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<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Re-writing Women as Victims: From Theory to Practice, edited by María José Gámez Fuentes, Sonia Núñez Puente, & Emma Gómez Nicolau. London: Routledge, 2019, 230 pp]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RECENS&Otilde;ES</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Re-writing Women as Victims: From Theory to Practice, edited by Mar&iacute;a Jos&eacute; G&aacute;mez Fuentes, Sonia N&uacute;&ntilde;ez Puente, &amp; Emma G&oacute;mez Nicolau. London: Routledge, 2019, 230 pp.</b></p>     <p><b> Eliz&acirc;ngela Costa de Carvalho Noronha</b></p>     <p> Universidade de Coimbra, Doutoranda em Ci&ecirc;ncias da Comunica&ccedil;&atilde;o na Faculdade de Letras </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Reescrever as mulheres como v&iacute;timas &eacute; uma tarefa feminista exigente – requer uma reflex&atilde;o te&oacute;rica que v&aacute; al&eacute;m das conceitualiza&ccedil;&otilde;es hegem&ocirc;nicas e imp&otilde;e a reavalia&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica das pol&iacute;ticas e das a&ccedil;&otilde;es de enfrentamento &agrave;s viol&ecirc;ncias contra as mulheres. &Eacute; neste desafio te&oacute;rico e epistemol&oacute;gico que o volume organizado por Mar&iacute;a Jos&eacute; G&aacute;mez Fuentes, Sonia N&uacute;&ntilde;ez Puente e Emma G&oacute;mez Nicolau nos conduz ao longo de 16 cap&iacute;tulos, nos quais 23 autoras reescrevem hist&oacute;rias de mulheres v&iacute;timas de diferentes tipos de viol&ecirc;ncia em mais de dez pa&iacute;ses pelo mundo.</p>     <p> No texto de apresenta&ccedil;&atilde;o, as organizadoras demarcam o percurso proposto para o livro: perceber &laquo;como, atrav&eacute;s de pr&aacute;ticas di&aacute;rias e ativistas, &eacute; poss&iacute;vel agir para resistir ao poder, apesar das sujei&ccedil;&otilde;es estruturais&raquo;<sup><a name="top1" id="top1"></a><a href="#1">1</a></sup> (p. 2), ou seja, trata-se de investigar manifesta&ccedil;&otilde;es nas quais a vulnerabilidade &eacute; mobilizada e reconfigurada como forma de resist&ecirc;ncia e exist&ecirc;ncia para/por mulheres v&iacute;timas de viol&ecirc;ncia. </p>     <p>Este posicionamento epistemol&oacute;gico adv&eacute;m do redirecionamento da reflex&atilde;o sobre a vitimiza&ccedil;&atilde;o. Situa-se nesta linha, a fil&oacute;sofa Judith Butler referenciada em diferentes momentos na publica&ccedil;&atilde;o, e que prop&otilde;e repensar vulnerabilidade e resist&ecirc;ncia como alternativa ao bin&aacute;rio vitimiza&ccedil;&atilde;o/ag&ecirc;ncia. No texto de Butler, a discuss&atilde;o te&oacute;rica mostra como estas diferentes no&ccedil;&otilde;es est&atilde;o imbricadas na a&ccedil;&atilde;o da v&iacute;tima e da agente. Em <i>Re-Writing women as victims: from theory to practice, </i>este olhar acurado e plural ganha materialidade ao ser mobilizado de diferentes maneiras para observar os contextos analisados. Al&eacute;m disso, esta perspectiva &eacute; ampliada e recontextualizada nos cap&iacute;tulos a partir dos diferentes di&aacute;logos propostos por suas autoras.