;o formativo f&eacute;rtil para a educa&ccedil;&atilde;o emancipat&oacute;ria. </p>     <p>Se na primeira parte a experi&ecirc;ncia do vivido surge, num dos textos, a partir do Brasil, a segunda parte d&aacute; <i>espa&ccedil;o </i>a diferentes movimentos, ecos e tempos numa narrativa reflexiva e epist&eacute;mica, que reconhece experi&ecirc;ncia e teoria como elementos de aprendizagem, partindo de pr&aacute;ticas em Portugal, M&eacute;xico e Espanha. Num di&aacute;logo praxiol&oacute;gico, no contexto socioeducativo portugu&ecirc;s, Laura Fonseca, convoca a sua biografia para &laquo;vaguear&raquo; entre experi&ecirc;ncia e teoria, como fonte de conhecimento e aprendizagem, fazendo a proposta de uma periodiza&ccedil;&atilde;o de &laquo;mudan&ccedil;as, debates e vagas educacionais&raquo; (Fonseca 2017, 113). Evidencia-se a conscientiza&ccedil;&atilde;o &laquo;como estrat&eacute;gia pol&iacute;tica de educa&ccedil;&atilde;o cultural localmente situada&raquo; (<i>ibidem</i>), numa din&acirc;mica que anuncia, a conscientiza&ccedil;&atilde;o no segundo texto, em que &laquo;o corpo atesta a materialidade humana no mundo, tanto no tempo hist&oacute;rico como no espa&ccedil;o geogr&aacute;fico &raquo; (Silva, Jaeger e Oliveira 2017, 137). As autoras, enunciando elementos das <i>formas de vitalidade </i>de Stern (2010), assumem a ousadia dos corpos das mulheres &laquo;como lugar de resist&ecirc;ncia e transposi&ccedil;&atilde;o de fronteiras&raquo; no desporto. Cruzando pensamentos feministas e freiriano, denunciam-se desigualdades e anuncia-se o protagonismo das mulheres no reescrever da cultura desportiva.</p>     <p>O evento conscientizador &eacute; convocado tamb&eacute;m por Julia Ch&aacute;vez Carapia que problematiza c&iacute;rculos de cultura com mulheres no M&eacute;xico, evidenciando como a Pedagogia do Oprimido prop&otilde;e categorias de an&aacute;lise – domestica&ccedil;&atilde;o, domina&ccedil;&atilde;o, objeto/sujeito – que ao adquirirem novas interpreta&ccedil;&otilde;es, enriquecem a perspetiva de g&eacute;nero e os feminismos. Podemos identificar a passagem da domina&ccedil;&atilde;o ao empoderamento tamb&eacute;m num estudo f&iacute;lmico, proposto por Mar&iacute;a Jos&eacute; Chisvert-Tarazona e Pilar Cambronero-Garc&iacute;a, que argumenta em favor de uma educa&ccedil;&atilde;o popular feminista que priorize reflex&atilde;o, di&aacute;logo e a&ccedil;&atilde;o. </p>     <p>Na terceira parte relaciona-se a pedagogia da sexualidade centrada na pedagogia da pergunta, &agrave; maneira freiriana, com possibilidades de empoderamento das mulheres face a situa&ccedil;&otilde;es-limite de opress&atilde;o que s&atilde;o discutidas nos textos que encerram a obra. Gabriela Ramos parte da preocupa&ccedil;&atilde;o com a governa&ccedil;&atilde;o dos corpos genderizados na escola para argumentar em favor de uma pedagogia libert&aacute;ria que permita uma participa&ccedil;&atilde;o cidad&atilde; que reconfigure o enquadramento legar argentino que apresenta. Assim, como outras autoras deste livro, faz recurso &agrave; Pedagogia da Esperan&ccedil;a para uma pedagogia da sexualidade centrada na voz das e dos educandos e na responsabilidade &eacute;tica, pol&iacute;tica e profissional das e dos educadores, como anuncia Freire. Na mesma linha Nilma Renildes discute a tens&atilde;o oprimida-opressora, alegando com Freire, que o sonho das mulheres n&atilde;o deve assentar nesta invers&atilde;o de pap&eacute;is, apesar do crescendo de viol&ecirc;ncia contra as mulheres no Brasil. Monica Riutort e Sandra Rupnarain refletem nas pr&aacute;ticas de um servi&ccedil;o de apoio a mulheres v&iacute;timas de viol&ecirc;ncia assumindo a atualidade da praxis freiriana para sustentar a abordagem ao trabalho com estas &laquo;sobreviventes &raquo;, num quadro de equidade e justi&ccedil;a social. </p>     <p>Finalizo este <i>movimento </i>de releitura e reescrita certa de que n&atilde;o recriei a riqueza de pontos de partida, de vista, de fuga e de contrapontos e a <i>for&ccedil;a</i> e <i>inten&ccedil;&atilde;o</i> que ecoam nas palavras das mulheres que assumem a autoria desta obra. Retomo Freire, pois se escrever </p>     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&eacute; t&atilde;o re-criar, t&atilde;o re-dizer o antes dizendo-se no tempo de nossa a&ccedil;&atilde;o quanto ler seriamente exige de quem o faz, repensar o pensado, re-escrever o escrito e ler tamb&eacute;m o que antes de ter virado o escrito do autor ou da autora foi uma certa leitura sua. (Freire 1994) </p> </blockquote>     <p>A narrativa libertadora constru&iacute;da no di&aacute;logo praxiol&oacute;gico entre feminismos e Freire convida-nos a ecoar uma multiplicidade de di&aacute;logos potenciais, j&aacute; que &laquo;dialogar torna-se absolutamente essencial para mover as coisas para diante, (&hellip;) avan&ccedil;ar &eacute; mudar para um espa&ccedil;o onde se ou&ccedil;a a nossa pr&oacute;pria autenticidade&raquo; (Stern 2010, 88-89). A intersubjetividade acontece no ato da leitura e da reescrita de textos e do mundo. Constitui a for&ccedil;a com intencionalidade necess&aacute;ria ao movimento na diversidade em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; justi&ccedil;a social.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p> Freire, Paulo.1994. Pedagogia da Esperan&ccedil;a. Rio de Janeiro: Paz e Terra Stern,    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=260521&pid=S0874-5560201900020001200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --> Daniel. 2010. &laquo;The issue of vitality&raquo;. Nordic Journal of Music Theraphy 19 (2): 88-102. DOI:<a href="http://dx.doi.org/10.1080/08098131.2010.497634" target="_blank">10.1080/08098131.2010.497634</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=260522&pid=S0874-5560201900020001200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Notas</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="1" id="1"></a><a href="#top1">1</a> &laquo;S&atilde;o eventos que se desdobram com o tempo, que t&ecirc;m uma for&ccedil;a aparentemente dentro deles ou por tr&aacute;s deles, que est&atilde;o a ir para algum lugar – esses eventos, e que parecem ser movidos por algum objetivo. O importante &eacute; que o evento parece consistir nalgum tipo de movimento, e leva tempo, e tamb&eacute;m ocorre em algum tipo de espa&ccedil;o, mesmo que seja espa&ccedil;o mental.&raquo; (Stern 2010, 88). Constituem-se, assim, por cinco elementos: movimento, for&ccedil;a, espa&ccedil;o, inten&ccedil;&atilde;o e tempo.</p>      ]]></body><back>
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