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Para apresentar a diversas abordagens ao tema, os textos foram organizados em tr&ecirc;s se&ccedil;&otilde;es: Pol&iacute;ticas; Ativismo; Narrativas Culturais. Na sec&ccedil;&atilde;o dedicada &agrave; discuss&atilde;o de pol&iacute;ticas, o cap&iacute;tulo de abertura, assinado pelas pesquisadoras Cristina Pe&ntilde;amar&iacute;n e Diana Fern&aacute;ndez Romero, mostra como o testemunho de experi&ecirc;ncias em espa&ccedil;os de escuta e partilha contribuem para a reconstru&ccedil;&atilde;o das subjetividades das v&iacute;timas de abusos sexistas em Espanha. Este trabalho, composto pela an&aacute;lise de 26 entrevistas biogr&aacute;ficas, evidencia como a reciprocidade e o reconhecimento de viv&ecirc;ncias entre essas mulheres potencializa a transforma&ccedil;&atilde;o de v&iacute;timas em sobreviventes.</p>     <p> Destacamos, de seguida, algumas investiga&ccedil;&otilde;es que produzem, do nosso ponto de vista, &laquo;reescritas&raquo;, como se prop&otilde;e no t&iacute;tulo da obra, exemplares. Assim, Emma Dolan discorre sobre o processo de negocia&ccedil;&atilde;o em torno do pedido de desculpas do Jap&atilde;o &agrave; Cor&eacute;ia do Sul por conta das &laquo;comfort women&raquo;. Esta denomina&ccedil;&atilde;o foi dada &agrave;s mulheres capturadas e exploradas sexualmente em bord&eacute;is constru&iacute;dos para usufruto do ex&eacute;rcito japon&ecirc;s antes e durante a Segunda Guerra Mundial. A autora retoma este fato hist&oacute;rico para discutir como o acordo assinado em 2015 n&atilde;o ouviu as v&iacute;timas e transformou a quest&atilde;o em uma viola&ccedil;&atilde;o &agrave; Cor&eacute;ia do Sul enquanto Estado-na&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m disso, destaca o fato de o acordo representar uma &laquo;sele&ccedil;&atilde;o&raquo; entre as v&iacute;timas consideradas merecedoras de desculpas e repara&ccedil;&atilde;o, em detrimento de milhares de mulheres de outras nacionalidades tamb&eacute;m exploradas naquele per&iacute;odo.</p>     <p> Louis Tozer traz a viol&ecirc;ncia sexual por outro vi&eacute;s, discorrendo sobre a constru&ccedil;&atilde;o da v&iacute;tima de viola&ccedil;&atilde;o na B&oacute;snia-Herzegovina. Neste trabalho, al&eacute;m de observar a sujei&ccedil;&atilde;o de mulheres mu&ccedil;ulmanas diante de uma pol&iacute;tica de guerra sexualizada, a autora analisa como os media internacionais estigmatizaram as mulheres como v&iacute;timas e as mu&ccedil;ulmanas como violadas. Anne-Marie Veillette e Priscyll Anctil Avoine abordam as estrat&eacute;gias de resist&ecirc;ncia adotadas por moradoras de favelas brasileiras e mulheres ex-combatentes na Colombia. Em ambos os contextos, apesar de suas particularidades, as mulheres est&atilde;o sob forte opress&atilde;o, marginaliza&ccedil;&atilde;o e viol&ecirc;ncia policial e estatal. No entanto, os trabalhos de campo realizados nos dois pa&iacute;ses mostram como as mulheres desafiam essas estruturas para sobreviverem, numa express&atilde;o de coragem e a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. </p>     <p>A import&acirc;ncia da independ&ecirc;ncia econ&ocirc;mica no processo de supera&ccedil;&atilde;o das desigualdades de g&ecirc;nero &eacute; o tema central do cap&iacute;tulo 6, que versa sobre o acesso aos bens materiais e &agrave; posse como fator crucial para a emancipa&ccedil;&atilde;o das mulheres. No Camboja, contexto analisado por Olga Jurasz e Natalia Szablewska, expuls&otilde;es for&ccedil;adas e as leis que limitam a propriedade das mulheres s&atilde;o apontadas como fatores de obstru&ccedil;&atilde;o &agrave; plena realiza&ccedil;&atilde;o dos direitos socioecon&ocirc;micos delas. No entanto, apesar destes obst&aacute;culos estruturais e culturais, as cambojanas s&atilde;o propriet&aacute;rias de 65% das empresas privadas no pa&iacute;s. </p>     <p>O cap&iacute;tulo 7 marca o in&iacute;cio da se&ccedil;&atilde;o Ativismo com a hist&oacute;ria n&atilde;o contada das mulheres quenianas que atuaram em diferentes frentes na luta pela liberdade do seu pa&iacute;s. Com este resgate, Wanjiku Mukabi Kabira e Lanoi Maloy, recuperam hist&oacute;rias de mulheres militantes pela liberdade e afastam a percep&ccedil;&atilde;o hegem&ocirc;nica e estereotipada sobre as mulheres africanas, reposicionando-as como ag&ecirc;nticas e autodeterminadas. Seguindo essa perspectiva, os cap&iacute;tulos seguintes mostram, em diferentes contextos, como a resist&ecirc;ncia &agrave; vitimiza&ccedil;&atilde;o passa pela capacidade de perceber a vulnerabilidade como ingrediente necess&aacute;rio &agrave; a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. Na esteira desta percep&ccedil;&atilde;o, Maria Martinez mostra como a participa&ccedil;&atilde;o de mulheres v&iacute;timas no ativismo traz as vozes dessas sobreviventes para a defini&ccedil;&atilde;o de programas e de pol&iacute;ticas de apoio e de prote&ccedil;&atilde;o &agrave;s mulheres em Espanha. </p>     <p>Pelo seu lado, Virginia Villaplana Ruiz aborda o ativismo feminista transnacional atrav&eacute;s dos movimentos #NiUnaMenos e #VivasNosQueremos a partir da ocupa&ccedil;&atilde;o de novos espa&ccedil;os p&uacute;blicos. Este ativismo transnacional abre novos horizontes colaborativos atrav&eacute;s da apropria&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o digital e, como define a autora, desafia os atuais sistemas de representa&ccedil;&atilde;o, hegemonia cultural e justi&ccedil;a social. Fen&ocirc;meno semelhante ocorre com a dissemina&ccedil;&atilde;o da Marcha das Vadias (SlutWalks), vista como pr&aacute;tica de subvers&atilde;o para &laquo;estuprar a l&oacute;gica&raquo;, nas palavras da autora do cap&iacute;tulo 10, Jessie A. Bustillos Morales. Neste trabalho, a investigadora destaca a oportunidade de reescrever as mulheres al&eacute;m do seu papel de v&iacute;timas atrav&eacute;s deste movimento ativista replicado pelo mundo. </p>     <p>A n&atilde;o-submiss&atilde;o &agrave; vitimiza&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m est&aacute; marcada no 11&ordm; cap&iacute;tulo do livro, assinado por Rahat Imran. Este trabalho aborda o caso da ativista paquistanesa Mukhtaran Mai, reconhecida internacionalmente em sua luta por justi&ccedil;a ap&oacute;s ser v&iacute;tima de estupro coletivo cometido como &laquo;repara&ccedil;&atilde;o&raquo; de honra entre tribos. Seu ato &eacute; considerado uma transgress&atilde;o &agrave;s no&ccedil;&otilde;es de honra tribal, g&ecirc;nero e classe ainda fincadas na cultura do Paquist&atilde;o e que determinam os corpos das mulheres como &laquo;local em que a moralidade &eacute; constru&iacute;da ou rebaixada e a honra masculina sustentada ou degradada&raquo; (p. 141). </p>     <p>Na 3&ordf; parte do livro, denominada Narrativas Culturais pelas organizadoras, os cap&iacute;tulos est&atilde;o dedicados &agrave; investiga&ccedil;&atilde;o das disputas narrativas e suas consequ&ecirc;ncias nas subjetividades das mulheres. Para iniciar este debate, as autoras Laura Favaro e Rosalind Gill analisam a imposi&ccedil;&atilde;o de &laquo;atitude mental positiva&raquo; em revistas femininas e suas liga&ccedil;&otilde;es &agrave; ag&ecirc;ncia pol&iacute;tica das mulheres. Em suas reflex&otilde;es, Favaro e Gill esclarecem que em sociedades neoliberais os indiv&iacute;duos s&atilde;o interpelados a agirem a partir de uma psicologia positiva, na qual a positividade &eacute; compuls&oacute;ria e expressa pela dissemina&ccedil;&atilde;o de valores como a resili&ecirc;ncia. Neste contexto, portanto, h&aacute; o rep&uacute;dio veemente &agrave;s mulheres como v&iacute;timas. Afinal, na cultura p&oacute;s-feminista a ag&ecirc;ncia pol&iacute;tica &eacute; consequ&ecirc;ncia do empreendimento individual em busca da felicidade. </p>     <p>Em di&aacute;logo com esta percep&ccedil;&atilde;o, Sarah Banet-Weiser afirma que &laquo;nem a vitimiza&ccedil;&atilde;o nem a ag&ecirc;ncia devem ser glorificadas, entendidas como est&aacute;ticas, vistas isoladamente ou percebidas como uma quest&atilde;o individual ou pessoal, pois a subordina&ccedil;&atilde;o de g&ecirc;nero deve ser entendida como um problema sist&ecirc;mico e coletivo em que as mulheres experimentam opress&atilde;o e resist&ecirc;ncia&raquo; (p. 170). Para Banet-Weiser, v&iacute;tima e agente s&atilde;o posi&ccedil;&otilde;es de sujeito profundamente inter-relacionadas. </p>     <p>Sue Kossew discorre sobre este tema a partir da an&aacute;lise do texto liter&aacute;rio da escritora australiana Zo&euml; Morrison. Em seu trabalho, a autora defende que a identifica&ccedil;&atilde;o de mulheres como v&iacute;timas n&atilde;o representa a completa desativa&ccedil;&atilde;o de sua ag&ecirc;ncia pol&iacute;tica, como &eacute; verificado na hist&oacute;ria da personagem Alice Murray, v&iacute;tima/sobrevivente de viol&ecirc;ncias e misoginia durante sua trajet&oacute;ria. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>J&aacute; Elena de Sacco observa as formula&ccedil;&otilde;es da identidade da v&iacute;tima/sobrevivente nos media contempor&acirc;neos do Reino Unido ao analisar o discurso de sobrevivente em dois casos de estupro. No primeiro, uma mulher v&iacute;tima de viola&ccedil;&atilde;o aceita ficar frente a frente com seu agressor para perdo&aacute;-lo como parte de um programa de justi&ccedil;a restaurativa. No outro caso, uma v&iacute;tima de abusos durante a inf&acirc;ncia morre por suic&iacute;dio, d&eacute;cadas depois dos abusos, ap&oacute;s ser interrogada pelo advogado de defesa de seus agressores. O 16&ordm; cap&iacute;tulo encerra este amplo debate com a discuss&atilde;o da representa&ccedil;&atilde;o e resist&ecirc;ncia das v&iacute;timas de estupro na &Iacute;ndia. Nesta abordagem, Nandana Dutta chama a aten&ccedil;&atilde;o para a solid&atilde;o das mulheres v&iacute;timas de estupro, durante e ap&oacute;s o ato de viol&ecirc;ncia, e para a vergonha que lhes &eacute; imposta. </p>     <p>Este rico conjunto de investiga&ccedil;&otilde;es mostra que vulnerabilidade e resist&ecirc;ncia n&atilde;o s&atilde;o entidades discretas e, portanto, s&atilde;o experimentadas de formas diferentes pelas mulheres. Por isso mesmo, exige lentes alternativas &agrave;s narrativas hegem&ocirc;nicas, possibilitando ver as mulheres v&iacute;timas para al&eacute;m da vulnerabilidade.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Notas</b></p>     <p><a name="1" id="1"></a><a href="#top1">1</a> Em tradu&ccedil;&atilde;o livre, assim como as demais cita&ccedil;&otilde;es.</p>      ]]></body>
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